quarta-feira, dezembro 07, 2011

Eu e o Vouguinha


Rumei a sul. Segui pela auto-estrada até Albergaria-a-Velha. Apanhei outra e continuei até ao rio Vouga. A partir daí, fui circulando por estradas secundárias, orientado pelas indicações de Museu Ferroviário. Cheguei a Macinhata do Vouga. Atravesso a passagem de nível, sem guarda e observo a bitola. Em simultâneo, uma automotora grafitada chegou à estação. Espantosa coincidência. Poucos passageiros. Rapidamente o comboio fica vazio e parado. O condutor abandona o seu posto de trabalho e dirige-se para o fim do comboio. Está feita a inversão de marcha. O Vouguinha está pronto a arrancar para Aveiro. O interesse desperta a curiosidade acerca do horário. Duas horas depois parte. Nem procuro saber a hora de retorno.


Concentro-me no motivo da visita. Volto atrás. À entrada para o largo da estação, uma locomotiva a vapor de cor preta, aparentando bom estado de conservação, mostra-se aos visitantes. Caminho para a entrada do Museu e a porta fechada ostenta um pequeno aviso. Visitas só por marcação. Espreito pelos vidros, observando as peças recolhidas. Despacho de mercadorias, com todos os utensílios e objectos burocráticos reunidos no átrio. Locomotivas ou carruagens tinham visibilidade condicionada. Espreitei pelo meio de traves. Vi o que pude. Voltei à entrada da estação e contentei-me com a locomotiva preta.


Escrevi várias vezes sobre o Vouguinha, expliquei a sua história, mencionei a beleza da ponte de Santiago, fiz referência ao Museu e quando me decido a visitá-lo está fechado.


Sigo de automóvel sem voltar para trás. Desorientado. Esqueço o entroncamento em Sernada do Vouga. O ramal sul vindo de Aveiro a encontrar-se com o troço Espinho – Viseu. O único local largo na linha de bitola estreita. Fica para a próxima.


Perdi a linha ferroviária de vista. O rio Vouga faz uma curva larga à minha direita. Observo a larga planície. Na estrada, à esquerda uma placa indica a estação arqueológica do Alto do Cabeço de Vouga. Subo. O gradeamento de segurança impede o acesso. Ao domingo está encerrada ao público. Detenho-me um momento ante das grades a observar. As construções arredondadas e ao fundo o rio Vouga.


De volta à estrada. Uns metros depois, estou no IC2. Lamas do Vouga. A ponte medieval do Marnel. Uma bateira, no meio do campo alagadiço, justifica a construção histórica. Na ponte, sinais de uma portagem. As taxas que nos acompanham desde a fundação da nação.


Regresso a casa. Para norte. Estrada nacional ou auto-estrada. Escolha múltipla. Duas hipóteses para cada tipo. A nascente, os carris do Vouguinha reclamam interessados. Um quarto de século ao abandono.


“Na quietude dos dias do século passado, o fumo do Vouguinha rasgava o lado poente de S. João da Madeira. Ainda hoje, apesar de ter deixado o vapor, nas tardes calmas de fim de semana ecoa o som do seu apito, quebrando o silêncio dos dias de descanso (…)”. Relembro as minhas palavras, alinhadas a outro propósito.


Um dia hei-de escrever sobre essas tardes calmas.



(a publicar dia 08/12/11)

quarta-feira, novembro 23, 2011

Prestar contas

Prestar Contas

                A ausência de reacções à provocação expressa pelo director do labor, acerca do abandono de funções do presidente da Câmara de S. João da Madeira para ingressar na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN), é curiosa.

Há alguns meses, neste jornal, Castro Almeida foi apresentado como possível candidato a autarca do concelho de Santa Maria da Feira. O silêncio sobre o assunto foi esclarecedor.

O limite do número de mandatos, imposto pela actual lei eleitoral, permite entrar-se em especulação sobre o futuro dos vários autarcas. Aceitando-se que a interpretação da nova lei, contrariando o jeito português, manterá o limite de mandatos dos presidentes das autarquias, haverá vários que pretendem conservar a sua actividade política em outros concelhos. É perfeitamente conhecida, a intenção do presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia em atravessar a margem do Douro, por exemplo. A tentação de copiar este figurino, provável vencedor, deve ser obsessão de várias concelhias dos partidos políticos.

  A outra variável política é a suspensão de mandato. Em Cascais e em Coimbra, os presidentes eleitos suspenderam funções, para darem oportunidade aos seus vereadores de “mostrarem” serviço e potenciarem-se como candidatos a autarcas nas respectivas eleições de 2013.

Estas tácticas políticas, ao serem equacionadas para S. João da Madeira, merecem da população uma resignação surpreendente. A suspensão de mandato é a única que pode merecer o meu comentário. O actual presidente da Câmara não o deve fazer. Pode mas, não deve. A lei permite. A ambição política de exercer um cargo de dimensão regional é tentadora, só que existe um balanço a apresentar aos seus actuais eleitores.

Neste momento a convulsão vivida na cidade, motivada por obras municipais, é elevada:

a)      Dois palacetes restaurados sem destino à vista. A Quinta do Rei da Farinha continua sem o seu inquilino e terminadas as obras para o Palacete dos Condes, sem surpresa, anunciou-se uma intenção, que poderá acarretar empréstimos elevados numa conjuntura nada favorável, para o possível ocupante.     

b)      A reabilitação do cineteatro imperador e da academia de música. Empreiteiros falidos, ou a caminho. Empreitadas canceladas e abertura de novos concursos. Os contratempos e respectivos atrasos nas obras a adiarem a inauguração. Além disso, é importante garantir a futura sustentabilidade do projecto da Casa das Artes e do Espectáculo, incluindo a Criatividade.

c)       A ampliação da incubadora de empresas, entregue a empreiteiro mencionado, com a solvência incerta.

d)      A nova piscina a precisar de financiamento em 2013. Ou na ausência deste, de um projecto realista.

e)      A Oliva CF a ser atraiçoada pelo seu co-criador. À espera do estudo de viabilidade económica ou do desastre completo?

Além destas obras municipais (deve haver mais), a preocupação com o futuro do hospital e da linha do Vouga, cujos encerramentos prejudicarão a qualidade de vida dos habitantes locais, não permite saídas airosas a quem quer que seja.

O sentido de responsabilidade vingará, estou certo.

 

(a publicar dia 24/11/11)

quarta-feira, novembro 16, 2011

Guarda-roupa

                Comecei por ler banda – desenhada na revista Tintim. Semanalmente, acompanhava as histórias publicadas, ao ritmo de duas páginas por edição e aguardava pacientemente pela semana seguinte. Com o desfecho de cada aventura, havia a incerteza de qual seria o herói a preencher aquelas páginas e a ocupar as horas de leitura. Este contacto intermitente, deu-me a conhecer a maioria dos autores e respectivos bonecos da banda-desenhada franco-belga.

                Os livros adquiridos, para a família, completavam a edição em revista. Às colecções por herói e muito posteriormente as de autor, só em adulto é que passei à aquisição. Vários são os títulos a preencher a estante, dedicada ao tema. Colecções completas, só as de Tintim, Corto Maltese e Calvin. A rendição ao miúdo das tiras dos jornais, não é o único sacrilégio cometido, contudo, não existe espaço em casa para "mangas" e "comics" (bandas desenhadas japonesas e norte-americanas, aqui mencionadas apenas para justificar o meu puritanismo em matéria de preferências).

                Na adaptação para animação das aventuras dos heróis europeus, o repórter belga ficou a ganhar. Fiel ao original, a emoção das vinhetas excedeu-se em acção, ritmo, suspense e claro, nos momentos de humor. A música da introdução e a apresentação do episódio em francês são marcas para os seguidores do Tintim.

