quarta-feira, janeiro 27, 2016

Os quatro pilares da vitória

                Os resultados das intercalares do último domingo podem ser explicados através da estratégia, do candidato, da equipa e da campanha eleitoral.

               Tudo começou em Outubro de 2015, com o resultado das eleições legislativas. PSD e CDS concorriam juntos e os votos obtidos pela PàF em S. João da Madeira, permitiam traçar um cenário de vitória numas eventuais eleições intercalares. O voto de direita era superior ao voto do PS. Em época de “tempos novos”, a coligação à direita significava um confronto ideológico e nesse sentido, o movimento independente poderia ser esvaziado. A contrastar esta estratégia, à esquerda não houve coligações. Nem poderia haver. Por um lado, devido às duras trocas de ideias na Assembleia Municipal. Por outro, devido à teimosia de alguns partidos em concorrer sozinhos, não ponderando os ganhos ou as perdas ao assumir tal posição. Haveria uma terceira via, mais pragmática de o PS e o movimento independente concorrerem coligados. Tal cenário, sem ideologia a suportá-lo, seria de confronto eleitoral, só que os riscos para o PS seriam muitos, sobretudo na negociação dos lugares na lista.

                Se a estratégia eleitoral do PSD / CDS era a melhor, o seu candidato era igualmente o que dava mais confiança ao eleitorado. Depois de andar dois anos a ser ridicularizado e mal tratado nas reuniões de Câmara e nas páginas da imprensa local, Ricardo Figueiredo aguentou tudo até a um determinado limite. Durante esse período ganhou experiência política, conheceu melhor a dinâmica da autarquia, estudou dossiers e viu a oposição a ser aquilo a que a sua essência de políticos de ambição local lhes permitia ser, opositores. Perderam-se milhões de investimento garantido e passaram-se dois anos a fazer encenações cínicas ou a apresentar requerimentos, não com o objetivo de ler a resposta, mas com a intenção de obrigar o presidente a responder. Em Outubro, Ricardo Figueiredo jogou a sua última cartada, permitindo aos eleitores acabarem com estado a que a Câmara Municipal de S. João da Madeira tinha chegado.

                Acrescente-se outro factor extremamente importante, ao liderar como independente a coligação do PSD / CDS, Ricardo Figueiredo deu outra indicação à cidade: a preferência pela comunidade e não o partidarismo. Um sinal de reconhecimento dessa opção apareceu na sua Comissão de Honra. Vários dirigentes associativos declararam o seu apoio ao candidato da coligação, não precisando de o justificar.            

                Das listas apresentadas a esta eleição intercalar, considerando apenas as das forças políticas que elegeram vereadores em 2016, só a da coligação é que trazia novidades. A lista do PS não entusiasmou o próprio partido. Em contrapartida, o PSD recuperou dois dos seus antigos vereadores, com a ambição de os eleger, embora o 5º elemento fosse desde sempre considerado inelegível, como veio a acontecer. Esta diferença na constituição das listas marcou o processo eleitoral e permitiu à coligação encarar a campanha de forma mais positiva.

                As maiores diferenças revelaram-se na campanha. Aparentemente não se viu nada de muito diferente. Cartazes, páginas na internet, artigos de opinião, ações de rua, comícios em espaços cobertos, visitas a empresas e a associações foram em tudo semelhantes.

Observando melhor, houve opções que diferenciaram os candidatos. Em primeiro lugar a mensagem política. A coligação pedia uma maioria, o PS insistia num tema já explicado e mal compreendido e apostava tudo no seu cabeça de lista ou candidato. Na internet, a coligação recolheu mais apoios do que o PS, embora neste campo, o Movimento independente tenha aparentemente vencido. No desenrolar da campanha, o PSD e CDS trouxeram figuras locais para a campanha. A título de exemplo, João Almeida, candidato pelo CDS em 2009 e em 2013 à Assembleia Municipal, passou mais dias em S. João da Madeira nestes últimos meses, do que naqueles dois anos. Além disso, outras figuras mediáticas vieram a S. João da Madeira, como Marques Mendes. O próprio futuro Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa fez referência às eleições locais, classificando-as como cruciais para a ambição política do partido. E claro, um presidente do partido estar presente num comício, não é o mesmo do que um presidente de câmara, ou um secretário de Estado.

Outro aspecto que importa focar é o calendário das ações. O PS abriu com um comício e a partir daí a campanha decorreu em ritmo lento, terminando sem chama. Em contrapartida, a sequência de ações de campanha, por parte da coligação, foi sempre criando novas expetativas e conseguindo maior mobilização, o que se refletiu nos resultados eleitorais.

