terça-feira, junho 27, 2006

Festejos de Iuri

O pouco dinheiro na carteira obrigou Iuri a ir a casa. Saiu do café, decidido a voltar para festejar o feito da selecção do seu país, a passagem aos quartos de final do Campeonato do Mundo.
Entrou em casa e por hábito fechou a porta. Não estava ninguém, os outros Ucranianos que dividiam a casa com ele, trabalhavam em turnos e só chegariam tarde.
Abastecido de economias, engoliu um copo de aguardente poderosa e preparava-se para voltar ao café. A noite ia ser longa. Iuri estava feliz, muito feliz. O seu pobre país estava na elite do futebol mundial, vitória por pénaltis sobre a rica Suíça.
Antes de sair Iuri precisa de ir à casa de banho. Nesse momento tocam à campainha. Iuri tenta despachar-se. Novo toque à campainha. Iuri sai da casa de banho e dirige-se para a porta. Batem à porta com força. Três toques, tipo murros. Começam a gritar no patamar. Iuri não percebe quem é e pensa tratar-se de outros compatriotas mais bebidos do que ele. Só pensa no barulho que deve incomodar os vizinhos, em especial o do lado, que é nem mais nem menos do que o senhorio.
Corre para abrir e depara-se com um polícia. Tenta explicar-lhe o atraso mas, o polícia não lhe permite. Só percebe as palavras: documentos, bandeira, Ucrânia e multa. Iuri tem dificuldade em perceber o que o polícia está a dizer-lhe, quase a berrar-lhe. Começa a ficar preocupado. Pede desculpa ao polícia e tenta falar. Nisto o senhorio abre a porta. Vê o polícia alvoroçado e Iuri em dificuldades e intervêm: Sr. Guarda que modos são esses, a esta hora da noite?
O Polícia irritado atira, “O senhor não se meta. Isto é entre mim e aqui o Shevchenco”. Iuri percebeu. O senhorio não gostou, “Vamos lá ver, este prédio é meu. Esse homem chama-se Iuri é meu inclino, vive com mais três ucranianos, pagam-me a renda mensalmente, no dia combinado. Além disso, sei que são bons trabalhadores, porque conheço bem os seus empregadores, todos eles meus amigos. Afinal o que esse homem fez, para o deixar tão irritado?”, perguntou. O homem da farda, ouvindo um tom calmo, serenou: “Segundo a lei a bandeira nacional, quando desfraldada simultaneamente com outras bandeiras de outros países, não poderá ter dimensões inferiores às destas”. O senhorio não conseguia acreditar, perguntou logo, que raio de lei é essa? Com um ar triunfal o polícia respondeu “Decreto - Lei n.º 150-87, de 30 de Março, aprovada em Conselho de Ministros liderado por Cavaco Silva e promulgada pelo Presidente da República, Mário Soares”. O inquilino não percebia muito bem a conversa, mas o tom era mais sereno e esperava que o senhorio resolvesse a questão.
Ao senhorio, por seu lado, a questão continuava sem ser entendida: - Ó senhor Polícia diga-me então como é que o Iuri não está a cumprir esse decreto?
- Com muito gosto, lá fora estão exposta duas bandeiras, a de Portugal e a do país aqui do Iuri.
- Certo. E isso viola o seu decreto de lei?
- Claro. A bandeira de Portugal é mais pequena do que a outra.
Aparvalhado, o pobre senhorio não queria acreditar. “Ó homem, a bandeira Nacional é minha, com muito gosto e a da Ucrânia é destes desgraçados. Estão lado a lado, sim senhor e digo-lhe mais, a de Portugal está em minha casa e a deles na casa alugada e garanto-lhe que eles pediram-me autorização.”
- Estou a ver mas, pelo que diz o decreto, não se pode hastear uma bandeira estrangeira em território nacional sem colocar a bandeira de Portugal.
O senhorio não queria acreditar no excesso de zelo do polícia. Tentou uma abordagem nova: O senhor deve ter familiares no estrangeiro, talvez em França ou na Suíça, não é? Se falou com eles ontem ou hoje certamente que lhe contaram maravilhas sobre os festejos da vitória da nossa selecção. Todos nós vimos como os Campos Elísios se encheram de Portugueses. Não houve problemas com os Franceses, não foi?
O polícia estava na expectativa, tinha o bloco e a caneta na mão e lá acabou por dizer que tinha tios e primos em França.
O senhorio continuou: “O senhor já ouviu falar da Lei do Ruído? É de 2001, penso eu. Garanto-lhe que foi aprovada em Conselho de Ministros liderado por António Guterres e promulgada pelo Presidente da República, Jorge Sampaio. Ontem os festejos foram mais ruidosos. Ninguém se incomodou, porque a alegria era imensa.” Sem parar continuou: “aqui o Iuri festeja de forma diferente, não tem carro, não pode andar às voltas a buzinar. Vai até ao café, beber umas bebidas fortes, conversar e recordar o seu país com os compatriotas dele. Esperar pelos colegas que estão a trabalhar e quando o café fechar, voltam para casa ordeiramente e se calhar, a cambalear.”
Disfarçadamente o polícia guardou o bloco. O senhorio vendo o gesto, enalteceu a atitude do polícia “pois fique sabendo, que conheço o seu comandante e quando estiver com ele vou dar-lhe os meus parabéns pelo seu excelente gesto patriótico”.
Entrou em casa e a esposa perguntou-lhe o que se tinha passado com os Ucranianos. “Nada. Coitados. Excesso de autoridade, sabes? Esta gente esquece-se o que os nossos emigrantes passaram lá fora”. E ficou a pensar como seriam os festejos face a um apuramento de Angola.
O Iuri ainda atordoado, lá foi. Fartou-se de beber, o café fechou bem mais tarde nesse dia, porque o stock de bagaço e aguardente terminou. A tempo, para descanso do dono.
Na manhã seguinte, Iuri levantou-se e foi trabalhar.

terça-feira, junho 20, 2006

Bandeiras Azuis

Nesta fase do ano, em que a época balnear já abriu e os infantários, as pré - escolas, ou os ATLs, preparam as semanas de praia dos seus alunos, as atenções viram-se para a segurança dos transportes e para a Praia eleita, em especial, a qualidade que esta deverá ter. As praias dos concelhos mais próximos são o destino mais lógico e por isso, inevitável.
De alguns anos para cá, o indicador de qualidade das Praias Portuguesas é a atribuição do galardão, Bandeira Azul.
Em geral os concelhos marítimos – e não só – têm procurado assegurar que as suas principais praias sejam reconhecidas, tendo melhorado e dotado as zonas costeiras com os indispensáveis equipamentos de apoio aos banhistas, incluindo a limpeza da praia e claro está, da qualidade da água.
O concelho de Gaia não perdeu tempo. Aproveitou quinze quilómetros da sua costa, designou-a por Orla Marítima e lançou-se ao desafio ambiental de a qualificar. Resultado: dezassete praias têm Bandeira Azul em 2006, nesses 15 quilómetros. Em contraste, na Zona Centro, que é definida em termos costeiros pela sequência entre o norte do concelho de Ovar até ao sul da Figueira da Foz, finalizando concretamente na Praia do Osso da Baleia do concelho de Pombal, o número de praias com Bandeira Azul é inacreditável... Dezasseis, sim dezasseis praias, em 125 quilómetros de costa. Que desperdício! Se virmos no mapa, apenas Ovar com a atribuição a 3 praias, Ílhavo com 2 e a Figueira da Foz com 5 é que aproveitam um pouco melhor a costa. O resto é um concelho, uma praia com Bandeira Azul: Murtosa, Aveiro, Vagos, Mira, Cantanhede e a já referida de Pombal.
Num país que se pretende turístico, não aproveitar a totalidade da costa e deixar dezenas de quilómetros de praias, sem acesso rápido, não faz muito sentido. Tendo em comum dunas na retaguarda, escondem-se largos ou estreitos areais, sem barracas, sem jogos de futebol maçadores, sem nadadores salvadores, nem cafés e muito menos cerveja gelada. Os concelhos a que fazem parte esquecem-se delas, desperdiçando assim a costa. Praias sem acesso por estrada, apenas sendo alcançadas atravessando a mata a pé. Porquê?
Mesmo com vias de comunicação, temos outros exemplos de boas praias sem o investimento necessário pelas autarquias para possuírem o desejado certificado. Acessos entregues à anarquia generalizada que, durante anos, caracterizaram as praias de Portugal. Salvo raras excepções; só que essas não as divulgo.
Voltando ao caso de Gaia, praias como Valadares, Canide e Madalena têm dois galardões atribuídos. Metodicamente associou-se qualidade e quantidade, conseguindo-se aquele rácio de número de Bandeiras Azuis por quilómetro. Mais do que atrair turistas, Gaia voltou-se para dentro, garantiu e melhorou a qualidade de vida dos seus habitantes.
Infelizmente na Zona Centro do nosso país, constatamos que nem a vocação turística dos concelhos marítimos está a ser devidamente trabalhada. De nada serve verificar que não é só nesta zona. Só piora.
Termino com um sinal de esperança que nos chega de Ovar. Mais ano menos ano, a Praia do Areínho na Ria de Aveiro conquistará a Bandeira Azul, pelo menos essa é a intenção da Câmara local. Apenas não foi distinguida este ano, porque um dos parâmetros não cumpria o exigido. Algo começa a alterar-se nas praias fluviais, mas aí a situação global é bem mais catastrófica.

terça-feira, junho 13, 2006

Plano de Transportes

Uma pergunta preparada pelas professoras dos alunos do 5ºD da escola EB 2/3, para a reunião de Câmara ficou sem resposta, segundo o relato do Jornal Labor, do dia 8 de Junho. A pergunta referia-se aos Transportes Urbanos de S. João da Madeira - TUS e à possibilidade de se praticarem preços diferenciados para estudantes.
O TUS (vou tratá-los na forma singular) tem circulado praticamente vazio pela cidade. Passado o período experimental e gratuito, a adesão registada a este meio de transporte foi muito reduzida. Verificando isso, o Executivo Camarário já promoveu a alteração dos percursos, de forma a atrair mais clientes.
Ainda é cedo para analisar o efeito desta alteração, no entanto, a sugestão da Escola EB 2/3 permite repensar-se este meio de transporte e articula-lo com as necessidades de um público específico, que são os estudantes. Nunca é demais lembrar que devido às reduzidas dimensões de SJM, não é permitido o transporte escolar oficial. Por essa razão, devia-se adaptar este transporte urbano aos horários escolares, com itinerários e preços adequados, como muito bem propuseram os alunos do 5º D. Passes ou bilhetes com um valor simbólico, à semelhança dos preços anunciados para os idosos possuidores do cartão sénior, ou então, de acordo com uma percentagem do rendimento do agregado familiar do estudante.
Não sendo certo qual o tipo de adesão que se iria obter, uma forte campanha de sensibilização e divulgação poderia, no inicio do próximo ano escolar, catapultar este meio de transporte para níveis de frequência aceitáveis e desejáveis. O TUS não pode cair no ridículo de ficar conhecido como o “Transporte de Utilizador Solitário”.
Um forte incentivo à utilização do TUS é o que se espera. O seu grande trunfo é a flexibilidade, comparado com a ideia de dotar a Linha do Vouga com um “vai-vém” local, conforme o programa eleitoral do partido vencedor das eleições autárquicas. As dúvidas subsistem e mesmo do Fórum Municipal já surgem mais opções a nível de plano de transportes, como a sugestão de “articulação com a expansão das linhas do Metro do Porto”. Uma ideia muito mais acertada, como tive oportunidade de defender em Novembro passado nas páginas deste jornal.
Acreditar que é possível rentabilizar o investimento da criação de uma plataforma bi-modal, com a construção de uma passadeira entre a actual estação e o Centro Coordenador de Transportes, acrescido do custo de adaptação da Linha do Vouga, para o transporte local entre o Orreiro e a antiga Oliva, parece algo exagerado para o senso comum.
A correlação de vários dados económicos é que permitirá equacionar-se a melhor solução para o ano 2015. Indicadores como o rendimento médio dos habitantes do concelho e a disponibilidade financeira para transportes; as flutuações diárias da população: saídas e entradas para trabalhar; a ocupação dos transportes colectivos: destacando-se o número de passageiros de SJM para as cidades de Oliveira de Azeméis, Santa Maria da Feira, Aveiro, Porto e vice-versa, não esquecendo quem atravessa SJM, vindo de Arouca ou Vale de Cambra, são importantes para se proceder a um estudo correcto.
É bom sinal verificar que o Executivo Camarário ponderou a questão dos transportes. Estou certo que praticamente deixou “cair” uma promessa de campanha eleitoral. A expansão para Sul do Metro do Porto será o projecto que maior interesse terá para a população desta região. Com este investimento, a articulação com o transporte rodoviário será uma necessidade maior e a ideia da plataforma terá maior cabimento.

quarta-feira, maio 24, 2006

Poborsky!