                O filme de Steven Spielberg, num cinema perto de si, consegue criar um impacto positivo junto dos fãs do herói de BD. O juntar três livros – "O segredo do Licorne"; "O Tesouro de Rackham, o terrível"; "O caranguejo das tenazes de ouro" - numa só história está bem conseguido. A narrativa flui perfeitamente, apesar das três aventuras aparecerem baralhadas, sem respeitar a cronologia do autor, Hergé.

O argumento percorre em detalhe as páginas dos livros. O vilão do filme é o simples coleccionador de antiguidades, um personagem secundário. Os irmãos Pardal, os verdadeiros vilões no livro, aparecem retratados no início do filme, quando Tintim está a posar para um desenhador de rua. Outros pormenores, distinguidos por quem tem horas e horas de leitura da obra de Hergé, permitem apreciar a passagem subtil por outros dois álbuns. O jipe vermelho da perseguição nas ruas da cidade marroquina é o mesmo do livro "O País do Ouro Negro" e a corrida para chegar ao destino do navio "Karaboudjan" faz recordar o episódio de "A estrela Misteriosa". Existem ainda outras minúcias no argumento do filme: o nome da porteira – sinceramente não me recordava de alguma vez ter sido mencionado – e a opção de excluir o Professor Girassol, que em livro surgiu precisamente na procura do mencionado Tesouro.

                A técnica utilizada pelo realizador permitiu dotar os personagens com as suas melhores virtudes. Tintim apenas perde por não falar francês, conseguindo-se através da sua imagem cinematográfica ultrapassar aquele lado de escuteiro. A sua imaturidade, sempre apta para o desafio que a aventura lhe proporciona, está sempre presente em todo o filme.

                Onde se esperava um pouco mais do filme, era em matéria de guarda-roupa. A opção em dotar Tintim com a sua camisola azul-turquesa e a camisa branca por baixo, não é discutível. A gabardine de cor bege escuro, muito menos. Acontece que Hergé, sempre fez por variar a indumentária do seu personagem e nas histórias que o guião do filme segue, o pequeno repórter sempre apareceu com roupas diferentes. O minimalismo do filme, obriga Tintim em pleno deserto a carregar a sua camisola numa mão e praticamente a utilizar os mesmos sapatos em toda a aventura.

                Estas considerações não retiram qualquer mérito ao filme, antes pelo contrário. A sequela, obrigatória pelo final, permite que os aficionados calculem quais os livros a adaptar, os personagens a figurar, ficando-se a aguardar se Tintim continuará a manter junto de si, mesmos nas situações mais adversas, toda a sua roupa.

 

(a publicar dia 17/11/11)

terça-feira, novembro 08, 2011

As pontes do rio Uíma

Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro, Vouga, Mondego, Tejo, Sado, Mira e Guadiana. Os principais rios de Portugal, caracterizados por desaguarem no Oceano Atlântico. Na instrução primária ou para cultura geral memorizava-se o nome destes onze cursos de água, apresentando-os pela sua disposição geográfica. Em matéria de nomes de rios, aprendia-se os principais afluentes do rio Douro, o Tâmega (e vá lá o Paiva) e dos afluentes do Tejo, restava o Zêzere.

Todos os outros eram desconsiderados.

Abria-se raras excepções: rio Leça, pelo aproveitamento portuário e rio Liz pela passagem pela cidade de Leiria. Os demais, jamais eram referenciados pelo comprimento ou distância entre margens, a bem dizer, apenas em épocas de forte precipitação, com o galgar do leito, inundavam os noticiários e as margens envolventes ganhavam importância, sobretudo, se havia estradas cortadas, com a água a atingir os tabuleiros das respectivas pontes. Nestes rios secundários, a maioria das ligações rodoviárias era estreita – previa-se sempre pouco tráfego - e sobretudo, curta, por tão reduzida ser a largura do curso de água. Era frequente atravessar-se pontes, sem se perceber que rio corria por baixo.

As necessidades eléctricas implicaram a construção de barragens. Em geral, os leitos dos rios principais alteraram-se, subindo a cota das águas. O conceito de passagem entre margens repensou-se. O aumento do trânsito rodoviário e os novos itinerários completaram a reformulação na configuração de pontes. Ainda assim, comedidas em comprimento e ajustada em largura.

Viajar, pelo país, passou a ser enriquecedor em termos geográficos, no meio do vão de qualquer ponte, uma indicação do nome desse rio, apesar de na maioria das vezes, não se deslumbrar qualquer água por baixo do tabuleiro.

Com a proliferação de auto-estradas, os conceitos de construção alteraram-se. Partindo para o exemplo concreto, na A41, a sul do Porto, entre Espinho e Crestuma surge a ponte sobre o Rio Uíma. Leia-se os dados técnicos: "uma extensão aproximada de 670 metros e é composta por dois tabuleiros paralelos que se estendem ao longo de 12 vãos de comprimentos diferentes, tendo o maior dos vãos uma distancia de 110 metros entre pilares. Os pilares mais altos têm uma altura de 42 metros aproximadamente (…)". Seguindo-se pela A41 para Norte atravessa-se o rio Douro, por uma ponte de características semelhantes – extensão 760 metros e altura de pilares 45 metros, que permite observar-se a central termo eléctrica da Tapada do Outeiro, sobranceira na margem norte.

Não duvide dos seus conhecimentos sobre os rios de Portugal. O rio Uíma nasce em Romariz e corre para norte, atravessando várias freguesias do concelho de Santa Maria da Feira e Vila Nova de Gaia até desaguar no rio Douro, junto a Crestuma, ou seja, perto de 20 quilómetros de extensão e poucos metros de largura ao longo do seu percurso.

Comparar o rio Uíma com o rio Douro é um exercício inútil. Só está ao alcance de alguns.

Na nova auto-estrada A32 surge um viaduto sobre o rio Uíma. Não consegui encontrar os dados técnicos dessa ponte. Empiricamente pareceu-me mais curta, embora, com altura de pilares excessiva, pois tal como na A41, não tive qualquer hipótese de espiar o rio.

No espaço de três quilómetros, duas pontes sobre o rio Uíma. Dois exemplos do exagero vivido em Portugal na última década. Auto-estradas de utilidade reduzida, construídas com custos excessivos e com poucos utilizadores.

É novidade?

Só para os distraídos.

(a publicar dia 10/11/11)

domingo, outubro 16, 2011

As botas de Pacheco

Em pequeno, às 16h45m de domingo descia à rua e averiguava os resultados da jornada futebolística. À porta da garagem LM, os funcionários informavam-me das principais novidades. Aproveitavam o momento, para tecer as suas considerações de adeptos antagónicos à minha simpatia clubista, com umas graçolas rápidas sobre os resultados. Entretanto, eu subia à Praça para verificar a chave do totobola. Completa, com todos os jogos terminados naquela hora. Procurava saber os autores dos golos e a seguir, divertia-me a ouvir a conversa frustrada dos apostadores, empunhando o transístor com antena ainda esticada: a justificação de menos resultados certos devido às surpresas da jornada (a antena abanava pouco); as previsões falhadas por um golo a terminar um dos encontros ou por um penalty defendido (a ponteira passava rente à cara do ouvinte); uma bola ao poste (era a minha favorita) e um treze a voar; ou um perdulário jogador, apelidado de nomes inarráveis, cujo inacreditável falhanço retirava as hipóteses de escrutínio aos mal afortunados apostadores (a oscilação da antena atingia frequência máxima).

Raramente encontrei naqueles duelos um totalista.

