quarta-feira, maio 05, 2010

Cêntimo a cêntimo

            Arlindo ia pagar o seu abastecimento de gasóleo e foi surpreendido com a pergunta da funcionária da caixa: É sócio do Porto? Admirado, Arlindo deve ter colocado má cara, pois a funcionária tentou emendar, perguntando se era do Benfica. Sem compreender o interesse da senhora, Arlindo lá respondeu espantado que não. E do ACP é sócio? Sim, sou – respondeu Arlindo. Tem direito a um desconto de seis cêntimos por litro, se apresentar o cartão de sócio. Apresentado o cartão, feito o pagamento, Arlindo agradeceu a preocupação da funcionária e seguiu para o seu automóvel.

            Arlindo comentou o sucedido, fazendo a analogia com os vales de desconto já usados noutras gasolineiras.

            - Todas dão desconto, engraçado.

            - Um valor semelhante do desconto. Nalguns casos o valor de desconto é fixo e para todos os dias, outros casos é só duas vezes por semana e há ainda os que têm apenas um dia com o combustível mais barato.

            Arlindo nem se apercebeu do sucedido. Durante meses aproveitou os descontos e o período de baixa de preço do barril de crude. O gasóleo era barato, com os descontos conseguia preços idênticos aos de Espanha e por isso tudo estava bem.

            Em semanas sucessivas o preço do combustível aumentou. Poucos cêntimos de cada vez, pelas razões de sempre – variação do preço do crude, com rápido acompanhamento nas subidas e esquecimento na baixa do seu valor.

            Em consequência disso, Arlindo viu os descontos a aumentarem. A lógica de venda mudou. A periodicidade passou a ser fixa, todos os dias menos seis cêntimos, acumulados com mais algum desconto, em alguns postos de revenda.

            Só então, Arlindo percebeu. O desconto dos vales corresponde ao acréscimo no valor do combustível, ou seja, na venda mediante a apresentação de cartão de sócios, vales, ou em dias a menor preço, o combustível inflacionado é vendido com menor lucro.

            Munido das novas ferramentas de comparação de preços, Arlindo passou a verificar a diferença no seu distrito, 15 cêntimos entre o mais caro e o mais barato. Arlindo pouco percebe do negócio da venda de combustíveis, dos custos fixos, dos custos com o pessoal, do preço da aquisição da matéria-prima à refinaria. As suas contas são outras, em cada depósito abastecido no posto mais barato do distrito a diferença são 9 euros, para 60 litros.

            - Quase 13% se o combustível for gasóleo, diz Arlindo aos amigos.

            - Ninguém faz descontos permanentes para perder dinheiro.

            - Consta-se que perto da fronteira portuguesa, são já poucos os postos de venda de gasolina abertos, pois a maioria dos portugueses prefere abastecer em Espanha. Qualquer dia, acontece o mesmo no resto do país, ficam apenas a vender as mais baratas e outras encerram.

            - Antes disso, os descontos em alguns postos ficam mais elevados, para que o preço seja mais baixo do que as mais baratas.

            - Será?

            - Já vi anúncios de menos 18 cêntimos.

            - Ena.

 

            Arlindo é um nome fictício. A narrativa e os diálogos são por isso imaginados, tudo o resto não.

             

(a publicar no dia 06/05/10)

quarta-feira, abril 28, 2010

Ruínas

 

                A evolução do ordenamento territorial obrigou à distinção, em perímetro urbano, das áreas de habitação de outras com fins industriais. A necessidade de responder às exigências populacionais relativas a qualidade de vida e sobretudo, ambientais, implicaram a criação de ferramentas de gestão de urbanismo, por parte das autarquias.

            As próprias empresas, com unidades industriais confinadas em aglomerados habitacionais, sentiram a carência de espaço e deslocaram-se para zonas apropriadas. Este fluxo libertou áreas no centro das cidades, algumas aproveitadas para projectos imobiliários. Por outro lado, o carácter ou interesse público dessas fábricas devolutas, permitiram através da capacidade de investimento dos municípios em que estavam inseridas, o restauro da infra-estrutura, transformando-as para adquirirem outra utilidade.

            Toda esta resenha histórica, semelhante a vários municípios, não tem um final feliz. Antigos edifícios industriais abandonados, com os vidros das janelas quebrados, estruturas metálicas enferrujadas e vergadas, telhados com buracos, portas substituídas por tijolos - para impedir o acesso a intrusos - fazem parte da paisagem urbana das localidades com passado industrial. Esta imagem de degradação fica completa com a pincelada de grafittis nas paredes envelhecidas dos edifícios.

            Infelizmente, pelo que se pôde observar nas fotografias que acompanham os artigos publicados na imprensa, assim como pelas reportagens editadas pela televisão, o parque industrial da Oliva apresenta graves sinais de deterioração. Da descrição anterior, pode-se retirar os tijolos e as estruturas metálicas vergadas. Acrescente-se a cor castanha ou alaranjada que circunvizinha aquela área da cidade, proveniente daquela empresa e o cenário decrépito fica traçado.

            O futuro das instalações desta empresa passará pelo retalho: uma parte para a cultura municipal, outra para a especulação imobiliária. Permanecem as letras na torre e o nome para o projecto das indústrias criativas, para memória futura.

            Fica uma marca, que será recordada pelos seus produtos, em especial pelas máquinas de costura.

            Restam as histórias de quem por lá laborou; de quem se especializou em metalomecânica; de quem trabalhou para o bom nome da empresa. O contributo social desta empresa para a história da cidade é inegável. Todos o reconhecem e tem sido documentado ao longo de vários anos. O legado técnico e organizacional nem por isso. Uma lacuna que convinha erradicar, recolhendo testemunhos e compilando essa informação. Na história da cidade pode-se abrir uma página diferente, que não seja apenas povoada por edifícios, marcas ou empreendedores.

            Por agora, o panorama é outro e não é nada agradável. É triste este final. Sem glória. Deixando na incerteza os seus qualificados trabalhadores e acalmados os seus vizinhos, tal era o impacto negativo causado pela recente laboração desta empresa.

            Um desfecho, aos 85 anos, em que sobrevivem as ruínas do passado magnífico da Oliva.

 

(a publicar no dia 29/04/10)

segunda-feira, abril 19, 2010

Estrangeira

            Era feriado, uma quinta-feira, de Junho. Paula, de regresso das compras matinais, passou em frente da igreja. Avistou à sombra um grupo de senhoras todas bem vestidas e uns cavalheiros de fato e gravata. Interrogou-se sobre a efeméride e só quando viu umas crianças, também elas aperaltadas, é que percebeu tratar-se da comunhão. O céu estava limpo, o sol radioso. Paula ficou feliz por não ter recebido nenhum convite de algum amigo ou familiar. O dia prometia ser quente, por isso, era preferível ir até à beira-mar, do que estar fechada numa festa.

            Depois de almoço, a temperatura do ar era de 38 graus centígrados. Paula protegeu-se em casa. Adormeceu o filho e entreteve-se com a lida doméstica. O marido estava para fora, em serviço profissional.

            A viagem até à praia foi rápida. Ao contrário do esperado, a temperatura não desceu muito na aproximação ao mar. Pelas dezoito horas, o termómetro do carro marcava trinta e seis graus, junto ao Oceano Atlântico. Encontrar lugar para o estacionamento não foi difícil, para muitos aquela era a hora de regressar a casa. Quando saiu do automóvel não corria qualquer vento. Paula estranhou não sentir qualquer humidade marítima. Com o filho pela mão foi caminhando em direcção à praia. O miúdo ia contente, com uma mochila transparente às costas, carregada de baldes, pás e formas para brincar com a areia.

