quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Vazio

A separação da família, a caminho do divórcio, atirou-o para fora de casa. Longe da ex-mulher, dos filhos, deixou as lágrimas à porta do seu lar familiar e recomeçou a vida numa nova condição.

O árduo trabalho mantendo-o ocupado, as noites bem passadas em casa de amigos – recentes e antigos, as saídas e programas de fim-de-semana com os filhos, não lhe fizeram lembrar o passado.

A inquietação que permanece no final de uma relação, a dúvida da opção tomada: onde tinha ficado, antes de… não tinha ainda surgido no seu novo dia-a-dia.

O destino, numa noite terminada demasiadamente cedo, levou-o de volta ao local do seu tempo de juventude. Deviam ter passado uns treze ou talvez catorze anos, desde a última vez que cruzara a porta de serventia daquele bar e subira os degraus daquela escada. Tudo estava semelhante. O mesmo dono, homem atrás do balcão, com uns cabelos brancos, recordando a passagem do tempo e umas rugas complementares na face. Não saberia se seria reconhecido e não pensava encontrar ninguém do seu tempo por ali.

Após os cumprimentos com o dono do bar, com a conversa de circunstância interrompida pelos pedidos dos outros clientes, olhou em redor e fitou algumas caras que o reconheciam. Amigos não eram, apenas conhecidos, companheiros de alguma noite, de alguma jornada colectiva, de copos e uns charros.

Trocados os olhares, apertadas as mãos, um abraço nalguns casos, verificou que o ritual se mantinha, copos de cerveja, gargalhadas, conversas ocasionais e umas saídas ao exterior, para umas passas numa mortalha bem lambida.

No meio de tantas recordações, lembrou-se do seu esquema de engate, mantido naquele estabelecimento, durante alguns anos, com uma conhecida. Uma forma de estar com alguém, sem estar. Nunca mais se tinha lembrado dela, nem ousava perguntar por ela, nem pelo seu estado. Eram coisas do passado, da adolescência tardia, ou da idade jovem de adulto. Nunca tinha percebido como aquela relação tinha durado tanto tempo. Era inexplicável. Nada sentia pela fulana, nada sabia dela. Além do sexo, nada mais lhe interessava.

No meio destas reminiscências, alguém o convida para umas passas, ele acede. Na rua, um disfarce menos rigoroso do que no seu tempo, embora as semelhanças fossem evidentes. Entrar num carro, num local pouco concorrido, numa rua escura, ou num parque mal iluminado. Regressar ao bar, mais uns copos e umas risadas. Estava completamente fora de si.

À sua frente surgiu uma cara feminina. Era ela. Não queria acreditar. Como era possível? Conversa animada, uma mudança de bebida. E um convite para prolongarem a noite os dois…

Quando acordou, viu que estava acompanhado e com dificuldade lembrou-se do que tinha acontecido. A ressaca impediu-o de focar melhor a mulher que estava com ele. Olhou para o relógio e preocupou-se. Os seus três filhos chegariam dali a pouco acompanhados pela ex-mulher e seria complicado explicar o seu estado e a presença de outra pessoa com ele. Pronunciou o nome da sua companheira nocturna e pediu-lhe com bons modos para acordar, explicando-lhe a pressa e desculpando-se pela situação.

À sua frente surgiu uma cara desconhecida, num corpo desconhecido.

- Estive a noite toda a ouvir esse nome, pensei que fosse da tua ex-mulher e descubro agora que não é, por isso não me importei – disse-lhe a desconhecida.

Focou melhor. Aquela cara era-lhe mesmo estranha, nem o seu nome sabia. A necessidade de a despachar dali, enchia-lhe a cabeça. Tentou pôr-se de pé mas, cambaleou com a ressaca. Nada de gestos bruscos, pensou.

A companheira continuava a falar e ele não ouvia nada. Abriu a persiana, a luz solar feriu-lhe os olhos. Procurou um comprimido para evitar o mal-estar. Tinha que se apressar e sobretudo, tirar aquela sujeita dali. Quem seria afinal?

Engoliu o comprimido e procurou o chuveiro. Debaixo de água, sentiu-se melhor. Saiu da banheira, secou-se e apercebeu-se de movimentações no quarto. Menos mal, pensou. Regressou ao quarto, sem saber se havia de surgiu nu, se com o roupão. Optou pela primeira opção, a mais sensata depois da noite vivida. No quarto, a fulana já estava vestida. Perguntou-lhe se não queria tomar banho. Nem ouviu a resposta… enfastiado, não conteve o vómito e teve que ir de volta à casa de banho.    Recomposto, vestido, ofereceu café e uma refeição ligeira, mais por educação do que por consideração. Como seria possível ter uma pessoa completamente desconhecida em casa?

Procurou novamente apressar a companheira, falando no aproximar da hora de chegada dos filhos, na necessidade de arrumar a casa e limpar o que fosse possível. Que não, que não, fazia tudo sozinho – disse agradecendo a gentileza pela oferta da sua ajuda. O que mesmo pretendia era ficar sozinho, para se preparar, desculpou-se.

Não sabia o que dizer. Não tinha vontade de a ver de novo. Tentou explicar-lhe o embaraço mas, não foi necessário. A sua companhia nocturna percebeu tudo. Disse-lhe que sairia já, já. Estava a tentar ser simpática. Não queria atrapalhar. Não esperava encontrá-lo de novo, nem que ele a procurasse. Não era nenhuma profissional, apenas engatava desconhecidos e bem-parecidos, naquele bar apenas, à procura de prazer apenas. E ao sair, rematou: essa fulana com quem me confundiste toda a noite, deve ter sido muito feliz contigo, não?

O telemóvel tocou, era a ex-mulher, pedia desculpa estava super atrasada, só chegariam à hora de jantar e portanto, ele tinha a tarde toda livre. Arrumou tudo direitinho, limpou o que havia a assear e continuando mal disposto, expeliu o que o estômago continha.

Tentou reconstituir a noite, o jantar em casa dos amigos, a ida ao bar e resto já descrito. Ligou para casa dos amigos e engasgado lá explicou o sucedido. Ficou surpreendido quando do outro lado do telefone lhe disseram: Esse bar fechou há mais de cinco anos, pá! Precisamente quando o dono faleceu. Onde era esse bar, agora é um estabelecimento comercial, que encerra às 19 horas, como os outros todos nessa rua. Aliás, nas imediações não há nenhum bar. Quando saíste daqui já ias um pouco torto, pá. Eu bem te disse para não pegares no carro. Afinal por onde andaste?
 
(a publicar dia 12/02/09)

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Último desejo

            O dia tinha amanhecido muito brilhante. Júlio, que despertara com a luz matinal, permanecia há alguns dias acamado, num dos quartos de sua casa, por causa de uma doença prolongada que lhe causava um grande mal-estar e sofrimento. Naquela manhã acordara sem as dores que o apoquentavam, sentia-se melhor. O brilho no quarto era intenso, sinal de que o céu devia estar limpo, com uma forte luminosidade, pouco comum nos dias anteriores, cinzentos, frios e chuvosos. Estava a ser um Inverno “à antiga” - todos que o vinham visitar contavam-lhe as peripécias da meteorologia; a já referida chuva, incomodara muitos dos seus amigos e familiares; a neve divertira de início mas, a sua queda constante era sinal de frio e desconforto e pelo que Júlio se apercebia, apesar de estar doente, estavam todos fartos de dias assim.

            Júlio notou uma alteração na luminosidade do quarto. Parecia que uma nuvem passara em frente ao sol. O doente tentou rodar a cabeça para tirar as suas dúvidas. Apesar do esforço, não se mexera. Tentou de novo e nada. Estava com dificuldade em mover-se. Pensou em levantar a cabeça, apoiar as mãos para erguer o tronco e não conseguia fazer qualquer movimento. Tentou, estando deitando de barriga para cima e por isso sem fazer qualquer esforço, mexer os dedos da mão, os dos pés e nada. Nenhum músculo reagia, nenhum osso se movia.