O Campeonato de Mundo ou o Mundial é um momento único para o apreciador de futebol. O efeito deste Campeonato sobre as pessoas é inexplicável. Assisti em 2002 à transmissão do jogo de atribuição do 3º lugar, na companhia de dois fulanos de aspecto curioso. Um sem cabelo algum, todo rapado e com um sem número de tatuagens pelo corpo, mais uns brincos e os inevitáveis piercings. O outro tinha o cabelo grisalho, não muito comprido e encaracolado e usava um casaco largo, tipo boémio. Formavam um par curioso. Sentaram-se rapidamente, pediram umas coisas para pequeno – almoço e ali ficaram a vibrar com o jogo. Falavam uma estranha língua entre eles e festejavam os golos da Turquia exuberantemente. Nessa noite, ao assistir nos Jardins do Palácio de Cristal ao concerto de Goran Bregovic e a sua banda (Wedding and Funeral Band), fiquei aparvalhado quando reconheci os meus companheiros de jornada, nem mais nem menos do que o próprio Goran Bregovic (o grisalho) e o vocalista, Sacha (o tatuado), oriundos da ex-Jugoslávia. Para quem não sabe, aquele músico foi o autor da bandas sonoras dos filmes de Emir Kusturica e em parte, deve-se a ele a divulgação da música cigana oriunda dos balcãs.
Não se pense que para os aficcionados apenas os jogos interessam. Desde a fase inicial, a das convocatórias, até ao rescaldo final, tudo é absorvido. A loucura começa com a pressão sobre os seleccionadores para influenciar a convocatória. Na web, durante três meses circulou uma petição, sobre a inclusão de Maradona nos convocados da Argentina, com o objectivo do antigo “astro” jogar apenas 5 minutos. Não teve o efeito esperado mas, conseguiu reavivar a memória dos adeptos, em especial, aqueles que deliraram com os seus golos no Mundial de 86 e que nunca o esqueceram.
A divulgação das convocatórias tem como primeira reacção a contestação, o que é comum nos quatro cantos do mundo. As opções dos vários seleccionadores são contestadas por jogadores não eleitos e também por adeptos, que nesta fase ainda estão presos à cor do seu clube, considerando a não convocação deste ou daquele jogador como uma provocação. Com o desenrolar da prova, tudo se altera...
À contestação segue-se a surpresa. Uma série de nomes há muito esquecidos do nosso dia – a – dia, são convocados para a grande competição desportiva. Jogadores que alinharam em Portugal, nos mais variados clubes, outros que fizeram jogos fantásticos em Mundiais precedentes e que desapareceram sem mais nem menos.
Da República Checa chega-nos a notícia da convocação de Karel Poborsky. O ex-benfiquista, que actua na segunda divisão do seu país, no Ceske Budejovice, é uma das “surpresas” do seu seleccionador, juntamente com o avançado Jan Koller, o gigante do Borussia de Dortmund, que vem depois de sete meses de paragem devido a uma lesão no joelho esquerdo.
Poborsky surgiu no léxico português com um golo que retirou Portugal do Euro 96. Este nome soava a uma saudação eslava, um cumprimento fraterno de amigos e a isso mesmo foi adaptado. Uma forte exclamação: Poborsky, obtinha como resposta uma igual saudação.
A sua transferência para o Benfica foi uma novela do “está pago, não pagou, continua sem pagar” que caracterizaram os anos de presidência de Vale e Azevedo. A saudação de amigos passou a cântico monótono das claques de futebol. Esperava-se tudo da magia de Poborsky, no entanto, os anos passaram e o checo saiu sem grandes alegrias para recordar. Anos sem glória. Talvez por isso, a sua loja de artigos desportivos em Praga, segundo me contaram, não expõe nenhuma camisola do Benfica.
Poborsky depois do Mundial, será assim uma recôndita recordação. Um nome gravado numa camisola, guardada algures numa gaveta, até que a necessidade de espaço e o consequente arrumo, a colocarão de novo nas costas de alguém que ao ler esse nome, jamais perceberá o que significa.

terça-feira, maio 16, 2006

Hobbies

Em tempos tive a oportunidade de conhecer um Espanhol de Pamplona, engenheiro e director de uma unidade de produção que tinha um hobbie curioso: percorrer os caminhos de Santiago. Segundo ele, todos os anos fazia o percurso entre a sua cidade e Compostela, conhecido como o percurso Francês. Estava organizado em grupo e percorria, em várias etapas e durante vários fins de semana, os 730 quilómetros de distância.
Nessa época, eu estava dedicado a palmilhar a Serra da Freita. Ligava, caminhando, aldeias ou testemunhos arqueológicos, com o propósito de chegar via pedestre a S. Macário. Não por qualquer devoção ao eremita, apenas por considerar o morro como o fim lógico do caminho. A meta. O final dessa cadeia montanhosa encantadora, que me seduz desde pequeno. A curiosidade desse percurso foi-me despertado em tempos remotos ao cruzar-me em plena Serra da Freita com 2 peregrinas, que em finais de Julho, deslocavam-se sob um sol abrasador para a festa em honra do dito “santo”, cumprindo assim uma promessa delas.
A minha ideia era delinear o caminho ou os vários caminhos evitando ao máximo o alcatrão. Apenas pequenos trilhos, alguns sem utilização há muitos bons anos. Com as várias etapas, apercebi-me da existência de várias alternativas o que me deixou deliciado. Confidencio que nunca percorri nenhuma das variantes na totalidade, nem terminei o levantamento das sucessivas etapas, ficando por calcorrear 2 desses percursos, entre Côvelo e Regoufe e no final entre Drave e S. Macário. O resto do percurso foi anotado num pequeno bloco, com indicações de distâncias, tempo demorado, pontos de interesse, grau de dificuldade por mim encontrado e outras considerações pessoais. Duas mudanças de casa devem-no ter colocado no fundo de algum caixote, ainda por desarmar.
Ironicamente o hobbie do Espanhol lembrava-me o filme de Luís Buñuel “Via Láctea”. No entanto, era grandioso. Existe sempre aquela admiração nacional pelo que os estrangeiros fazem. Muitas vezes esquecemo-nos dos sacrifícios dos nossos compatriotas e tentamos sempre desvalorizar o que é nosso. Atiramos desculpas para a tipologia da estrada, para o alcatrão e para a sucessão de pequenas vilas e aldeias sem interesse cultural, do nosso principal roteiro de peregrinação.
As autarquias do Norte que são atravessadas pelos Caminhos de Fátima não deslumbram a quantidade de peregrinos que percorrem o mesmo. O Centro Nacional de Cultura em tempos reconstituiu os caminhos de Fátima a partir de Lisboa e mais tarde também do Porto, o caminho do Norte que em parte é o sentido oposto ao Caminho Português de Santiago. Curiosamente, essa pesquisa faz a referência a S. João da Madeira, que é para muitos, uma das paragens desta longa marcha.
Estima-se 25 mil peregrinos nas estradas portuguesas, nos primeiros dias de Maio. Durante uma sucessão de dias, terras como esta cidade são atravessadas por caminheiros, agora de colete fluorescente vestido, com um objectivo comum. Alguns dormem em tendas montadas para o efeito, outros refugiam-se em pequenas pensões ou hospedarias de clientela duvidosa porque a oferta é reduzida ou no oposto, demasiado onerosa.
Existe um potencial de promoção da cidade que poderá valer mais do que qualquer suplemento de jornal. Faltam 345 dias para a próxima grande peregrinação, algo será feito até lá?

segunda-feira, maio 08, 2006

Vícios perdidos

Na adolescência elegemos ídolos. Precisamos e identificamo-nos com eles. Procuramos novas referências através de um texto, uma frase, um filme, um quadro ou até uma música. Pelo meio, uma imagem, uma mensagem ou uma atitude têm a particularidade de nos fascinar e por vezes, de nos fazer sonhar, numa idade em que acreditamos que vamos ser fabulosos e que a nossa vida será única.
Praticamos o culto de ícones, sem o saber. Fixamos o olhar nos nossos ídolos. Das poses com estilo, reparamos nos pormenores, nos acessórios de vestuário, nos metais cravados no corpo, no cigarro na boca, etc.
Procurei nas minhas memórias quem seria o meu ícone do cigarro.
Ao visionar um DVD de Nick Cave ao vivo, apercebi-me que guardo dele essa imagem. Ao vê-lo ali de cigarro em punho, envolvido em fumo, cantando as suas músicas, recuei no tempo. Lembrei-me do episódio da invasão do palco na sua actuação no Teatro Rivoli, quando um cigarro na boca do australiano foi aceso por um solicito espectador.
O fenómeno Nick Cave surgiu na minha adolescência. Na época ainda estava distante das baladas. Um músico associado a canções depressivas, de sofrimento e de loucura, de narrativas macabras, etc. Como era meu costume pesquisei os seus primeiros trabalhos a solo, extremamente sombrios e “suportei” os Birthday Party, sua banda anterior. Mas, o primeiro grande momento do compositor australiano seria a edição do seu disco “Tender Prey”. Presenteava-nos com um humor ácido e pouco usual, alternando ideias musicais sempre dentro de um formato semi-acústico que não permitia o seu encaixe em termos de catálogo musical como "gótico", "pós-punk" ou outros clichés afins. Consequentemente, a sua apresentação na Cidade do Porto no final do ano de 1988, no tal concerto atrás referido, foi um momento inesquecível.
O seu trabalho seguinte, “The Good Son”, marca uma nova fase da sua carreira, um disco de baladas, cheio de referências bíblicas. Por aqui fico, pensei. Cansado com desilusões musicais: apreciar bons músicos transformados em mega estrelas pop, assistir à decadência dos ídolos da cena musical da década de 80; por tudo isto, a blasfémia de Nick Cave em lançar um álbum de baladas foi mal interpretada.
Os anos seguintes foram engraçados, as pessoas “reconheciam” no meu caminhar o estilo Nick Cave, comentavam comigo que o tinham visto num filme, que tinham adquirido o seu disco. Pediam-me antigos discos emprestados. Entretanto, uma sequência de edições de novos discos, reabilitaram o músico. A ligação com a fenomenal Kylie Minogue, em “Murder Ballads”, ao jeito de a Bela e o Monstro, fizeram-me apreciar as suas baladas. Pelo meio, a leitura do seu livro, “And the Ass saw the Angel” ajudou-me a compreendê-lo melhor.
O seu estilo reconhecido de “songwriter” perdurou, o trabalho seguinte “The Boatman’s Call” é um álbum fantástico e tive uma agradável surpresa quando em pleno “Shrek 2”, na primeira incursão ao cinema no papel de Pai, ouço a sua voz cantando “People Ain’t no Good”, com o Gato das Botas inconformado, afirmando “Detesto baladas!”.
Recordar tudo isto a propósito da proposta da nova lei que proíbe de fumar em locais públicos, surge na sequência da indignação de uma série de colunistas de jornais e da blogsfera. Nessa semana, passei horas a ler manifestos de fumadores. O cigarro de Humphrey Bogart, de James Dean e de outros mais, eram os ícones associadas aos textos postados.
Nunca fumei.
Sendo não fumador aprecio o cheiro a tabaco, o que é curioso. Não penso algum dia começar a fumar. Aprecio a boa história de quem conseguiu atempadamente largar o vício, como a da longevidade do mesmo.
Até ter filhos sempre permiti que fumassem em minha casa, mesmo sendo asmático crónico, porque sempre acreditei naquele princípio que a nossa liberdade termina quando estamos a incomodar os outros.
Ao ver Nick Cave cantando “New Morning” no tal DVD, pedindo um cigarro ao público e sendo brindado com dezenas, numa cena algo humorística, imagino o que seria proibir um concerto sem tabaco. Onde ficava esta representação, que pelo vistos perdura desde o espectáculo do Rivoli?

