quarta-feira, dezembro 28, 2011

Recordação

                Aos primeiros acordes, fecho os olhos. Não resisto. O som do piano delicia-me. No instrumento, as pequenas mãozinhas vão seguindo o compasso, procurando não falhar, controlando o sistema nervoso para evitar os erros. Só ouço as notas, evito olhar para a prestação. Faço-o habitualmente, acompanhando a harmonia da música, sem desprestigiar a interpretação. Estou confiante no pequeno artista. Ouço os progressos diariamente. Tão empenhado na sequência das teclas, nem se apercebe do meu cerrar de olhos durante a sua execução na Recordação. Uma simples música de Lopes Graça, descoberta nas audições de crianças.

A melodia atravessa-me. Apesar da envolvência, a introspecção remete-me para momentos de mágoa. Alheia ao momento. “Os meus mortos estão cada vez mais vivos”, escreveu Raul Brandão, mal começou a descrever os pitorescos Pescadores, ainda na Cantareira. Os meus desfilam durante as notas da Recordação. Os familiares, os amigos, os colegas de escola, do trabalho, os vizinhos, os simples conhecidos entram na lembrança.

Não esqueço os que escrevem nos jornais. Também não esqueço as estrelas da rádio, nem as da Tv. Nem os heróis de domingo à tarde, vedetas pisando um relvado. Remeto-me para os primeiros. Os que perdem horas de vida social e familiar procurando um assunto. Teclando em contra relógio um texto, em esforço conseguindo um final. Cumprindo prazos de fecho de edição, apenas para agradar aos leitores. Fazer parte do quotidiano de quem lê jornais. Entrar em casa dos outros sem ser convidado e ser bem acolhido.

Emitir opiniões, exigir soluções, criticar a passividade, em modelo de entretenimento. Sem entrar no reparo do buraco da estrada, nem na critica pessoal, nem no banal ataque político. Escrever inesperadamente sobre a rua, o bairro, lembrando os vizinhos. Invocar a memória colectiva. Recordar uma ou mais árvores, um edifício esquecido, uma rua arrasada, ou ampliada. Uma paisagem alterada. Uma vila esquecida, uma aldeia perdida. Pelo meio, escrever sobre tudo e sobre nada.

Semana após semana. Com a irregularidade necessária.

Habituámo-nos a ler essas opiniões. Estranhamos as ausências prolongadas.

Manuel Tavares e José Manuel Bastos acompanharam-nos toda a vida.

Em 2011 deixaram um vazio muito preocupante na imprensa local.

Um pouco antes do último compasso, abro os olhos. Foco o piano. Preparo as mãos para a merecida aclamação. Quando surgem os aplausos, um sorriso de dever cumprido instala-se no rosto do pianista. A audição prossegue. De olhos abertos, marco os tempos de cadência com o pé elevado.

- É preciso marcar o compasso – disse-me inesperadamente, ao reparar uma avaria, o falecido Sr. Moreira, mecânico de profissão, músico nas horas livres.

   

(a publicar no dia 29/12/11)

quarta-feira, dezembro 14, 2011

O efeito Campelo

                O actual Secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural, Daniel Campelo, causou polémica quando, no ano 2000, fez uma greve de fome no Parlamento, em protesto contra a transferência da produção do queijo Limiano para fora do concelho de Ponte de Lima, do qual era autarca à época. Nesse ano e no seguinte, como deputado, viabilizaria os Orçamentos de Estado do Governo liderado por António Guterres, conseguindo várias contrapartidas para o seu concelho. Melhoria nas acessibilidades e garantia de investimento, promovendo a criação de emprego no concelho, foram as mais apregoadas.

                 Este modelo norteou os autarcas eleitos depois de 2001. O alargamento da rede de auto-estrada foi exigido praticamente por todos. O investimento público, co-financiado por fundos comunitários estruturais, assegurou inaugurações de edifícios de utilidade incerta. Durante vários anos, assistiu-se à reivindicação desse financiamento para projectos semelhantes em concelhos vizinhos. Ou para a abertura de valências do Estado, tentando retirá-las aos concelhos mais próximos.

Em paralelo, a criação de emprego mudou de paradigma. Esgotados os investimentos em indústrias de mão-de-obra intensiva, em especial, de capital europeu - protagonizada nos finais da década de 80 e ainda durante os anos 90, do século passado - surgiram as grandes superfícies e os serviços associados. Hipermercados e centros comerciais desafogaram os cofres das autarquias.

Esta última variável fugiu um pouco do modelo de Daniel Campelo. Mais interessado em preservar a zona histórica da sua vila, o seu comércio tradicional, mantendo as margens do rio Lima entregues à população. Desta forma evitou a especulação imobiliária e a construção de aberrações arquitectónicas.