            O quarto ficara mais escuro. Júlio concentrou-se no seu corpo. Ainda ouvia a sua respiração e percebia que o seu coração pulsava. Tentou abrir a boca para pedir ajuda e não conseguiu. Quis soltar um grito, não teve forças. Procurou acalmar-se e chamar normalmente os seus familiares, só que nada aconteceu.

            Júlio estava inerte. Não queria acreditar que vivia os seus últimos momentos. A luz do quarto era já muito ténue. Havia um silêncio incomodativo. Não se ouvindo qualquer ruído da rua, do exterior da casa, ou vindo dos outros compartimentos. Seria o fim?

            Queria despedir-se dos seus familiares, pedir-lhes pela última vez os seus desejos. A sua vontade era que alguém fizesse um discurso de homenagem na cerimónia fúnebre, antes de se fechar a sua urna. Sempre que começava a formular esse desejo, a conversa era interrompida pelo seu interlocutor. Ainda é cedo, para falar em morte - diziam-lhe. Todos esperavam que durasse anos e não uns dias só.

            Sentiu os seus olhos a ganharem lágrimas, como quando comparecia em funerais e ao ver o acto de fechar a urna se emocionava e deixava correr uma lágrima, em silêncio. Era a sua forma de homenagear o defunto, fosse ele familiar, alguém próximo, um qualquer desconhecido. Permanecia de pé na cerimónia, sem qualquer manifestação religiosa até ao encerrar do caixão. Depois, apresentava os cumprimentos à família e seguia a sua vida, sem qualquer tipo de hipocrisia.

            Este seu ritual sentimentalista provinha da literatura. Afeiçoava-se às personagens, especialmente em biografias e qualquer morte era extremamente sentida, ficando em lágrimas, obrigando-se a enxugar os olhos, para prosseguir para as páginas seguintes.

            Dos livros tinha vindo a ideia dos discursos na homenagem final. Não queria nada megalómano, uma breve referência dita por algum bom orador. Um familiar de preferência. A escolha ficaria para os seus descendentes. Um discurso, não o trocava por nada. Nem por música, nem por poemas, nem orações.

            O silêncio era agora total. Já não ouvia a sua respiração. Pensou tratar-se apenas de um inesperado e tranquilo sono.

            Não, estava enganado!

            Não respirava mesmo. Não ouvia as batidas do seu coração, nem sentia qualquer último movimento dos seus órgãos.

            As dores tinham efectivamente desaparecido.

            O quarto ficou escuro, totalmente escuro.

            A manhã continuava com uma claridade fora do comum. Daqui a pouco, em casa do Senhor Júlio soariam os primeiros despertadores, impondo o acordar.

 

(a publicar dia 05/02/09)

 

terça-feira, janeiro 27, 2009

Infusões

            No mundo moderno beber chá passou a ser um conceito urbano, sem qualquer vinculação a um género, ou idade. Os efeitos terapêuticos desta bebida estão perfeitamente difundidos e assimilados, no entanto, o consumo de chá extravasou a ideia preventiva e curativa, generalizando-se. Hoje em dia, é usual em vários estabelecimentos existir uma gama alargada de sabores e tipos de chás.

            "Beber chá" era uma expressão utilizada para justificar a boa educação. Passar tardes em família, ouvindo as conversas, sabendo ter um comportamento adequado ao momento, falar em tom e com assunto apropriado, era simplesmente resumido pela frase "bebeu muito chá em pequeno".

            Depois dessa fase, o chá só era bebido em dias especiais. Em momentos de fraqueza do corpo, como doenças, má disposição e ressacas (ui!) ou nos tais dias de família, no aconchego do lar.

            No exterior, em espaços abertos ao público, o direito de ocupação de uma mesa e respectivas cadeiras era (e ainda é) muitas vezes obtido pelo pedido de café. O lado social de beber ou tomar café é extremamente saudável. Esse costume permite encontrarmo-nos com inúmeros conhecidos em sítios variados, ou em encontros inesperados, dá-nos a hipótese de nos sentarmos relaxados a conversar.

            Como gosto imenso de beber café, durante uns bons anos bebia cinco ou seis cafés por dia. Três até ao pós almoço e mais outros três até à noite. Dormia perfeitamente. Um dia, ofereci um café ao comercial de uma empresa e este ao recusar, explicou-me as complicações que havido tido com o palpitar do seu nervo óptico. Abreviando a história, o seu médico chegou à conclusão que o problema era devido a ingestão de demasiados cafés. Tal como eu, o fulano bebia seis por dia. Tal como ele, o meu olho esquerdo tinha tendência para latejar. Sem precisar de qualquer consulta médica, resolvi reduzir o consumo de café, para metade por dia. Com os três cafés, nalguns dias apenas dois, o meu olho nunca mais se agitou. Tudo corria bem, se não fosse o facto de nesse período da minha vida, os meus filhos serem bebés e chorarem constantemente de noite, acordando-me e obrigando-me a dormir poucas horas. Até conseguir equilibrar estes dois factores passei um mau bocado…

            Recentemente foi divulgado um estudo sobre o consumo de café. Segundo um investigador britânico o excesso de café pode provocar alucinações. Passo a transcrever parte da notícia difundida, no portal Sapo: "Beber grandes quantidades de café pode provocar uma maior tendência para sofrer de alucinações, segundo um estudo efectuado por psicólogos da Universidade de Durham, na Grã-Bretanha, e divulgado pela edição on-line da BBC Saúde. Segundo a investigação, pessoas que consomem mais de sete chávenas de café instantâneo por dia têm três vezes mais probabilidade de ouvir vozes, ver coisas que não existem, do que as que bebem menos que o equivalente a uma chávena (…)".

            A exposição da minha vida, dos meus hábitos, feita nos parágrafos anteriores permite-me assegurar aos leitores que não escrevo sob efeito de excesso de café, sobretudo nos assuntos relacionados com o quotidiano da cidade. Neste particular, escrevo sobre o que observo, a minha perspectiva da realidade, portanto. O mundo virtual ou as alucinações são da responsabilidade de outros, mediante o número de cafés que bebem, ou das ilusões que defendem...
 
(a publicar dia 29/01/09)

terça-feira, janeiro 20, 2009

Jeremias

            Na terra natal ficara conhecido como Jeremias, devido a uma música de Jorge Palma, que ele adorava. Por estar sempre a ouvi-la, a cantá-la, a declarar os seus versos, colou-se a alcunha. Muitos companheiros desse tempo nunca chegaram a saber qual o seu verdadeiro nome. Era apresentado como o Jeremias e o nome de guerra ficou. Ele próprio adoptou o nome, por considerar que aquela letra do músico português, representava o que ele pensava do mundo e da forma como queria estar:  

"Jeremias gosta do guarda-roupa negro e dos mitos do fora-da-lei

Gosta do calor da aguardente e de seguir remando contra a maré (…)"

         Depois de uma infância e inicio de adolescência pouco problemáticos, a vida de Jeremias alterou-se pela morte prematura da mãe. Ficou a viver sozinho com o seu progenitor. As irmãs, mais novas, foram viver com uma tia, irmã da mãe, para outra cidade. Este isolamento familiar transtornou Jeremias. O seu rendimento escolar fraquejou, levando-o a repetir um ano.

            Sem a sua rede de colegas, Jeremias procurou outro sentido para a sua vida. Passou a vestir-se de preto, a procurar nos armários de casa gabardinas ou sobretudos antigos do pai. Comprou botas da tropa. Nem os motores, nem as motas lhe interessavam. Desinteressou-se pelo desporto, ou por qualquer forma de socialização. Na escola permaneceu com notas baixas e outro "chumbo" se aproximava.