terça-feira, abril 25, 2006

Semáforos no EDV

A notícia indicava que vinte e três concelhos concentram metade do poder de compra de Portugal Continental. Os dados tinham por base o “Sales Index”, que é um índice expresso em permilagem que permite comparar os concelhos entre si e analisar a contribuição de cada um para um total de 1000, o que corresponde aos 278 concelhos do Continente.
Este estudo, que em tempos colocou o concelho de S. João da Madeira no 3º lugar, é sempre muito esperado por revelar indicadores de rendimento e consumo de cada concelho. É calculado com base em variada informação, nomeadamente a população residente, as receitas fiscais, as vendas de automóveis, os consumos de electricidade, as dependências bancárias e os estabelecimentos comerciais.
O destaque era dado para a localização geográfica dos 23 concelhos, quase todos litorais, ocupando 5.0% da área total do Continente e concentrando 43.2% da população residente. Dos 23, onze concelhos situam-se na área da Grande Lisboa (até Setúbal), 6 na região do Grande Porto e 1 no Algarve. Para além de Leiria, que é um concelho do litoral, apenas 4 são concelhos do interior (Braga, Coimbra, Guimarães e V. N. Famalicão), sendo dois deles capitais de distrito. E então enumeravam: Lisboa, Porto, Sintra, Oeiras, Vila Nova de Gaia, Loures, Cascais, Almada, Matosinhos, Coimbra, Braga, Amadora, Seixal, Setúbal, Guimarães, Gondomar, Leiria, Vila Franca de Xira, Maia, Santa Maria da Feira, Odivelas, Loulé e V. N. de Famalicão.
Assim, cruamente.
Lendo outra vez, verificamos que não nos enganámos. Dos concelhos referidos nenhum é S. João da Madeira. Os números da Marktest, responsável por este estudo de periodicidade anual, retiram importância económica a este concelho. O poder de compra era o principal trunfo de S. João da Madeira quando se comparava com os concelhos vizinhos, todos eles “gigantes”, quer em área, quer em n.º de freguesias, ou em termos populacionais.
Se verificarmos a localização dos 23 concelhos, observa-se que todos estão servidos por auto-estradas, alguns por mais do que uma, independentemente dessas serem SCUTs ou com portagem. Em geral, todos têm em comum as rápidas acessibilidades, o que permite garantir a pronta mobilidade dos seus cidadãos, dos bens produzidos ou necessários, o mesmo acontecendo com os serviços. Durante anos ouvi, em conversa de amigos, dissertações sobre a importância das grandes vias na economia nacional. O exemplo era sempre o mesmo, S. João da Madeira devia parte do seu desenvolvimento à sua localização geográfica, em plena Estrada Nacional 1, que até meados da década de 80 do século passado era a principal via de comunicação do país. Com a A1 construída, no princípio da década de 90, novos centros económicos iriam aparecer e SJM ia perder poder de compra. Sempre rebati. O nó da A1 distava 7 quilómetros e uma distância tão curta poderia perfeitamente ser torneada, houvesse capacidade de captar investimentos a nível industrial, de serviços e de comércio, até porque efectivamente “o poder de compra era elevado”.
Os anos seguiram-se. Os números agora são outros...
Abordar este assunto é complicado. Recordar reivindicações e promessas eleitorais de uma ligação por auto estrada de S. João da Madeira ao nó da Feira da A1 seria um anacronismo. Acreditar que a redefinição das acessibilidades, com a abertura de novas frentes - a ligação à A29 (antigo IC1) no nó de Ovar e a auto-estrada directamente aos Carvalhos, numa via de traçado complicado, poderá dar novo alento à economia local, é uma opção “politicamente correcta”.
Enquanto se espera pela conclusão destas obras é necessário obter dos concelhos envolvidos na sub-região Entre Douro e Vouga (EDV) o compromisso de que a mobilidade na referida região será conseguida sem prejuízo para a população residente. Uma viagem de S. João da Madeira para Norte via EN1 é extremamente demorada devido aos semáforos entre Lourosa, Picoto e Grijó. A alternativa, via Santa Maria da Feira e daqui seguir numa das auto-estradas para Norte, torna-se imprevisível devido ao desesperante semáforo de Sanfins, obrigando a esperas por vezes prolongadas, para um percurso de 7 quilómetros. A nascente, em Nogueira de Cravo, mais um semáforo a condicionar o trânsito na ligação para Vale de Cambra ou para Arouca. Mesmo a sul, a sequência Pinheiro da Bemposta, Curval e Branca estão repletos de semáforos, situação torneada pela construção entre Oliveira de Azeméis e Estarreja de uma ligação rápida ao nó da A1 e também A29, o que facilitou a vida a quem se desloca para Sul.
O desenvolvimento desta sub-região fica fortemente penalizado pela existência destes sinais luminosos. Por todo o país, assistiu-se à sua substituição por rotundas, mesmo em estradas nacionais consideradas perigosas. As vantagens são óbvias, evitando-se a formação de longas filas de trânsito, com prejuízo para quem tem que se deslocar dentro da região. Aliás, as recentes notícias da perda de valências da Urgência do Hospital de S. João da Madeira e do encerramento da Maternidade do Hospital de Oliveira de Azeméis, com transferência desses serviços para o Hospital S. Sebastião em Santa Maria da Feira, obrigam a que se repense a continuidade do semáforo de Sanfins e até o de Nogueira de Cravo.
Esperemos que a saúde dos habitantes desta sub - região seja argumento preponderante para a eliminação destes gargalos da economia local.

segunda-feira, março 27, 2006

Vicente e Mago

O corvo sobrevoou a Praça. Era final de tarde, o comércio já tinha fechado e poucos humanos ali permaneciam. Avistou um gato perto dele. Era o seu alvo. Já o seguia há alguns dias mas hoje não escapava, a oportunidade era única.
- Boa tarde, Sr. Mago! – chamou o Corvo.
O gato olhou e apenas viu um Corvo, não queria acreditar.
- Ó ave necrófaga, como sabes o meu nome de família? Farei por acaso, parte do teu cardápio? – perguntou o gato.
- Tem calma, não precisas de te preocupar. Nem estás para morrer, nem eu aprecio comer cadáveres, sou mais do género caçador – prefiro a carne quente. Como podes comparar pela diferença do nosso tamanho, não pretendo ter problemas contigo – assegurou o corvo.
- Explica-me então, como sabes o nome da minha família – ripostou o gato Mago.
- Caro jovem, tenho-te seguido sem dares conta, pelas ruas da cidade. Quando te vi, fizeste-me lembrar um velho conhecido. A forma de andar, esse ar majestoso recordaram-me um gato, que tal como eu, foi personagem de um livro antigo. Observei-te melhor...
Mago interrompeu: Olha lá! Esse gato era meu tetra – avó, o orgulho da família. É engraçado ainda te lembrares dele. Mas ouve, tu és o Corvo Vicente, o rebelde?
- Nem mais! Apesar de cada um ter o seu capítulo, os Bichos conheciam-se e por isso foi fácil rever em ti a tua ascendência – disse Vicente.
Mago não queria acreditar. O Corvo Vicente, esse herói mítico da bicharada, ali em frente a ele:
-Ó insubmisso, ó dissidente! Sempre apreciei a tua coragem em trilhares o teu próprio destino. Nunca consegui ser como tu, entreguei-me sempre à mão que me alimenta. Procurei sempre o lado cómodo da vida e com isso sofro bastante.
- É mal de família, procuram sempre o aconchego do colo humano e perdem a vossa dignidade.
- Dignidade e não só... – completou Mago.
- Como fazem então para ter herdeiros? – perguntou Vicente, com um sorriso no bico.
- Não sejas trocista, Corvo anarca. Como deves calcular, transmitimos de pais para filhos, o que significa privação. Fingimos ser jovens e brincalhões até conseguirmos conquistar alguma fêmea. Não esperas que te conte mais pormenores, pois não? – suplicou Mago.
- Não, amigo Mago. Brincava apenas contigo. Devo respeitar-te como é evidente. Ainda por cima dizes que sofres... – confortou Vicente.
- É mesmo. Os outros animais não entendem. A opção por este estado não é minha. Isto é... directamente! Os meus donos é que são responsáveis pelo meu estado assexuado. Quando saio, outros gatos metem-se comigo, insultam-me e agridem-me – lamentou o gato.
Vicente sentiu a mágoa de Mago.
- A intolerância neste casos é grave. A orientação sexual de cada ser vivo deve ser respeitada pelo outros ou, no teu caso, a falta dela.
- Pois deveria – disse Mago. Mas, houve lá Vicente, que idade tens? Deves ser muito velho?
- Nem os conto. Não penses que saí da Arca e sobrevivi, para ficar a contar os anos da minha vida. – refilou o pássaro. Desafiei Deus e ousei enfrentá-lo para enquanto os humanos se lembrarem de mim, ser imortal.
- Compreendo o teu desejo. Não me digas que visitas os Bichos ou os seus descendentes por esse mundo fora!? – perguntou Mago.
- Seria interessante para manter viva a obra do nosso criador. Passei por cá algumas vezes e mal sonhava encontrar um descendente do velho Mago. Enquanto foram vivos, convivi com todos. Entretanto, com as gerações seguintes, tem sido mais difícil...
- O que fazias nesta cidade? – questionou Mago.
- Nas viagens do meu reino para o litoral, costumo passar por aqui. Por vezes, observo factos interessantes de alguns lugares e volto...
- E aqui o que te agradou? – voltou a interromper Mago.
- Directamente não te sei responder. O que mais me surpreendeu foi um acto de rebeldia.
- Aqui, Vicente? Deves estar enganado? – admirou-se Mago.
- Está-te no sangue, não aceitas nada que altere o teu conforto. Essa forma cómoda de ser, de estar, digna do velho Mago. Não havia nada melhor que os braços da Dona. O borralho da velha cozinha e as horas ali perdidas a dormir.
- Sempre gostei, também. Mas Vicente, explica melhor essa tua história, da revolta...
- Lembras-te quando estavam a montar estas estruturas metálicas com vidro aqui na Praça? – perguntou Vicente e sem esperar resposta continuou: Numa das ruas, essa montagem foi interrompida um dia. Uns humanos alegavam ser ilegal retirar-lhe o trânsito e transformá-la em zona pedonal. Passava por cá e assisti a tudo. Vi que argumentavam com clareza e mesmo perdendo a batalha, foram para a luta política.
- Estou recordado, mas sem perceber onde queres chegar – disse Mago.
- Pois, aqui vai. Como deves compreender actos reivindicativos, com fundamento e sem violência, são por mim muito apreciados. Voltei a passar por cá, passados alguns meses e felicitei-me ao ver a vitória das suas cores partidárias. Como não conheço as gentes desta cidade, acreditei que havia relação entre os dois factos e regozijei-me por isso.
- Ui Vicente, ui! Estás enganado, Corvo – atirou Mago.
- Fico espantado! Tal como fico quando ao fim destes anos todos, voo para cá de novo e vejo a rua no mesmo estado. Afinal para que serviu toda aquela argumentação?
- Não me arranjes problemas. Essas coisas de humanos e política não são para mim. Mesmo os meus donos não estão para se chatear. Política só via TV, o professor e pouco mais. Aqui o que aconteceu é que as pessoas ficaram fartas de obras e o que querem é tranquilidade. Imagina só, obras outra vez. Querias o quê? Que tirassem as estruturas todas?
- Não, acomodado Mago, apenas as necessárias para repor a normalidade na fluidez do trânsito da cidade. Mas, tu é que estás enganado! O resto da cidade está em obras, só aqui no centro é que continua tudo parado.
- Ouve Vicente, esquece. Ninguém quer saber disso. Porque te preocupas com isso? Nem sequer és de cá. Passas de vez em quando. Desta vez viste-me e isso é que é importante.
- Sim, mas não só... Pelo que ouço, pressinto que tens alguma razão, jovem Mago. Vou, então!
- Espera não vás ainda. Gostava de falar melhor contigo, sabes dos outros Bichos ? – gritou desesperado o gato.
- Sabes Mago, irrita-me essa tua passividade. Vou procurar outras paragens, enganei-me. Descobri por ti o meu erro, costumo não me enganar nestas coisas, não gosto de me desiludir.
- Para onde vais, infame Corvo? – perguntou irado o gato.
- Para perto do Mar, gato... – despediu-se Vicente, iniciando o voo.

NOTA: Com a devida homenagem, foram adaptadas duas personagens de “Os Bichos” de Miguel Torga.

