quarta-feira, março 12, 2008

Satisfação

Dois estudos promovidos por duas entidades distintas, indicaram S. João da Madeira como um dos concelhos com maior qualidade de vida. As duas análises tiveram em comum o cruzamento de diversos dados estatísticos oficiais e diferenciavam-se na metodologia, pois o promovido pelo INTEC – Instituto de Tecnologia Comportamental –, baseou-se ainda em entrevistas telefónicas às populações locais.

Em ambos os estudos, este concelho ficou no pódio, i.e., nos três primeiros lugares, só tendo sido superado pelo concelho de Albufeira. Com este lugar no ranking nacional, vários foram os comentários, as interpretações e até sugestão de outros indicadores.

Houve quem preferisse não dar importância às conclusões de qualquer um dos estudos. Do rol de argumentos depreciativos não surgiu a normal visão redutora da função média: “se duas pessoas tiverem vencimentos anuais de 5.000 e 50.000 euros, em média auferiram 27.500 euros”; ou a mais conhecida: “se um fulano não comer uma refeição e o outro comer duas, em média ambos comeram uma e o desgraçado que ficou com fome, estatisticamente ficou satisfeito”. O cruzamento de vários dados estatísticos e a elaboração de rankings por domínios tratados, permite não se cair na tentação fácil de denegrir a análise estatística.

O facto das apreciações finais dos estudos terem sido semelhantes, confere idoneidade às metodologias utilizadas e sabendo-se que nove dos doze municípios financiaram o estudo do INTEC, em nada altera, na minha opinião, os resultados divulgados. Só seriam suspeitos se a amostra fosse menos homogénea e o ranking final colocasse, precisamente, os financiadores nas primeiras posições.

Com tudo isto, sabendo-se de todas as carências que existem na cidade, os problemas sociais incluídos, ligados obviamente aos dados “paradoxais” como bem englobou este Jornal na semana passada, o que ressalta dos resultados das entrevistas telefónicas é a satisfação global dos habitantes de S. João da Madeira.

Para os municípes deste concelho as áreas que funcionam menos bem são: saúde, ambiente, urbanismo, habitação, turismo, diversidade e tolerância. Em contrapartida, os aspectos positivos são: cultura; lazer; economia e emprego; ensino e formação; acessibilidades e transportes.

A felicidade é o grande trunfo da cidade. Subjectivamente, claro.

O trecho retirado do estudo do INTEC, segundo o Jornal Regional de 28-02-08 é o paradigma da análise subjectiva “(...) salienta a facilidade de mobilidade e curtos tempos de deslocação, assim como o fácil acesso a cidades como Porto e Aveiro, que disponibilizam equipamentos e serviços que escasseiam localmente, o que, segundo os autores do estudo, ajuda a explicar as boas avaliações dos munícipes nos domínios da saúde e educação e formação(...)”. Numa só frase, eis o resumo para a boa localização geográfica do concelho. Poderia evidenciar o paradoxo contido no texto transcrito, que elimina dois aspectos positivos do concelho mas, essa tarefa deixo-a para os leitores.

Voltando às preocupações da população, de todas as enumeradas, a eleita para análise pelo poder político foi friamente o turismo (ver texto “Turismo com nota negativa”, publicado no Jornal Labor de 06/03/08). Este desfasamento entre as dificuldades da população e a actividade política são a dura realidade nacional.

A satisfação dos Sanjoanenses é claramente elevada e distante do poder político municipal. Se verificarmos os domínios tratados classificados com nota positiva, nos recordarmos do Plano de Actividades da Câmara Municipal para o ano 2008, focados na capacidade de concretização do programa eleitoral do actual executivo municipal, ficamos sem palavras.

Estes documentos, os rankings divulgados podem ser criticáveis pelos indicadores eleitos, no entanto, retratam, pela abrangência de temas, a relação dos munícipes com os seus concelhos. Se alguns são demasiado cépticos, outros conformados e outros optimistas, os resultados obtidos, em especial, pelas entrevistas telefónicas permite obter-se uma análise social sobre a generalidade das suas expectativas.

Esse é o desafio para os próximos anos.

(a publicar dia 13/03/08)

segunda-feira, março 03, 2008

Táxi

Entrou no táxi já atrasado, pelo que teve logo de ouvir: “Estive quase para ir-me embora, se não fosse pela consideração que tenho por si, já tinha arrancado.”
Correu-me mal esta noite, foi a resposta ao taxista. Este olhou pelo espelho e logo reparou no lenço entre a mão e a cara, provavelmente a estancar uma ferida aberta.
Quer que o leve ao hospital? – perguntou. Prontamente respondeu: Ao daqui não! É melhor ao lá de baixo, fica a caminho do nosso destino habitual.

O taxista apesar de discreto, resmungou algumas palavras sobre o fecho de urgências dos hospitais. Passado uns metros fez a inevitável pergunta, da qual não queria obter resposta, sobre as urgências que afinal não fechariam. Assunto em voga na semana e que colocava em causa, todos os protocolos assinados. Enquanto o taxista dissertava a sua sabedoria sobre o assunto, o conduzido, embalado pelas palavras ouvidas e pelo andamento do táxi, reviu os acontecimentos da noite.

Seria uma noite normal de fim de semana. Para começar, o costume, uma partida de snoocker, seguida da viagem por táxi, frete combinado frequentemente, só com ida até ao casino, ceia e aqui variaria o programa: a sua condição de homem disponível e a vontade de passar momentos com corpos femininos, macios e perfumados, podiam-no reter numa noite em agradável companhia, ou então, o regresso solitário a casa, num qualquer carro de praça disponível.

Desta vez, não seria assim. O adversário nas bolas coloridas, era um daqueles chatos, batoteiros e conflituosos, ainda por cima familiar do dono do salão de jogos. A partida estava a correr bem, até que uma palavra mal medida, virou em ameaça. Daí até à violência física foi um pequeno passo. Levou uma cabeçada do energúmeno, mais um par de socos, ficando com a cara aberta e sem hipótese de defesa. Apoiado à mesa de jogo, olhou em redor à procura de um objecto para se defender e igualar o “combate”. Quando viu que o taco estava longe do seu braço, lembrou-se do filme “Guerra das Estrelas”, da saga dos Skywalker e pensou no poder da levitação. De repente, o taco estava na sua mão. Sem acreditar sentiu-se um guerreiro Jedi e investiu sobre o opositor. Um golpe aqui, outro ali, mais duas fortes tacadas e desembaraçou-se da situação criada. Uma voz disse-lhe para fugir, que o encobria. Percebeu ser de alguém que o tinha ajudado e atirado o taco naquela hora difícil. Mais aliviado, percebeu que a força não estava com ele.

O taxista expelia bairrismo por todos os poros. O tom de conversa não estava agradável... Decidiu interrompe-lo, precisava da sua ajuda no hospital. Explicou que teriam de representar, dramatizar mesmo, para conseguir dar entrada nas urgências, sem grandes questões. Ao taxista agradou-lhe a ideia de ludibriar o sistema nacional de saúde, uns penetras na urgência dos outros.

Como cliente agradeceu e pediu para esperar por ele. Esta noite voltava a casa, mal tivesse o curativo, que pagaria o que fosse preciso pelo tempo de espera, mais a viagem como se fosse para o destino previsto. O taxista ficou satisfeito, a vida não estava fácil, como já tinha dito várias vezes, àquela hora só poucos trabalhavam e ele próprio queria estar em casa.

Encostado no banco de trás, compreendeu o vazio da sua vida. Enganava-se no jogo nocturno, onde ganhava muito mais do que perdia. Esta pequena satisfação nunca lhe trouxe felicidade, antes pelo contrário. Separação. Visita do filho apenas de vez em quando. Uma vida desenraizada, sem qualquer ligação social. Só, no mundo.

Antes de chegar ao hospital disse ao taxista: o que é necessário é alargar a rede de urgências dos Hospitais Psiquiátricos. O condutor indignado tentou percebê-lo. Focou-o pelo retrovisor, para seguir as ideias do cliente, pedindo-lhe para se explicar melhor. Este continuou, pausadamente: ouvi-o atentamente e não percebo como se pode trocar um serviço de urgência por uma ambulância especial; como é que algumas populações ficam a aguardar a construção de novos hospitais, enquanto para outras são logo reduzidos os cuidados de saúde garantidos pelo Estado. Tudo isto é confuso, não se percebe o critério e deixa qualquer um baralhado. Mas, não pense que é por isso que falei nos hospitais psiquiátricos. Estou cansado de fingir. Se fosse fácil entrar num desses hospitais, seria para lá que iríamos agora.

Nota: esta estória foi originalmente publicada no blogue “Escrita Irregular”. Reeditar este texto, adaptando-o às circunstâncias actuais é uma justa homenagem a leitores, comentadores assíduos do recentemente encerrado blogue. A eles agradeço toda a atenção dispensada ao longo destes últimos 17 meses.

(a publicar no dia 06/03/08)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Preto e branco

O clube de futebol da terra dos meus filhos, numa das anteriores eliminatórias da Taça de Portugal, foi jogar com o Benfica. A proximidade do clube, com colegas de turma e amigos mais velhos a jogar nas escolas do clube de Santa Maria da Feira, poderiam ajudar a despertar a atenção sobre o acontecimento. Avisados, sobretudo o mais velho, que já se interessa por estas coisas da bola, esqueceram-se. A atenção para o desporto resume-se nestas idades, mais à vontade de experimentar, do que ao seguimento ficando sentado. E paciente.

A história da família do lado materno foi buscar as memórias do primeiro encontro entre os dois clubes. Nos anos sessenta, na primeira aventura deste clube do concelho vizinho na 1ª Divisão, o bisavô dos meus filhos era seu presidente.

Na tarde do jogo, já depois deste ter acabado, ao verificar o resultado do jogo, no portal informativo adequado, confrontei o meu filho com a eliminação do Feirense. A reacção foi: Fixe!!! O Benfica ganhou, fixe!

Poderia analisar a expressão pelo lado do resultado raro para os lados de Lisboa, no entanto, o que me interessa narrar, não tem relação com esse assunto.

Nem os laços familiares, nem a proximidade modificaram a simpatia clubista do rapaz.

Nada.

Indiferente a tudo isso, congratulou-se com a vitória da equipa distante.