            Jeremias passou a ter poucos interesses. A música, com os seus cantores malditos e as suas vidas ditas fantásticas, cheias de histórias de droga e álcool, passaram a seduzi-lo. Passou a ouvir discos, a gravar cassetes de discos emprestados por novas amizades, a memorizar letras e refrões; a ler biografias de músicos famosos e a literatura referenciada pelos tais músicos. Mesmo ainda novo passou a sair aos fins-de-semana à noite, procurando abrigo nos salões de jogos, fintando a interdição de entrada a menores. Encontrava-se com rapazes com gostos musicais idênticos, trocavam impressões, referências, etc. Foi assim que ficou conhecido como o Jeremias.

            O pai, entretanto, entrou em grande depressão. A medicação receitada, obrigava-o a deitar-se cedo. Jeremias saía de casa todas as noites. Passou a frequentar pequenas tascas e cafés de clientela duvidosa. Sem dificuldade, serviam-lhe bebidas com elevado grau alcoólico e apercebeu-se da facilidade em adquirir e consumir drogas.

            Sem mais pessoas da sua família naquela cidade, as opções de Jeremias escandalizaram vizinhos e amigos do pai. Ao alertarem o seu pai, este definhou. Sem forças para mais, deixou-se abater completamente, perdendo completamente o interesse em lutar pela vida. Jeremias viu-se, ainda com 17 anos, sozinho no mundo. Sem saber qual o rumo da sua vida, valeu-lhe um irmão do pai. Este, extremamente pragmático, retirou-o da casa e da cidade onde vivia. De nada serviu protestar, alegar mil e uma soluções para o seu futuro. O tio foi intransigente. 

            Jeremias, aproveitando uma folga no seu serviço, decidiu passar um dia na cidade da sua adolescência. Tinham decorrido vários anos, quase um quarto de século. Não tinha perdido os laços com as suas irmãs, visitava-as várias vezes, mas num acesso de saudades programou uma visita ao local do seu passado.

            Ao procurar estacionamento na rua, foi auxiliado por um arrumador. Após estacionar, tirou uns trocos do bolso e dirigiu-se para o arrumador. Viu o seu estado lastimoso, dentes estragados, braço direito atrofiado num corpo demasiado magro. Droga que os pariu, era a frase utilizada por seu tio, quando foi viver com ele. Antes da incorporação no exército, passavam horas visitando locais terríveis, repletos de toxicodependentes, vivendo na rua, ou em casas abandonadas. A realidade é isto, dizia-lhe o tio, não tenhas ilusões de viveres uma vida mágica, extraordinária. O teu futuro se continuares com as tuas fantasias será isto, remata o tio.

            No gesto de agradecer as moedas recebidas, Jeremias pensou reconhecer o arrumador. Lamentou o seu estado físico em voz alta. Este queixou-se da sua vida. Jeremias não tinha dúvidas, sabia quem era o arrumador. Obviamente não iria confrontar o atordoado interlocutor com um passado tão longínquo. Não era a primeira vez que lhe entregava dinheiro. Se calhar quantias semelhantes, para outros fins.

            Seguiu o seu caminho. Circulou pelas ruas à procura de outros sinais do tempo ali vivido. Foi à rua onde vivera com os pais. A sua casa já não existia. Em seu lugar erguera-se um prédio com vários andares. Olhou em redor e identificou alguns dos prédios antigos. Eram visíveis várias placas propondo soluções para espaços devolutos. Procurou moradas dos amigos de infância. Não teve sorte. Portões fechados, campainhas tocadas sem resposta, portas abertas por estranhos e nada. Não encontrou ninguém. Ficava com a ideia de que por detrás daquelas entradas, ia encontrar objectos resistentes ao tempo, guardados por pessoas que pouco a pouco o iriam reconhecer e ficariam agradadas com a sua aparição. Lembrava-se dos momentos felizes ali vividos e não estava ali pelo passado para redimir, o que queria era recordar esses momentos. Falar e saber como estavam todos. Explicar como era a sua vida, o que tinha feito…

            Tentou nas lojas comerciais encontrar alguém do seu tempo. Entrava, olhava para o balcão de atendimento e desiludia-se. Ainda assim, por educação explicava o seu propósito. Indicaram-lhe uma loja, cujo dono estava estabelecido há muitos anos. Porém, na loja referida não encontrou o sujeito, acamado há alguns dias com uma gripe. Por esse motivo não o incomodou.

            Vagueava pelas ruas, verificando os melhoramentos introduzidos. Os prédios, as lojas comerciais, o alinhamento dos passeios, o asfalto nas ruas, os candeeiros, as floreiras, alguns bancos de jardim. Não tinha onde entrar, não tinha ninguém a esperá-lo. Ninguém para recebê-lo. Jeremias verifica que, mais do que apartamentos ou moradias vazias, mais do que compartimentos sem mobília, o que realmente sobrou do seu passado são memórias devolutas.

            Agitou-se ao encarar uma moradia em ruínas. Abandonada ao tempo, a casa estava rodeada de vegetação. Aquela fora a casa que o acolhera noites e noites, depois da hora do fecho dos cafés que frequentava - quando o dono ficava cansado de estar aberto, sem servir nada durante horas. Propriedade de familiares de um amigo, a casa avistada passou a ser local de peregrinação de vários noctívagos. Primeiro com electricidade e vários móveis. Depois apenas iluminada pelo luar e vazia. Procurou a entrada, forçou a fechadura, a custo abriu a porta. O telhado em parte ruíra. Passou por cima de telhas, transpôs salas e chegou a um compartimento mal iluminado. Acendeu o isqueiro e na sua frente apareciam uma série de inscrições. Sem esforço, encontrou uma escrita por ele: Jeremias escolheu o seu lugar do lado de fora.

            De volta ao carro, vendo que o arrumador ainda estava naquela zona, deu-lhe mais uma moeda e não se conteve, perguntando-lhe se ele se lembrava do Jeremias. Como a resposta tardou, Jeremias entrou no carro e preparou-se para arrancar.

            O seu passado seria arrasado naquela cidade.         
 
(a publicar dia 22/01/09)

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Magalhães

O computador Magalhães foi entregue pela escola ao meu filho.

Finalmente!

Quatro meses decorridos desde o inicio das aulas, meio ano após o seu anúncio pelo Governo chegaram os desejados portáteis, para os alunos do ensino básico.

Uma medida representativa da face mais simpática do executivo liderado por José Sócrates e do seu “choque tecnológico”.

A ansiedade criada nos mais pequenos e por sua vez nos seus pais - obrigados a explicar vezes sem conta a demora na entrega dos computadores, quando ao mesmo tempo apareciam anúncios da sua venda ao público - deveria ter sido evitada.

À oportunidade para propaganda política interna do Governo, ou mesmo para serem exibidos em cimeiras externas, neste caso no limiar do mau gosto, apresentaram-se contra-argumentos políticos, alguns a rasar a mediocridade.

No fundo é necessário não esquecer o alcance desta iniciativa: a democratização da informática, distribuindo-se um portátil com capacidade suficiente para a aprendizagem dos alunos do ensino básico.

Pelo caminho, os mais pequenos assistiram à sátira do Magalhães, constante nos melhores momentos da série humorística “Zé Carlos”. Não é fácil, dada a credulidade em plena idade da inocência, assistir às divertidas e supostas aplicações do portátil, como as apresentadas pelo Gato Fedorento, para arma de defesa pessoal, ou torradeira, perdão “tosteira”, ou até máquina de engomar gravatas, entre outras.

