quarta-feira, setembro 27, 2017

Do Parque ao Fórum

                A participação no Campo de Férias “Estamos Juntos” fez-me conhecer muitos conterrâneos ainda de tenra idade. Entre os anos de 1982 e 1987, as traseiras da escola primária do Parque recebiam, nas manhãs de Julho, os participantes daquela iniciativa, pioneira no preenchimento ocupacional dos tempos livres das crianças e jovens, entre os 4 e os 12 anos de idade.
Essas manhãs eram preenchidas com atividades desportivas, contacto com algumas e aprendizagem rudimentar de outras. Além da promoção do convívio entre os demais participantes, completava-se o tempo com a experimentação de artes performativas, com peças de teatro e danças a serem as mais eleitas. Com base neste esquema, foram-se sucedendo as edições do Campo de Férias. O número de participantes foi aumentando de edição para edição, apesar de surgir concorrência após as primeiras edições. Uma constante desses anos foi inovação implementada, que atraía os participantes dos anos anteriores e fidelizava outros para os anos vindouros. Neste capítulo, recordo-me da construção de um campo de basquetebol, nos quinze dias anteriores ao início de uma das edições, ou do fim-de-semana em acampamento na Serra da Freita, ou mesmo, a receção de um grupo de ingleses ao abrigo dos programas de intercâmbio, para exemplificar o que se conseguia fazer em tempos remotos.
Neste contexto conheci Paulo Cavaleiro. Lembro-me dele ainda criança, sempre com vontade de descobrir novas modalidades desportivas, de competir com os mais velhos e de se superar. À medida que o conceito do “Estamos Juntos” foi evoluindo, ao ponto de se constituir como Associação e passar anos depois a organizar os Campos de Férias nas Corgas, teve sempre a companhia do Paulo. Recordo quatro desses momentos, que podem ajudar a caraterizá-lo:
I) nos torneios desportivos do Campo de Férias, por vezes, havia provas a decorrer em simultâneo, uma final do torneio de xadrez coincidiu com as provas de Natação, voluntarioso o Paulo manteve a participação em ambas, abandonava o tabuleiro e ia nadar e depois da prova, voltava ofegante para o tabuleiro e repetia o vaivém porque estava inscrito para outra;
II) anos antes, num dos primeiros acampamentos na Serra da Freita, um dos inscritos tinha 4 anos, Paulo era o mais velho, ficou responsável durante os três dias por cuidar do mais novo, a criança foi entregue aos pais sem qualquer arranhão;
III) numa determinada manhã, Paulo e sua irmã Sónia apareceram a correr pelos acessos da escola do Parque com umas folhas na mão, tinham criado um jornal do Campo de Férias – “o Férinhas” – tudo escrito à mão e assim copiado, a iniciativa vingou, tendo sido nesse título em que publiquei o meu primeiro texto;
IV) por fim, na tal evolução da AEJ, organizaram-se vários espetáculos na Praça Luís Ribeiro, em 1989, o “Adeus ao Verão” espetáculo com artistas sanjoanenses e durante vários anos da década seguinte, a festa final do Campo de Férias, escusado será dizer que Paulo participava sempre, mobilizando outros jovens para o palco, enfrentando a assistência sem qualquer dificuldade.
Ao longo do seu percurso de vida, que fui acompanhando, encontrei sempre estas caraterísticas. Primeiro no futebol, depois na sua dedicação à ADS, mais tarde como profissional de desporto e por fim, na sua carreira política. Tudo etapas mais ou menos conhecidas dos leitores e que têm sido lembradas na propaganda política.
Paulo entrou na vida partidária muito jovem, fez a ascensão política de baixo para cima, ou seja, da juventude partidária até ser candidato a presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, subindo os sucessivos degraus em mais de 25 anos de filiado. É olhado com desconfiança, por um certo elitismo, que não acredita na sua simplicidade e na sinceridade do seu discurso. Esquecem a sua capacidade de mobilização, de iniciativa e da energia que deposita nas suas convicções. Não compreendem que a sua política é próxima dum humanismo preocupado em cuidar dos mais desfavorecidos, promovendo o desenvolvimento e a justiça social. Felizmente, Paulo Cavaleiro não alterou o seu discurso, nem se iludiu com uma perspetiva económica nas suas palavras. Manteve-se focado na cidade, nas suas instituições e associações e sobretudo, nos seus habitantes.
Para chegar ao 7º piso do Fórum Municipal falta-lhe apenas ultrapassar um degrau democrático, vencer as eleições deste domingo.
 

quarta-feira, setembro 20, 2017

Como vai a campanha

A argumentação política, em torno das autárquicas do próximo dia 1 de Outubro, continua aquém do esperado.