Regressava a casa com o resumo da jornada. À noite comprovava os tais momentos do jogo, visualizava as alterações na previsão fracassada dos apostadores e se os falhanços fossem mesmo disparatados, já tinha motivo para risota no dia seguinte.

Por essa época, como adepto coleccionava uns "frangos" do guarda-redes de serviço. Mal habituado com a eficácia do Nené, ou de outro marcador de serviço, esperava sempre que esse mau momento fosse ultrapassado.

Nem sempre aconteceu.

Numa final em dois actos, da antiga "taça Uefa", Diamantino remata para uma baliza sem guardião e a dois metros do objectivo, a bola bate na barra. Derrota e na segunda mão, não foi possível compensar o estrondo.

Quase trinta anos depois, os insucessos de jogadores vestidos de encarnado são banais.

A lista é exaustiva, apenas mais três exemplos. Sem cronologia, embora os apresente por ordem crescente de disparate.

Em Barcelona, Simão falha a oportunidade de empatar o jogo, estando isolado e a poucos minutos do final. Num jogo com o Espanhol, em cima da linha de golo, Nuno Gomes encostou-se à bola e nada. Numa final da antiga taça dos campeões Europeus, os jogadores do Benfica estrearam umas meias novas, defenderam bem, não sofreram golos, só que sempre que tentavam correr, as chuteiras saíam dos pés. A imagem de Pacheco descalço, a atirar desesperado as botas ao chão, ficou para a história.

A minha perspectiva de adepto permite-me ter sentido de humor para relatar estes factos.

Relativizo os maus resultados, demonstrando a ineficiência dos jogadores, ou por vezes, do homem da táctica. Tudo o resto é acessório.

Não consigo é compreender como é possível manter na televisão, a cansativa fórmula de análise da jornada com adeptos afectos aos vários clubes!? Em especial, na televisão pública, numa época de orçamento reduzido.

O nível de argumentação utilizada é francamente mau.

A apreciação da chave do totobola, à porta da tabacaria Glória, teria sido uma boa escola para os comentadores residentes. Sem esquecer, o complementar esgrimir de antenas.
(publicado dia 27/10/11)

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Herói Solitário

            Como se não bastassem os paralelepípedos graníticos no piso da rua, os passeios cinzentos escarrados, as casas antigas ensombrando lojas, como se não bastassem as prostitutas esquinadas, os mirones defronte, os idosos transitando de olhar indiferente, os pedintes insistentes, os arrumadores ressacados, como se não bastassem os anos e anos que atravessei aquela rua, assistindo ao quotidiano decadente, espreitando montras que escondiam produtos, abrigando-me já encharcado e desesperado numa qualquer entrada, evitando escolher as hospedarias de porta sempre aberta, como se não bastasse ter-me afastado da cidade invicta, daquele trajecto diário, das lojas vazias, de outros estereótipos decrépitos e suceder-se ao fim de alguns anos uma reabilitação espontânea, precisamente nessas artérias que percorri em estudante, com abertura de estabelecimentos de restauração, impondo um movimento nocturno notável e uma oferta de novos estabelecimentos comerciais.

                Como se não bastassem as cores exuberantes na vitrina, as capas dos livros de banda desenhada na montra, os cartazes exibindo personagens a meio corpo, os objectos promocionais a três dimensões, provenientes de vinhetas de alguns livros, como se não bastassem as colecções exibidas, as aventuras por herói, os desenhos enquadrados por autor, como se não bastasse o apelativo reencontro com o livro “O Céu está vermelho sobre Laramie”, o meu preferido da série “Comanche”, devorado vezes sem conta em pequeno, senti a obrigação de entrar naquela livraria, especializada em banda desenhada de origem franco–belga e a percorrê-la de lés a lés.

           Como se não bastassem as memórias avivadas pelos mais desejados livros da infância e primeira adolescência, as revistas da publicação Tintin, agrupadas por ano, contendo as mais variadas histórias publicadas por sequência de duas páginas, em ritmo semanal, como se não bastassem os tomos coleccionados ao longo da vida e se perdidos por empréstimo, de novo comprados, como se não bastasse cada volume jamais adquirido, parecia que várias portas se abriam outra vez, pegava num livro e lembrava-me que fulano tinha aquele, espreitava outro e transportava-me para casa de sicrano, procurava mais um e recordava-me de beltrano a lê-lo.

                Como se não bastassem as inaptidões para o desenho, para conjugar cores numa folha, como se não bastassem as dificuldades em descrever espaços e as características físicas das personagens criadas nos exercícios de escrita, devido a uma maior vocação em narrar a acção, resta-me o culto pelo herói solitário, transversal à maioria das obras editadas na nona arte, como é conhecida a BD.

                Não encontraria melhor imagem, para anunciar uma suspensão temporária da escrita no labor, por necessidade de elaborar um projecto ficcional, do que a que encerra cada uma das aventuras do cavalheiro solitário:

 

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Rua da Escola

                Antes de 1995 era difícil encontrar um livro de Miguel Torga numa livraria.

                - Boa tarde, tem o livro Portugal de Miguel Torga?

                Repeti em várias lojas. Os alfarrabistas da cidade do Porto mediam-me de alto a baixo e respondiam não, assim como, à simples pergunta da existência de um qualquer livro do escritor. A dupla negativa, com o exame visual pelo meio, obrigavam-me a prosseguir a busca noutras paragens.

                Depois do escolar “Bichos”, desejava algo mais do que os contos e os da montanha já estavam lidos. Ansiava por descobrir mais da escrita de Torga, antes da sua morte. Não cheguei a tempo. A reedição integral, algo usual quando um escritor é premiado ou falece, permitiu-me adquirir ou receber os vários títulos (duplicando alguns livros) e sobretudo, ler a totalidade da sua obra. Passei pelo livro procurado e deslumbrei-me com “A criação do Mundo”. A rudeza duma infância afastada dos pais, o relato melancólico da vida do médico, a transparência da linguagem, a transmissão das experiências vividas, tudo isso me maravilhou.

                A minha vontade de um dia escrever, começou por aquelas páginas, devo revelar.

                O interesse literário alargou-se. Sem enumerações presunçosas.

                Por estes dias, voltei a entrar num alfarrabista. Voz familiar estava maravilhada pelo achado e eu não me lembrava de o ter procurado no passado.

Já no interior, lembrei-me da saga infrutífera de outrora e com os olhos tentei perceber a organização dos livros nas estantes. Dei por mim a procurar a letra “T”. Parei a tempo. Perguntei por um livro específico de José Rodrigues Miguéis e não havia. Procuro “Páscoa Feliz” sem sucesso há algum tempo. Prossegui, atalhando:

                - Certamente, não está nenhum livro de Teixeira Pascoaes esquecido nas prateleiras?

                Obviamente que não.

                Fico na dúvida se valerá o esforço de procurar por outros. Alfarrabistas, claro.

                Desejo mais as palavras de Pascoaes do que edições raras, ou remotas. Havendo ainda livros disponíveis em livrarias e em bibliotecas municipais.

                Como está distante o tempo, em que o escritor da região do Tâmega era para mim o nome da rua da escola, aqui em S. João da Madeira.

                Quando termino a leitura de um dos seus livros, fico estupefacto pensando na homenagem que os meus conterrâneos lhe fizeram. Certamente haverá registos municipais da proposta toponímica e da consagração ao letrado de Amarante. Mais do que querer descobrir esses dados, prefiro acreditar que a perpetuação deste escritor - tal como outros autores que ficaram com nome de rua na cidade – é um tributo mais do que merecido.

                A grandeza de uma cidade passa por estes pequenos reconhecimentos, o que pode fomentar a curiosidade dos seus habitantes, levando ao conhecimento e à leitura dos autores homenageados.