Tudo corria bem aos autarcas do nosso país. A pretensão ao estatuto de “cidade-estado” podia ser ventilada, não fosse a dependência nas verbas enviadas pelo governo central.

Até que a necessidade de racionalizar os equipamentos do Estado, por escassez de verbas do Orçamento de Estado, alterou tudo. Hospitais, centros de saúde, esquadras, tribunais, escolas, repartições, passaram a ser equacionadas e a encerrar caso não se verificasse a sua utilidade.

Uma luta fratricida.

A recordar a história. Os senhores dos isolados castros a resistirem à presença romana ou muitos séculos mais tarde, os senhores medievais sempre interessados em desviarem do Rei, os proveitos que lhe eram devidos.

Este é o balanço da última década de poder local. Não é o balanço dos dez anos de mandatos do Dr. Castro Almeida. Reconhecidos como muito positivos, embora com demasiados projectos em aberto, para ser atribuída uma nota final.

No atrás exposto, mais do que uma crítica, está a clara intenção de enquadramento destes mandatos em contexto histórico político.

Daqui a alguns anos, se calhar, nova década, novo balanço será feito. Com outros protagonistas. Então subjugados ao efeito Relvas, caso a reforma da Administração local seja implementada.

 

(a publicar dia 15/12/11)

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Eu e o Vouguinha


Rumei a sul. Segui pela auto-estrada até Albergaria-a-Velha. Apanhei outra e continuei até ao rio Vouga. A partir daí, fui circulando por estradas secundárias, orientado pelas indicações de Museu Ferroviário. Cheguei a Macinhata do Vouga. Atravesso a passagem de nível, sem guarda e observo a bitola. Em simultâneo, uma automotora grafitada chegou à estação. Espantosa coincidência. Poucos passageiros. Rapidamente o comboio fica vazio e parado. O condutor abandona o seu posto de trabalho e dirige-se para o fim do comboio. Está feita a inversão de marcha. O Vouguinha está pronto a arrancar para Aveiro. O interesse desperta a curiosidade acerca do horário. Duas horas depois parte. Nem procuro saber a hora de retorno.


Concentro-me no motivo da visita. Volto atrás. À entrada para o largo da estação, uma locomotiva a vapor de cor preta, aparentando bom estado de conservação, mostra-se aos visitantes. Caminho para a entrada do Museu e a porta fechada ostenta um pequeno aviso. Visitas só por marcação. Espreito pelos vidros, observando as peças recolhidas. Despacho de mercadorias, com todos os utensílios e objectos burocráticos reunidos no átrio. Locomotivas ou carruagens tinham visibilidade condicionada. Espreitei pelo meio de traves. Vi o que pude. Voltei à entrada da estação e contentei-me com a locomotiva preta.


Escrevi várias vezes sobre o Vouguinha, expliquei a sua história, mencionei a beleza da ponte de Santiago, fiz referência ao Museu e quando me decido a visitá-lo está fechado.


Sigo de automóvel sem voltar para trás. Desorientado. Esqueço o entroncamento em Sernada do Vouga. O ramal sul vindo de Aveiro a encontrar-se com o troço Espinho – Viseu. O único local largo na linha de bitola estreita. Fica para a próxima.


Perdi a linha ferroviária de vista. O rio Vouga faz uma curva larga à minha direita. Observo a larga planície. Na estrada, à esquerda uma placa indica a estação arqueológica do Alto do Cabeço de Vouga. Subo. O gradeamento de segurança impede o acesso. Ao domingo está encerrada ao público. Detenho-me um momento ante das grades a observar. As construções arredondadas e ao fundo o rio Vouga.


De volta à estrada. Uns metros depois, estou no IC2. Lamas do Vouga. A ponte medieval do Marnel. Uma bateira, no meio do campo alagadiço, justifica a construção histórica. Na ponte, sinais de uma portagem. As taxas que nos acompanham desde a fundação da nação.


Regresso a casa. Para norte. Estrada nacional ou auto-estrada. Escolha múltipla. Duas hipóteses para cada tipo. A nascente, os carris do Vouguinha reclamam interessados. Um quarto de século ao abandono.


“Na quietude dos dias do século passado, o fumo do Vouguinha rasgava o lado poente de S. João da Madeira. Ainda hoje, apesar de ter deixado o vapor, nas tardes calmas de fim de semana ecoa o som do seu apito, quebrando o silêncio dos dias de descanso (…)”. Relembro as minhas palavras, alinhadas a outro propósito.


Um dia hei-de escrever sobre essas tardes calmas.



(a publicar dia 08/12/11)