quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Jet lag

            Imaginem o seguinte cenário: um corte de electricidade nocturno de rápida resolução - um sujeito a dormir, sem se aperceber da falha.

            O despertador digital, equipado com pilha apropriada para manter o seu funcionamento em caso de falha de energia eléctrica, toca à hora programada. Prontamente desligado, o despertador merece desconfiança, pois estranha-se a escuridão no exterior mas, voltando a olhar para o mostrador acredita-se que, por ser Inverno, o céu está mais nublado do que o costume e por isso o amanhecer parece mais tardio.

            Antes de sair de casa, ao tomar o pequeno-almoço, uma nova surpresa, o relógio agregado ao fogão indica uma hora completamente diferente, meia - hora mais cedo do que a observada no quarto. Desconfia-se. O telemóvel, que podia servir para tirar as dúvidas, está desligado, sem qualquer carga. Olha-se para o exterior, para nascente e em lugar de nuvens vemos o céu limpo, embora sem raios de sol, apenas o clarear do dia.

            Nada melhor do que ligar a televisão, pois enquanto é emitido o noticiário matinal está sempre visível o relógio. Azar. Publicidade no ar. Espera-se um pouco, por preguiça para fazer zapping. Opta-se por executar outra tarefa rápida, como colocar o telemóvel à carga e quando se olha de novo para a televisão, surge a informação do trânsito. No ecrã dois relógios, um do canal e outro associado às imagens recolhidas das cidades. Entre eles, uma diferença de três minutos. Acredita-se que estará certo o do estúdio.

            A diferença para a hora de casa é mais quinze minutos para o fogão e menos quinze para o quarto. Aqui o cérebro começa a funcionar. Deduz-se que houve uma falha de electricidade durante a noite e o funcionamento com alimentação da bateria provoca este tipo de adiantamentos. Baralhado, involuntariamente com menos quinze minutos de sono numa noite, entra-se no automóvel e o relógio indica por sua vez, uma outra hora, ajustada à entidade patronal. Durante a viagem, na emissora seleccionada ouve-se o sinal do noticiário, mais cedo dois minutos do que a hora certa. O cérebro não se ajusta a estas antecipações, formatado durante anos para os noticiários a serem apresentados hora a hora, sem mais ou menos minutos.

            Já no trabalho, duas novas observações horárias. No monitor do computador, o relógio visível do lado inferior direito, não se sabe bem porquê, está sempre atrasado. Por seu lado o telefone portátil, com o seu relógio incorporado, tem tendência a perder a data e hora marcada, pelo que a confusão torna-se ainda maior.

            No acerto do ritmo biológico procurar a hora certa é importante. Faz-se um esforço para ajustar os relógios disponíveis, acertando-os todos e procurando que o telemóvel pessoal fique exacto também.

            Chegado ao fim do dia é o inverso. Chega-se a casa e ao deparar-se com o relógio da cozinha, a sensação que se tem, é que se chegou mais cedo do que é costume. Ao fim da noite, ao entrar no quarto e vendo o despertador quinze minutos adiantado, podem acontecer duas situações, se a noite foi mais do que alongada, o natural é adormecer e esquecer a hora certa. Caso o trauma dos quinze minutos perdidos nessa manhã não tenha sido esquecido, o melhor é mesmo ajustar o fuso horário.

 

(a publicar dia 11/02/10)

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Choque fiscal

            Não existe em Portugal um partido político que olhe para os impostos do mesmo modo que a maioria dos cidadãos, ou seja: devem existir, para fazer face ao que é considerado como absolutamente necessário à comunidade, a começar pelas despesas que visem assegurar o exercício das funções de soberania e a terminar em determinadas despesas de âmbito social; por outro lado, o valor cobrado deveria tender para sucessivas e controladas descidas, para evitar o endividamento público.

            Em 2002, este conceito, de choque fiscal, não passou de promessa eleitoral e rapidamente foi esquecida. Na confusão ideológica do espectro político Português, esta noção liberal poderia ajudar a distinguir os partidos políticos. Porém, as práticas de governação demonstram o contrário.

            A nível da gestão das diversas autarquias, seria de esperar uma rotina diferente, sobretudo de quem defende a ideia de “menos Estado, melhor Estado”.

            Veja-se o exemplo de dois municípios, S. João da Madeira e Ovar, próximas em termos geográficos e cada qual com um partido político “antagónico” à frente da respectiva autarquia. O IMI – Imposto Municipal sobre Imóveis – para prédios urbanos, em S. João da Madeira passou do valor máximo 0,7% para 0,6%, nos últimos dois anos. Em Ovar a taxa aplicada no mesmo período foi sempre o menor valor permitido, 0,4%.

            É de salutar a contracção verificada neste capítulo pela autarquia local, notando-se que esta quebra na receita não tem expressão no desempenho financeiro da autarquia, ou pelo menos, nenhum dos críticos lhe atribuiu qualquer importância. 

            A factura da água é também elucidativa. O valor fixo em S. João da Madeira é de 6,54 euros, correspondente ao somatório da tarifa de disponibilidade 4,69 euros e da taxa de resíduos sólidos 1,85 euros. Do município de Ovar, que começou a cobrar tarifa de disponibilidade a 1,8 euros a partir de 2009, o valor fixo na factura da água fica em 4,8 euros.

            Com estes dois exemplos pouco ou nada se pode concluir, dirão alguns. O exercício deveria ser alargado a todos os impostos cobrados directa ou indirectamente pelas duas autarquias. A comparação da totalidade dos itens pode conduzir a interpretações diferentes, no entanto, ao escolher estes dois exemplos demonstro que nestas duas rubricas, o município de S. João da Madeira está distante do chavão referido em parágrafo anterior. Pelo menos na parte quantitativa.

            Soluções para receitas alternativas, despenalizando o munícipe é o que se espera.

            A valorização dos resíduos sólidos, efectuada a partir da separação selectiva executada pela população, constitui uma hipótese de receitas que não deve ser descurada. Ora, traçando-se metas, objectivos para a tonelagem a recolher e posteriormente valorizar num determinado ano, o efectivo cumprimento desses fins, poderia no ano seguinte reverter em diminuição da taxa de resíduos sólidos, por exemplo. Ou em qualquer outro imposto ou taxa municipal.

            As boas práticas, conforme verificado no final do ano passado, com a recolha dos papéis de embrulho e caixas de cartão dos presentes de Natal, devem ser recompensadas. 

 

(a publicar no dia 04/02/10)