 

 

(a publicar dia 03/02/11)

 

               

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Nome de Guerra

            Tenho o democrático hábito de votar. Em mais de duas dezenas de anos, nunca faltei a nenhuma eleição, fossem referendos, eleições europeias, locais, legislativas ou presidenciais. Enquanto vivi em SJM, desloquei-me sempre a pé até às mesas de voto. Passeio ligeiro e curto, primeiro da Praça aos Condes, depois na mesma rua até ao Fórum Municipal e passado uns anos, já casado, do Calvário até ao edifício do lugar do Pedaço. Entretanto, fui dormir para outro concelho e mantive o recenseamento por cá. Em dia de eleições, fazia a viagem de carro até ao Fórum Municipal e assim, exerci o meu direito de voto, durante os últimos seis anos.

            O cartão cidadão obrigou-me a regularizar a minha situação como eleitor. No domingo passado voltei a ter o prazer, de ir a pé até à mesa de voto. Mais económico, sem dúvida. Aproveitando o dia de céu limpo, pude exercitar os músculos das pernas durante quase uma hora. Cerca de vinte e cinco minutos para cada lado, numa caminhada contínua, em terreno quase plano e basicamente em linha recta. Pelo caminho, apreciei a paisagem: os verdes campos, o pequeno pinhal, no qual nidificam quatro corvos, que devido à proximidade à minha casa são vítimas da minha observação frequente; ouvi o latir dos cães; cruzei-me com pitorescas velhotas de bicicleta, algumas de buço grisalho; e depois do largo da Senhora do Desterro, senti o cheiro de assado, proveniente de várias casas que mantêm essa tradição de almoço de domingo.

            Junto à urna foi rápido, apesar de ter que solicitar o meu número de eleitor.

            O regresso a casa pela mesma estrada não trouxe nada de novo. Caminhava agora para sul, com o sol de frente e o vento frio pelas costas. Apesar de o corpo não ter arrefecido, o continuar do exercício, trouxe uma dor. Localizada no sartório, músculo situado na coxa, não foi isso que me impediu de manter o ritmo anterior, nem me fez parar. Ao colocar a chave na fechadura, percebi como tinha sido diferente o exercício do direito cívico. Tudo rápido e, sobretudo, sem qualquer contacto social.

            O dia de eleições sempre se caracterizou por o reencontro com conterrâneos, cujo quotidiano é diferente do meu. Afastado de alguns há vários anos, surpreendido por ver outros ainda a votar por SJM, no período após o acto eleitoral havia sempre a oportunidade de conversar com uns e com outros. De verificar de soslaio a movimentação dos agentes políticos e de trocar impressões com os mais solícitos.

            Naquele átrio, lá ia sendo cumprimentado pelos menos íntimos, com o tratamento de sempre, Guerra. O Guerra, durante vários anos, foi essa a minha designação. Tipo alcunha. Sem nome próprio, apenas apelido. Sendo impessoal e até militarizado, esta forma é preferível à justaposição com o destituído título académico, confundindo-me com os restantes elementos da família, que ainda moram na Rua da Liberdade.

            No domingo senti-me desapossado. Um número de eleitor, com um nome inscrito nos cadernos de voto, sem qualquer afecto pela freguesia. A modernização e a imposição da morada da caixa de correio, permitiram-me compreender aqueles que não votam. A verdadeira maioria.

 

(a publicar no dia 27/01/11)

 

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Gralhas

            O meu texto publicado na semana passada no labor apareceu truncado. “Estranhos Casos” chamava-se e deve ter provocado ao leitor algum desconforto, ao verificar que o texto focava assuntos diversos, sem qualquer frase de ligação entre eles.

            Eu li o jornal pela edição on-line. Para mim, o texto estava tal e qual como eu o tinha idealizado e enviado para a redacção do jornal. Quando me disseram que o texto impresso não fazia sentido, por me abster de sequenciar os assuntos, tornando confuso ao leitor a apreciação do artigo, confundido fiquei. Acedi à edição disponível na internet e demonstrei ao meu interlocutor que cada assunto diferente era precedido de um número, totalizando 5, pois esses eram os casos que eu optei por referir.

            O lapso na edição impressa não me diz directamente respeito, apenas quero ressalvar a minha exposição dos vários temas, pois não pretendia deixar ninguém confuso. Para isso, já chegava o relatado.

            Até hoje, isto jamais me tinha acontecido. Já tive crónicas enviadas atempadamente, que não entraram na edição proposta e uma ou outra que foi publicada na edição on-line, não chegando a conhecer a impressão nessa mesma semana. Apesar disto tudo, o esforço pessoal - pela elaboração dos textos e colaboração no jornal - lá era reconhecido com a publicação na semana seguinte e outros artigos de opinião foram sempre surgindo.

            Erros acontecem.

            Eu próprio em tempos enviei textos com erros crassos e por isso me penalizei publicamente. O meu exercício de escrita surge a horas impróprias, tardias e por vezes com grande cansaço acumulado, que por si só, seria suficiente para desculpar os inadvertidos erros. Invariavelmente, atiro para as últimas horas, de preparação da edição, o envio do meu texto para publicação. Com o prazo apertado funciono melhor. Corro riscos de errar, sem ter tempo de emendar (ainda assim, por vezes, antes do fecho da edição, envio sms para a redacção, pedindo correcção em algum pormenor ou frase para evitar que o leitor receba textos com gralhas).

            Pelo historial relatado no parágrafo anterior, não deixo de ficar sujeito aos enganos dos outros. O que é lamentável. 

            Da minha parte, feito o reparo, justificada a estranheza do texto da semana passada, fica o conselho para os leitores não fazerem precipitados juízos de valor, quando não percebem o texto de alguém, que colabora com o jornal há mais de cinco anos.

            A seu tempo, tudo se esclarece.

 

(a publicar no dia 20/01/11)

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Estranhos casos

1. Simplificar, visualizar e normalizar são ferramentas eficazes de gestão. A administração pública com o intuito da sua modernização, aplicou há alguns anos o programa simplex. Os resultados foram sendo conhecidos, pensando-se que a relação dos cidadãos com o Estado passaria, a partir da implementação do dito programa, a ser mais simples e infalível.

O processo de transformação das scut em auto-estradas pagas pelo utilizador veio evidenciar o contrário. Não me refiro apenas à intolerável ruptura nos identificadores de via verde, que confirmou a impreparação de todos os envolvidos para o novo sistema de cobrança, obrigando os novos aderentes a esperar pelos aparelhos e a pagar a respectiva taxa de regularização, de cada vez que passam por baixo de um pórtico. Rocambolesca foi a forma como o pedido de isenção – discriminação positiva - para essas portagens foi projectado. Quando me explicaram como o fazer, não me quis acreditar. Aceder ao site, preencher on-line o pedido, imprimir e de seguida, entregar o mesmo documento numa loja via verde, portanto, as etapas para se obter a isenção - significa uma duplicação de operações, o desaproveitar dos meios informáticos e um esforço suplementar para os contribuintes. Nem sei se já houve resposta aos pedidos. Independentemente disso, parece-me que o conceito do programa simplex foi esquecido. Ou o Estado não assimilou a modernização, ou então, o actual Governo não conseguiu passar o conceito ao operador privado.

A solução parece simples, sabendo-se quais os concelhos abrangidos pela isenção, basta cruzar a morada do cliente com essa informação, numa operação informática de fácil execução e consegue-se verificar se o pedido apresentado é válido.

É evidente que complicar é mais proveitoso para o Estado, no entanto, utilizar pequenos subterfúgios, para ter oportunidade de arrecadar um pouco mais de receita, assemelha-se a desonestidade.

