quarta-feira, setembro 30, 2015

Uma história antiga

                A música é uma das artes que é pouco tangível. Recorre-se a gravações em vários formatos tecnológicos para ouvi-la e terminando essa auscultação, não sobra nada de concreto. Fica o registo na memória e numa audição seguinte, poderão existir partes bem assimiladas, decoradas até, que permitem ao ouvinte trautear, ou mesmo cantar, se for o motivo.

                Na presença de executantes, em concertos ao vivo, existe uma relação diferente. Naturalmente, que os formatos tecnológicos são substituídos pelos instrumentos executados pelos músicos. A amplificação de som pode introduzir uma dose de tecnologia e as gamas sonoras serem trabalhadas, para o espectador ter oportunidade de ouvir os sons graves, intermédios e agudos sem qualquer dificuldade.

O artista é a alma do concerto. A sua preparação técnica, aliada à sua capacidade de interpretação, sobretudo esta última, são factores que contribuem para a qualidade do espetáculo.

Sexta-feira passada, portanto, dia 25 de Setembro, tive oportunidade de assistir ao recital de Piano, por Nelly Santos Leite e Graça Mota, promovido pela Academia de Música de Santa Maria da Feira e incluído no programa de festejos do seu 60º aniversário.   

Para os mais entendidos nestas andanças musicais, este duo apresentou-se a público no final da década de 80, chegando a atuar em S. João da Madeira, na Biblioteca Municipal.

Praticamente 27 anos passados, sentei-me de novo numa plateia para ouvir este Duo a 4 mãos. Em ambiente familiar, ou de grande proximidade às artistas e à instituição promotora do concerto, era importante verificar qual seria a capacidade interpretativa das pianistas e o seu sincronismo, tantos anos passados.

  A maturidade artística ficou evidente logo na primeira peça tocada. Em Suite Dolly op. 56, de Gabriel Fauré, à sobriedade dos andamentos iniciais, seguiu-se uma execução bem quente do “Le Pas Espagnol”, que mexeu com a plateia, transportando-a para uma viagem sonora ao país vizinho. Estava dado o mote do concerto.

Até ao intervalo, os diálogos entre oitavas fizeram-se ouvir nas seleccionadas “Danças Eslavas” de Dvorak ou na magnificência de Brahms, com as duas primeiras “Danças Húngaras”. A plateia estava rendida ao ritmo incutido pelas artistas e a satisfação era visível no rosto dos assistentes, durante a merecida pausa das pianistas.

Na 2ª parte, após a inquietude das “Melodias Rústicas Portuguesas” de Fernando Lopes Graça, que como é evidente não deixou nenhum espetador indiferente, seguiu uma interpretação fabulosa desse brilhante tema de George Gershwin, “Rhapsody in Blue”. Uma sonoridade bem americana, perto do registo jazzístico, como é reconhecido, fazendo parte do repertório de muitos duos a quatro mãos ou mesmo a dois pianos e à qual Nelly Santos Leite e Graça Mota incutiram uma versão extraordinária, com uma cadência estonteante.

No final do concerto, pela longevidade do duo, retive a ideia dos vários caminhos da música. É sempre bom recomeçar um, no qual o artista se sente feliz.

Depois de muitos anos de ensino de música, da sua divulgação na cidade, com a promoção de concursos de piano e também com o acumular da direção de Academia de Música de S. João da Madeira, Nelly Santos Leite sentou-se ao piano, não demonstrando qualquer amargura, ou mesmo ressentimento.

Uma lição de vida, demonstrável pelo entusiasmo com que tocou o repertório musical escolhido.

Uma importante atitude, deixando os mais novos admirados pela segurança exibida.

 

(a publicar no dia 1/10/15)

quarta-feira, setembro 16, 2015

Uma década

                A 15 de Setembro de 2005, iniciei a colaboração, de forma espontânea, com o jornal labor, através da publicação de artigos de opinião.

                Nesta semana, pela proximidade de datas, totalizo 10 anos de colaboração regular neste periódico.

                Tempo de efeméride.

                No decorrer desta década, enviei para este jornal um total de 300 textos, segundo as minhas contas. Uma média anual de trinta publicações, o que permite a aproximação aos três textos editados por mês. Embora tal valor seja excessivo e não corresponda a qualquer métrica pretendida. 