Em pequeno sempre desejei que houvesse um jogo de futebol entre a Sanjoanense e o Benfica.

A minha faceta enquanto adepto começou cedo. Aos sete anos já corria para a Rua Benjamim Araújo para assistir aos jogos de Basquetebol dos meus irmãos mais velhos, nas camadas jovens da ADS. Com o avançar da idade, fui seguindo as várias equipas da modalidade.

A ascendência qualitativa das equipas principais de Hóquei em Patins e de Andebol, juntamente com a modalidade predilecta também despertaram o meu interesse. Na minha adolescência, presenciei vários momentos de exultação colectiva no Pavilhão. A alegria exacerbada dentro e fora do campo.

O futebol era acompanhado à distância. No estádio, de forma mais esporádica, um jogo de vez em quando. Em miúdo quase sempre acompanhado pelo meu pai, que me protegia os ouvidos da má criação verbal, escolhendo sempre os mais isolados lugares da bancada. Era na imprensa que seguia semana após semana, os campeonatos anuais da Sanjoanense. Hábito que conservo ao longo destes últimos trinta anos. Todas as segundas – feiras, no periódico procuro sempre os resultados semanais da Sanjoanense, vejo a classificação, comparo com a concorrência e teço comentários momentâneos.

Actualmente não vou ao estádio Conde Dias Garcia, nem a qualquer pavilhão. Sendo sócio (com o n.º 1019), a minha contribuição resume-se à quotização anual. Aprecio a aposta na formação desportiva, alargada ao desporto feminino e tudo isto, sem abdicar das equipas seniores nas várias modalidades colectivas de sempre.

O maior feito da ADS foi chegar aos 84 anos, como está.

O seu contributo para o eclectismo (é a minha palavra desportiva preferida) do concelho é notável. Tornando S. João da Madeira um dos raros locais no nosso país, onde é possível praticar e competir em desportos colectivos, em qualquer idade e género.

O esforço dos seus dirigentes e funcionários, para a modernização e adaptação aos novos tempos, tem-se traduzido por uma melhoria significativa das condições à disposição dos seus treinadores e atletas.

A comunidade reconhece esse esforço. Nos últimos anos, a própria autarquia reformulou o ultrapassado campo de jogos e criou o Centro de Formação Desportiva, dotando-o com excelentes condições para a prática de futebol. O restauro do pavilhão dos desportos, por imperativos vários, foi outra obra finalizada.

Já a relva do estádio Conde Dias Garcia continua à espera de ser substituída...

Em tempo de aniversário, a festejar no próximo dia 25, é tempo de voltar a reivindicar antigos desejos.

Não se compreende como o assunto ficou esquecido tanto tempo. Se em 2004, todos estavam dispostos a comparticipar, está na altura de solicitar uma ajuda mais efectiva neste sentido.

Aliás, o estádio e a área abrangente poderiam ter-se englobado no Plano de Pormenor equacionado para o outro lado da Avenida Arantes de Oliveira. Deste modo a autarquia oferecia uma ideia, um projecto de remodelação de um espaço muito importante da história da Sanjoanense, prosseguindo a melhoria dos espaços desportivos municipais, que são um sinal de diferenciação deste concelho.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Ilustres

A boa gastronomia é um motivo para deslocações a qualquer ponto do país. Restaurantes existem que são mais afamados do que a localidade onde estão inseridos. Noutros casos é a própria região sobejamente conhecida e qualquer restaurante tem clientela à porta e dentro dela.

Comensais organizam listas alfabéticas indicando para o nome de cada terra, os respectivos restaurantes em que é imperativo comparecer, caso haja ocasião no caminho, ou então fazendo-o propositadamente.

Com esta intenção fiz-me à estrada, percorrendo o percurso idêntico ao dos peixes fluviais, isto é, partindo junto da foz do Rio Vouga e serpenteando por estrada os seus meandros dirigi-me para montante. Segui pela nova A25 até sair junto a Macinhata do Vouga, local onde a CP instalou um Museu Ferroviário para eternizar o simpático e regional Vouguinha, da minha infância.

A hora nocturna já não permitiu visitar as bielas, cambotas e locomotivas a carvão. Segui pela estrada a caminho de Sever do Vouga. Deparei-me com a ponte ferroviária do poço de Santiago. Um ex-libris do concelho para onde me dirijo e a maior obra da engenharia ferroviária construída no século passado na região – “mais alta (28,5 metros) ponte do país construída em pedra. Com 165 metros de comprimento, é constituída no seu todo por 12 arcos de tamanhos vários. O maior, de forma parabólica, abraça firmemente as margens do rio Vouga, tendo de altura 27 metros e de vão (comprimento da base) 53 metros. O fecho deste arco, o central, apresenta apenas 90 cm de espessura. Os restantes 11 arcos partilham da base do arco maior, havendo uma duplicidade de soluções geométricas e de engenharia verdadeiramente arrojadas”.

Mais uns quilómetros, umas curvas, umas construções à beira rio e chegamos a Pessegueiro. Uma escada de acesso descendente, anunciam o restaurado edifício, outrora cais de barcos. Entramos precisamente na “Quinta do Barco”.

Do cardápio surgem as eventuais sugestões características da zona: a vitela de Lafões e a lampreia, porque a época era propicia.

A escolha foge da tradição local, os quilómetros percorridos merecem uma nova aventura gastronómica - espetada de polvo -, seguindo a sugestão confidenciada por familiar. Renego qualquer tentativa de ingerir o pitéu das águas doces, pela dificuldade em explicar aos meus filhos que aquela aparência horrível, é apetitosa.

Durante o jantar, numa das mesas em frente à escolhida pela família sentam-se dois casais. Uma das caras não me é estranha. Não gosto quando isto me acontece. Rostos conhecidos das televisões, ou dos jornais, fora do seu contexto habitual, tornam-se difíceis de se identificar prontamente.

Uma terrível coincidência, estarmos no mesmo local com pessoas que sabemos quem são e não reconhecemos. A menos daqueles bastante conhecidos, como uma vez em Montemor – o – Velho, em que na mesma sala se encontrava Pedro Santana Lopes. Sempre simpático e bem disposto, mostrando o seu lado divertido, partilhando com os seus companheiros de mesa, as memórias cinéfilas, em especial, o cómico “Tea for two”.

Desta vez junto ao rio Vouga, não conseguia identificar aquela cara. Não acredito na ideia provinciana de que temos sistematicamente de encontrar pessoas conhecidas, como se o país fosse pequeno. De qualquer forma, estava perante uma peça de xadrez fora do seu lugar no tabuleiro. Uma espécie de bispo colocado na diagonal errada, longe do seu correcto posicionamento, que estar ou não em jogo, nada acrescenta no desfecho do mesmo.

Prosseguimos a refeição, incluindo uma soberba sobremesa de mirtilo. O indispensável o café foi bebido a correr, porque os miúdos tinham atingido a sua hora de saturação e só pensavam em portar-se mal. Primeiro escondendo-se debaixo da nossa mesa, depois alargando a área de brincadeira às mesas mais próximas. Enquanto esperava por finalizar o pagamento, o grau de aborrecimento e algazarra foi crescendo. Nesta fase fez-se luz na minha memória. Preparava-me para revelar a minha inquietação e confrontar as dúvidas, quando os meus filhos se dirigiram para a mesa do ilustre “não identificado”. Preparava-me para pedir desculpas pelo incómodo a provocar e receber uma ajuda, via uma qualquer reprimenda dada aos garotos. O gesto, precisamente do famoso cliente deixou-me desarmado. No lugar da esperada recriminação, o incentivo ao mau comportamento através da entrega de um rebuçado. O troféu foi transportado até à mesa dos pais, em sinal de vitória. Como qualquer criança, não se contentaram só com um e voltaram à mesa dadora até receberem o último. Depois foram incomodar outra e mais outra mesa, pedindo sempre rebuçados.

Finalmente, acertei as contas e consegui sair. Nem me lembro se os meus filhos trouxeram os rebuçados. O interesse era mais desafiar o pai, do que adoçar a boca.

Passado uns dias, numa qualquer quinta-feira seguinte, estava a ler a crónica quinzenal de António Lobo Antunes, provavelmente a da solteira, do seu amante careca, que lhe fazia companhia durante os serões, antes de regressar ao seu lar de casado e dissipei todas as dúvidas surgidas em Pessegueiro do Vouga. O rosto famoso era certamente o cronista.

Se era lógico ser ele, não posso avaliar. Fica sempre a incerteza se aquela cabeça a tender para careca, os olhos claros por baixo de uma testa engelhada, que são aspectos físicos comuns a várias pessoas, era capa da invulgaridade da escrita.

Importante, mais do que eventualmente ter-me cruzado com o escritor, é poder um dia repetir o repasto, pois o que espero relativamente a tão ilustre pessoa é poder continuar a deliciar-me com a sua prosa...

(a publicar no dia 08/02/08)

terça-feira, janeiro 22, 2008

Lótus Azul

           Durante este mês Janeiro, o assunto de todas as conversas tende sempre para o mesmo, a entrada em vigor no inicio do ano, da lei que pretende "proteger os cidadãos da exposição involuntária ao fumo do tabaco e medidas de redução da procura relacionadas com a dependência e a cessação do seu consumo", genericamente conhecida como Lei do Tabaco.

 A maior controvérsia prende-se pela proibição de fumar em determinados locais, nomeadamente os descritos nas vinte e cinco alíneas consideradas.

A aceitação da proibição por parte dos fumadores e em especial, pelos proprietários de estabelecimentos de restauração e similares, foram extremamente enaltecidas pela restante população – maioritária – de não fumadores. Ainda assim, como o vício não se controla por decreto, ficou a possibilidade de restaurantes, cafés e bares optarem por criar uma zona de fumadores, ou nalguns casos, preferiram classificar o seu estabelecimento como tal, obedecendo ao previsto na lei, acerca de extracção de fumos e sinalização adequada no exterior.

Mesmo a este nível a situação não tem sido totalmente pacífica. Espera-se, como é costume em Portugal, que o legislador indique qual o tipo de extractor adequado. Entretanto, procura-se com os meios existentes dentro de portas, ventilar o local, retirando o fumo.

Com alguma piada e com utilidade para alguns, foram sendo elaborados roteiros a nível nacional dos poucos locais onde é permitido fumar.