            No cimo da escadaria, observou o areal, estreito mas extenso. A praia estava repleta de pessoas. Verificou uma clareira a uns duzentos metros, pegou no filho ao colo e começou a descer. Degrau após degrau. Na areia tirou as sandálias ao filho e as suas. Iam ambos de calções, por isso, foram caminhando junto à água para se refrescarem. O miúdo estava feliz. Tagarelava com a mãe, ria-se quando a água o molhava. No local escolhido, Paula estendeu as toalhas, tirou a roupa exterior ao seu filho e por prudência aplicou-lhe protector solar. Enquanto o miúdo brincava com a areia, Paula aproveitou para se pôr em biquíni. Olhou para o sol, para o relógio e optou por não se proteger do sol. Sentou-se junto ao filho para brincar com ele.

            Pelo meio da brincadeira, Paula olhava em redor. Procurava perceber quem os rodeava. Não reconhecendo ninguém, tendia a atenção para o filho. Apetecia-lhe encontrar alguém conhecido, uma amiga, para conversar um pouco. De vez em quando olhava para o mar. Além dos banhistas, vários surfistas tentavam consumar a sua estadia no mar, com um deslize em cima da prancha. Algumas pessoas passavam à sua frente, dirigindo-se para a única saída da praia, a escadaria por onde descera. Por vezes, Paula perdia nelas o seu olhar. Logo, logo, o filho lhe resgatava a atenção. De olhar em olhar, surgiu da sua esquerda um grupo de três homens, mais ou menos da sua idade. Um deles carregava um guarda-sol fechado, nos outros dois de mãos livres, adivinhava-se sacos às costas, pelas alças exibidas nos dois ombros. Um deles ia passar junto a Paula. Estava mais recuado em relação aos restantes elementos do grupo. Paula fitou-o. Sentada, ergueu um pouco a cabeça. O homem pareceu-lhe conhecido. Focou melhor. Martinho! Não podia ser. Interrogou-se, como era possível ele estar naquela praia? Olhou para os outros dois para ver se os reconhecia. Olhou novamente para Martinho. Era ele sem dúvida. Continuava a usar o cabelo comprido, não engordara e mantinha o seu corpo atlético. Confusa, esperou pela passagem de Martinho junto a si para dissipar todas as dúvidas. No momento em que este passava à sua frente, o sol coincidia naquela direcção. Paula ainda viu o perfil de Martinho, era ele mesmo. Aquele nariz era inconfundível. Toda aquela luz nos seus olhos perturbou Paula, que não conseguiu dizer qualquer palavra, perdendo a oportunidade de chamar o amigo. Ficou a olhá-lo de costas, ganhando coragem para gritar o seu nome. Nisto, o seu filho desatou a correr para o mar, com um balde na mão. Paula foi socorrê-lo e quando voltou a sua cabeça à procura de Martinho e dos seus amigos, já os seus corpos estavam imiscuídos na multidão. Por mais alto que o chamasse, seria impossível a Martinho ouvi-la.

            Paula conhecera Martinho na faculdade. Ingressaram no mesmo ano e obtiveram a licenciatura praticamente em simultâneo. Ambos suburbanos, ela vivia na margem sul e ele na margem norte da grande cidade. Almoçavam juntos e perdiam tardes a conversar, a conhecerem-se. Apesar de manter o seu namoro de adolescente, Paula passou a sentir uma paixão por Martinho. Passaram férias em conjunto, saíram várias noites com muita diversão e muita proximidade. Certa noite, Paula ganhou coragem e declarou-se a Martinho. Era o desfecho evidente. Só que Martinho sempre resistiu. Ria-se do que ela lhe dizia, não a julgando a sério. Talvez por isso, Paula adoeceu. Não apareceu umas semanas pela faculdade. Entretanto, o seu namoro de adolescente terminou e quando Paula voltou à frequência das aulas, percebeu que Martinho estava interessado numa outra rapariga. Nos decorrer desse ano lectivo, Paula refugiou-se na sua terra natal. Todos pensavam que o desgosto de amor sofrido pelo rompimento com o seu namorado de adolescente a deixara de rastos. No íntimo, ela sabia que o seu maior sofrimento tinha sido provocado pela negação de Martinho, só que jamais o admitiria publicamente. Até ao final dos seus estudos, passou a estar com Martinho esporadicamente, embora este sempre mantivesse a mesma cordialidade com ela. Logo após terminar o curso, Paula ainda viu Martinho um par de vezes. Depois entrou no mundo profissional e deixou tudo isto para trás. Até que naquela tarde, na praia onde se banhava desde adolescente, lhe pareceu ter visto aquele que a rejeitara.

            O nariz de Martinho era inconfundível, por ser esquisito. Um pequeno alto a meio da cana de um longo nariz era motivo de troça por parte de colegas, com as quais Martinho tinha-se habituado a conviver. Paula, quando conheceu Martinho, vivia uma fase de procura da imperfeição na beleza. Uma bizarria. Numa cara bonita procurava uma cicatriz, uma marca das doenças infantis, uma ruga precoce, um dente desalinhado, um olho de cada cor, um sinal inestético, ou outra qualquer alteração física. Martinho tinha sido um achado. Nele destacava-se o trato educado, a simpatia que transmitia e foram estas características que fizeram Paula apaixonar-se por ele. O modo de ser de Paula nunca passou despercebido às suas amigas. Estranha, embora de relacionamento fácil, parecia nunca estar satisfeita com a vida. Por exemplo, dizia várias vezes que não era feliz por viver naquela localidade mas, nunca a abandonara. Devido a estas proclamações, Paula era conhecida no seu grupo de amigos pela sua diferença e tinha como alcunha a “estrangeira”, numa clara alusão ao livro de Camus.

            O sucedido naquela tarde de Junho não podia ser relatado por Paula a ninguém. Tudo seria mal interpretado e o facto de a incidência solar lhe perturbar a voz, seria motivo para as suas amigas soltarem umas boas gargalhadas:

            - És mesmo Estrangeira!

 

 

(a publicar no dia 22/04/10)

 

 

quarta-feira, março 31, 2010

Ciúme

Raul não conseguia dormir. Estava deitado junto a Eva, na sua cama de casal e não havia forma de adormecer. Já se tinha virado para os dois lados da cama, de barriga para cima, para baixo e nada. Acendeu o candeeiro, pegou na “Origem das Espécies”, leu umas páginas.

A luz não incomodava a sua esposa, tão sossegada a dormir. Raul contemplou Eva. Tranquila de olhos fechados, uma beleza angelical. 

            - A Antónia não simpatiza comigo. Deve ter ciúmes pelas minhas conversas com o marido dela à porta da repartição, enquanto fumamos.

Raul fechou o livro, não se concentrava. Pombos, bicos, papos e caudas em leque.

- És parvo, Raul. A Eva é incapaz de te trair, pá.

Alberto não queria acreditar na desconfiança de Raul. Amigo do casal, desde longa data, confiava plenamente nas virtudes da amiga.

- Há frases que te elucidam Alberto. Passei a noite sem dormir. Nem o Darwin me cansou. Ao referir-se à pouca empatia da Antónia, eu como a considero mal encarada, não relacionei com nada. Passado uns dias, pensei melhor no significado das palavras da Eva. Imaginei o Marco, é o marido da Antónia…

- Sei…

- … a falar em casa das conversas com a Eva. A Antónia a ouvir o nome dela várias vezes. A escutar o partilhar de cigarros, de histórias, das preocupações maternais, das preocupações laborais de outra mulher. Outra mulher, a invadir-lhe a casa, sem pela porta entrar. A dominar a atenção do marido. O marido a sorrir ao referir-se ao nome da Eva. Essa provocação fez Antónia alterar o seu comportamento. O Marco a falar-lhe de uma mulher, enaltecendo as suas qualidades, despertou a desconfiança da Antónia.

- Raul, meu amigo, estás a seguir a intuição feminina.

- Provavelmente. Jamais falei com a Antónia sobre o assunto, só que comecei a recordar-me das vezes que Eva falou do Marco lá em casa. Das ajudas mútuas que foram solicitadas. De recordação em recordação, percebi que o encantamento entre os dois foi crescendo.

