quarta-feira, junho 25, 2008

Tatuagens

           A propósito da eliminação da selecção de futebol de Portugal no Euro 2008, repetiu-se até à exaustão na comunicação social a expressão “o futebol é um jogo de 11 contra 11, em que no final ganha a Alemanha”.

Esta frase poderia ter sido inventada por um português, tipo um jornalista a fazer a cobertura do campeonato, ou por um jogador ou mesmo um técnico, no final do jogo da passada semana, ou então, após o jogo do campeonato do Mundo de 2006, no qual os germânicos conquistaram o terceiro lugar. Porém, não foi.

O seu autor, Gary Lineker, avançado inglês que jogou pela selecção do seu país entre 1986 e 1992 teve que pronunciá-la, certamente, em desespero. Nesse período, em fases finais das principais competições de futebol, a Inglaterra - além de não ter feito nada de assinalável - jogou com a Alemanha apenas no Mundial de 1990. Nas meias-finais, em encontro entre ambas as selecções, a Inglaterra perdeu, no desempate por grandes penalidades, após o empate a uma bola no final do tempo suplementar, com o golo inglês a ser apontado precisamente pelo autor da frase transcrita anteriormente. Mais tarde em 1996, no campeonato da Europa, provavelmente com Gary Lineker como comentador desportivo, a Inglaterra voltou a perder com a Alemanha, precisamente nas meias-finais e novamente, por desempate por grandes penalidades. Nessas duas competições, os alemães ergueram o troféu. Aliás, os últimos conquistados.

As competições internacionais entre selecções criam por vezes a noção de equipas intransponíveis para alguns. As chamadas bestas negras. A Espanha esteve oitenta e oito anos sem vencer a Itália; mais recentemente Portugal ganhou sempre a Inglaterra e à Holanda, em contrapartida tem perdido com a França; outros exemplos existem e por vezes, fazem-se afirmações como a de Gary Lineker, contextualizada numa época mas, sem significado futuro.

Mal estaríamos se assim fosse.

Na época do avançado inglês, a Alemanha perdeu nos Campeonatos da Europa de 88 e 92 com a Holanda. Em 88, assisti ao jogo da meia-final inserido numa aposta entre clientes holandeses e um alemão, dono de um bar. A passagem à final valia um barril de cerveja. Com a derrota germânica, o bar ficou de torneira aberta, algumas horas. O acesso foi garantido a todas as nacionalidades e eu não me lembro de mais nada. Em 92, os holandeses voltaram a vencer a Alemanha, ainda na fase de grupos. Ainda assim, ambas passaram às meias-finais e para surpresa de muitos, a Holanda perdeu com a Dinamarca. O que afinal, não se pôde considerar de tanta estranheza pois a Dinamarca, com os golos de Larsen, derrotou a selecção alemã, Campeã Mundial em 90.

A incerteza quanto a favoritos, vencedores, continua a ser o maior interesse do Europeu. No dia em que escrevo não sei quem serão os finalistas da edição de 2008, tenho essa desvantagem relativamente aos leitores.  

Em matéria de participação da equipa nacional já tudo foi dito ao longo da última semana.

Se nos anos noventa os ingleses baquearam nas penalidades, os portugueses terminaram os jogos com a Alemanha, na década actual, olhando de lado para o seu guarda-redes, independentemente dos seus méritos enquanto jogador e profissional de futebol.

Para quem segue a participação das várias selecções nacionais desde o Euro de 1984, tudo o que aconteceu na Suíça não é novidade. Favoritismo, vedetismo, contratos milionários, estágios interrompidos, jogadores baixos, convocatórias controversas e erros defensivos não são de agora. Resumindo, a displicência nacional.

Nestes últimos vinte e quatro anos, as mudanças dos jogadores portugueses são mais de aspecto capilar. Em 1984, os bigodes eram a principal característica dos nossos seleccionados. Doze anos depois, sem o peculiar “pêlo na venta”, com excepção do seleccionador, a participação portuguesa reduziu-se ao risco ao meio efectuado por Poborsky a Vítor Baía. Passados quatros anos, a imagem felpuda de Abel Xavier foi o desalento da selecção. Em 2004, vencido o trauma da meia-final com um grande golo de Maniche, as particularidades capilares não se concentraram nos jogadores, mas sim, nos estádios construídos para o efeito, estando muitos deles ao fim de quatro anos, sem qualquer adesão de público, desde calvos a cabeludos.

Neste último Europeu, além do corte de cabelo de Cristiano Ronaldo, que devido aos milhões de euros que actualmente recebe passa incólume a qualquer tratamento depreciativo, os jogadores da selecção nacional evidenciaram-se pelas suas tatuagens.

Neste particular, os requisitos do próximo seleccionador nacional poderão passar pela presença destas marcas no corpo, para se poder promover a rápida aproximação entre o novo treinador e jogadores.

 

(a publicar dia 26/06/08)

quarta-feira, junho 18, 2008

Parques

            Nas últimas semanas, a Praça voltou a ser notícia nas páginas dos jornais locais. Praticamente um ano depois de finalizadas as obras, que repuseram o trânsito e estacionamento em algumas das artérias da zona pedonal, constata-se que pouco mudou no dia-a-dia do centro da cidade.

            Os empresários do comércio reclamam a pouca afluência de clientes aos seus estabelecimentos.

            Por seu lado, os frequentadores e moradores sentem que as alterações efectuadas, introduziram confusão e insegurança na circulação pelas ruas, desde que a total serventia de automóveis ficou assegurada.

            Neste panorama, é necessário não esquecer que no último ano surgiram na cidade dois novos pólos de atracção. Primeiro, com o novo centro comercial, com oferta de várias soluções comerciais, de restauração e de lazer. Tudo, com estacionamento grátis, em ambiente moderno e acolhedor. Em Maio, inaugurou-se o novo Parque Urbano, com áreas verdes apropriadas para o lazer ao ar livre. Estacionamento gratuito também não falta, junto às margens do Rio Ul.

            Estas ofertas dispersaram a população pela cidade.

            O problema é entendido pelos responsáveis municipais, pela forma como o apresentei aqui. Para atrair pessoas ao centro da cidade, a hipotética solução passa pela construção de um parque de estacionamento subterrâneo, em plena Praça Luís Ribeiro. Gratuito? Não. No seguimento da construção dos outros dois construídos em subsolo municipal, na Avenida Renato Araújo e na Rua João de Deus, deve-se dar seguimento à ideia inicial que previa precisamente três parques.

            As notícias de fracos resultados financeiros, da empresa que explora os referidos parques de estacionamento, poderiam inibir esta ideia antiga e incentivar a procura de outras soluções.

            É lógico que o futuro de privados, desde que garantam receitas imediatas para o município, não é um problema para alguns.

            É importante não esquecer a existência de estacionamento pago em parque na Praceta Júlio Dinis; a criação, nesta última intervenção, de estacionamento térreo, em várias ruas da zona pedonal; um outro estacionamento privado (Parque Central), precisamente na Avenida Renato Araújo, em piso subterrâneo do edifício construído nas traseiras do Parque América; para finalizar, correndo o risco de transmitir informação obsoleta ou absurda, recordo-me que precisamente neste último edifício, em plena Praça Luís Ribeiro, existe um parque de estacionamento – o seu estado, ocupação e disponibilidade, não sei precisar.