A minha experiência de, num fim de tarde, ter aproveitado uns quinze minutos livres, para beber um café, é esclarecedora da confusão a que a nova Lei nos sujeitou. O estabelecimento onde entrei, parecia a costa ocidental portuguesa em dia de nortada, vento por todo o lado. Não estava a perceber a opção de manter o ar condicionado ligado - como ventilador, em pleno Inverno. Só quando me dirigi ao balcão para pagar o consumo e vi dois fumadores a partilhar o cinzeiro em amena conversa, é que compreendi estar dentro de um estabelecimento de dístico azul afixado. Ao sair, confirmei-o.

Como em tempos escrevi, apesar de asmático, o tabaco nunca me incomodou. Suportaria melhor o fumo de 50 fumadores naquele café, do que as rajadas de ar frio que me trespassavam o corpo. É evidente que não vou tomar medidas radicais de evitar dísticos azuis, antes pelo contrário. Agora se fosse fumador, procuraria não entrar nestes locais supostamente arejados, evitando assim complicações pulmonares desnecessárias. Pelo que senti, era preferível fumar no exterior do local, que mesmo sendo fim de tarde estava mais protegido e portanto, mais ameno, do que estar sujeito àquelas correntes de ar forçadas.

Por mais que tente, não consigo perceber esta lógica na sinalização utilizada. A cor azul não tem coerência alguma. O vermelho é normalmente empregue como cor de proibição, tanto na sinalização do estado do mar nas praias, como ao nível de código da estrada, como também ao nível de segurança e higiene no trabalho. Já o azul é usado no referido código e na sinalização de segurança, como sinal de obrigatoriedade em placas redondas e como sinal de informação em placas quadradas ou rectangulares.

Um dístico azul dizendo "fumadores" e traduzido em outras duas línguas é meramente informativo ou pretende encaminhar os fumadores para um determinado local?

Obviamente a pergunta é meramente retórica e jamais me vão responder, até porque não é claro qual o critério para a escolha da cor. Contudo, qualquer conhecedor da obra do belga Hergé, lembra-se dos livros de Tintin. Numa fantástica aventura, o jovem jornalista vê-se envolvido numa rede internacional de tráfico de ópio e é forçado a deslocar-se para a China, então ocupada pelo Japão. Nesse livro, o desenhador faz referência ao Lótus Azul (precisamente o nome desse álbum), estabelecimento no qual os clientes fumam ópio, espalhados pelo chão a inalar o fumo.

Espero que o imaginário infanto-juvenil dos legisladores não tenha feito a mesma associação, hostilizando os fumadores e criando entraves na sociabilização dos mesmos, rotulando-os.
(a publicar no dia 24/01/08)

terça-feira, janeiro 15, 2008

Lista Única

No passado dia 21 de Dezembro os grupos parlamentares do PS e PSD, apresentaram na Assembleia da República, o projecto de lei número 143/X, que prevê consagrar alterações à Lei Orgânica número 1/2001 de 14 de Agosto, precisamente a LEI ELEITORAL DOS ÓRGÃOS DAS AUTARQUIAS LOCAIS.

As principais alterações a introduzir serão:
“- Eleição directa, secreta, universal, periódica e conjunta da assembleia municipal e do presidente da câmara municipal;
- O presidente da câmara municipal é o cabeça da lista mais votada para a assembleia municipal, à semelhança do regime actualmente vigente nas freguesias;
- Designação dos restantes membros do órgão executivo pelo respectivo presidente de entre os membros do órgão deliberativo eleitos directamente e em efectividade de funções;
- A garantia de representação das forças políticas não vencedoras no executivo municipal;”

Ao nível de funcionamento da Assembleia Municipal, as modificações serão:
“- O reforço dos poderes de fiscalização do órgão deliberativo, tendo como corolário a apreciação da constituição e remodelação do executivo, através da possibilidade de aprovação de moções de rejeição;
- A deliberação de rejeição do executivo requer maioria de três quintos, gerando, em caso de segunda rejeição, a realização de eleições intercalares;
- Tais direitos apenas são exercidos, ao nível municipal, pelos membros da respectiva assembleia directamente eleitos e em efectividade de funções.”

Este ponto tem provocado alguma contestação por parte dos membros eleitos por inerência, ou seja, os representantes das Juntas de Freguesia, normalmente o seu Presidente. Neste sentido, a ANAFRE – Associação Nacional das Freguesias – já apresentou o seu parecer negativo sobre este projecto de lei. Além do ponto focado, está previsto na proposta apresentada no Parlamento, o impedimento dos representantes das freguesias de exercerem o seu direito de voto, na apreciação dos Planos de Actividade e Orçamento.

Como na maioria das Assembleias Municipais, o número de votos dos Presidentes das Juntas de Freguesia é significativo, por todo o país vão surgindo apreciações e moções de rejeição ao diploma apresentado no último mês na Assembleia da República.

Em termos práticos, para as concelhias partidárias o futuro fica mais facilitado.
É certo que em concelhos com maior dinâmica política, em termos individuais, a disputa pelos lugares elegíveis será mais árdua. O mesmo acontecerá com as estruturas de determinadas freguesias, que estarão sempre atentas, a verificar eventuais ganhos ou perdas relativamente a outras organizações locais. Um pouco à semelhança do que se passa com as concelhias partidárias no que respeita a constituição das listas nas eleições legislativas em cada distrito.

As razões para a futura agilidade das concelhias são duas. Em primeiro lugar, pelo menor número de candidatos necessários para preencher as listas. Existia sempre dificuldade em encontrar militantes e simpatizantes, ou independentes, para preencher as duas listas para os órgãos autárquicos centrais. Por outro lado, como o centro do debate político será a Assembleia Municipal, os partidos com a lista conjunta, conseguirão não fragilizar uma das listas, não colocando pessoas com maior potencial político em lugares de eleição duvidosa e com isso, afastá-los da real actividade política.

Em 2009, para as eleições autárquicas já será assim.

Estas alterações na Lei Orgânica, por certo, afastarão os independentes das listas partidárias, pelas razões atrás expostas, e isso poderá ser importante para o lançamento de candidaturas não partidárias às eleições locais. Não como aconteceu, no ano passado, nas eleições autárquicas intercalares para a Câmara Municipal de Lisboa, em que as listas independentes apenas surgiram por não terem sido primeiras escolhas do seu espectro partidário mas, candidaturas genuínas, do género da lista vencedora das eleições intercalares para a Junta de Freguesia das Caldas de S. Jorge.

Imagine agora o leitor o seguinte: caso a proposta de reforma da Administração Local do ano de 2006 (apresentado pelo Secretário de Estado, Eduardo Cabrita, de esvaziar os concelhos de freguesia única, extinguindo-a) tivesse prevalecido, a eleição autárquica do próximo ano, em S. João da Madeira, seria efectuada com a apresentação de uma lista única.

Este cenário pode parecer uma suposição provocatória, no entanto, começa-se na própria
Assembleia de Freguesia a reivindicar a atribuição de mais competências das previstas na Lei Orgânica para a Junta de Freguesia de S. João da Madeira.

Uma exigência antiga que a centralização autárquica tem contrariado, ao longo de anos. Daí, como são poucas as competências da Junta de Freguesia, o fatalismo da extinção da mesma, abstraiu-se de ser assunto interdito.

Provavelmente, como se pretende fomentar o conceito de competitividade do concelho, umas eleições autárquicas com os vários partidos a concorrerem, cada um com uma lista única, seria um óptimo exemplo de publicidade institucional.

(a publicar dia 17/01/07)

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Balanço: Impasse, Justiça e Fuga

A actividade da política local no ano de 2007 foi marcada por factores exógenos. A alteração e animação do quotidiano da cidade deveu-se a relações com entidades de índole nacional, que marcaram fortemente o ano que agora termina.

O impasse nas negociações com o Governo actual foram o ponto negativo, por não terem sido profícuas para a Cidade.

Os grandes assuntos pendentes do ano anterior (Encerramento das Urgências, construção e ligação à A32, aplicação na Linha do Vouga de vaivém) não se alteraram. As últimas notícias vindas a público relativamente a estes assuntos, demonstram que a crença, em se obter uma solução adequada à pretensão dos Autarcas locais, é cada vez menor. A prova disso são as verbas orçamentadas para o ano de 2008. Às dúvidas colocadas na Assembleia Municipal de 13 de Dezembro, o Presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira adiantou que a concessão da A32 não previa a construção da ligação a Ovar. Uma atitude que difere com a sustentada no passado, quando se procurava saber em que situação estava a ligação por auto-estrada ao Porto. Desta vez, houve vontade em trazer más notícias em primeira mão. Do encerramento das urgências, processo que a oposição política habilmente delegou a responsabilidade negocial no Presidente da Câmara, a convicção é que qualquer dia terá data marcada. O Ministro da Saúde contínua firme na ideia de transferir responsabilidades para os Centro de Saúde e para os médicos de família. Os próximos tempos deverão ser decisivos, até porque os serviços de Urgência do distrito de Aveiro com o encerramento previsto, já começaram a fechar.

Se no campo político, a grande acção da oposição foi engavetar o Presidente da Câmara, uma ajuda maior e preciosa foi obtida em matéria de acções judiciais. Por um lado, o capital político adquirido do processo que visava Teresa Correia, por outro, em processo ainda sem desfecho e este já envolvendo directamente o Presidente da Câmara, o poder autárquico foi beliscado pelo poder judicial. Estes processos trouxeram um outro factor importante, clarificaram perante os eleitores os negócios privados do Dr. Castro Almeida, o que foi extremamente importante para terminar com insinuações.

Neste panorama, o Dr. Castro Almeida encetou uma fuga para o futuro. Em termos de política local, procurou algo diferente do que apresentar Planos de Actividades repletos de conclusões de obras, inaugurações, lançamento a concurso público, ou início de empreitada. A apresentação em Outubro através do Engº. Mira Amaral do Plano de Inovação: “S. João da Madeira 2015” conseguiu trazer algo diferente de uma sucessão de pretensas obras municipais, com co-financiamento do Estado. Provavelmente não muito bem assimilado pela totalidade da população, este é um importante projecto que pode ajudar a alavancar a transformação da economia local, tornando-a mais competitiva.

