quinta-feira, maio 01, 2008

Questões de Abril

            No pretérito mês de Abril, a actividade política nacional voltou a cruzar-se com o quotidiano local.

            A “lei das Autarquias” não foi aprovada na especialidade. Resumidamente, depois de ter sido proposta em Dezembro de 2007, pelos principais partidos com assento parlamentar, o PSD reagiu às críticas surgidas, em especial, pela ANAFRE – Associação Nacional das Freguesias e votou contra o decreto de lei de que era co-responsável. Eram necessários dois terços dos votos parlamentares, pelo que em 2009, nada se alterará na elaboração das listas para as eleições autárquicas. Aliás, nesta matéria, nos últimos quatro anos só se produziram propostas de projecto de lei e claro, um maior controlo ao endividamento das autarquias, o que deixou perfeitamente irritados os seus responsáveis.    

            Se da Assembleia da República veio a vontade de não reformar, da Assembleia Municipal surgiu a natural aprovação do relatório de contas referente ao ano de 2007. Uma não notícia, apimentada precisamente pela redução do endividamento municipal. Um sinal claro das actuais preocupações dos autarcas. No outro prato da balança coloca-se a incapacidade de previsão orçamental. A não execução de vinte a vinte e cinco por cento dos valores orçamentados, tem consequências ao nível das verbas associadas, que pura e simplesmente estavam indexadas, rubricadas e não foram utilizadas para os fins previstos.  

            Nada disto é relevante comparado com o grande assunto de momento da política local. Nada relacionado com questões financeiras. O tema para o próximo mês será a eleição para presidente do PSD. 

            Se o envolvimento dos militantes, como se trata de eleição directa, é inevitável, mais legítimo é o apoio a qualquer um dos candidatos. Nesta lógica partidária, não admira vermos um activo militante, como Castro Almeida, abraçado a uma das candidaturas. 

            A instabilidade na liderança do PSD, já permitiu ao actual presidente da Câmara, no exercício das suas funções, ter contactado com quatro presidentes de partido, em sete anos. Bem, a longevidade do actual Governo, faz-nos esquecer que durante esses anos, Portugal teve precisamente quatro “chefes” de governo. Neste clima de mudança, não constante mas de alguma incerteza, é difícil fazer-se projecções sobre a carreira dos agentes da política local.

            A título de exemplo, no final do ano passado, em virtude da posição conseguida no Conselho Nacional do PSD, tudo apontava para que Castro Almeida fizesse sombra a Luís Filipe Menezes, durante o presente ano, para consolidar o seu estatuto de político de âmbito nacional.

            Passados seis meses, tudo mudou e ficou em aberto.

            Nesta fase, a sensivelmente um mês das eleições do PSD, é ainda prematuro fazer cenários com base em eventuais resultados finais, até porque no momento em que escrevo, não é certo quem realmente será candidato.

            Como não conto voltar a este assunto, terei que corrigir o parágrafo anterior. Não fazer cenários, mesmo que prematuros e fantasiosos, seria imperdoável e certamente alguns leitores não me desculpariam a omissão.

            Um resultado possível é a derrota da candidata apoiada por Castro Almeida! Com este desfecho, o autarca local exerceria o seu mandato até ao final, centralizado na cidade e preparando a sua candidatura autarca para mais um mandato. O objectivo, durante os próximos anos, seria ascender a médio prazo a protagonista da política nacional.

            Já a vitória do PSD sobre o PPD, poderá alterar o panorama político local. Tudo depende do grau de envolvência de Castro Almeida na eleição da candidata por si apoiada. Como o partido necessita de se apresentar com protagonistas com uma visão de Estado, obrigará a uma dedicação maior à causa nacional. Nesta hipótese, bastante provável, o actual autarca continuará a exercer o seu mandato, embora as três etapas de unir, credibilizar o partido e por fim, preparar as eleições legislativas obrigam a disponibilizar mais do seu tempo a questões nacionais.

Dentro deste cenário surge a derradeira hipótese, a vitória do PSD nas próximas eleições legislativas. Estando dentro do núcleo duro do Partido, Castro Almeida será certamente convidado a exercer funções governativas, o que o afastará por uns anos de S. João da Madeira, cumprindo assim, os prometidos oito anos de mandato como Presidente da Câmara Municipal.

A um ano e poucos meses das eleições legislativas e autárquicas, que curiosamente podem ser no mesmo mês, ou até no mesmo dia, a acção política local fica, para já, adiada até ao final de Maio.

Em pouco tempo, todas as certezas desapareceram. Passamos ao campo das suposições e as aqui formuladas não passam de hipotéticos cenários, sem qualquer rigor. No entanto, aos leitores, que me leram até estas linhas, penso ter arrancado um sorriso – nalguns casos de contentamento, noutros de incredulidade. De qualquer forma, a indiferença não provoca sorrisos.

 

(a publicar dia 02/05/08)

terça-feira, abril 22, 2008

Alvoradas

            Uma mudança de casa implica uma série de tarefas: empacotamento, carregamento, transporte e consequente arrumo, dentro das prioridades pré-estabelecidas sobre os nossos pertences. Alguns objectos vão ficando para trás, esperando o seu momento para serem transferidos.

            Ao deixar para o final um pequeno cágado criei uma aflição num dos meus familiares. O sossegado bichinho ficou uns dias à espera da sua hora na mudança. Entretanto, no remate das tarefas, o cágado lá veio para a nova casa, para descanso do ente querido. Curiosamente, este foi um dos poucos animais que até hoje não perturbaram o meu sono. Infelizmente, o cágado não durou muito tempo e provavelmente por isso, não teve oportunidade para essa interacção comigo.

            Além deste, poucos foram os animais que dormiram dentro de minha casa. Peixes dentro dum aquário, com a natural sucessão de vidas em água fria, acompanharam-me durante anos. Apesar de serem extremamente calmos, ainda fui acordado algumas vezes pelos ocupantes da tina. Um salto matinal, um borbulhar mais ruidoso, ou o raio de um batente do varão dos cortinados que numa madrugada caiu precisamente dentro do aquário, de forma ruidosa.

            É evidente que comparados com o ladrar de cães, isto são pequenos barulhos. Os canídeos são sem dúvida, um dos maiores agitadores de sono dos humanos. Neste momento vivo rodeado por vizinhos, donos de cães. Várias são as noites que ladram. Umas vezes, é o cão do vizinho da frente, outras vezes é o das traseiras, outras ainda é um dos que vivem ao lado. Normalmente, não me apoquento muito. Identifico o som, mentalmente verifico a proveniência e volto a fechar os olhos. Nalgumas noites começam todos a ladrar, numa cacofonia infernal e humanamente incompreensível.

            Gatos, apesar de mais silenciosos, já me acordaram várias vezes. Nas noites de grande namoro em Janeiro, ou Fevereiro, um casal lembrava-se de entrar no jogo de sedução junto à janela do meu quarto, numa casa de família. Os esforços para os calar eram vários mas, o diálogo continuava noite fora. A melhor solução, para se obter a desejada tranquilidade, era soltar os cães, tarefa que um dos vizinhos, com acesso à propriedade, incumbia-se de fazer.

            Além destes animais mais comuns dentro dos domésticos, é óbvio que várias manhãs, acordei com o cacarejar de galos. Embora esse despertador campestre, com toque prematuro relativo à alvorada industrial, permita voltar a adormecer, o que sabe sempre bem.

            No campo já despertei com relinchar de éguas, com chocalhos no pescoço das mesmas, ou de gado diversificado. Inclusivamente numa determinada noite ouvi uns passos de pequeno roedor, por cima do tecto do quarto onde estava a dormir.

