quarta-feira, julho 30, 2008

No Horizonte...

 

         Escrever um texto, para ser publicado a um dia do mês de Agosto, traz um grande embaraço.

            Nos últimos dias de Julho, para quem apenas pode usufruir do período de férias, uma vez por ano e em Agosto, pouco ou nada interessa.

            Os principais assuntos de conversa são as férias e qualquer assunto sério, por mais polémico que seja, não serve para despertar a concentração. Nesta fase do ano, em que alguns familiares, amigos e conhecidos estão de férias, todo o pensamento livre tem como objectivo planear as férias. Embora já delineadas, no tocante a marcações logísticas, existem sempre pormenores deixados para a última hora. Além do imprevisto, sinal da espontaneidade neste período do ano.

            Quando prepararei os textos para publicação durante este mês, verifiquei no calendário como seria difícil escrever estas linhas para o último artigo de Julho, pois o pensamento estaria obcecado com as férias.

            Fiquei a contar com o inesperado, com alguma inspiração momentânea e se nada disto surgisse, então preparava uma crónica sobre as férias. Só que nesta altura, o teclado já não recebe impulsos vindos cérebro.  

            Tentei uma alusão a vários tipos de férias. Pensava mencionar os hábitos apenas adquiridos nesta época, como a sesta. Lembrei-me do desespero das crianças, dos meus filhos, um mês à espera das férias do pai e os contratempos fabris a intrometerem-se no desejado tempo livre familiar. Contava expor um pouco a minha privacidade, referindo o volume de livros que projecto ler, divulgando títulos e pesando o número de páginas que terei de virar para terminar a empreitada…

            Constato que tudo isso seria penoso para mim e como tal aborrecido, para quem me lê.

            Para não transformar este artigo numa espécie de não crónica, ensaio uma recordação de férias.

            Uma referência aos festivais de música, que na década passada, significavam o fim do meu período de trabalho e a romagem para as imediações destes palcos, durante três dias. Com o concerto de hoje em Paredes de Coura, a irreverência dos Sex Pistols seria importante para reconquistar a energia dispendida ao longo do último ano. Mesmo trinta anos após o sucesso desta banda, quase vinte e cinco a ouvir as palavras de ordem gritadas por J. Rotten, ainda não será desta que terei oportunidade de assistir à encenação desta banda inglesa. O relativo interesse do concerto de hoje será verificar a capacidade de resistência ao tempo deste grupo. Um dos muitos que foi vítima de um fenómeno curioso da indústria discográfica, a rápida ascensão a ícones, por morte prematura, de jovens, membros de bandas emblemáticas dos novos géneros musicais

            Curiosamente, foi em férias que passei a prestar atenção a estes factos da música. Antes de se tornar viajante do mundo e figura mediática, Gonçalo Cadilhe cruzou-se comigo alguns anos, em tratamentos nas termas. A sua capacidade oratória destacava-se e era contagiante o seu apreço pelo fenómeno Jim Morrison. As peculiaridades deste figueirense, ainda me fizeram subir a um skate, só que a iniciação não podia ter corrido pior: uma forte cabeçada no alcatrão, com direito a um rasgo da pele, foi o resultado dessa tarde de Setembro.      

            Definitivamente tenho que encerrar estas linhas. O desgaste acumulado ao longo do último ano, obrigam-me a pedir descanso.   

            Nada mais me resta senão, enviar as palavras para banhos.

            Aos leitores do Jornal Labor desejo umas óptimas férias, esperando regressar um bocadinho mais inspirado.

 

(a publicar dia 31/07/08)

terça-feira, julho 22, 2008

Conto de Verão

            Numa tarde quente de verão, Marta e Francisco encontravam-se sozinhos junto à piscina do hotel. Os hóspedes estavam recolhidos, por ser hora de almoço e o grupo de amigos, que os acompanhava no fim-de-semana, tinha saído para uma refeição, num restaurante muito conhecido na zona.

            Marta optou por ficar. Pretendia evitar as confusões daqueles espaços, não estava preparada para aguentar as esperas e ouvir os ruídos normais destas salas. Como estava recentemente separada, os amigos não insistiram. Marta pediu a Francisco para lhe fazer companhia. O amigo de sempre aceitou com agrado o convite. Era uma oportunidade para colocar a conversa em dia, ouvir os lamentos da amiga e poder ele próprio explicar os pormenores do seu falhado casamento.