                Nos primeiros quatro anos de colaboração, até 2009, o labor publicou 106 dos meus textos. Após esse período, nos três anos seguintes, foram publicados 99 artigos e finalmente, nos últimos três anos, os restantes 95. Ou seja, nos primeiros quatro anos os textos eram publicados de forma menos intensa, dois por mês e pelos números dos últimos seis anos, passei a editar três artigos por mês.      

Uma intensificação na publicação com o avançar dos anos, facilmente explicável.

Tal como referido no primeiro parágrafo, arranquei por iniciativa pessoal. Ao longo dos meses seguintes, com periodicidade intermitente, fui publicando alguns textos, tentando perceber qual a receptividade dos leitores. O frenético lançamento de obras públicas, sobretudo lideradas e idealizadas pelo município, não me deixavam indiferente. Fazia sugestões de obras julgadas necessárias. Lá pelo meio, conseguia ter a audácia de atirar uma crónica romanceada, ou abordar um assunto nacional relacionado com o quotidiano local.

Das poucas incursões que fazia pela cidade, recebia oralmente o reconhecimento pelos textos publicados. Recebia felicitações pessoalmente, trocava uma ou outra ideia com quem tinha lido as minhas opiniões e ia verificando qual o grau de aceitação.

Pelo meio das publicações, ousei abrir um blogue. Alarguei os temas de escrita e assumi a crítica política, na perspectiva de cidadania. Estávamos em 2007. Ao meu lado, numa das páginas do jornal labor, o conceituado Doutor Renato Figueiredo, entretanto falecido, fazia uma apreciação a um dos meus textos. Quase em simultâneo, um leitor amigo sugeria o lançamento de um livro, com a compilação das crónicas. Sinais de reconhecimento e aumento da responsabilidade, enquanto cronista. Embora me mantivesse sempre fiel ao pedido de publicação, que sempre acompanha o envio do texto para o labor, pelo correio eletrónico.

Nos meses seguintes, incrementei a edição de crónicas romanceadas. Ainda assim, tive tempo para a crítica mais incisiva à atividade política. Esgrimi argumentos contra o hipotético vaivém a implementar na linha do Vouga e muito especialmente, fui, desde a primeira hora, contrário a qualquer Centro de Alto Rendimento desportivo a construir nas margens do Rio Ul. Batalhas argumentativas curiosas, que me permitiam estar mais confortável e publicar textos com maior frequência.

A partir de 2010, decidi estudar um pouco mais, fazendo uns cursos de escrita criativa. Aproveitei esse tempo para publicar nas páginas do jornal, alguns dos contos inventados, ficando meses sem me referir ao quotidiano local. Quando o fazia, repetia a fórmula de sempre, preparava-me com dados concretos e com base neles, tecia considerações. Passei a fazer maiores sugestões à política local, deixando a crítica de lado e sobretudo, abandonando as obras públicas. Descobri por essa altura, por exemplo, a proximidade entre o número de eleitores e número de habitantes de S. João da Madeira. Ainda assim, o comentário político não foi abandonado. Terminei esse ano tecendo considerações futuristas: internet sem fios, em todo o concelho, não seria concretizável; e as requalificações de edifícios tendo em vista a sua ocupação cultural não teriam suporte financeiro para ganhar escala regional e nacional.

Os anos seguintes poderiam ser mais do mesmo. Contudo, tive o convite, endereçado pela concelhia local do PS, para participar no Fórum Re:pensar S. João da Madeira e passei a estar mais próximo da cidade. A publicação de textos cruzou-se com a preparação do Fórum, prevalecendo a ideia prévia de cidadania, em lugar do pressuposto partidário. Curiosamente, muitos desses textos aproximaram-me de muitos leitores e finalmente passei a receber telefonemas de agradecimento pela referência, ou pelo tema eleito, ou mesmo, pelas palavras expressas. 

Apesar da minha saída prematura do Fórum, mantendo-me dentro da linha de independência partidária, continuei em 2013, a publicar regularmente artigos no jornal labor. Nesse ano, apenas falhei duas edições e embora tenha reduzido a presença nestas páginas no ano seguinte e no presente (um sinal de inversão na edição), continuo a receber o contacto direto de alguns leitores, com o mesmo incentivo que recebi anteriormente.

Dez anos volvidos, com pouco tempo para muito mais, continuo a escrever regularmente para o labor. Tentando agradar aos leitores e sobretudo, procurando surpreender, mais pelo conteúdo, do que pelo formato, deixando-os inquietos, sem saber qual o tema a desenvolver nas linhas deste jornal.