2. O primeiro – ministro visitou uma empresa de S. João da Madeira. Em meias, descalçou a política económica defendida durante anos, recuperando um antigo estudo com mais de uma década. Potenciar as indústrias tradicionais era a recomendação, lembrou perante os mais de cem empregados de uma só indústria do calçado. Houve quem não gostasse da inversão no discurso do primeiro-ministro. Ser oposição, procurando fazer melhor do que um Governo que se esquece das boas práticas e muda de vontades, dá nisto.

3. Um grupo de empresários de origem chinesa fez um investimento em S. João da Madeira. Notícias não têm faltado sobre o Retail Park: anúncio de trespasse antes de abrir, arresto de bens devido a incumprimento de pagamento e por fim um incêndio foram sendo capa dos jornais locais. Pelo meio, foi instaurado um inquérito a funcionários municipais e um autarca não digeriu bem a presença do Governador Civil do distrito, na inauguração do referido espaço. É caso para questionarmos porquê a agitação política em torno deste investimento? A criação de quarenta postos de trabalho, equivalente a quase metade dos potencialmente criados no CET – Centro Empresarial e Tecnológico de S. João da Madeira - sem qualquer financiamento público, não devia preocupar tanto uma cidade de empreendedores. É certo que toda a publicidade negativa, devido a essas estranhas ocorrências, em nada abona sobre a viabilidade do investimento, contudo, a empresa ainda não decretou insolvência.

4. Eleições Presidenciais à porta. Recordo-me sempre das palavras do actual Presidente, quando criticava a má aplicação dos fundos estruturais europeus, citando como exemplo, obras desnecessárias promovidas por várias autarquias. O que dizer dos projectos semelhantes que as Câmaras Municipais de S. João da Madeira e Santa Maria da Feira estão a desenvolver, para captar indústrias criativas? Fica a informação, as obras no concelho vizinho já arrancaram.

5. Manoel de Oliveira lançou o seu enésimo filme, com o título semelhante a outro “hollywoodesco”. Estranha coincidência.

(a publicar no dia 13/01/11)

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Virtual

            Em 2010, ao ser consagrado como o melhor concelho para se viver, segundo o estudo divulgado pelo jornal Sol e patrocinado pelos concorrentes, S. João da Madeira mereceu os mais elevados elogios e destaques na imprensa nacional. A autarquia local apostou em melhorar o seu resultado nesta competição, coroando o seu esforço de anos anteriores, na modernização dos equipamentos e espaços públicos, tornando o concelho apelativo e demonstrando existir por cá uma óptima qualidade de vida. Uma estratégia bem delineada, para conseguir publicidade institucional. Praticamente atingida na sua totalidade.

            Este ano, da obtenção do título de “concelho mais cuidado”, termina com evidências de que os bens públicos, não são afinal correctamente cuidados. Equipamentos com responsabilidade de gestão e conservação exclusiva da autarquia local. O encerramento temporário da piscina municipal, devido à falta de manutenção das instalações, evidenciou que a autarquia se desinteressou do equipamento desportivo mais utilizado pelos habitantes locais. Na aflição e na impossibilidade de culpar outros, em especial, o Estado central, o Presidente lançou areia aos olhos dos seus munícipes, prometendo piscinas novas, segundo o edil mais baratas do que a remodelação da actual, o que deixou incertezas quanto à continuidade da utilização da piscina no actual ano lectivo, no que se previa um retrocesso nas actividades desportivas, de saúde e de lazer da população. Neste cenário, o bom senso imperou e a piscina reabriu, com mais um remendo no tecto. Entretanto, as certezas dissiparam-se. Agora, ponderam-se soluções e analisam-se orçamentos. Reconhece-se desta forma a falta de intervenção atempada no equipamento municipal. Nos anos de gestão do actual presidente da Câmara é primeira vez que tal acontece. E desta vez, com nove anos da sua gestão, a responsabilidade é do próprio. Não há desculpas.

            Falta de dinheiro não se pode alegar, veja-se o restauro no edifício que albergou o Centro de Arte. Milhares de euros gastos na recuperação do imóvel, para estar fechado e sem ocupante previsto. Não se percebe porque não se opta por fazer regressar o antigo inquilino às suas instalações. Além disso, para 2011 a verba no orçamento municipal para reparações em arruamentos é elevada. Uma fatalidade segundo li, embora não compreenda as prioridades e a obsessão em arranjar sempre o mesmo.

            O pequeno episódio do aquecedor numa escola do ensino básico, a negação do facto e a procura de justificações para a necessidade de quotização dos pais, promovendo o conforto dos filhos, não abonou em nada a autarquia. Relembre-se que esta sempre procurou ter escolas equiparadas às dos países “desenvolvidos”.

            Perante estas duas evidências negativas, o conceito de qualidade fica penalizado. A realidade é diferente do resultado do concurso do jornal semanário. A expectativa criada após o destaque alcançado na imprensa nacional, não corresponde na totalidade aos anseios básicos da população. Promove-se essencialmente uma qualidade virtual. Algo em conformidade com os indicadores em estudo, contudo, diferente das necessidades do quotidiano da população.

            A ilusão não termina aqui.

            A promoção do concelho baseia-se obviamente no que se transformou nos últimos tempos e por outro lado, efabula-se imenso com os novos projectos, sobretudo, com os de índole cultural, com requalificações para albergar dois centros de criatividade.

            As dúvidas quanto a resultados destes projectos ganham propriedade. Por se prever a concretização num futuro duplamente incerto. Temporal e financeiramente.

            Todos se recordam da apologia da internet sem fios gratuita, extensível a todo o concelho – jamais concretizada. De igual modo, a decisão de abandonar o projecto do comboio interno, tipo “vai e vem”, conforme sempre foi defendido pela sensatez, demonstra a pouca fiabilidade de promessas eleitorais e a fraca consistência do projecto autárquico em execução.            Os dois novos grandes projectos para S. João da Madeira, a requalificação do cinema Imperador e da Oliva, mais do que ponderação, obrigam a uma explicação pormenorizada aos munícipes. Mesmo verificando-se a sua construção antes de 2013, só entrarão em pleno funcionamento após essa data. A partir daí, ou seja, após a saída da presidência da Câmara Municipal de S. João da Madeira, de Castro Almeida, por limitação do número de mandatos, é que se analisará os reais efeitos destes projectos culturais. Ao nível de programação, da captação de público, da fixação de criativos e claro, de toda a envolvência financeira dessas soluções culturais.

            Um fiasco será fatal para o destino da cidade.

 

(a publicar no dia 30/12/10)

terça-feira, dezembro 07, 2010

Estagnação

                O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou, no passado dia 9 de Novembro, as estimativas anuais da população residente.

                A estimativa do INE indica, para S. João da Madeira, uma população de 21.797 habitantes, para o ano de 2009. Recorde-se que, no último Censos em 2001 foi apurado o valor 21.102 indivíduos. Em oito anos, a população do concelho praticamente aumentou em 700 pessoas, o que significa um ganho de 3,3%. Em média essa variação populacional é de 0,4%, por ano, correspondente a 87 novas pessoas. Até 2004, essa variação anual situava-se em 0,7%, decaindo em termos médios, até à última estimativa - de 2008 para 2009 a previsão do INE apontou um aumento de 35 pessoas (0,17%), o que dá um valor próximo da estagnação populacional.

                É importante, antes de prosseguir, relembrar as taxas médias anuais de variação populacional de S. João da Madeira entre Censos:

1930-1960: 3,9%

1960-1981: 1,8%

1981-1991: 1,2%

1991-2001: 1,4%

                Estes últimos dados são concretos e importa vincar a ideia, o referente a 2009 é ainda uma estimativa, a dois anos do próximo Censos.