Um autarca sabe que tem um contrato de quatro anos com os seus eleitores. Está a prazo no desempenho da sua função. Com a alteração da Lei, impondo a limitação do número de mandatos, sendo impossível aos autarcas cumprirem mais de três, o edil local tem a sua carreira política para rever. No máximo será autarca em S. João da Madeira a médio prazo, por um período de 6 anos. Desta forma, seguindo a ambição de outras figuras do seu partido a exercerem funções de Autarca, tornou-se figura nacional e consagrou-se como a voz da contestação ao líder populista do Partido Social Democrata.

Bem sei que muita gente espera com esta projecção política de Castro Almeida, que o Governo actue de forma diferente com a Cidade. Ambiciona-se que o seu protagonismo pessoal seja traduzido em melhores relações com os Ministros (não apenas com secretários de Estado) e que o concelho consiga inverter a tendência recente de perda de valências e de investimento público.

O próximo ano ficará caracterizado pela capacidade de afirmação na política nacional do Dr. Castro Almeida. Obviamente, a capacidade de execução enquanto Autarca estará em análise. A mediatização conseguida na imprensa pela cobertura por banda larga, dando acesso gratuito à internet, em todo o território geográfico deste concelho, foi o arranque. O plano de actividades para 2008 promete inaugurações várias e a resolução de problemas antigos da Cidade. Nada com direito a projecção nacional. Apenas e só a inauguração do Centro Empresarial e Tecnológico, desde que previamente dinamizado, poderá ter o efeito pretendido.

Estando já em campo de projecções, desejo um Bom Ano de 2008 a todos os leitores.

(a publicar dia 28/12/07)

domingo, dezembro 16, 2007

Dezembro

Nos últimos anos, a quadra natalícia tem-se expandido, correspondendo ao último mês do calendário.

As hostilidades abrem cedo, logo nas primeiras noites do mês são inauguradas em vários pontos do país as respectivas iluminações natalícias, promovidas essencialmente por Câmaras Municipais, aliando-se ao efeito Associações de Comerciantes. A dinâmica pretendida, de convocar as pessoas para as ruas, para junto do comércio tradicional, acarreta a preparação de várias iniciativas, todas elas consagradas ao Natal: árvores alusivas (com a maior da Europa aqui tão perto); a chegada do ícone da época vestido de vermelho; concursos promovendo a participação da população - quer através das iluminações dos exteriores das casas ou de prédios, quer impulsionando a decoração de rotundas, ou através de receitas de culinária. Algumas das iniciativas há mais tempo promovidas, entretanto perdem brilho, tornando-se mais moderadas.

Para quem habitualmente procura assunto para escrever umas linhas para partilhar com os leitores, este é um mês difícil. O “Espírito de Natal” bloqueia qualquer tentativa de um texto mais agreste, de uma chamada de atenção, de uma crítica. Mesmo até textos mais suaves, de sugestões, de propostas alternativas ao quotidiano da cidade, não conseguem receber o alento devido. Por outro lado, a disponibilidade para compor textos diminui já que a profissão exige mais dedicação. A necessidade de manter os indicadores de produtividade, pensanso na satisfação dos clientes, constrangem a vontade de escrever.

Os dias foram passando.

Para manter a regularidade de textos publicados, vejo-me “obrigado” a abordar a quadra do Natal. Sinceramente não sei o que escrever.

Assisti à dificuldade de um pai em explicar o significado da palavra Natal a um filho e o resumo conseguido, da festa de família onde se trocam presentes, é demasiadamente perigosa, apesar de todo o afecto incluído.

Poderia ser o mote.

Apesar da laicização do Estado, é bom preservar alguns valores tradicionais, para se perceber a origem dos festejos. Por todo o lado surgem presépios, de todas as formas, o que é importante para ensinamentos futuros.

O Natal é feito em torno da idade da inocência. É deles que surgem os melhores momentos, pela alegria demonstrada ao receberem as prendas, como pelas cantorias, isoladas ou em coros dos temas alusivos à quadra. Pela experiência vivida, neste período do novo conceito de Natal, verifico que o velho barbudo, apesar do fascínio que cria nos pequenos, contribui mais tarde para a primeira desilusão da vida.

Os adultos incutem a ilusão colectiva, sendo positiva e sadia, embora reconheça advenha maioritariamente, ou resumidamente, da possibilidade de poder-se consumir.

Em época de crise, os menos afortunados não são esquecidos. Efectuam-se várias e profícuas campanhas de solidariedade. Este ano, os Bancos Alimentares contra a fome recolheram mais 10% de alimentos do que em 2006. Os festejos de Natal lá em casa, começaram com a participação neste contributo. Serviu para os mais pequenos entenderem e interiorizarem o que devia ser o “Espírito de Natal”.

Oferecer antes de receber, uma compilação apressada para o significado do termo fraternidade.

A melhor forma de terminar o texto relativo à quadra.

Finalizo estas linhas, enviando a todos os leitores votos sinceros de um Bom Natal.



(a publicar no dia 20/12/07)

terça-feira, novembro 27, 2007

WWW

A actividade desportiva da cidade tem-se distribuído por três vertentes: o entretenimento, a associativa e a manutenção.
A primeira, o entretenimento, verifica-se pela existência de bons equipamentos desportivos, que permitem dar uma maior visibilidade ao município e servem sobretudo, para promover a organização de campeonatos ou eventos de âmbito nacional, torneios ou jogos particulares de selecções ou equipas nacionais, proporcionando aos habitantes da cidade e da região próxima, momentos de lazer como espectadores. Nos últimos anos, o melhor exemplo deste tipo de promoções é a chegada da Volta à Portugal em Ciclismo - obviamente, fugindo do conceito atrás definido de utilização dos equipamentos desportivos, embora num passado recente existam vários exemplos de aproveitamento dos espaços municipais para espectáculos do género, como o Mundial de Andebol de 2003.
A parte associativa do desporto compreende a formação, a competição e no limite o profissionalismo e está intimamente ligada aos vários clubes da cidade, que utilizam os equipamentos públicos e envolvem centenas de atletas. A divulgação de resultados nas páginas dos jornais locais demonstra bem, a forte actividade desportiva das associações do concelho. Associada a estes clubes, temos uma pequena componente de entretenimento, composta pela assistência a jogos ou treinos, normalmente formada por familiares dos atletas e nalguns casos por outros atletas da mesma secção e claro está, por sócios ou simpatizantes.
Por último, temos a vertente de manutenção. Por exclusão do desporto federado, a manutenção engloba todos os que praticam desporto apenas pela forma física ou pela promoção de saúde. Provavelmente, sem ser possível obter um número rigoroso destes desportistas, penso que esta última vertente é a que maior adesão tem tido nos últimos anos. Não errarei muito se contabilizarmos alguns dos inscritos na Escola de natação, nos grupos que alugam pavilhões, court de ténis e campos de futebol. Contudo, além daqueles e daquelas que frequentam ginásios, existem vários que praticam jogging (em corrida ou em ritmo de caminhada), além dos ciclistas de horas de lazer e dos utilizadores dos ringues em zonas habitacionais.
O conceito actual de Desporto apenas aceita a vertente federativa. Vários são os atletas que sentem a obrigação de recorrer a associações pela necessidade de competir no desporto federado. O bem estar, a forma física, a aprendizagem - sem componente competitiva - e a promoção pela saúde são actividades que caiem fora da moderna definição de desporto.
A ideia existente do “Desporto para todos” vai sendo abandonada e os índices calculados vão sendo descurados, porque ridiculamente comprovavam a pouca penetração da actividade desportiva nos hábitos da população Portuguesa.
A Autarquia de S. João da Madeira idealizou a sua política desportiva, no sentido de apoiar os clubes locais. Em tempo acertado e oportuno, procedeu à atribuição e distribuição de espaços públicos para sede social de várias Associações. Ao longo dos últimos anos, a Câmara Municipal tem contribuído para o financiamento dos clubes, através de contratos programa concedendo subsídios mensais, o que permitiu a qualquer dirigente competente gerir a sua Associação de forma mais organizada e profícua.
Além destes subsídios, surgiram também outros incentivos financeiros através de prémios por títulos individuais ou colectivos alcançados, tanto em competições distritais, como nas nacionais.
Neste panorama, extremamente animador para quem é dirigente, surge agora mais uma oportunidade de melhoria: a criação de uma página na Internet através do EDV Digital. Pelo que retive, das afirmações dos responsáveis do projecto, as associações aderentes terão ao ser dispor um Módulo que lhes permitirá fazer a gestão do ficheiro de Sócios, permitindo efectuar-se, entre outras opções, a listagem actualizada, o processo de pagamento de quotas, etc..
É certo que os clubes existem de acordo com a vontade dos seus associados, no entanto, a história recente, tem demonstrado que vários são os clubes, ou associações, que têm tido um rumo bem definido ao serviço do bem comum, da comunidade local.
Estes devidamente enquadrados por protocolos específicos, certamente estarão em condições de se organizar, no sentido de conseguirem uma autonomia de receitas, através da consignação de equipamento desportivos e espaços auxiliares públicos.
Este acto permitiria um aliviar das despesas correntes da Autarquia, reduzindo e clarificando o fluxo mensal dos subsídios atribuídos às colectividades locais e sobretudo, gerir melhor os mencionados bens públicos, muitos extremamente mal aproveitados, ou em concessão a privados.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Gente com palavras

No seu desassossego, Bernardo Soares descreve o escritor de um modo inquietante. Na sua prosa surge a observação da não muito digna posição da cabeça de um autor, obrigada pelo acto da escrita, a estar vergada, colocando o escritor como um ser submisso.

O progresso introduziu a máquina de escrever como instrumento de escrita. Apesar de todas as melhorias consequentes, a postura de qualquer escritor não se alterou. Os textos sofreram alterações de forma, a caligrafia pessoal foi substituída por um tipo de letra “universal” mas, apesar deste avanço técnico, a cabeça continuou ligeiramente curvada a assistir ao fluxo de palavras entre o pensamento e o teclado “HCESAR” ou mais tarde “AZERT”.

Na exposição relativa ao centenário de nascimento de Miguel Torga, entre os vários objectos patentes: reportagens de várias homenagens, edições de livros e biografia do autor, estava em lugar de destaque a máquina de escrever do poeta Transmontano. Naquelas teclas foram “marteladas” as suas palavras, quer de poesia, quer a sua prosa, em formato de conto, ou em ensaio, ou o seu diário. Tal como o artesão era caracterizado pelas suas ferramentas também alguns dos escritores contemporâneos serviram-se da máquina de escrever para criar a sua obra.