Se algumas crianças já receberam o computador, outras ainda não, tendo em conta que apenas alguns encarregados de educação receberam os dados para efectuar o respectivo pagamento, ainda em Dezembro. Na sala de aula do meu filho, no momento que escrevo estas linhas, apenas três alunos tinham recebido o Magalhães. Esta entrega em pequenos lotes, não faz sentido nenhum.

Toda esta espera é prejudicial para o bom funcionamento do projecto, a menos que o Ministério da Educação e as suas Direcções Regionais sejam adeptas da máxima educativa de que todas as contrariedades causadas aos filhos “ajudam a formar o carácter”, utilizada pelo pai de Calvin, o personagem das tiras de banda de desenhada, criadas por Bill Watterson.

Atendendo ao calendário avançado do presente ano lectivo, pouca ou nenhuma interferência o Magalhães irá causar na aprendizagem do meu filho. Neste sentido, a melhor ajuda que se pretende, para o futuro, é na redução indiscutível do peso a transportar para a escola pelos nossos filhos. Através de todos os meios didácticos e informáticos possíveis, espera-se essa melhoria sustentável, sem esquecer que é importante salvaguardar as qualificações apropriadas às crianças neste grau de ensino. No passado, o facto de existirem calculadoras, não inibiu que se promovesse o cálculo mental, nem a aprendizagem da tabuada. Do mesmo modo, a existência de processadores de texto no Magalhães, destacando esta das outras competências inerentes, não impede que se continue a fomentar a caligrafia clara e a evitar os sempre incómodos erros ortográficos.

É engraçado ver um miúdo de sete anos a ligar o seu pc, a digitar a sua palavra passe e aceder a uma série de menus e programas, tal qual um adulto. Obviamente, espero mais do Magalhães! Aguardo pelo ensino com as novas metodologias, assim como, pelo tipo de interesse a despertar nos alunos e claro, espero pelos resultados finais disto tudo, sabendo que esta alteração produzirá efeito efectivo só daqui a doze ou quinze anos.

Até lá, espero que as actuais gerações de jovens com idade superior ao meu filho, aprendam a viver com as novas tecnologias, adaptando-se e utilizando melhor os meios informáticos que têm ao ser dispor, para quando ingressarem no mundo do trabalho, estarem aptos a serem competitivos.

Enquanto escrevo este texto, o meu filho explora o seu Magalhães ligando-lhe o mp4 para ouvir música.

(a publicar dia 15/01/09)

terça-feira, janeiro 06, 2009

Doze trabalhos

            Após dois anos problemáticos, 2008 correu da melhor forma ao executivo liderado por Castro Almeida. O terceiro ano do seu segundo mandato ficou marcado por várias inaugurações. Estes actos, sempre do agrado das populações, prosseguiram dentro da lógica de cumprimento das promessas eleitorais de 2005. A concretização do Centro Empresarial e a inauguração do Parque, em conceito urbano, do Rio Ul, a exemplo do atrás referido, tiveram os maiores destaques, por motivos óbvios.

            Pelo meio e de forma não dissimulada prosseguiu-se a resolução de problemas herdados dos últimos mandatos do anterior Presidente. Neste sentido, a abertura ao trânsito do túnel ligando a Rua 5 de Outubro à Rua do Brasil e o inicio das obras na denominada Rua dos “jeitos”, foram coerentemente os principais assuntos resolvidos. No passado havia sido o Pontão do Orreiro e a finalização em mandato anterior dos projectos municipais do Museu da Chapelaria, dos Paços da Cultura e inauguração do Jardim, com a sua inútil esfera, nas imediações dos Paços do Concelho.

            O esforço hercúleo obrigou ainda no actual mandato à modificação do conceito da zona pedonal - com reposição de algum trânsito em algumas artérias contínuas à Praça Luís Ribeiro (embora no geral as alterações em nada resultassem) e ao controlo da dívida municipal herdada, através da venda de património municipal. 

            O Cinema Imperador adquirido pela autarquia local em 1999, comemorou 50 anos, não com a inauguração da Casa das Artes e da Criatividade (CAeC) mas fechado, degradado e com o anúncio do inicio das obras, para ficar o espaço pronto em 2010.

            Para o futuro imediato anuncia-se o restauro do Palácio dos Condes, envolvido no negócio das Águas Municipais.

            Refira-se que a criação da empresa da água foi um dos assuntos mais polémicos do último ano. A factura elevada, reclamada pelos munícipes, nunca foi considerada um problema pela edilidade local, ao longo dos demais anos. A situação recebida em 2001 - cobrança de valor por m3 elevado, acrescido da elevada taxa de alugueres de totalizadores - jamais foi ponderada e modificada pelo executivo municipal, de forma a facilitar a vida dos eleitores.

            Antes pelo contrário.

            O corolário da privatização, salvaguardando a manutenção dos actuais preços para os próximos quatro anos, prova que o valor pago pela água, actualmente e ao longo destes últimos tempos, estava de facto demasiado inflacionado.

            Superado, ou em vias de o ser, os doze trabalhos do legado de Manuel Cambra (indicados ao longo deste texto a negrito, para uma melhor identificação), Castro Almeida demonstrou um forte sentido de gestão municipal, ao controlar os ímpetos dos seus acólitos mais preocupados em apagar os vestígios desse período existentes na cidade. Uma obsessão que inexplicavelmente ainda recebe novos adeptos. Superior a tudo isso, o presidente do executivo procurou ultrapassar as dificuldades e inesperadamente começa agora a fraquejar, ao ponderar deslocar o Centro de Artes de instalações, ou a admitir que ainda se questione a demolição do elemento arquitectónico.

            No novo ano aparecem fortes possibilidades de se voltar uma nova página na história da cidade.

            Antes disso, existem uma série de condicionantes para resolver.

            Em primeiro lugar, o cumprimento do programa eleitoral estará sujeito a ses… ou a execuções para lá do actual mandato: a auto-estrada A32 só ficar pronta em 2010 e o vai-vem será em 2011, se houver fundos comunitários, além da mencionada CAeC para o ano.   

            Não se pode esquecer a árdua tarefa de analisar o acordo com o Ministério da Saúde, acerca da manutenção do serviço de urgência.

            Acrescentando a isto, haverá uma atenção redobrada para outros assuntos que ameaçam tornar-se flops: a internet sem fios para todo o concelho e as obras do mercado municipal, traduzindo-se na implantação das barracas nas suas portas - anunciando transformar a Avenida Arantes de Oliveira, na nova rua dos “jeitos”.

            A partir daqui aparecerá um novo projecto global para S. João da Madeira. A sua apresentação surgirá com as eleições autárquicas de Outubro, entretanto, vários tópicos foram já ventilados. Contudo, novas empreitadas serão divulgadas, como é apanágio quando são badaladas as promessas e os programas eleitorais.

            As grandes novidades serão projectos virados para o exterior, dos quais alguns nascerão completamente desenraizados (Centro de Alto Rendimento, por exemplo).

            Perante tudo isto, a população espera que a sua qualidade de vida se torne real, não sendo incomodada pelo excesso de obras de investimento municipal e pela diminuição do elevado índice de criminalidade existente na cidade. Um problema que nos começa a inquietar, não se verificando vontade política em o assumir.

 

(a publicar no dia 08/01/09)

terça-feira, dezembro 16, 2008

Nitrato do Chile

 

            Um pouco por todo o país, mais nos meios rurais, agrícolas se preferirem, era comum encontrar-se nas fachadas de algumas casas, uns painéis publicitários, formados por azulejos, com a silhueta de um cavaleiro e a sua montada em tons negros, sobre um fundo amarelo, representando as cores do amanhecer, com as inscrições "Adubai com Nitrato do Chile". Além deste produto, havia publicidade utilizando o mesmo suporte aos portuguesíssimos pneus "Mabor General", com esta inscrição a preto, envolvida pelo G a vermelho, sobre azulejo branco.