quarta-feira, janeiro 27, 2010

VIsita II parte

Antes de abrir a porta do seu apartamento, Ana olhou para o aspecto da sala, compôs o sofá e, em seguida, tirou a camisola de trazer por casa que trazia vestida, foi a correr ao seu quarto trocá-la por uma mais decente. Olhou para o espelho para ver o seu aspecto. Corrigiu o cabelo, mexeu na face, para obter uma cor e dirigiu-se para a porta, intrigada.
Beto não carregara na campainha. Com os dedos bateu suavemente na porta. Cumprimentaram-se com dois beijos. Beto nunca sabia quais as amigas que cumprimentava com um ou dois beijos, com excepção desta, pelo que não hesitou entre o primeiro e o segundo. Beto falava muito baixinho. Ana convidou-o a entrar para a sala. Cedendo a passagem a Ana, Beto reparou na sua camisola, não deixando de comentar com ela como estava elegante. Ana sorriu, reparando que Beto estava um pouco esquisito. Ofereceu-lhe uma bebida, ao que Beto respondeu água. Enquanto esperava pela bebida, Beto olhou para o telemóvel. Ana entrou e respondeu às questões do amigo, relacionadas com o seu filho, a sua vida como progenitora a solo, o paradeiro do seu ex-companheiro, além de pormenores da sua vida profissional e pessoal. Ana continuava com a ideia de que Beto não estava bem. Não lhe pareceu sob efeito de álcool e sabia que a sua visita não consumia drogas, no entanto, parecia-lhe que Beto estava demasiado ansioso, nervoso. Por isso, interrompeu-lhe o questionário, perguntando-lhe o óbvio, o que fazia ele por ali, longe de casa, numa noite de semana?
- Para ser sincero – disse Beto, levantando-se do sofá e dirigindo-se para a estante escura, onde Ana arrumava os livros – fiz estes duzentos quilómetros porque precisava de estar contigo.
Ana ficou duplamente sobressaltada. A resposta incomodou-a e viu Beto a pegar no livro que andava a ler, precisamente. Beto voltou com o livro na mão para junto dela, sentou-se muito perto de Ana e foi respondendo às questões da curiosa Ana. As suas explicações não tranquilizaram a amiga. Ana insistia em obter melhores explicações e percebeu que a vida de Beto Rouquinho estava uma grande confusão. Segundo ele, tudo lhe corria mal, queria começar uma vida nova. Pegou no livro, leu o título alto e perguntou a Ana sobre o livro. Esta engasgou-se, dizendo ainda não o ter lido, que andava a ler um outro autor, que estava no seu quarto. Recompôs-se e assertivamente voltou ao tema da visita do amigo
Beto pousou o livro no sofá, fixando os olhos nos de Ana Maravilha. Viu a amiga ficar menos tensa. Olhou para os seus lábios e não desviava os olhos deles. Ana falava-lhe, procurando argumentar com os aspectos positivos da vida do amigo e este seguia os movimentos da sua boca. Aproximou a sua cabeça um pouco mais de Ana e fixou os seus olhos nos dela. Um par fixo no outro. Ana sentiu apreensão por aquele momento. Procurou desviar o olhar de Beto, só que este se não a olhava nos olhos, seguia a sua boca. Beto não resistiu e arriscou beijar Ana. Esta tentou esquivar-se. Beto afastou-se um pouco e pediu-lhe: Não me faças isso, Ana.
Os lábios de Ana estavam um pouco secos. Enquanto durou o segundo beijo, Beto sentiu os lábios da sua amiga a humedecerem. Ana estava envergonhada, queria que aquilo terminasse rapidamente. Precisava de pensar no que lhe estava a acontecer. Beto parou, encostou-se no sofá suspirando. Ana aproveitou aquela pausa para se recompor. Disse a Beto que precisava de um pouco de ar e saiu da sala, indo espreitar o seu filho. Quando regressou, Beto estava na mesma posição, com os olhos fechados, dir-se-ia dormindo. Ana sentou-se ao seu lado e como ele não reagiu, percebeu que ele adormecera. Voltou a sair para ir buscar uma manta, para o aconchegar. Nesse momento, tocou o telemóvel de Beto. Ana pensou que este atenderia rapidamente e ficou admirada com o segundo toque. Mais admirada ficou com o terceiro e ao quarto toque foi a correr à sala, puxando a porta atrás de si. Beto não se mexera. Sonho profundo, pensou Ana. O telefone parara de tocar. Ao abeirar-se dele, Ana ficou estática. Pressentiu o pior. A expressão da cara de Alberto mudara. O telemóvel de Beto acabava de receber um sms. Ana tocou-lhe, para este acordar. Olhou para o seu abdómen e não viu movimento. Procurou sentir as suas pulsações. Deu um grito agoniado.
Enquanto esperava pelo INEM, Ana tirou o telemóvel de Beto da sua algibeira. Olhou para o mostrador: vinte e sete chamadas não atendidas e 10 sms recebidos. Tinha que partilhar a sua angústia com alguém. Verificou a origem das chamadas e das mensagens recebidas. Todas de Dulce, esposa de Alberto Rouquinho. As luzes da ambulância viam-se pela janela. Ana arrumou o livro retirado na estante, abriu a porta e indicou onde estava o amigo. O corpo foi retirado da sala para possível reanimação, a pedido de Ana, preocupada com o eventual acordar do seu filho. O médico do INEM perguntou o grau de parentesco e Ana ficou sem saber o que dizer. Amiga, apenas amiga – disse. A má notícia tinha que ser anunciada à família. Ana tentou esquivar-se mas, ao ver o sorriso malicioso do médico, percebeu que não tinha como evitar mal entendidos

(a publicar dia 28/01/10)

terça-feira, janeiro 19, 2010

Visita

Num calmo e tranquilo serão de um dia de semana, Ana Maravilha encontrava-se na sala do seu apartamento envolvida na leitura de um livro. O seu filho dormia no respectivo quarto. Nessas horas disponíveis, até o sono se apoderar dela, Ana optava por ler. Em algumas noites, em especial se tinha terminado um livro e fazia uma pausa antes de iniciar um novo, Ana dedicava-se ao computador. As novas redes sociais entusiasmavam-na. Trocava mensagens com amigas e amigos, por vezes perdia-se na internet, em qualquer pesquisa apropriada à sua vida. Raramente via televisão, a menos se soubesse da emissão de alguma série ou filme imperdível.

Estava Ana disposta a terminar um livro de trezentas páginas nessa noite. Faltavam-lhe cerca de setenta para o final. O enredo tinha-a envolvido e agora, com um pequeno esforço, encerrava aquele volume. No seu lar reinava um silêncio sepulcral. Ouvia-se o virar de uma página de quando em quando e alguns ruídos do prédio produzidos pela vizinhança. Umas vezes a movimentação de elevadores, por outras o abrir ou fechar de portas, ou alguma conversa oriunda das áreas comuns do prédio, considerava Ana, que não se preocupava em saber donde provinham esses diálogos. Do exterior ouvia-se a passagem de automóveis, o tossir de algum transeunte, o diálogo mais eufórico de algum grupo. Nesse momento, Ana ouviu o bater da porta de um carro, outro som comum, escutou melhor para saber se tal automóvel tinha estacionado ou se iria arrancar. A sua preferência era sempre para paragem, um ruído isolado, em contraste com o iniciar de marcha, que alguns condutores cismavam em produzir elevados decibéis.

A necessidade de Ana em retomar em silêncio as suas leituras, para conseguir a desejada concentração, foi interrompida pelo toque do seu telemóvel. Pousou o seu livro em cima do sofá e foi a correr atender, para que o toque do aparelho não acordasse o seu filho. Quem seria àquela hora? Quando olhou para o visor, viu o nome de Beto. Interrogou-se sobre o que se passaria? Atendeu, para evitar o barulho em casa. Olá Beto – exclamou.

Beto Rouquinho, Alberto de baptismo. Amigo de Ana há muitos anos. Colegas de turma desde os primeiros anos de estudo. No final do secundário, cada um tinha seguido a sua vida. Beto casara e fora para longe. Ana oficialmente não casara e ficou na terra natal. Mantiveram a relação de amizade ao longo dos anos. Beto, enquanto os pais foram vivos, aparecia ao fim de semana e nas férias. Depois tudo se alterou, a família Rouquinho deixou de ter moradia por aquela localidade e Beto, só aparecia em casamentos, baptizados e funerais. Agora raramente se encontravam. Utilizavam os novos meios para comunicar. Trocavam sms pelo Natal, Passagem de Ano, ou nos respectivos aniversários. Além destas efemérides, um ou outro mail esporádico. Os telefonemas eram iniciativa de Beto Rouquinho e Ana Maravilha nunca deixara de atender. Passada a fase das cerimónias religiosas, os raros encontros aconteciam em reuniões de antigos colegas de turma. Amigos comuns promoviam convívios, com periodicidade incerta e Beto aparecia sempre. Sozinho. Ana, por sua vez, raramente comparecia. No dia a seguir a cada ausência, Beto telefonava-lhe. Desta forma, ficou a saber da separação dela e de outros episódios da sua vida. “Merecias melhor” – dizia-lhe Beto.

Olá Ana. Ainda moras no mesmo prédio? - perguntou Beto. Ana respondeu afirmativamente, pensando que Beto estaria a actualizar algum ficheiro de moradas de antigo colegas. Beto perguntou-lhe qual é o andar. Com a resposta de Ana, ouviu-se a campainha de casa a tocar. Ana assustou-se. Pensou no filho e disse – Beto, espera um pouco, tenho o meu filho a dormir e estão a tocar-me à porta, curiosamente. Vou ver quem é… Sorrindo, embora Ana não visse, Beto exclamou: Sou eu Ana. Estou cá em baixo.

Efectivamente, no vídeo-porteiro via-se a sua silhueta. Ana expressou o seu espanto e carregou no botão abrindo a porta do prédio, dando permissão a Beto para subir. Ficou intrigada com o aparecimento do amigo. Podia ter vindo assistir a algum funeral. Assistir ou participar, interrogou-se. Enquanto Beto não subia, certamente à espera do elevador, Ana fechou a porta do quarto do filho. Acendeu as luzes da entrada do seu apartamento e as da sala, lia sempre com pouca luz. Foi esconder o livro, que tinha ficado aberto. Ana tinha o estranho hábito de esconder os livros que andava a ler. Quando os terminava, não os ostentava, nem debatia com os amigos os aspectos da obra. O medo de ouvir uma informação prematura, uma depreciação ou o seu contrário, fazia com que Ana nada dissesse sobre os seus livros em estado de leitura. No final de cada, participava em fóruns de debate, como anónima, trocando várias impressões sobre o que acabara de ler, ou pormenores sobre o autor do livro.

(a publicar dia 21/01/10)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Democracia directa

            Alcanena, Ansião, Arganil, Batalha, Braga, Borba, Campo Maior, Évora, Figueiró dos Vinhos, Lousã, Mangualde, Miranda do Corvo, Murça, Óbidos, Oeiras, Ourém, Ovar, Pombal, Portalegre e Sousel são autarquias com algo em comum. Todas estas Câmaras Municipais aderiram à iniciativa do Portal Cidadão: A Minha Rua.

            Segundo se lê no próprio portal, este site “permite a todos os cidadãos reportar as mais variadas situações relativas a espaços públicos, desde a iluminação, jardins, passando por veículos abandonados ou a recolha de electrodomésticos danificados. Com fotografia ou apenas em texto, todos os relatos são encaminhados para a autarquia seleccionada, que lhe dará conhecimento sobre o processo e eventual resolução do problema”.