                Abro mais um parêntesis, lembrando que, em 1991 os valores apurados pelo Censos foram contestados pelo executivo municipal da época, tendo inclusivamente promovido um estudo paralelo, que chegou à mesma conclusão do recenseamento.

                Pelo modelo de cálculo utilizado pelo INE, em 2011, a população da cidade não chegará a 22.000 habitantes, mesmo contando com o crescimento natural da população - as taxas brutas anuais de natalidade e de mortalidade são 9,6% e 7,9% respectivamente, indicando um reforço populacional de 1,6%, ou seja, 300 habitantes por ano (INE – 31/07/2010).

                Perante este cenário e confirmando-se a previsão do INE, é perfeitamente legítimo surgirem questões interpretativas entre a variação natural e real da população. Os dados indicam uma debandada anual significativa dos habitantes da cidade. Seja por viverem nas imediações da cidade, obrigando-se por questões fiscais a declararem a nova residência, ou pela necessidade de obter emprego compatível com as suas habilitações e por esse motivo abandonam S. João da Madeira. Qualquer um dos casos é uma hipótese credível e visível nas habitações devolutas, existentes por toda a cidade.

                Na sub-região Entre Douro e Vouga, apenas Santa Maria da Feira apresenta valores de crescimento anuais acima dos 1%, mais concretamente 1,2%. O crescimento natural cifra-se em 1,9%, valor muito próximo do real, que ajuda a reflectir sobre eventuais migrações da região, à semelhança do que acontece um pouco por todo o país.

                A distribuição da população de S. João da Madeira por idade demonstra um dado curioso, com menos de 19 anos existem 4.569 habitantes, cerca de 21% do total. O que vem de novo pôr em causa, o número de eleitores apurados para a freguesia, embora não seja esse o propósito deste texto, nem da apresentação do valor. Retomando, cerca de um quinto da população tem menos de 20 anos, contrastando com o número de habitantes com mais de 65 anos, 3.309, o que equivale em termos percentuais a 15,2%. Dados reveladores da idade relativamente baixa da população da cidade, em concordância com a região Norte (igualmente 21% para 15,8% de idosos) e destoando da tendência nacional (20,5% de jovens para 18% de idosos). É difícil explicar, perante esta distribuição, a insistência da autarquia em requalificar zonas centrais da cidade, equipando-as de equipamento geriátrico (para pouca utilização) e deixar parques infantis nas zonas periféricas.       

                Como é óbvio, esta década, de baixo crescimento populacional, será sempre associada às acções desencadeadas pelo executivo camarário. Incapaz de contrariar a perda de valências do Estado e sobretudo, impotente para perceber a tendência económica do concelho. Se nos últimos anos temos assistido a uma corrida contra o tempo, ao recordarmos a primeira metade da década, evocamos a promoção de festas, de galas e de inaugurações, tudo com muita pompa e circunstância. O resultado está à vista.   

 

(a publicar no dia 09/12/10)

quarta-feira, novembro 24, 2010

Legado

            Em casa dos meus avós maternos, na sala de entrada existiam dois pequenos sofás, uma mesa de apoio e encostada a uma das paredes, uma estante de pequena altura, com livros em todas as prateleiras excepto na superior, onde pousados sobre o naperon permaneciam diversos retratos. Em duas paredes estavam afixadas mais fotos. A minha mãe, as suas seis irmãs e os dois irmãos fotografados em conjunto enquanto crianças e jovens, enquadrados pelos progenitores, ou numa série de retratos individuais. Além destes, fotografias de outros antepassados - falecidos muitos anos antes - preenchiam duas paredes. No canto oposto, conservava-se a homenagem do meu avô às suas opções políticas, como convicto monárquico tinha afixado o retrato dos últimos reis de Portugal: D. Manuel II, D. Carlos e D. Luís I.

            Uma prima da minha idade, com várias temporadas de férias passadas naquela casa, apurava a sua vocação – muito mais tarde tornar-se-ia professora – e lançava-me desafios de perspicácia para eu perceber quem era quem em cada fotografia, sobretudo nas colectivas. As particularidades fisionómicas das minhas tias eram assim assimiladas. Os retratos da ascendência familiar demonstravam a minha pouca competência pessoal para fixar nomes e graus de parentesco com os vivos. Mais do que baralhar-me, serviam para me tranquilizar, o mundo dos mortos estava ali afixado.

            O falecimento da minha avó paterna, Florinda, evidenciou-me a naturalidade da morte dos idosos. O castelo de cartas desabava de cima para baixo. Os mais velhos, os avós, morreriam primeiro e só muito mais tarde, depois de envelhecerem uns bons anos, é que se poderia pensar em falecimentos na geração dos nossos progenitores, a segunda camada do castelo. Na base estávamos nós, os pequeninos, cheios de esperança de vida.

            O baralhar de cartas foi penoso.  

            A lógica da vida nem sempre foi respeitada, trucidando aleatoriamente quem menos se esperava e o luto foi surgindo.

            Em família e não só.       

            Nomes, de quem se sentou ao meu lado na escola, ficaram gravados em lápides.             A presença na última homenagem a amigos ou seus familiares, companheiros de várias fases da vida ou a simples conhecidos, fizeram-me adquirir a solenidade do momento.

            Apresentar condolências, escutar o dobrar dos sinos, ouvir o eterno silêncio a ser quebrado pelo raspar das pás no chão, permitiram-me saber estar durante a funesta cerimónia, mesmo quando é a nossa vez de receber os sentidos pêsames, ou a carregar a urna do ente querido falecido.

            Os anos passaram. Há quase vinte anos, a minha avó Maria deixou a casa a um dos seus herdeiros. As obras de conservação, de restauro do imóvel, não destruíram a sala de entrada. A renovação do mobiliário manteve o tipo e a quantidade, até a posição original ficou inalterada. Os livros estão agora atrás das portadas de um armário de meia altura. O desajustado naperon foi retirado. Por lá continuam as mesmas fotografias, enquadradas pela mesma moldura e na disposição em que sempre as conheci. As imagens dos três derradeiros detentores do trono de Portugal continuam a fazer companhia à restante família, numa eterna homenagem ao dono da casa, mesmo não havendo entre os seus descendentes acérrimos defensores do anacrónico regime.

            Percorro o resto da casa. Outras fotografias representando a história da família, outrora colocadas pelos demais compartimentos, perduram nos mesmos locais. Acrescentaram-se mais, retratando as últimas décadas do século XX. Estas a cores, contrastando com as fotos da sala de entrada, todas do tempo da fotografia a preto e branco. Por ali me demoro mais um pouco. Continuo sem saber o nome, nem o grau de parentesco com os meus avós, dos antepassados retratados. Ao som das tropelias dos meus filhos, em brincadeira no piso superior com primos igualmente crianças, apercebo-me de um retrato que há quarenta anos não existia naquele espaço, uma fotografia de um tio falecido há quase nove anos.

            De regresso ao convívio familiar medito sobre a minha descoberta. Atento às traquinices dos miúdos, exteriorizando a sua energia, tão característica nas incursões à aldeia da avó. O legado familiar vai-se transmitido.

            Eis-me enraizado na segunda camada do castelo de cartas.

