terça-feira, dezembro 20, 2005

A igreja de Martos

Na extensa província da Andaluzia Espanhola, existe uma pequena cidade perto de Jáen chamada Martos. Com pouco mais de 20 mil habitantes, esta povoação não é conhecida por nada de especial. Normalmente, existem monumentos, especialidades gastronómicas, incluindo os vinhos e a doçaria, que fazem a fama de uma terra, ou de uma região. Outras vezes, são a origem de um escritor, um artista plástico, ou um compositor. Mas, Martos não é o caso. A referência da pequena cidade Andaluza surge no livro autobiográfico “Patagonia Express”, do escritor chileno Luís Sepúlveda, conhecido pela facilidade de leitura dos seus livros.
Em Martos reencontra o chileno as suas origens. Dali tinha saído o seu avô para o Chile. O exílio forçado de um anarquista, de ideias libertárias, que guardava de Espanha a má memória da derrota na guerra civil, a perseguição e a prisão. Um avô dos que incluem na suas tarefas a leitura do grande livro de Cervantes aos seus netos. O de Sepúlveda incentivou na infância do neto, um outro ritual. Aos Domingos oferecia-lhe todas as bebidas que normalmente os pais não deixam beber. O rapaz ficava felicíssimo e de bexiga cheia. No regresso a casa, com o miúdo aflito, o alívio surgia invariavelmente na porta de uma igreja, das que existem em Santiago de Chile.
Os anarquistas sempre tiveram dificuldade em lidar com a ordem, tanto da Igreja, como do Estado. Comportamentos como o do rapaz, eram usuais contra as mais variadas paredes, em especial, as da esquadra da polícia. No final do passeio da Rua do Visconde, em noites secas e de luar permanentemente visível, a parede da antiga esquadra da PSP frequentemente aparecia molhada... Ali perto, a Igreja Matriz permanecia seca e altaneira.
As Igrejas, sem entrar em considerações religiosas, são importantes monumentos da história. Testemunhos de várias épocas. Por vezes singelas, outras vezes faustosas. Da simples capela ao enorme mosteiro ou catedral, por toda a Europa vemos edificados monumentos que são ex-libris das mais variadas cidades. Em S. João da Madeira, a construção de uma nova Igreja é uma ideia antiga na paróquia. O Rev. Padre tem-na defendido e procurado encontrar várias soluções, tendo inclusivamente convidado um prestigiado arquitecto para fazer um estudo sobre a nova Igreja, pretendendo assim um local de culto que fique conhecido pelas melhores razões arquitectónicas. Efectivamente, S. João da Madeira precisa de uma Igreja para o mundo. À semelhança do que aconteceu com a igreja de Marco de Canaveses, projectada pelo Arquitecto Siza Vieira.
Parece-me, que a localização escolhida não é a melhor. A minha discórdia surge apenas de uma opinião pessoal que assenta no direito e no dever do exercício de cidadania. No “caos urbanístico”, como em tempos foi referida a cidade, o melhor é aproveitar os espaços existentes, enriquecendo-os com equipamentos modernos e procurar, com tranquilidade, harmonizar os outros, sem grandes revoluções. Construir a nova igreja perto da actual Matriz, é retirar a esta a importância que ele teve. Além disso, o centro já está sobrecarregado com várias construções.
Para contrariar esta tendência, a melhor opção seria construir a nova igreja numa zona com menor índice de construção. Para mim, a melhor localização é a Praça Barbazieux, no largo em frente ao cemitério n.º 3, que em tempos albergou o Mercado por Grosso e agora serve de pseudo Parque Radical. O espaço é amplo e a envolvente paisagística é um dos locais mais aprazíveis de S. João da Madeira, o que daria ao arquitecto a possibilidade de melhor projectar a futura igreja.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Era uma vez uma piscina

Naquela cidade havia várias escolas primárias, todas elas muito bonitas. A do Francisco era bestial. Tinha um bosque bem verde à volta, repleto de árvores centenárias. As salas de aula eram grandes e ajudavam a alargar os horizontes dos meninos. O Francisco adorava aprender e todas as actividades eram ao seu gosto. Brincar no recreio com os seus colegas era o grande momento do dia. O recreio tinha um pequeno campo de futebol, o que dava para correr atrás da bola e meter golos nas balizas.