            Alguns subsistiram ao tempo e ainda se conservam nos locais onde foram implantados. Eram os meios de propaganda do Portugal dos anos 70, da minha meninice. Além destes, era frequente encontrar-se na estrada, os pitorescos cartazes do "Licor Beirão", numa época em que na televisão, se repetia as maravilhas do "restaurador Olex" e da "pasta medicinal Couto".

            Poderia evocar o "homem da Regisconta", a figura escura da capa do "Porto Sandeman", partir daqui para outros anúncios televisivos, tipo o da "Laranjina C", ou os históricos da "Citroën", ou da "Coca-Cola" e de recordação em lembrança, perfilhava-se uma série completa, tipo "Anúncios de Graça", completando com os produtos industriais da cidade de outrora, os reclames luminosos "máquinas de costura Oliva" e o boneco dos "colchões Molaflex". 

            Atalhando, porque a hora de fecho da edição começa-se a aproximar e a redacção perde a paciência com os meus atrasos, volto aos nitratos, para justificar a sua evocação. Uma referência ao composto químico, à guerra do Pacífico, entre vários países sul-americanos, apareceu nas minhas incursões literárias. Só por aqui, já tinha premissa justificativa para a recordação.

            Continuando no Chile, evoco agora escritos curiosos pela mão de uma geração de escritores, que viveram na juventude a ilusão da vitória democrática do socialismo. Quando iniciaram as suas prosas muitos anos mais tarde, não é raro encontrar-se as menções a familiares incompreendidos, não alinhados na aventura colectiva e também não indiferentes à revolução militar, reprovando-a. Normalmente, com a incerteza literária, esses antepassados dos escritores são referidos de forma respeitosa e sente-se nas palavras escolhidas uma ponta de nostalgia, por só perceberem os pensamentos desses familiares, pelo traquejo adquirido.

            Desenrolando… eram pessoas que acreditavam sobretudo na humanidade. Uma ideia utópica com traços comuns na obra literária de Miguel Unamuno e Frederico Lorca, para citar escritores ibéricos, finalizando com Miguel Torga e Teixeira de Pascoaes. Repugnava-lhes qualquer ideia de Estado centralizador.

            Apressando o raciocínio…

            Nos tempos actuais, assistimos ao regresso do Estado a vários sectores da nossa vida social. Se esta preocupação é felizmente comum às várias ideologias políticas, não sendo exclusiva de nenhuma sensibilidade, nem partido político, como em tempos defendi nas páginas deste jornal (Setembro de 2007), já a interferência do Estado nos mais variados sectores, é mais difícil de enquadrar na generalidade dos partidos políticos Portugueses.

            Nos últimos anos temos assistido à "municipalização" de S. João da Madeira! Quem observar com atenção as páginas dos jornais locais, verifica com facilidade o peso da Autarquia na edição de notícias. Além dos relatos das reuniões Camarárias, das Assembleias Municipais e de Freguesia, existem várias páginas dando conta de obras em curso, inaugurações e projectos futuros. Fora esta perspectiva de construção, temos uma série de iniciativa promovidas… pela Autarquia, ou com a sua bênção, nas mais variadas áreas. Ou então, a lista de subsídios atribuídos… pela autarquia. E no meio disto tudo, surgem artigos de "opinião" que compilam as notas informativas emitidas… pela autarquia. A situação é de tal forma asfixiante, que chegou-se ao ponto de se transcrever afirmações de um programa televisivo de debate político nacional, no qual o Presidente da autarquia faz parte do painel de comentadores (obviamente o visado não tem qualquer interferência no assunto).

            Numa cidade que é reconhecida pela sua capacidade empreendedora, pela iniciativa das suas gentes, pelo dinamismo dos seus empresários, verificamos que algo está errado. Entre o que as notícias publicadas transcrevem e o que deveria ser uma cidade activa e criativa, existe uma grande diferença. Salvo raro excepções, como por exemplo, a recente acção promovida por um grupo de empresários na Rua do Dourado, criando um espaço de apoio aos pais, que pretendendo fazer as suas compras nesta quadra de Natal, na zona pedonal, podem ali deixar os seus filhos entretidos.

          Não me alongo mais, até porque o limite de espaço e de tempo pretendido pela redacção já foi ultrapassado.

            Para facilitar as próximas edições do jornal, decidi entrar de férias das escritas até Janeiro. Por isso, envio a todos os leitores votos de umas ecuménicas Boas Festas.
 
(a publicar dia 18/12/08)

terça-feira, dezembro 09, 2008

Hajime

                Poucas são as memórias físicas sobreviventes das primeiras edições do Campo de Férias Estamos Juntos, realizado nas traseiras da Escola Primária do Parque. A envolvência e o próprio Tanque - Piscina de 12,5 metros foram reduzidos a escombros, com o intuito de se renovar e modernizar o parque escolar do concelho.

            Dali pouco resta como testemunho dessas organizações, com a excepção da sala (refeitório, senão me engano) utilizada para várias actividades, uma das quais em colchões, o judo.

            Voltar ao "pecado original", digamos assim, é sinónimo de que algo ainda não está bem resolvido na vida da Associação Estamos Juntos. Não no seu dia-a-dia, nem nas actividades que esta Associação desenvolve, para que fique claro e não crie confusões no seu quotidiano.

            Ao longo de todos estes anos de vida da AEJ, permaneceu sempre a ideia de se criar uma secção de judo, para proporcionar o seu ensino a crianças desta cidade. A modalidade tinha surgido, conforme referi, nos primeiros anos, era do agrado dos seus sócios fundadores, pelos princípios desportivos envolvidos – mais ágil, mais flexível, mais rápido e mais forte – e pela imposição de auto-domínio, de capacidade de decisão, de resistência à fadiga e de superação de dificuldades.

            Eu próprio, enquanto presidente da AEJ, no ano 2000 fiz uma tentativa, mal sucedida, para retomar dentro do campo de férias a divulgação do judo.

            Uma outra dinâmica, com a oferta de diferentes modalidades foram melhorando a actividade da AEJ e o judo foi sendo lembrado esporadicamente, no entanto, é necessário reconhecer, ia ficando adiado. Em paralelo, em Santa Maria da Feira arrancava um projecto de formação desportiva, tendo como uma das modalidades, precisamente o judo. Escusado será referir que, atendendo a que tinha por resolver a "falta" da AEJ, inscrevi o meu filho nas respectivas aulas.

            Em Junho passado, quando tive conhecimento do regresso do judo ao Campo de Férias fiquei todo contente. Fui perguntando, sempre que apropriado, pela adesão dos participantes, pela qualidade do trabalho efectuado pelo monitor, esperando que a secção, entretanto, nascesse.

            Em Novembro, recebendo um convite para visitar a extensão da sede da AEJ, nas Corgas, apercebi-me que a modalidade não tinha arrancado e para grande mágoa minha, em Santa Maria da Feira estava tudo parado. Habilmente, nem ele sabe quanto, Pedro Neto, presidente da AEJ, colocou o problema sobre os meus ombros. Devido ao elevado custo de aquisição, faltava encontrar uma solução para os colchões, tatamis em linguagem técnica da modalidade. Apenas isso, pois o técnico tinha ficado apalavrado desde o Verão. Sala, há pelo menos uma disponível no pavilhão das Travessas e os praticantes haveriam de aparecer, certamente.

            Quinze dias decorridos, libertei-me deste peso, conseguindo de um clube da cidade do Porto, o compromisso de empréstimo dos tatamis.

            Coloquei neste processo grande entusiasmo, como o tinha feito há dezoito anos no lançamento do Xadrez, ou nas primeiras conversas, em 2001, com o Ricardo acerca de Capoeira e na concepção do projecto "AEJ – clube das Corgas". Não posso deixar de negar que a motivação adveio da possibilidade de resolver um problema familiar e com isto permitir à AEJ abrir mais uma página na diversidade de modalidades e actividades desportivas.