            Pelo atrás exposto, mesmo com a ressalva pelo exagero nas soluções descritas, verifica-se que existem em bom número lugares de estacionamento. Com um pouco de pesquisa, pode-se calcular o número de lugares disponíveis. Confrontando a taxa de ocupação dos parques actuais com a real necessidade de lugares de estacionamento na zona pedonal, pode-se colocar a seguinte questão: qual a necessidade de massacrar os comerciantes, os seus clientes, os moradores, enfim, os munícipes, com mais e prolongadas obras no centro?     

            A reportagem da semana passada do Jornal Labor trazia vários testemunhos de comerciantes que reclamavam, sobretudo, a necessidade de tornar atractiva a área em que estão instalados. Embora nos depoimentos recolhidos tenham surgido exageros, nomeadamente na alusão a factos ocorridos há vinte anos. Ao fim de duas décadas, toda a dinâmica urbana, ligada à criação da zona pedonal, deveria estar perfeitamente estabilizada.

            Ao longo dos últimos anos, a estratégia da autarquia para a zona central passou pela instalação de equipamentos culturais, após a requalificação de edifícios municipais existentes. O problema é que apenas o primeiro edifício ficou funcional, embora com graves carências a nível de programação. Além disso, os espectáculos por serem nocturnos não podiam atrair os desejados clientes para os espaços dos comerciantes.

            Os sucessivos atrasos, indefinições e mudança de objectivo para a transformação do espaço do antigo Cinema Imperador não permitiram que a estratégia da autarquia fosse alguma vez concretizada.

            Como se vai alterar a futura designação (Casa das Artes e da Iniciativa) deste espaço municipal, seria bom atender às preocupações dos comerciantes e aproveitar esta futura remodelação, procurando ali instalar as tais lojas atractivas, de forma a tornar a zona central atraente não apenas em horas de espectáculos nocturnos mas, durante todo o dia.

 

(a publicar no dia 19/06/08)

quarta-feira, junho 11, 2008

Sina

 

            Em visita de estudo a Lisboa, enquanto esperávamos pelo autocarro, em frente ao Mosteiro de Jerónimos, uma cigana de idade avançada aproximou-se do nosso grupo de estudantes. Teríamos uns dezasseis, ou dezassete anos de idade.

            Pediu uma esmola e eu, engraçando com a figura, ripostei: só se me ler a sina. A mulher não tinha um olho e usava os trajes típicos destes nómadas: uma saia comprida, um lenço em volta da cabeça, com os brincos de argola, provavelmente teria um ou mais colares em volta do pescoço (sobre o resto do tronco não me recordo, nem tenho uma imagem pré-definida do que usa uma idosa cigana sobre o seu corpo).

            Aceitou o desafio. Mostrei-lhe as palmas nas mãos e instantaneamente começou logo a falar sobre os encantos do meu futuro. Entre felicidade e outros sinónimos, pareceu-lhe que via nas minhas mãos muitas mulheres e provando não ser analfabeta, leu um “F” bem desenhado na mão direita. Eu ouvi-a a falar com uma rapidez tremenda. Deu-me um nome feminino, que pela sua análise, seria determinante para o resto da minha vida: Fernanda, era o tal nome começado pela letra “F”.

            Isto foi tudo tão rápido, que nem dei conta que os meus colegas tinham-se encolhido, pelo receio pré-concebido relativamente à etnia. Pelo futuro, paguei o prometido – cem escudos (os actuais cinquenta cêntimos de Euro). Duas risadas e nas despedidas com a cigana, não foi preciso desejar boa sorte, pois a minha, traçada nas minhas mãos, tinha acabada de ser revelada.

            Naquela época eu tinha dificuldade em acreditar no futuro, por isso, durante anos, contei esta historieta com algum humor.

            É claro que não dei importância ao assunto.

            Das minhas relações pessoais e familiares, o nome Fernanda tinha caído em desuso. Os nomes têm épocas. Existem alguns eternos. Outros ficam em moda durante um período e depois tornam-se raros. Alguns são raros hoje e entretanto, com o tempo tornam-se comuns. Dessa data até hoje, com idade próxima da minha, conheci duas ou três Fernandas. Nenhuma mudou a minha vida. 

            A cigana viu um “F”. Podia ter-se enganado no nome. Por esta letra, temos outros nomes: Fábia, Fabiana, Fabíola, Fátima, Faustina, Fedra, Felicia, Felicidade, Felismina, Ferdinanda, Filipa, Filomena, Firmina, Flávia, Flôr, Flora, Florbela, Florência, Florinda, Francelina, Francisca e Frederica. Dada a raridade de alguns destes nomes, jamais me cruzei com pessoas assim chamadas. Dos mais comuns, apesar de com algumas ter criado relações de amizade, nenhuma preencheu o prognóstico da cigana.

            A vidente não acertou no nome, nem na quantidade anunciada. Até que muitos anos depois…

Saio de casa com as despedidas matinais a deixar-me um nó no peito. Até logo. Diariamente, só volto a encontrar a família, esposa e filhos, à noite, antes de jantar, ou à hora deste.

            No carro, mesmo em estado de cama – com os olhos mais fechados do que abertos –, a rotina da viagem matinal faz-se em piloto automático. Percorro o asfalto, pensando nos problemas pendentes, que tenho à minha espera.

            Coloco o pisca-pisca para virar à esquerda, faço o último corte de acesso à fábrica e enfrento o porteiro. Troco os bons dias. À segunda-feira demoro um pouco mais, para colocar em dia a conversa futebolística. Fico a saber resultados, erros de arbitragem, classificações de vários campeonatos.

            Fecho o carro. Dirijo-me à porta de entrada. Após a sua abertura, não há engano, o som do trabalhar das máquinas indica o tipo de ambiente que vou encarar. Subo as escadas. Nos três mil e seiscentos metros quadrados da instalação fabril, cento e trinta funcionárias, de bata azul clara, estão compenetradas no desempenho da sua função.

            Esta tem sido a minha vida. Dia após dia, em ambiente fabril. Como tenho feito carreira profissional em transformação têxtil, sob a minha responsabilidade existem sempre mais mulheres do que homens. Ao longo destes anos, em empresas diferentes, conheci várias centenas de funcionárias; não deve andar longe do milhar.

            Reconheço que a cigana afinal não se enganou. Só que eu, em adolescente, ao ouvir falar em muitas mulheres na minha vida, pensei tratar-se de outra linha…

 

                                                                                                                                            (a publicar dia 12/06/08)

quarta-feira, junho 04, 2008

Fim de Ciclo?

A ideia de se construir um Centro de Alto Rendimento Desportivo (CAR) em S. João da Madeira ainda não me entusiasmou.

O grau de exigência dos habitantes de uma cidade com qualidade de vida vai aumentando com o passar dos tempos e por isso, é perfeitamente natural a reacção de desconfiança, relativamente ao anúncio deste projecto.

Confesso, como antigo dirigente desportivo, que nutro bastante simpatia pelo conceito do desporto de alta competição. Desde o anúncio do CAR, analisei as várias opiniões emitidas, dos cépticos aos alinhados e não fiquei convencido com os argumentos apresentados. É certo que até ao próximo ano (esta fase de execução do plano de pormenor tem a duração de 12 meses), podem surgir uma série de factos ou factores, que me podem convencer da utilidade e importância para o concelho de tal empreendimento.

Vejamos então, quais as minhas dúvidas sobre a oportunidade deste projecto, que se resumem a três: urbanísticas, desportivas e investimento público.

A inauguração do Parque Urbano do Rio Ul trouxe um dado concreto por parte do projectista. Segundo o Arquitecto Sidónio Pardal, um Parque Urbano demora uns trinta anos a consolidar-se. Se olharmos para os últimos trinta anos, verificamos que a cidade ganhou três espaços verdes. Primeiro através da “doação” de terrenos e árvores, para o Parque Municipal Ferreira de Castro, há alguns anos o Jardim na Avenida da Liberdade e agora com este aproveitamento das margens do rio, em terrenos consagrados na reserva ecológica do concelho.