            Acordo todos os dias e fico logo a ouvir o piar dos passaritos. Despertei várias vezes com eles, em manhãs fantásticas de Primavera, ou Verão. Durante algum tempo, foram o relógio da minha filha, que acordada pelo chilrear dos pássaros, verificando ser de dia, adorava partilhar a madrugada com os progenitores.

            Se na cidade e no campo, podemos ser incomodados pelo som madrugador destes, ou de outros animais, imagine o leitor o que poderá acontecer junto ao mar.

            Uma alvorada ouvindo gaivotas é do mais irritante que existe (sobretudo, quando estas vivem como pombos, comendo da mão humana). Em primeiro lugar, por não ser um som habitual, temos dificuldade em o identificar, o que nos leva a despertar intrigados. Depois de reconhecido o incomodativo barulho – uma espécie de gargalhada alarve -, verifica-se que nada as faz parar até ficarem com a sua fome saciada. Fui espreitá-las e estavam posicionadas em frente a uma janela de um dos prédios, no largo onde eu tentava dormir, à espera que a mão amiga acordasse e as alimentasse. O que só aconteceu após muita risada, destes animais com penas.     

            Este foi um amanhecer extremamente desagradável, só superado pelas incursões nocturnas de alguns bichinhos. Em casa depois da mudança, tivemos uma invasão de um morcego. Ficou pelo tecto falso. Como estava desorientado, batia com as asas no pladur. Foi difícil adormecer, com o intruso por cima das nossas cabeças. Só descobriu a saída dois dias depois, pelo que se dormiu em sobressalto.

            O voo dos pequenos mosquitos ou melgas é extremamente comum e desagradável. Mesmo com os eficientes ou eficazes sistemas eléctricos para os destruir, estes insectos parecem cada vez mais inteligentes. Nas noites que me despertam e provocam longas insónias, observo comportamentos curiosos: tentativas de camuflagem em portas de madeira; procura de esconderijos por baixo das camas, ou atrás de armários; ou simplesmente pousados no chão. Os que estão satisfeitos, pesados pela recolha de sangue humano e por isso, lentos, têm normalmente o destino traçado e esmagado.

            Se os insectos voadores nos invadem o sono, em geral pelo processo auditivo e claro, pelas suas picadas, confesso que uma das alvoradas mais curiosas que vivi até hoje, foi precisamente com formigas. No tal quarto da casa de família, acordei uma manhã com uma desagradável sensação de cócegas nas pernas. Por vezes, esse extremar da sensibilidade era acompanhado por pequenas pontadas. Quando espreitei, verifiquei estar no trilho de formigas. Fiquei na incerteza de qual seria o destino daquela correria e claro, a dúvida do que tinha provocado estes bichinhos a escolher a minha cama.

            Termino sem saber, que tipo de surpresas me reserva o futuro.

 

(a publicar dia 24/04/08)

quarta-feira, abril 09, 2008

Vinil

Na edição comemorativa dos vinte anos do Labor, entre os demais destaques, recordou-se a sua origem hertziana. A explicação, para a procedência do jornal, deixou no ar um certo desapontamento pela orfandade, a que a Lei da Rádio vetou o jornal. Não está explícito nas palavras do director e fundador do jornal, Pedro Silva, mas a amputação, com a não atribuição da licença radiofónica, ao projecto global de comunicação social, ainda é sentida como uma desilusão.

Recuemos os vinte e poucos anos: em Portugal existiam dois canais estatais de televisão, uma série limitada de rádios estatais, ou sob a alçada da Igreja Católica. A rádio era a principal alternativa, para quem não queria passar horas a olhar para os programas da RTP, por exemplo, quem optava por estudar pela noite fora, preferindo um som de fundo.

O fenómeno das rádios piratas atraiu vários ouvintes. A novidade, a proximidade, os animadores e locutores conhecidos, as notícias, os resultados e o acompanhamento em directo do desporto local e sobretudo, os discos pedidos eram as principais atracções. Neste contexto, surgiram duas rádios em S. João da Madeira.

            A rádio Serra – Mar emitia e operava em local privilegiado, no piso zero do edifício que alberga o Centro de Arte. Pelo menos, durante algum tempo. Em Outubro de 1986, fui convidado para divulgar algumas das músicas que eu gostava, ao abrigo de um programa existente. As sessões repetiram-se semanalmente, por mais uns três meses. Até que em meados de 1987, com apenas 16 anos, passei a ter uma hora de emissão semanal, ao Domingo às 22 horas, sob a minha responsabilidade. Estávamos na década de 80 e apenas optava por emitir som de grupos dessa época.

Para recordar mais do que isto, vi-me aflito.

Lembrava-me de ter feito rádio, de alguns episódios vividos e de algumas músicas que obrigatoriamente tinham tocado. Recordava a última emissão, no final de Julho, tendo como convidado um Inglês, oriundo de Newcastle, que liderou todo o programa. Foi o único registo áudio efectuado e claro, viajou com o súbito de Sua Majestade, quando terminou o período de intercâmbio, em que estava inserido.  

            Sem registos, sem memória dos acontecimentos, sabia que a noção de rádio pirata, pela irreverência do nome, estava adequada ao meu conceito de juventude. A oportunidade de divulgar os discos adquiridos por um vasto auditório, de dissertar sobre as bandas que gravavam os seus sete ou doze polegadas, como eram conhecidos os discos em vinil, era basicamente o que me interessava. A mim e a quase todos os que se tinham transformado em colaboradores de rádios em frequência modelada.

Revivi o tempo em que era metódico e extremamente organizado. Os álbuns, em casa dos meus pais, eram ordenados por ordem alfabética e fazia o registo para a posteridade das músicas seleccionadas para cada programa. Com algum esforço, descobri-os. O tempo tornou o papel amarelado, a tinta ainda continua viva. Nomes de bandas e de músicas que me acompanharam durante anos. Outros nomes de bandas que já tinha esquecido e por isso, passei uma noite agarrado ao Youtube, procurando essas preciosidades.

A título de exemplo, a 8 de Janeiro de 1987, num programa dedicado a divulgar alguns dos melhores trabalhos do ano anterior, tocaram pela seguinte ordem: New Order, The Smiths (o ano da edição do mítico The Queen is Dead), Cocteau Twins, as misteriosas Voix Bulgares, Woodentops (fantásticos, recordá-los foi uma emoção), R.E.M. (ainda longe do êxito actual, que se desenhou a partir de 91), Stan Ridgway, Carmel e os portugueses G.N.R., que tinham acabado de fazer um concerto em S. João da Madeira.

Curiosamente, nas últimas páginas dos apontamentos surgiram nomes da singularidade dessa época, indicadores duma certa tendência de divulgação de novos valores: The Wedding Present, Shop Assistants e Primal Scream.

A rádio entretanto perdeu o lado pirata, passou a local. Eu fui de férias por dois meses e quando voltei, não tinha espaço na grelha, ou então, prescindia do Sábado à noite, o que não era nada aliciante.

Músicas mais antigas (ouvidas na infância) ocupavam mais horas nas ondas hertzianas, com os eternos riscos no vinil; a última música do primeiro lado do vinil a ser tocada até ao fim e em directo, a agulha a entrar pela faixa sem gravação, a levantar e o braço a dirigir-se para o repouso. Músicas a entrar no final. Rotações trocadas. Uma vez, duas vezes, várias e passei a sintonizar outras frequências.

A Lei da Rádio deu a machadada final. Calou-se a Serra Mar, abriram-se novos canais. Nunca os segui atentamente. Fui a andares ou a caves como convidado, já em funções associativas e pouco mais.

Ouço rádio apenas no automóvel. Em casa, esqueço-me de sintonizar qualquer uma: nacional ou local. A vulgaridade das rádios locais tornou-as inaudíveis. Os meios técnicos são hoje superiores mas, tornou-se tudo demasiado repetitivo e boçal.    