Sempre com a cabeça inclinada.

A adaptação a novas tecnologias e a utilização de computadores pessoais, com processadores de texto com possibilidades múltiplas tornaram o acto da escrita mais acessível. Em primeiro lugar pela posição da cabeça. Os olhos passaram a fitar em frente um monitor, mantendo a cabeça horizontal. O domínio do teclado permite que os dedos vão escrevendo, sem necessidade de procurar a posição das letras, quer se escreva com um, dois, quatro ou mais dedos. As palavras vão aparecendo no ecrãn e pelo facto de existirem correctores automáticos, os erros ortográficos são prontamente eliminados. Existem outras possibilidades: escolher o estilo de letra, o tamanho da letra, o espaçamento entre linhas, entre outras hipóteses. Alguns editores de texto têm a capacidade de verificar a concordância gramatical de cada frase. Evita-se erros, acerta-se no sujeito e respectivo predicado, não colocando vírgulas antes do complemento directo. Pelo meio colocam-se uns adjectivos e uns advérbios, normalmente como este, de modo.

Pela facilidade destes meios, surgiram mais artigos de opinião nos jornais, mais relatos e comentários acerca do quotidiano e mais blogs pessoais na web.

Muitos destes novos membros da escrita têm pretensões a serem reconhecidos como escritores. Alguns não se assumem como tal, pretendendo uma classificação mais suave, menos pretensiosa, auto-denominando-se com outros títulos, independentemente da aceitação do público.

Só que o reconhecimento das palavras escritas é um acto moroso. Poucos são os que editam livros e têm sucesso editorial e mesmo este indicador não é o mais próprio para classificar autores. Os escritores Norte–Americanos actualmente mais procurados e mais reconhecidos têm mais de 70 anos de idade e alguns mais de quarenta anos de publicação de livros. Como se pode concluir, todos eles passaram pelo processo de escrita com a cabeça vergada.

Os bons utilizadores das novas tecnologias tardarão a ser galardoados. Provavelmente daqui a trinta ou quarenta anos, alguns desses escritores estarão a receber prémios de carreira, serão o tema de conversa literária e de leitura, quer seja em livro, ou noutro formato entretanto criado.

Neste processo de regeneração, existe uma tendência: esquecer o passado, relegar escritores duma época e os seus escritos para memórias, para prateleiras esquecidas de bibliotecas públicas, além da inserção desse nome na toponímia local, ou a atribuição a uma escola. Por vezes, criam-se prémios literários com nome de um determinado autor, por um período de tempo, esse já indeterminado.

Depois é para esquecer. Um dia em S. Martinho da Anta, na sua terra natal, o nome de Torga será apenas associado ao busto da Praça Central, junto ao negrilho. Tal como várias estátuas de tantos escritores, entretanto esquecidos, espalhadas por várias localidades de Portugal.


Neste sentido, se hoje lamentamos a intenção de alterar o nome da Escola EB 2/3, um dia o mesmo irá acontecer à memória de João da Silva Correia.

É urgente recriar-se a memória dos nossos escritores, que retrataram uma época específica, de forma a perpectuar no tempo todo esse passado, para gerações futuras.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Participar

A troca de ideias sobre assuntos da cidade não pode ser exclusivo dos agentes políticos, em funções executivas ou em funções parlamentares.
A participação dos eleitores em actividades cívicas são raras. O acto mais frequente é a contestação a medidas anunciadas e por vezes, ou no limite, o recurso a acções judiciais para impedir a execução de determinadas decisões do poder político.
A sociedade civil devia debater o mais possível o quotidiano, emitir opiniões e sugestões, realizar estudos, introduzir temas e não esperar apenas pelas forças partidárias para decidir o futuro de todos.
O resultado prático dessas sugestões ou análises traduz-se muitas vezes, em nada. O poder político actua com desconfiança, sente-se legitimado pela força de votos conseguidos em eleições e caso não haja forte contestação, prefere continuar no seu trilho.
Normalmente, até às vésperas das eleições seguintes.
Nos últimos anos, esta relação entre eleitores e eleitos tem evoluído de forma diferente, num modo mais simbiótico, sem desconfianças sobre a pretensão dos cidadãos. Uma afinidade clara e enérgica, que permitiu a vários municípios adoptarem várias práticas de Democracia Participativa.
Neste parágrafo é urgente esclarecer este conceito, servindo-me para isso da definição existente na Wikipedia: “O regime da democracia participativa é um regime onde se pretende que existam efectivos mecanismos de controle da sociedade civil sob a administração pública, não se reduzindo o papel democrático apenas ao voto, mas também estendendo a democracia para a esfera social. Os defensores da Democracia participativa argumentam que o real sentido da palavra democracia foi esvaziado ao longo dos tempos, e foi reduzida a mera escolha de dirigentes, sem participação efectiva da sociedade civil organizada na administração de seus respectivos governos eleitos. Um exemplo é o orçamento participativo, com o intuito de submeter o destino de parte dos recursos públicos à consulta pública, através de reuniões comunitárias abertas ao público, onde primeiro são colectadas sugestões, depois votadas as prioridades, e encaminhadas ao governo para que ele atenda a solicitação através de investimento público.”
Em Portugal, além das consultas à população através da Agenda 21 Local, são vários os concelhos que optaram por introduzir o conceito de Orçamento Participativo. Uma dessas autarquias inovadoras é precisamente S. Brás de Alportel – caracterizada, tal como S. João da Madeira, por ter apenas uma freguesia. O concelho de Tomar, cujo executivo é liderado pelo PSD é outra das autarquias que já fez esta experiência. Além destes concelhos, também algumas freguesias já desenvolveram esta metodologia de participação cívica, como é o caso da Freguesia de S. Sebastião do concelho de Setúbal.
Estes exemplos permitem verificar que existem autarquias inovadoras neste âmbito.
O conceito genérico é normalmente associado à cidade brasileira de Porto Alegre onde foi aplicado pela primeira vez mas, como se pode observar, freguesias urbanas e concelhos com semelhanças ao de S. João da Madeira não se inibiram de adoptar o Orçamento Participativo, sem com isso deixar cair o “poder na rua”.
O apelo à participação na escolha do futuro da cidade efectuado pelo Presidente da Câmara de S. João da Madeira, a que já fiz referência em anterior artigo, terá forçosamente que contemplar este tipo de medidas inovadoras. Não se pode, por um lado, apelar à participação e por outro lado, não utilizar metodologias modernas de Democracia Participativa.
A sociedade civil não deve apenas participar em reuniões de trabalho para conhecer e ser confrontada com as ideias do executivo, quando estas existem. Esta forma de actuar é extremamente redutora para o conceito de participação, remetendo-nos para o exposto na definição de democracia atrás transcrita.
Esta aproximação entre eleitos e eleitores poderá esvaziar o conceito de oposição. Em termos práticos, esse sintoma só poderá ser verificado quando os executivos municipais que implementarem a Democracia Participativa forem sujeitos a votos. Nas eleições autárquicas existem sempre surpresas que não permitem criar regras de antevisão de resultados.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Número Mágico

Ao iniciar um artigo para o Jornal Labor deparo-me sempre com duas condições: introduzir elementos de diferenciação e desejar que qualquer leitor dê por bem entregue o seu tempo de entretenimento e de procura de informação.
Os textos, que o Jornal publica em exclusivo, são escritos de forma desinteressada, pretendendo melhorar a qualidade da edição e nessa perspectiva, opto por vezes em lançar a debate alguns assuntos do quotidiano da Cidade. Ideias, apenas.
Neste aspecto, nunca consegui obter retorno por escrito, por parte de outras pessoas interessadas na realidade, com pontos de vista diferentes do exposto.
(Refugiei-me de provocações publicadas nalguns textos de terceiros, que objectivamente fugiam da troca de ideias. A criticas infundadas e de tentativas de ataques pessoais sem nexo, nada disse.)
Não quero com isto constatar que opiniões apresentadas, embora mais acutilantes, nada fracturantes, tivessem sido em vão. Como raramente me encontro em S. João da Madeira, não tenho oportunidade de contactar pessoalmente os leitores e assinantes do Jornal Labor. O reconhecimento surge por uma palavra amiga de circunstância, mais por via de familiares do que por convívio pessoal.
Os leitores foram-se fidelizando e mesmo com textos longos optam pela leitura. Se não for no acto imediato, procuram um tempo livre, para se debruçarem sobre uma nova visão dos acontecimentos. Esta curiosidade estende-se aos agentes da política, quer por leitura própria, quer através do resumo efectuado pelos seus assessores de imprensa. Mas, se por ventura nos cruzamos com um político local, na troca de opiniões sobre um assunto, este nega sempre a leitura dos nossos textos mais melindrosos, utilizando a técnica “esse por acaso não li”.
No dia de 11 Outubro, no discurso das Comemorações de Emancipação Concelhia, o Presidente da Câmara Municipal referiu-se ao futuro da Cidade, falando sobre os vinte e dois mil habitantes, número jamais oficial e anteriormente nunca reconhecido e que sendo uma projecção, foi por mim antecipado no texto que intitulei “Migrações”.
É certo que o ponto alto de todo o discurso se concretizou no reconhecimento do seu projecto pessoal para a Cidade, embora seja importante o apelo à participação colectiva no seu futuro.
Voltando ao número…
Os 22 mil surgiram como sinal da estagnação do crescimento populacional, a alternativa apresentada foi a hipótese para outro tipo de crescimento, sustentado em construção de qualidade superior ou então na construção de bairros sociais.
Não querendo colocar-me em bicos de pés, penso existir uma terceira via.
Nada mais do que a construção de qualidade superior em terrenos de preço inferior. Passo a explicar: promover em terrenos municipais a construção de habitações, não de âmbito social mas, de acabamentos de elevado nível. Com isto seria possível atrair e fixar jovens, com algum poder de compra, dando-lhes a opção de residência em S. João da Madeira a preços de acordo com a sua carteira.
Esta opção é frequente nos concelhos de Espinho e até em Santa Maria da Feira, em prédios com poucos condóminos, retirando-lhes desde logo, toda aquela carga de habitação social. Os preços das habitações, normalmente de tipologia T2, são mais baixos do que os de mercado. Não se pense que com isto os construtores ou promotores ficariam prejudicados, pois nos concelhos referidos o ritmo de construção não se alterou, antes pelo contrário, pois este sistema permite fixar residentes no concelho e alterar o seu ritmo de crescimento.
Não podemos acreditar que as políticas de juventude só se destinam a estudantes do secundário, baseando-se em acções de ocupação de tempos livres. É necessário contextualizar o jovem até uma idade superior e perceber que as suas preocupações fundamentais são a formação, o trabalho (emprego) e habitação própria.
Uma cidade moderna, competitiva e promovendo a inovação, com a possibilidade de vir a oferecer empregos com base em novas tecnologias, não pode manter-se com uma política de promoção de habitação arcaica, destinada apenas a angariar receitas através dos vários impostos municipais, ou a vender terrenos municipais com muitas mais valias.
Finalizar um texto deste modo é arriscado mas, imagine-se o risco de qualquer jovem em adquirir um apartamento em S. João da Madeira, através de empréstimo bancário e verificar a subida da prestação mensal, acompanhada pela desvalorização temporal do imóvel.
Este tipo de Habitação destinado a Jovens pode ser uma forma de aumentar a procura, numa cidade em que a oferta habitacional é grande mas, mais do que isso servirá para promover equílibrios sociais, evitando a exclusão de muitos e fixando uma classe média, importante para o desenvolvimento do Concelho.