             Hajime, palavra japonesa no título deste texto, significa no léxico técnico do judo, começar e é utilizado pelo árbitro para dar início ao combate. E no fundo, é só isto que falta.

 

(a publicar no dia 11/12/08) 

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Da Sétima

            O meu interesse pelas artes começou no cinema.

            O privilégio de viver perto do Porto, permitia-me aceder à cidade e no raio de um quilómetro ter várias salas de cinema à disposição. Logo na Praça, junto à paragem de autocarros, havia quatro salas, duas em pleno Batalha, uma ao lado e outra em frente, no Teatro S. João, convertido em sala de projecção. Também o Coliseu e a sua sala mais moderna e apropriada, Passos Manuel, tinham sessões cinematográficas. Nessa rua mais uma sala e descendo um pouco, havia mais oferta, em duas salas de Teatro convertidas à sétima arte. Sem caminhar muito, podia-se aceder ao bestial cinema Trindade, ou optar pelas duas salas do moderno Lumière, ou ainda pelo Teatro Carlos Alberto, ainda com sessões. Um total de treze salas, que não era a totalidade da oferta da cidade.

            Isto em meados da década de oitenta do século passado e beneficiando de um tarifário de autocarro extremamente baixo, que permitia a deslocação de S. João da Madeira para o Porto, por apenas cinquenta escudos. Estes dois factores, de forma conjunta para quem tinha horário disponível para assistir a sessões com transporte colectivo assegurado, ou isoladamente em horários complementares aos profissionais, permitiram a várias pessoas desta cidade assistir a sessões de filmes, que no nosso imaginário são sempre lembradas como empolgantes.

            Este gosto pelo cinema já se fazia sentir num passado mais remoto, só que o declínio de assistência nas sessões projectadas no cinema Imperador, suportada por uma programação intratável, traduziu-se na proliferação de vários clubes de vídeo na cidade, alguns dos quais resistentes e com mais de vinte anos de existência.

            Esta adoração pelo cinema e pelo vídeo são sinais de que a cidade jamais foi um local habitado por gente acéfala.

            Se o aluguer de k7 e DVD permitiam seguir os filmes mais comerciais, mais procurados pelo grande público, existia e ainda subsiste uma série de filmes de culto disponíveis para arrendamento.  

            Foi através deste sistema que mais tarde acedi à história do cinema americano, aos êxitos de Hollywood dos anos 60 e 70 e a muitos dos anos 80, que a pouca idade não me autorizava a visionar.

            Descobri desta forma uma série de filmes das verdadeiras lendas do cinema e pude apreciar o talento de carismáticos actores, actrizes e de vários realizadores arredados da televisão e afastados pelo tempo das grandes salas.

            A maioria dos filmes de Paul Newman, de quem sou apreciador, descobri-os em casa, no sistema Betamax. Em Setembro, no dia seguinte ao da sua morte, depois de lidas as notícias referentes, procurei imagens dos seus filmes na internet. A certa altura, estava a recordar Steve Mcqueen.

            Um exercício que, vim a verificar, aconteceu a muita boa gente.

            Provavelmente pela semelhança na cor dos olhos.

            Ou pelo rótulo de grandes actores desaparecidos.

            Alguns lembraram-se da sua juventude, no processo de procura de identidade e com a identificação pelas personagens interpretadas por actores de cinema. Tudo distante da maturidade.

            Ao rever, por mero acaso, “A grande evasão” percebi porque tinham surgido as saudades pelo desempenho do actor. Desviado das performances de moto, havia, haverá outros valores a destacar. A coragem, a iniciativa, a expressão irrequieta, os olhos sem tréguas ao azul, tentando perceber se, afinal de contas, a inquietude da juventude é coisa para um homem crescido fazer. 

 

 

(a publicar no dia 04/12/08)

terça-feira, novembro 25, 2008

Casas com música

A reconversão de edifícios com valor arquitectónico, ou interesse histórico e público para fins culturais foi um processo iniciado a partir do século passado.

Várias casas, de construção secular, com maior ou menor dimensão, perpetuaram-se até aos nossos dias, pela sua utilidade para local de ensino de artes.

Todo o conceito estaria correcto se o estado de conservação desses imóveis não se tivesse degradado ao longo dos anos. A necessidade de obras de restauro, respectiva reabilitação e adequação a conceitos intrínsecos das várias artes, nem sempre foram conseguidas, ou ficaram adiadas durante anos, por falta de cabimento orçamental.

Neste particular, existiam condições diárias de ensino sem qualquer isolamento térmico, obrigando a gastos suplementares, para se obter a respectiva e necessária climatização, aumentando em muito os custos da gestão corrente de vários estabelecimentos, sempre aflitos para cumprir os seus compromisso programáticos e curriculares.

Qualquer notícia de projectos de modernização dos equipamentos culturais da cidade é efectivamente bem recebida. Peca por tardia a intervenção no Centro de Arte e futuramente na Academia de Música, na qual me vou debruçar no próximo paragrafo.

Segundo veio a público durante o presente ano, a Câmara Municipal de S. João da Madeira pretende restaurar o edifício, onde no século XIX funcionou uma escola primária. O projecto escolhido, da autoria do arquitecto Carvalho Araújo prevê uma série de melhorias, com destaque para o futuro auditório, localizado no centro do edifício, tendo o conceito de foyer da Academia. Além deste importante melhoramento, não foram descurados os isolamentos acústicos deste novo espaço e dos adjacentes, assim como a ventilação e iluminação naturais. A Academia de Música ficará de face renovada, com mais e melhores serviços, onde se inclui uma mediateca e camarins de apoio ao auditório.

O custo total da obra será de setecentos e cinquenta mil euros.

Tudo estaria certo se os conceitos de ensino de música não se tivessem alterado, há já alguns anos. Refiro-me concretamente à proliferação pelo país de Escolas Profissionais de Música, com a adesão de vários jovens, em idade de escolaridade obrigatória.

Esta será a grande amputação ao projecto apresentado, por não prever um apêndice às actuais instalações da Academia de Música, para instalação de uma Escola Profissional. Deste modo, conseguir-se-ia aproveitar sinergias físicas entre as duas escolas, nomeadamente e na partilha de experiências entre alunos.

Este pólo dinâmico de ensino de música seria importante para uma cidade, que pretende diferenciar-se pela cultura. Não apenas pela construção ou reconversão de edifícios mas, pelas sensibilidades, idiossincrasias e talento das suas gentes.

Não emito esta opinião, apenas como reacção ao “trabalho de casa” efectuado por uma concelhia partidária, que sugeriu o aproveitamento das Quintas dos Condes para instalação da referida Escola Profissional.

Nos próximos anos, na área cultural da cidade prevê-se a reconversão do Cinema Imperador, o aproveitamento da Torre da Oliva, além das obras referidas de restauro do Centro de Arte e da Academia de Música. A estes, junte-se os inaugurados recentemente Paços da Cultura e Museu da Chapelaria e teremos suficientes centros de cultura, para uma cidade com oito quilómetros quadrados.

É para a área do conhecimento que a cidade deve convergir. Vejo vários pólos do programa “Ciência-Viva” a serem inaugurados por todo o país. Em S. João da Madeira restam poucos locais na sua zona central para acolher um centro de ciência com capacidade de desenvolver actividades não só no seu interior, como também no exterior. A Quinta dos Condes preenche esses requisitos e a sua disponibilidade para a totalidade da população seria de equacionar. Além disso, este tipo de atracções fazem movimentar no nosso país uma série famílias, vocacionadas para a visita destes “centros”, não se importando com distâncias a percorrer.