- Ena que imaginação!

- Lembrei-me como nos apaixonávamos em jovens. A afeição que sentíamos por determinada rapariga. De como nos sentíamos felizes a conversar, a trocar ideias, livros, discos com amigas e de como, entretanto, o sentimento mudava, crescia e abandonávamos uma namorada e partíamos para outra.

- Ninguém te deixou, Raul.

- Eu sei Alberto. A angústia dominou-me. Não dormi nada. Estou com uma directa em cima.

Alberto procurava as melhores palavras para consolar o amigo.

- A Antónia não simpatiza comigo.

Sem ser interrompido, Alberto explicou ao amigo as virtudes da literatura, dos dramas e das figurações específicas das narrações. Recordou-lhe que se repetem, em várias obras literárias uma série de discussões, umas das quais é o ciúme.

- Como deves compreender a tua desconfiança, insegurança diria, fez-me lembrar um conto sobre o ciúme. Basicamente o marido queria colocar à prova o amor da esposa, desaparecendo e fazendo frequentar a sua casa, um belo jovem, para verificar como incondicional era o amor da sua amada.

- Um clássico.

- Exactamente. O desfecho é sempre o mesmo, doloroso para quem desconfia. Por isso, acredita que a maturidade da Eva é maior do que quando era adolescente. Do Marco não posso falar. Se a Eva te conta das desconfianças da Antónia é porque isso a entristece, Raul. Nada mais. Não alimenta nenhuma ilusão, nem pretende abandonar-te. A relação dela contigo é a mais honesta possível. Ela é transparente. Conta-te tudo.         

A conversa terminou com Alberto a aconselhar Raul a trocar de livro.

- Coloca o Miguel Cervantes no teu quarto. E não penses que é por causa do amor incondicional do engenhoso fidalgo de La Mancha.

Nessa manhã, Eva estranhou não ver Marco à porta da repartição. Perguntou por ele a um dos colegas fumadores.

- Não apareceu esta manhã. Segundo o Miguel, o Marco afirmou-se. Saiu de casa para viver com a Emília.

 

(a publicar dia 01/04/10)

 

 

quarta-feira, março 24, 2010

Nós limpamos

 

            No passado sábado, dia 20 de Março, fui um dos 80 participantes do projecto Limpar Portugal, Limpar SJM. Destacado pela organização para a zona da Devesa Velha, tive durante esse dia, a oportunidade de verificar a quantidade de resíduos depositados em zonas verdes da cidade.

O cálculo efectuado nas acções de reconhecimento realizadas pelo grupo local, demonstrou ser deficitário. Afinal, havia muito mais lixo abandonado nas quatro zonas da cidade, cujo propósito era serem limpas por voluntários no âmbito da campanha de índole nacional, Limpar Portugal.

Às oito horas e trinta minutos, já se limpava. Ainda não tinham chegado todos os participantes, nem o funcionário municipal destacado pela Câmara Municipal, nem o material de apoio previsto para a equipa de limpeza e já os restos têxteis de dois colchões de cama, mais de uma dezena de garrafas de vidro, uma série de recipientes de plástico e de metal estavam ensacados, prontos para serem recolhidos.

Com o reforço humano e de meios, conseguiu-se limpar: restos de material de uma tinturaria, desperdícios e frascos de tinta atirados para o mato; os evitáveis desaproveitamentos da indústria de calçado; imensos cacos de vidro quebrados ao longo dos anos, provenientes de placas abandonadas por um construtor civil; roupas; botas velhas; brinquedos e uma carpete já assimilada pela natureza, com um arbusto, entretanto nascido, a atravessá-la.

Todos estes resíduos estavam próximos da estrada - aqui Rua do Visconde. O grupo desceu um pouco mais, a caminho do IC2, inclinando para a esquerda, posicionando-se sensivelmente em frente ao Centro Empresarial e Tecnológico. Ali em baixo, retiraram-se 30 pneus. Todos depositados na ribanceira, já com silvas a cobri-los e metade deles, obrigando a subir à estrada para serem empurrados, pois não havia outra forma de os retirar dali. A seguir aos pneus, estavam depositadas três carcaças de frigoríficos, cheias de pedras e com troncos sobrepostos, obrigando a um trabalho extra para a sua remoção. Dali para a frente restos de caixas de estores, de persianas, de tubos em PVC, de esferovites e de outros materiais de construção estavam inseridos na paisagem.

Este foi o entulho retirado. As fortes chuvas do dia anterior tornaram o terreno lamacento. Não se conseguia prosseguir naquela direcção, tendo ficado uma das ribanceiras com algum lixo. Da zona pantanosa, ainda retirámos dois pneus, deixando lá ficar louça de casa de banho, uma sanita, um bidé e uma pia das mãos, mais uma série de entulho. Às dificuldades devido ao excesso de água acumulada, pelo menos até a meio da canela, acresce que todo aquele canto estava impregnado por um cheiro a águas residuais, verificando-se algumas manchas gordurosas nas margens do pequeno curso de água que por ali deambula.

Podia continuar a descrição, indicando os resíduos retirados da vala criada pela abertura do colector municipal, assegurando que mais não se tirou por causa da água acumulada, só que a apresentação dos tipos de resíduos e acções desencadeadas seria muito parecida com os parágrafos anteriores.

Penso que os leitores terão compreendido o que esconde a nossa floresta. O relato aqui apresentado, do entusiasmo e empenho dos doze voluntários que optaram pela Devesa-Velha, será certamente muito semelhante ao das restantes equipas que puseram mãos à obra em S. João da Madeira e no resto do país.

Apesar de tudo, ainda ficaram muitos resíduos por retirar.

A autarquia pode agora aproveitar o levantamento prévio e completar o trabalho iniciado, corrigindo algumas anomalias detectadas, estabelecendo procedimentos de vigilância e continuando a proibir a deposição de resíduos em zonas verdes.  

Quem se mobilizou nesse dia para a limpeza da floresta espera, no fundo, que a mensagem de sensibilização transmitida nesta campanha seja bem assimilada pela restante população, ajudando a alterar hábitos que não contribuem para o bem-estar de todos.  

 

(a publicar no dia 25/03/10)

         

quarta-feira, março 17, 2010

Da gastronomia

 

            O coelho, atendendo à utilização do seu pêlo como matéria-prima na indústria de chapelaria, teve certamente uma importância na história de S. João da Madeira.

             A necessidade de abastecer as máquinas de feltros, acompanhando a grande quantidade de encomendas de chapéus recepcionadas na indústria local, provocou certamente uma enorme existência de coelhos nas redondezas. A sua criação esteve sempre facilitada pela capacidade de reprodução da espécie.

            O crescimento de unidades industriais de chapelaria, não terá permitido aos criadores de coelhos proceder a uma selecção metódica da espécie, melhorando-a com o objectivo de encontrar uma relação óptima de peso e a qualidade de pêlo. A lógica de entrega, em quantidades sucessivas, foi certamente o que imperou no fornecimento à indústria local. Ainda são visíveis, nas traseiras de moradias mais antigas, vestígios dessa época de grande criação doméstica. 

            Anos mais tarde, o desuso do chapéu, a consequente diminuição da produção de feltros, introduziu um novo factor na criação de coelhos, levando à redução do número de existências, apesar da grande capacidade reprodutora - uma gestação da coelha demora apenas 31 dias, nascendo ao fim desse período 4 ou 5 crias.

            Factores como a qualidade do pêlo, provenientes de espécies existentes noutros países, ou mesmo de outros animais, originando chapéus diferenciadores, terão contribuído para uma estagnação do número de coelhos nesta região, embora, longe de qualquer perigo de extinção, naturalmente.

            O raciocínio da produção vertical, com controlo total das matérias-primas e do produto final, encontrando-se soluções de venda para fases intermédias, permitiu que fosse encontrado no coelho, pela sua importância na arqueologia industrial, o prato típico da gastronomia de S. João da Madeira.