Para as gerações futuras, os terrenos municipais que restam são poucos. Ao longo das próximas três dezenas de anos, para se continuar a viver com qualidade de vida, é necessário proceder-se à abertura de novos espaços verdes, ou ampliação dos existentes. É certo que os terrenos agrícolas, no lado poente da cidade, poderão dar lugar a um novo parque urbano. Mesmo com esta reserva equilibrada, de longo prazo, parece-me que a natural procura por parte dos munícipes do novo parque do Rio vai obrigar a, no imediato, surgirem soluções de lazer, de forma a enraizar os hábitos urbanos da população. Neste sentido, salvaguardar-se, a médio prazo, os terrenos adjacentes a norte, para aí se estudar hipóteses de implantar novos conceitos de cidades criativas, do conhecimento e da cultura, seria o aconselhável.

Essencialmente, para que não fique apenas o conceito da modernidade, os vinte e quatro hectares consagrados para o CAR seriam suficientes para albergar um parque temático, direccionado para o conhecimento. Exemplos que me ocorrem de espaços semelhantes: Visionarium de Santa Maria da Feira, ou Fluviário de Mora.

Nos últimos anos, os investimentos municipais em equipamentos desportivos, além de proporcionarem melhores condições de treino e jogo aos atletas locais, visaram, sobretudo, a componente de manutenção desportiva, permitindo aos munícipes alugar espaços para a prática de exercício físico. Ao investir num equipamento que não servirá no imediato os habitantes da localidade é, digamos, trocar o bem-estar das pessoas por um cartão-de-visita do município.

Tenho muitas dúvidas, em matéria de ocupação pelas diversas federações desportivas, de quais realmente precisarão de um novo espaço. Existem várias modalidades que devido ao treino em condições específicas, como canoagem, remo, ou vela, estão a desenvolver, em locais apropriados, centros de alto rendimento em determinados pontos do país, com condições naturais para a prática desses desportos. Em Sangalhos vai nascer um CAR associado ao ciclismo, em Rio Maior um para a Natação, o do Jamor vai ser preparado para o atletismo, Mirandela tenta o de ténis de mesa.

O CAR das Travessas poderá estar ocupado, durante vários dias, pelas mais variadas federações e desta forma como se articulará a actividade das colectividades locais? Retirar essa hipótese aos munícipes, implica uma redefinição na política desportiva da cidade.

Em matéria de investimento municipal, as prioridades parecem-me ser outras. Em primeiro lugar, pela falta de capacidade do município. Em 2008 para terminar com os jeitos na rua dos mesmos e com o túnel da Rua 5 de Outubro, a autarquia teve que recorrer à banca. Nos próximos anos, deveria avançar para a transformação do cinema Imperador em Casa das Artes do Espectáculo, o que por si só implica um grande investimento. Caso não haja comparticipação imediata, terá que se recorrer a outro empréstimo.

Penso que tudo poderá ser amenizado, com a lógica das mais-valias para o município, associada aos vários planos de pormenores lançados recentemente. Onde actualmente existe um gaveto, uma empenha de um prédio, um terreno, idealiza-se a edificação, a construção, com toda a possibilidade de criar receitas para o município, através de taxas, impostos e quejandos.

Esta visão empresarial provavelmente é a mais correcta para o concelho mas, confesso que me assusta, pela ausência de políticas centradas nas pessoas, nas suas necessidades e nas suas susceptibilidades.

Na década de 90, do século passado, S. João da Madeira discutiu durante anos a possibilidade de abertura na cidade de um pólo universitário. Várias tentativas foram ensaiadas, desde instituições privadas, até a acordos com a Universidade de Aveiro. Nas eleições autárquicas de 2001, apareceu um candidato que rompeu com a ideia. Tratava-se precisamente do actual Presidente da Câmara Municipal, Castro Almeida.

Sete anos depois, a cidade está de novo focalizada num projecto externo e desenraizado. Corresponderá isso ao fim de um ciclo eleitoral?



(a publicar no dia 05/06/08)

quarta-feira, maio 07, 2008

Fronteira

Conheci Américo Tomás numa tarde amena de Verão. Eu estava com dois companheiros a saciar a sede numa loja no lugar de Rio de Frades, concelho de Arouca. Tínhamos chegado a pé, vindo de Cabreiros, percorrendo o bastante desnivelado caminho do carteiro, João de seu nome. O exclusivo dos seus passos na encosta tinha sido quebrado nessa tarde. Talvez por isso, a dona da loja esmerou-se na preparação duma refeição, umas latas de atum acompanhadas por cebola às rodelas. Provavelmente, a única refeição preparada para uns forasteiros. A recordação de outros tempos abriu caminho para a generosidade, ou talvez a misericórdia, pois ainda teríamos que subir a íngreme encosta.

Entre tragos, a conversa. Tendo como objectivo a procura de vestígios do passado mineiro. Para além dos túneis, dos escombros, dos edifícios vandalizados, os testemunhos físicos da epopeia vivida pela 2ª Guerra Mundial, queríamos ouvir uma história qualquer, para compreender o apogeu daquela povoação, quando ali viviam alemães. Sem pensar na comparação com a presença dos ingleses, em idêntica laboração a menos de cinco quilómetros.

Ao ouvir o rumo das perguntas, apresentou-se o homónimo do ex-almirante e ex-presidente da República. Habilmente, com a experiência de mais de sessenta anos, encaminhou a conversa para dias mais recentes. Entre as peripécias causadas pelo seu nome, contou a infelicidade que o Estado provocou a uma professora primária de Espinho, colocada precisamente naquele lugar no inicio da sua carreira e terminou expondo a sua dúvida, como teria chegado ali o ser humano. Sem tempo para mais e já a pensar no esforço físico a desenvolver para alcançar o automóvel, não nos demorámos nas procuras arqueológicas do nosso interlocutor.

Cinquenta anos depois do grande conflito mundial, nesta aldeia serrana a memória do seu passado glorioso, embora com fins extremamente sangrentos, era escondida. Uma opção que a ser seguida, possivelmente apagará para o futuro, a envolvência do concelho na grande guerra. Por vergonha, por ignorância, ou por desconfiança, assim se vão perdendo os legados do passado e daqui a muitos anos a estratificação humana, juntamente com a natural, remeterá tudo ao esquecimento.

As dificuldades em procurar a história recente, não são comparáveis à tentativa de compreensão do passado remoto.

No dia em que subi a uma das torres do Castelo da Feira, o grande ícone das Terras de Santa Maria, não tive nenhum cicerone. Ninguém chamado Afonso Henriques, nem Sancho, nem com algum dos nomes dos sucessivos condes e senhores do castelo.

A história disponível do castelo explica uma série de pormenores de arquitectura militar, no entanto, apesar disso tudo, não aclara quanto à sua disposição, nem a proximidade ao mar. Nas repetidas leituras e dos acontecimentos históricos associados à reconquista cristã, verifiquei a ausência de qualquer dado para esta região acerca da conquista muçulmana da península e consequente defesa.