             A adesão dos munícipes a este serviço, que permite aproximar cidadãos e poder autárquico, varia conforme o concelho. Em Ovar por exemplo, desde o seu lançamento já houve a apresentação de 81 ocorrências. Em Braga, o cenário é diferente, só houve 12. Em contrapartida, Oeiras tinha 146 assuntos diferentes relatados, o que é indicador do grau de participação da população, em cada um dos municípios e também do seu nível de exigência, para com os seus autarcas.

            Esta facilidade dada ao cidadão, permite-lhe abrir portas, ficando o relator em contacto directo com a sua autarquia, sem a necessidade de perder tempo a deslocar-se a um atendimento municipal. Como o portal lista todas as ocorrências, indicando a data do relato e o estado do processo (em Análise ou Resolvido). Estamos perante uma ferramenta poderosa, para apreciar a capacidade de cada autarquia para resolução dos assuntos levantados. Por vezes, os processos são classificados como Não aplicável. Para terminar a apresentação das capacidades inseridas no portal, refira-se que para cada município pode-se ver um resumo indicando os assuntos, agrupados por tema, enumerando os já resolvidos ou ainda por resolver.

              Convém não esquecer que, este serviço do portal sofre da concorrência de um programa televisivo, embora, nem sempre o canal que o promove esteja disposto a filmar tudo o que lhe sugerem.

            Aqui em S. João da Madeira, o jornal labor encetou um blogue propondo algo do género. Em “Na minha rua”, assim se chama, é possível aos munícipes relatarem as ocorrências surgidas e necessitadas de intervenção pública.

            Mesmo na imprensa local existem especialistas em encontrar este tipo de ocorrências, para posterior divulgação nas páginas dos jornais.

            Apesar de todo o empenho dos munícipes e dos colaboradores dos jornais, fica sempre por esclarecer se o assunto levantado recebeu o devido tratamento da autarquia. Raramente é feito publicamente esse seguimento. Bem, quando o poder político é questionado sobre esses factos, normalmente surgem respostas tipo “leio sempre o jornal, só que nessa semana, não o consegui fazer”.

            Todas estas linhas aqui escritas podem obter o mesmo desfecho. Estou em crer que sim, no entanto, esta forma de comunicar entre população e autarquia é extremamente democrática, permite obter a participação dos munícipes e contribui para elevar a qualidade de vida no concelho. Tudo conceitos enraizados na vida dos habitantes da cidade, como consequência da actividade exercida pela autarquia nos últimos anos.

            Modernizar os serviços da autarquia, utilizando novos canais de comunicação, é no fundo isso que se trata.

            A garantia de resposta é importante para os munícipes, sobretudo, para sentirem que os seus problemas estão a ser tratados.

            Evita-se, para concluir, que os mais distraídos, incluindo os políticos, deixem de ter desculpa para não lerem certas coisas.

 

(a publicar dia 14/01/10)

             

 

 

quarta-feira, janeiro 06, 2010

A Norte

            A luz em certas zonas do alto Minho é única. Atravessei num final de tarde Caminha, regressado de Espanha e tive uma óptima sensação de bem-estar. A cor desenvolvida em volta do estuário do rio Minho, com o monte de Santa Tecla impondo-se na margem espanhola, na nossa o casario, o seu forte e à minha frente, a foz, o cabedelo, escondendo o mar, adivinhando-se o constante bater das ondas, toda a paisagem a transmitir a sua beleza, acrescentando-se os tons do céu, com as nuvens ou princípios de nevoeiro quase sempre uma constante, ficaram para sempre na minha retina, pela singularidade do momento.

            Regressei várias vezes a este cenário, resistente ao passar dos anos. Como turista fui conhecendo os serviços de restauração, as tabacarias e as vendas de jornais. Por razões afectivas envolvi-me mais na vila, passei a conhecer melhor as suas ruas, os seus monumentos, as suas casas, embora só as fachada, refira-se. Senti a humidade permanente. Passei férias em Moledo. Assisti às invasões semanais dos nossos vizinhos espanhóis, para gáudio dos comerciantes. Avistei as festas anuais, bem minhotas, provocando várias enchentes na vila.

            Ao longo desses anos, percorri algum comércio local. Fui cliente em algumas lojas, noutras apreciei o produto, as montras. Fiquei a saber o nome de alguns comerciantes, daqueles cuja loja não adapta o nome do proprietário. Lojas de rua, ou na galeria comercial. Com situações bem pitorescas, como as drogarias que mantêm o hábito diário de expor os seus produtos no passeio – bilhas de plástico, algumas alfaias agrícolas, bem no centro da vila.

            Um dia, tive que ir ao sapateiro. Saí do terreiro em direcção a poente. Entrei numa galeria e lá estava ao fundo o sapateiro. Quando entrei na loja, uma surpresa, um símbolo da Sanjoanense estava afixado na parede. Não me lembro se era um clássico galhardete, ou um quadro pendurado. Obviamente, dei a conhecer a coincidência ao artesão. Trocamos nomes, apelidos, embora nenhum reconhecesse o do outro. Pouco consegui tirar do homem, pouco dado à conversa. Era curioso, o sapateiro de Caminha ser natural da capital do calçado e imaginei uma diáspora de consertadores de calçado espalhados pelo país fora, ou pelo mundo para os mais aventureiros, como solução laboral para os operários locais, para fazer face à crise no sector, que já então se adivinhava.

            Fiquei sem perceber, qual o rumo de vida deste conterrâneo, penso que nem lhe perguntei, pois estaria a entrar na sua intimidade e a menos que surgisse de forma espontânea, gosto de respeitar a privacidade de cada um.

Às vezes lembro-me desse encontro. Pergunto à minha família residente no Minho, se o sapateiro ainda tem o seu negócio. A resposta nunca é clara, pois a sua loja não é visível da rua. Dá para perceber que arranjos de calçado são raros lá na família. Como eles, muita gente, por isso, não era lá grande ideia os concertos e arranjos de calçado, como ofício para parte da população de S. João da Madeira, desde sempre ligada a esse sector.

A melhoria de competências, a reconversão é mesmo a melhor solução para a população activa.

             

(a publicar dia 06/01/10)

              

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Sucessão

            O ano termina hoje. O calendário obriga à apresentação do balanço da actividade política de S. João da Madeira.

            O ano de 2009 ficou marcado pelas eleições autárquicas. Não pelo resultado, espectável, sem grandes surpresas, por isso, não sendo assunto apelante.

            Da invulgaridade dessas eleições destaca-se as leituras surgidas, no imediato, mais vocacionadas para a sucessão do actual Presidente, antecipando o que só acontecerá em 2013.

             A constituição das listas do partido vencedor das eleições tornou-se no primeiro acto dessas conjecturas. A ausência de determinado vereador compensada com a inclusão, em lugar de destaque, de um empresário local passou a ser alvo das mais variadas interpretações. Tudo foi examinado. No inicio, as preocupações estavam centradas na hipotética chamada para o Governo do cabeça de lista. Depois de infundadas pelo resultado eleitoral das eleições legislativas, as apreensões viraram-se para a atribuição da vice-presidência autárquica. Como a lógica partidária imperou e nada de especial aconteceu, a distribuição de pelouros, tranquila e sem surpresas parecia ser o último acto da formulação de hipóteses para a sucessão. No entanto, uma série de noticias relatando o desempenho político de deputados nacionais eleitos pelo distrito de Aveiro, onde se inclui o atrás referido antigo vereador, veio alimentar a tese supramencionada no anterior parágrafo.  

            Do lado da oposição, o ano de 2013 é fundamental. Em primeiro lugar, pela necessidade de rectificar os últimos resultados. Em segundo lugar, pela oportunidade de concorrer em igualdade de circunstâncias com o partido que lidera o executivo camarário, desde 2001. Pela amostra dos primeiros meses do actual mandato, o PS é único partido da oposição que está a preparar-se para a maratona. Mais participativo, pretendendo ver as suas propostas eleitorais incluídas em Orçamento, faltando apenas quantificá-las para tecnicamente melhor defendê-las, é visível um estado mais afoito, contrastando com a letargia a que esteve submetido nos últimos oito anos. Se a tudo isto juntarmos propostas alternativas, bem fundamentadas, pode-se dizer que em 2013, tudo será mais sério.

            Até lá, passando já para as projecções do próximo ano, o executivo camarário terá que cumprir as suas promessas eleitorais. Cumprir o seu plano de obras, inspeccionar a execução de empreitadas lançadas e esperar pelo cumprimento de promessas do Estado, feitas por antigos governantes. Neste inicio de legislatura atribulado, com a oposição parlamentar cheia de vontade de corrigir decisões do Governo anterior, seria uma terrível ironia que a auto-estrada A32 fosse vetada no parlamento.

            Nem só de obras vive a população.

             O orçamento municipal, com o respectivo plano de actividades, continua a ser preparado como carta de intenções, ficando sem se perceber quais dessas ideias serão reais para a autarquia. O que é lamentável, por razões de rigor e também pela expectativa criada durante o último ano, em que a acção social foi eleita como a grande preocupação municipal. 