A interrogação que fica é se tudo seria diferente se a licença de rádio tivesse sido atribuída à Serra - Mar? Sinceramente, apesar da simpatia pelo projecto da então Cooperativa, o tempo encarregar-se-ia de tornar tudo semelhante. Certo é o que estes anos decorridos vieram provar, em matéria de comunicação social, o jornal Labor ser melhor produto do que qualquer uma das rádios existentes no concelho.

Fica para a posteridade o misticismo de um nome, banal é certo, mas que serviu para muitos poderem por umas semanas, ou meses, partilharem os seus gostos musicais, através do registo determinante para o início das rádios piratas, precisamente, o vinil.

 

(a publicar dia 10/04/08)

 

quarta-feira, abril 02, 2008

Carreiros

O relato de uma amiga de família, afastada de S. João da Madeira há mais de vinte e oito anos, devido aos seus estudos universitários e consequente vida profissional, permite evocar de memória aspectos esquecidos da cidade. Do seu tempo de estudante do ensino secundário recordou o caminho que percorria de casa para as escolas: "pelo meio dos campos". Isto, traduzindo por toponímia actual, significa que a Avenida Renato Araújo não estava aberta do Largo do Souto até ao Hospital, nem sequer mais para sul.

Muitos dos percursos nessa época ainda eram feitos a pé, utilizando-se o caminho mais curto. Criavam-se carreiros por todo o lado. Não apenas os estudantes mas, a população em geral. Distantes estão as recordações de pessoas que atravessavam caminhos, transportando o almoço de progenitores, ou de outros familiares, empregados em fábricas.

(Lembro-me de um postal alusivo à localidade conter uma fotografia de uma mulher com uma espécie de canastra na cabeça, num qualquer caminho. Um retrato extremamente rural que eu em criança, por desconhecer essa realidade, sempre tive dificuldade em entender.)

Amílcar Correia numa alusão ao seu passado nesta localidade, nas páginas d' “A Balada do Níger”, evoca um outro pitoresco testemunho, uma sebe com direito a videira, implantada no centro duma artéria da Quintã.

O progresso de evolução normal das localidades, dos meios de transporte existentes, obrigaram a várias transformações na rede viária, com a abertura de ruas ou avenidas. Os atalhos cederam o seu lugar.

A vontade de afirmação como cidade industrial, com elevados índices de urbanismo por metro quadrado, implicou a perda do lado gracioso de S. João da Madeira. Do período anterior à sua elevação a cidade, a rede de carreiros estendia-se a toda a localidade. Lembro-me de outros, para além dos citados: no Espadanal para se atingir o rio, nas suas margens nas Travessas; na Devesa Velha e nos Fundões, lugar onde existia um moinho e pontes de madeira, com traves quebradas sobre o rio; na Quintã - apesar de atravessada pela principal estrada nacional – existia uma série deles (várias noites, atravessei a artéria atrás citada, muito mal iluminada, espreitando sempre o recanto criado por detrás da sebe, para evitar surpresas desagradáveis); a ligação de Fundo de Vila aos moinhos de Casaldelo, ou dos carreiros no Orreiro ao longo da ribeira da Buciqueira; mesmo no Parrinho, em período anterior à construção da “variante”… entre outras memórias.

Quase tudo desapareceu, certamente. As já então decrépitas ruínas devem encontrar-se hoje num estado lastimoso, ou pior, não existirem simplesmente. Tenho a lucidez, ou melhor, a percepção de que jamais voltarei a percorrer os poucos carreiros que restam da minha meninice. Actualmente o pouco tempo livre que tenho, não me permite procurar ou desbravar os caminhos de antigamente. O enquadramento industrial de alguns, com o inevitável mau trato ambiental e o abandono de outros, não são propriamente apelativos para as horas de lazer.

Os indícios descritos eram todos periféricos, sinal que a transformação urbana da cidade ainda não se tinha expandido. No centro, eram mais raros vestígios do período pré-industrial. Hoje ainda permanece um velho testemunho: o tanque do Pedaço. Escondido atrás da sebe, junto ao Fórum Municipal.

O semanário Sol, enquanto divulgava nas suas páginas os dados e respectivos rankings dos concelhos com maior qualidade de vida, apresentou uma reportagem de Lisboa, em que “ (...) ainda há quem saia de casa com uma trouxa de roupa suja, para lavar nos tanques dos lavadouros públicos que resistem em certas zonas da cidade, como na freguesia de Carnide (...) ”.

Desconheço se o tanque de S. João da Madeira ainda é utilizado. Caso não seja, era tempo de se perder a vergonha e enquadrar este local público, que representa uma bela tradição comunitária, no espaço envolvente e promover a sua preservação.

Muitos são os concelhos que encontram em pequenos nadas, sem necessidade de investimentos megalómanos, nem tendo como finalidade a exposição mediática, o património humano das suas gentes. Por todo o país vemos reconhecido o esforço de populações, com a reabilitação de diversas ocupações das suas comunidades. Todo um testemunho etnográfico, que permite traçar o perfil histórico de uma terra ou região.

É importante, para efeitos futuros, assegurar a memória da cidade.



(publicado dia 03/04/08)

sexta-feira, março 28, 2008

20 ANOS

As minhas recordações são mais antigas do que a idade atingida pelo Jornal Labor. Não posso, por isso, cair na tentação de, ao elogiar a longevidade deste periódico, repetir aquele lugar comum: aprendi a ler nas suas páginas.

A oportunidade oferecida foi precisamente outra, a possibilidade de escrever.

Se nos anos 90, elaborei textos monotemáticos, relatando as facetas da secção de xadrez da AEJ e posteriormente, servi-me do Labor - como carinhosamente é conhecido este Jornal - para divulgar comunicados e expressar pontos de vista enquanto Presidente de Direcção da referida associação, chego a esta importante data na vida do Jornal, na qualidade de colaborador assíduo.

A duração desta relação espelha essencialmente um facto extremamente importante, a abertura ao longo destes vinte anos, das várias redacções e da direcção do jornal à comunidade onde está inserido.

Em dia de aniversário, resta-me desejar ao Jornal Labor as maiores felicidades.


(a publicar no dia 01/04/08)

quarta-feira, março 19, 2008

Velhos hábitos

P. G. Wodewouse, autor de mais de cem livros, é conhecido como o mais brilhante escritor britânico do género cómico, do século passado. Da sua vasta obra, destacam-se os livros relatando as peripécias de Bertie Wooster, auxiliado pelo seu mordomo Jeeves. As suas aventuras por serem tão hilariantes foram adaptadas, passados quarenta anos, para uma série de televisão, precisamente Jeeves and Wooster. As principais interpretações foram protagonizadas, respectivamente por Stephen Fry e Hugh Laurie (este último mais conhecido do público pela sua encarnação em Dr. House, na série norte-americana com o mesmo nome).

O escritor britânico tinha uma capacidade de exposição formidável. O seu método de escrita era tão peculiar, que querendo expor num novo livro um acontecimento já relatado anteriormente, não se cingia a fazer uma referência bibliográfica. Por forma a situar os leitores na narrativa, pedia desculpa aos que já conheciam todos os pormenores descritos e apresentava um breve resumo, para os leitores que pela primeira vez tomavam contacto com as suas personagens. Desta forma, colocava todos no mesmo momento da história e continuava a descrever as confusões, em que normalmente envolvia o personagem Wooster. Com esta técnica, a vida de quem escreve uma sucessão de textos quer em crónicas, quer avulsos, seja em jornais ou noutro qualquer formato, fica facilitada.

Todo este intróito serviu para preparar os leitores para o tema que irei desenvolver.