segunda-feira, março 13, 2006

Do absurdo à modernidade

Chegara o último dia. O momento de retirar os objectos pessoais do cacifo, fechar a porta e deixar ficar a chave. Retirar o número de colaborador daquele armário e sem olhar para trás, abandonar aquele balneário.
Uma vida naquela fábrica.
Entrara novo, contrariando a vontade do pai que o queria ao seu lado a trabalhar no duro, nos campos. Fizera a instrução primária entre o bater da régua e o da sachola. Cedo aprendera o que era cavar fundo. Ter calos nas mãos. Trabalhar de sol a sol e com pouco dinheiro na carteira. Um dia fartou-se. Os amigos da rua trabalhavam nas fábricas e ganhavam salário. Pouco mas certo. Dos campos só incerteza. Enchera-se de coragem e fora pedir emprego ao Orreiro. “Sim senhor, venha, estamos a precisar de gente nova”.
O pai não queria acreditar, um filho operário, com tanto trabalho em casa. Lá se convenceu aos poucos. Para ele, era uma mudança grande. Entrou disciplinado, cumprindo o que o encarregado lhe dizia. O homem percebia daquilo, explicava-lhe tudo. Como fazer, como organizar o posto de trabalho, quantas peças precisavam de fazer por dia para cumprir a encomenda dos clientes e assim, incutiu-lhe o gosto da profissão.
Chamaram-no para a tropa e consequentemente embarcou para a guerra. Regressou e o pai acreditou que o mato lhe mudara a vontade e ficaria outra vez por ali. “Qual quê!” Voltou a bater à porta da fábrica, ficara a promessa de reintegração na empresa. Feliz, voltou a desempenhar as suas funções. O encarregado já lá não estava, tinha-se estabelecido. Ainda o convidou, mas seria ingrato com as pessoas que lhe prometeram e tinham esperado por ele.
Dividia o seu tempo entre a fábrica e a ajuda ao progenitor, na lavoura. Entretanto casara e o pai cedera-lhe metade da sua casa. Ficara com casa própria, a troco das ajudas ao pai. Uma vida de sacrifício. Comprara também uma motorizada, para se deslocar mais rapidamente de um local para outro e assim, aproveitar melhor os dias. Veio a revolução e temeu o pior. Período difícil, com convulsões várias. Chamaram-lhe reaccionário, calmamente mostrou os calos profundos nas palmas das mãos e rodando-as, exibiu os dedos todos negros e exclamou: “são mãos de operário e lavrador, chama-me o que quiseres, pois eu sei o que sou.”
Quando a calma voltou, reparou que nunca tivera um ordenado em atraso mesmo tendo passado alguns dias sem trabalhar. Surgiu uma hipótese para mudar de sector de produção, aceitou. Trabalharia no turno da tarde, o que daria jeito, para de manhã ajudar no campo. Agora, na fábrica as contas eram outras, havia gamas operatórias e era necessário fazer tantas peças por hora. Cumpria sem problema. A equipa com quem trabalhava era exemplar. Recebiam um excelente prémio de produção. Por vezes, faltavam colegas do turno da manhã e pediam-lhe para ir mais cedo. Fazia o sacrifício ao acumular estas horas, mas não se importava, sempre era mais um dinheirito.
A empresa prosperou e foi vendida a estrangeiros, cada área de negócio um comprador diferente. Ficara triste, via partir quem o empregara e o desmembrar da empresa foi difícil de aceitar, sobretudo pela separação dos amigos da primeira hora. No entanto, as condições salariais melhoraram e decidira-se a comprar um carro, até porque a família estava maior.
Envolvido no ritmo diário das entregas aos clientes, via os filhos a crescer, a progredirem nos estudos e acreditou que o futuro deles seria diferente. Entretanto, o pai adoecera e acamara. Cuidados redobrados, repartidos entre ele e a mulher. Um dia chamaram-no ao gabinete do director de produção, a empresa ia empregar muita gente e era preciso apostar em alguém da velha guarda para encarregado, “...os próximos tempos serão extremamente importantes para todos. Até hoje conseguimos estar neste sector pelo baixo preço do nosso artigo, agora os desafios serão outros. Temos que apostar na qualidade do nosso produto e garantir que o produto não sai daqui defeituoso. Teremos que aumentar a capacidade de produção e estar preparados para muito trabalho”, lembrava-se bem do que lhe tinham dito. A prontidão da resposta não foi do agrado das chefias, em primeiro lugar alegou o problema familiar, o estado do pai, a ausências de ajudas, com os filhos a estudarem fora, etc... Depois rematou dizendo, não ser prestigiante para ninguém ser encarregado naquela empresa, antes pelo contrário. “Além disso, não passo de um labrego. Não tenho paciência para papéis, reuniões e essas actividades de encarregado.” As chefias perceberam que seria impossível demovê-lo. Ainda assim, jamais desde essa data, tal episódio lhe foi referido ou apontado.
Os anos passaram-se e à alegria pela licenciatura dos filhos, infelizmente sucedeu a morte do pai. Como único descendente, herdou-lhe os bens, incluindo as terras de cultivo. Não as queria abandonadas, mas sozinho iria ser difícil. Além disso, surgiam notícias sobre a agricultura, que o deixavam confuso, não cultivar, não plantar isto e aquilo, semear somente alguns produtos e em doses controladas... Optou por as manter em regime de fim de semana, mais para consumo doméstico, do que para venda.
Os filhos não regressaram à terra natal. “Da minha geração, quem sai para estudar, raramente volta”, diziam-lhe os filhos. “O que faço com as terras?” perguntava-lhes por vezes, “vende-as, antes que não valham nada”. Soube por um velho amigo, que as terras tinham ficado incluídas na Reserva Agrícola Nacional e por isso ninguém podia construir ali. De início não percebeu. Só quando lhe explicaram o que as terras ficaram a valer, é que compreendeu o que tinha perdido.
Decidido, continuou a sua vida. Ajudou os filhos como podia, uma entrada para o apartamento, mais uma percentagem do valor do carro para suavizar as prestações. Os colegas mais próximos brincavam com ele, dizendo tratar-se do homem mais rico da fábrica, tal eram as ofertas, mais a área de cultivo, casa própria e tudo. Ele ria-se.
Os mais velhos chegavam à idade crítica da reforma. Eles felizes, ele triste. Não queria reformar-se, tentava esticar sempre mais o esforço, para acompanhar o exigido pelos tempos das gamas operatórias. Viu partir muitos do “antigamente”: colegas, encarregados, chefias, engenheiros. De todos se despediu, pensando “um dia serei eu, só espero que falte muito”.
Ainda sorriu quando anunciaram o adiamento da idade da reforma para os 65 anos. O seu ritmo era mais lento e já começava a haver pequenas paragens por causa do seu desempenho. A empresa educadamente chamara-o para negociar, era tempo de dar o lugar aos novos. Dedicar-se aos netos, visita-los mais vezes, olhar pelo campo, dizia-lhe o engenheiro simpaticamente, quando lhe anunciou o propósito. Aceitou, ficando apreensivo. Brevemente seria cessado o contrato, bem indemnizado evidentemente e poderia inscrever-se no fundo de desemprego, até passar a receber a merecida reforma.
Mais de quarenta anos de trabalho naquela empresa. Apagou a luz do balneário. Saiu e encostou a porta. Era noite como sempre. Cá fora o silêncio já dominava. Os aceleras já tinham arrancado rumo a casa. Apareceu um vigia para se despedir. “Passe por cá para nos visitar!”.
Surpresa, o engenheiro também ali estava! Não se esquecera que era o seu último dia. Vinha dar-lhe um abraço e acompanhá-lo ao carro. “Sai o senhor e passo eu a ser um dos mais antigos”, dizia bem disposto. O gesto do director era simpático e ele estava-lhe reconhecidamente grato. Emocionou-se. Os olhos lacrimejaram. Aguentou a torrente, disfarçou a voz e disse: “Muito obrigado pela atenção. Não é um momento fácil, como deve compreender.” O engenheiro pôs-lhe a mão no ombro e recordou-lhe: “Esta empresa sempre teve um rosto humano, desde a sua fundação. Cabe-me agora pela antiguidade, continuar a manter viva essa tradição.”
Enquanto caminhavam o engenheiro puxou de um cigarro, ofereceu outro, o que foi recusado. “O importante é o senhor saber ocupar-se nos próximos tempos”, recomendava-lhe. Pensou não dizer nada, mas a sinceridade do interlocutor mudou-lhe as ideias: “Como sabe, senhor engenheiro, tenho netos pequenos, os filhos longe e formados. Fiz a minha vida dedicada ao trabalho, aqui na fábrica e no campo herdado dos meus pais. Dia após dia naqueles campos enquanto os outros colegas descansavam. Férias só as tive quando os filhos começaram a pedir praia. Uns dias ali no Furadouro, no Parque de Campismo e ainda assim, vinha muitas vezes ver o estado das terras. Já pensei dedicar-me a elas outra vez. Mas o dinheiro que vou ganhar e a minha idade não me permitem ter muitas esperanças. Agora, pensando bem, gostava de as vender. Os meus filhos, atempadamente disseram-mo. Cometi a asneira de as manter. Sempre deu para poupar na mercearia, ou no hipermercado. Quero vender as terras para desta forma ajudar os meus filhos e netos a terem uma vida melhor. Estou a ficar cansado e queria ficar somente com a pequena horta lá da casa. Chega bem para mim e para a minha esposa. O problema é que o campo está inserido na Reserva Agrícola Nacional, o que é um disparate numa terra urbana como esta”. O engenheiro seguiu atentamente, sem ousar interrompe-lo. “Estive-me a informar acerca de como alterar estas leis. Existe um regulamento de urbanismo, chama-se PDM, como deve saber. Pois, esse regulamento teria que ser alterado e aprovado pela autarquia. Depois é enviado para Lisboa, para o Governo por sua vez, o aprovar. Tudo isto demora anos. Vai ser a minha longa ocupação, nos próximos tempos“. O cigarro acabava, mas o monólogo prosseguia. “Bem sei que não passo de um operário sexagenário, com poucos estudos, no entanto, convencendo o Presidente da Câmara do erro cometido no passado, é possível conseguir alguma mudança. Onde é que já se viu numa cidade moderna, manter uma zona agrícola, quando já ninguém cultiva? É um absurdo! Que vantagens trouxe para a cidade? Algum bem estar? Nada disso. Manteve-se isto verde, é certo. Não se pode construir é a única conclusão...”
A narrativa é aqui interrompida, por se duvidar da autoria do transcrito. Apesar de atribuir todas estas frases ao emissor, parece-me que o receptor as assimilou e transmitiu por suas próprias palavras, acrescentando um ponto, como qualquer contador.
Ao autor mais do que esclarecer este assunto com os leitores, gostaria, se lhe é permitido, de evidenciar a sua disponibilidade para ajudar o nosso operário, pré – reformado (fictício é claro), em qualquer acção por ele desencadeada no sentido de alterar o Plano Director Municipal, atrás apresentado pela sigla PDM. Claro está, caso sejam verdadeiras as afirmações proferidas e desde que a tão desejada modernidade da cidade seja conseguida.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Extinção da Junta de Freguesia

No passado fim de semana, um jornal nacional destacava na primeira página a intenção do Governo de fundir Juntas de Freguesia. No texto, que tinha como base informações concedidas pelo Secretário de Estado adjunto para a Administração Local, Eduardo Cabrita, era explicado que a Lei-Quadro de Criação de Autarquias Locais, passará a chamar-se Lei-Quadro de Criação, Fusão e Extinção de Autarquias Locais.
Um assunto que é do interesse local, pois há muito tempo S. João da Madeira reclama uma redefinição do limite geográfico do município.
Pelo artigo percebemos que a estratégia inicial do actual governo é fundir freguesias. Inicialmente, o processo incidirá nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, tendo como objectivo melhorar a actividade administrativa, procurando-se correspondência na “qualidade do serviço público". Numa segunda fase, será definida a diferenciação de competências entre freguesias. No exemplo dado pelo governante ficamos a saber que “São Bento de Ana Loura [Estremoz] tem 38 eleitores recenseados”. Obviamente que a respectiva junta de freguesia não pode ter as mesmas competências que uma inserida num contexto mais populacional. Esperava-se assim que o exemplo servisse para demonstrar uma freguesia a extinguir. Mas não. Prudente, o Governo pretende “pôr em marcha a fusão de freguesias com dimensões mínimas”. A noção de “dimensão” é curiosa. A populacional é uma nova.
Desta forma, passamos ao tema que nos interessa, o anúncio que não será extinto nenhum concelho. "Não está a ser estudada a extinção dos concelhos", afirmou o secretário de Estado. “O que está a ser estudado é a extinção de freguesias cuja circunscrição corresponda à do município”. Assim, ficamos a saber que a junta de freguesia de S. João da Madeira, de São Brás de Alportel, de Alpiarça e de Barrancos têm os dias contados. Ou seja, estes concelhos de freguesia única vão passar a ser concelhos de nenhuma freguesia. O conjunto vazio, como se estuda na matemática.
Poderá o Governo estar correcto, evitando-se a atribuição de competências às juntas de freguesia, que podem muito bem ser exercidas pelas respectivas Câmaras Municipais. Poderia o Governo ir mais longe, ser mais ambicioso e reduzir o número de concelhos drasticamente. Reformular concelhos desertificados, criar e ampliar outros mais populacionais. Sinceramente penso que não o fará.
Não querendo ser pretensioso, nem muito menos “guardião do templo” veja-se os dados dos concelhos de freguesia única, atrás mencionados, segundo o CENSOS 2001: 21.102 habitantes para 8,2 kms2 em S. João da Madeira, 7.500 para 150,1 kms2 em São Brás de Alportel, 1.924 para 150,1 kms2 em Barrancos e 8024 para 96,5 kms2 para Alpiarça. A densidade populacional de S. João da Madeira (2646 habitantes / km2) é de longe superior à dos restantes municípios. Se analisarmos no contexto da Área Metropolitana do Porto, este valor é superior à média dos concelhos envolvidos (1531), ficando apenas atrás de Porto (6300) e Matosinhos (2698).
Extinguir uma freguesia, inserida em contexto urbano e com uma densidade populacional tão elevada, é um erro. Haverá certamente alguma confusão na apreciação da realidade deste concelho.
A fusão com outras freguesias vizinhas poderá ser o caminho correcto a reivindicar, até porque numa primeira fase será esta a acção no contexto das Áreas Metropolitanas, onde S. João da Madeira atempadamente se colocou.
Os próximos tempos, parece-me, serão conturbados para o Piso Zero do Fórum Municipal.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Manto Branco