Se a nível de cartazes, a coligação explicou bem porque é que havia eleições intercalares, apostando em divulgar o chumbo dos 22 projetos por parte da oposição, já o PS entrou em contradição com o discurso repetitivo das “más contas”, pois apresentou como compromisso eleitoral, candidatar a cidade ou a região a capital europeia da cultura, algo que em Guimarães custou cem milhões de euros em 2012. Relembrando que recentemente, o PS recusou um empréstimo de dois milhões euros, para a construção das novas piscinas.

                Ricardo Figueiredo é de novo presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira. Está de parabéns. Terá pela frente um desafio imediato: reverter a posição do Ministério da Saúde relativamente ao Hospital. Neste capítulo, as eleições também lhe foram favoráveis, 54% dos eleitores, reais da cidade, votaram em forças políticas que defendem a devolução do Hospital à Santa Casa da Misericórdia. Um número inequívoco, que não deixa dúvidas sobre a real vontade da população. 

 

(a publicar no dia 28/01/15)

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Um homem simples

                Há imagens que nos ficam na memória, a que não queremos sobrepor outras.

De Joaquim Carvalho, gostamos de o recordar como o Quim do Pé de Salsa. Evocamos o animador da nossa juventude, sempre disponível para nos servir, sempre dinâmico atrás do balcão, sempre feliz pela nossa presença, sempre acessível para ouvir novas correntes musicais, ou mesmo para voltar a músicas antigas.

Recordar o Quim, é um exercício de saudosismo. Dos anos despreocupados de adolescente e de jovem adulto. Das horas de folia, das noites com hora marcada para terminarem e que inexplicavelmente se prolongavam madrugada fora. Dos fins-de-semana com diversão em S. João da Madeira, ou em tempos anteriores, em Cortegaça.

Tinha a ideia de conhecê-lo desde a minha infância, ou seja, desde sempre. Mas, afinal, não foi assim. Conheci-o apenas nos primeiros anos da minha adolescência, na casa comercial que vendia discos, a Charlui. Eu era frequentador assíduo, após as minhas aulas e um dia apareceu por lá o Quim, sempre apressado, a conversar com o Fernando e logo a seguir a sair. Episódio que se repetiu algumas vezes. Meses mais tarde, descobri-o no Neptúlia, onde trabalhava, e fui cumprimentado de forma calorosa. Algo que ficaria para sempre.

Só me apercebi da sua capacidade de envolvência com os clientes, quando numa festa da AEJ, era necessário mais um voluntário, numa das coreografias, para representar um árabe, sendo sugerido o nome do Quim, pelos restantes elementos do elenco, todos eles clientes do Neptúlia. A sua interatividade e mobilização ficaram patentes quando passou a trabalhar no referido “Pé de Salsa”.

As noites nas imediações da Praça nunca mais foram as mesmas. Transmitia uma dinâmica extraordinária. Vi noites de casa cheia, com o caos instalado e o Quim aparecia após terminar uma outra tarefa e passava a servir cerveja após cerveja, até saciar a sede dos clientes e acalmar os seus ajudantes menos experientes. Era uma época de festas de casa cheia, umas programadas pelo calendário e outras espontâneas. Houve noites de bebidas a serem pagas apenas com uma moeda de dois escudos e cinquenta centavos, que já eram raras nos bolsos dos clientes. Houve noites com aulas de ginástica aeróbica. Houve muitos minutos a ouvir-se Fausto Bordalo Pinheiro, no meio de outras músicas de artistas de expressão anglo-saxónica.

E havia mais do que isso.

Muitas vezes, jantámos à mesma mesa, com mais companheiros e amigos. Fizemos noitadas fora do seu bar. Fomos ao futebol, para aplaudir a ADS. Em matéria futebolística era a única ponte em comum.

Quando a sua sociedade comercial encerrou, o Quim foi trabalhar para outro bar. Continuei seu cliente no Fora d’Horas. Só que tudo estava a mudar. Eu estava a deixar a vida de estudante e passava a ter que cumprir horários. O Joaquim deixava o serviço por detrás do balcão e partia para uma nova aventura. Os encontros passaram a ser ocasionais. No entanto, nos reencontros, recebia sempre o mesmo caloroso abraço. Vim a saber que estava empregado na FEPSA, como responsável de um setor da produção. Fiquei contente por ambas as partes, pois sendo conhecedor do processo produtivo, apercebi-me que a sua dinâmica seria extremamente importante para a empresa. Além disso, vim a constatar que a sua sinceridade e frontalidade, foram importantes para a sua integração e que muito contribuíram para fomentar o espírito de equipa na firma.