No regresso à Escola para mais um ano de aulas, uma má notícia era dada: as aulas de Natação não podiam funcionar como no ano anterior. Da grande cidade, a capital, uns senhores diziam que era perigoso haver actividades fora da escola, durante o horário das aulas. Essas actividades deviam ser organizadas depois do horário da escola sob a responsabilidade do ATL.
Os pais das crianças daquela escola tentaram essa solução, mas não conseguiram pessoas para os acompanhar à piscina, que ficava longe e obrigava a ir de autocarro, o que até seria divertido. O Francisco ficou muito triste. A natação era talvez a sua actividade preferida. Divertia-se muito a brincar com os seus colegas na água e, além disso, tinha-lhe sido receitada pelo médico, para favorecer o seu desenvolvimento. Como havia natação pela Escola, os pais do Francisco tinham optado por aquela solução. Agora esgotadas todas as hipóteses, pois a Escola de Natação não tinha horários disponíveis para a idade do Francisco, o seu pai ia com ele aos fins de semana à Piscina e juntos brincavam e nadavam na água. Enfim, não era a mesma coisa, mas o Francisco percebeu o esforço dos pais.
Uma noite, estava em sua casa para jantar o tio Miguel, irmão do pai. A certa altura, o seu tio começou a falar num tom irritado como era costume, protestando com todos, ao que o pai do Francisco lhe pedira para voltar à razão. Naquela noite o tio falava, entre outras coisas, de uma piscina nas traseiras da Escola do sobrinho fechada há muito tempo, o Francisco não pode deixar de ouvir. O discurso foi outra vez interrompido pelo pai. No dia seguinte, quando chegou à Escola, contou aos seus amigos o que o tio tinha dito. Ele, o Tiago e a Ana, amigos inseparáveis, pensaram logo num plano para fazerem uma exploração às traseiras da Escola. Numa tarde no recreio, ficaram a brincar por detrás de uma das balizas. Ali ao lado estava uma pequena escada e, chegando lá, era só subir e depois correr sem que ninguém os visse até ao grande armazém branco. Conseguiram. As auxiliares estavam distraídas e lá para trás nunca ninguém ia. O grande armazém tinha três portões mas todos estavam fechados. Empurraram um atrás do outro, até que o último cedeu. Afinal estava mal fechado, apenas encostado. O Francisco entrou primeiro, ninguém ficou a vigiar. Tinha um pequeno corredor e à esquerda uma outra porta. Entraram e encontraram um pequeno balneário. À direita outra passagem, prosseguiram. Uns chuveiros apareciam-lhes diante dos olhos. Uma grande porta... Ali permanecia uma piscina!! Sem água e mais parecida com um tanque, é certo, mas era uma Piscina. Perfeita para o seu tamanho! Com medo de que alguém desse pela sua falta, voltaram para o recreio. À saída fecharam a porta e repararam num pequeno lago em forma rectangular, com água da chuva mas, sem peixes, também ele abandonado ao tempo.
Francisco queria recordar o resto da conversa do tio, mas não conseguia. À noite, ao jantar, perguntou ao pai pela piscina da escola dele. O pai percebendo que algo de novo tinha acontecido, perguntou-lhe o que é que se tinha passado para que fizesse aquela pergunta. Como tinha sido educado para assumir os seus actos, Francisco contou a sua exploração. O pai explicou-lhe que aquela piscina, já não era precisa, pois havia a grande e era suficiente para todos os habitantes da cidade. O melhor era esquecer o assunto. Francisco não percebeu, mas aceitou a ideia para não contrariar o pai.
Na escola dele havia uma piscina e ele e os seus colegas não podiam ir lá nadar, pois na cidade havia uma melhor. Só que por causa de uns senhores da grande cidade, eles tinham ficado sem aulas de natação...?