Em tempos descrevi as minhas dificuldades em comprar água tónica. Como devem ter percebido, este relato não é totalmente inédito. Assim, aplicando a técnica atrás descrita e por forma a não incomodar os leitores que já leram esta passagem, abreviarei o mais possível no próximo paragráfo, o sucedido.

Preparava-me para beber um gin tónico numa sexta-feira à noite, depois de uma árdua semana de trabalho, quando deparei não ter água tónica em casa. Os restantes ingredientes não faltavam, apenas tinha acabado a água com quinino. Procurei nos cafés das redondezas e nada. Fui de porta em porta, obtive sempre a mesma resposta e dei por mim, numa grande superfície a comprar as garrafas de 20 cl de rótulo amarelo e letras pretas. Acreditei numa troca de hábitos em meios mais pequenos e que a água tónica, tivesse sido substituída pelas novas águas com sabores.

Posteriormente, durante as férias, exercitei por alguns lugares por onde passei a ingestão de tal bebida. Sendo em bares, o gin tónico lá me era servido, no entanto, tinha que aguardar um pouco, para diligenciarem a água tónica. Gin não faltava. Mesmo a marca de garrafa azul estava exposta, em lugar de destaque. Tónica é que estava sempre inacessível. Ou noutro balcão, ou nas arrecadações, se fosse o caso. Pensei sempre tratar-se de um problema de gestão de stock, em que a reposição momentânea não tivesse sido efectuada.

Há dias tive a prova que me faltava. Num local normal, de porta aberta ao público até depois da meia noite, quando pedi o obrigatório gin tónico, lamentaram informar-me que só tinham água tónica, o gin tinha terminado.

Compreendi estar perante um problema de geração. Afinal, as minhas suposições sobre hábitos urbanos em terras pequenas e a questão dos stocks não tinham sido problemas pontuais. Algo mais profundo tinha acontecido.

Os hábitos nocturnos, de quem maioritariamente frequenta os espaços abertos ao público alteraram-se. Aquilo que na minha geração era frequente, beber Gin Tónico, perdeu-se com o tempo.

Confrontei pessoas mais entendidas do que eu na matéria, ligadas à restauração e após alguma análise concordam.

Velhos hábitos que não nos tornam velhos de idade mas, identificam-nos.

Para cúmulo do exotismo indicam-me que existe uma mistura de Gin, pela apreciação de quem me informou divinal, apenas à venda numa determinada loja “Gourmet”.

Pelo menos em casa, desde que previamente se trate de aprovisionar os respectivos ingredientes, ainda se consegue beber em tranquilidade.

No meu caso, de preferência, acompanhando a narrativa de Wodehouse. Ambas em dose adequada, é claro. Sem excessos.

A propósito, aproveito para desejar uma boa Páscoa a todos os leitores.

quarta-feira, março 12, 2008

Satisfação

Dois estudos promovidos por duas entidades distintas, indicaram S. João da Madeira como um dos concelhos com maior qualidade de vida. As duas análises tiveram em comum o cruzamento de diversos dados estatísticos oficiais e diferenciavam-se na metodologia, pois o promovido pelo INTEC – Instituto de Tecnologia Comportamental –, baseou-se ainda em entrevistas telefónicas às populações locais.

Em ambos os estudos, este concelho ficou no pódio, i.e., nos três primeiros lugares, só tendo sido superado pelo concelho de Albufeira. Com este lugar no ranking nacional, vários foram os comentários, as interpretações e até sugestão de outros indicadores.

Houve quem preferisse não dar importância às conclusões de qualquer um dos estudos. Do rol de argumentos depreciativos não surgiu a normal visão redutora da função média: “se duas pessoas tiverem vencimentos anuais de 5.000 e 50.000 euros, em média auferiram 27.500 euros”; ou a mais conhecida: “se um fulano não comer uma refeição e o outro comer duas, em média ambos comeram uma e o desgraçado que ficou com fome, estatisticamente ficou satisfeito”. O cruzamento de vários dados estatísticos e a elaboração de rankings por domínios tratados, permite não se cair na tentação fácil de denegrir a análise estatística.

O facto das apreciações finais dos estudos terem sido semelhantes, confere idoneidade às metodologias utilizadas e sabendo-se que nove dos doze municípios financiaram o estudo do INTEC, em nada altera, na minha opinião, os resultados divulgados. Só seriam suspeitos se a amostra fosse menos homogénea e o ranking final colocasse, precisamente, os financiadores nas primeiras posições.

Com tudo isto, sabendo-se de todas as carências que existem na cidade, os problemas sociais incluídos, ligados obviamente aos dados “paradoxais” como bem englobou este Jornal na semana passada, o que ressalta dos resultados das entrevistas telefónicas é a satisfação global dos habitantes de S. João da Madeira.

Para os municípes deste concelho as áreas que funcionam menos bem são: saúde, ambiente, urbanismo, habitação, turismo, diversidade e tolerância. Em contrapartida, os aspectos positivos são: cultura; lazer; economia e emprego; ensino e formação; acessibilidades e transportes.

A felicidade é o grande trunfo da cidade. Subjectivamente, claro.

O trecho retirado do estudo do INTEC, segundo o Jornal Regional de 28-02-08 é o paradigma da análise subjectiva “(...) salienta a facilidade de mobilidade e curtos tempos de deslocação, assim como o fácil acesso a cidades como Porto e Aveiro, que disponibilizam equipamentos e serviços que escasseiam localmente, o que, segundo os autores do estudo, ajuda a explicar as boas avaliações dos munícipes nos domínios da saúde e educação e formação(...)”. Numa só frase, eis o resumo para a boa localização geográfica do concelho. Poderia evidenciar o paradoxo contido no texto transcrito, que elimina dois aspectos positivos do concelho mas, essa tarefa deixo-a para os leitores.

Voltando às preocupações da população, de todas as enumeradas, a eleita para análise pelo poder político foi friamente o turismo (ver texto “Turismo com nota negativa”, publicado no Jornal Labor de 06/03/08). Este desfasamento entre as dificuldades da população e a actividade política são a dura realidade nacional.

A satisfação dos Sanjoanenses é claramente elevada e distante do poder político municipal. Se verificarmos os domínios tratados classificados com nota positiva, nos recordarmos do Plano de Actividades da Câmara Municipal para o ano 2008, focados na capacidade de concretização do programa eleitoral do actual executivo municipal, ficamos sem palavras.

Estes documentos, os rankings divulgados podem ser criticáveis pelos indicadores eleitos, no entanto, retratam, pela abrangência de temas, a relação dos munícipes com os seus concelhos. Se alguns são demasiado cépticos, outros conformados e outros optimistas, os resultados obtidos, em especial, pelas entrevistas telefónicas permite obter-se uma análise social sobre a generalidade das suas expectativas.

Esse é o desafio para os próximos anos.

(a publicar dia 13/03/08)

segunda-feira, março 03, 2008

Táxi

Entrou no táxi já atrasado, pelo que teve logo de ouvir: “Estive quase para ir-me embora, se não fosse pela consideração que tenho por si, já tinha arrancado.”
Correu-me mal esta noite, foi a resposta ao taxista. Este olhou pelo espelho e logo reparou no lenço entre a mão e a cara, provavelmente a estancar uma ferida aberta.
Quer que o leve ao hospital? – perguntou. Prontamente respondeu: Ao daqui não! É melhor ao lá de baixo, fica a caminho do nosso destino habitual.

O taxista apesar de discreto, resmungou algumas palavras sobre o fecho de urgências dos hospitais. Passado uns metros fez a inevitável pergunta, da qual não queria obter resposta, sobre as urgências que afinal não fechariam. Assunto em voga na semana e que colocava em causa, todos os protocolos assinados. Enquanto o taxista dissertava a sua sabedoria sobre o assunto, o conduzido, embalado pelas palavras ouvidas e pelo andamento do táxi, reviu os acontecimentos da noite.