A última vez que estive com ele, disse-lhe que ainda me lembrava do seu tique, quando tinha que memorizar as tarefas a executar. Um gesto simples, colocava o dedo na testa e depois apontava uma determinada direção e indicava onde tinha que ir. Uma gesticulação que ajuda ao planeamento instantâneo e a que eu também recorro, naqueles momentos de aperto em que tenho de acompanhar de perto a produção, existindo várias tarefas urgentes a executar, para solucionar o imbróglio criado. Ficou surpreendido e reconhecido.

Não posso deixar de referir um episódio que demonstra a sua honestidade. Na aula de entrega de testes de matemática, o Quim tinha conseguido um bom resultado. A professora estava a enaltecer o seu esforço, o seu estudo por ter conseguido esse resultado. Elogio atrás de elogio e ao ouvir tamanho louvor, o Quim não se conteve e anunciou que tinha copiado o teste todo.

Para a posteridade, ficam estas imagens do Joaquim Carvalho: trabalhador, dinâmico, honesto e simples. Um grande homem.

    

(a publicar no dia 21/01/16)

 

 

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Dias Cinzentos

                Um inicio de ano chuvoso, com dias e dias pardos e sem chama. Seguem-se registos avulsos, deixando pistas pelo meio, para o leitor perceber a desestruturação do texto:

1)      David Bowie foi um grande artista musical, com uma noção de performance fora de série. Criou personagens, recriou-se, lançou vários êxitos musicais. Descobri-o cedo. Não fui indiferente ao “Let’s Dance” de 1983. Um ou dois anos depois tinha acesso, por empréstimo, à sua vasta discografia. De uma assentada 10 LPS e o deslumbramento pela vasta obra ao meu alcance. Compilei algumas músicas em cassete de 90 minutos e ouvi-a anos a fio. Naquela época, importava-me mais a sonoridade e a estética. Havia muito de poses e colocação de braços em palco, que eram absorvidos. David Bowie era diversão. Quando numa discoteca, o dj entoava os acordes de alguma das suas músicas a solo, ou em dueto com MicK Jagger, ou os Queen, seguia-se uma noite memorável de dança. Um registo que se perpetuou no tempo, em especial, nas noites revivalistas. Aliás, confesso que fiquei mais descansado, quando verifiquei que os meus filhos, no seu percurso de descoberta musical, ficaram seguidores de David Bowie. Lá por casa ecoam as ligações de Major Tom para a torre de controlo. A referência a “Space Oddity” é deixada propositadamente para o final, pois durante algum tempo o misterioso lugar onde ficou Major Tom foi uma tentação a atingir. Em “Ashes to Ashes” do LP Scary Monsters, David Bowie redime-se, define o seu astronauta e essa mensagem, singela, é importante para toda uma geração que conviveu com a toxicodependência de perto e no entanto, preferiu viver sóbrio.

2)      6 dias em estado febril, sem hipótese de encostar à cama, para curar uma maldita gripe. Finalmente, o fim-de-semana trouxe o merecido descanso e a respetiva melhora. Em estado de cama, aproveitei para terminar a leitura da viagem de Naipaul (Prémio Nobel da Literatura em 2001) a quatro países que se converteram ao islamismo. Um regresso do escritor à Indonésia, Irão, Paquistão e Malásia, 16 anos após uma primeira vista. O evoluir das várias sociedades, as relações com o passado religioso de cada país, além da situação pessoal de alguns conhecidos do autor depois de 1979, ano da primeira visita. Sem me alongar muito, uma interessante leitura da tensa relação entre as várias fações do islamismo e que ajuda a perceber o conflito Arábia Saudita e Irão. 

3)      Marcelo Rebelo de Sousa impôs a presença de Pedro Passos Coelho em S. João da Madeira. Ao mencionar as eleições intercalares, como partidárias, o candidato eleitoral marcou a agenda. Além da visibilidade nacional transmitida às eleições municipais, todos os agentes políticos ficaram a saber porque é que o professor Marcelo dispensava a presença do líder do PSD na sua campanha eleitoral.

4)      Segui um debate entre dois candidatos presidenciais. Apenas um. A convição inicial não se alterou. A candidata Maria de Belém está a mais nestas eleições. Desde Agosto.