Consta em variados textos, que provavelmente o castelo terá sido construído no período da reconquista sobre uma fortaleza existente. Mais baralhado fiquei. Estar dentro de muralhas e avistar o mar, inquietou-me. O recuo do oceano, a formação do cordão de areia com inicio no Carregal em Ovar e estendendo-se até Mira é assumido pela geografia. A semelhante distância à linha de costa tal como os Castelos de Óbidos, ou Aljezur permitiu-me imaginar: um possível alinhamento de fortificações para defesa da costa. Durante meses agarrei-me a essa ideia. No entanto, descobri ser aceite, que por volta de século XI, a costa marítima na zona de Ovar deveria estar situada precisamente nas imediações da actual linha de caminho de ferro. Bem distante, portanto, da fortificação. 

Apesar do desalento surgido e eliminada a possibilidade marítima, concentrei-me na questão da disposição.

Voltei às invasões muçulmanas.

Num parágrafo apresentam-se os factos cronológicos: em 711 os muçulmanos dão início à invasão árabe da Península Ibérica; em dois anos conquistam todo o território peninsular com excepção da província Asturiana; passados 5 anos, em 718 Pelagio das Astúrias um nobre visigodo é eleito rei e avança sobre o exército árabe, iniciando a reconquista Cristã; entre avanços e recuos comandados por sucessivos Reis, depois de conquistada a Galiza em 750, é finalmente tomada a cidade do Porto em 888; em 1066 é conquistada Coimbra e a partir de 1139 entramos já na história de Portugal.

            Um parágrafo, quatro séculos. Lendo melhor, entre a conquista do Porto e a de Coimbra quase dois. Durante este período, que infelizmente se encontra numa nebulosa, sem grandes trabalhos e investigações históricas para esta zona, pouco ou nada se sabe. Cristophe Piccard, historiador francês publicou em 2000, no livro “Le Portugal Musulman”, a noção de que existiria uma linha de defesa e de fronteira, perfeitamente delineada ao longo do rio Douro. Um historiador nacional, Correia de Campos (em 1970), refere mesmo uma linha de defesa composta por uma série de fortificações e castelos ao longo de todo o trajecto do rio Douro, no espaço que é hoje o território português: “Antes da constituição do reino, o fosso do Douro serviu, (...) num determinado período, a linha de fronteira entre a Cruz e o Islão. Uma cortina de fortes ou castelos estendia-se por toda essa linha de alturas, começando, também para defesa da costa, no Castelo da Feira, Castelo de Paiva, Cinfães, Cárquere, Lamego, Penedono, Numão, Castelo Rodrigo e Pinhel, para só nos referirmos aos principais.”

            Tudo isto se encaixava na série de dúvidas por mim formuladas sobre a disposição do Castelo da Feira: virado para Norte, com possibilidade de visão sobre poente.

            Voltando ao século XX, numa aula, de cerca de duas horas, de Geologia de Portugal, o meu professor após uma explicação muito convincente sobre o período Terciário, terminou dizendo: “qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”. Já no século XXI, pensar em escrever num jornal que, durante um século uma das linhas de fronteira do mundo cristão foi precisamente aqui em Terras de Santa Maria, remete-me para o campo da ficção e obriga-me a terminar de forma semelhante à do meu professor.  
 
(a publicar dia 08/05/08)

quinta-feira, maio 01, 2008

Questões de Abril

            No pretérito mês de Abril, a actividade política nacional voltou a cruzar-se com o quotidiano local.

            A “lei das Autarquias” não foi aprovada na especialidade. Resumidamente, depois de ter sido proposta em Dezembro de 2007, pelos principais partidos com assento parlamentar, o PSD reagiu às críticas surgidas, em especial, pela ANAFRE – Associação Nacional das Freguesias e votou contra o decreto de lei de que era co-responsável. Eram necessários dois terços dos votos parlamentares, pelo que em 2009, nada se alterará na elaboração das listas para as eleições autárquicas. Aliás, nesta matéria, nos últimos quatro anos só se produziram propostas de projecto de lei e claro, um maior controlo ao endividamento das autarquias, o que deixou perfeitamente irritados os seus responsáveis.    

            Se da Assembleia da República veio a vontade de não reformar, da Assembleia Municipal surgiu a natural aprovação do relatório de contas referente ao ano de 2007. Uma não notícia, apimentada precisamente pela redução do endividamento municipal. Um sinal claro das actuais preocupações dos autarcas. No outro prato da balança coloca-se a incapacidade de previsão orçamental. A não execução de vinte a vinte e cinco por cento dos valores orçamentados, tem consequências ao nível das verbas associadas, que pura e simplesmente estavam indexadas, rubricadas e não foram utilizadas para os fins previstos.  

            Nada disto é relevante comparado com o grande assunto de momento da política local. Nada relacionado com questões financeiras. O tema para o próximo mês será a eleição para presidente do PSD. 

            Se o envolvimento dos militantes, como se trata de eleição directa, é inevitável, mais legítimo é o apoio a qualquer um dos candidatos. Nesta lógica partidária, não admira vermos um activo militante, como Castro Almeida, abraçado a uma das candidaturas. 

            A instabilidade na liderança do PSD, já permitiu ao actual presidente da Câmara, no exercício das suas funções, ter contactado com quatro presidentes de partido, em sete anos. Bem, a longevidade do actual Governo, faz-nos esquecer que durante esses anos, Portugal teve precisamente quatro “chefes” de governo. Neste clima de mudança, não constante mas de alguma incerteza, é difícil fazer-se projecções sobre a carreira dos agentes da política local.

            A título de exemplo, no final do ano passado, em virtude da posição conseguida no Conselho Nacional do PSD, tudo apontava para que Castro Almeida fizesse sombra a Luís Filipe Menezes, durante o presente ano, para consolidar o seu estatuto de político de âmbito nacional.

            Passados seis meses, tudo mudou e ficou em aberto.

            Nesta fase, a sensivelmente um mês das eleições do PSD, é ainda prematuro fazer cenários com base em eventuais resultados finais, até porque no momento em que escrevo, não é certo quem realmente será candidato.

            Como não conto voltar a este assunto, terei que corrigir o parágrafo anterior. Não fazer cenários, mesmo que prematuros e fantasiosos, seria imperdoável e certamente alguns leitores não me desculpariam a omissão.

            Um resultado possível é a derrota da candidata apoiada por Castro Almeida! Com este desfecho, o autarca local exerceria o seu mandato até ao final, centralizado na cidade e preparando a sua candidatura autarca para mais um mandato. O objectivo, durante os próximos anos, seria ascender a médio prazo a protagonista da política nacional.

            Já a vitória do PSD sobre o PPD, poderá alterar o panorama político local. Tudo depende do grau de envolvência de Castro Almeida na eleição da candidata por si apoiada. Como o partido necessita de se apresentar com protagonistas com uma visão de Estado, obrigará a uma dedicação maior à causa nacional. Nesta hipótese, bastante provável, o actual autarca continuará a exercer o seu mandato, embora as três etapas de unir, credibilizar o partido e por fim, preparar as eleições legislativas obrigam a disponibilizar mais do seu tempo a questões nacionais.

Dentro deste cenário surge a derradeira hipótese, a vitória do PSD nas próximas eleições legislativas. Estando dentro do núcleo duro do Partido, Castro Almeida será certamente convidado a exercer funções governativas, o que o afastará por uns anos de S. João da Madeira, cumprindo assim, os prometidos oito anos de mandato como Presidente da Câmara Municipal.

A um ano e poucos meses das eleições legislativas e autárquicas, que curiosamente podem ser no mesmo mês, ou até no mesmo dia, a acção política local fica, para já, adiada até ao final de Maio.

Em pouco tempo, todas as certezas desapareceram. Passamos ao campo das suposições e as aqui formuladas não passam de hipotéticos cenários, sem qualquer rigor. No entanto, aos leitores, que me leram até estas linhas, penso ter arrancado um sorriso – nalguns casos de contentamento, noutros de incredulidade. De qualquer forma, a indiferença não provoca sorrisos.