            Por agora as atenções estão concentradas no imbróglio criado em volta do Hospital.

            Tudo demonstrando que a perspectiva para próximo ano não será muito animadora, como o próprio Presidente da Câmara admitiu recentemente.

            Não posso terminar sem desejar a todos os leitores votos um Bom ano de 2010.

 

(a publicar no dia 31/12/09)

quarta-feira, dezembro 23, 2009

A montra

No caminho para a escola primária era paragem obrigatória. Passava minutos a olhar para aqueles brinquedos expostos por detrás do vidro, daquela montra. Adorava os carrinhos de brincar, cuja marca chamava-se Matchbox e deve ter sido das primeiras palavras de língua inglesa que aprendi a pronunciar correctamente. Eram vários os modelos em exposição na Tabacaria Glória. Lá dentro, junto à entrada, do lado esquerdo, tinha uma vitrina, com imensas caixinhas apetecíveis, contendo as miniaturas de vários modelos, das mais variadas marcas de automóveis. Até chegar ao momento da compra, juntando o dinheiro necessário, eram várias as visitas de contemplação. Quem estava atrás do balcão envidraçado tinha sempre boa receptividade, não se incomodando com a minha presença. Desde cedo me habituei ao sorriso da D. Glória e à cara séria do seu marido, tão bem perpetuados para memória futura, nos retratos colocados no interior da renovada tabacaria.

Os meus interesses em matéria de brinquedos repartiam-se pelas peças de Lego. Apesar das montras que expunham esses produtos serem afastadas do percurso para alcançar a escola, o regresso a casa era feito por caminhos mais alargados e muitas vezes em bicos de pés contemplava as últimas novidades da marca dinamarquesa. O processo era semelhante ao dos carrinhos, acumulavam-se tempos de espera até se conseguir a desejada aquisição.

Numa época de mudança, com novos hábitos de consumo, maior poder de compra generalizado, a introdução de novas marcas de brinquedos fez atrasar a minha saída da infância. A adolescência ficava para depois. Era preciso aproveitar a oportunidade.

O último de todos os meus brinquedos foi o cubo mágico, o de Rubik. O objecto da mudança de idade. Por um lado o fascínio das cores, por outro lado o desafio de encontrar a solução para o quebra-cabeças.

Há dias, contribuindo para uma acção de solidariedade, fiquei com um cubo desses na mão. Passei-o para os meus filhos e lembrei-me da frustração de jamais ter “feito” um cubo completamente (era esta a gíria). Aprendi a fórmula até aquilo que se designava de 2ª camada, porque numas férias a pessoa que me estava a ensinar, perdeu o apontamento da solução das fases posteriores e como no dia seguinte voltava para casa, as minhas lições ficaram por ali. A arte e o engenho necessários para o resto escaparam-me sempre… A mudança de idade pode ter prejudicado também.

Nesta nova era de informação, não descansei enquanto não encontrei o resto da solução. Ainda me lembrava do que tinha aprendido. Daí até ao final, faltavam apenas 4 passos, extremamente mecanizáveis e simples de fazer, o que me permitiu fechar um ciclo com mais de vinte e sete anos.

Mais do que a minha perseverança, do testemunho da infância desafogada, importa realçar que a geração a que eu pertenço, assistiu à transformação do conceito da Quadra que atravessamos. Entre os vários exageros que se cometem hoje e a espiritualidade de outrora, haverá certamente um ponto de equilíbrio mais justo. Este é o momento de encerrar o ciclo actual.

BOM NATAL.

(a publicar dia 24/12/09)

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Entre a espada e a dor

             É impossível não gostar de música, exclamou o Maestro José Ferreira Lobo, enquanto procurava as melhores palavras para convencer pais ou avós a sossegar os filhos ou netos assistentes, na plateia do Coliseu do Porto, num Concerto Promenade. Astutamente citou Mozart, com uma frase secular sobejamente conhecida e o seu propósito foi conseguido. Até ao final, o silêncio imperou na histórica sala de espectáculos, podendo toda a plateia deliciar-se com o som da Orquestra do Norte. Como prémio, no final houve a oportunidade para todos os espectadores participarem no concerto, ora trauteando uma música de Bizet, ora marcando o ritmo com palmas, em ambos os casos, sendo dirigidos pelo Maestro.

            Horas antes, no mesmo local, o concerto de Rodrigo Leão & Cinema Ensemble terminava da mesma forma: fortes aplausos, palmas de um público participativo enquadradas nas melodias e por fim, a assistência cantando em coro o tema “Pasíon”, acompanhando a voz de Celina da Piedade, a acordeonista de serviço.

            A interactividade do público, nos dois concertos a que tive oportunidade de assistir foi o mote para as primeiras linhas deste texto. Um apanágio do público daquela sala, recebendo calorosamente os músicos que por ali actuam. Impondo silêncio entre parceiros, quando o ambiente ainda está tenso, sem a festa instalada e depois de repente, tudo muda. A participação passa a ser palavra de ordem.

            Voltando ao concerto de Rodrigo Leão, durante uma hora, o público reagia, batia palmas no final de cada música, incentivando os músicos. Tudo mudou no 1º encore. Se a voz de Ana Vieira é mesmo perfeita para os arranjos criados pelo próprio líder do grupo, o grande momento da noite foi a presença em palco de Gomo, cantando o tema Cathy, originalmente escrito para ser cantando por Neil Hannon, a voz dos The Divine Comedy. Na segunda passagem pelo palco, já em encore, Gomo excedeu-se na prestação e transmitiu ao público o instante sublime do espectáculo.     

            É difícil escrever sobre música, digo eu. É fácil adjectivá-la. Descrever sonoridades duma época ou mesmo relatar concertos, procurando indicar o correcto alinhamento e a história do artista, ou do grupo são operações fáceis. Do mesmo modo, enaltecer o virtuosismo dos músicos, mesmo sem grande conhecimento técnico é quase obrigatório em exercícios de escrita musical. A parte árdua e pouco acessível, é a linguagem de perito, o desmanchar da música: em ritmos, harmonias e notas musicais, que bem utilizadas podem enriquecer mais um artigo ou comentário do que qualquer figura de estilo. Essa capacidade só está acessível a alguns, que pouco se dedicam à escrita sobre música.   

            Meses de dedicação à música, enquanto pai acompanhando e investindo na formação musical dos meus filhos, como apreciador adquirindo trabalhos de autores, lendo em “2666” devaneios sobre a música de Leonard Cohen - saber qual a importância do coro feminino na sua música, embora prefira vibrar com o seu som, como se fosse sempre a primeira audição, em “The Stranger Song”, como executante voltar a estudar o instrumento abandonado na adolescência e assistir ao excelente concerto de Rodrigo Leão, considerado por Pedro Almodovar como o melhor compositor da actualidade e nada conseguir escrever além de trivialidades, ficando como no título desta crónica.      

 

(a publicar no dia 17/12/09)

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Mensagem

A mão esquerda segurava no rato, com o dedo indicador posicionado sobre o botão canhoto. No monitor do computador, a seta do cursor estacionava sobre a palavra “enviar”. A dúvida permanecia. Enviaria a mensagem ou não. Ponderava as hipóteses, as consequências para a sua vida, ao cometer tal ousadia.

            Já tinha preenchido o assunto para este mail, que constava do seguinte teor: “Naquela manhã só faltava eu tomar banho. Como sempre tinha ficado para o final. O nosso grupo, composto por quatro casais amigos, ia tomar um café, antes de regressarmos de fim-de-semana, bem prolongado. Convosco alinhou a minha esposa. Fiquei sozinho na casa e após o corte matinal dos pêlos faciais, meti-me dentro da banheira. A água quente vaporizou toda a casa de banho. As fases do banho: encharcar, ensaboar, enxaguar e por fim enxugar. Saí da banheira, esfreguei o cabelo e ao retirar a toalha, vi-te. Estavas à minha frente. Assustado, tapei-me prontamente por instinto. Estou quase a sair, disse-te. Um sorriso apareceu na tua cara e não dizias uma palavra. Hei, gritei. “Podes sossegar, pois não está cá ninguém. Inventei um pretexto para voltar para trás” – disseste, quebrando o teu silêncio, sem retirar o sorriso. Não me parecia correcto, nem contava com uma iniciativa daquele género, nem concebia que pudesses pensar, sequer, em tal atitude. Procurei chamar-te à razão. Não te demovi, aproximaste-te. Com o teu puxar, a minha toalha caiu ao chão. Senti os teus braços a agarrarem-me e tentei demover-te a bem. Não desistias, segurei os teus braços, com alguma força, para resistir… e nisto tocou o despertador. Acordei, olhei para o relógio: seis horas e quarenta minutos. Levantei-me, tomei o pequeno-almoço, seguido do banho e depois das despedidas matinais, saí para trabalhar. Não resisti a contar-te o meu sonho. Tem um bom dia.”