Neste ponto, com esta carga em cima dos ombros, é natural ponderar a continuidade desta atividade. Por um lado, pesa-se a inatividade na escrita, beneficiando as noites de leitura e sobretudo, a desobrigação de ter um serão ocupado. Por outro, a regularidade da comunicação escrita, o esquematizar argumentos, preencher com parágrafos colunas de jornal. E ainda há uma outra hipótese, suspender a atividade por tempo indeterminado.     

Por agora, no balanço dos 10 anos de escrita, fica o agradecimento aos leitores pelo tempo dispensado e claro, ao diretor do jornal pela oportunidade oferecida, não esquecendo os demais colaboradores do jornal, pela paciência manifestada em aturar os meus atrasos, ou a imprevisão de envio de artigo, em cima do fecho da edição.

 

(a publicar no dia 17/09/15)

 

quarta-feira, setembro 09, 2015

Ainda não foi desta, Chalana

            Comecei a ver o jogo entre Portugal e França, da passada sexta-feira, apenas na 2ª parte. Pelo meio surgiram notícias de Évora e só me concentrei no jogo de futebol, a 30 minutos do apito final.

            À tardinha, antes do inicio do jogo, lembraram-me o Europeu de 1984. Um célebre encontro das meias-finais com a França, jogado no dia de S. João. Ainda falei das derrotas mais recentes, em 2000 na Holanda, pela mão de Abel Xavier ou em 2006, no Mundial da Alemanha, num jogo seco. Só que não eram essas as recordações que motivavam o meu interlocutor. Apenas as de França, de há 31 anos. Um jogo épico, com Portugal a perder o jogo aos 119 minutos, desfazendo-se um empate a duas bolas e terminando uma participação excelente na fase final de um campeonato. Um jogo memorável da nossa seleção – relembravam-me, destacando a participação do pequeno génio, Fernando Chalana, entre outros. Entretanto, a memória falhava e não surgia mais nenhum nome. Lá lembrei o Jordão e um dos golos dessa tal tarde, provavelmente um dos momentos desportivos que mais apreciei e a conversa ficou por ali, pelas fintas em progressão do Chalana, pelos seus cruzamentos para a área, entre outros apontamentos caraterísticos do futebol.

            À noite, com o resultado a nulo, acreditei que um acaso poderia dar uma vitória a Portugal. Pelos vistos, há 40 anos não ganhámos um jogo à seleção de França, o que significa que eu nunca vi tal feito. Antes pelo contrário, só encaixei derrotas, nas tais meias-finais e se calhar em mais uns quantos jogos, que não recordo, ou não segui.

Assim aconteceu… outra vez.

            É certo que o jogo era praticamente de treino e o mais importante era ganhar três dias depois, o que veio a suceder. Sendo assim, abriu-se a hipótese de novamente haver um confronto, em fases finais, entre Portugal e França.

            Em 1984, os jogadores da seleção Portuguesa jogavam todos em clubes nacionais. A diferença para a seleção Francesa era teoricamente brutal, pois os gauleses tinham realizado um Campeonato do Mundo em 1982 sensacional, terminando em 4º e dois anos depois jogavam em casa. Além do fator desportivo, havia toda a condição do país de emigrantes. Um confronto de assalariados com os empregadores. A fadiga, a impreparação para os momentos de pressão num jogo, foram as justificações para o não sucesso de Portugal.

            Em 2000 e em 2006 tudo se tinha alterado. Vários jogadores portugueses alinhavam no estrangeiro, nas melhores equipas europeias e a diferença entre as duas seleções era menor e por isso, o confronto foi sempre equilibrado. É certo que houve falhas, como acontece na maioria das vezes com equipas portuguesas. Aquela desconcentração fatal.

            Em 2015/16, o barómetro de qualidade de uma seleção são os jogadores que alinham em equipas apuradas para a Liga dos Campeões. Como este assunto é melindroso, pois da seleção nacional apenas 5 ou 6 jogadores, respetivamente no jogo de 6ª e de 2ª, é que estão nesta condição, poderá ser explicado por aqui o desaire caseiro com a França. Se considerarmos, outro dos indicadores de qualidade várias vezes utilizado, jogador de equipas a participar nas 5 principais ligas europeias: Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França, o caso ainda fica mais complicado.