Seria uma noite normal de fim de semana. Para começar, o costume, uma partida de snoocker, seguida da viagem por táxi, frete combinado frequentemente, só com ida até ao casino, ceia e aqui variaria o programa: a sua condição de homem disponível e a vontade de passar momentos com corpos femininos, macios e perfumados, podiam-no reter numa noite em agradável companhia, ou então, o regresso solitário a casa, num qualquer carro de praça disponível.

Desta vez, não seria assim. O adversário nas bolas coloridas, era um daqueles chatos, batoteiros e conflituosos, ainda por cima familiar do dono do salão de jogos. A partida estava a correr bem, até que uma palavra mal medida, virou em ameaça. Daí até à violência física foi um pequeno passo. Levou uma cabeçada do energúmeno, mais um par de socos, ficando com a cara aberta e sem hipótese de defesa. Apoiado à mesa de jogo, olhou em redor à procura de um objecto para se defender e igualar o “combate”. Quando viu que o taco estava longe do seu braço, lembrou-se do filme “Guerra das Estrelas”, da saga dos Skywalker e pensou no poder da levitação. De repente, o taco estava na sua mão. Sem acreditar sentiu-se um guerreiro Jedi e investiu sobre o opositor. Um golpe aqui, outro ali, mais duas fortes tacadas e desembaraçou-se da situação criada. Uma voz disse-lhe para fugir, que o encobria. Percebeu ser de alguém que o tinha ajudado e atirado o taco naquela hora difícil. Mais aliviado, percebeu que a força não estava com ele.

O taxista expelia bairrismo por todos os poros. O tom de conversa não estava agradável... Decidiu interrompe-lo, precisava da sua ajuda no hospital. Explicou que teriam de representar, dramatizar mesmo, para conseguir dar entrada nas urgências, sem grandes questões. Ao taxista agradou-lhe a ideia de ludibriar o sistema nacional de saúde, uns penetras na urgência dos outros.

Como cliente agradeceu e pediu para esperar por ele. Esta noite voltava a casa, mal tivesse o curativo, que pagaria o que fosse preciso pelo tempo de espera, mais a viagem como se fosse para o destino previsto. O taxista ficou satisfeito, a vida não estava fácil, como já tinha dito várias vezes, àquela hora só poucos trabalhavam e ele próprio queria estar em casa.

Encostado no banco de trás, compreendeu o vazio da sua vida. Enganava-se no jogo nocturno, onde ganhava muito mais do que perdia. Esta pequena satisfação nunca lhe trouxe felicidade, antes pelo contrário. Separação. Visita do filho apenas de vez em quando. Uma vida desenraizada, sem qualquer ligação social. Só, no mundo.

Antes de chegar ao hospital disse ao taxista: o que é necessário é alargar a rede de urgências dos Hospitais Psiquiátricos. O condutor indignado tentou percebê-lo. Focou-o pelo retrovisor, para seguir as ideias do cliente, pedindo-lhe para se explicar melhor. Este continuou, pausadamente: ouvi-o atentamente e não percebo como se pode trocar um serviço de urgência por uma ambulância especial; como é que algumas populações ficam a aguardar a construção de novos hospitais, enquanto para outras são logo reduzidos os cuidados de saúde garantidos pelo Estado. Tudo isto é confuso, não se percebe o critério e deixa qualquer um baralhado. Mas, não pense que é por isso que falei nos hospitais psiquiátricos. Estou cansado de fingir. Se fosse fácil entrar num desses hospitais, seria para lá que iríamos agora.

Nota: esta estória foi originalmente publicada no blogue “Escrita Irregular”. Reeditar este texto, adaptando-o às circunstâncias actuais é uma justa homenagem a leitores, comentadores assíduos do recentemente encerrado blogue. A eles agradeço toda a atenção dispensada ao longo destes últimos 17 meses.

(a publicar no dia 06/03/08)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Preto e branco

O clube de futebol da terra dos meus filhos, numa das anteriores eliminatórias da Taça de Portugal, foi jogar com o Benfica. A proximidade do clube, com colegas de turma e amigos mais velhos a jogar nas escolas do clube de Santa Maria da Feira, poderiam ajudar a despertar a atenção sobre o acontecimento. Avisados, sobretudo o mais velho, que já se interessa por estas coisas da bola, esqueceram-se. A atenção para o desporto resume-se nestas idades, mais à vontade de experimentar, do que ao seguimento ficando sentado. E paciente.

A história da família do lado materno foi buscar as memórias do primeiro encontro entre os dois clubes. Nos anos sessenta, na primeira aventura deste clube do concelho vizinho na 1ª Divisão, o bisavô dos meus filhos era seu presidente.

Na tarde do jogo, já depois deste ter acabado, ao verificar o resultado do jogo, no portal informativo adequado, confrontei o meu filho com a eliminação do Feirense. A reacção foi: Fixe!!! O Benfica ganhou, fixe!

Poderia analisar a expressão pelo lado do resultado raro para os lados de Lisboa, no entanto, o que me interessa narrar, não tem relação com esse assunto.

Nem os laços familiares, nem a proximidade modificaram a simpatia clubista do rapaz.

Nada.

Indiferente a tudo isso, congratulou-se com a vitória da equipa distante.

Em pequeno sempre desejei que houvesse um jogo de futebol entre a Sanjoanense e o Benfica.

A minha faceta enquanto adepto começou cedo. Aos sete anos já corria para a Rua Benjamim Araújo para assistir aos jogos de Basquetebol dos meus irmãos mais velhos, nas camadas jovens da ADS. Com o avançar da idade, fui seguindo as várias equipas da modalidade.

A ascendência qualitativa das equipas principais de Hóquei em Patins e de Andebol, juntamente com a modalidade predilecta também despertaram o meu interesse. Na minha adolescência, presenciei vários momentos de exultação colectiva no Pavilhão. A alegria exacerbada dentro e fora do campo.

O futebol era acompanhado à distância. No estádio, de forma mais esporádica, um jogo de vez em quando. Em miúdo quase sempre acompanhado pelo meu pai, que me protegia os ouvidos da má criação verbal, escolhendo sempre os mais isolados lugares da bancada. Era na imprensa que seguia semana após semana, os campeonatos anuais da Sanjoanense. Hábito que conservo ao longo destes últimos trinta anos. Todas as segundas – feiras, no periódico procuro sempre os resultados semanais da Sanjoanense, vejo a classificação, comparo com a concorrência e teço comentários momentâneos.

Actualmente não vou ao estádio Conde Dias Garcia, nem a qualquer pavilhão. Sendo sócio (com o n.º 1019), a minha contribuição resume-se à quotização anual. Aprecio a aposta na formação desportiva, alargada ao desporto feminino e tudo isto, sem abdicar das equipas seniores nas várias modalidades colectivas de sempre.

O maior feito da ADS foi chegar aos 84 anos, como está.

O seu contributo para o eclectismo (é a minha palavra desportiva preferida) do concelho é notável. Tornando S. João da Madeira um dos raros locais no nosso país, onde é possível praticar e competir em desportos colectivos, em qualquer idade e género.

O esforço dos seus dirigentes e funcionários, para a modernização e adaptação aos novos tempos, tem-se traduzido por uma melhoria significativa das condições à disposição dos seus treinadores e atletas.

A comunidade reconhece esse esforço. Nos últimos anos, a própria autarquia reformulou o ultrapassado campo de jogos e criou o Centro de Formação Desportiva, dotando-o com excelentes condições para a prática de futebol. O restauro do pavilhão dos desportos, por imperativos vários, foi outra obra finalizada.

Já a relva do estádio Conde Dias Garcia continua à espera de ser substituída...