 

(a publicar dia 02/05/08)

terça-feira, abril 22, 2008

Alvoradas

            Uma mudança de casa implica uma série de tarefas: empacotamento, carregamento, transporte e consequente arrumo, dentro das prioridades pré-estabelecidas sobre os nossos pertences. Alguns objectos vão ficando para trás, esperando o seu momento para serem transferidos.

            Ao deixar para o final um pequeno cágado criei uma aflição num dos meus familiares. O sossegado bichinho ficou uns dias à espera da sua hora na mudança. Entretanto, no remate das tarefas, o cágado lá veio para a nova casa, para descanso do ente querido. Curiosamente, este foi um dos poucos animais que até hoje não perturbaram o meu sono. Infelizmente, o cágado não durou muito tempo e provavelmente por isso, não teve oportunidade para essa interacção comigo.

            Além deste, poucos foram os animais que dormiram dentro de minha casa. Peixes dentro dum aquário, com a natural sucessão de vidas em água fria, acompanharam-me durante anos. Apesar de serem extremamente calmos, ainda fui acordado algumas vezes pelos ocupantes da tina. Um salto matinal, um borbulhar mais ruidoso, ou o raio de um batente do varão dos cortinados que numa madrugada caiu precisamente dentro do aquário, de forma ruidosa.

            É evidente que comparados com o ladrar de cães, isto são pequenos barulhos. Os canídeos são sem dúvida, um dos maiores agitadores de sono dos humanos. Neste momento vivo rodeado por vizinhos, donos de cães. Várias são as noites que ladram. Umas vezes, é o cão do vizinho da frente, outras vezes é o das traseiras, outras ainda é um dos que vivem ao lado. Normalmente, não me apoquento muito. Identifico o som, mentalmente verifico a proveniência e volto a fechar os olhos. Nalgumas noites começam todos a ladrar, numa cacofonia infernal e humanamente incompreensível.

            Gatos, apesar de mais silenciosos, já me acordaram várias vezes. Nas noites de grande namoro em Janeiro, ou Fevereiro, um casal lembrava-se de entrar no jogo de sedução junto à janela do meu quarto, numa casa de família. Os esforços para os calar eram vários mas, o diálogo continuava noite fora. A melhor solução, para se obter a desejada tranquilidade, era soltar os cães, tarefa que um dos vizinhos, com acesso à propriedade, incumbia-se de fazer.

            Além destes animais mais comuns dentro dos domésticos, é óbvio que várias manhãs, acordei com o cacarejar de galos. Embora esse despertador campestre, com toque prematuro relativo à alvorada industrial, permita voltar a adormecer, o que sabe sempre bem.

            No campo já despertei com relinchar de éguas, com chocalhos no pescoço das mesmas, ou de gado diversificado. Inclusivamente numa determinada noite ouvi uns passos de pequeno roedor, por cima do tecto do quarto onde estava a dormir.

            Acordo todos os dias e fico logo a ouvir o piar dos passaritos. Despertei várias vezes com eles, em manhãs fantásticas de Primavera, ou Verão. Durante algum tempo, foram o relógio da minha filha, que acordada pelo chilrear dos pássaros, verificando ser de dia, adorava partilhar a madrugada com os progenitores.

            Se na cidade e no campo, podemos ser incomodados pelo som madrugador destes, ou de outros animais, imagine o leitor o que poderá acontecer junto ao mar.

            Uma alvorada ouvindo gaivotas é do mais irritante que existe (sobretudo, quando estas vivem como pombos, comendo da mão humana). Em primeiro lugar, por não ser um som habitual, temos dificuldade em o identificar, o que nos leva a despertar intrigados. Depois de reconhecido o incomodativo barulho – uma espécie de gargalhada alarve -, verifica-se que nada as faz parar até ficarem com a sua fome saciada. Fui espreitá-las e estavam posicionadas em frente a uma janela de um dos prédios, no largo onde eu tentava dormir, à espera que a mão amiga acordasse e as alimentasse. O que só aconteceu após muita risada, destes animais com penas.     

            Este foi um amanhecer extremamente desagradável, só superado pelas incursões nocturnas de alguns bichinhos. Em casa depois da mudança, tivemos uma invasão de um morcego. Ficou pelo tecto falso. Como estava desorientado, batia com as asas no pladur. Foi difícil adormecer, com o intruso por cima das nossas cabeças. Só descobriu a saída dois dias depois, pelo que se dormiu em sobressalto.

            O voo dos pequenos mosquitos ou melgas é extremamente comum e desagradável. Mesmo com os eficientes ou eficazes sistemas eléctricos para os destruir, estes insectos parecem cada vez mais inteligentes. Nas noites que me despertam e provocam longas insónias, observo comportamentos curiosos: tentativas de camuflagem em portas de madeira; procura de esconderijos por baixo das camas, ou atrás de armários; ou simplesmente pousados no chão. Os que estão satisfeitos, pesados pela recolha de sangue humano e por isso, lentos, têm normalmente o destino traçado e esmagado.

            Se os insectos voadores nos invadem o sono, em geral pelo processo auditivo e claro, pelas suas picadas, confesso que uma das alvoradas mais curiosas que vivi até hoje, foi precisamente com formigas. No tal quarto da casa de família, acordei uma manhã com uma desagradável sensação de cócegas nas pernas. Por vezes, esse extremar da sensibilidade era acompanhado por pequenas pontadas. Quando espreitei, verifiquei estar no trilho de formigas. Fiquei na incerteza de qual seria o destino daquela correria e claro, a dúvida do que tinha provocado estes bichinhos a escolher a minha cama.

            Termino sem saber, que tipo de surpresas me reserva o futuro.

 

(a publicar dia 24/04/08)

quarta-feira, abril 09, 2008

Vinil

Na edição comemorativa dos vinte anos do Labor, entre os demais destaques, recordou-se a sua origem hertziana. A explicação, para a procedência do jornal, deixou no ar um certo desapontamento pela orfandade, a que a Lei da Rádio vetou o jornal. Não está explícito nas palavras do director e fundador do jornal, Pedro Silva, mas a amputação, com a não atribuição da licença radiofónica, ao projecto global de comunicação social, ainda é sentida como uma desilusão.

Recuemos os vinte e poucos anos: em Portugal existiam dois canais estatais de televisão, uma série limitada de rádios estatais, ou sob a alçada da Igreja Católica. A rádio era a principal alternativa, para quem não queria passar horas a olhar para os programas da RTP, por exemplo, quem optava por estudar pela noite fora, preferindo um som de fundo.

O fenómeno das rádios piratas atraiu vários ouvintes. A novidade, a proximidade, os animadores e locutores conhecidos, as notícias, os resultados e o acompanhamento em directo do desporto local e sobretudo, os discos pedidos eram as principais atracções. Neste contexto, surgiram duas rádios em S. João da Madeira.

            A rádio Serra – Mar emitia e operava em local privilegiado, no piso zero do edifício que alberga o Centro de Arte. Pelo menos, durante algum tempo. Em Outubro de 1986, fui convidado para divulgar algumas das músicas que eu gostava, ao abrigo de um programa existente. As sessões repetiram-se semanalmente, por mais uns três meses. Até que em meados de 1987, com apenas 16 anos, passei a ter uma hora de emissão semanal, ao Domingo às 22 horas, sob a minha responsabilidade. Estávamos na década de 80 e apenas optava por emitir som de grupos dessa época.