(a publicar no dia 25/10/07)

segunda-feira, outubro 08, 2007

Usos & Costumes

Nas regiões vinhateiras as vindimas estão a acabar.
As do Douro têm um atributo especial. A longa tradição de viticultura produziu uma envolvência paisagística de beleza excepcional, classificada pela UNESCO, desde 2001, como Património da Humanidade, precisamente na categoria de paisagem cultural. Acrescente-se a qualidade dos vinhos produzidos, entre os quais o admirável Vinho do Porto.
A tradição da Região produziu efeitos em termos de evolução tecnológica, social e económica. Apesar de todas estas características procurou-se no Douro Vinhateiro manter a identidade da região. Se por um lado, a modernidade foi sendo alcançada com o desenvolvimento de Vila Real - hoje uma cidade com Universidade, diversos equipamentos adequados à sua dimensão, incluindo um enorme centro comercial e recentemente com a ligação à rede de auto-estradas do estado, por outro lado temos uma série de Vilas ou pequenas Cidades – sedes de concelho – e suas aldeias, com as características vinhateiras de sempre, apesar dos ténues sinais de progresso.
Neste espírito surgiu o programa “Aldeias Vinhateiras do Douro”, este ano na primeira edição. A ideia é valorizar e regenerar as tradições da Região, criando-se um vasto programa, envolvendo seis aldeias de outros tantos concelhos. A programação semanal envolve espectáculos de grupos locais e profissionais de teatro e animação de rua. Além de alguns Grupos de Danças e Cantares da Região, estão programadas animações por artistas espanhóis, italianos e portugueses, entre os quais, o conhecido Pedro Tochas. Uma série de espectáculos itinerantes, um misto de tradicional com moderno. As actividades tradicionais são hoje exploradas ao máximo, para efeitos turísticos. Com programações arrojadas, aplicando o tal conceito “combinado” numa fórmula que pretende sobretudo, atrair pessoas das próprias terras para a rua, numa série de dias e de noites. Mais os turistas interessados.
Este evento surge dentro do mesmo conceito, que orientou a Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, no lançamento dos seus apelativos Festival de Teatro de Rua – Imaginarius e obviamente, A Viagem Medieval. Se ambos surgiram do nada, há pouco tempo e deixaram consequências para o presente e futuro, fica a certeza da promoção dos maiores e melhores eventos culturais da Região Entre o Douro e Vouga.
A estimativa da última edição d’ A Viagem Medieval foi o número total de visitantes ter-se situado perto do meio milhão de pessoas. Este é um sinal claro do envolvimento da população local, que participa por sentir que se observaram as capacidades concelhias. Um olhar interno, permitiu projectar o seu Castelo, para muito mais do que um simples “ex-libris”, presenteando-o com um cariz tradicional, até então oculto.
Pode parecer um contra-senso preparar um texto sobre tradição, num momento em que o assunto de todas as conversas na cidade de S. João da Madeira, é a abertura do Centro Comercial 8ª Avenida. Também objecto de romarias e curiosidade. Um pretexto para visitar a cidade. Preenchimento do vazio de quem ao fim de semana não pode sair da localidade. Redimensionando a amplitude dos interesses nocturnos e das horas de lazer.
Em suma, redefiniu-se o novo centro da Cidade, tornando-se o shopping na sua principal atracção, nos tempos actuais, fruto de conceitos modernos de comércio e lazer.
No imediato, nada se alterará.
A realidade não se refaz.
É sempre impetuosa a mudança em S. João da Madeira... Os edifícios antigos vão sendo substituídos por equipamentos mais modernos. Uma sucessão de construções que retiram o passado físico à Cidade.
Neste contexto, é urgente procurar na história da povoação, os costumes da sua população.
É tempo de recuperar as suas tradições: assumir o seu passado industrial, tão dignificante.
Analisar o lado pitoresco desse passado e explorá-lo. À semelhança do que outros fazem.
Envolver a população e lançar um evento cultural único, de dimensão significativa.
Encontrar outro motivo para a cidade ser visitada.
A fórmula até é simples.
Está cá tudo.

( publicado no dia 12 de Outubro de 2007)

quarta-feira, setembro 26, 2007

Lobos

A Selecção Nacional terminou a sua participação no Campeonato Mundial de Rugby, prova que se está a disputar, até ao próximo dia 21 de Outubro, em França.
A prática de desportos colectivos foi um dos principais legados do Império Britânico. Os Ingleses conseguiram, numa sociedade com classes, inventar uma forma de atenuar essas diferenças. Através dos desportos colectivos, qualquer súbdito de Sua Majestade poderia afirmar-se e realizar-se numa equipa heterogénea. A difusão pelo planeta e a assimilação pelos diversos povos de vários desportos, contribuíram para fenómenos curiosos de implementação de modalidades desportivas, em alguns pontos do Globo. O râguebi é uma delas. Na Oceânia, este é o desporto mais popular, mais praticado. Além da referida Nova Zelândia, estão também presentes neste Campeonato selecções da Austrália, da Samoa, das Ilhas Fiji e da Tonga.
O râguebi difere do futebol, por não ter sido desvirtuado na sua essência por povos latinos e sul-americanos, atingindo os dias de hoje grandemente fiel à sua génese.
No Campeonato do Mundo em competição, Portugal foi a única amadora e era também das vinte participantes a pior classificada do ranking mundial. Pela primeira vez a disputar uma prova desta importância, o “quinze” Português partiu com o propósito de nos quatro jogos previstos, tentar ganhar apenas um, frente à Roménia e perante os restantes adversários, perder mas, deixando uma imagem competitiva.
Se no primeiro jogo, com a Escócia a derrota ficou dentro do esperado, 52-10, Portugal partia para o segundo jogo (o mais esperado) frente à favorita Nova Zelândia, com o propósito de evitar sofrer cem pontos. Uma tarefa difícil. Para cumprir o objectivo, Portugal precisava de parar o adversário, resistir em média cinco minutos e vinte segundos entre cada ataque da Nova Zelândia, à linha do fundo. Não se conseguiu. Dezasseis ensaios para os Neozelandeses, uma sequência deles em períodos curtos e o resultado final 108-13, espelham bem a diferença dos dois conjuntos. Ainda assim, Portugal pontuou, inclusive através de um ensaio, por intermédio de Rui Cordeiro.
A reacção dos jogadores foi fantástica. Os Lobos, como se autodenominam, entraram em campo para se divertirem – palavras do Capitão. Tiveram pela frente alguns dos melhores jogadores do mundo, uma oportunidade única. Jogaram o jogo pelo jogo, marcaram um ensaio, uma conversão e dois pontapés de ressalto. No final, trocaram-se camisolas, visitaram-se os balneários, beberam-se umas cervejas e jogou-se uma partida de futebol...
No jogo seguinte frente à Itália, Portugal fez um excelente jogo, dando bastante réplica, embora perdendo por 31-5. Mais uma vez, Portugal conseguiu um ensaio e lutou bastante até ao final. Só nos últimos minutos é que o quinze Português fraquejou, sofrendo dois ensaios que desvirtuaram o marcador. No jogo disputado no passado dia 25 com a Roménia, a Selecção Nacional não se aguentou. Portugal perdeu por 14-10. Um jogo extremamente disputado com a Roménia a virar o marcador nos instantes finais.
Noutras modalidades com estes resultados e o falhanço total dos objectivos seria um escândalo no panorama desportivo nacional. Acrescente-se a isto, a suspensão por quatro jogos do jogador nacional Juan Severino, por ter agredido um adversário, logo no primeiro encontro.
Poderá parecer incompreensível, com este cenário, que a opinião pública se sinta orgulhosa da sua Selecção Nacional de Râguebi. Mas, a verdade é que está.
A Federação Portuguesa trabalhou bem a imagem desta equipa, na comunicação social. Projectou a sua simpatia e a visão do seleccionador (Tomás Morais) com antecedência.
Depois foi pô-los em campo…
As imagens dos jogadores nacionais a cantar o Hino Nacional a plenos pulmões, nos quatro jogos disputados - inclusive no primeiro jogo um deles emocionado verteu lágrimas pela cara abaixo - o abraço colectivo no momento solene e de alguns com a mão sobre o peito, foram momentos decisivos para a empatia do público nacional.
O amadorismo dos jogadores, participando com prejuízo nas suas carreiras profissionais foi compensado com a generosidade com que se entregaram ao jogo, nunca virando a cara à luta, ao valor do adversário. Uma placagem dos Portugueses foi um feito notável. Tal como, corridas com finta ou pontapés de progressão, foram classificadas como proezas fantásticas. Os pontos conseguidos por qualquer jogador tornaram-no herói nacional – o que dizer dos ensaios conseguidos?
Estamos perante um fenómeno nacional!
De repente, os grandes êxitos do futebol são esquecidos. Os recentes maus resultados e o comportamento do Seleccionador, levaram as pessoas a olharem para os bravos Lobos de outra forma.
Porém, não se lhes exige nada. Embora, o espírito de auto – crítica tivesse presente nas palavras finais, reconhecendo faltar experiência competitiva à Selecção para jogar a este nível.
Existiu nesta afeição pela Selecção um patriotismo genuíno, um modo diferente de sentir a nação, fazendo-me evocar os versos finais do poema de Fernando Pessoa dedicados a Bandarra:
“(…)Este, cujo coração foi
Não português, mas Portugal.”