            Qual a forma de o preparar e servir, não consegui apurar. Receitas de coelho, segundo a Associação Portuguesa de Cunicultura, existem 48 diferentes. Poderia reproduzir alguma exemplificando, só que não sou grande apreciador desta carne, pelo que além da maçada provocada aos leitores, não teria qualquer prazer pessoal na transcrição.

            Para a confeitaria, numa região rica em doçaria – fogaça, pão-de-ló, entre outras – foi eleita a torta de cenoura. Um pouco arrojado, mantendo-se a ligação ao coelho, desta vez, às suas preferências alimentares.

            Acontece que em casa dos meus pais, uma das sobremesas de eleição confeccionada é precisamente a torta de cenoura. Não deixa de ser curiosa a coincidência, atendendo a que os meus progenitores vieram para S. João da Madeira há quase cinquenta anos.

            Em festas familiares era um dos doces mais aguardados. No momento de o servir, o meu pai aumentava a ansiedade das crianças sentadas à volta da mesa. Pegava na faca e perguntava quem queria. Educadamente respondíamos um bocadinho. Assim era servido. Um pequeno pedaço, correspondente a um terço, ou menos, de uma fatia normal. Desapontados e não percebendo o jogo, voltávamos a pedir outro bocadinho… A brincadeira repetia-se, longe de imaginarmos que aquele doce seria proposto para emblemático da terra que nos viu crescer.

           

             

(a publicar no dia 18/03/10)                            

quarta-feira, março 10, 2010

8 de Março

            A revista Visão na sua publicação trimestral “História”, apresentou uma edição com o Portugal de há cem anos, a propósito da implantação da República. Um documento abrangente com apresentação de dados cronológicos e demográficos. Entre os vários dados políticos - dos movimentos decisivos dos republicanos, aos últimos dias da monarquia, o quotidiano nacional desse tempo foi retratado. A inclusão de fotografias de várias localidades deu para identificar as mudanças físicas de um século mas, ao mesmo tempo permitiu recordar antigos hábitos, vocábulos em desuso, profissões da época, entre outras particularidades do dia-a-dia.

            Dos bilhetes-postais editados, um mencionava S. João da Madeira. A caminho da feira era o motivo fotografado. Em primeiro plano uma rapariga. Na sua cabeça uma tábua suportando chapéus. Mais de uma dezena, destacando-se um chapéu de senhora. Os trajes da carregadora são simples: blusa, saia e um avental por cima desta. Para completar a descrição desta figura, refira-se que está descalça, em chão de terra batida. Em segundo plano, uma carroça puxada por uma junta de bois, com a respectiva canga. A carga da carroça não se consegue distinguir. O condutor de fato escuro e chapéu está de pé, com uma vara na mão.

            Um passado pitoresco de S. João da Madeira, ainda com uma forte componente rural. Uma imagem duma época de transição, o caminho para a abundância industrial. Mão-de-obra feminina distante da indústria, habilitada a executar apenas algumas tarefas. Um complemento das transportadoras de marmita, em tempos já mencionadas por mim nestas páginas.

            Por essa época, passava a frequentar um curso universitário a primeira mulher. Natural de uma freguesia do concelho de Santa Maria da Feira, Domitila Carvalho era uma excepção num país com uma taxa de analfabetismo elevadíssimo - entre as mulheres rondava os 83%.

            Passado um século as desigualdades entre género ainda subsistem no nosso país, embora sem as grandes diferenças do passado.

            Do mundo industrial, recolhi relatos de mulheres que na sua vida, algumas ainda em crianças, outras já adolescentes executaram esse tipo de cargas. Almoços transportados à cabeça, ao longo de vários quilómetros, maioritariamente percorridos com os pés descalços, para serem servidos a tempo e horas à entrada das fábricas, a pais ou a irmãos mais velhos, faziam parte do quotidiano local, ainda na década de 70 do século XX. Nesses anos, algumas fábricas locais asseguravam a carga do produto final até aos transportadores nacionais, à cabeça das operárias.

            Na homenagem à indústria e ao passado histórico do país, consagrada nos anos 90 com a implantação de estátuas pela cidade, ficou algo por efectuar. Um tributo à artesã seria uma forma de enaltecer o passado de sacrifício da mulher sanjoanense. Seria também, utilizando temas mais actuais, uma forma de promover a igualdade de género e de relembrar, combatendo-o, o elevado índice de violência doméstica existente no concelho.

 

(a publicar no dia 11 de Março)

              

           

             

 

quarta-feira, março 03, 2010

40

            Daqui a pouco mais de quinze dias realiza-se a iniciativa Limpar Portugal, com o propósito de limpar as florestas do nosso país. Em S. João da Madeira, a organização local detectou quatro zonas e estimou estarem depositadas nessas áreas 40 toneladas de lixo ilegal.

            Em meados da década de 90 do século passado, colaborei numa acção semelhante que se intitulou Limpar o Mundo, Limpar SJM. Uma iniciativa do jornal labor, associando-se à promoção desencadeada pelo jornal Público à escala nacional, que contou com o apoio da Associação Estamos Juntos. Com o intuito de demonstrar o estado em que se encontravam os espaços urbanos da cidade, foram eleitos como locais a limpar: o Parque de Nossa Senhora dos Milagres, a Avenida Renato Araújo e a zona pedonal – Praça Luís Ribeiro e zonas adjacentes. Numa manhã de sábado de Setembro, salvo erro, munidos de luvas, pás, enxadas, carrinhos de mão e os inevitáveis sacos de plástico pretos - tudo fornecido pela Câmara Municipal, os cerca de 50 voluntários recolheram o lixo que encontraram. Na época ninguém se preocupou em pesar os respectivos resíduos. O acto era meramente simbólico.

            Decorridos praticamente quinze anos desde a primeira operação, é importante destacar o que mudou entre as duas iniciativas:

            a) Os meios de divulgação – como descrevi, nos anos 90 a iniciativa foi promovida por um jornal, sendo apenas e só esse órgão de comunicação social de âmbito nacional a divulgar o evento. Por cá, o labor fez as honras da casa. Veja-se o contraste com o Limpar Portugal do próximo dia 20 – divulgação na RTP, em jornais nacionais, locais, em vários sites na internet e nas escolas.

            b) Os meios técnicos – na georreferenciação das lixeiras, indicando as suas coordenadas GPS, permitindo uma melhor identificação e sobretudo, facilitando o acesso aos espaços florestais, existiram preocupações em verificar o tipo de lixo existente em cada local, para se programar o transporte adequado para a sua remoção. Por exemplo, na Devesa Velha, foram identificados “entulho, resíduos de demolição e construção (RDC), lixo orgânico, plástico, embalagens, vidros, papéis, alguns monstros como colchões, sofás e frigoríficos bem como resíduos da indústria do calçado como solas e peles”. Ao pensarmos nos carrinhos de mão…

            c) Mobilização – ainda não chegou o dia L, contudo, o grupo de S. João da Madeira já é constituído por 116 membros.

            d) Indiferença autárquica – se no município de Faro foram identificados 240 toneladas de lixo ilegal, que podem ser utilizados como argumento político provando a má gestão do executivo anterior, já em autarquias onde não houve mudança de partido, esta iniciativa pode ser utilizada como uma oportunidade para consolidar a limpeza do município. Existe o risco sério de surgirem críticas pela inércia de anos, só que o pragmatismo a alcançar, compensa.  

            e) Sensibilização – o cuidado com o meio ambiente, divulgado durante anos, começa a dar resultados. A participação em actos cívicos é a prova disso mesmo. Estão bem enraizados nas gerações mais novas da população conceitos ecológicos … outrora tão firmes.