            Leu o texto mais uma vez. Pensou no efeito deste, nas alterações a provocar na sua relação com a amiga e também na sua própria casa. Por agora, pensava apenas na amiga… como interpretaria ela o facto de ele ter sonhado com ela? De a ter imaginado infiel? De estar a fazer considerações sobre o seu comportamento? Não era fácil explicar-lhe, tal leviandade. Não estava preocupado, por agora, com o marido dela, pois eram distantes, relacionavam-se, mas por intermédio da amiga.

            O dedo indicador levantou-se do botão do rato. Ela perceberá a ideia, certamente – pensou. Fez uma pausa. Imaginou uma reacção negativa, um telefonema imediato a cortar relações, mais outro para a esposa dele a contar o sucedido. Ficou um pouco atrapalhado. Em casa, neste cenário as consequências eram imprevisíveis. As desculpas de fidelidade, mesmo em sonhos, iriam parecer desajustadas.

            Hesitou de novo.

            Começou a descer o dedo, encostando-o ao botão, sem olhar para ele.

            Não acreditou em tal reacção da amiga. Tanta cumplicidade vivida em conjunto, resultado de anos de bom relacionamento, não permitiriam afectar a amizade. Decidiu-se: Assim seja! Num rápido clique carregou em enviar. No monitor apareceu uma pequena caixa indicando: Tem de haver pelo menos um nome ou lista de distribuição na caixa “Para”, “Cc” ou “Bcc”… Tinha-se esquecido do destinatário.

            Sorriu, olhou para o monitor e pensou: quem era a destinatária?

            Surpreendido pela ausência de receptor, conduziu o rato para o lado oposto do monitor. Ali, no canto superior, carregou na cruzinha do lado direito, apontou para o “não” na box, entretanto surgida no ecrã e assim eliminou a mensagem.

 

(a publicar dia 10/12/09)

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Hipermercado

            Vasco deambulava pelos corredores do hipermercado, empurrando o carrinho à procura dos produtos que constavam da lista de compras, timidamente escondida na mão esquerda, quando os seus olhos fitaram uma cara conhecida. Não muito longe, à sua frente, estava a sua primeira namorada, Marina. Sem perceber bem porquê, quase instintivamente, Vasco cortou logo à esquerda para uma qualquer artéria, de artigos semelhantes com marcas e cores diferentes, fingindo não ter reparado. Vasco ficou com a ligeira impressão de ter sido visto, por isso, colocou-se em atalaia, posicionado de forma a lhe permitir, de soslaio, observar o entroncamento do corredor principal com a artéria em que se encontrava.

            Esperou uns segundos e verificou que não se tinha enganado. Enquanto passava, o olhar de Marina permanecia fixo em qualquer ponto vago no fundo corredor, sem virar a cabeça para o local onde Vasco se encontrava. A técnica de quem não quer ver. Ambos estavam a jogar o mesmo jogo.

            É certo que se passaram muitos anos. “Provavelmente ela terá casado, tal como eu e possivelmente terá filhos” – pensou Vasco. Seria mais fácil adoptar uma atitude de dois velhos conhecidos. Um cumprimento efusivo e depois das formalidades do presente, recordar o passado em comum. Seria bom recordar um ou outro episódio esquecido, provavelmente confundir com situações vividas com outra qualquer pessoa e usar aquela expressão "e daquela vez...". No final a despedida até um dia incerto, até qualquer dia, ou até à próxima. É extremamente difícil ter abertura suficiente para recordar certos momentos de intimidade. Mesmo tendo sido os primeiros momentos, no caso de ambos. A virgindade a fugir, a inexperiência de adolescente. A atrapalhação do movimento. O gosto de correr riscos, característico da juventude.

            Vasco voltou para trás. Ficou nas costas de Marina. O seu olhar focou o seu corpo. Oportunidade para comparar com aquele que tinha tocado no passado. A esta distância Vasco não conseguia distinguir os indicadores da passagem do tempo: as rugas e claro, o aparecimento de cabelos brancos. A silhueta de Marina estava diferente? Como estaria corpo dela, com a transformação do passar dos anos? Vasco pensou na sua própria alteração, imaginou a gordura acumulada em certas partes do corpo de Marina, noutras as estrias conquistadas com a perda de massa, ou nos músculos dela mais flácidos, com a celulite nas nádegas e nas pernas… Marina virou à esquerda para a secção dos detergentes. Afinal, ao contrário dele, Marina estava bem conservada.

            Vasco optou por prosseguir na procura dos artigos da lista de compras. Enquanto escolhia os seus artigos e os colocava no carrinho, ele apercebeu-se que todo este jogo de escondidas era uma estupidez, por isso, tinha que a cumprimentar. Imaginou virar duas vezes à esquerda e entrar no mesmo corredor e aproximar-se para, fingindo surpresa, exclamar: Olha quem está por aqui! Há tanto tempo!

            Arriscou, ia correr bem. No momento da segunda viragem, Vasco parou. Provavelmente, Marina estaria acompanhada. Marido ou filhos, ou outro familiar e por isso, não o queria enfrentar. Se calhar ainda não tinha casado. Vasco penaliza-se, podia ter sido lesto a reparar nas suas mãos. Lembrou-se dos pais dela. Detestavam-no. Não admira, a filha a entrar em casa a horas diferentes das habituais, a não dormir algumas noites, ou a recebe-lo às escondidas lá em casa. Parecia estar sozinha. Mas, estava a voltar para trás, por isso o seu plano tinha falhado.

            Na lista de Vasco faltavam dois produtos, do lado oposto à direcção que ela tomou. Seguiu para eles. Colocou-os no carro de compras e decidiu enfrentar o passado, sem compromisso para o presente e para o futuro. Sabia que tinha ficado mais alguma coisa, além do sexo desajeitado e juras de amor eterno, quebradas numas férias. A ideia da infidelidade, a traição, o novo romance sempre agradou a Marina.

            O seu telefone toca. O filho acrescenta um pedido à lista, alterando de novo o seu rumo. Acrescentado o artigo extra aos restantes, Vasco parte para a procura. Quer encontrá-la. Faz os corredores de uma ponta a outra. Costa a costa, duas vezes. Roupas – bebidas, bebidas - roupas. Nada. Procura no corredor das caixas. É engraçado, a memória da primeira vez. Pensamento malicioso. Os corpos nus. Uma nudez total conquistada por etapas. O desejo falou mais forte.

            Chegou à última caixa e nada. Volta para trás, percorre as caixas pela ordem numérica inversa. Focaliza cada pessoa, em cada uma das filas. “Não sei porque a recordei a traição” – pensava Vasco. “Tendência para recordar as mágoas, houve mais do que isso e no entanto, parece que ficou uma ferida para a vida inteira. Relações de adolescente, só isso, nada mais. Naquelas idades não temos a noção do que é a vida, o mundo. Até do que é o amor…” - prosseguiu Vasco.

            Primeira caixa e não há sinais de Marina. Vasco desiste, coloca-se numa fila, com poucas pessoas. “Paciência, perdi-a. Fico sem saber nada do que se passou com ela, ao longo destes anos todos” – resignava-se Vasco.

            Passado uns minutos, entalado na fila, Vasco vê Marina a passar já no lado das lojas. Olha para ele, mostra-se surpreendida por o ver, sorri, cumprimentando. Vasco retribui, a surpresa e o cumprimento. À sua frente, um outro cliente a proceder ao pagamento junto à caixa está parado, a rapariga da caixa não pode avançar, um produto está sem código de barras, sem preço marcado, por isso, empata Vasco no meio da fila. Não consegue alcançá-la. Faz um gesto, mostrando o seu desespero. Vendo a situação dele, Marina, a sua primeira namorada, encolhe os ombros e diz-lhe:

            - Tenho pressa, tenho gente à espera!

            Vasco tenta reagir. Abandonar ali o carrinho, passar para o outro lado, voltar atrás, sair pela passagem destinada a clientes sem compras. Chama-a. Ela olha para trás e sem intenção de esperar, responde-lhe:

            - Fica para a próxima! Vai aparecendo.

            Ele segue-a com o olhar, desesperado pela situação. Pretende descobrir algo sobre a vida dela. Esqueceu-se de olhar para as mãos, bolas!

            Uma voz interrompe a sua faceta de detective: Boa tarde, tem cartão cliente?

            Vasco olha para a caixa, entrega o cartão e volta a focar o corredor, de onde lhe retiraram a atenção. Nada. Já não há sinais dela.

            - É tudo? São 67 euros e 34 cêntimos - ouviu ao fim de alguns minutos, interrompendo os seus pensamentos.

 

(a publicar dia 3/12/09)

 

quarta-feira, novembro 25, 2009

Patamar

            Nos últimos dias, atendendo à compilação editada no livro Caleidoscópio, reli as crónicas de Renato Figueiredo publicadas no jornal labor. A grande maioria dos seus textos, estava bem presente na minha mente, não só pela proximidade da edição do original, como pelo talento patenteado ao longo das várias crónicas publicadas. Surpreendeu-me por isso, a referência ao meu nome surgido na página duzentos e vinte e seis do referido livro. Mais do que a honra por tal distinção, importa aqui colmatar a ausência de qualquer menção à sua pessoa, que até hoje, por manifesta inibição pessoal não me atrevi a fazer.