Os preparativos foram rápidos. A roupa já era quentinha, foi só enfiar um bom casaco de agasalho, um gorro, o cachecol, uma luvas e as inevitáveis galochas preparadas para o frio. O pai prometera uma viagem à neve, ali perto de casa, na Serra. Assim, quando a mãe chegou para o almoço, o programa para a tarde já estava traçado. “Vamos ver a neve!”, “Está tanto frio! Onde?”, “ À Serra da Freita” sem uma letra trocada e com grande convicção.
O dia amanhecera sem nuvens, gelado. Na hora de almoço o céu encobria e tornava-se cinzento, com um tom bonito. O pai disse que já nevava na Serra e a expectativa aumentou. O caminho era sinuoso e o conforto do carro levou ao sono. A voz do pai anunciando a descida de temperatura serviu para embalar. Ainda ouviram zero e menos qualquer coisa, mas aos olhos tudo aparecia cinza, verde e castanho. Mais valia ficarem fechados.
O pai escolhera o trajecto no qual lhes tinha mostrado neve pela primeira vez. No parque de Campismo junto ao Merujal, rumar à esquerda e apanhar a estrada para uma aldeia que tinha o nome dos pastores de cabras, Cabreiros. No cimo da serra, antes de cortar para a estrada da aldeia, apareciam umas gigantes ”ventoinhas”. Estava nevoeiro e não era possível perspectivar a quantidade de torres, com as respectivas pás, que iam aparecer à frente dos olhos. Ora do lado esquerdo, ora à direita, um pouco afastadas, mesmo ali ao lado, umas mais baixas, outras enormes. O forte vento da encosta da serra jamais será desperdiçado. Aquela paisagem ficará para sempre ventilada. Mas, parafraseando o poeta, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.
O frio era intenso, mas neve nem vê-la. Nem no horizonte, olhando para S. Macário, onde apareciam mais uns aerogeradores (que é o nome correcto das ventoinhas) e foram elas que acalmaram o choro da Luisinha, que escolhera acordar ali. Chegados a Cabreiros a desilusão aumentava, nem uma ponta da fofa neve.
Aqui não se vê ninguém, só no final da jorna é que o café da esquina recebe gente, aquecendo a garganta e derretendo o fígado, “o cálice da cirrose”, como diria Lobo Antunes.
O pai opta por seguir pela estrada em direcção ao outro parque de campismo. Mal desfez a curva, exclamou “está a nevar!”. Flocos minúsculos a baterem no vidro do carro. Certinha. À medida que o carro foi subindo, os flocos engrossavam.. Os animais recolhiam. Primeiros as vacas, longe da transumância. Depois as ovelhas, uma delas negra, já com o dorso todo branco e por fim, as cabras. “Quero ver porcos!” disse a Luisinha, sempre fascinada pelo cor-de-rosa, como se estivesse numa quinta ou em qualquer página virtual, com opção de escolha. O que se viu foram uns corajosos ciclistas, com carro de apoio, é certo, fazendo lembrar uma caminhada dos pais dali até à mina Chã, com a neve pelas costas.
Rumámos a Manhouce pela Coelheira, aldeia rodeada de “gigantes”, sempre com a neve a cair. A vegetação rasteira já começa a aparecer branca. O alcatrão ainda se desvia para Vilarinho, deixando em terra batida uma curiosa picada feita em tempos idos, em sentido contrário, num carro citadino. Um dos residentes certamente agradaria a Torga, ao explicar-me a eleição, pelos pastores, do javali como animal selvagem daqueles lugares, por não temerem e expulsarem os lobos, o que de certa forma protegia os rebanhos. Não sabia ao certo o que eram, mas indicou-nos o lugar de umas antas, já submersas nas raízes de pinheiros, o que me fez entender a “revolta” do escritor transmontano, falecido uns anos antes.
De volta à realidade, com a voz acordada e entusiasmada do Manel a perguntar pela neve, chegámos à aldeia da dinâmica professora, que com a pronuncia do Norte deu alento ao interior serrano. A tradição ficou nos teres, haveres e nos nomes das casas, pois um reclame em tons de azul e laranja e o neon do Dancing, demonstram que o progresso já por aqui passou.
A neve aqui é menos intensa, pequenos flocos novamente. Pequena foi também a paragem para sentir o frio na cara. É tempo de subir novamente à Freita, para ver o manto branco. A nuvem está parada no cimo da serra. Só a estrada é que não ficou branca, por agora. As placas começam a ficar sem letras, o alcatrão ainda resiste. Bons tempos os da terra batida, com o Rali a aquecer a noite e os pilotos Finlandeses a pedirem neve, para tentar vencer os Lancia.
Das pedras parideiras até Albergaria, todo o percurso tem neve. É tempo de parar e desfrutar. “Este tempo cura”. Um ou outro mais urbano, como nós, felicita-se pela opção serrana, daquela tarde de sábado, sai do carro e grita. A neve cai e cobre os telhados coloridos de Albergaria, a das Cabras. As margens do rio estão lindas, vazias, sem lixo à vista que deve ter ficado por baixo da neve. Não adianta espreitar a frecha, pois a nuvem não deixa. Será que nevava quando Aquilino descreveu no Volfrâmio a queda por descuido dos pendurados garimpeiros, ao cortar com a picareta a corda que os sustentava?
Fechar a volta. Neve e mais neve, a noite não tarda a chegar. O dia seguinte vai ser encantador e concorrido. “Pai, amanhã vimos outra vez”. Não fomos. Outros interesses, leia-se compromissos.
Todo o sul do país acordou com neve.
Afinal enganei-me.
Devíamos ter ido esperar a neve à praia.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Outdoors Obsoletos

Quem entra na cidade pelo IC2, vindo do Norte, depara-se com um out-door de divulgação municipal, terrível para a cidade. Simplesmente anuncia o Piquenique de 18 de Setembro de 2005. Os mais atentos verificam que, já no passado recente, alguns eventos como as jornadas do UEFA futsal de há dois anos e a chegada da Volta a Portugal em Ciclismo de 2003 foram anunciadas durante vários meses, após se terem realizado.
Esta tendência revela algum marasmo sazonal na promoção de eventos, o que é grave. Sabe-se que a partir desta data, o Carnaval das Escolas, o Dia da Poesia, a Semana da Juventude, a Festa do Parque, a festa do Jardim, o S. João da Ponte e mais alguma organização de Verão irão suceder-se na divulgação. Depois chegará o Outono e lá ficará mais um out-door, ao tempo, anunciando o que aconteceu há meses. Tudo isto poderia ser evitado, colocando a branco (ou a negro) o referido espaço. Penso ser preferível nada informar, do que anunciar organizações passadas e portanto, obsoletas. No entanto, a solução mais cómoda é a praticada em S. João da Madeira.
A inauguração dos Paços da Cultura antevia uma mudança na programação Cultural da Cidade. Passados 7 meses verificamos o contrário. Apesar de uma série de eventos já promovidos, segundo a crítica e as crónicas, com qualidade e alguma adesão, esperava-se uma dinâmica diferente. Pelo menos, que conseguisse alterar os hábitos culturais da cidade. O desejado seria garantir a assiduidade do público nos eventos, organizando-se para isso, regularmente, actividades que proporcionassem vontade de trocar o lar pelo auditório dos referidos Paços.
A programação cultural é segundo vários entendidos, composta por três vertentes: divulgação, acolhimento e espectáculo. Se a primeira e última são de fácil compreensão, convém explicar que por acolhimento se entende a recepção, a qualidade e o conforto da sala que acolherá o espectáculo. O facto de existir em SJM um novo auditório, não evita que se esteja atento às restantes componentes da programação. Falhando a divulgação, faltará público e perderá o espectáculo. É tempo de alterar este estado de coisas. Promover concertos, bailados, peças de teatro ocasionais em actos isolados já não se usa. Para um auditório com capacidade para 200 pessoas é necessário uma programação especial, sobretudo enquadrada e em sucessivas datas, de forma a que o conjunto criado seja forte e apetecível para o público. Aqui a divulgação poderá tomar várias formas, podendo-se publicitar em out-doors, tanto ao gosto dos políticos e das autarquias.
Nos Paços da Cultura o que realmente se verifica é estranho. Existe algum desnorte na programação. No inicio do presente mês foi distribuída a Agenda Municipal de Actividades. Para o dia 20 de Janeiro, sexta-feira passada, não era mencionado qualquer evento, para os Paços da Cultura. Passado quinze dias, em cima do acontecimento surge a divulgação do espectáculo “Encores”.
A ideia que se transmite é que a programação daquele espaço é feita a curto prazo, não parecendo haver uma orientação estratégica, o que dificulta a divulgação de eventos e também a fidelização da assistência. Até porque tendo um público fiel e interessado pode-se divulgar atempadamente, toda a programação através de e-mail, o que hoje em dia é perfeitamente habitual nos modernos espaços culturais.
É necessário impor mais energia na programação cultural, procurando organizar interessantes e apelativos eventos de forma a atrair público à Cidade. Só com esta dinâmica é que o desafio da Casa das Artes e do Espectáculo, que é afirmar e promover culturalmente SJM, será atingido. Caso contrário, estaremos a hipotecar o futuro na construção de um “elefante branco”.

domingo, janeiro 01, 2006

Viva Vitor Baptista

Os sótãos são lugares de recordações. Arrecadações de memórias. Armários ou caixas com objectos do nosso passado, imagens guardadas da nossa infância. Em casa dos meus pais, nas paredes do compartimento que tinha uma aldeia de Lego, apareciam posters com sucessivas equipas de futebol, todas do Benfica, claro. O último, enorme, indicava Tri-Campeão Nacional 76/77. Os jogadores perfilhavam-se nas poses habituais, 6 em cima 5 em baixo, ou vice-versa. Eram os cromos adorados, ali todos juntos. Os heróis de Domingo à tarde dos relatos ouvidos e jogadas imaginadas, que transmissão televisiva não havia em directo. O suspense interminável para nós ouvintes, do autor do golo. Quando terminava o fôlego do relatador, os festejos redobravam. Da rádio ouvia-se a frase “Um golo de levantar o estádio – Vítor Baptista, que remate, senhores ouvintes!”
O meu cromo de infância, teve uma vida errante. Uma história igual à de tantos outros jogadores da bola. Infância pobre, cedo ficou órfão de pai. Trabalhos sucessivos a partir dos 10 anos, até que um dia foi descoberto pelo Vitória de Setúbal, com 15 anos. Chegou tarde ao mundo do futebol e só aos 23 ingressava no Benfica, tendo jogado várias vezes pela Selecção Nacional. Perdeu-se na quimera, na droga e na loucura. Uma sucessão de rebeldias, excentricidades, exotismo e um contrato não renovado, atiraram Vítor Baptista para um fim de vida destroçado. Muitos ainda se devem lembrar da reportagem da TV, da sua vida entre a barraca e o cemitério, onde trabalhava como coveiro.
No seu trabalho de 2004, Vitorino, músico, recordou-o numa canção intitulada “Rapaz do Brinco”. Badalada numa rádio nacional, um dia chegou do banco de trás do automóvel, a inevitável pergunta: quem é o Vítor Baptista? Dos golos bestiais, duma vida incompreensível para pequenos, optei por contar o seguinte: “foi um jogador do Benfica, que num jogo perdeu um brinco, na relva. Parou a procurá-lo e como não o encontrava, pôs toda a gente a ajudá-lo. O jogo esteve parado”. Risos. “Engraçado, que piada...”. Fiquei pasmado. Era o rebelde a ser redimido. A posteridade de uma vida efémera, conquistada pelo brinco perdido. Vítor Baptista tinha resistido ao tempo. Evocar o episódio do brinquinho, demonstra que um jogador pode ser para sempre recordado, não pelos seus feitos com a bola, mas por uma bizarra história. A antítese do ofício.
Em período de campanha para as eleições presidenciais, imaginar pelo que ficará recordado cada um dos actuais candidatos permite várias considerações. Todos têm um vasto currículo político. Profissionais de carreira política, uns com mais anos de serviço e outros a caminho. Alguns são já História e querem continuar a sê-lo. Os motivos porque concorrem são também curiosos. Os mais novos para segurar eleitorado, os mais velhos por “birras”, por reedições de confrontos, ou para recuperar eleições perdidas no passado. Curiosa é também a interpretação dos candidatos das funções do Presidente. Um deles, com experiência do lugar, afirma que nada se pode fazer. Outro, pretende fazer o que a Constituição da República não permite. Em matéria de orçamento da Presidência, dotada para o ano de 2006 com 30 milhões de Euros, o tema ainda fica mais disparatado. Um afirma que será rigoroso na execução, propondo-se a viajar pouco! Os outros dizem “nim”, pois ao candidatarem-se não vão fazer considerações sobre tão importante verba.
O tema das Presidenciais estava há muito resolvido para mim. A possibilidade de candidatura do meu irmão, Luís Filipe Guerra - era quem colava os posters nas paredes do sótão - animou as hostes familiares. Da mesma forma, a sua rejeição pelo Tribunal Constitucional criou um vazio preocupante. Votarei é certo, mas sem convicção. A menos que algum candidato me surpreenda e proponha a extinção do cargo do Presidente da República. Seria o cúmulo do paradoxo de Vítor Baptista e era um grande favor à nação. A Presidência é um sorvedor de dinheiro, sobretudo, num país em crise. As actuais competências do Presidente como alto representante da nação são um luxo. Repúblicas, com tiques de Monarquias, não são genuínas.