 

(a publicar dia 4/03/10)

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Lapsus calami

Lapsus calami

 

            A expressão latina, que intitula este texto, pode ser traduzida como erro de escrita, pois na antiguidade o instrumento de caligrafia, feito com um caule de junco afiado, designava-se por “calami”. Estes erros involuntários de grafia, não significavam falta de formação ortográfica do autor, pois subentendia-se, serem apenas e só pequenas distracções.

            Outrora como erro ortográfico, a expressão perdurou até aos dias de hoje, servindo para classificar erros inconscientes na narrativa. Falhas temporais, redundâncias, incompatibilidades, enfim gralhas, provocando um tom cómico na leitura, como se pode ler nos exemplos seguintes:

— "O cadáver olhava com repreensão para os que o rodeavam."

— "Que pode fazer um homem morto por uma bala mortífera?"

— "Por infelicidade, a boda atrasou quinze dias, durante os quais a noiva fugiu com o capitão e deu à luz oito filhos."

— "Excursões de três ou quatro dias eram coisa diária para eles."

            Eu próprio já me penitenciei por, em tempos, ter feito uma troca de verbos de fonética semelhante mas, de significado diferente. Ainda no passado mês de Janeiro, no conto publicado em duas edições do jornal labor - Visita, no momento em que Beto Rouquinho faleceu, baptizei-o de Pedro. Erro menor, que poderia ser justificado pela afeição com o personagem criado e pela ingratidão de o obrigar a falecer a duzentos quilómetros de casa, embora reconhecendo que o motivo possa ter valido a viagem.

            Os lapsus calami atrás apresentados são de autores incógnitos. Estão reunidos nas páginas de um livro do escritor Bolaño, que citando antologias de caçador de gralhas, indica-nos uma outra série, retirada de escritos de diversos autores consagrados. Transcrevo alguns dos exemplos divertidos, ora deliciem-se:

— "Pobre Maria! Cada vez que percebe o ruído de um cavalo que se aproxima, tem certeza de que sou eu." O duque de Monbazon, Chateaubriand.

— "A tripulação do navio engolido pelas ondas era formada por vinte e cinco homens, que deixaram centenas de viúvas condenadas à miséria." Dramas marítimos, Gaston Leroux.

— "Vamos embora!, disse Peter procurando seu chapéu para enxugar as lágrimas." Lourdes, Zola.

— "O duque apareceu seguido de seu séquito, que ia na frente." Cartas do meu moinho, Alphonse Daudet.

— "Com as mãos cruzadas nas costas, Henrique passeava pelo jardim, lendo o romance de seu amigo." O dia fatal, Rosny.

— "Com um olho lia, com o outro escrevia." Nas margens do Reno, Auback.

— "O cadáver esperava, silencioso, pela autópsia." O favorito da sorte, Octave Feuillet.

— "Guilherme não imaginava que o coração pudesse servir para algo mais que a respiração." A morte, Argibachev.

— "Esta espada de honra é o mais belo dia da minha vida." A honra, Octave Feuillet.

— "Começo a ver mal, disse a pobre cega." Beatriz, Balzac.

— "Depois de cortarem a sua cabeça, enterraram-no vivo." A morte de Mongomer, Henri Zvedan.

— "Tinha a mão fria como a de uma serpente." Ponson du Terrail (sem indicar o nome da obra).

            Existem as compilações em livro de lapsos de linguagem, sobretudo, de agentes desportivos, embora as gafes dos políticos mereçam idêntico destaque. Por vezes, fica esquecido o momento inesperado e a pretensa intenção de denegrir as capacidades intelectuais dos mesmos, sobrepõe-se ao aspecto cómico. O mesmo acontece, com as colectâneas de respostas disparatadas em exames ou provas do ensino superior dadas por estudantes a professores.

            Exemplos de gafes no cinema, em filmes como Jurassic Park (uma tatuagem na perna do dinossauro), ou em 007 (aparecendo em imagem reflectida o operador de video que filmava a acção), em Gladiador surge no ecrã uma botija de gás… mostram que o erro irreflectido não é apenas individual. Alguns erros detectados e prontamente emendados são compilados, apresentados posteriormente como bloopers, surgindo como conteúdos extra em edições de DVD. Poderia apresentar mais exemplos, até dos programas dos canais de televisão, mais conhecidos pelo seu acesso facilitado, no entanto, penso que está demonstrada a proliferação inadvertida de lapsos.

            O importante é ter capacidade para o reconhecer, se possível, juntando uma boa dose de humor.

 

(a publicar dia 25/02/10)

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Retratos

            No facebook quando sou convidado a visitar o perfil de um conhecido, deparo-me com uma série de fotografias de amigos comuns. A curiosidade impulsiona-me a seguir uma dessas ligações, encontrando outras caras conhecidas, ou as mesmas que estavam no perfil anterior. Sigo, escolhendo um outro amigo, até que chego a um ponto em que não observo ninguém conhecido e volto atrás. Repito o procedimento, optando por outro caminho, revejo caras esquecidas, encontro amigos perdidos e claro, surpreendido vou descobrindo fotografias de próximos e até de familiares.

            A minha participação nesta rede social limita-se a isto. Nem concebo mais. Por falta de tempo e de interesse, é a melhor explicação, embora reconhecendo existirem outros motivos.

            A lógica da ligação, das fotografias de amigos associadas a uma pessoa, é sedutora e permite reforçar uma ideia concebida em tempos, de recuperação do espólio dos fotógrafos com casa comercial instalada nas ruas da cidade.

            Milhares de fotografias tipo passe, entre outras, estão depositadas nesses estabelecimentos.

            As etapas da vida retratadas numa sucessão de anos.

            Um património pessoal, com possibilidade de ser resgatado, mediante a apresentação do número de série, ou com paciência para a procura entre milhares de registos. Séries da mesma pessoa, nalguns casos desde a infância até à idade adulta, permitem ver o seu crescimento. O uso temporário de óculos, o corte e a dimensão do cabelo - para ambos os géneros, o eventual bigode ou a barba – para os homens, são pormenores por vezes esquecidos que uma recolha deste género permite recordar.

            Uma colecção de fotografias, que agrupadas por épocas, permitem disponibilizar dados para um estudo social da cidade, ou mesmo etnográfico ou de carácter antropológico. 

            A herança colectiva legada por todos os que aqui viveram e por instantes (ou por obrigação), se deixaram retratar.           

            Pela definição, em Assembleia Geral do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios realizada em Copenhaga, no ano de 1972, “um museu é uma instituição de carácter permanente, administrado para interesse geral, com a finalidade de recolher, conservar, pesquisar e valorizar de diversas maneiras um conjunto de elementos de valor cultural e ambiental”.

            Ao cruzarmos esta definição com as ideias transcritas em parágrafos anteriores, não temos dificuldade em perceber que existe matéria patrimonial que deve ser recolhida, conservada, pesquisada e valorizada. Os retratos pessoais de mais de meio século são provavelmente um dos melhores valores culturais da cidade.

              Um conceito inovador no capítulo da conservação patrimonial, que alojada condignamente num espaço da cidade, permitiria o acesso colectivo a tão grande compilação, deixando orgulhosos os retratados.

            Aquela série de detalhes como a legalidade, a aquisição, a identificação dos fotografados, a forma de expor, o local certo para alojar a exposição, entre outros, deixo-os para os entendidos.

            Fica a ideia.

            Para memória futura.  

 

(a publicar dia 18/02/10) 

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Jet lag

            Imaginem o seguinte cenário: um corte de electricidade nocturno de rápida resolução - um sujeito a dormir, sem se aperceber da falha.

            O despertador digital, equipado com pilha apropriada para manter o seu funcionamento em caso de falha de energia eléctrica, toca à hora programada. Prontamente desligado, o despertador merece desconfiança, pois estranha-se a escuridão no exterior mas, voltando a olhar para o mostrador acredita-se que, por ser Inverno, o céu está mais nublado do que o costume e por isso o amanhecer parece mais tardio.