            Abstive-me de qualquer tentativa de escrever, dando o lugar a outros, por considerar terem melhores e mais bonitas palavras para prestarem a justa homenagem. Entre estes encontravam-se os meus pais. Não posso esquecer a longevidade da sua vizinhança, mais de quarenta anos, separados por um patamar. O Doutor Renato a habitar o 2º esquerdo e os meus pais o direito. Uma relação de amizade com respeito e admiração mútua, como demonstrado na página cento e dez do livro agora editado. Com diferenças ideológicas, ao jeito do lado do patamar que residiam. Uma forte convivência, bem democrática, fazendo lembrar e retirando o exagero burlesco, alguns momentos dos filmes de Don Camillo e Peppone.

            O patamar, do 2º piso na porta 49 da Rua da Liberdade, também teve direito a página, a cento e quarenta e dois, uma alusão “são passos curtos: os que nos levam a abrir a porta, a recolher o jornal, a ler.” Várias manhãs abri a porta, tendo ali dois jornais, para a porta da esquerda sempre o Jornal de Notícias e para o meu lado, O Primeiro de Janeiro - com as aventuras do “Príncipe Valente” - e alguns anos depois, substituído pelo Público. Eu, por inerência, fui seu vizinho vinte e sete anos. Em miúdo, juntamente com os meus pais, passei alguns serões em sua casa. Fascinava-me o efeito espelho dos apartamentos. Antes de adormecer, embalado pelas conversas de quatro adultos (ainda era viva a sua mãe), jogava mikado e contemplava a paciência feita com cartas em miniatura, interrompida devido às visitas e espalhada em cima de tabuleiro apropriado.

            Seguiram-se anos e anos. Fui crescendo naquele prédio. Todos os exageros de criança, os ruídos de adolescente, as noitadas em adulto foram sempre toleradas por este vizinho, sem qualquer comentário, nem queixa aos progenitores. A discrição total. Nunca interferiu na minha educação (e que eu saiba na dos meus irmãos). Oferecia-nos livros sem qualquer ideologia associada. Tudo isto para dizer, que em todos os meus anos de vizinhança, não tive qualquer conversa com Renato Figueiredo sobre ideologia política, nem muito menos sobre literatura. Durante três anos coincidimos nas páginas deste jornal. Nesse período, cruzei-me com o Doutor Renato várias vezes na escadaria do prédio onde viveu. Jamais trocámos uma palavra sobre os textos um do outro. Manifestamente, por falta de à vontade da minha parte para puxar o assunto. Ao iniciar os meus primeiros passos neste mundo das palavras escritas, com o receio típico de quem aqui não pertence, recebi da sua parte, claro que indirectamente - através de comentário positivo transmitido aos meus pais, um dos primeiros incentivos para prosseguir este caminho.  

            Um filme de família, recuperando imagens da década de 1970, relembra os momentos com amigos. A aparição, natural, do Doutor Renato, mostra-o brincalhão, interagindo com um dos meus irmãos. Nessa sequência, minutos depois, surge a sua imagem solitária, antecipando em alguns anos a crónica “Era Domingo”, compilada na página setenta e seis do livro Caleidoscópio. Essa e outras imagens é que sempre me fascinaram: a opção pela solidão. O isolamento familiar, numa vida recheada de amigos.

            Hoje subo as escadas do prédio da minha vida, alcanço o patamar do 2º andar. Falta um vaso à esquerda. A porta desse lado está fechada. Atrás dela, tudo está vazio. Não se avistam sombras de movimento. Advinham-se as paredes expostas. Não se sente o cheiro a tabaco. Se de noite, a escuridão no vitral acentua o estado solitário.

            Por ali, ao falarmos naquela que seria a última vez, à minha pergunta sobre o seu estado de saúde: “Está mais composto?”; Renato Figueiredo respondeu-me com o seu habitual humor: “Estou, é decomposto”.       

 

 

 

terça-feira, novembro 17, 2009

Paisagens desobedientes

            Acontece-me por vezes ter que explicar a quem não tem a vida centrada em S. João da Madeira e, portanto, não é leitor do labor, sobre quais os assuntos que elejo para publicar em texto. Começo a resposta invocando a memória colectiva, as experiências pessoais, os “micro” contos e obtenho uma reacção de interesse. Quando avanço um pouco mais na explicação, acrescentando o quotidiano, mais a análise da actividade política local, o desinteresse instala-se e invariavelmente a conversa muda de assunto.

            Não sei se acontece o mesmo com os leitores do labor, isto é, se a indiferença varia conforme o assunto do texto. Sendo impossível criar consensos, mesmo nestas páginas, limito-me a exercitar a escrita - se disciplinarmente - em ritmo semanal.

            Como é fácil constatar, colo-me ao calendário de eventos nas oportunidades devidas ou necessárias. Para as outras semanas, adopto a técnica da incerteza, pretendendo criar algum efeito de surpresa sobre o leitor no desenrolar de cada texto. Dentro deste princípio de tema aleatório, no exagero não escrevo nada, procurando aumentar as perplexidades para futuras edições.

            Vai longa a introdução e urge centrar-me no assunto a partilhar com os leitores na edição desta semana do labor.

            Por estes dias de chuva intensa, sentindo-se humidade até à medula, aproveitar as tréguas da chuva, contemplando a transformação dos elementos da natureza que nos rodeiam, para quem gosta de momentos calmos, pode trazer momentos únicos.

            Na cidade, nas cidades, os apreciadores de botânica procuram os seus parques e jardins, para examinar o comportamento de espécies e descobrir dados novos. Os leigos deliciam-se com as folhas em tons avermelhados, ou castanhos, resistentes nas árvores. Apreciam avenidas e praças entrincheiradas com essas cores. Em parques ou jardins, as alamedas enchem-se de folhas. As ainda esticadas, caídas sobre o verde de um relvado, provocam sorrisos. Por cima, árvores despidas contrastam com outras de folhas mais resistentes, apesar de a sua perenidade não lhes permitir ser indiferentes ao vento e à forte chuva. Voltando ao chão, nem só folhas causam surpresa. Pesquisando um pouco, conseguem-se encontrar cogumelos, com cores e aquelas formas desajeitadas.

            Apesar dos quinze dias de chuva, o excesso de água, incomodando e provocando estragos, ainda não foi suficiente para transbordar os rios. Margens rurais tomadas pelas águas, com troncos emergindo sem terra à volta, tudo envolvido pelo ruído do forte caudal, são imagens e sons que recordo das cheias de alguns rios, mencionados na geografia de Portugal. Longe do perigo, quem já teve a oportunidade de observar, a partir do castelo de Montemor-o-velho, o rio Mondego depois de galgar margens, campos e alagar tudo o que estava ao seu alcance, percebe a imagem. Paisagem que não se repete todos os anos, devido à desobediência da estação outonal.

            Mais frequente é o mau tempo no mar. O retrato da nossa costa, com mais ou menos paredão pelo meio, é ondas ou vagas de dimensão e frequência elevada, sob um céu cinzento. Pela tarde, nas horas de tréguas da chuva, uma aberta e o céu fica em tons alaranjados, reflectindo essa cor para as águas cinzentas do mar. Fotografia comum captada pela estabilidade de várias lentes, à qual eu regresso, sistematicamente, para a observação natural, sentindo o encanto da força da natureza.

            Água, chuva, água, é o que se retém destes dias. Não adianta descrever outras paisagens Outonais, que o pensamento tende para o excesso de chuva. Quando a meteorologia o permitir alargarei horizontes, procurando captar outras rebeldias. 

 

(a publicar dia 19/11/09)

terça-feira, novembro 10, 2009

Enigmas

            - Discreta, é a minha palavra favorita e tem as quatro letras do meu nome. O desafio estava lançado. Ouvindo isto, Alfredo mentalmente preparado para as palavras cruzadas, pensou: Dina, não. Dora, não. Quatro letras? Ficam de fora uma série de hipóteses de nomes começados por D: Dalila, Dulce, Diana, Daniela. Inventou alguns, divertindo-se com as variantes imaginadas.

            A rapariga repetiu: discreta, é a minha palavra favorita e tem as quatro letras do meu nome. Numa alcoolizada noite académica Alfredo não se esforçou mais. Não se podia pedir-lhe muito, tal era o seu estado. Naquele momento estava a simpatizar com a rapariga. Aquele desafio motivava-o a permanecer ali mais um pouco, até desvendar o mistério, sem lhe fazer qualquer pergunta, verificando quanto tempo demoraria o jogo.

            - Rita, chamo-me Rita. Alfredo sorriu. Malditas palavras cruzadas que lhe bloqueavam o pensamento. Ninguém lhe tinha dito qual a letra inicial. Achou piada à forma arrojada de Rita se apresentar. Apesar do seu estado alterado, focou a cartola dela, comum naquelas noites universitárias, não se recordando da respectiva cor. Por ali se demorou mais um pouco, ria-se das conversas da Rita. A reciprocidade acontecia, Rita estava encantada. De tal forma, que aqueles que a acompanhavam e que Alfredo não conhecia, sabendo apenas que com eles estava uma irmã de Rita, perceberam que estava a acontecer algo engraçado com a amiga e trataram de simpatizar com ele. Entre mais cerveja, menos cerveja, Alfredo foi assimilando o contexto em que estava envolvido, não se recordando como tinha iniciado contacto com aquele grupo.