5)      O jornal “O Regional” publicou uma de três sondagens encomendadas para as eleições intercalares de S. João da Madeira. Certamente, outros jornais publicarão outras até ao dia 22 de Janeiro. Os resultados apresentados agradam a uns e logo os desagradados desdenham do estudo, da amostra, do método, etc. É assim a nível nacional, logo a nível local não haveria de ser diferente. Com tanto estudo de opinião a ser publicado até às eleições, todas as candidaturas conseguirão rever-se em algum e com isso acreditar na validade das sondagens.

6)      O parecer do Tribunal de Contas, sobre a passagem do Hospital para a Misericórdia de S. João da Madeira, era dispensável. A decisão em contrário já estava tomada pelo Ministério da Saúde, como se percebe. Serão meses de incerteza os próximos. Pela amostra dos últimos seis, serão meses de agonia para o Hospital.

7)      Mais um dado a acrescentar, para ajudar a captar os votos de militância e de protesto.      

 

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Pelo Estado de Direito

                No jornal Público de sábado, dia 2 de Janeiro, apareceu uma reportagem sobre a importância das Santas Casas de Misericórdia no assistencialismo. Ao virar a página, refletindo sobre os dados apresentados, apercebi-me da importância da União das Misericórdias no Estado Social e também no Estado da Saúde.

                Exercício idêntico tinha feito durante o ano transato, ao apreciar a história e atualidade da Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira.

                Os números nacionais são outros e uma quebra de confiança entre o Estado e a União de Misericórdias, com um hipotético desinteresse destes da função desempenhada no assistencialismo social e mesmo da área da saúde, mergulhava o país numa crise social profunda e irreparável durante anos.

                A notícia não surge em vão.

                O momento é crítico e o texto do jornal nacional foca a importância das Misericórdias. Referindo a passagem nos últimos anos para a esfera da Misericórdia, de vários hospitais, alguns há alguns anos, outros mais recentes e claro, é focado na peça o caso do Hospital de Santo Tirso e de S. João da Madeira, em suspenso à espera da apreciação do Tribunal de Contas.

                O Hospital local será o grande tema de debate destas eleições. São conhecidos todos os factos e as posições dos agentes políticos locais.

                Houve um processo de contestação, com ações concretas como a recolha de mais de 9000 assinaturas e a entrega das mesmas no parlamento.

                Só que um ou dois meses depois, houve um facto novo: um acordo de cedência assinado entre o Estado e a Santa Casa local, em final de Julho do ano passado.

                Ao abordar-se o assunto posteriormente a essa data, não é sério omitir um dos dois outorgantes do contrato.

                É necessário perceber que o contrato não foi assinado entre o Governo demissionário e um qualquer privado de saúde. Não. O contrato foi assinado, por um Governo de valor duvidoso, é certo. Só que o receptor é um parceiro local, precisamente a Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira, que excelente prova tem dado no assistencialismo aos mais desfavorecidos da cidade, ao longo de várias décadas. 

                Na reportagem do labor, percebeu-se o embaraço de Manuel Pizarro, quando confrontada pela jornalista deste jornal, ao desconhecer o teor do acordo, disparando com uma resposta enigmática, que não satisfez os presentes, como num artigo paralelo, ficou expresso através do testemunho de Helena Bastos.

                É precisamente nesse testemunho, duma pessoa conhecedora do processo, sobre as valências transferidas para o Hospital de S. João da Madeira, aquando da constituição do Centro Hospitalar do Hospitalar de Entre Douro e Vouga e as reduzidas atuais, que recai a desconfiança sobre o futuro.

                Mesmo ali, percebeu-se que se fosse claramente conhecida a intenção do anterior Governo, alguns dos assinantes da petição teriam dúvidas em assiná-la e preferiam a certeza do hospital ficar em gestão de uma Instituição local, como a Santa Casa da Misericórdia, do que o incerto futuro no Serviço Nacional de Saúde.

                    Tal como referi, no artigo acima mencionado, houve vários Hospitais a serem transferidos ao longo dos últimos anos para a gestão da União das Misericórdias. Seria interessante avaliar o estado da saúde em cada concelho abrangido e verificar se houve ganhos concretos para a população. Não ponderar isto é entrar na omissão demagógica.

                A Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira só ficará completa quando recuperar o seu Hospital, para colocá-lo ao serviço da população local, tal como acordado com o Estado. Uma reivindicação de 40 anos, que não foi entendida pelos novos agentes políticos locais.

                Esperemos que os próximos tempos sejam esclarecedores e que os erros, anteriormente cometidos, sejam mais uma vez corrigidos.

                A Bem da Cidade e da cordialidade da sua população. Extremismos só levam a radicalismos e a Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira provou ser uma instituição bem-intencionada, ao longo dos seus quase 100 anos de existência.

 

(a publicar no dia 07/01/16)