            Antes de sair de casa, ao tomar o pequeno-almoço, uma nova surpresa, o relógio agregado ao fogão indica uma hora completamente diferente, meia - hora mais cedo do que a observada no quarto. Desconfia-se. O telemóvel, que podia servir para tirar as dúvidas, está desligado, sem qualquer carga. Olha-se para o exterior, para nascente e em lugar de nuvens vemos o céu limpo, embora sem raios de sol, apenas o clarear do dia.

            Nada melhor do que ligar a televisão, pois enquanto é emitido o noticiário matinal está sempre visível o relógio. Azar. Publicidade no ar. Espera-se um pouco, por preguiça para fazer zapping. Opta-se por executar outra tarefa rápida, como colocar o telemóvel à carga e quando se olha de novo para a televisão, surge a informação do trânsito. No ecrã dois relógios, um do canal e outro associado às imagens recolhidas das cidades. Entre eles, uma diferença de três minutos. Acredita-se que estará certo o do estúdio.

            A diferença para a hora de casa é mais quinze minutos para o fogão e menos quinze para o quarto. Aqui o cérebro começa a funcionar. Deduz-se que houve uma falha de electricidade durante a noite e o funcionamento com alimentação da bateria provoca este tipo de adiantamentos. Baralhado, involuntariamente com menos quinze minutos de sono numa noite, entra-se no automóvel e o relógio indica por sua vez, uma outra hora, ajustada à entidade patronal. Durante a viagem, na emissora seleccionada ouve-se o sinal do noticiário, mais cedo dois minutos do que a hora certa. O cérebro não se ajusta a estas antecipações, formatado durante anos para os noticiários a serem apresentados hora a hora, sem mais ou menos minutos.

            Já no trabalho, duas novas observações horárias. No monitor do computador, o relógio visível do lado inferior direito, não se sabe bem porquê, está sempre atrasado. Por seu lado o telefone portátil, com o seu relógio incorporado, tem tendência a perder a data e hora marcada, pelo que a confusão torna-se ainda maior.

            No acerto do ritmo biológico procurar a hora certa é importante. Faz-se um esforço para ajustar os relógios disponíveis, acertando-os todos e procurando que o telemóvel pessoal fique exacto também.

            Chegado ao fim do dia é o inverso. Chega-se a casa e ao deparar-se com o relógio da cozinha, a sensação que se tem, é que se chegou mais cedo do que é costume. Ao fim da noite, ao entrar no quarto e vendo o despertador quinze minutos adiantado, podem acontecer duas situações, se a noite foi mais do que alongada, o natural é adormecer e esquecer a hora certa. Caso o trauma dos quinze minutos perdidos nessa manhã não tenha sido esquecido, o melhor é mesmo ajustar o fuso horário.

 

(a publicar dia 11/02/10)

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Choque fiscal

            Não existe em Portugal um partido político que olhe para os impostos do mesmo modo que a maioria dos cidadãos, ou seja: devem existir, para fazer face ao que é considerado como absolutamente necessário à comunidade, a começar pelas despesas que visem assegurar o exercício das funções de soberania e a terminar em determinadas despesas de âmbito social; por outro lado, o valor cobrado deveria tender para sucessivas e controladas descidas, para evitar o endividamento público.

            Em 2002, este conceito, de choque fiscal, não passou de promessa eleitoral e rapidamente foi esquecida. Na confusão ideológica do espectro político Português, esta noção liberal poderia ajudar a distinguir os partidos políticos. Porém, as práticas de governação demonstram o contrário.

            A nível da gestão das diversas autarquias, seria de esperar uma rotina diferente, sobretudo de quem defende a ideia de “menos Estado, melhor Estado”.

            Veja-se o exemplo de dois municípios, S. João da Madeira e Ovar, próximas em termos geográficos e cada qual com um partido político “antagónico” à frente da respectiva autarquia. O IMI – Imposto Municipal sobre Imóveis – para prédios urbanos, em S. João da Madeira passou do valor máximo 0,7% para 0,6%, nos últimos dois anos. Em Ovar a taxa aplicada no mesmo período foi sempre o menor valor permitido, 0,4%.

            É de salutar a contracção verificada neste capítulo pela autarquia local, notando-se que esta quebra na receita não tem expressão no desempenho financeiro da autarquia, ou pelo menos, nenhum dos críticos lhe atribuiu qualquer importância. 

            A factura da água é também elucidativa. O valor fixo em S. João da Madeira é de 6,54 euros, correspondente ao somatório da tarifa de disponibilidade 4,69 euros e da taxa de resíduos sólidos 1,85 euros. Do município de Ovar, que começou a cobrar tarifa de disponibilidade a 1,8 euros a partir de 2009, o valor fixo na factura da água fica em 4,8 euros.

            Com estes dois exemplos pouco ou nada se pode concluir, dirão alguns. O exercício deveria ser alargado a todos os impostos cobrados directa ou indirectamente pelas duas autarquias. A comparação da totalidade dos itens pode conduzir a interpretações diferentes, no entanto, ao escolher estes dois exemplos demonstro que nestas duas rubricas, o município de S. João da Madeira está distante do chavão referido em parágrafo anterior. Pelo menos na parte quantitativa.

            Soluções para receitas alternativas, despenalizando o munícipe é o que se espera.

            A valorização dos resíduos sólidos, efectuada a partir da separação selectiva executada pela população, constitui uma hipótese de receitas que não deve ser descurada. Ora, traçando-se metas, objectivos para a tonelagem a recolher e posteriormente valorizar num determinado ano, o efectivo cumprimento desses fins, poderia no ano seguinte reverter em diminuição da taxa de resíduos sólidos, por exemplo. Ou em qualquer outro imposto ou taxa municipal.

            As boas práticas, conforme verificado no final do ano passado, com a recolha dos papéis de embrulho e caixas de cartão dos presentes de Natal, devem ser recompensadas. 

 

(a publicar no dia 04/02/10)