Passados alguns dias, Francisco ganhou coragem e falou com o seu tio sobre a Piscina. Os seus pais não estavam por perto o que facilitou bastante a conversa. O tio perguntou-lhe: “E queres tu nadar nela?”, os olhos de Francisco brilhavam. Para o tio ajudar alguém era a essência da vida, fazia-o de forma desinteressada e falava sempre de uma palavra: fraternidade. O Francisco já tinha perguntado à mãe o queria dizer e ela tinha-lhe ensinado que era sermos amigos de todos como se fossem irmãos. Quando se enervava e falava alto o tio Miguel dizia sempre “Aburguesaram-se e esqueceram-se do sentido da fraternidade”. Quando o Francisco disse que sim, o tio disse: “Finalmente, acção!”. Combinaram um plano que ia durar dias até ficar pronto e no final o mais velho rematou: “Pelo menos os da tua escola vão nadar”. Nesse momento o pai entrou na sala e os dois conspiradores tiveram que calar-se.
Os dias foram passando e nada aconteceu. Um dia, o Francisco recebeu um telefonema. Era o tio Miguel. “Para a semana fazemos história”, disse. Era o sinal pelo qual esperava Francisco ansiosamente. No dia combinado, as crianças das Escolas Primárias não foram ao ATL. Levaram declarações dos pais, uns dias antes e fizeram aquilo muito bem feito, que ninguém reparou que todas elas tinham o mesmo pedido, para a mesma data, à mesma hora. Assim, os ATL ficaram vazios e cá fora umas carrinhas com senhores de aspecto divertido ao volante, transportaram os meninos todos para o largo da Câmara. Um dos condutores tinha uma barba branca e longa, ao que um dos meninos dizia ser o Pai Natal, mesmo sem o fato vermelho. Rapidamente chegaram ao destino, pois a cidade não era muito grande. Os das Escolas mais perto foram a pé, quase correndo, atravessando ordeiramente as passadeiras. Os mais velhos olhando pelos mais novos. Em 15 minutos, estava o largo cheio de meninos e meninas das Escolas Primárias. Até os felizardos que continuavam a ter aulas de Natação estavam lá. O tio do Francisco tinha-lhe dito “convence todos, ou todos ou nenhum”.
Os condutores tiraram das carrinhas umas faixas enormes que diziam: “QUEREMOS AULAS DE NATAÇÃO”, “A NOSSA ESCOLA TEM UMA PISCINA FECHADA, PORQUÊ?”, “PARA QUÊ UMA PISCINA NOVA, SE NÃO PODEMOS TER AULAS?”, “DESPORTO PARA TODOS!?”. Quem passava na rua pensou tratar-se de mais uma actividade escolar para encher o Jardim. No entanto, quando os megafones chegaram às mãos dos miúdos, os gritos produzidos com as palavras escritas nos cartazes soaram pela cidade. Francisco via do outro lado da rua o tio e os seus amigos, a parar o trânsito, dizendo “venham ver as nossas crianças”, ”ouçam o que elas têm para dizer”, “ajudem estas crianças, são as nossas crianças”. Rapidamente as ruas pararam, os curiosos aproximavam-se. A força do grito dos meninos era tão grande, que o Presidente do Município ouviu. Estava no último piso do edifício e sem se aperceber do que estava a passar, questionou os seus colaboradores sobre qual o motivo dos festejos das crianças. Ninguém ousou responder e o presidente percebeu que havia motivo para preocupação. Inteirou-se com a Segurança de quem fazia aquele barulho e quando percebeu que eram só crianças, não quis acreditar. Desceu para falar com eles e ficou surpreendido com o que via, estavam ali todos os meninos das escolas que ele conhecia, dos mais pequeninos aos mais velhos. Logo na frente o Francisco, atrás todos os meninos, por detrás uma multidão silenciosa.