(a publicar no dia 27/09/07)

quarta-feira, setembro 12, 2007

Regresso à escrita

A folha em branco, sem título é indicadora do momento: final de férias.
Ao fim de um mês esvaziaram-se-me as ideias. A custo consegue-se a articulação de frases ou de palavras.
Tento escrever um conto de Verão mas, falta-me poesia e ritmo na narrativa. Banalidades é o resultado. Desisto, elimino-o sem publicação.
Verifico nos apontamentos de verão alguma nota que queira desenvolver. Não me parece.
Procuro assuntos locais para pensar neles ou relacioná-los. A vontade de pesquisar é reduzida. Compilados os dados recolhidos acerca dos acontecimentos do último mês e fico sem palavras.
Mortes, acidentes e detenções, além de outras desgraças não são assuntos encantadores.
A derrota de Cândido na Volta, não merece uma referência à sua vitória em S. João da Madeira. Contudo, gostei imenso de ver a zona central cheia de gente, em pleno Agosto. Movimentar-me na Rua da Liberdade, ladeado por tantos transeuntes, é uma imagem que já não tinha desde um qualquer Domingo, ou Feriado de Dezembro, ou mesmo na véspera de Natal, do princípio da década de 90.
Encontro um assunto interessante sobre o Parque Urbano e a despoluição do Rio Ul. Tento estender o tema alguns parágrafos. É alucinante verificar que antes de se tratar da água do rio, se instalaram as pedras na margem. Apesar dos esforços da Câmara Municipal de S. João da Madeira para acabar com o despejo de esgoto de origem industrial, continuo sem perceber se existe algum cadastro ambiental a montante do rio, ou seja, nas freguesias de Milheirós de Poiares e de Romariz. De nada serve construir um interceptor, destinado a tratar os resíduos que vêm misturados com as águas pluviais, se o rio entrar na cidade poluído, ou perto disso.
Apesar do alerta inerente, abandono o texto a meio, não o conseguindo terminar a tempo do fecho da edição do jornal.
Preparo a leitura da primeira emissão de Setembro, depois das férias, à procura de algum tema para me dedicar. Vejo compilados alguns dos assuntos recolhidos em Agosto.
Encontro outros tópicos interessantes: Baixa do Imposto Municipal sobre Imóveis, será uma medida para incentivar a compra de casa em S. João da Madeira? Seria interessante para os promotores e sobretudo para os proprietários, que todos os anos observam o seu património a desvalorizar, devido à maior oferta que procura.
Sorrio com a abertura do 8ª Avenida já em Setembro e da forma, como em geral, as pessoas se vão rendendo à sua construção.
Faço as contas ao financiamento de manuais escolares e só totalizo 54. 615 Euros. Um pouco menos dos cem mil anunciados, devo ter-me enganado nas contas! Analiso o número de estudantes apoiados, 700, verificando com preocupação que 454 são pertencentes ao escalão A (agregados familiares com rendimento per capita inferior a 240 euros). Comento com alguns amigos que apoio a presente medida dizendo: “é preferível gastar dinheiro com manuais escolares do que com carros novos para vereadores ou administradores de empresas municipais”. A resposta que obtive fez-me corar. A notícia do Jornal Labor refere ainda a “consciência social” do Presidente da Câmara e a sua esquiva à esquerda. Preparo uma referência aos princípios da Democracia Cristã e da Social Democracia, que dominaram o espectro político Europeu na primeira metade da última década...
E o Plano Director Municipal? Sem artigo ainda preparado e com a revisão em curso - termina no fim do mês o período de sugestões aberto aos munícipes - espero ver as sugestões dos partidos políticos, preferencialmente antes da discussão em reunião de Câmara Municipal ou na própria Assembleia Municipal.
Entretanto reparo na hora, que se aproxima mais uma vez do fecho da edição do Jornal.
Fica outra vez adiada a minha colaboração no Jornal?
Olho para a folha ainda há pouco em branco e mudo de opinião: consegui escrever um artigo completo… sobre tudo, não referindo nada.

terça-feira, julho 24, 2007

Última dose

No passado dia 17 de Julho, Rui Rio na qualidade de presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP), anunciou o fim do Porto Feliz. Este projecto, para os leitores menos atentos, tratava-se de uma tentativa de tirar da rua os toxicodependentes que se dedicam a “arrumar” carros.
O projecto havia sido anunciado em 2001, por altura das eleições autárquicas. Basicamente, o PSD propunha-se corrigir a política do Governo de António Guterres desenvolvida, desde o ano de 1996, no apoio a toxicodependentes. Uma política com forte sentido de Estado, assentando os seus pressupostos com a proliferação de Centros de Apoios a Toxicodependentes (CAT) e a criação do IDT – Instituto da Droga e da Toxicodependência. Uma vertente do Estado social.
A contra-proposta de Rui Rio, obviamente com alguns aspectos positivos, consistia numa “política directa”, obrigando à retirada das ruas dos arrumadores – independentemente da sua motivação para o tratamento, procurando posteriormente tal como a política do Governo, a sua reabilitação e reinserção no mercado de trabalho. O princípio da autonomia do doente para aderir ao tratamento seria a principal diferença entre metodologias.
Em cinco anos, os técnicos do "Porto Feliz" contactaram 2500 arrumadores. Quase 700 aderiram ao programa e 334 ficaram livres da droga e prontos a serem reinseridos no mercado de trabalho, segundo dados do Jornal de Notícias. O financiamento deste programa era assumido pela CMP, pelo IDT e pela Segurança Social. Desde Novembro passado que o IDT – presidido por João Goulão - pretendia rever a sua participação, por considerar que as verbas envolvidas não eram comportáveis. O programa nacional tinha conseguido agilizar despesas e as facturas apresentadas pelo Projecto Porto Feliz eram superiores.
Essencialmente e na prática passou a não haver duplicação de projectos, com a mesma finalidade, na cidade do Porto. Uma racionalização de despesa e de meios operacionais que beneficiam o estado Português. Além de outros aspectos, mais importantes, como o real tratamento ao toxicodependente ser assegurado por técnicos inseridos numa lógica estatal, atenta a novas metodologias, a novas formas de dependência, entre outros benefícios.
Se no Porto, a aventura Camarária durou 5 anos, ao abrigo de um protocolo especial e o principal responsável tenha chegado à conclusão, que apesar do “número de arrumadores na cidade ter diminuído, não foram totalmente erradicados, como se pretendia inicialmente”, outros projectos municipais tiveram uma curta duração, sem que daí se possa tirar conclusões sobre o sucesso do mesmos.
Na toxicodependência, como admitiu Rui Rio, o sucesso é relativo. Apesar de todo o aparato do Porto Feliz a taxa de toxicodependentes recuperados e inseridos, segundo o próprio presidente da CMP, foi de 13%.
Em S. João da Madeira, procurou-se antecipar o lançamento do projecto portuense e lançou-se atabalhoadamente em 2002, o “Prevenir o Futuro”. Partindo de apoios institucionais, mais alguns parceiros abrangentes e algumas empresas locais, a Câmara Municipal apadrinhou durante alguns meses, este projecto, que desde logo foi classificado de pioneiro e pasme-se de sucesso!
Número finais nunca foram apresentados, nem de toxicodependentes contactados, nem de casos concretos de reabilitação, nem nada. Vários erros foram efectuados e não querendo enumerar todos, aqui ficam alguns:
- metodologia de tratamento sem credibilidade científica;
- recrutamento por coação de “cobaias”;
- equipas de rua de apoio a toxicodependentes sem técnicos especializados;
- demasiado voluntariado, com parceiros a assumirem terem encontrado a solução para todos os problemas do flagelo;
O erro maior foi não partir do diagnóstico efectuado desde 1999, pela valência de apoio a toxicodependentes da Santa Casa da Misericórdia – O Trilho e ignorar toda a experiência acumulada nesta área, pelas suas técnicas, já com três anos de trabalho de terreno naquela altura.
A história do projecto local “Prevenir o Futuro” terminou ao fim de dois anos. Apesar de durante o pretérito ano lectivo, a PSP local usar esse nome para as acções de informação e sensibilização (?) sobre o assunto, junto das crianças do ensino básico.
Antes do final do projecto, houve uma série de dissidências, desvirtuando a ideia original do mesmo. O auxílio dado pelo Governo, saído das eleições de 2002 e liderado por Durão Barroso, foi diminuindo à medida que o controlo do défice público se tornou imperativo e o sentido de Estado obrigou a repensar-se a política nacional, única, para a toxicodependência.
Desde o final de 2004 ou meados de 2005, com a ruptura do projecto “Prevenir o futuro” o apoio em S. João da Madeira a toxicodependentes tem sido assegurado pelo Trilho. A Santa Casa da Misericórdia honra lhe seja feita, apoiada quer pela Segurança Social, quer pelo IDT, na medida em que supervisionada pelo CAT da Feira, não fechou as portas a ninguém. Com as dificuldades inerentes, manteve o projecto em funcionamento, apesar de todo o ostracismo a que esta valência foi sujeita, por não apoiar o projecto colectivo da sociedade sanjoanense, privilegiando uma postura técnica e humanamente coerente.
A longevidade de O Trilho, mesmo sem saber os números de pessoas envolvidas ao longo destes anos, faz deste um projecto de sucesso. Recordo que o processo de reabilitação e reinserção de toxicodependentes no mundo de trabalho, já era prática comum em S. João da Madeira, com o apoio de várias empresas, desde o ano de 2000.
Tivesse o executivo municipal eleito no ano 2001 em S. João da Madeira, apoiado esta prática e aquilo que constantemente se afirma como um “projecto de sucesso” tinha-se realmente confirmado, provavelmente ainda “apoiado pela tutela”, mesmo com a eleição do Governo actual, dentro do entendimento de aprovação a projectos lógicos e não concorrentes entre o próprio Estado.
Com estupefacção, não vi este assunto a ser referido nas eleições autárquicas de 2005. O branqueamento do “Prevenir o Futuro” não passou despercebido e entendi tal facto, pelo compromisso dos partidos políticos para com os membros das suas listas, envolvidos neste projecto - por inerência de serem directores de alguma associação.
Aliás, curiosamente ainda hoje, no diagnóstico inicial da Rede Social - disponível na página da Câmara Municipal de S. João da Madeira na Internet - não é feita qualquer alusão à toxicodependência, como se esta não fosse preocupante, nem existisse no concelho e não fosse infelizmente visível por todos.
Não me querendo alargar mais, espero com isto ter esclarecido os leitores, em especial, aqueles que por várias razões procuram junto dos responsáveis municipais informações sobre este projecto, obtendo sempre uma resposta oficial que, incompreensivelmente, os satisfaz.