quarta-feira, janeiro 27, 2010

VIsita II parte

Antes de abrir a porta do seu apartamento, Ana olhou para o aspecto da sala, compôs o sofá e, em seguida, tirou a camisola de trazer por casa que trazia vestida, foi a correr ao seu quarto trocá-la por uma mais decente. Olhou para o espelho para ver o seu aspecto. Corrigiu o cabelo, mexeu na face, para obter uma cor e dirigiu-se para a porta, intrigada.
Beto não carregara na campainha. Com os dedos bateu suavemente na porta. Cumprimentaram-se com dois beijos. Beto nunca sabia quais as amigas que cumprimentava com um ou dois beijos, com excepção desta, pelo que não hesitou entre o primeiro e o segundo. Beto falava muito baixinho. Ana convidou-o a entrar para a sala. Cedendo a passagem a Ana, Beto reparou na sua camisola, não deixando de comentar com ela como estava elegante. Ana sorriu, reparando que Beto estava um pouco esquisito. Ofereceu-lhe uma bebida, ao que Beto respondeu água. Enquanto esperava pela bebida, Beto olhou para o telemóvel. Ana entrou e respondeu às questões do amigo, relacionadas com o seu filho, a sua vida como progenitora a solo, o paradeiro do seu ex-companheiro, além de pormenores da sua vida profissional e pessoal. Ana continuava com a ideia de que Beto não estava bem. Não lhe pareceu sob efeito de álcool e sabia que a sua visita não consumia drogas, no entanto, parecia-lhe que Beto estava demasiado ansioso, nervoso. Por isso, interrompeu-lhe o questionário, perguntando-lhe o óbvio, o que fazia ele por ali, longe de casa, numa noite de semana?
- Para ser sincero – disse Beto, levantando-se do sofá e dirigindo-se para a estante escura, onde Ana arrumava os livros – fiz estes duzentos quilómetros porque precisava de estar contigo.
Ana ficou duplamente sobressaltada. A resposta incomodou-a e viu Beto a pegar no livro que andava a ler, precisamente. Beto voltou com o livro na mão para junto dela, sentou-se muito perto de Ana e foi respondendo às questões da curiosa Ana. As suas explicações não tranquilizaram a amiga. Ana insistia em obter melhores explicações e percebeu que a vida de Beto Rouquinho estava uma grande confusão. Segundo ele, tudo lhe corria mal, queria começar uma vida nova. Pegou no livro, leu o título alto e perguntou a Ana sobre o livro. Esta engasgou-se, dizendo ainda não o ter lido, que andava a ler um outro autor, que estava no seu quarto. Recompôs-se e assertivamente voltou ao tema da visita do amigo
Beto pousou o livro no sofá, fixando os olhos nos de Ana Maravilha. Viu a amiga ficar menos tensa. Olhou para os seus lábios e não desviava os olhos deles. Ana falava-lhe, procurando argumentar com os aspectos positivos da vida do amigo e este seguia os movimentos da sua boca. Aproximou a sua cabeça um pouco mais de Ana e fixou os seus olhos nos dela. Um par fixo no outro. Ana sentiu apreensão por aquele momento. Procurou desviar o olhar de Beto, só que este se não a olhava nos olhos, seguia a sua boca. Beto não resistiu e arriscou beijar Ana. Esta tentou esquivar-se. Beto afastou-se um pouco e pediu-lhe: Não me faças isso, Ana.
Os lábios de Ana estavam um pouco secos. Enquanto durou o segundo beijo, Beto sentiu os lábios da sua amiga a humedecerem. Ana estava envergonhada, queria que aquilo terminasse rapidamente. Precisava de pensar no que lhe estava a acontecer. Beto parou, encostou-se no sofá suspirando. Ana aproveitou aquela pausa para se recompor. Disse a Beto que precisava de um pouco de ar e saiu da sala, indo espreitar o seu filho. Quando regressou, Beto estava na mesma posição, com os olhos fechados, dir-se-ia dormindo. Ana sentou-se ao seu lado e como ele não reagiu, percebeu que ele adormecera. Voltou a sair para ir buscar uma manta, para o aconchegar. Nesse momento, tocou o telemóvel de Beto. Ana pensou que este atenderia rapidamente e ficou admirada com o segundo toque. Mais admirada ficou com o terceiro e ao quarto toque foi a correr à sala, puxando a porta atrás de si. Beto não se mexera. Sonho profundo, pensou Ana. O telefone parara de tocar. Ao abeirar-se dele, Ana ficou estática. Pressentiu o pior. A expressão da cara de Alberto mudara. O telemóvel de Beto acabava de receber um sms. Ana tocou-lhe, para este acordar. Olhou para o seu abdómen e não viu movimento. Procurou sentir as suas pulsações. Deu um grito agoniado.
Enquanto esperava pelo INEM, Ana tirou o telemóvel de Beto da sua algibeira. Olhou para o mostrador: vinte e sete chamadas não atendidas e 10 sms recebidos. Tinha que partilhar a sua angústia com alguém. Verificou a origem das chamadas e das mensagens recebidas. Todas de Dulce, esposa de Alberto Rouquinho. As luzes da ambulância viam-se pela janela. Ana arrumou o livro retirado na estante, abriu a porta e indicou onde estava o amigo. O corpo foi retirado da sala para possível reanimação, a pedido de Ana, preocupada com o eventual acordar do seu filho. O médico do INEM perguntou o grau de parentesco e Ana ficou sem saber o que dizer. Amiga, apenas amiga – disse. A má notícia tinha que ser anunciada à família. Ana tentou esquivar-se mas, ao ver o sorriso malicioso do médico, percebeu que não tinha como evitar mal entendidos

(a publicar dia 28/01/10)

terça-feira, janeiro 19, 2010

Visita

Num calmo e tranquilo serão de um dia de semana, Ana Maravilha encontrava-se na sala do seu apartamento envolvida na leitura de um livro. O seu filho dormia no respectivo quarto. Nessas horas disponíveis, até o sono se apoderar dela, Ana optava por ler. Em algumas noites, em especial se tinha terminado um livro e fazia uma pausa antes de iniciar um novo, Ana dedicava-se ao computador. As novas redes sociais entusiasmavam-na. Trocava mensagens com amigas e amigos, por vezes perdia-se na internet, em qualquer pesquisa apropriada à sua vida. Raramente via televisão, a menos se soubesse da emissão de alguma série ou filme imperdível.

Estava Ana disposta a terminar um livro de trezentas páginas nessa noite. Faltavam-lhe cerca de setenta para o final. O enredo tinha-a envolvido e agora, com um pequeno esforço, encerrava aquele volume. No seu lar reinava um silêncio sepulcral. Ouvia-se o virar de uma página de quando em quando e alguns ruídos do prédio produzidos pela vizinhança. Umas vezes a movimentação de elevadores, por outras o abrir ou fechar de portas, ou alguma conversa oriunda das áreas comuns do prédio, considerava Ana, que não se preocupava em saber donde provinham esses diálogos. Do exterior ouvia-se a passagem de automóveis, o tossir de algum transeunte, o diálogo mais eufórico de algum grupo. Nesse momento, Ana ouviu o bater da porta de um carro, outro som comum, escutou melhor para saber se tal automóvel tinha estacionado ou se iria arrancar. A sua preferência era sempre para paragem, um ruído isolado, em contraste com o iniciar de marcha, que alguns condutores cismavam em produzir elevados decibéis.

A necessidade de Ana em retomar em silêncio as suas leituras, para conseguir a desejada concentração, foi interrompida pelo toque do seu telemóvel. Pousou o seu livro em cima do sofá e foi a correr atender, para que o toque do aparelho não acordasse o seu filho. Quem seria àquela hora? Quando olhou para o visor, viu o nome de Beto. Interrogou-se sobre o que se passaria? Atendeu, para evitar o barulho em casa. Olá Beto – exclamou.

Beto Rouquinho, Alberto de baptismo. Amigo de Ana há muitos anos. Colegas de turma desde os primeiros anos de estudo. No final do secundário, cada um tinha seguido a sua vida. Beto casara e fora para longe. Ana oficialmente não casara e ficou na terra natal. Mantiveram a relação de amizade ao longo dos anos. Beto, enquanto os pais foram vivos, aparecia ao fim de semana e nas férias. Depois tudo se alterou, a família Rouquinho deixou de ter moradia por aquela localidade e Beto, só aparecia em casamentos, baptizados e funerais. Agora raramente se encontravam. Utilizavam os novos meios para comunicar. Trocavam sms pelo Natal, Passagem de Ano, ou nos respectivos aniversários. Além destas efemérides, um ou outro mail esporádico. Os telefonemas eram iniciativa de Beto Rouquinho e Ana Maravilha nunca deixara de atender. Passada a fase das cerimónias religiosas, os raros encontros aconteciam em reuniões de antigos colegas de turma. Amigos comuns promoviam convívios, com periodicidade incerta e Beto aparecia sempre. Sozinho. Ana, por sua vez, raramente comparecia. No dia a seguir a cada ausência, Beto telefonava-lhe. Desta forma, ficou a saber da separação dela e de outros episódios da sua vida. “Merecias melhor” – dizia-lhe Beto.

Olá Ana. Ainda moras no mesmo prédio? - perguntou Beto. Ana respondeu afirmativamente, pensando que Beto estaria a actualizar algum ficheiro de moradas de antigo colegas. Beto perguntou-lhe qual é o andar. Com a resposta de Ana, ouviu-se a campainha de casa a tocar. Ana assustou-se. Pensou no filho e disse – Beto, espera um pouco, tenho o meu filho a dormir e estão a tocar-me à porta, curiosamente. Vou ver quem é… Sorrindo, embora Ana não visse, Beto exclamou: Sou eu Ana. Estou cá em baixo.