Em tempo de aniversário, a festejar no próximo dia 25, é tempo de voltar a reivindicar antigos desejos.

Não se compreende como o assunto ficou esquecido tanto tempo. Se em 2004, todos estavam dispostos a comparticipar, está na altura de solicitar uma ajuda mais efectiva neste sentido.

Aliás, o estádio e a área abrangente poderiam ter-se englobado no Plano de Pormenor equacionado para o outro lado da Avenida Arantes de Oliveira. Deste modo a autarquia oferecia uma ideia, um projecto de remodelação de um espaço muito importante da história da Sanjoanense, prosseguindo a melhoria dos espaços desportivos municipais, que são um sinal de diferenciação deste concelho.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Ilustres

A boa gastronomia é um motivo para deslocações a qualquer ponto do país. Restaurantes existem que são mais afamados do que a localidade onde estão inseridos. Noutros casos é a própria região sobejamente conhecida e qualquer restaurante tem clientela à porta e dentro dela.

Comensais organizam listas alfabéticas indicando para o nome de cada terra, os respectivos restaurantes em que é imperativo comparecer, caso haja ocasião no caminho, ou então fazendo-o propositadamente.

Com esta intenção fiz-me à estrada, percorrendo o percurso idêntico ao dos peixes fluviais, isto é, partindo junto da foz do Rio Vouga e serpenteando por estrada os seus meandros dirigi-me para montante. Segui pela nova A25 até sair junto a Macinhata do Vouga, local onde a CP instalou um Museu Ferroviário para eternizar o simpático e regional Vouguinha, da minha infância.

A hora nocturna já não permitiu visitar as bielas, cambotas e locomotivas a carvão. Segui pela estrada a caminho de Sever do Vouga. Deparei-me com a ponte ferroviária do poço de Santiago. Um ex-libris do concelho para onde me dirijo e a maior obra da engenharia ferroviária construída no século passado na região – “mais alta (28,5 metros) ponte do país construída em pedra. Com 165 metros de comprimento, é constituída no seu todo por 12 arcos de tamanhos vários. O maior, de forma parabólica, abraça firmemente as margens do rio Vouga, tendo de altura 27 metros e de vão (comprimento da base) 53 metros. O fecho deste arco, o central, apresenta apenas 90 cm de espessura. Os restantes 11 arcos partilham da base do arco maior, havendo uma duplicidade de soluções geométricas e de engenharia verdadeiramente arrojadas”.

Mais uns quilómetros, umas curvas, umas construções à beira rio e chegamos a Pessegueiro. Uma escada de acesso descendente, anunciam o restaurado edifício, outrora cais de barcos. Entramos precisamente na “Quinta do Barco”.

Do cardápio surgem as eventuais sugestões características da zona: a vitela de Lafões e a lampreia, porque a época era propicia.

A escolha foge da tradição local, os quilómetros percorridos merecem uma nova aventura gastronómica - espetada de polvo -, seguindo a sugestão confidenciada por familiar. Renego qualquer tentativa de ingerir o pitéu das águas doces, pela dificuldade em explicar aos meus filhos que aquela aparência horrível, é apetitosa.

Durante o jantar, numa das mesas em frente à escolhida pela família sentam-se dois casais. Uma das caras não me é estranha. Não gosto quando isto me acontece. Rostos conhecidos das televisões, ou dos jornais, fora do seu contexto habitual, tornam-se difíceis de se identificar prontamente.

Uma terrível coincidência, estarmos no mesmo local com pessoas que sabemos quem são e não reconhecemos. A menos daqueles bastante conhecidos, como uma vez em Montemor – o – Velho, em que na mesma sala se encontrava Pedro Santana Lopes. Sempre simpático e bem disposto, mostrando o seu lado divertido, partilhando com os seus companheiros de mesa, as memórias cinéfilas, em especial, o cómico “Tea for two”.

Desta vez junto ao rio Vouga, não conseguia identificar aquela cara. Não acredito na ideia provinciana de que temos sistematicamente de encontrar pessoas conhecidas, como se o país fosse pequeno. De qualquer forma, estava perante uma peça de xadrez fora do seu lugar no tabuleiro. Uma espécie de bispo colocado na diagonal errada, longe do seu correcto posicionamento, que estar ou não em jogo, nada acrescenta no desfecho do mesmo.

Prosseguimos a refeição, incluindo uma soberba sobremesa de mirtilo. O indispensável o café foi bebido a correr, porque os miúdos tinham atingido a sua hora de saturação e só pensavam em portar-se mal. Primeiro escondendo-se debaixo da nossa mesa, depois alargando a área de brincadeira às mesas mais próximas. Enquanto esperava por finalizar o pagamento, o grau de aborrecimento e algazarra foi crescendo. Nesta fase fez-se luz na minha memória. Preparava-me para revelar a minha inquietação e confrontar as dúvidas, quando os meus filhos se dirigiram para a mesa do ilustre “não identificado”. Preparava-me para pedir desculpas pelo incómodo a provocar e receber uma ajuda, via uma qualquer reprimenda dada aos garotos. O gesto, precisamente do famoso cliente deixou-me desarmado. No lugar da esperada recriminação, o incentivo ao mau comportamento através da entrega de um rebuçado. O troféu foi transportado até à mesa dos pais, em sinal de vitória. Como qualquer criança, não se contentaram só com um e voltaram à mesa dadora até receberem o último. Depois foram incomodar outra e mais outra mesa, pedindo sempre rebuçados.

Finalmente, acertei as contas e consegui sair. Nem me lembro se os meus filhos trouxeram os rebuçados. O interesse era mais desafiar o pai, do que adoçar a boca.

Passado uns dias, numa qualquer quinta-feira seguinte, estava a ler a crónica quinzenal de António Lobo Antunes, provavelmente a da solteira, do seu amante careca, que lhe fazia companhia durante os serões, antes de regressar ao seu lar de casado e dissipei todas as dúvidas surgidas em Pessegueiro do Vouga. O rosto famoso era certamente o cronista.

Se era lógico ser ele, não posso avaliar. Fica sempre a incerteza se aquela cabeça a tender para careca, os olhos claros por baixo de uma testa engelhada, que são aspectos físicos comuns a várias pessoas, era capa da invulgaridade da escrita.

Importante, mais do que eventualmente ter-me cruzado com o escritor, é poder um dia repetir o repasto, pois o que espero relativamente a tão ilustre pessoa é poder continuar a deliciar-me com a sua prosa...

(a publicar no dia 08/02/08)

terça-feira, janeiro 22, 2008

Lótus Azul

           Durante este mês Janeiro, o assunto de todas as conversas tende sempre para o mesmo, a entrada em vigor no inicio do ano, da lei que pretende "proteger os cidadãos da exposição involuntária ao fumo do tabaco e medidas de redução da procura relacionadas com a dependência e a cessação do seu consumo", genericamente conhecida como Lei do Tabaco.

 A maior controvérsia prende-se pela proibição de fumar em determinados locais, nomeadamente os descritos nas vinte e cinco alíneas consideradas.

A aceitação da proibição por parte dos fumadores e em especial, pelos proprietários de estabelecimentos de restauração e similares, foram extremamente enaltecidas pela restante população – maioritária – de não fumadores. Ainda assim, como o vício não se controla por decreto, ficou a possibilidade de restaurantes, cafés e bares optarem por criar uma zona de fumadores, ou nalguns casos, preferiram classificar o seu estabelecimento como tal, obedecendo ao previsto na lei, acerca de extracção de fumos e sinalização adequada no exterior.

Mesmo a este nível a situação não tem sido totalmente pacífica. Espera-se, como é costume em Portugal, que o legislador indique qual o tipo de extractor adequado. Entretanto, procura-se com os meios existentes dentro de portas, ventilar o local, retirando o fumo.