terça-feira, dezembro 20, 2005

A igreja de Martos

Na extensa província da Andaluzia Espanhola, existe uma pequena cidade perto de Jáen chamada Martos. Com pouco mais de 20 mil habitantes, esta povoação não é conhecida por nada de especial. Normalmente, existem monumentos, especialidades gastronómicas, incluindo os vinhos e a doçaria, que fazem a fama de uma terra, ou de uma região. Outras vezes, são a origem de um escritor, um artista plástico, ou um compositor. Mas, Martos não é o caso. A referência da pequena cidade Andaluza surge no livro autobiográfico “Patagonia Express”, do escritor chileno Luís Sepúlveda, conhecido pela facilidade de leitura dos seus livros.
Em Martos reencontra o chileno as suas origens. Dali tinha saído o seu avô para o Chile. O exílio forçado de um anarquista, de ideias libertárias, que guardava de Espanha a má memória da derrota na guerra civil, a perseguição e a prisão. Um avô dos que incluem na suas tarefas a leitura do grande livro de Cervantes aos seus netos. O de Sepúlveda incentivou na infância do neto, um outro ritual. Aos Domingos oferecia-lhe todas as bebidas que normalmente os pais não deixam beber. O rapaz ficava felicíssimo e de bexiga cheia. No regresso a casa, com o miúdo aflito, o alívio surgia invariavelmente na porta de uma igreja, das que existem em Santiago de Chile.
Os anarquistas sempre tiveram dificuldade em lidar com a ordem, tanto da Igreja, como do Estado. Comportamentos como o do rapaz, eram usuais contra as mais variadas paredes, em especial, as da esquadra da polícia. No final do passeio da Rua do Visconde, em noites secas e de luar permanentemente visível, a parede da antiga esquadra da PSP frequentemente aparecia molhada... Ali perto, a Igreja Matriz permanecia seca e altaneira.
As Igrejas, sem entrar em considerações religiosas, são importantes monumentos da história. Testemunhos de várias épocas. Por vezes singelas, outras vezes faustosas. Da simples capela ao enorme mosteiro ou catedral, por toda a Europa vemos edificados monumentos que são ex-libris das mais variadas cidades. Em S. João da Madeira, a construção de uma nova Igreja é uma ideia antiga na paróquia. O Rev. Padre tem-na defendido e procurado encontrar várias soluções, tendo inclusivamente convidado um prestigiado arquitecto para fazer um estudo sobre a nova Igreja, pretendendo assim um local de culto que fique conhecido pelas melhores razões arquitectónicas. Efectivamente, S. João da Madeira precisa de uma Igreja para o mundo. À semelhança do que aconteceu com a igreja de Marco de Canaveses, projectada pelo Arquitecto Siza Vieira.
Parece-me, que a localização escolhida não é a melhor. A minha discórdia surge apenas de uma opinião pessoal que assenta no direito e no dever do exercício de cidadania. No “caos urbanístico”, como em tempos foi referida a cidade, o melhor é aproveitar os espaços existentes, enriquecendo-os com equipamentos modernos e procurar, com tranquilidade, harmonizar os outros, sem grandes revoluções. Construir a nova igreja perto da actual Matriz, é retirar a esta a importância que ele teve. Além disso, o centro já está sobrecarregado com várias construções.
Para contrariar esta tendência, a melhor opção seria construir a nova igreja numa zona com menor índice de construção. Para mim, a melhor localização é a Praça Barbazieux, no largo em frente ao cemitério n.º 3, que em tempos albergou o Mercado por Grosso e agora serve de pseudo Parque Radical. O espaço é amplo e a envolvente paisagística é um dos locais mais aprazíveis de S. João da Madeira, o que daria ao arquitecto a possibilidade de melhor projectar a futura igreja.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Era uma vez uma piscina

Naquela cidade havia várias escolas primárias, todas elas muito bonitas. A do Francisco era bestial. Tinha um bosque bem verde à volta, repleto de árvores centenárias. As salas de aula eram grandes e ajudavam a alargar os horizontes dos meninos. O Francisco adorava aprender e todas as actividades eram ao seu gosto. Brincar no recreio com os seus colegas era o grande momento do dia. O recreio tinha um pequeno campo de futebol, o que dava para correr atrás da bola e meter golos nas balizas.
No regresso à Escola para mais um ano de aulas, uma má notícia era dada: as aulas de Natação não podiam funcionar como no ano anterior. Da grande cidade, a capital, uns senhores diziam que era perigoso haver actividades fora da escola, durante o horário das aulas. Essas actividades deviam ser organizadas depois do horário da escola sob a responsabilidade do ATL.
Os pais das crianças daquela escola tentaram essa solução, mas não conseguiram pessoas para os acompanhar à piscina, que ficava longe e obrigava a ir de autocarro, o que até seria divertido. O Francisco ficou muito triste. A natação era talvez a sua actividade preferida. Divertia-se muito a brincar com os seus colegas na água e, além disso, tinha-lhe sido receitada pelo médico, para favorecer o seu desenvolvimento. Como havia natação pela Escola, os pais do Francisco tinham optado por aquela solução. Agora esgotadas todas as hipóteses, pois a Escola de Natação não tinha horários disponíveis para a idade do Francisco, o seu pai ia com ele aos fins de semana à Piscina e juntos brincavam e nadavam na água. Enfim, não era a mesma coisa, mas o Francisco percebeu o esforço dos pais.
Uma noite, estava em sua casa para jantar o tio Miguel, irmão do pai. A certa altura, o seu tio começou a falar num tom irritado como era costume, protestando com todos, ao que o pai do Francisco lhe pedira para voltar à razão. Naquela noite o tio falava, entre outras coisas, de uma piscina nas traseiras da Escola do sobrinho fechada há muito tempo, o Francisco não pode deixar de ouvir. O discurso foi outra vez interrompido pelo pai. No dia seguinte, quando chegou à Escola, contou aos seus amigos o que o tio tinha dito. Ele, o Tiago e a Ana, amigos inseparáveis, pensaram logo num plano para fazerem uma exploração às traseiras da Escola. Numa tarde no recreio, ficaram a brincar por detrás de uma das balizas. Ali ao lado estava uma pequena escada e, chegando lá, era só subir e depois correr sem que ninguém os visse até ao grande armazém branco. Conseguiram. As auxiliares estavam distraídas e lá para trás nunca ninguém ia. O grande armazém tinha três portões mas todos estavam fechados. Empurraram um atrás do outro, até que o último cedeu. Afinal estava mal fechado, apenas encostado. O Francisco entrou primeiro, ninguém ficou a vigiar. Tinha um pequeno corredor e à esquerda uma outra porta. Entraram e encontraram um pequeno balneário. À direita outra passagem, prosseguiram. Uns chuveiros apareciam-lhes diante dos olhos. Uma grande porta... Ali permanecia uma piscina!! Sem água e mais parecida com um tanque, é certo, mas era uma Piscina. Perfeita para o seu tamanho! Com medo de que alguém desse pela sua falta, voltaram para o recreio. À saída fecharam a porta e repararam num pequeno lago em forma rectangular, com água da chuva mas, sem peixes, também ele abandonado ao tempo.
Francisco queria recordar o resto da conversa do tio, mas não conseguia. À noite, ao jantar, perguntou ao pai pela piscina da escola dele. O pai percebendo que algo de novo tinha acontecido, perguntou-lhe o que é que se tinha passado para que fizesse aquela pergunta. Como tinha sido educado para assumir os seus actos, Francisco contou a sua exploração. O pai explicou-lhe que aquela piscina, já não era precisa, pois havia a grande e era suficiente para todos os habitantes da cidade. O melhor era esquecer o assunto. Francisco não percebeu, mas aceitou a ideia para não contrariar o pai.
Na escola dele havia uma piscina e ele e os seus colegas não podiam ir lá nadar, pois na cidade havia uma melhor. Só que por causa de uns senhores da grande cidade, eles tinham ficado sem aulas de natação...?
Passados alguns dias, Francisco ganhou coragem e falou com o seu tio sobre a Piscina. Os seus pais não estavam por perto o que facilitou bastante a conversa. O tio perguntou-lhe: “E queres tu nadar nela?”, os olhos de Francisco brilhavam. Para o tio ajudar alguém era a essência da vida, fazia-o de forma desinteressada e falava sempre de uma palavra: fraternidade. O Francisco já tinha perguntado à mãe o queria dizer e ela tinha-lhe ensinado que era sermos amigos de todos como se fossem irmãos. Quando se enervava e falava alto o tio Miguel dizia sempre “Aburguesaram-se e esqueceram-se do sentido da fraternidade”. Quando o Francisco disse que sim, o tio disse: “Finalmente, acção!”. Combinaram um plano que ia durar dias até ficar pronto e no final o mais velho rematou: “Pelo menos os da tua escola vão nadar”. Nesse momento o pai entrou na sala e os dois conspiradores tiveram que calar-se.
Os dias foram passando e nada aconteceu. Um dia, o Francisco recebeu um telefonema. Era o tio Miguel. “Para a semana fazemos história”, disse. Era o sinal pelo qual esperava Francisco ansiosamente. No dia combinado, as crianças das Escolas Primárias não foram ao ATL. Levaram declarações dos pais, uns dias antes e fizeram aquilo muito bem feito, que ninguém reparou que todas elas tinham o mesmo pedido, para a mesma data, à mesma hora. Assim, os ATL ficaram vazios e cá fora umas carrinhas com senhores de aspecto divertido ao volante, transportaram os meninos todos para o largo da Câmara. Um dos condutores tinha uma barba branca e longa, ao que um dos meninos dizia ser o Pai Natal, mesmo sem o fato vermelho. Rapidamente chegaram ao destino, pois a cidade não era muito grande. Os das Escolas mais perto foram a pé, quase correndo, atravessando ordeiramente as passadeiras. Os mais velhos olhando pelos mais novos. Em 15 minutos, estava o largo cheio de meninos e meninas das Escolas Primárias. Até os felizardos que continuavam a ter aulas de Natação estavam lá. O tio do Francisco tinha-lhe dito “convence todos, ou todos ou nenhum”.
Os condutores tiraram das carrinhas umas faixas enormes que diziam: “QUEREMOS AULAS DE NATAÇÃO”, “A NOSSA ESCOLA TEM UMA PISCINA FECHADA, PORQUÊ?”, “PARA QUÊ UMA PISCINA NOVA, SE NÃO PODEMOS TER AULAS?”, “DESPORTO PARA TODOS!?”. Quem passava na rua pensou tratar-se de mais uma actividade escolar para encher o Jardim. No entanto, quando os megafones chegaram às mãos dos miúdos, os gritos produzidos com as palavras escritas nos cartazes soaram pela cidade. Francisco via do outro lado da rua o tio e os seus amigos, a parar o trânsito, dizendo “venham ver as nossas crianças”, ”ouçam o que elas têm para dizer”, “ajudem estas crianças, são as nossas crianças”. Rapidamente as ruas pararam, os curiosos aproximavam-se. A força do grito dos meninos era tão grande, que o Presidente do Município ouviu. Estava no último piso do edifício e sem se aperceber do que estava a passar, questionou os seus colaboradores sobre qual o motivo dos festejos das crianças. Ninguém ousou responder e o presidente percebeu que havia motivo para preocupação. Inteirou-se com a Segurança de quem fazia aquele barulho e quando percebeu que eram só crianças, não quis acreditar. Desceu para falar com eles e ficou surpreendido com o que via, estavam ali todos os meninos das escolas que ele conhecia, dos mais pequeninos aos mais velhos. Logo na frente o Francisco, atrás todos os meninos, por detrás uma multidão silenciosa.
O presidente vinha com má cara, atrás dele muitos crescidos. Francisco encolheu-se, olhou para trás, além dos meninos, que se calaram todos, e via o seu tio a incentivá-lo, fazendo-lhe sinal que tudo estava a correr bem. A voz do presidente parecia um trovão quando perguntou, “Quem é responsável por isto?” Francisco ficou pequeno mas de repente, sentiu-se crescer, pegou no megafone e respondeu: Sou Eu! Não se sabe se foi o eco, mas ouviu-se muito bem aquele som. Todos os meninos começaram a gritar o mesmo, “sou eu!”. A certa altura, mais confiantes gritaram, “Somos nós todos”. O presidente sorriu, fez sinal para os meninos pararem e disse, “Muito bem”. Perguntou “Então o vos traz por cá?” De pronto os vários gritos começaram de novo: “QUEREMOS AULAS DE NATAÇÃO”, “A NOSSA ESCOLA TEM UMA PISCINA, ESTÁ FECHADA PORQUÊ?”, “PARA QUÊ UMA PISCINA NOVA, SE NÃO PODEMOS TER AULAS” , “DESPORTO PARA TODOS?”. O presidente corou, voltou a sorrir e dirigindo-se ao Francisco disse-lhe “Já percebi!. Amanhã vou à vossa Escola ver essa Piscina. As escolas dos outros meninos também não vão ficar esquecidas, podem ficar com a minha palavra. Em breve todos vão ter aulas de Natação”. Quando acabou, uma voz vinda da multidão gritava “Uma salva de palmas para os miúdos”. Era o tio Miguel, que se repetiu mais de dez vezes. “Viva as crianças” , “Viva as crianças desta cidade”. A multidão começou a bater palmas, o presidente e os seus colaboradores também. O tio Miguel não se calava, parecendo o mais novo da multidão. Entre os seus vivas, gritava várias palavras sobre os políticos, e os mais pequenos não percebiam nada do que ele queria dizer. Entretanto, o presidente voltou para a Câmara e rapidamente as carrinhas se encheram de meninos e meninas de regresso à Escola.
Os pais vieram buscá-los, sem saber o que tinha acontecido. Chegados a casa, os telefones não paravam de tocar, outros pais, por outras vozes, contavam uns aos outros o que os filhos tinham feito. Os pais de Francisco olharam o filho e perceberam de quem tinha surgido a ideia. Nada lhe disseram. Ficaram à espera dos dias seguintes.
Na manhã seguinte, estavam os meninos a chegar às suas Escolas e ao mesmo tempo entravam a correr senhores de fato e gravata, para falarem com as respectivas directoras das Escolas. O presidente não queria que os alunos fossem repreendidos pelo que fizeram. Afinal, eles estavam a reclamar o que era um seu direito, por isso nem uma só palavra. Na Escola do Francisco um alvoroço. O recreio foi atravessado por dezenas de homens adultos. À frente deles, vinha o presidente. Vinha com má cara e barafustava com várias pessoas. Dirigiram-se para o armazém velho.
Seguiu-se um mês de obras no edifício. Fizeram-se novas paredes, puseram-se vidros e portas novas. Um dia a directora da escola entrou na sala e disse: “Bom dia! Têm uma visita muito importante. Levantem-se.” Era o presidente que entrava, vinha anunciar ele próprio a inauguração da Piscina daquela Escola. O Francisco sorriu e o brilho voltou-lhe aos olhos. A piscina serviria para a escola dele e para outras duas, que ficavam pertinho. O presidente explicou-lhes que as escolas mais perto da piscina municipal continuavam a ter aulas nessa piscina. Para as escolas mais distantes ia construir mais duas piscinas em outras duas Escolas e assim, permitir que todos os alunos das Escolas Primárias tivessem aulas de Natação, pois “não se podia andar para trás”... O Francisco, olhou para a Ana e para o Tiago e todos se riram. Todos bateram palmas, o que deixou o presidente feliz. Foi um belo dia de Escola.
E assim, no dia seguinte, no final das aulas, várias carrinhas se aproximaram da Escola do Francisco, traziam as crianças das outras Escolas. Todos queriam ver a piscina da escola do Francisco. Era linda, claro. Tinha uma água transparente e o azul do fundo tão visível, que apetecia tomar um valente banho. Os balneários eram muito acolhedores e havia um espaço junto à piscina que permitia fazer ginástica. As turmas das várias escolas entraram e saíram de forma organizada e no final o presidente ofereceu-lhes um grande lanche. Repetiu o que dissera na véspera sobre construir novas piscinas. Mas de repente a atenção de todos voltava-se para o barulho de várias pessoas a caminhar. O som provinha do bosque ao lado da Escola. Os alunos começaram a ver os seus pais a chegar ao recreio, ocupando o campo onde se jogava à bola. Ficaram calados até o campo se encher, não cabia mais ninguém. Uma voz gritou: “um, dois, três” e todos os pais responderam: “Obrigado Filhos!!!”