Efectivamente, no vídeo-porteiro via-se a sua silhueta. Ana expressou o seu espanto e carregou no botão abrindo a porta do prédio, dando permissão a Beto para subir. Ficou intrigada com o aparecimento do amigo. Podia ter vindo assistir a algum funeral. Assistir ou participar, interrogou-se. Enquanto Beto não subia, certamente à espera do elevador, Ana fechou a porta do quarto do filho. Acendeu as luzes da entrada do seu apartamento e as da sala, lia sempre com pouca luz. Foi esconder o livro, que tinha ficado aberto. Ana tinha o estranho hábito de esconder os livros que andava a ler. Quando os terminava, não os ostentava, nem debatia com os amigos os aspectos da obra. O medo de ouvir uma informação prematura, uma depreciação ou o seu contrário, fazia com que Ana nada dissesse sobre os seus livros em estado de leitura. No final de cada, participava em fóruns de debate, como anónima, trocando várias impressões sobre o que acabara de ler, ou pormenores sobre o autor do livro.

(a publicar dia 21/01/10)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Democracia directa

            Alcanena, Ansião, Arganil, Batalha, Braga, Borba, Campo Maior, Évora, Figueiró dos Vinhos, Lousã, Mangualde, Miranda do Corvo, Murça, Óbidos, Oeiras, Ourém, Ovar, Pombal, Portalegre e Sousel são autarquias com algo em comum. Todas estas Câmaras Municipais aderiram à iniciativa do Portal Cidadão: A Minha Rua.

            Segundo se lê no próprio portal, este site “permite a todos os cidadãos reportar as mais variadas situações relativas a espaços públicos, desde a iluminação, jardins, passando por veículos abandonados ou a recolha de electrodomésticos danificados. Com fotografia ou apenas em texto, todos os relatos são encaminhados para a autarquia seleccionada, que lhe dará conhecimento sobre o processo e eventual resolução do problema”.

             A adesão dos munícipes a este serviço, que permite aproximar cidadãos e poder autárquico, varia conforme o concelho. Em Ovar por exemplo, desde o seu lançamento já houve a apresentação de 81 ocorrências. Em Braga, o cenário é diferente, só houve 12. Em contrapartida, Oeiras tinha 146 assuntos diferentes relatados, o que é indicador do grau de participação da população, em cada um dos municípios e também do seu nível de exigência, para com os seus autarcas.

            Esta facilidade dada ao cidadão, permite-lhe abrir portas, ficando o relator em contacto directo com a sua autarquia, sem a necessidade de perder tempo a deslocar-se a um atendimento municipal. Como o portal lista todas as ocorrências, indicando a data do relato e o estado do processo (em Análise ou Resolvido). Estamos perante uma ferramenta poderosa, para apreciar a capacidade de cada autarquia para resolução dos assuntos levantados. Por vezes, os processos são classificados como Não aplicável. Para terminar a apresentação das capacidades inseridas no portal, refira-se que para cada município pode-se ver um resumo indicando os assuntos, agrupados por tema, enumerando os já resolvidos ou ainda por resolver.

              Convém não esquecer que, este serviço do portal sofre da concorrência de um programa televisivo, embora, nem sempre o canal que o promove esteja disposto a filmar tudo o que lhe sugerem.

            Aqui em S. João da Madeira, o jornal labor encetou um blogue propondo algo do género. Em “Na minha rua”, assim se chama, é possível aos munícipes relatarem as ocorrências surgidas e necessitadas de intervenção pública.

            Mesmo na imprensa local existem especialistas em encontrar este tipo de ocorrências, para posterior divulgação nas páginas dos jornais.

            Apesar de todo o empenho dos munícipes e dos colaboradores dos jornais, fica sempre por esclarecer se o assunto levantado recebeu o devido tratamento da autarquia. Raramente é feito publicamente esse seguimento. Bem, quando o poder político é questionado sobre esses factos, normalmente surgem respostas tipo “leio sempre o jornal, só que nessa semana, não o consegui fazer”.

            Todas estas linhas aqui escritas podem obter o mesmo desfecho. Estou em crer que sim, no entanto, esta forma de comunicar entre população e autarquia é extremamente democrática, permite obter a participação dos munícipes e contribui para elevar a qualidade de vida no concelho. Tudo conceitos enraizados na vida dos habitantes da cidade, como consequência da actividade exercida pela autarquia nos últimos anos.

            Modernizar os serviços da autarquia, utilizando novos canais de comunicação, é no fundo isso que se trata.

            A garantia de resposta é importante para os munícipes, sobretudo, para sentirem que os seus problemas estão a ser tratados.

            Evita-se, para concluir, que os mais distraídos, incluindo os políticos, deixem de ter desculpa para não lerem certas coisas.

 

(a publicar dia 14/01/10)

             

 

 

quarta-feira, janeiro 06, 2010

A Norte

            A luz em certas zonas do alto Minho é única. Atravessei num final de tarde Caminha, regressado de Espanha e tive uma óptima sensação de bem-estar. A cor desenvolvida em volta do estuário do rio Minho, com o monte de Santa Tecla impondo-se na margem espanhola, na nossa o casario, o seu forte e à minha frente, a foz, o cabedelo, escondendo o mar, adivinhando-se o constante bater das ondas, toda a paisagem a transmitir a sua beleza, acrescentando-se os tons do céu, com as nuvens ou princípios de nevoeiro quase sempre uma constante, ficaram para sempre na minha retina, pela singularidade do momento.

            Regressei várias vezes a este cenário, resistente ao passar dos anos. Como turista fui conhecendo os serviços de restauração, as tabacarias e as vendas de jornais. Por razões afectivas envolvi-me mais na vila, passei a conhecer melhor as suas ruas, os seus monumentos, as suas casas, embora só as fachada, refira-se. Senti a humidade permanente. Passei férias em Moledo. Assisti às invasões semanais dos nossos vizinhos espanhóis, para gáudio dos comerciantes. Avistei as festas anuais, bem minhotas, provocando várias enchentes na vila.

            Ao longo desses anos, percorri algum comércio local. Fui cliente em algumas lojas, noutras apreciei o produto, as montras. Fiquei a saber o nome de alguns comerciantes, daqueles cuja loja não adapta o nome do proprietário. Lojas de rua, ou na galeria comercial. Com situações bem pitorescas, como as drogarias que mantêm o hábito diário de expor os seus produtos no passeio – bilhas de plástico, algumas alfaias agrícolas, bem no centro da vila.

            Um dia, tive que ir ao sapateiro. Saí do terreiro em direcção a poente. Entrei numa galeria e lá estava ao fundo o sapateiro. Quando entrei na loja, uma surpresa, um símbolo da Sanjoanense estava afixado na parede. Não me lembro se era um clássico galhardete, ou um quadro pendurado. Obviamente, dei a conhecer a coincidência ao artesão. Trocamos nomes, apelidos, embora nenhum reconhecesse o do outro. Pouco consegui tirar do homem, pouco dado à conversa. Era curioso, o sapateiro de Caminha ser natural da capital do calçado e imaginei uma diáspora de consertadores de calçado espalhados pelo país fora, ou pelo mundo para os mais aventureiros, como solução laboral para os operários locais, para fazer face à crise no sector, que já então se adivinhava.

            Fiquei sem perceber, qual o rumo de vida deste conterrâneo, penso que nem lhe perguntei, pois estaria a entrar na sua intimidade e a menos que surgisse de forma espontânea, gosto de respeitar a privacidade de cada um.

Às vezes lembro-me desse encontro. Pergunto à minha família residente no Minho, se o sapateiro ainda tem o seu negócio. A resposta nunca é clara, pois a sua loja não é visível da rua. Dá para perceber que arranjos de calçado são raros lá na família. Como eles, muita gente, por isso, não era lá grande ideia os concertos e arranjos de calçado, como ofício para parte da população de S. João da Madeira, desde sempre ligada a esse sector.

A melhoria de competências, a reconversão é mesmo a melhor solução para a população activa.

             

(a publicar dia 06/01/10)