 

(a publicar no dia 25/11/10)

quarta-feira, outubro 27, 2010

Passeio de Outono

            O rapaz passeava com o seu cão por um velho trilho do bosque. O cão seguia à solta, uns passos à sua frente. O dia amanhecera seco. Folhas amareladas ou castanhas jaziam no chão, sem sinal de humidade. Muitas árvores mantinham folhas nas copas, embora fossem raras as verdes. Escutava-se o piar de pássaros, o voar de insectos, o abanar dos ramos de árvores e de pequenos arbustos devido ao vento contínuo que se sentia, quando o som de um motor ecoou pelo bosque. O rapaz assustou-se com o ruído estranho, manteve-se em sobressalto, até se aperceber que se encontrava perto de uma estrada. Nisto o barulho abrandou. Voltou o silêncio, prontamente quebrado por um som metálico. Uma porta de um automóvel a fechar – pensou o rapaz. Logo de seguida o som repetiu-se. Chamou o seu cão. Segurou-o. Fez-lhe um sinal para que não ladrasse. O rapaz ficou à espera de mais algum som, para perceber melhor o que estava a acontecer. Um carro tinha parado na estrada, situada no cimo da encosta, muito perto dele. Quem seria? A curiosidade cresceu. Sussurrou umas palavras de prudência ao seu cão. Colocou-lhe a trela e começaram a subir, atalhando pelo meio da densa vegetação. Rodeavam os picos dos arbustos, para evitar mazelas. Quebravam teias de aranha, minuciosamente construídas para apanhar mosquitos. Passavam rente a cogumelos, que cresciam encostados às árvores, aparentando formas curiosas, que noutra ocasião, teriam sido motivo para atenta contemplação.

            O acesso tornara-se mais íngreme e por isso bastante mais difícil de subir. Tinha que ter cuidado para não ser visto, nem o seu cão, seu companheiro inseparável. A custo foram subindo e vozes foram-se tornando audíveis. Aproximou-se mais e percebeu tratar-se de um homem e uma mulher. Distinguia as tonalidades da voz de cada um. Não os conseguia ver. Estavam ainda acima dele. O rapaz concentrou-se, tentando reconhecer aquelas vozes. Não as identificou. Ouvia-se risos. O homem falava e a mulher ria-se. A curiosidade aumentou. Cada vez mais queria ver quem tinha parado no bosque. Descobrir o que faziam e de que falavam, eram interrogações momentâneas do rapaz, além disso, o riso divertido da mulher aumentava o interesse na observação do casal.

            O rapaz procurou um local para uma melhor observação. De forma alguma, gostaria que o vissem. Seria difícil de explicar a sua presença no meio das moitas. O seu cão não podia aparecer aos olhos de quem estivesse na estrada. Segurava-o, por prudência, não lhe dando hipótese de fugir, mantendo-o em silêncio. Qualquer ruído poderia denunciá-los. Precisava de subir um pouco mais, para ter hipótese de visão. Do seu esconderijo avistou um penedo mesmo perto. Mediu a sua altura, acreditando que, em cima dele teria possibilidade de visão sobre o local onde estava parado o automóvel. O acesso era tranquilo. Na ascensão não seria visto. Enquanto trepava, o rapaz não largou a trela da sua mão direita, com medo que o cão lhe fugisse. O cão deu uns passos à esquerda. O movimento ascendente do rapaz colocou a trela por cima do seu ombro esquerdo. Finalmente, o rapaz conseguia ver a estrada. Todo o cuidado seria pouco. Avistou o casal. Estava demasiado próximo e só o penedo o escondia. Concentrado na observação do casal, ambos encostados ao automóvel, o rapaz procurava absorver os seus detalhes. Com isto, perdeu a noção da inquietação do seu cão, não se apercebeu que este se pusera em movimento, se deslocara para a sua direita e que a trela se enrolara no seu pescoço. O cão farejou algo, deu três passos, o movimento permitido pelo tamanho da trela. Bloqueado, o cão insistiu obstinadamente em seguir naquela direcção. Forçou uma primeira vez, uma segunda e não conseguindo prosseguir, ladrou. O rapaz atrapalhado no seu esconderijo, com a surpresa do latido do seu cão, não se libertou do aperto da trela, procurou não ser descoberto e estando em equilíbrio instável, deixou-se cair, sobre o seu lado esquerdo, para retirar-se o mais rápido possível.

            O casal olhou na direcção do penedo, ao ouvir o ladrar de um cão.

            - Um gato – gritou Laura.

            António ainda viu o animal a esconder-se nas moitas, no lado oposto da estrada. A atenção do casal voltou a centrar-se no continuado ladrar do cão. Esperavam que este aparecesse a qualquer momento em perseguição ao gato. O latir prosseguia e aos olhos do casal apenas surgiu a parte dianteira do cão. Apesar de continuar a ladrar e a focar a moita do outro lado da estrada, o cão não avançava do seu lugar. António indicou a Laura que se refugiasse no automóvel. Em seguida, entrou dentro do carro. Arrancou. Cautelosamente, António avançou na direcção do penedo. Começou a contorná-lo e ganhou outro ângulo de visão. O cão estava só. Teimava em forçar a perseguição. António focou a trela, que desaparecia no meio da vegetação.

            - Coitado, ficou preso nos ramos.

            António prosseguiu a condução e um pouco mais à frente, pressentindo que algo de estranho estava a acontecer, fez inversão de marcha. Comentou com Laura o seu presságio. Parou o carro, dirigiu-se directamente aos arbustos. Seguiu o curso da trela e esperando encontrar um objecto a segurá-la, ficou atónito ao ver o corpo de um rapaz estendido no chão. A trela estrangulara-o. Olhou o penedo, mirou o cão entretanto sossegado e pensou: “Ora, ora, o gato matou a curiosidade.”

 

(a publicar no dia 28/10/10)

quarta-feira, outubro 20, 2010

licença

            A expectativa em torno da resposta da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), ao pedido de renovação da licença ambiental, da empresa Luís Leal & Filhos, terminou e sem grandes surpresas. Os “pareceres” negativos, apresentados pelas autarquias de Santa Maria da Feira e de S. João da Madeira aquando da consulta pública de Julho deste ano, não produziram o efeito pretendido.

            A novidade é o tempo da atribuição da referida licença, apenas dezoito meses, o que permitirá que em Março 2012, haja novo processo de avaliação, caso surja novo pedido de renovação da licença ambiental, por parte da referida empresa.

            O conteúdo desta licença é semelhante à emitida em 2005. Alguns pontos técnicos são mais alongados, daí o número de páginas ter aumentado para quase o dobro. O teor é semelhante. Continua a ser possível apresentar queixas de natureza ambiental ao operador e este é obrigado a responder, tendo inclusive que relatar essas queixas para a APA, indicando as medidas e acções desencadeadas.  

            Segundo o semanário O Regional, na sua edição da semana passada, a APA recomendou a criação de uma comissão de acompanhamento. Com este conselho pretendia-se atribuir a iniciativa aos órgãos autárquicos. A originalidade sugerida não especifica qual o enquadramento jurídico dessa comissão.

            Da sugestão nada restará.

            O mal-estar da população nos dois concelhos continuará.

            As formas de protesto devem intensificar-se.

            A deslocalização de empresas desta actividade é imperativa. É necessária uma maior intensidade nas acções, para que tal aconteça. A licença anterior terminou em Maio do presente ano, a nova licença foi atribuída em Setembro, divulgada em Outubro e durante esse hiato de quatro meses, não seria possível interpor uma providência cautelar, para evitar a laboração da empresa visada, nesse período? Confesso não saber o que está contemplado na legislação. Pelo país inteiro interpõem-se providências pelos mais variados motivos, se calhar, esta poderia ser aceite.

            Existem outras formas de protesto, por exemplo: a) a protecção civil concelhia declarar alerta amarelo, devido aos intensos odores sentidos, aconselhando idosos, grávidas e pessoas com dificuldades respiratórias a ficar em casa; b) distribuir gratuitamente máscaras pela população e num determinado dia, consagrar o seu uso em simultâneo, promovendo uma marcha colectiva.