terça-feira, novembro 29, 2005

Vouginha: do Metro do Porto ao TGV

Na quietude dos dias do século passado, o fumo do Vouguinha rasgava o lado poente de S. João da Madeira. Ainda hoje, apesar de ter deixado o vapor, nas tardes calmas de fim de semana ecoa o som do seu apito, quebrando o silêncio dos dias de descanso. O comboio da Linha do Vale do Vouga teve sempre direito a diminutivo, foi sempre tratado carinhosamente pelos habitantes da região. O movimento das locomotivas e suas carruagens surgiu em 1908, quando este caminho de ferro foi inaugurado, ligando numa primeira fase Espinho a Oliveira de Azeméis. Esta Linha tinha como propósito ligar Viseu ao litoral, objectivo conseguido em 1914. Em seis anos foram construídos 140 quilómetros de carris, aproveitando-se o vale formado pelo Rio Vouga, para ligar a Beira Alta ao litoral. Ao projecto inicial, entroncou-se em 1911, a ligação por via férrea entre Aveiro e Sernada do Vouga – freguesia do concelho de Águeda, que ficou conhecido pelo ramal de Aveiro.
Desde o final de 1989, o Vouginha já não ecoa no seu Vale. A linha resume-se agora à ligação de Espinho até Sernada, mantendo-se o ramal desta estação a Aveiro. Os carris são agora menos, apenas os 62 km de norte para sul, mais os 34 do ramal. Do tempo do vapor, resta agora o Museu, em Macinhata do Vouga.
Factores como a velocidade e os horários dos comboios são fundamentais nas opções de quem pode preferir este transporte. A linha do Vouga está dotada de automotoras herdadas da antiga linha da Póvoa, que atingem velocidades máximas de 70 km/h, caso o estado dos carris o permita. Pelo que pude constatar, de Oliveira de Azeméis para Sul o estado da linha está muito degradado, limitando o andamento das automotoras a 35 km/h. Por outro lado, os horários não são os mais adequados nem para quem trabalha na indústria, nem para serviços e comércios. Algumas estações e apeadeiros, além de estarem muito degradadas, obrigam a paragens do comboio para entrar um ou dois passageiros.
A reconversão desta linha em Metro de Superfície foi um projecto que surgiu há vários anos mas, nunca se concretizou. Na última campanha para as eleições autárquicas, o partido vencedor lançou de novo a ideia. Não cheguei a perceber qual o alcance territorial deste Metro. Se o objectivo único é promover a mobilidade na Região Entre Douro e Vouga (EDV), penso que o projecto não terá viabilidade. Outras regiões, ou agrupamento de concelhos estão a reavaliar os seus projectos de Metro de Superfície, como é o caso de Coimbra e o seu Metro para a Linha da Lousã. Para quem pode, o automóvel próprio é sempre a opção mais rápida e o transito na EDV não é muito intenso, com excepção da ligação de Santa Maria da Feira a S. João da Madeira. As pequenas deslocações dificilmente se farão por Metro.
Caso a opção seja aproveitar o limite do percurso da linha do Vouga, inaugurado em 1908, mas com horários regulares, havendo partidas de quinze em quinze minutos ora para Norte, ora para Sul, poderá ser vantajoso para algumas pessoas deslocarem-se por Metro. No entanto, isto não me parece suficiente para a viabilidade deste projecto. Um Metro a Sul da Área Metropolitana do Porto (AMP) faria certamente pressão suficiente para ligar Espinho a Vila Nova de Gaia e desta forma, expandir o Metro do Porto. Os concelhos do Sul teriam um transporte muito mais rápido e envolvente com o centro da grande cidade e claro, muito mais cómodo.
Penso que a entrada de S. João da Madeira para a AMP, só fará sentido quando este concelho deixar para trás a região híbrida do Entre Douro e Vouga e se envolver plenamente nos projectos comuns com os seus novos parceiros, não desperdiçando nem recursos, nem energias em projectos virtuais.
Apesar desta ser a solução mais lógica, penso que devia ser dada mais dimensão ao Metro. Se a Norte um novo rumo pode ser dado ao “Vouguinha”, o que dizer a Sul? Dado o consenso da estação ferroviária de Aveiro como ponto de paragem tanto do Alfa Pendular, como do comboio de Alta Velocidade, no caso de construção da linha vulgarmente designada como TGV, é imperioso ligar toda esta região a esse rápido e “fashion” transporte, sobretudo para quem se desloca para a capital . Obviamente que o trajecto actual não serve. A passagem por Águeda retira rapidez na ligação a Aveiro. O ideal seria ao trajecto actual S. João da Madeira - Oliveira de Azeméis - Albergaria a – Velha construir um troço entre esta cidade e Aveiro. A viabilidade seria conseguida, claro está, com horários complementares à paragem do comboio rápido em Aveiro mas apenas nas sedes de concelho.
Os próximos tempos serão decisivos em matéria de opções do governo sobre os grandes investimentos públicos. O regresso às ligações ferroviárias, quer em Alta Velocidade, quer em velocidade média, está de novo na ordem do dia. Paralelamente, deviam ser lançados estudos sobre a viabilidade da reconversão da linha do Vouga em Metro de Superfície. Nos últimos tempos, Portugal discutiu muito sobre esses investimentos e adiou a construção da ligação ferroviária em Alta Velocidade a Espanha. À nossa escala, não podemos cometer os mesmos erros, a reconversão do Vouginha devia começar já.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Assobiar Dexis

O recente anúncio publicitário de uma instituição de crédito nacional, incentiva os jovens até aos 35 anos a recorrerem às condições por eles oferecidas para adquirirem habitação. O anúncio é bem simpático por sinal, ao associar a minha geração com uma música dos Dexis Midnigt Runners.
Tivemos sorte. Há alguns anos atrás chamaram-nos “geração rasca” e encharcaram-nos os ouvidos com música pimba. Agora, separado o trigo do joio, mostram-nos com um ar moderno em várias actividades. O que o anúncio televisivo se esqueceu, foi de explicar porque é que alguém aos 35 anos precisa de comprar uma habitação maior. Os vários assobiadores aparecem todos individualmente, sem demonstrarem o seu lado familiar. Para alguns, como é óbvio, a necessidade de compra de uma habitação com maior área surge pelo aumento do número de elementos da família. A vontade de proporcionar uma vida com qualidade aos nossos descendentes, atira-nos para um novo crédito e endividamento até aos 70 anos.
Além desta característica comum, os jovens que cantaram pela noite fora “Come on Eileen”, debatem-se com os sonos, ou a falta deles, dos seus filhos. É usual em encontros de “trintões” ouvirmos falar em noites mal dormidas, insónias até às 5 ou mais da manhã e o facto mais difícil de entender, o acordar cedo, bem cedo, dos pequenos príncipes e princesas ao fim de semana.
Um certo sábado de Setembro, com os primeiros raios solares, uma vozinha chamava-me: “Pai!...”. Mal viu um olho aberto disparou: “o parque Infantil de Arada já abriu! Podemos lá ir?”. À pergunta, como é que sabes, resposta imediata, “está uma placa no poste em frente ao meu quarto, com uns senhores a dizer o caminho”. Surpresa matinal e esforço para perceber. A placa, era afinal um cartaz de propaganda política, para as eleições autárquicas, com uma fotografia colectiva dos membros de uma das listas concorrentes, que tinha como fundo, o novo parque infantil de Arada. Tínhamos acompanhado o inicio das obras, semana após semana e a ansiedade gerada nos miúdos, era recompensada com aquela visão matinal. O prazer de brincar em parques infantis é um dos encantos inesgotáveis das crianças.
Tal como outros, o concelho de S. João da Madeira também apostou nestes equipamentos, abrindo de uma assentada dois parques, no inicio do passado mês de Outubro. Este facto permitiu a muitos habitantes da cidade regressar ao Parque Ferreira de Castro, assim como o rappel já havia sido responsável por algumas peregrinações a Fundo de Vila. Excelentes exemplos da reabilitação urbana de que foi alvo S. João da Madeira nos últimos anos. O centro é que não teve tanta sorte. Todos estes parques são periféricos e a sedução dos mais pequenos retira muitos dos apreciadores da Praça para outros locais. Os comerciantes bem se esforçam, mas uma ida à Praça Luís Ribeiro já não tem o mesmo encanto.
A zona pedonal da cidade tem sofrido algum abandono. Especula-se sobre a necessidade de a abrir ao trânsito, altera-se o sentido de trânsito numa rua, introduz-se transportes especiais no centro e lentamente, esta zona perde o seu sentido pedonal. Existem várias cidades, de variada dimensão, com zonas vedadas ao trânsito, voltadas para o lazer dos seus habitantes, estimulando a partilha de espaços públicos por várias gerações.
Seria bom que a rede de parques infantis no concelho se centralizasse, começando pela criação de um parque na Praça (ali no topo Norte, na confluência da Rua Oliveira Júnior, com a rua Dr. Maciel, por exemplo). A cidade agradecia, os mais pequenos também. Os da geração do assobio podiam voltar à Praça e mesmo os avós teriam mais motivos para sorrir.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Sabor a Mufete

Waldemar Bastos é um músico Angolano, com um vasto percurso musical. É um dos rostos mais conhecidos da denominada, World Music. Viveu exilado em Portugal, saindo do seu país devido à guerra civil e por divergências com o MPLA. Gravou os seus discos no Brasil e como o seu talento foi reconhecido, David Byrne, ex - vocalista dos Talking Heads, convidou-o para gravar no seu estúdio nos EUA. Do seu repertório musical destaca-se o primeiro disco, de 1986, intitulado “Estamos juntos”, expressão utilizada pelos angolanos quando se despedem de alguém, em reconhecimento de amizade. O disco de Waldemar é um produto afro, cheio de batucada, coristas e sabor a mufete.
A saudação da fraternidade angolana, esteve na origem do nome da Associação Estamos Juntos. Curiosamente, oficializava-se nesta cidade no mesmo ano da edição desse disco de Waldemar Bastos. A associação não surgiu do nada. Estava-se no final do 5º Campo de Férias, quando se escrituraram os Estatutos. Até aí um grupo de jovens, liderados por Armando Margalho, havia organizado, anualmente, actividades de ocupação dos tempos livres, nas férias grandes de miúdos e jovens dos 4 aos 12 anos.
Voltar a escrever a história desta Associação, não é o propósito destas linhas. Pretende-se apenas lembrar a origem, daquela que hoje é notícia pela eleição de uma nova direcção. A 27 do mês passado, como certamente será noticiado nas páginas deste jornal, a Associação Estamos Juntos elegeu, pela primeira vez, uma direcção não formada por sócios fundadores. Dezanove anos depois, aqueles que estiveram presentes na constituição da associação, deram o seu lugar a outros. Mais novos, bastante mais, nalguns casos. Na assembleia geral, estiveram presentes 6 sócios fundadores, uma clara demonstração do afecto destes pela Associação. É com a sensação de dever cumprido, que assisto a esta passagem de testemunho que, representa igualmente, uma mudança de geração.
Durante estes anos, a Associação Estamos Juntos tornou-se um clube desportivo de referência da cidade. Possui 7 secções desportivas, o que o torna num clube bastante ecléctico. Organiza anualmente, de forma bem sucedida, o Campo de Férias Estamos Juntos – que tal como outrora, ainda é a principal actividade da cidade para ocupação dos tempos livres dos jovens, no período de férias. A dinâmica desta Associação é bem visível na sua sede social, cedida em boa hora pela Câmara Municipal de S. João da Madeira. Aliás, a Associação Estamos Juntos tornou-se um parceiro institucional da autarquia no tocante a políticas de juventude e desportivas.
Com quase 20 anos de história, a Associação Estamos Juntos é reconhecidamente o 2º clube desportivo da cidade. Para isso, muito contribuíram os resultados desportivos dos seus atletas, sob a orientação dos respectivos treinadores e apoio dos vários seccionistas, directores e claro está, presidentes do clube. É um clube singular, pois sendo uma Associação Juvenil assiste praticamente todos os anos à saída dos seus atletas para ingressarem nas Universidades e jamais voltarem a competirem com as suas cores. E o mesmo acontece com os participantes do Campo de Férias, que vão crescendo, ano após ano, até ao limite da idade de participação, e que depois pelos estudos ou por causas laborais, desaparecem das Corgas.
Desde 1982 já passaram por esta Associação centenas ou mesmo, milhares de jovens. Desta cidade, dos arredores, de outros pontos do nosso país mesmo até de outros países. Importa destacar isso mesmo, para se perceber melhor que, existe por esse mundo fora, gente com várias recordações desta cidade e uma das mais importantes é a Associação Estamos Juntos.
Para todos eles, Estamos juntos.