Espero que não haja falta de sensibilidade, para implementar estes conceitos modernos do nosso quotidiano.

Não queria terminar sem referir que o atraso da cidade na área do ensino de música, via Escola Profissional, obriga a uma menor de quinze anos, residente nesta cidade, a deslocar-se diariamente para Espinho e a regressar no final das aulas, gastando mais de hora e meia em viagens, via comboio. Como penso não conhecer pessoalmente a estudante, não refiro o seu nome mas, gostaria de enaltecer o seu espírito de sacrifício, pois de outra forma não conseguiria estudar tão intensamente o instrumento musical de eleição.

(a publicar no dia 27/11/08)

quarta-feira, novembro 19, 2008

Nem vai, nem vem

A propósito do centenário da inauguração da linha do Vouga e consequente comemoração neste próximo fim de semana, voltou a ser referida a hipótese de adaptar-se sobre a mesma linha um transporte tipo vai e vem, servindo apenas a cidade de S. João da Madeira.

            Até hoje nunca li um argumento válido para a instalação de tal transporte. Nem percebi em que estudos se baseou a autarquia para verificar qual a sua viabilidade económica e o interesse público de tal obra. Tenho sérias dúvidas sobre a competitividade deste transporte: pela sua extensão (no máximo terá dois quilómetros, com três paragens – ou seja, cada paragem distará da seguinte menos de um quilómetro); pela rigidez dos carris, que não servem a totalidade da população nas suas deslocações internas (numa cidade em que existem transportes colectivos rodoviários a atravessá-la de norte a sul, de este para poente); e considerando que o preço a pagar por um bilhete, será obrigatoriamente barato, tornar viável tal investimento será difícil. Mesmo que esse valor seja reduzido, ou até comparticipado, suportar os futuros custos de exploração de tal transporte não será nada fácil.

            A implementação deste transporte foi uma promessa eleitoral. Não se conseguindo, até ao momento, apoio por parte da secretaria do Estado dos transportes, o executivo municipal avançou com as obras de modernização do Centro Coordenador de Transportes (CCT). Com a sua conclusão praticamente conseguida (mais pala, menos pala), a autarquia inverteu a lógica dos argumentos. Aplicando a técnica do facto consumado, quer-se fazer crer que, as melhorias efectuadas no CCT só estarão completas caso o transporte vai e vem seja uma realidade.

            Esta obsessão relembra-nos os tempos de promoção da Circular Externa, que durante anos agitou a política local e deu em nada, se não considerarmos o pontão do Orreiro, nem o aumento da dívida da autarquia.   

            A linha do Vouga tem merecido outro tipo de atenção ao longo dos últimos anos. O seu actual estado de conservação é péssimo – vários troços foram encerrados por falta de segurança –, são imensas as passagens de níveis “sem guarda”, várias estações e apeadeiros estão ao abandono. Deste estado decrépito só as automotoras se salvaram, ao serem substituídas por outras, mais modernas, transferidas da linha da Póvoa.

Por vários motivos, o número de passageiros transportados tem vindo a aumentar. Apesar da ausência de conservação e da relutância em modernizar a linha, os habitantes da região voltaram a utilizar o comboio, entre as várias paragens existentes no troço entre Espinho e Oliveira de Azeméis. Perceber esta atitude, verificar as causas para este regresso ao transporte ferroviário, ajudaria a projectar uma melhor solução para a linha do Vouga, optando-se por um remate que sirva os reais interesses da população.

            Nestas páginas, defendi por várias vezes a ligação da linha do Vouga ao Metro do Porto. Da primeira vez que o fiz - em 2005 – até hoje, houve vários factores conjunturais que se alteraram: o preço do petróleo, a crise económica e consequentemente a revisão de alguns investimentos importantes para esta região, como a não transferência da Exponor para Santa Maria da Feira, evitaram que surgissem elementos externos capazes de alavancarem um projecto desta natureza.

            A extensão do Metro para sul do Porto é uma reclamação dos autarcas desta região. Prevendo-se no médio prazo, o alargamento dessa rede até ao cimo da Avenida da República de Gaia, é natural que se pensem em várias soluções, para se conseguir satisfazer as necessidades das populações dos concelhos a sul e a vontade dos seus autarcas.

            A grande vantagem da linha do Vouga, para ampliação do metro para sul, é o aproveitamento do seu actual traçado, permitindo reduzir os custos de expropriação. Contudo, a ligação de Espinho para Norte será sempre onerosa e por isso, só provavelmente a muito longo prazo é que será uma realidade.

Não queria terminar sem referir e recordar a opinião de vários especialistas em transportes, que defendem ser a melhor solução ferroviária para o sul do Porto, a criação de linhas suburbanas, devido às distâncias envolvidas, entre outras considerações técnicas.

A pouca disponibilidade de dinheiro para investimento público exige reequacionar-se os vários projectos definidos. A própria líder do PSD pressionada a esclarecer quais os pequenos investimentos públicos que não considerava necessários, foi peremptória ao apontar a futura auto-estrada Porto – Coimbra, precisamente a A32, como um disparate.

Dada a oportunidade, porque não pensar-se numa linha ferroviária para o traçado previsto para a auto-estrada, aproveitando-o para a Alta Velocidade e possibilitando a circulação de outras composições de médio curso?

Em aniversário da linha do Vouga, voltar a falar-se em construir uma linha ferroviária, para servir uma vasta região, era o melhor presente para uma população que carinhosamente sempre tratou o seu comboio por “Vouguinha”.

 

(a publicar no dia 20/11/08)

quarta-feira, novembro 12, 2008

Salbutamol

            Na estante onde arrumo os livros, tenho uma pequena secção para os livros novos. Por vezes, crio uma pequena fila de espera, acumulando alguns títulos. A ordem de leitura não segue obrigatoriamente a sequência de chegada e por vezes, livros permanecem mais tempo do que o que merecem, à espera de serem lidos. 

A presença em S. João da Madeira do escritor Valter Hugo Mãe, em outubro passado, permitiu-me tirar dessa prateleira um livro sem qualquer página lida, intacto, com o objectivo de recolher uma assinatura do autor e assim, acrescentar valor a um exemplar de uma das edições de “O apocalipse dos trabalhadores”.

            Este não foi o principal motivo da minha presença na referida apresentação, obviamente. Pretendia conhecer melhor o escritor, a sua obra, antes de a ler. Uma oportunidade que nem sempre surge. Perceber as motivações para a escrita, a forma como se constroem os personagens de romances, tudo em discurso directo.

            Durante a conversa, noticiada nas páginas deste jornal, o escritor contou uma curiosa cena do quotidiano da povoação na qual habita, as Caxinas, ali entre Vila de Conde e a Póvoa de Varzim. Utilizando palavras semelhantes às que se seguem, Valter Hugo Mãe referiu os constantes actos de solidariedade entre as vareiras, quase todas asmáticas, que esquecendo-se dos seus ventiladores para atacar a maleita, pediam um emprestado na rua à primeira conhecida que passasse. Recebendo em troca, além da salvação, os conselhos apropriados de quem já passou pelo mesmo, sentindo a morte tão perto.

            Eu, asmático, não deixei de me rever no desespero das varinas. Em particular por ter num dos bolsos do casaco o meu ventilador, conhecido pelos doentes de asma, por bomba. Uma precaução motivada por uma sucessão de alergias, provocadas pelo contacto com uma série de reagentes: mudança de clima, presença de ácaros e o pêlo de animais, etc..

Não foi só estar com o objecto, que me fez sorrir. O relato do dia-a-dia vareiro era semelhante a um daqueles dias terríveis, para qualquer asmático: estar bem, sair de casa desprevenido, sem qualquer ventilador e passado um pouco, derivado ao contacto com um qualquer factor alérgico, começar a complicar a oxigenação do corpo.