            Francisco era um bom ouvinte. Escutava com atenção a amiga, sem interromper. Ajudava a terminar frases se fosse caso disso e fazia perguntas de forma frontal, o que não permitia a Marta refugiar-se em qualquer segredo. Por seu lado, Marta não estava com capacidade para fixar as palavras do amigo. Ouvia e respondia às perguntas mas, não prestava atenção ao que Francisco lhe contava, relativamente ao seu divórcio. Todas aquelas questões legais da partilha de bens, da guarda dos filhos, da tença, lhe escaparam. Fixou os motivos que levaram o amigo a separar-se, mais para poder comparar com o seu caso, ou então, por ser nessa fase em que se encontrava a sua relação e por aí permaneceria, pois não tinha qualquer filho.

            A separação é irreversível – disse Marta a Francisco. Motivado não se sabe bem porquê, provavelmente pela decisão da amiga e pelo seu estado de descomprometido, Francisco contemplou, como há imenso tempo não o fazia, a beleza da sua amiga. Sempre a admirara, sempre a apreciara, embora nunca tivesse sentido por ela nada senão uma profunda amizade.

            A conversa prosseguiu para outros temas. Pelo meio um cigarro ou outro. Francisco sentiu-se portador de uma oratória sedutora. Como se finalmente, Alonso de Quijano tivesse encontrado a verdadeira Dulcineia de Toloso e pudesse expressar todos os seus sentimentos, as boas intenções para com a sua dama, sem precisar de evocar os seus feitos enquanto cavalheiro da Mancha.

            Sem interromper o desenrolar da conversa, vieram as palavras de galanteio de Francisco. Ao ver um sorriso na boca de Marta, Francisco prontamente disse: “O teu sorriso é o inicio de uma grande perfeição”. Marta sorriu de novo. Seguiram-se mais uma série de piropos, dos quais Marta só reteve alguns: “O arco do teu lábio superior é tão perfeito que parece que foi cinzelado”; “A sensualidade começa no teu peito”. Ao ouvir estas frases Marta começou a ficar confusa. Não percebia onde queria chegar Francisco. Os seus elogios eram agradáveis de ouvir mas, naquele momento da sua vida, eram inoportunos.

            Marta interrompeu a conversa, sugerindo um banho. Sabia que Francisco não apreciaria o convite e assim, ficaria sozinha na piscina por uns momentos.

            Depois de umas braçadas, decidiu mergulhar para o fundo da piscina. Sem esforço ali chegou. Sentia-se bem, sem ouvir conversas, longe de todos. Deitou fora o ar. Aguentou-se sem se preocupar em subir. Ficaria lá. Verificou que não iria fazer algum esforço para voltar a respirar. Sem pânico, esperou pela sua hora.

            Os primeiros ruídos que ouviu, pareciam-lhe uma respiração forte, dentro de si. Abriu os olhos e viu Francisco desesperado a tentar animá-la. Desviou a cara, a água, que propositadamente se alojara em local errado, vinha para fora. Francisco não falava, abraçava-a de modo fraternal. Um dos empregados do hotel, perguntara se seria preciso chamar o 112. Marta negou com a cabeça. Francisco agradeceu a atenção e apelou à descrição dos funcionários. Mais nenhum hóspede se apercebera do sucedido.          

            Ficando a sós com Marta, Francisco ousou perguntar-lhe se estava bem. Marta disse-lhe que sim e não lhe deu mais explicações. Voltaram para as espreguiçadeiras. Francisco ajudou Marta a sentar-se e embrulhou-a com a toalha. Entretanto, enxugou-se do banho forçado. Ficaram em silêncio.

            Francisco não resistiu e quebrou o sossego: “Jamais pensei tocar nos teus lábios. Não era preciso isto…” Marta interrompeu-o: “Francisco, por favor, esse tom perturba-me. Não estou preparada para questionar a nossa relação.”

            Francisco sentou-se, acendeu um cigarro e pediu desculpa pelas suas palavras. Entretanto, chegaram os amigos do almoço. Francisco pediu a Paula, companheira de quarto de Marta, para olhar por ela, pois a amiga não estava muito bem.

            As duas amigas subiram e Francisco aceitou o convite dos amigos para um jogo de snooker. 

            Durante o restante tempo que permaneceram com o grupo, os dois amigos evitaram-se. Trocaram apenas algumas palavras, circunstanciais, apesar de Francisco procurar agradar a Marta, em gestos e discrição. 

            Separados, terminado o fim-de-semana, Marta recebeu uma série de mensagens do amigo. Apenas respondeu a uma delas secamente, dizendo encontrar-se bem. Evitou as chamadas de telemóvel, a insistência de Francisco em lhe falar.