O presidente vinha com má cara, atrás dele muitos crescidos. Francisco encolheu-se, olhou para trás, além dos meninos, que se calaram todos, e via o seu tio a incentivá-lo, fazendo-lhe sinal que tudo estava a correr bem. A voz do presidente parecia um trovão quando perguntou, “Quem é responsável por isto?” Francisco ficou pequeno mas de repente, sentiu-se crescer, pegou no megafone e respondeu: Sou Eu! Não se sabe se foi o eco, mas ouviu-se muito bem aquele som. Todos os meninos começaram a gritar o mesmo, “sou eu!”. A certa altura, mais confiantes gritaram, “Somos nós todos”. O presidente sorriu, fez sinal para os meninos pararem e disse, “Muito bem”. Perguntou “Então o vos traz por cá?” De pronto os vários gritos começaram de novo: “QUEREMOS AULAS DE NATAÇÃO”, “A NOSSA ESCOLA TEM UMA PISCINA, ESTÁ FECHADA PORQUÊ?”, “PARA QUÊ UMA PISCINA NOVA, SE NÃO PODEMOS TER AULAS” , “DESPORTO PARA TODOS?”. O presidente corou, voltou a sorrir e dirigindo-se ao Francisco disse-lhe “Já percebi!. Amanhã vou à vossa Escola ver essa Piscina. As escolas dos outros meninos também não vão ficar esquecidas, podem ficar com a minha palavra. Em breve todos vão ter aulas de Natação”. Quando acabou, uma voz vinda da multidão gritava “Uma salva de palmas para os miúdos”. Era o tio Miguel, que se repetiu mais de dez vezes. “Viva as crianças” , “Viva as crianças desta cidade”. A multidão começou a bater palmas, o presidente e os seus colaboradores também. O tio Miguel não se calava, parecendo o mais novo da multidão. Entre os seus vivas, gritava várias palavras sobre os políticos, e os mais pequenos não percebiam nada do que ele queria dizer. Entretanto, o presidente voltou para a Câmara e rapidamente as carrinhas se encheram de meninos e meninas de regresso à Escola.
Os pais vieram buscá-los, sem saber o que tinha acontecido. Chegados a casa, os telefones não paravam de tocar, outros pais, por outras vozes, contavam uns aos outros o que os filhos tinham feito. Os pais de Francisco olharam o filho e perceberam de quem tinha surgido a ideia. Nada lhe disseram. Ficaram à espera dos dias seguintes.
Na manhã seguinte, estavam os meninos a chegar às suas Escolas e ao mesmo tempo entravam a correr senhores de fato e gravata, para falarem com as respectivas directoras das Escolas. O presidente não queria que os alunos fossem repreendidos pelo que fizeram. Afinal, eles estavam a reclamar o que era um seu direito, por isso nem uma só palavra. Na Escola do Francisco um alvoroço. O recreio foi atravessado por dezenas de homens adultos. À frente deles, vinha o presidente. Vinha com má cara e barafustava com várias pessoas. Dirigiram-se para o armazém velho.
Seguiu-se um mês de obras no edifício. Fizeram-se novas paredes, puseram-se vidros e portas novas. Um dia a directora da escola entrou na sala e disse: “Bom dia! Têm uma visita muito importante. Levantem-se.” Era o presidente que entrava, vinha anunciar ele próprio a inauguração da Piscina daquela Escola. O Francisco sorriu e o brilho voltou-lhe aos olhos. A piscina serviria para a escola dele e para outras duas, que ficavam pertinho. O presidente explicou-lhes que as escolas mais perto da piscina municipal continuavam a ter aulas nessa piscina. Para as escolas mais distantes ia construir mais duas piscinas em outras duas Escolas e assim, permitir que todos os alunos das Escolas Primárias tivessem aulas de Natação, pois “não se podia andar para trás”... O Francisco, olhou para a Ana e para o Tiago e todos se riram. Todos bateram palmas, o que deixou o presidente feliz. Foi um belo dia de Escola.
E assim, no dia seguinte, no final das aulas, várias carrinhas se aproximaram da Escola do Francisco, traziam as crianças das outras Escolas. Todos queriam ver a piscina da escola do Francisco. Era linda, claro. Tinha uma água transparente e o azul do fundo tão visível, que apetecia tomar um valente banho. Os balneários eram muito acolhedores e havia um espaço junto à piscina que permitia fazer ginástica. As turmas das várias escolas entraram e saíram de forma organizada e no final o presidente ofereceu-lhes um grande lanche. Repetiu o que dissera na véspera sobre construir novas piscinas. Mas de repente a atenção de todos voltava-se para o barulho de várias pessoas a caminhar. O som provinha do bosque ao lado da Escola. Os alunos começaram a ver os seus pais a chegar ao recreio, ocupando o campo onde se jogava à bola. Ficaram calados até o campo se encher, não cabia mais ninguém. Uma voz gritou: “um, dois, três” e todos os pais responderam: “Obrigado Filhos!!!”