Por um lado temos os partidos ou coligações a apresentarem candidatos e o programa eleitoral, ou seja, com um espírito positivo e tentando manter uma elevação eleitoral. Por outro, temos o costume… a centralização na pessoalização, entrando-se na tentativa de denegrir a imagem dos adversários, utilizando-se, desta vez, as querelas partidárias como argumento. Cada vez mais, temos as redes sociais como fator de mobilização. Passando as ideias ali expressas para os textos de opinião nos jornais e até neste contexto surgiu uma notícia não assinada, no jornal labor, na qual a deontologia jornalística parecia ter ficada esquecida.

Poderia escalpelizar os casos e dar vários exemplos, através dos textos que fui recolhendo ao longo deste últimos quinze dias, acrescentando alguns de Julho, quando ficou oficializada a candidatura de Paulo Cavaleiro como candidato pela coligação PPD-PSD / CDS-PP. No entanto, seria maçador para os leitores prosseguir com o exercício exaustivamente, por isso, apenas será apresentado um ou outro exemplo, de forma reduzida.

Ficou visível para a sociedade a inversão de juízo que os agentes de oposição passaram a fazer do presidente da Câmara Municipal em exercício. Ricardo Figueiredo durante três anos e oito meses não foi reconhecido meritoriamente. Sofreu alguns ataques, como nunca tinha sido visto em S. João da Madeira. A partir do momento em que anunciou a sua indisponibilidade para se recandidatar e ficando-se a conhecer os pormenores desse processo, tal facto provocou uma inflexão na opinião que os seus opositores tinham sobre si.

Há quatro anos, utilizavam-se argumentos de elitismo para atacar Ricardo Figueiredo. Hoje, é o inverso. Apelida-se a candidatura de Paulo Cavaleiro de “populismo”. O populismo é um flagelo na democracia ocidental, que assenta em pilares como o ataque aos refugiados, aos imigrantes e sobretudo, às elites. Não se verifica a utilização de qualquer ataque por parte da coligação PSD / CDS a um dos grupos mencionados. Antes pelo contrário, há uma mensagem explícita que as “elites” de S. João da Madeira não querem Paulo Cavaleiro como presidente. Não me parece que tal seja verdadeiro. Estive na apresentação do candidato no Largo S. António em Julho e muitas das pessoas presentes, tinham estado igualmente em 2013 na Casa da Criatividade na apresentação de Ricardo Figueiredo, à qual igualmente compareci. Em ambas como independente. Há uma catarse argumentativa, uma expiação do populismo exercido em 2013, que fica bem se o arrependimento for sincero e não pontual. 

As redes sociais são hoje um instrumento ideal para o poder de manipulação. Devia ter escrito a frase entre aspas, pois é uma citação retirada de um texto de Pacheco Pereira. O contexto era a comemoração das 10.000 edições do jornal Público. O historiador alertava para a necessidade de mediar os comentários anónimos nas páginas on-line dos jornais nacionais. Quando li, lembrei-me dos ataques que existem no jornal “O Regional” aos cronistas residentes. É certo que existem outros esquemas de manuseamento das redes sociais a favor quer de políticos, quer de políticas, tudo isto sem qualquer transparência, utilizando-se páginas anónimas tentando ridicularizar candidatos, como tem acontecido nas eleições deste ano. Na mesma semana, uma página do Facebook, especializada em satirizar os agentes da política, publicou dois posts alusivos ao candidato de PSD / CDS de S. João da Madeira. Pelo meio ainda o brindaram com uma alcunha.

                Perante tudo isto, aguarda-se pela publicação de novas sondagens, para verificarmos qual a mensagem que melhor é acolhida pelos eleitores: a positiva, respeitando os adversários políticos e promovendo uma campanha dinâmica de informação ou, no campo oposto, a ziguezagueante com argumentos antagónicos conforme o adversário e sobretudo, com apreciações dos candidatos que em nada abonam a classe política que o permite.