            Rita repetiu, a minha palavra preferida é discreta… e é o que eu gosto de ser. Depois da advinha nas apresentações, Rita demonstrava as suas preferências quanto à forma de estar. A Alfredo agradava-lhe, sempre procurou vencer a timidez mas, como não conseguia, tinha dificuldades em relacionar-se, evitando uma vida social activa, preferindo recolher-se em recatados momentos de pouca confusão.

            A folia da noite académica prosseguia, com um qualquer artista cantando em cima do palco e uma série de estudantes a repetirem o exaustivo refrão, encenando danças colectivas, em abraços de grupo com muitos elementos. Muitos deles não mais se soltavam, para não correrem o risco de cair e ficarem pelo chão o resto da noite, até acordarem, ou serem reconhecidos por um qualquer colega, um pouco mais sóbrio. Alfredo procurava não agravar o seu estado alcoólico, para não causar má impressão. A companhia de Rita era desafiadora, ainda por cima, o facto de ser finalista de um curso universitário, obrigava Alfredo a pensar em ter um comportamento mais sóbrio. Preocupações da sua educação e duma vida sem relações sérias nos últimos meses. No entanto, não recusou nenhuma cerveja que lhe passou pelas mãos, vendo-se ele próprio obrigado a comprar algumas para retribuir a generosidade.

            Entretanto, Rita voltou a dizer o quanto gostava de ser discreta. Alfredo ouviu novamente com um sorriso e ficou pensativo. Ele naquele momento, não conseguia perceber porquê mas, algo estava errado ali. Falou com dois ou três dos seus acompanhantes, para perceber quem era quem, o que estudavam, onde dormiam, ou melhor, onde tinham residência, para ganhar alguma afinidade com o grupo, retribuindo a conversa com os seus dados, estudante de história, finalista, embora pouco dado a rituais académicos, a viver em casa de familiares.

            Alfredo tentava perceber melhor Rita, em que estado se encontrava. Se estava bêbada como ele, ou estava apenas a defender-se. Numa ida tipicamente feminina de duas irmãs à casa de banho, Alfredo ouviu de novo aquela frase, que já caracterizava a noite de Rita.

            Aproveitando o afastamento das duas raparigas, Alfredo prontificou-se a ir buscar mais cerveja às distantes bancas de venda. Olhou para o rio e sorriu. O contra-senso de Rita fora subtilmente compreendido.

            Alfredo eliminara as suas ilusões. Levantou a sua cerveja e já não voltou para junto do grupo.

 

(a publicar dia 12/11/09)

             

 

terça-feira, novembro 03, 2009

Direito à diferença

Direito à diferença

 

            Entrei na idade adolescente na primeira metade da década de 80. A sociedade portuguesa vivia na ressaca do seu recente passado. Contavam-se histórias do anterior regime; da guerra colonial; da revolução de Abril e anos consequentes; do regresso de África.  

            O presente não existia.

            A juventude vivia sobre o espectro da igualdade. A moda colectiva imponha-se e qualquer jovem ambicionava usar calças de ganga, botas “de celeiro” e um casaco de penas, assemelhando-se no tronco ao logótipo da conhecida marca de pneus franceses.

            Os interesses tendiam para o colectivismo. A audição de música suportava-se num programa semanal de televisão, que impunha uma lista de vendas, com a exibição dos vídeos, dos Singles e Lps mais vendidos. A música de qualidade tinha sempre como referência o passado: grupos que já não existiam e a ícones, entretanto, falecidos.

            Havia a rádio - programas alinhados com esse som mais comercial e outros mais de autor, preocupados em divulgar novas bandas, novos sons, novos caminhos.

            Eu fui por aqui.

Descobri no jornal Blitz uma espécie de top alternativo, com o título de “lista rebelde”. Adorei o nome. Referia-se a um programa chamado “Som da Frente” era publicado no jornal, ao lado da lista do top televisivo e assim passei a conhecer uma série de grupos, entretanto esquecidos: Shierkback, The Chameleons, Scritti Polliti, The Cassandra Complex, Love & Rockets, Anne Clark, Propaganda (tendo assistido ao seu concerto em Cascais em 1985). Não apenas grupos desconhecidos do grande público mas, outros que perduraram no tempo como: The The, Bauhaus, Echo & Bunnymen, New Order, The Smiths, Talking Heads e os próprios U2, entre outros, não sendo o propósito deste texto enumerá-los exaustivamente.

Era autor desse programa António Sérgio, falecido no passado dia 31. Divulgava pelos anos 80, grupos de forma pioneira. Um precursor de estéticas musicais. No intróito do programa reclamava  o seu direito à diferença. E por essas e por outras, em idade adolescente, passei a usar sapatos pretos e nas estações da chuva ou do frio, as inevitáveis gabardinas ou os sobretudos de tons escuros.

Cruzei-me com ele, pelo menos uma vez. No Rivoli, assistia na primeira fila ao concerto dos norte-americanos Suicide, quando ouço ao meu lado, no intervalo de duas músicas, a sua voz meio cavernosa e bem característica. Sempre a incentivar os dois músicos em palco, reconhecendo as músicas e cantando parte delas, António Sérgio abandonou a plateia, perto do final, quando em palco, Alan Vega simulava uma cena escabrosa de sexo. A sua saída indignada serviu para me aperceber que afinal Ian Dury, que anos antes tinha cantado “Sex, Drugs & Rock’n’Roll”, estava enganado. Sem qualquer tipo de moralidade, serviu-me o exemplo, para saber distinguir os limites da trilogia e ouvir muita música, sem enveredar pelo consumo de qualquer substância.

Neste Verão, assisti à sua passagem pelo programa “5 para a meia-noite”. Entrevistado por Fernando Alvim, reconheci-lhe a graça de outrora, a rebeldia, o gosto pela independência, a vontade de divulgar, de ousar chocar, sem ofender.

Conta-se que quando perguntavam a António Sérgio se o seu gosto pela música não o levaria a tocar algum instrumento, ele referia que tinha em casa um baixo eléctrico, sem o respectivo amplificador, do qual sabia tocar apenas 3 notas. Não me lembro se as notas eram de qualquer música em especial, ou se, três notas soltas. Gostava de acreditar que as três notas pertenceriam a “Bela Lugosi’s Dead”, em jeito de homenagem à noite em que faleceu.

 

(a publicar dia 04/11/09)

quarta-feira, outubro 28, 2009

19981 Eleitores

            Em Março do presente ano, o jornal labor anunciava o aumento do número de eleitores em S. João da Madeira, ultrapassando-se a barreira dos 20 mil inscritos. Em concreto, de acordo com o Mapa n.º 6/2009, publicado em Diário da República, 2.ª série — N.º 43 — 3 de Março de 2009, a 31 de Dezembro de 2008 existiam no concelho 20.272 cidadãos em condições de exercer o seu direito de voto. No artigo dessa edição do labor, assinado por Anabela S. Carvalho, explicava-se a evolução do aumento anual de eleitores: entre 2005 e 2007 - cerca de 1% e entre 2007 e 2008 - o aumento atingiu os 5%, o que foi justificado pela nova lei de recenseamento, automatizando a inscrição na base de dados eleitoral, visando, sobretudo, jovens com mais de 18 anos, que apesar de maiores tardavam em recensear-se.

            Nas eleições ocorridas já neste Outono, o site com resultados eleitorais da Direcção Geral da Administração Interna (http://www.legislativas2009.mj.pt) apresentava para o concelho de S. João da Madeira, para as eleições legislativas de 27 de Setembro, 20.068 inscritos. Quinze dias decorridos, para as eleições autárquicas, o mesmo site indicava um novo valor, passando a constar para este concelho 19.981 eleitores.

            Se nos sustentarmos nos relatos dos jornais locais a seguir a cada eleição, verificamos no labor para as legislativas, a apresentação de resultados suportados em 20.068 eleitores e em O Regional, para as autárquicas, refere-se à existência de 20.081 eleitores.

            Minimizando e relativizando qualquer erro de impressão, ou de cálculo aritmético, ou de indução - pelo facto inesperado de se ver reduzida a bitola dos 20 mil - importa aqui realçar a diminuição de eleitores verificada no presente ano.

            Em nove meses, o concelho viu-se amputado em 291 cidadãos, correspondente a menos 1,43%. O mais estranho é que entre as últimas eleições, ou seja e reforçando, num intervalo de quinze dias, o concelho perde 87 eleitores.

            Este período anómalo de decréscimo será a evidência da aplicação da nova lei eleitoral incorrectamente? O crescimento de 5% do número de eleitores estaria inflacionado, falhando o processo automático de recenseamento? Ou pelo contrário, assistiu-se neste ano em S. João da Madeira a uma emigração eleitoral? Estas são algumas perguntas que se podem formular, atendendo aos dados divulgados pela Direcção Geral da Administração Interna (DGAI). Provavelmente, poucas serão as explicações oficiais, para a barreira dos 20 mil eleitores, afinal não ter sido ultrapassada. O processo automático de recenseamento, os óbitos e as mudanças de residência esclarecem certamente todos os números. Todas as dúvidas.