Com alguma piada e com utilidade para alguns, foram sendo elaborados roteiros a nível nacional dos poucos locais onde é permitido fumar.

A minha experiência de, num fim de tarde, ter aproveitado uns quinze minutos livres, para beber um café, é esclarecedora da confusão a que a nova Lei nos sujeitou. O estabelecimento onde entrei, parecia a costa ocidental portuguesa em dia de nortada, vento por todo o lado. Não estava a perceber a opção de manter o ar condicionado ligado - como ventilador, em pleno Inverno. Só quando me dirigi ao balcão para pagar o consumo e vi dois fumadores a partilhar o cinzeiro em amena conversa, é que compreendi estar dentro de um estabelecimento de dístico azul afixado. Ao sair, confirmei-o.

Como em tempos escrevi, apesar de asmático, o tabaco nunca me incomodou. Suportaria melhor o fumo de 50 fumadores naquele café, do que as rajadas de ar frio que me trespassavam o corpo. É evidente que não vou tomar medidas radicais de evitar dísticos azuis, antes pelo contrário. Agora se fosse fumador, procuraria não entrar nestes locais supostamente arejados, evitando assim complicações pulmonares desnecessárias. Pelo que senti, era preferível fumar no exterior do local, que mesmo sendo fim de tarde estava mais protegido e portanto, mais ameno, do que estar sujeito àquelas correntes de ar forçadas.

Por mais que tente, não consigo perceber esta lógica na sinalização utilizada. A cor azul não tem coerência alguma. O vermelho é normalmente empregue como cor de proibição, tanto na sinalização do estado do mar nas praias, como ao nível de código da estrada, como também ao nível de segurança e higiene no trabalho. Já o azul é usado no referido código e na sinalização de segurança, como sinal de obrigatoriedade em placas redondas e como sinal de informação em placas quadradas ou rectangulares.

Um dístico azul dizendo "fumadores" e traduzido em outras duas línguas é meramente informativo ou pretende encaminhar os fumadores para um determinado local?

Obviamente a pergunta é meramente retórica e jamais me vão responder, até porque não é claro qual o critério para a escolha da cor. Contudo, qualquer conhecedor da obra do belga Hergé, lembra-se dos livros de Tintin. Numa fantástica aventura, o jovem jornalista vê-se envolvido numa rede internacional de tráfico de ópio e é forçado a deslocar-se para a China, então ocupada pelo Japão. Nesse livro, o desenhador faz referência ao Lótus Azul (precisamente o nome desse álbum), estabelecimento no qual os clientes fumam ópio, espalhados pelo chão a inalar o fumo.

Espero que o imaginário infanto-juvenil dos legisladores não tenha feito a mesma associação, hostilizando os fumadores e criando entraves na sociabilização dos mesmos, rotulando-os.
(a publicar no dia 24/01/08)

terça-feira, janeiro 15, 2008

Lista Única

No passado dia 21 de Dezembro os grupos parlamentares do PS e PSD, apresentaram na Assembleia da República, o projecto de lei número 143/X, que prevê consagrar alterações à Lei Orgânica número 1/2001 de 14 de Agosto, precisamente a LEI ELEITORAL DOS ÓRGÃOS DAS AUTARQUIAS LOCAIS.

As principais alterações a introduzir serão:
“- Eleição directa, secreta, universal, periódica e conjunta da assembleia municipal e do presidente da câmara municipal;
- O presidente da câmara municipal é o cabeça da lista mais votada para a assembleia municipal, à semelhança do regime actualmente vigente nas freguesias;
- Designação dos restantes membros do órgão executivo pelo respectivo presidente de entre os membros do órgão deliberativo eleitos directamente e em efectividade de funções;
- A garantia de representação das forças políticas não vencedoras no executivo municipal;”

Ao nível de funcionamento da Assembleia Municipal, as modificações serão:
“- O reforço dos poderes de fiscalização do órgão deliberativo, tendo como corolário a apreciação da constituição e remodelação do executivo, através da possibilidade de aprovação de moções de rejeição;
- A deliberação de rejeição do executivo requer maioria de três quintos, gerando, em caso de segunda rejeição, a realização de eleições intercalares;
- Tais direitos apenas são exercidos, ao nível municipal, pelos membros da respectiva assembleia directamente eleitos e em efectividade de funções.”

Este ponto tem provocado alguma contestação por parte dos membros eleitos por inerência, ou seja, os representantes das Juntas de Freguesia, normalmente o seu Presidente. Neste sentido, a ANAFRE – Associação Nacional das Freguesias – já apresentou o seu parecer negativo sobre este projecto de lei. Além do ponto focado, está previsto na proposta apresentada no Parlamento, o impedimento dos representantes das freguesias de exercerem o seu direito de voto, na apreciação dos Planos de Actividade e Orçamento.

Como na maioria das Assembleias Municipais, o número de votos dos Presidentes das Juntas de Freguesia é significativo, por todo o país vão surgindo apreciações e moções de rejeição ao diploma apresentado no último mês na Assembleia da República.

Em termos práticos, para as concelhias partidárias o futuro fica mais facilitado.
É certo que em concelhos com maior dinâmica política, em termos individuais, a disputa pelos lugares elegíveis será mais árdua. O mesmo acontecerá com as estruturas de determinadas freguesias, que estarão sempre atentas, a verificar eventuais ganhos ou perdas relativamente a outras organizações locais. Um pouco à semelhança do que se passa com as concelhias partidárias no que respeita a constituição das listas nas eleições legislativas em cada distrito.

As razões para a futura agilidade das concelhias são duas. Em primeiro lugar, pelo menor número de candidatos necessários para preencher as listas. Existia sempre dificuldade em encontrar militantes e simpatizantes, ou independentes, para preencher as duas listas para os órgãos autárquicos centrais. Por outro lado, como o centro do debate político será a Assembleia Municipal, os partidos com a lista conjunta, conseguirão não fragilizar uma das listas, não colocando pessoas com maior potencial político em lugares de eleição duvidosa e com isso, afastá-los da real actividade política.

Em 2009, para as eleições autárquicas já será assim.

Estas alterações na Lei Orgânica, por certo, afastarão os independentes das listas partidárias, pelas razões atrás expostas, e isso poderá ser importante para o lançamento de candidaturas não partidárias às eleições locais. Não como aconteceu, no ano passado, nas eleições autárquicas intercalares para a Câmara Municipal de Lisboa, em que as listas independentes apenas surgiram por não terem sido primeiras escolhas do seu espectro partidário mas, candidaturas genuínas, do género da lista vencedora das eleições intercalares para a Junta de Freguesia das Caldas de S. Jorge.

Imagine agora o leitor o seguinte: caso a proposta de reforma da Administração Local do ano de 2006 (apresentado pelo Secretário de Estado, Eduardo Cabrita, de esvaziar os concelhos de freguesia única, extinguindo-a) tivesse prevalecido, a eleição autárquica do próximo ano, em S. João da Madeira, seria efectuada com a apresentação de uma lista única.

Este cenário pode parecer uma suposição provocatória, no entanto, começa-se na própria
Assembleia de Freguesia a reivindicar a atribuição de mais competências das previstas na Lei Orgânica para a Junta de Freguesia de S. João da Madeira.

Uma exigência antiga que a centralização autárquica tem contrariado, ao longo de anos. Daí, como são poucas as competências da Junta de Freguesia, o fatalismo da extinção da mesma, abstraiu-se de ser assunto interdito.

Provavelmente, como se pretende fomentar o conceito de competitividade do concelho, umas eleições autárquicas com os vários partidos a concorrerem, cada um com uma lista única, seria um óptimo exemplo de publicidade institucional.