Poderá ser este o problema da atual seleção nacional, quando comparada com anos recentes, apenas dois dos seus jogadores são provenientes de uma das oito melhores equipas europeias (Real Madrid), enquanto há uns anos atrás, a convocatória enchia-se com referências a esses colossos.

            A consistência da carreira desportiva é difícil. Manter-se na ribalta durante todo o percurso desportivo não é para todos. Aguentar a pressão dos diversos treinadores, dos colegas de equipa, dos próprios adeptos, mais a dos adversários e mesmo, da opinião pública de um país estrangeiro não está ao alcance de qualquer um.  

            Se um Português aguenta isto tudo, é uma excepção. A maioria desiste, prefere outras paragens, a todos os níveis mais calmos.

O fado nacional, o da curta quimera, a justificar resultados desportivos.

Quando a ambição ocupar o lugar da resignação e a persistência for exemplo, haverá uma geração que olhará para os seus parceiros europeus de outra forma. Sem soberba mas, em contrapartida, sem se sujeitar à humilhação.

O desporto poderia ajudar a vencer o preconceito histórico.

Vejamos o que nos reserva, o Europeu de França de Junho de 2016.

 

(a publicar no dia 10/09/15)

quarta-feira, setembro 02, 2015

O que esperar dos novos deputados?

                A um mês das eleições legislativas, é oportuno introduzir como tema de debate, quais as expetativas dos eleitores, relativamente aos deputados a eleger pelo seu círculo eleitoral – o distrito de Aveiro. 

                Independentemente dos últimos acontecimentos do último ano legislativo, é importante recordar a tentativa do Estado em organizar-se, exercitando a sua proximidade às populações.

À tentativa falhada na década de 90, para introduzir a regionalização, não aceite pelos eleitores em referendo, seguiu-se uma reorganização silenciosa das competências regionais do Estado. Criando-se efetivamente um mapa de regiões, conseguindo-se em cada uma delas, sub-delegações de vários ministérios com competências de gestão administrativa e patrimonial. Neste capítulo, são de fácil exemplo as Direções Regionais de Educação (DRE) ou as Administrações Regionais de Saúde (ARS).

                Com total entendimento, a população de S. João da Madeira viu algumas das suas escolas ficarem ligadas à DRE – Norte (DREN) e os seus equipamentos de saúde serem regidos pela ARS – Norte. O mesmo entendimento motivou não haver objeções à influência da Comissão Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte nos destinos do concelho, há largos anos. De igual forma, a adesão recente à Área Metropolitana do Porto foi entendida como perfeitamente normal pela grande maioria da população, pela proximidade da grande cidade, não esquecendo a afinidade com a mesma.  

                Este reposicionamento do concelho, ligando-se ao Norte do país, não teve o mesmo acompanhamento em termos eleitorais.

                Ao eleger deputados pelo distrito de Aveiro, a população de S. João da Madeira está a escolher eleitos que estão afastados dos centros de decisão da sua área de influência. Na sua maioria estes centros estão localizados na cidade do Porto.

Os deputados do distrito de Aveiro, além da presença habitual na Assembleia da República, têm direito a um dia livre, para exercer a sua atividade no seu círculo eleitoral. Neste cenário, em tal dia, o rodopio dos deputados distritais, entre Aveiro e Porto, deveria ser constante para defender os interesses da população dos concelhos do Entre Douro e Vouga (EDV): S. João da Madeira, Santa Maria da Feira, Arouca, Vale de Cambra e Oliveira de Azeméis.

  Só que existem outros afazeres, nomeadamente, os relacionados com a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro, composta por 11 concelhos do distrito de Aveiro. Ou seja, uma região com mais população e logo com mais potenciais eleitores a quem agradar.

Neste panorama é um anacronismo político para o EDV eleger representantes pelo Distrito de Aveiro.

Este é o desafio colocado aos futuros deputados na Assembleia da República, com ligações a S. João da Madeira:

- ajustar os concelhos às Área Metropolitanas ou a Comunidades intermunicipais, se o números de eleitores o justificar, será a continuação da reorganização silenciosa das regiões. Alterar os círculos eleitorais, aproximando os eleitos dos centros de decisão, tal como a população, é o desafio para uma legislatura.

Estarão os candidatos interessados nisto?

É importante para a defesa dos interesses da população da cidade e dos concelhos vizinhos, que as suas próximas reivindicações tenham sequência nos partidos políticos. 

 

(a publicar no dia 03/09/15)