Para recordar mais do que isto, vi-me aflito.

Lembrava-me de ter feito rádio, de alguns episódios vividos e de algumas músicas que obrigatoriamente tinham tocado. Recordava a última emissão, no final de Julho, tendo como convidado um Inglês, oriundo de Newcastle, que liderou todo o programa. Foi o único registo áudio efectuado e claro, viajou com o súbito de Sua Majestade, quando terminou o período de intercâmbio, em que estava inserido.  

            Sem registos, sem memória dos acontecimentos, sabia que a noção de rádio pirata, pela irreverência do nome, estava adequada ao meu conceito de juventude. A oportunidade de divulgar os discos adquiridos por um vasto auditório, de dissertar sobre as bandas que gravavam os seus sete ou doze polegadas, como eram conhecidos os discos em vinil, era basicamente o que me interessava. A mim e a quase todos os que se tinham transformado em colaboradores de rádios em frequência modelada.

Revivi o tempo em que era metódico e extremamente organizado. Os álbuns, em casa dos meus pais, eram ordenados por ordem alfabética e fazia o registo para a posteridade das músicas seleccionadas para cada programa. Com algum esforço, descobri-os. O tempo tornou o papel amarelado, a tinta ainda continua viva. Nomes de bandas e de músicas que me acompanharam durante anos. Outros nomes de bandas que já tinha esquecido e por isso, passei uma noite agarrado ao Youtube, procurando essas preciosidades.

A título de exemplo, a 8 de Janeiro de 1987, num programa dedicado a divulgar alguns dos melhores trabalhos do ano anterior, tocaram pela seguinte ordem: New Order, The Smiths (o ano da edição do mítico The Queen is Dead), Cocteau Twins, as misteriosas Voix Bulgares, Woodentops (fantásticos, recordá-los foi uma emoção), R.E.M. (ainda longe do êxito actual, que se desenhou a partir de 91), Stan Ridgway, Carmel e os portugueses G.N.R., que tinham acabado de fazer um concerto em S. João da Madeira.

Curiosamente, nas últimas páginas dos apontamentos surgiram nomes da singularidade dessa época, indicadores duma certa tendência de divulgação de novos valores: The Wedding Present, Shop Assistants e Primal Scream.

A rádio entretanto perdeu o lado pirata, passou a local. Eu fui de férias por dois meses e quando voltei, não tinha espaço na grelha, ou então, prescindia do Sábado à noite, o que não era nada aliciante.

Músicas mais antigas (ouvidas na infância) ocupavam mais horas nas ondas hertzianas, com os eternos riscos no vinil; a última música do primeiro lado do vinil a ser tocada até ao fim e em directo, a agulha a entrar pela faixa sem gravação, a levantar e o braço a dirigir-se para o repouso. Músicas a entrar no final. Rotações trocadas. Uma vez, duas vezes, várias e passei a sintonizar outras frequências.

A Lei da Rádio deu a machadada final. Calou-se a Serra Mar, abriram-se novos canais. Nunca os segui atentamente. Fui a andares ou a caves como convidado, já em funções associativas e pouco mais.

Ouço rádio apenas no automóvel. Em casa, esqueço-me de sintonizar qualquer uma: nacional ou local. A vulgaridade das rádios locais tornou-as inaudíveis. Os meios técnicos são hoje superiores mas, tornou-se tudo demasiado repetitivo e boçal.    

A interrogação que fica é se tudo seria diferente se a licença de rádio tivesse sido atribuída à Serra - Mar? Sinceramente, apesar da simpatia pelo projecto da então Cooperativa, o tempo encarregar-se-ia de tornar tudo semelhante. Certo é o que estes anos decorridos vieram provar, em matéria de comunicação social, o jornal Labor ser melhor produto do que qualquer uma das rádios existentes no concelho.

Fica para a posteridade o misticismo de um nome, banal é certo, mas que serviu para muitos poderem por umas semanas, ou meses, partilharem os seus gostos musicais, através do registo determinante para o início das rádios piratas, precisamente, o vinil.

 

(a publicar dia 10/04/08)

 

quarta-feira, abril 02, 2008

Carreiros

O relato de uma amiga de família, afastada de S. João da Madeira há mais de vinte e oito anos, devido aos seus estudos universitários e consequente vida profissional, permite evocar de memória aspectos esquecidos da cidade. Do seu tempo de estudante do ensino secundário recordou o caminho que percorria de casa para as escolas: "pelo meio dos campos". Isto, traduzindo por toponímia actual, significa que a Avenida Renato Araújo não estava aberta do Largo do Souto até ao Hospital, nem sequer mais para sul.

Muitos dos percursos nessa época ainda eram feitos a pé, utilizando-se o caminho mais curto. Criavam-se carreiros por todo o lado. Não apenas os estudantes mas, a população em geral. Distantes estão as recordações de pessoas que atravessavam caminhos, transportando o almoço de progenitores, ou de outros familiares, empregados em fábricas.

(Lembro-me de um postal alusivo à localidade conter uma fotografia de uma mulher com uma espécie de canastra na cabeça, num qualquer caminho. Um retrato extremamente rural que eu em criança, por desconhecer essa realidade, sempre tive dificuldade em entender.)

Amílcar Correia numa alusão ao seu passado nesta localidade, nas páginas d' “A Balada do Níger”, evoca um outro pitoresco testemunho, uma sebe com direito a videira, implantada no centro duma artéria da Quintã.

O progresso de evolução normal das localidades, dos meios de transporte existentes, obrigaram a várias transformações na rede viária, com a abertura de ruas ou avenidas. Os atalhos cederam o seu lugar.

A vontade de afirmação como cidade industrial, com elevados índices de urbanismo por metro quadrado, implicou a perda do lado gracioso de S. João da Madeira. Do período anterior à sua elevação a cidade, a rede de carreiros estendia-se a toda a localidade. Lembro-me de outros, para além dos citados: no Espadanal para se atingir o rio, nas suas margens nas Travessas; na Devesa Velha e nos Fundões, lugar onde existia um moinho e pontes de madeira, com traves quebradas sobre o rio; na Quintã - apesar de atravessada pela principal estrada nacional – existia uma série deles (várias noites, atravessei a artéria atrás citada, muito mal iluminada, espreitando sempre o recanto criado por detrás da sebe, para evitar surpresas desagradáveis); a ligação de Fundo de Vila aos moinhos de Casaldelo, ou dos carreiros no Orreiro ao longo da ribeira da Buciqueira; mesmo no Parrinho, em período anterior à construção da “variante”… entre outras memórias.

Quase tudo desapareceu, certamente. As já então decrépitas ruínas devem encontrar-se hoje num estado lastimoso, ou pior, não existirem simplesmente. Tenho a lucidez, ou melhor, a percepção de que jamais voltarei a percorrer os poucos carreiros que restam da minha meninice. Actualmente o pouco tempo livre que tenho, não me permite procurar ou desbravar os caminhos de antigamente. O enquadramento industrial de alguns, com o inevitável mau trato ambiental e o abandono de outros, não são propriamente apelativos para as horas de lazer.

Os indícios descritos eram todos periféricos, sinal que a transformação urbana da cidade ainda não se tinha expandido. No centro, eram mais raros vestígios do período pré-industrial. Hoje ainda permanece um velho testemunho: o tanque do Pedaço. Escondido atrás da sebe, junto ao Fórum Municipal.