(a publicar dia 17/01/07)

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Balanço: Impasse, Justiça e Fuga

A actividade da política local no ano de 2007 foi marcada por factores exógenos. A alteração e animação do quotidiano da cidade deveu-se a relações com entidades de índole nacional, que marcaram fortemente o ano que agora termina.

O impasse nas negociações com o Governo actual foram o ponto negativo, por não terem sido profícuas para a Cidade.

Os grandes assuntos pendentes do ano anterior (Encerramento das Urgências, construção e ligação à A32, aplicação na Linha do Vouga de vaivém) não se alteraram. As últimas notícias vindas a público relativamente a estes assuntos, demonstram que a crença, em se obter uma solução adequada à pretensão dos Autarcas locais, é cada vez menor. A prova disso são as verbas orçamentadas para o ano de 2008. Às dúvidas colocadas na Assembleia Municipal de 13 de Dezembro, o Presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira adiantou que a concessão da A32 não previa a construção da ligação a Ovar. Uma atitude que difere com a sustentada no passado, quando se procurava saber em que situação estava a ligação por auto-estrada ao Porto. Desta vez, houve vontade em trazer más notícias em primeira mão. Do encerramento das urgências, processo que a oposição política habilmente delegou a responsabilidade negocial no Presidente da Câmara, a convicção é que qualquer dia terá data marcada. O Ministro da Saúde contínua firme na ideia de transferir responsabilidades para os Centro de Saúde e para os médicos de família. Os próximos tempos deverão ser decisivos, até porque os serviços de Urgência do distrito de Aveiro com o encerramento previsto, já começaram a fechar.

Se no campo político, a grande acção da oposição foi engavetar o Presidente da Câmara, uma ajuda maior e preciosa foi obtida em matéria de acções judiciais. Por um lado, o capital político adquirido do processo que visava Teresa Correia, por outro, em processo ainda sem desfecho e este já envolvendo directamente o Presidente da Câmara, o poder autárquico foi beliscado pelo poder judicial. Estes processos trouxeram um outro factor importante, clarificaram perante os eleitores os negócios privados do Dr. Castro Almeida, o que foi extremamente importante para terminar com insinuações.

Neste panorama, o Dr. Castro Almeida encetou uma fuga para o futuro. Em termos de política local, procurou algo diferente do que apresentar Planos de Actividades repletos de conclusões de obras, inaugurações, lançamento a concurso público, ou início de empreitada. A apresentação em Outubro através do Engº. Mira Amaral do Plano de Inovação: “S. João da Madeira 2015” conseguiu trazer algo diferente de uma sucessão de pretensas obras municipais, com co-financiamento do Estado. Provavelmente não muito bem assimilado pela totalidade da população, este é um importante projecto que pode ajudar a alavancar a transformação da economia local, tornando-a mais competitiva.

Um autarca sabe que tem um contrato de quatro anos com os seus eleitores. Está a prazo no desempenho da sua função. Com a alteração da Lei, impondo a limitação do número de mandatos, sendo impossível aos autarcas cumprirem mais de três, o edil local tem a sua carreira política para rever. No máximo será autarca em S. João da Madeira a médio prazo, por um período de 6 anos. Desta forma, seguindo a ambição de outras figuras do seu partido a exercerem funções de Autarca, tornou-se figura nacional e consagrou-se como a voz da contestação ao líder populista do Partido Social Democrata.

Bem sei que muita gente espera com esta projecção política de Castro Almeida, que o Governo actue de forma diferente com a Cidade. Ambiciona-se que o seu protagonismo pessoal seja traduzido em melhores relações com os Ministros (não apenas com secretários de Estado) e que o concelho consiga inverter a tendência recente de perda de valências e de investimento público.

O próximo ano ficará caracterizado pela capacidade de afirmação na política nacional do Dr. Castro Almeida. Obviamente, a capacidade de execução enquanto Autarca estará em análise. A mediatização conseguida na imprensa pela cobertura por banda larga, dando acesso gratuito à internet, em todo o território geográfico deste concelho, foi o arranque. O plano de actividades para 2008 promete inaugurações várias e a resolução de problemas antigos da Cidade. Nada com direito a projecção nacional. Apenas e só a inauguração do Centro Empresarial e Tecnológico, desde que previamente dinamizado, poderá ter o efeito pretendido.

Estando já em campo de projecções, desejo um Bom Ano de 2008 a todos os leitores.

(a publicar dia 28/12/07)

domingo, dezembro 16, 2007

Dezembro

Nos últimos anos, a quadra natalícia tem-se expandido, correspondendo ao último mês do calendário.

As hostilidades abrem cedo, logo nas primeiras noites do mês são inauguradas em vários pontos do país as respectivas iluminações natalícias, promovidas essencialmente por Câmaras Municipais, aliando-se ao efeito Associações de Comerciantes. A dinâmica pretendida, de convocar as pessoas para as ruas, para junto do comércio tradicional, acarreta a preparação de várias iniciativas, todas elas consagradas ao Natal: árvores alusivas (com a maior da Europa aqui tão perto); a chegada do ícone da época vestido de vermelho; concursos promovendo a participação da população - quer através das iluminações dos exteriores das casas ou de prédios, quer impulsionando a decoração de rotundas, ou através de receitas de culinária. Algumas das iniciativas há mais tempo promovidas, entretanto perdem brilho, tornando-se mais moderadas.

Para quem habitualmente procura assunto para escrever umas linhas para partilhar com os leitores, este é um mês difícil. O “Espírito de Natal” bloqueia qualquer tentativa de um texto mais agreste, de uma chamada de atenção, de uma crítica. Mesmo até textos mais suaves, de sugestões, de propostas alternativas ao quotidiano da cidade, não conseguem receber o alento devido. Por outro lado, a disponibilidade para compor textos diminui já que a profissão exige mais dedicação. A necessidade de manter os indicadores de produtividade, pensanso na satisfação dos clientes, constrangem a vontade de escrever.

Os dias foram passando.

Para manter a regularidade de textos publicados, vejo-me “obrigado” a abordar a quadra do Natal. Sinceramente não sei o que escrever.

Assisti à dificuldade de um pai em explicar o significado da palavra Natal a um filho e o resumo conseguido, da festa de família onde se trocam presentes, é demasiadamente perigosa, apesar de todo o afecto incluído.

Poderia ser o mote.

Apesar da laicização do Estado, é bom preservar alguns valores tradicionais, para se perceber a origem dos festejos. Por todo o lado surgem presépios, de todas as formas, o que é importante para ensinamentos futuros.

O Natal é feito em torno da idade da inocência. É deles que surgem os melhores momentos, pela alegria demonstrada ao receberem as prendas, como pelas cantorias, isoladas ou em coros dos temas alusivos à quadra. Pela experiência vivida, neste período do novo conceito de Natal, verifico que o velho barbudo, apesar do fascínio que cria nos pequenos, contribui mais tarde para a primeira desilusão da vida.

Os adultos incutem a ilusão colectiva, sendo positiva e sadia, embora reconheça advenha maioritariamente, ou resumidamente, da possibilidade de poder-se consumir.

Em época de crise, os menos afortunados não são esquecidos. Efectuam-se várias e profícuas campanhas de solidariedade. Este ano, os Bancos Alimentares contra a fome recolheram mais 10% de alimentos do que em 2006. Os festejos de Natal lá em casa, começaram com a participação neste contributo. Serviu para os mais pequenos entenderem e interiorizarem o que devia ser o “Espírito de Natal”.

Oferecer antes de receber, uma compilação apressada para o significado do termo fraternidade.

A melhor forma de terminar o texto relativo à quadra.

Finalizo estas linhas, enviando a todos os leitores votos sinceros de um Bom Natal.



(a publicar no dia 20/12/07)