                O escrutínio do primeiro dia de Outubro dissipará todas as dúvidas. 

 

(a publicar no dia 21/09/17)

quarta-feira, setembro 06, 2017

Apontamentos de Agosto (não necessariamente autárquicos)

1. Em 1986 quando a Praça Luís Ribeiro ficou liberta de trânsito, havia a ingénua expetativa de a tornarem num espaço amplo, como algumas praças de cidades europeias (incluindo as vizinhas espanholas), mantendo a traça arquitetónica do lado nascente, que nessa época tinha o seu lado sul a fechar. Infelizmente, o Parque América, apesar de ainda não estar finalizado, já era uma realidade edificada, demonstrando a sua monstruosidade. O anunciado progresso com arranha-céus, centro comercial, discoteca e cinema inibiram a população de se pronunciar contra a construção. Houve sempre a esperança, atendendo às dificuldades da empreitada, que o edifício jamais terminasse. Ano após ano, a obra esteve parada e durante todo esse tempo não houve nenhuma manifestação veemente, ruidosa e organizada. A passividade continuou com a ideia de aplicar uma chaminé bem no centro, retirando amplitude à Praça. Nessa época, a possibilidade de promover concertos de música era uma realidade bem aproveitada, enchendo-se o centro com centenas de pessoas, para ouvir grupos de vários estilos musicais, havendo um critério rigoroso na seleção dos mesmos. E não havia sábado, domingo ou feriado em que não estivesse a praça cheia, mesmo na véspera. O elemento arquitetónico, depois de entrar em funcionamento em 1992,nada trouxe ao centro. Na perspetiva de espaço musical, a redução de capacidade na plateia, devido ao volume de construção no centro, associado a uma escolha sofrível nos concertos promovidos, foram afastando a população. Entretanto, novos espaços da cidade recebiam concertos a sério. O elemento arquitetónico era pouco visitado, até surgir a ideia de ali instalar uma associação de jovens. Tudo mudou já neste século, esta associação foi despejada, o elemento arquitetónico ficou vazio, a ocupar espaço no centro da Praça e aos poucos a sua utilidade foi posta em causa, bem como, a sua estética. Este Agosto desapareceu. A Praça ganhou de novo amplitude, visibilidade de nascente para poente, trinta anos depois. Houve protestos. Chegaram atrasados. Três décadas, uma geração. Tempo perdido.

2. Foi simpático aparecer um cachecol da ADS, durante o concerto de Manel Cruz no Festival de Paredes de Coura. Passei por lá quatro dias, a ouvir bandas emergentes e outras consagradas, muitas ao meu gosto, noutros casos a descobrir novos sons e a educar o ouvido. Sobretudo ouvir jovens que se inspiram em bandas que acompanhei devotamente, nos tais anos 80 do século passado. No rescaldo das férias, passei o mês a ver concertos. Logo no início a assistir à homenagem da cidade do Porto e do festival PianoFest à pianista Olga Prats. Além dos dias do Alto Minho, ainda tive tempo de passar, no sul do país, pelos Xutos e Pontapés, para mesmo no fim de Agosto e passados 33 anos, conseguir assistir ao filme Stop Making Sense. Um concerto dos Talking Heads filmado pelo falecido Jonathan Demme (realizador referência do cinema norte americano da década de 90). Numa sala de cinema, tive oportunidade de ver um documento que mostra o divertimento que pode ser um concerto, para o público e para os músicos. Além disso, a prestação de David Byrne é excelente e deu para arrepiar ao assistir ao seu desempenho, levando-me a perceber como sempre gostei da exuberância, no momento apropriado.

3. Assunto de Agosto, resolvido no início de Setembro, compareço na apresentação da nova equipa de Natação da ADS. Como sócio fico contente pela aposta do clube. A ADS continua a prestar um grande serviço à comunidade local e como bem afirmou o seu presidente, Luís Vargas Cruz, seria imperdoável que a atleta olímpica da cidade, Ana Rodrigues, tivesse que ir representar um clube de outro concelho. Dos novos diretores da secção, espera-se a dedicação apropriada para constituir uma nova equipa de acordo com os pergaminhos do clube. Ao treinador, Luís Ferreira, pela experiência acumulada, pede-se o empenho de sempre e sobretudo, audácia, para lançar um projeto de longo prazo para a Natação de competição de S. João da Madeira.