            Não é costume andar “armado” com a bomba no bolso. Em geral, fica em casa. Por vezes, vejo-me obrigado a regressar aceleradamente a casa, para uma inalação salvadora. Outras vezes, tento uma farmácia. Ser conhecido como doente crónico, permite-me comprar o inalador, sem qualquer questão. Nos locais em que não me conhecem, vendo o estado em que me encontro, não criam obstáculos. Várias vezes, enquanto espero pela emissão do recibo, já a caixa está aberta e o ventilador na mão. Não por desconfiança mas, para uso imediato. Se se atrasam um pouco, já o ventilador sai da farmácia com uma dose a menos e com a dilatação dos brônquios efectuada, devido à intervenção da substância química salbutamol. Um alívio imediato a 1,8 cêntimos de euro por cada inalação, caso não seja comparticipada.

Uma dependência, que apesar de vários tratamentos alternativos, não consigo deixar.

Já fiz contas. Até hoje devo ter usado trezentos inaladores da marca mais conhecida dos asmáticos, o que equivale a sessenta mil doses para eliminação do sopro interno, semelhante aos dos pequenos felinos. Todos estes números serão aumentados, consoante a minha longevidade. Caso duplique a minha idade actual, poderei atingir as cem mil doses.

            Por agora, vou regressar à leitura. Precisamente a Valter Hugo Mãe. O livro referido anteriormente ficou logo lido, nos dias seguintes à apresentação, tal foi a impressão deixada. Na fila de espera ficou um outro título do mesmo autor. Um livro que o projectou como escritor, permitindo-lhe vencer o prémio José Saramago em 2007. O seu título é “o remorso de Baltazar Serapião”.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Orquestra

Esta é a estória de Carlos, músico, tocador de tuba. Intérprete, vá lá. Membro de uma orquestra, por vocação e após longos anos de estudo. Um percurso difícil, trilhado a partir da infância, no momento em que interrompeu o sossego dos pais e proclamou a sentença futura: não quero mais aprender a tocar violino, prefiro tocar tuba.

Fez-se silêncio.

Os pais pediram-lhe que explicasse a nova escolha. Carlos, a medo, disse que preferia sons graves, que enchessem a sala. Os progenitores referiram vários instrumentos de sopro adjectivando-os. A beleza da flauta, o sublime clarinete, o enigmático oboé, o majestoso fagote, o triunfante trompete e de todos desdenhou Carlos. Os pais, entendidos em música, tentaram convencê-lo a tentar o sensual saxofone ou outros instrumentos de sonoridade grave, como o trombone e até as imponentes trompas. Sem efeito.

Carlos apreciava o som da tuba. Nos concertos a que assistia vibrava com o toque deste instrumento. Não muito dado ao esforço, verificava que nas grandes obras sinfónicas, a tuba tocava pouco, contudo, sobre isto nada disse aos pais. Estes lembraram-se de sugerir violoncelo, ou contrabaixo. Sim, contrabaixo, igualmente com um som grave, para Carlos seria mais fácil devido à analogia de instrumento de cordas. O filho já tinha pensado nisso, apreciava o som emitido, no entanto, o seu intimo sabia que encher os pulmões e conseguir tocar notas bem graves seria mais do seu agrado.

Tuba, quis rematar a conversa. O pai, que ia perdendo a paciência com a teimosia do filho, explicou-lhe as dificuldades possíveis em aprender a tocar o instrumento. Apesar disso, Carlos tinha a lição estudada e sabia que na Academia local era possível aprender, pois tinha já um professor e alguns alunos. A insistência final do pai, cedendo à vontade do filho, foi no sentido de o acautelar sobre o futuro como músico, dizendo-lhe que a partir de certa idade havia vontade de actuar mais em público, não apenas em audições de final de período mas, em projectos colectivos e sabia que não era fácil enquadrar uma tuba. “Daqui a uns anos, enquanto estudares no ensino secundário, as hipóteses de tocares em grupo será pertenceres à Filarmónica, interpretando músicas de um género diferente do que vais estudar, até porque aqui no concelho não vejo qualquer vontade em apoiar a criação de Orquestras”.

Os anos seguintes de Carlos passaram-se entre estudo de escalas e a sonhar estar em palco tocando os concertos de alguns compositores importantes, como Berlioz, Wagner e Bruckner, em especial os que integram solos de tubos. Aos dezasseis anos entrou para a banda filarmónica conforme o pai previra. O gosto pela música e a capacidade de execução do instrumento facilitaram-lhe o suporte harmónico, no entanto, passou a tocar de ouvido sem qualquer esforço de estudo ou de execução.

Não abandonou os estudos clássicos e percebeu os avisos recebidos do pai, ao escolher o seu instrumento. Não desistiu de entrar numa orquestra. Sofreu com o ostracismo dado pelo poder político aos músicos. Em idade de formação não lhes era atribuída nenhuma importância. Os seus colegas e amigos de desporto recebiam prémios e distinções, os melhores alunos da escola também. Para os músicos nada. O apoio dado à música em geral, pela autarquia, era no sentido de restauro de instalações e de promoção de concertos com músicos consagrados, oriundos de outros locais.

Carlos jamais desanimou. Prosseguiu os estudos superiores em música e no seu instrumento de eleição. Até que um dia conseguiu entrar numa orquestra de dimensão nacional. Um dia memorável, embora Carlos tivesse passado pelo embaraço que a seguir se relata.

Na sua estreia como novo membro, Carlos estava nervoso. A orquestra entrou em palco, os músicos com os seus instrumentos foram para as respectivas secções. Carlos colocou-se na parte de trás do palco, local reservado para os instrumentos de sopro, designados como metais. Atrás de si estavam os instrumentos de percussão, um pouco mais ao lado os restantes sopros, os instrumentos de madeira. Entre si e o maestro, vários colegas, cada qual com o seu arco, empunhavam violinos, os mais afastados de Carlos e mesmo à sua frente vários violoncelos e os seus colegas do contrabaixo.

Iniciado o concerto, o pensamento de Carlos fluiu, um mau hábito adquirido do tempo da adolescência. Olhava em redor, observando a magnificência da sala, completamente cheia. Reparava no público, nas suas caras de satisfação.

No tema inicial, a tuba não tocava. Chegou o momento de entrar em acção. Olhou para a pauta e reparou que a partitura estava vazia. Atrapalhou-se, não conseguindo assim tirar as folhas do local onde estavam arrumadas. O maestro fez sinal para iniciar o segundo tema. A tuba foi colocada ao colo e a boca aprontou-se. Seriam uns acordes e até tocar de novo, retiraria a pauta e colocava-a aberta na partitura.

Toda esta trapalhice, desconcentrou o músico que tocou várias notas completamente erróneas. Apesar da má cara do maestro, os restantes músicos prosseguiram a execução da melodia. Todos não, os do contrabaixo ficaram a rir-se e não se conseguiam concentrar. Ao lado de Carlos, os tocadores de trompas estavam mais que divertidos e riam-se também. O riso de uns contagiou os outros e em certo momento, o maestro vendo que só os violinos o seguiam deu por finalizada a música.

O público sem se aperceber do sucedido bateu palmas. Os mais melómanos não sabiam como reagir. Carlos extremamente transpirado colocou a pauta no sítio, pediu desculpa ao maestro, esperou que as palmas finalizassem e que os seus colegas parassem de rir.

Com alguma naturalidade, o maestro dirigiu-se ao público explicando que retomariam o concerto, mal terminasse o ataque de riso dos membros da orquestra, lembrando-se de uma história apropriada com outra orquestra, que culminou num concerto a todos os níveis brilhantes.

Compostos todos músicos, escusado será relatar o memorável concerto ouvido pela assistência.

(a publicar dia 06/11/08)