            Face a este prolongado silêncio, nada mais restou a Francisco senão aceitar e esquecer todo o episódio, aproveitando o que restava do Verão.

 

(a publicar dia 24/07/08)

quarta-feira, julho 16, 2008

Congressos e Afins

 

O dia-a-dia da actividade política é extremamente datado - quando não comentado atempadamente, perde sentido e oportunidade.

Explorar assuntos em opiniões escritas pouco fundamentadas ou cingi-las a momentos impróprios é tornar inválidos os argumentos. Caso a dinâmica de factos, afirmações ou orientações políticas contrariem as opiniões expressas, reduzem todos os pontos de vista a mal entendidos.

Durante o último mês, após o congresso do PSD, sucederam-se uma série de afirmações dos novos responsáveis pelo partido, que seriam o mote certo para vários artigos da minha opinião.

Sensatamente, não os escrevi.

Afirmações posteriores, esclarecendo melhor alguns desses argumentos, mostraram-me que foi preferível ficar calado.

O primeiro facto foi a célebre frase: “não há dinheiro para nada”. Dentro do contexto das grandes obras públicas, obviamente. Imaginei o que seria uma análise desse género aos potenciais investimentos municipais e aos programas de várias autarquias… arrepiei-me. Passado uns dias, vários autarcas eleitos pelo PSD pediram esclarecimentos e na passada semana, o novo líder parlamentar sossegou toda a gente.

O segundo caso, não chegou a ser. O líder da distrital do Porto do PSD declarou que o autarca da Cidade Invicta seria novamente candidato. Achei estranho. Por isso, ao verificar que o tempo para tais anúncios não era o correcto, fiquei esclarecido e percebi a malandrice. É ainda cedo para a tomada de decisões. Daqui a meio ano, tudo está decidido. Lá e cá, sem querer colocar um prazo bem definido.

Por fim, o assunto mais sério. Ao colocar como prioridade a “justiça social”, a estratégia de captação de voto do PSD nas próximas legislativas, segundo vários especialistas, passa por aproveitar o descontentamento dos eleitores de esquerda do PS - à semelhança do que este partido tem feito ao PSD, desde 2005. Retirar votos ao partido do poder, que poderiam cair na CDU ou BE, parece estar a resultar. Estas duas forças, estavam cotadas em várias sondagens, com 20% dos votos em conjunto, antes do congresso do PSD. Depois da eleição da nova líder, a última sondagem apresentada (RTP / Antena 1 – dia 15 de Julho de 2008) já invertia a tendência: 17% para as forças de esquerda, subindo o PSD dos 28 para os 32%.

Neste sentido, seguir ao longo do próximo ano as inclinações das várias sondagens e a elaboração das propostas eleitorais do PSD, será bastante elucidativo, para se compreender melhor a política nacional e as vontades dos eleitores.

Um factor bastante importante será coerência de propostas, tanto no programa eleitoral para o Governo, como para as autarquias, por parte do PSD. Pelo facto de ambas as eleições serem próximas, deverá ser promovida a coesão nas promessas a apresentar.

Assistiremos em 2009, independentemente do candidato a apresentar pelo PSD à Câmara Municipal de S. João de Madeira, a um programa com uma componente política forte, versando essencialmente a social-democracia.

Com este PSD mais centralizador, com tiques de esquerda, o que resta para o PS local? Pedro Nuno Santos prepara-se para deixar a JS, em congresso marcado para este próximo fim-de-semana, no Porto. Habituado a programas políticos à escala nacional, com as sempre presentes “causas fracturantes”, o PS local terá um árduo trabalho até às eleições autárquicas do próximo ano.

Sem acreditar no espectro do sebastianismo nacional, as tarefas preliminares do novo líder da estrutura do PS local passam muito por organização interna, de forma a não chegar ao próximo ano com uma candidatura insípida, a ausência de um programa eleitoral e resumindo o acto eleitoral do próximo ano a apresentar as críticas conhecidas à gestão actual da cidade.    

Previsível será a sua vontade em apresentar propostas de esquerda modernista, no âmbito da qualificação da população local, nas facilidades no acesso às novas tecnologias e claro, no estímulo a tornar a autarquia um parceiro do “Estado Social”.   

            Independentemente dos nomes dos candidatos às eleições autárquicas de 2009, estas serão as primeiras, nos últimos vinte e cinco anos, a serem disputadas naquilo que politicamente se designa “centro”.

            É, desde então, a primeira vez nas eleições locais, em que os dois principais partidos da política nacional são os mais sérios candidatos a uma vitória para a autarquia.

            Esperemos que tal facto sirva para elevar o debate político.  