O semanário Sol, enquanto divulgava nas suas páginas os dados e respectivos rankings dos concelhos com maior qualidade de vida, apresentou uma reportagem de Lisboa, em que “ (...) ainda há quem saia de casa com uma trouxa de roupa suja, para lavar nos tanques dos lavadouros públicos que resistem em certas zonas da cidade, como na freguesia de Carnide (...) ”.

Desconheço se o tanque de S. João da Madeira ainda é utilizado. Caso não seja, era tempo de se perder a vergonha e enquadrar este local público, que representa uma bela tradição comunitária, no espaço envolvente e promover a sua preservação.

Muitos são os concelhos que encontram em pequenos nadas, sem necessidade de investimentos megalómanos, nem tendo como finalidade a exposição mediática, o património humano das suas gentes. Por todo o país vemos reconhecido o esforço de populações, com a reabilitação de diversas ocupações das suas comunidades. Todo um testemunho etnográfico, que permite traçar o perfil histórico de uma terra ou região.

É importante, para efeitos futuros, assegurar a memória da cidade.



(publicado dia 03/04/08)

sexta-feira, março 28, 2008

20 ANOS

As minhas recordações são mais antigas do que a idade atingida pelo Jornal Labor. Não posso, por isso, cair na tentação de, ao elogiar a longevidade deste periódico, repetir aquele lugar comum: aprendi a ler nas suas páginas.

A oportunidade oferecida foi precisamente outra, a possibilidade de escrever.

Se nos anos 90, elaborei textos monotemáticos, relatando as facetas da secção de xadrez da AEJ e posteriormente, servi-me do Labor - como carinhosamente é conhecido este Jornal - para divulgar comunicados e expressar pontos de vista enquanto Presidente de Direcção da referida associação, chego a esta importante data na vida do Jornal, na qualidade de colaborador assíduo.

A duração desta relação espelha essencialmente um facto extremamente importante, a abertura ao longo destes vinte anos, das várias redacções e da direcção do jornal à comunidade onde está inserido.

Em dia de aniversário, resta-me desejar ao Jornal Labor as maiores felicidades.


(a publicar no dia 01/04/08)

quarta-feira, março 19, 2008

Velhos hábitos

P. G. Wodewouse, autor de mais de cem livros, é conhecido como o mais brilhante escritor britânico do género cómico, do século passado. Da sua vasta obra, destacam-se os livros relatando as peripécias de Bertie Wooster, auxiliado pelo seu mordomo Jeeves. As suas aventuras por serem tão hilariantes foram adaptadas, passados quarenta anos, para uma série de televisão, precisamente Jeeves and Wooster. As principais interpretações foram protagonizadas, respectivamente por Stephen Fry e Hugh Laurie (este último mais conhecido do público pela sua encarnação em Dr. House, na série norte-americana com o mesmo nome).

O escritor britânico tinha uma capacidade de exposição formidável. O seu método de escrita era tão peculiar, que querendo expor num novo livro um acontecimento já relatado anteriormente, não se cingia a fazer uma referência bibliográfica. Por forma a situar os leitores na narrativa, pedia desculpa aos que já conheciam todos os pormenores descritos e apresentava um breve resumo, para os leitores que pela primeira vez tomavam contacto com as suas personagens. Desta forma, colocava todos no mesmo momento da história e continuava a descrever as confusões, em que normalmente envolvia o personagem Wooster. Com esta técnica, a vida de quem escreve uma sucessão de textos quer em crónicas, quer avulsos, seja em jornais ou noutro qualquer formato, fica facilitada.

Todo este intróito serviu para preparar os leitores para o tema que irei desenvolver.

Em tempos descrevi as minhas dificuldades em comprar água tónica. Como devem ter percebido, este relato não é totalmente inédito. Assim, aplicando a técnica atrás descrita e por forma a não incomodar os leitores que já leram esta passagem, abreviarei o mais possível no próximo paragráfo, o sucedido.

Preparava-me para beber um gin tónico numa sexta-feira à noite, depois de uma árdua semana de trabalho, quando deparei não ter água tónica em casa. Os restantes ingredientes não faltavam, apenas tinha acabado a água com quinino. Procurei nos cafés das redondezas e nada. Fui de porta em porta, obtive sempre a mesma resposta e dei por mim, numa grande superfície a comprar as garrafas de 20 cl de rótulo amarelo e letras pretas. Acreditei numa troca de hábitos em meios mais pequenos e que a água tónica, tivesse sido substituída pelas novas águas com sabores.

Posteriormente, durante as férias, exercitei por alguns lugares por onde passei a ingestão de tal bebida. Sendo em bares, o gin tónico lá me era servido, no entanto, tinha que aguardar um pouco, para diligenciarem a água tónica. Gin não faltava. Mesmo a marca de garrafa azul estava exposta, em lugar de destaque. Tónica é que estava sempre inacessível. Ou noutro balcão, ou nas arrecadações, se fosse o caso. Pensei sempre tratar-se de um problema de gestão de stock, em que a reposição momentânea não tivesse sido efectuada.

Há dias tive a prova que me faltava. Num local normal, de porta aberta ao público até depois da meia noite, quando pedi o obrigatório gin tónico, lamentaram informar-me que só tinham água tónica, o gin tinha terminado.

Compreendi estar perante um problema de geração. Afinal, as minhas suposições sobre hábitos urbanos em terras pequenas e a questão dos stocks não tinham sido problemas pontuais. Algo mais profundo tinha acontecido.

Os hábitos nocturnos, de quem maioritariamente frequenta os espaços abertos ao público alteraram-se. Aquilo que na minha geração era frequente, beber Gin Tónico, perdeu-se com o tempo.

Confrontei pessoas mais entendidas do que eu na matéria, ligadas à restauração e após alguma análise concordam.

Velhos hábitos que não nos tornam velhos de idade mas, identificam-nos.

Para cúmulo do exotismo indicam-me que existe uma mistura de Gin, pela apreciação de quem me informou divinal, apenas à venda numa determinada loja “Gourmet”.

Pelo menos em casa, desde que previamente se trate de aprovisionar os respectivos ingredientes, ainda se consegue beber em tranquilidade.

No meu caso, de preferência, acompanhando a narrativa de Wodehouse. Ambas em dose adequada, é claro. Sem excessos.

A propósito, aproveito para desejar uma boa Páscoa a todos os leitores.

quarta-feira, março 12, 2008

Satisfação

Dois estudos promovidos por duas entidades distintas, indicaram S. João da Madeira como um dos concelhos com maior qualidade de vida. As duas análises tiveram em comum o cruzamento de diversos dados estatísticos oficiais e diferenciavam-se na metodologia, pois o promovido pelo INTEC – Instituto de Tecnologia Comportamental –, baseou-se ainda em entrevistas telefónicas às populações locais.

Em ambos os estudos, este concelho ficou no pódio, i.e., nos três primeiros lugares, só tendo sido superado pelo concelho de Albufeira. Com este lugar no ranking nacional, vários foram os comentários, as interpretações e até sugestão de outros indicadores.

Houve quem preferisse não dar importância às conclusões de qualquer um dos estudos. Do rol de argumentos depreciativos não surgiu a normal visão redutora da função média: “se duas pessoas tiverem vencimentos anuais de 5.000 e 50.000 euros, em média auferiram 27.500 euros”; ou a mais conhecida: “se um fulano não comer uma refeição e o outro comer duas, em média ambos comeram uma e o desgraçado que ficou com fome, estatisticamente ficou satisfeito”. O cruzamento de vários dados estatísticos e a elaboração de rankings por domínios tratados, permite não se cair na tentação fácil de denegrir a análise estatística.