            Estas formas de protesto devem ser divulgadas, de preferência, pela rádio nacional e mesmo pela televisão. Nos meios áudio visuais não se consegue transmitir o motivo do sofrimento dos habitantes da região, no entanto, a recolha de testemunhos em acções conjuntas e alguma dose criativa à mistura podem servir de ajuda.

            Bem precisamos.

 

(a publicar no dia 21/10/10)

quarta-feira, outubro 13, 2010

Jogo de sombras

                Eva aproximava-se da porta, rodava o manípulo e aos seus olhos aparecia sempre a luz da casa de banho acesa. Enquanto se despia, olhava-se ao espelho, compunha-se e se necessário refrescava-se. A seguir, apagava a luz, passava para a ante câmara e abria a porta de acesso ao quarto. Tudo escuro. À sua espera estava Basílio. Chegava primeiro, preparava o cenário para o final de tarde romântico. Deitava-se na cama, sem roupa e aguardava a entrada de Eva. Quando a porta se abria, a luz instantânea vinda da entrada, permitia a Basílio contemplar a silhueta da sua amante. Como combinado, Eva fechava a porta após a sua passagem e dirigia-se para a cama, sem dizer uma palavra. Uma pequena frincha era deixada propositadamente aberta na persiana, permitindo ao casal olhar os contornos do desejo, sentir os corpos e manter esta relação programada, de encontros mensais, iniciada uma noite há 4 anos atrás. No final, Basílio levantava-se, vestia-se e abria a porta do quarto e Eva observava as costas do seu amante. Basílio acendia a luz da casa de banho e passado um pouco saía sem se mostrar, nem se despedir.

                Um dia Eva faltou. Naquele mês Basílio não a viu.

                Rosa entusiasmada com a ideia de apresentar a irmã à restante família, organizou um jantar em casa do casal. À hora certa a nova descoberta da família chegou. Rosa e Basílio saíram para o exterior para receber a familiar. A luz no jardim era ténue. Uma das lâmpadas dos candeeiros apagara-se e entre o muro exterior e a porta da casa, o acesso pelo meio do relvado estava mal iluminado. Rosa descontraída, explicou o sucedido em voz alta, enquanto a irmã se aproximava. Ao seu lado, Basílio sentiu um calafrio ao reconhecer aquela silhueta, vinda do escuro, que se aproximava de sua casa. Rosa avançou para a irmã, abraçando-a. Pelo meio dos braços de Rosa, Eva viu um vulto na entrada de casa. Seria o cunhado certamente. A luz por detrás dele impedia de lhe ver as feições. Entre beijos e mais abraços, Eva viu o cunhado a virar-se de costas, respondendo ao pedido de Rosa, chamando a restante família. Aquele corpo em contra luz?! Eva reconheceu logo o seu amante. Não queria acreditar.

                Apesar da relação familiar, Basílio volta a fazer pressão sobre Eva para retomarem os encontros ao dia 16. Cansada dessa pressão, Eva toma a decisão de ir a casa da irmã, mesmo sabendo que esta não está. Está um final de tarde maravilhoso, de um dia luminoso de Outono. A luz do rio reflecte-se por Alcochete. Atrapalhado, Basílio abre-lhe a porta. Eva atravessa o jardim e decidida entra em casa, dirigindo-se para a sala. Olha o cunhado com reprovação. Mesmo estando com claridade, Eva acciona o interruptor, acendendo as luzes da sala. Dirige-se a um candelabro decorativo e acende as velas. Basílio não a entende. Eva aproxima-se das janelas. Ergue as persianas que estavam meias corridas e abre os cortinados.

                - Esquece Basílio. As trevas terminaram. Olha à tua volta. Eu quero viver com luz, ser amada à claridade e jamais por ti. Entendes?

                Basílio aproxima-se de Eva. Tenta segurá-la, com o objectivo de ela ouvir as suas explicações. Eva liberta-se, empurrando-o com força, saindo em seguida da sala e da casa. Recomposto do empurrão, Basílio sai atrás de Eva, não reparando que o candelabro aceso tinha sido derrubado, estando agora a chama das velas encostadas ao tapete da sala.

 

(a publicar no dia 14/10/10)

quarta-feira, outubro 06, 2010

O século dos militares

            A semana passada não escrevi propositadamente sobre o centenário da República. Esperei para ver as celebrações e hastear da bandeira um pouco por todo o país. Por isso, escrevo apenas a posteriori umas singelas linhas.

            Nada tenho contra o cinco de outubro, nem contra a República. Antes pelo contrário. Tenho que confessar que a república à portuguesa não é muito do meu agrado, por a considerar demasiada despesista, em matéria de órgãos de soberania. Assunto que não desenvolverei, abstendo-me de apresentar críticas em tempo de comemoração.

            Atendendo à idade do regime, não compreendo a visão histórica de associar a implantação, com os anos da I República. Os argumentos apresentados – constantes mudança de governo, elevado défice público, desordem, só para citar alguns – são reais e foram apresentados durante décadas para justificar a mudança para o Estado Novo e branquear a ditadura militar.

            Os portugueses tiveram alguma dificuldade em adaptar-se à monarquia liberal. A carta constitucional tardou a ser adaptada. Pelo meio, foram realizadas várias emendas e formados dezenas de governos, ainda durante o século XIX. No reinado de D. Carlos, verificamos que houve dez governos, um dos quais próximo da ditadura. Entre a data do regicídio e a implantação da república surgiram quatro governos, o derradeiro sinal de que a crise política, promovida pelo rotativismo dos partidos da época, era por demais evidente.

            A cedência ao ultimato inglês de 1890 e nos anos sucessivos, os gastos excessivos da coroa, são unanimemente reconhecidos como os factores decisivos para o fortalecimento da causa republicana, com a consequente tomada de poder em 1910.

            Para reforçar este ponto: o antes e depois da República diferenciam-se pelos ideais de alargamento das liberdades e a eliminação de privilégios.

            A passividade do exército português no dia 5 de Outubro, com arsenal suficiente para derrotar as hostes republicanas, continua por explicar, segundo vários historiadores. Desta forma alterava-se a história de Portugal e abria-se uma nova era, a dos militares.

            Sidónio Pais, perdão, major Sidónio Pais, um republicano destacado, exercendo cargos políticos desde a implantação, liderou uma insurreição protagonizada pela Junta Militar Revolucionária, em 1917. Assumiu o cargo de presidente da República até às eleições do ano seguinte, que viria a ganhar por sufrágio directo. No final desse ano, infelizmente, seria assassinado.

            Em 1919, Paiva Couceiro, perdão capitão, tenta a sua terceira incursão monárquica, com um movimento de tropas, depois de goradas as tentativas de restauração de 1911 e 1912. Da última vez, consegue proclamar a Monarquia do Norte, do rio Minho à linha do Vouga, chegando a ser hasteada a bandeira azul e branca em alguns concelhos, durante vinte e cinco dias. Ao fim desse tempo e porque D. Manuel II jamais mostrou interesse em regressar ao país, acabou a aventura.

            Dois factos embora um tenha terminado de forma trágica e pouco democrática, da história da I República, demonstrativos que a desordem não provinha apenas da sociedade civil.

            Depois, seguiu-se a ditadura militar. Quase meio século. Pelo meio, várias tentativas militares de mudar o regime. Até à revolta dos capitães. A revolução na rua, dois anos conturbados de disparates militares, por fim, um general eleito democraticamente Presidente da República.

             75 dos 100 anos de República são condicionados directa ou indirectamente pela acção militar. Felizmente, prevaleceu o bom senso.

            Ironicamente, no último quarto de século, as fronteiras foram abolidas e a integração Europeia trouxe um óptimo desenvolvimento a Portugal.

 

(a publicar no dia 07/10/10)