Férias

É bom manter tradições e a redacção do Jornal Labor mantém o espírito, antigo, de que em Agosto é tempo de férias. Têm razão. Provavelmente os leitores também estão de férias, fora da residência e por isso, não se justifica garantir a edição no oitavo mês do ano.
Seguindo este calendário de publicação do jornal, a minha colaboração pela escrita terá a sua paragem para outros ócios. Fica concluído o segundo ano de textos publicados, num ritmo médio quinzenal: em dois anos enviei quarenta e oito textos para um pouco menos de noventa e seis edições.
O tempo agora é de descanso. A todos os leitores: Boas Férias!!!

terça-feira, julho 17, 2007

Ida ao Bosque

Nos primeiros dias de Verão, o cansaço acumulado ao longo de um ano de trabalho e a proximidade das férias encaminham o corpo e a mente para horas de descanso, preferencialmente serenas. Este ano, a chegada tardia dos dias quentes de Verão, com fins de semana chuvosos ou corridos a “nortada”, atiram a família para outras paragens que não a praia, tão perto de casa.
Encontra-se em contextos urbanos nas cidades de média dimensão, óptimas soluções para programas alternativos. Cidades com a história preservada, com várias ofertas para os tempos livres - desde o lazer em família a actividades didácticas - e sobretudo, urbes com reabilitações urbanas bem conseguidas, de forma a oferecer espaços amplos às populações, que prontamente se adaptam e adquirem hábitos de os frequentar.
Outra solução são os contactos com a natureza, em locais adequados. A observação da dinâmica dos animais em contraste com a tranquilidade do reino mineral ou vegetal, tornam-se nos passeios predilectos. Longe das áreas protegidas em serranias, os montes mais próximos não foram repovoados com espécies animais diferentes das existentes e raramente, podemos mostrar aos filhos mais do que rebanhos de vacas, ovelhas ou cabras. Simplesmente, gado. Bovino ou caprino.
A fauna bravia existente nas redondezas limita-nos as observações a ornitológicas. Esporadicamente, ainda assim. Sem esquecer os rastejantes de vária índole. Para quem, nas traseiras de casa é visitado por várias espécies de aves de rapina e voadores nocturnos, espera encontrar uma maior diversidade que vá de encontro as expectativas do imaginário dos mais pequenos numa ida à floresta. Permanece nas suas cabeças, a ideia dos animais vivendo em comunidade em pleno bosque.
É certo que a adaptação dos animais, dito selvagens, ao círculo humano é uma realidade. Testemunhos de um javali às portas de S. João da Madeira, provocando um acidente no IC2, há uns anos atrás, servem para assegurar ter presenciado um esquilo e mais tarde uma raposa a atravessar uma estrada no concelho da Feira. No entanto, tudo isto são observações isoladas sem qualquer hipótese de repetição. Provavelmente incursões do género da dos heróis do filme infantil “Pular a Cerca”.
A recepção no bosque não podia ter corrido da melhor maneira. No escuro da noite, um vulto de médio porte, em plena estrada, surgiu na frente do carro. Ao seu lado, o pequeno filho. A primeira impressão foi tratar-se duma vulgar cabra, meia perdida junto à estrada. Focando melhor, a surpresa de reconhecer uma mãe cervídeo e o seu “bambi”, alargou o contentamento familiar. O instinto maternal da corça foi comprovado por todos, pois a retirada da estrada só foi efectuada, quando o filhote estava em local seguro, fora do quentinho alcatrão, numa noite com temperaturas de 4º centígrados.
O resto do fim de semana foi chuvoso, quase nem víamos paisagens, por isso, das restantes e anunciadas espécies de animais, em habitat natural, existentes na reserva escolhida, nem vê-los.
Por estarmos em Espanha, aproveitámos, nas tréguas da chuva, para contemplar a harmonia paisagística das margens do Lago de Sanabria. Descobrindo, ou relembrando, ter por lá passado D. Quixote a caminho de mais uma aventura. Além das paisagens, os nossos vizinhos, conseguem preservar muito bem o seu património. Visitar Castelos faz também parte dos roteiros familiares. Este de Puebla de Sanabria, tão próximo de Portugal, não sendo muito grande tem o seu interior mais recheado e melhor aproveitado do que a maioria dos Castelos Nacionais, nos quais apenas se mostra muralhas, torres de vigia e ameias.
O regresso ficou marcado, pelo encanto de ver, pela primeira vez, Trás-os-Montes verde no Verão. As novas vias de comunicação permitem percorrer imensos quilómetros no interior do País, numa só tarde. Além desta vantagem, oferecem-nos óptimas oportunidades para o deslumbramento com a paisagem nacional: as belas e encantadoras encostas Durienses, quer atravessando o planalto ora rochoso, ora verdejante da Beira Alta. A incerteza do território.
Os estímulos duma viagem ficam nos actos e brincadeiras das crianças. No regresso à praia, ao construir um Túnel com o irmão, escavando na areia, a Luisinha optou por fazê-lo em curva, tal como tinha visto na A24, perto de Castro Daire. É certo que não memorizou a sua localização, referindo-se ao “Túnel da viagem a França”. Baralhada por ao regressar a Portugal, mal se transpõe a fronteira, ter atravessado uma aldeia com um nome deste país.

(a publicar no dia 19/07/07)

quarta-feira, julho 04, 2007

Jogos Olímpicos 2012

O historial da participação Portuguesa nas competições Olímpicas de Verão, se perspectivarmos a conquista de medalhas, demonstra ter existido três períodos diferentes:
a) uma fase inicial com a obtenção de bons resultados e a consequente conquista de medalhas em Vela, no que parecia ser a continuação do desígnio nacional de país de marinheiros, nos Jogos Olímpicos de 1948, 1952, 1960;
b) uma fase fantástica do Atletismo Português iniciada em 1976, por Carlos Lopes – Medalha de Prata nos 10.000 metros, no que se seguiriam os feitos históricos do mesmo Carlos Lopes – Medalha de Ouro na Maratona em 1984, Rosa Mota – Medalha de Ouro na Maratona em 1988 e Fernanda Ribeiro – Medalha de Ouro nos 10.000metros em 1996;
c) finalmente, um ciclo demonstrativo de outra capacidade técnica do Desporto Nacional, iniciado em 1996 na Vela com a obtenção da medalha de Bronze, à qual se seguiram em Sidney no ano 2000, duas medalhas de bronze, uma em Judo por Nuno Delgado e outra por Fernanda Ribeiro na corrida dos 10.000m. Em Atenas 2004, Portugal alcançou três medalhas: duas de Prata - novamente em Atletismo, desta feita em provas com um índice técnico mais elevado, Rui Silva nos 1.500 e Francis Obikwelu nos 100 metros - e uma de bronze por Sérgio Paulinho, no Ciclismo.
Esta mudança significativa dos resultados, que fazem a história das participações Olímpicas, foi acompanhada pela diversidade de modalidades englobadas na comitiva Portuguesa ao longo das últimas participações.
Os sacrifícios individuais dos atletas dos anos 80 não foram em vão. Portugal optou por outro tipo de política desportiva. Construíram-se mais e melhores infra-estruturas desportivas, adequadas à prática de desporto e não para recreio e lazer; as Federações desportivas organizaram-se de forma a prever e a apostar em ciclos Olímpicos; foi criado o estatuto de atleta de alta-competição; tendo sido dada a oportunidade a alguns atletas de profissionalização; nos últimos anos nasceram dois Centros de Preparação Olímpica em Portugal – Vila Real de Santo António e Rio Maior.
A um ano dos Jogos Olímpicos de Pequim, Portugal tem previsto a participação de 70 atletas, em diversas modalidades, com incidência nos desportos individuais. Razões existem para esta coincidência, que passam por critérios de qualificação e de apuramento mais difíceis de obter nos desportos colectivos.
Um dos atletas qualificados é Diogo Carvalho do Clube Galitos de Aveiro na modalidade Natação, o que vem provar o bom trabalho efectuado por treinadores e dirigentes de pequenos clubes, além do mérito pessoal do próprio nadador.
Para verificarmos que tudo está diferente no desporto nacional, já existe um Projecto Esperanças para os Jogos Olímpicos de 2012 em Londres. Engloba 144 atletas de 20 modalidades.
O desporto acompanha as histórias das nações.
Em meados do próximo ano as atenções públicas estarão viradas para os Jogos Olímpicos. Aí, ilustres desconhecidos passam a receber a atenção duma nação (e a esperança da conquista de um resultado surpreendente).
Em 2012, em S. João da Madeira tudo pode ser diferente.
Em 2007, existe uma Nadadora da AEJ – Ana Rodrigues – com bons resultados desportivos e tempos fantásticos. Recentemente esteve presente no Dia Olímpico, em prova decorrida em Rio Maior, organizada pelo Comité Olímpico Português.
Devidamente apoiada e com boas condições de treino, o que implica atender às sugestões e melhorias aventadas pelo seu treinador Luís Ferreira, uma nova página pode-se abrir no desporto local.
Haja vontade.
Tudo seria mais fácil, se ao lado quantitativo do desporto (n.º de praticantes, de atletas federados), aliássemos o lado da qualidade (títulos conquistados) e da excelência (resultados desportivos relevantes).
Esta forma de encarar um ciclo Olímpico, poderia ser pioneira na Gestão Desportiva Municipal e daí exemplar.

(a publicar no dia 05/07/07)