O facto das apreciações finais dos estudos terem sido semelhantes, confere idoneidade às metodologias utilizadas e sabendo-se que nove dos doze municípios financiaram o estudo do INTEC, em nada altera, na minha opinião, os resultados divulgados. Só seriam suspeitos se a amostra fosse menos homogénea e o ranking final colocasse, precisamente, os financiadores nas primeiras posições.

Com tudo isto, sabendo-se de todas as carências que existem na cidade, os problemas sociais incluídos, ligados obviamente aos dados “paradoxais” como bem englobou este Jornal na semana passada, o que ressalta dos resultados das entrevistas telefónicas é a satisfação global dos habitantes de S. João da Madeira.

Para os municípes deste concelho as áreas que funcionam menos bem são: saúde, ambiente, urbanismo, habitação, turismo, diversidade e tolerância. Em contrapartida, os aspectos positivos são: cultura; lazer; economia e emprego; ensino e formação; acessibilidades e transportes.

A felicidade é o grande trunfo da cidade. Subjectivamente, claro.

O trecho retirado do estudo do INTEC, segundo o Jornal Regional de 28-02-08 é o paradigma da análise subjectiva “(...) salienta a facilidade de mobilidade e curtos tempos de deslocação, assim como o fácil acesso a cidades como Porto e Aveiro, que disponibilizam equipamentos e serviços que escasseiam localmente, o que, segundo os autores do estudo, ajuda a explicar as boas avaliações dos munícipes nos domínios da saúde e educação e formação(...)”. Numa só frase, eis o resumo para a boa localização geográfica do concelho. Poderia evidenciar o paradoxo contido no texto transcrito, que elimina dois aspectos positivos do concelho mas, essa tarefa deixo-a para os leitores.

Voltando às preocupações da população, de todas as enumeradas, a eleita para análise pelo poder político foi friamente o turismo (ver texto “Turismo com nota negativa”, publicado no Jornal Labor de 06/03/08). Este desfasamento entre as dificuldades da população e a actividade política são a dura realidade nacional.

A satisfação dos Sanjoanenses é claramente elevada e distante do poder político municipal. Se verificarmos os domínios tratados classificados com nota positiva, nos recordarmos do Plano de Actividades da Câmara Municipal para o ano 2008, focados na capacidade de concretização do programa eleitoral do actual executivo municipal, ficamos sem palavras.

Estes documentos, os rankings divulgados podem ser criticáveis pelos indicadores eleitos, no entanto, retratam, pela abrangência de temas, a relação dos munícipes com os seus concelhos. Se alguns são demasiado cépticos, outros conformados e outros optimistas, os resultados obtidos, em especial, pelas entrevistas telefónicas permite obter-se uma análise social sobre a generalidade das suas expectativas.

Esse é o desafio para os próximos anos.

(a publicar dia 13/03/08)

segunda-feira, março 03, 2008

Táxi

Entrou no táxi já atrasado, pelo que teve logo de ouvir: “Estive quase para ir-me embora, se não fosse pela consideração que tenho por si, já tinha arrancado.”
Correu-me mal esta noite, foi a resposta ao taxista. Este olhou pelo espelho e logo reparou no lenço entre a mão e a cara, provavelmente a estancar uma ferida aberta.
Quer que o leve ao hospital? – perguntou. Prontamente respondeu: Ao daqui não! É melhor ao lá de baixo, fica a caminho do nosso destino habitual.

O taxista apesar de discreto, resmungou algumas palavras sobre o fecho de urgências dos hospitais. Passado uns metros fez a inevitável pergunta, da qual não queria obter resposta, sobre as urgências que afinal não fechariam. Assunto em voga na semana e que colocava em causa, todos os protocolos assinados. Enquanto o taxista dissertava a sua sabedoria sobre o assunto, o conduzido, embalado pelas palavras ouvidas e pelo andamento do táxi, reviu os acontecimentos da noite.

Seria uma noite normal de fim de semana. Para começar, o costume, uma partida de snoocker, seguida da viagem por táxi, frete combinado frequentemente, só com ida até ao casino, ceia e aqui variaria o programa: a sua condição de homem disponível e a vontade de passar momentos com corpos femininos, macios e perfumados, podiam-no reter numa noite em agradável companhia, ou então, o regresso solitário a casa, num qualquer carro de praça disponível.

Desta vez, não seria assim. O adversário nas bolas coloridas, era um daqueles chatos, batoteiros e conflituosos, ainda por cima familiar do dono do salão de jogos. A partida estava a correr bem, até que uma palavra mal medida, virou em ameaça. Daí até à violência física foi um pequeno passo. Levou uma cabeçada do energúmeno, mais um par de socos, ficando com a cara aberta e sem hipótese de defesa. Apoiado à mesa de jogo, olhou em redor à procura de um objecto para se defender e igualar o “combate”. Quando viu que o taco estava longe do seu braço, lembrou-se do filme “Guerra das Estrelas”, da saga dos Skywalker e pensou no poder da levitação. De repente, o taco estava na sua mão. Sem acreditar sentiu-se um guerreiro Jedi e investiu sobre o opositor. Um golpe aqui, outro ali, mais duas fortes tacadas e desembaraçou-se da situação criada. Uma voz disse-lhe para fugir, que o encobria. Percebeu ser de alguém que o tinha ajudado e atirado o taco naquela hora difícil. Mais aliviado, percebeu que a força não estava com ele.

O taxista expelia bairrismo por todos os poros. O tom de conversa não estava agradável... Decidiu interrompe-lo, precisava da sua ajuda no hospital. Explicou que teriam de representar, dramatizar mesmo, para conseguir dar entrada nas urgências, sem grandes questões. Ao taxista agradou-lhe a ideia de ludibriar o sistema nacional de saúde, uns penetras na urgência dos outros.

Como cliente agradeceu e pediu para esperar por ele. Esta noite voltava a casa, mal tivesse o curativo, que pagaria o que fosse preciso pelo tempo de espera, mais a viagem como se fosse para o destino previsto. O taxista ficou satisfeito, a vida não estava fácil, como já tinha dito várias vezes, àquela hora só poucos trabalhavam e ele próprio queria estar em casa.

Encostado no banco de trás, compreendeu o vazio da sua vida. Enganava-se no jogo nocturno, onde ganhava muito mais do que perdia. Esta pequena satisfação nunca lhe trouxe felicidade, antes pelo contrário. Separação. Visita do filho apenas de vez em quando. Uma vida desenraizada, sem qualquer ligação social. Só, no mundo.

Antes de chegar ao hospital disse ao taxista: o que é necessário é alargar a rede de urgências dos Hospitais Psiquiátricos. O condutor indignado tentou percebê-lo. Focou-o pelo retrovisor, para seguir as ideias do cliente, pedindo-lhe para se explicar melhor. Este continuou, pausadamente: ouvi-o atentamente e não percebo como se pode trocar um serviço de urgência por uma ambulância especial; como é que algumas populações ficam a aguardar a construção de novos hospitais, enquanto para outras são logo reduzidos os cuidados de saúde garantidos pelo Estado. Tudo isto é confuso, não se percebe o critério e deixa qualquer um baralhado. Mas, não pense que é por isso que falei nos hospitais psiquiátricos. Estou cansado de fingir. Se fosse fácil entrar num desses hospitais, seria para lá que iríamos agora.

Nota: esta estória foi originalmente publicada no blogue “Escrita Irregular”. Reeditar este texto, adaptando-o às circunstâncias actuais é uma justa homenagem a leitores, comentadores assíduos do recentemente encerrado blogue. A eles agradeço toda a atenção dispensada ao longo destes últimos 17 meses.

(a publicar no dia 06/03/08)