 

(a publicar no dia 17/07/08) 

 

quarta-feira, julho 09, 2008

Principezinho

 

            Na já longa história do Campo de Férias Estamos Juntos existem vários episódios, acontecimentos ou factos, que foram determinantes para a sua longevidade e actual sucesso.

Não consigo precisar em que ano, nem em rigor, qual a edição desse evento de ocupação das férias das crianças e jovens, que perdura desde 1982, em que um participante surpreendeu todos os restantes e demais monitores ou organizadores.

            A passar férias em casa de família, o jovem distinguia-se dos demais, por se fazer acompanhar por um bloco de papel e alguns riscadores. Escusado será comparar esta particularidade com as comuns, entre os jovens, bolas ou outros apetrechos desportivos (raquetes ou bicicletas), ou consolas de jogos, ou até leitores das datadas cassetes.

Este era diferente. Desenhava. Bem, acrescento eu. Resumia os seus trabalhos a bonecos. “Desenho bonecos”, dizia com uma simplicidade e alegria contagiante. Ao longo desse mês a actividade do Campo de Férias ficou retratada, caricaturada pela mão deste pequeno ilustrador. 

A qualidade dos seus trabalhos extravasou o Campo de Férias e uma galeria de arte em S. João da Madeira reconhecendo o seu mérito, expôs alguns dos seus quadros.

Curiosamente, seria através da música que este jovem se afirmaria.

Refiro-me em concreto, a Manuel Cruz. Celebrizado no panorama musical nacional como vocalista dos Ornatos Violeta e Pluto e tendo agora lançado o seu primeiro trabalho a solo.

Poderia continuar este texto, invocando as suas capacidades musicais, no entanto, vou-me restringir à sua passagem singular pelo Campo de Férias. Possivelmente única.

A presença do Manel naquele Campo de Férias foi decisiva para o sucesso de organizações futuras da AEJ. O interesse por ele demonstrado e sobretudo, a sensibilidade para a diversão nas férias, sempre com vontade de participar em todas as actividades propostas e sugerindo outras, foram extremamente importantes.

Existia até aquela data, a ideia de proporcionar férias essencialmente desportivas aos participantes. Aulas de natação, de modalidades colectivas e de outros desportos individuais eram as principais actividades. Além disto, havia outro factor preponderante para esta opção, as novas instalações desportivas da cidade: a piscina interior e o pavilhão das Corgas.

Tal como Saint-Exupéry alterou a sua vida pelos desenhos de uma criança, os bonecos de Manel Cruz cativaram toda a essência da AEJ. A partir daquele ano, reconheceu-se definitivamente que as actividades a propor às crianças e jovens, deviam envolve-los de acordo com a sua vontade, motivando o seu interesse e participação.

A imaginação ganhou lugar cativo nos anos seguintes. O principal interesse de quem organizava as actividades era proporcionar um mês de férias único aos participantes. Ali era tempo de esquecer as aulas, a rigidez dos horários, as matérias estudadas, enfim, eram férias, com outras atenções.

O sucesso e a longevidade do Campo de Férias passaram por esta forma de estar, que agradava aos participantes. Muitas vezes contrariando a vontade dos próprios pais, como muitos reconheciam.  

Durante vários anos, o mediatismo da AEJ no contexto da cidade era conseguido apenas no mês de Julho. Os bons resultados desportivos dos atletas eram ainda poucos e isolados. Das actividades com mais visibilidade, a Festa Final na Praça Luís Ribeiro era a sua principal montra. Assisti a representações ousadas de vários jovens, que eram o culminar de um mês de participação interessada. Destaco o sapateado de um jovem luso - francês, cujo nome não me recordo; a capacidade de mobilização de Paulo Cavaleiro; a disposição para o palco de Pedro Nuno Santos; entre vários outros, que não vou nomear para não tornar a lista longa.

Existirão actualmente outros jovens que se destacam, no contexto da actividade da AEJ e do próprio Campo de Férias. É a dinâmica normal de uma Associação de Jovens, que se vai calmamente renovando em termos de idade dos seus dirigentes, mantendo os princípios de organização e o seu propósito.  

Nunca consegui perguntar a Manuel Cruz, qual o caminho para o asteróide 612. Com certeza que desde criança que o conhece. Na sua adolescência soube explicar-nos os pormenores deste pequeno planeta. Eu e outros que durante anos, dedicámos o nosso mês de Julho à AEJ, mantivemos a nossa nave em órbita.

A minha, entretanto, aterrou.

 

(a publicar no dia 10/07/08)