            A consequência da ultrapassagem dos 20 mil eleitores, além de envolver maior transferência de verbas para a junta de freguesia – apenas um pouco mais, ressalve-se -, permitiu à Assembleia de Freguesia sanjoanense passar a eleger mais seis membros, de acordo com a Lei n.º 169/99 de 18 de Setembro.

            Segundo os Artigos 5º, 5ºA, 7º e 8º da Lei Nº11/96, de 18/04 desse ano, ficaram estabelecidos os abonos e remunerações dos membros da junta de freguesia, tendo como último escalão as freguesias com mais de 20 mil eleitores. Isto significa que os eleitos para uma freguesia deste escalão recebem mais 3% do que os de uma freguesia com menos de 20 mil e mais de 10 mil eleitores.

            É evidente que os dados oficiais da DGAI devem ter partido de pressupostos errados, só que deveriam ter sido prontamente corrigidos pela respectiva comissão recenseadora, a bem da clareza política.

             No futuro espera-se outro tipo de cuidado, de forma a salvaguardar de qualquer suspeita os eleitos para estes órgãos autárquicos.

            Obviamente, tal suposição não é intenção deste meu texto.

 

(a publicar dia 29/10/09)

quarta-feira, outubro 21, 2009

Badaladas

            Lá por onde durmo, o altifalante de uma das capelas, imitando um sino, interrompe o silêncio, indicando o horário do dia. Emite som todas as meias horas, das 7 da madrugada às 22 horas. Estas badaladas enquadram-se perfeitamente no bucolismo campestre reinante. Por estes dias, últimos da hora de verão, o primeiro toque matinal com o toque mariano, serve para acordar um estremunhado e hesitante galo, que ao ver tudo escuro à sua volta, desconfiado cacareja a alvorada.

            Quem vive nas imediações de uma igreja, aprende a escutar o sino.

            Desde pequeno habituei-me ao toque do sino da Capela Santo António. Acompanhou-me na atenção prestada nas salas de aula da escola primária, ali no Jardim do Sol. Nas minhas brincadeiras em casa, nas traseiras da Rua da Liberdade, ou mesmo em casa de amigos, estava dentro do alcance sonoro do sino. Mesmo no seu adro, passei horas a brincar, chegando a jogar à bola, embora sem nenhum pormenor digno de apontamento, ou seja, um apontamento sem qualquer importância. Mais sério foi sair dali na procissão, num domingo de Maio, até ao pavilhão, para a sua enchente anual de crianças a perpetuar a fé cristã.  

            Na adolescência, com a mania do “homem livre”, optei por tirar o relógio do pulso. Se na escola, a sucessão de toques impunha o horário, no tempo livre, muito dele passado na Praça Luís Ribeiro, as espreitadelas ao relógio da Capela eram inevitáveis. E se o relógio não estava visível, com ouvido habituado desde criança, bastava contar as marteladas do sino. Permanecíamos horas na Praça, a passar o tempo. Com a ilusão de que éramos pioneiros, que jamais outros jovens ali tinham estado com as mesmas ideias, a mesma vontade. E a maior baboseira era prever que, depois de nós, a Praça nunca mais seria a mesma.

            Fiquei horas e horas de domingos, do mês de Julho, alguns de Agosto e menos de Setembro, enquanto estudava preparando os derradeiros exames da Faculdade, em silêncio, com a ideia da cidade estar vazia, a banhos. O estudo por vezes consistia na aplicação de fórmulas, que atendendo à mecanização dos exercícios, poderiam ser acompanhados na audição de qualquer música – as preferências ficavam muitas vezes para os Talking Heads e o seu arranjo mais que perfeito The Lady don´t mind (fica aqui a referência, para puxar o saudosismo). Outras matérias exigiam silêncio. O passar das horas era sentido pelo tocar do sino. Só que nesses dias… da Praça Luís Ribeiro começavam os testes de som para o espectáculo nocturno. Irremediavelmente escutava: som, som, experiência, um, dois, som! Vezes sem fim até perder a paciência e a capacidade de concentração.

            Dos outros sinos da cidade, recordo-me do da Capela do Parque, ouvido nos dias de Julho, enquanto participante nos Campos de Férias aí ocorridos, ou então nos dias com forte vento de sul, que vim a aprender ser motivo para alteração climatérica, tendo como resultado a maçadora chuva. Da Igreja Matriz, o inquietante dobrar dos sinos sobrepõe-se a qualquer outra recordação de toque. Das restantes capelas não tenho lembranças. Aliás, o chamamento associado ao sino, há muito deixou de me interessar.

            Um destes dias estive uma tarde de fim-de-semana no centro. Janela aberta virada a norte para a Praceta Júlio Dinis e voltei a ouvir as badaladas do sino da Capela Santo António. Fiquei com a ideia que o toque estava duplicado a cada quarto de hora mas, sentir de novo o silêncio urbano, ouvir aquele som do passado, fez-me sentir tão tranquilo, que adormeci.

 

 

(a publicar dia 22/10/09)

 

terça-feira, outubro 13, 2009

A frieza dos números

            No passado domingo, os resultados eleitorais das eleições autárquicas em S. João da Madeira seguiram a tendência nacional da bipolarização partidária.

            Antes do dia 31 de Julho já havia dois tipos de candidaturas partidárias. CDS-PP, CDU e BE apresentaram os seus cabeças de lista aos respectivos órgãos autárquicos antes de férias, sobretudo, antes da paragem para descanso das redacções dos jornais locais. Por seu lado, PS e PSD preferiram manter os eleitores em dúvida, divulgando apenas o candidato à Câmara Municipal, até aquela data.

            Estas estratégias tiveram consequências ao nível da homogeneidade dos resultados. Nas três eleições desta semana, a variação dos partidos menos votados oscilou pouco, conforme se pode ver de seguida, apresentando-se os valores pela importância do órgão autárquico: BE – 2,66%, 4,32%, 4,21%; CDU – 5,76%, 6,29%, 6,61%; CDS-PP - 7,15%, 8,13%, 8,52%; Por força política, o intervalo de variação foi de 1,5 a 1,8%, com tendência para ir aumentando à medida que o grau da eleição diminuía (com a excepção do BE, que ao assumir como objectivo a eleição de um deputado municipal, condicionou o seu resultado).

            Nos partidos ditos da bipolarização houve resultados diferentes. PS acompanhou os partidos anteriores com o número de votos a aumentar por eleição de órgão autárquico, tendo um intervalo de variação de 3,9%, ou seja, 26,39/%; 30,12%; 30,3%, respectivamente para Câmara Municipal, Assembleia Municipal e Assembleia de Freguesia. Por seu lado, o PSD teve uma intenção de voto diferente: 55,95%, 48,74%, 47,63%; o que significa um intervalo de variação de 8,3%, em sentido contrário ao dos restantes partidos.

            As consequências práticas da diminuição do número de votos do PSD para os órgãos autárquicos não executivos não são nenhumas. A estratégia delineada por Castro Almeida funcionou plenamente. Mesmo a aposta, inerente na exposição do candidato relativamente ao restante partido teve algum significado no número de votos obtidos, só que os 1.000 votos a menos para as eleições das Assembleias, foram ainda suficientes para manter as maiorias nesses órgãos autárquicos eleitos.

            Do lado do PS, ao ousar concorrer às eleições autárquicas, utilizando a mesma estratégia do PSD, uma candidatura centrada no cabeça de lista à Câmara Municipal, correram-se riscos demasiado grandes. O primeiro seria a comparação do perfil de Pedro Nuno Santos com o de Castro Almeida. Obviamente, ponderando-se a experiência individual na política nacional e o currículo de cada um na política local.

            Sendo certo que os resultados finais de ambas as forças são extremamente elucidativos, convém não esquecer a tal variação de 3,9% de votos, para cada órgão autárquico. Os eleitores do PS penalizaram, ou não entenderam, a estratégia montada por Pedro Nuno Santos. Para a Câmara Municipal, o PS teve quase menos 500 votos do que na eleição para a Assembleia Municipal. O mesmo acontecendo para a da Assembleia de Freguesia.

            Considerando que o PS conquistou mais um vereador, igualando neste capítulo resultados obtidos em 1989, 1993, 1997 e superando os desaires de 2001 e 2005, digamos que foi cumprido o serviço mínimo.

            Comparando com 2005, o PS aumenta a sua votação. Conseguiu captar mais alguns dos votos dos seus simpatizantes, sobretudo, dos eleitores do concelho que votam neste partido nas eleições legislativas e quando se esperava que, o apelo de comiseração inerente pelo resultado da sondagem publicada no labor, tivesse como consequência uma maior votação na aposta feita pelo partido, o escrutínio colorido das urnas veio apurar o contrário.

            Prevaleceu o voto de honra.