quinta-feira, outubro 20, 2005

A aldeia de Astérix

Nos dias seguintes às eleições, a imprensa nacional tem o bom hábito de apresentar os resultados por via de mapas do nosso país, indicando quem foi o vencedor em cada concelho e atribuindo a cada partido ou coligação partidária uma determinada cor. Esta perspectiva, permite verificar tendências de voto em determinadas zonas do país e encontrar de forma rápida o resultado eleitoral de alguns concelhos, cuja localização nos é familiar.
Nas eleições do passado dia 9, a observação da zona entre rios Douro e Vouga conduz-nos a uma sucessão de concelhos pintados a cor de laranja – concelhos com vitória do PSD, com as faixas laterais pintadas a cor de rosa – concelhos com vitória do PS. Nesses mapas globais, os editores têm sempre dificuldade em contemplar o concelho de S. João da Madeira por motivos vários, como por exemplo, na revista Visão do dia 13 de Outubro, que sobrepôs o nome do distrito à área deste concelho, ficando uma letra a tapar os seus contornos, o que não permitiu evidenciar a separação dos concelhos vizinhos.
Esta tendência editorial surgiu na década anterior, quando os jornais passaram a apresentar páginas a cores. A partir dessa época a apresentação no tocante a resultados das eleições autárquicas era bem mais dignificante para S. João da Madeira. A sua visibilidade era sempre maior, devido a ser apresentado por um ponto azul – símbolo da vitória do CDS/PP - no meio do mesclado laranja e rosa.
Chamava sempre a atenção. Sobretudo, para aqueles que do seu imaginário infantil, se recordam dos livros de Astérix. À terceira página surgia o mapa da Gália e por baixo da lupa a aldeia do herói gaulês. A legenda continha as seguintes frases: “Toda a Gália está ocupada pelos Romanos... Toda? Não! Uma aldeia habitada por irredutíveis gauleses resiste sempre ao invasor”. Com as devidas proporções, evidentemente. A situação ainda ficou mais bizarra, quando nas várias entradas da cidade se colocaram “dois menires” em paralelo.
Apesar da longevidade de Astérix, os tempos são agora outros. O próprio autor do nosso (ou meu) herói, apesar de ser um digno representante da banda desenhada europeia, tem introduzido nos seus livros sinais de mangas – BD japonesa – e de comics americanos, como no último livro, lançado a 14 do presente mês, “ O Céu cai-lhe em cima da cabeça”.
Sinal dessa mudança de tempos, o PSD saiu claro vencedor das eleições autárquicas neste concelho. Uma vitória por maioria absoluta em todas as frentes. A eleição do 5º elemento para o executivo camarário foi deveras uma surpresa, mesmo sabendo que era esse o propósito do reconduzido Presidente da Câmara, desde Dezembro de 2001. Conseguiu-o por pouco mais de 400 votos, os mesmos que fugiram ao PS, para eleger o segundo vereador e sair destas eleições de cabeça erguida, pois teria contrariado o objectivo do PSD. Curiosamente, na votação para a Assembleia Municipal e para a Junta de Freguesia, o PS obteve esses votos!?
Espera-se que a oposição saída destas eleições não hiberne. O PS tem que continuar a sua reestruturação, apresentando alternativas construtivas aos projectos e à dinâmica imposta por Castro Almeida. Não pode esperar por Maio de 2009 e verificar que é necessário encontrar um candidato às eleições autárquicas desse ano. A menos que encontre uma solução semelhante à do PSD em 2001...
E do executivo Camarário, o que se espera? Pelo apresentado e pelos votos conquistados, espero que a meta não seja chegar ao sexto vereador em 2009. A sucessão de inaugurações nos próximos 4 anos vão transformar a cidade. Elejo apenas estas: Centro Empresarial, Cinema Imperador e o novo Centro Comercial na Avenida Renato Araújo. Contudo, gostaria que o novo executivo, perante as questões sociais deste concelho e dos limítrofes, promovesse uma política de emprego ambiciosa, à semelhança do prometido pelos seus correligionários de partido e de área metropolitana.
A poção mágica de S. João da Madeira foi, é e será na minha opinião, a sua capacidade industrial. Reformular o tipo de produção, qualificando os seus agentes, procurando novos produtos com maior valor acrescentado é um desafio da economia nacional e que se aplica particularmente a este concelho.

quinta-feira, setembro 29, 2005

O bom governador Sancho Pança

Sabiam os leitores que o famoso Sancho Pança foi governador de uma ilha?
A ilha situava-se em pleno reino de Aragão e não era circundada por água mas, esse pormenor geográfico, não afectou Sancho Pança no desempenho das suas funções. A nomeação foi feita pelo Duque e senhor daquelas terras, em sinal do reconhecimento da dedicação e devoção de Sancho, enquanto escudeiro do Cavaleiro da Triste Figura, D. Quixote de la Mancha, o último dos cavaleiros Andantes.
O seu governo durou pouco, apenas uma semana. Durante esse período, Sancho dedicou-se a resolver os conflitos que iam surgindo na ilha. A todos eles respondeu com mestria, surpreendendo os demais. Emendou injustiças, desmascarou burlões e evitou com facilidade uma trapalhada que lhe queria propor um desonesto comerciante. Ao fim de 8 dias Sancho Pança abdicou invocando dois motivos. Por um lado, não aguentou o controlo à sua degustação por parte do seu médico. Passou fome o que, para um sôfrego comedor e ainda por cima sendo novel governador, esperando poder comer todas iguarias possíveis devido ao cargo exercido, foi terrível. Por outro lado, ao verificar a sua falta de capacidade de liderar as suas tropas, no ataque virtual dos seus inimigos, entendeu que o lugar de governador não lhe era ajustado, preferindo por isso continuar a ser fiel escudeiro de D. Quixote.
Tudo isto nos conta Miguel Cervantes, no seu livro, publicado em dois volumes – “O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha” - considerado por muitos como o primeiro romance da era moderna e pelo autor como o último livro sobre a Cavalaria Andante. As lições de ética e honestidade de Sancho Pança e os bons conselhos de D. Quixote ao seu escudeiro, antes de este se tornar governador, são eternos. Numa clara prova da eternidade da literatura. Não consta, segundo o relato de Miguel Cervantes, que Sancho Pança tivesse inaugurado qualquer estrada, ou ponte, ou qualquer tipo de edificação. Nem sequer projectado. O seu governo ficou perpetuado pela história, pelas palavras e não pela construção. Hoje, praticamente 400 anos depois do seu governo, Sancho Pança é mais recordado do que qualquer Alcaide seu contemporâneo, Aragonês, Manchego ou até Português, pois nessa época toda a Península Ibérica estava unificada sob a coroa Espanhola.
Recentemente, o conhecido comentador desportivo, candidato à presidência da Câmara Municipal de Sintra, numa entrevista dizia mais ou menos o seguinte “Na actual conjuntura económica do país, com o PEC e a necessidade de redução do défice, nos próximos 4 anos as verbas do PIDAC serão cada vez menores. (...) Prometer grandes investimentos para o concelho seria pura demagogia (...)”.
De norte a sul, da esquerda à direita, passando pelos demais independentes, a ânsia da eternidade não permite aos candidatos a autarcas verificarem a realidade económica do país. Sobretudo ao elaborarem programas eleitorais, nos quais sobejam projectos e mais projectos de construção, ampliação e outras tantas obras de renovação de vários equipamentos existentes nos respectivos concelhos, além das inevitáveis melhorias das acessibilidades... Esses programas de promoção de obras municipais, ou melhor, estes “cadernos de encargos” parecem seduzir mais os empreiteiros do que os próprios munícipes.
Por vezes, os nossos autarcas enquanto candidatos devem ser atacados pelos mesmos nigromantes e demónios que atormentavam D. Quixote, os famosos encantamentos, que transformavam gigantes em moinhos de vento, cabeças de gigante em odres de vinho, exércitos de Cavaleiros em rebanhos de ovelhas e mesmo a bela donzela Dulcinea numa vulgar e carrancuda camponesa...

sábado, setembro 17, 2005

Tendências de voto

Os resultados eleitorais em S. João da Madeira nos últimos 10 anos permitem constatar que os eleitores Sanjoanenses votam em sentidos opostos: quando se trata de eleições legislativas ou europeias, o voto tende para o Partido Socialista e nas eleições autárquicas o voto tende a divergir. Em 1995, 1999 e 2005, para as eleições legislativas, a vitória nacional do PS sempre foi acompanhada, também nesta cidade, pelo maior número de votos neste partido. Mesmo em 2002, após o descalabro do governo de António Guterres, o PS foi o partido mais votado em S. João da Madeira nas eleições legislativas desse ano, contrariando a tendência distrital e nacional, que permitiram a vitória ao PSD.
Se analisarmos os resultados locais das várias eleições na década anterior, de 1985 a 1991, verificamos um acompanhamento da tendência nacional da época, isto é, vitórias claras do PSD. Ou seja, desde 1995, houve uma inflexão na tendência de voto dos eleitores Sanjoanenses, que passaram a votar maioritariamente no PS.
Em termos de eleições locais, desde esse ano que os resultados tiveram desfechos diferentes. Nas autárquicas de 1997, o CDS/PP venceu por apenas 199 votos de diferença e em 2001,o PSD triunfou com maioria absoluta, no tocante ao número de vereadores eleitos. Entre as duas eleições, o PS local passou de segunda força política para terceira. Passou da derrota por apenas 200 votos, com maioria na Assembleia Municipal e conquista da Junta de Freguesia, para o pior resultado de sempre em eleições autárquicas.
Se quiséssemos analisar as causas para esta diferença na tendência de voto entraríamos num vasto campo de especulações. No entanto, se perguntarmos a um militante local do PS, este naturalmente justificará as derrotas com o CDS/PP pelo efeito Manuel Cambra e a última, com o PSD, pela “onda laranja”, que percorreu o país em 2001. Se a primeira justificação tem raízes em 1985, numa coligação em bloco central de apoio a José Pinho - que provocou uma cisão profunda dentro da estrutura local do PS, já a segunda, não tem razão alguma, pois passados três meses, como anteriormente referi, o PS venceria em SJM para as eleições legislativas, contrariando precisamente essa “onda”.
Em jeito de seriedade, um destacado membro da concelhia local confidenciava-me há uns meses atrás que o problema era essencialmente de personalidades. A questão é essa mesma, pois existe a máxima que “quem ganha as eleições autárquicas são as pessoas”, à qual este Concelho não parece fugir.
Para as eleições do próximo dia 9 de Outubro, o PS formou listas com mais equilíbrio. À primeira vista venceu o complexo Manuel Cambra, fazendo regressar à vida política alguns dos seus militantes antigos. Em segundo lugar, encontrou candidatos que abrangem várias gerações e sem fazer qualquer tipo de avaliação pessoal, qualquer uma das três listas, é formada por candidatos com um currículo político superior aos das listas formadas há 4 anos. O próprio candidato a Presidente da Câmara, com o seu jeito dinâmico e empresarial, é uma mudança na história recente do partido.
Poderá não ser o suficiente para vencer, é certo. Mas uma derrota do PS será por mérito de quem vença e não por causas externas, como seria tentador pensar face “ao desagrado dos eleitores locais pelas políticas do governo”. Esta fuga à responsabilidade e atitude do tipo “avestruz”, já não se justifica. A actual liderança da concelhia encontrou as estratégias para que o partido saia do abismo em que outrora mergulhou. Não se pode voltar atrás.