quarta-feira, maio 30, 2012

Criatividade orçamental

            Na semana passada, nas comemorações do dia da cidade, foram feitas revelações acerca da Casa da Criatividade (acabou-se a indefinição de batismo), permitindo conhecer-se as pretensões da autarquia relativas a plano de atividades e respetivo orçamento deste espaço para os anos imediatos.

Segundo o jornal labor, está previsto realizar-se 40 espetáculos por ano, o que feitas as contas, equivale a um por semana. Existe igualmente a pretensão de “produzir duas peças de raiz”.

Números ambiciosos.

Por outro lado, foram divulgados os números da verba disponibilizada pela autarquia para a dita Casa. Cem mil euros. Um orçamento anual que à primeira leitura pode parecer elevado. Contudo, não é disponibilizada mais informação, não se percebendo se a verba inclui vencimentos, ou se apenas se destina à atividade de programação.

Permanecem dúvidas sobre a sustentabilidade da Casa.

Se optarmos por considerar o orçamento mensal, teremos pouco mais de oito mil euros por mês. Se fizermos o exercício por números de espetáculos a realizar, teremos dois mil e quinhentos euros por evento e deixo de fora as produções caseiras.

Por mês ou por espetáculo, os números ficam pequenos.

Se começarmos a listar as despesas inerentes à programação, como divulgação e “cachet” de artistas; juntando-se as despesas de exploração, como eletricidade e água; acrescente-se a limpeza e manutenção do edifício - o caso complica-se.

Mesmo considerando a vontade da autarquia em esconder os custos com os fluidos, com a conservação e em suportar os vencimentos do pessoal inerente ao funcionamento da Casa da Criatividade, enquadrando todas as rubricas no Orçamento Municipal, verificamos que é necessário um grande encaixe de bilheteira, para o equilíbrio financeiro deste equipamento cultural.

A qualidade dos espetáculos condicionará a adesão de público. O preço dos bilhetes será outra das variantes a ter em conta. Sabendo-se que um bom espetáculo é oneroso e que o público local não adere em grande número a bilhetes caros, não faltam inquietações ao responsável pela programação.

Por todo o país, observamos autarquias, que anteriormente reabilitaram espaços culturais, a proceder à desorçamentação dos mesmos. Pela austeridade ou pela constatação de uma realidade não calculada? Uma serve de pretexto a outra. No entanto, existem casos em que a identidade dos eventos é preservada, mesmo reduzindo o orçamento. É o exemplo do Festival internacional de teatro de rua - Imaginarius, organizado em Santa Maria da Feira. A edição deste ano conseguiu promover vários projetos comunitários, envolver artistas locais e estrear em termos nacionais algumas peças, contando com uma boa adesão de público, em especial, na noite de sábado.

Apesar de ter sido mais “baratinho”, o orçamento do Festival – 250.000 euros - é superior ao previsto para um ano de programação da Casa da Criatividade. A comparação finaliza o texto, servindo apenas para o leitor se aperceber da asfixia a que estará sujeita a programação cultural desta cidade.  

 

(a publicar no dia 31/05/12)

 

quarta-feira, maio 23, 2012

Ano 1 AC (antes da criatividade)

         No início da década de 80, a cultura institucionalizou-se em S. João da Madeira. Primeiro com a fundação da Academia de Música e alguns anos mais tarde, através da criação do Centro de Arte. Instituições vocacionadas para a formação, de alunos em idade escolar e de outros curiosos, procurando exibir ciclicamente o trabalho desenvolvido durante o ano letivo, assim como, procurando espreitar outras tendências, organizando-se concertos ou exposições de talentos exteriores à cidade.

Por este tempo, a Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo abria as suas portas à comunidade, promovendo, entre outras atividades, concertos na sua sala de entrada. Cheia em várias sessões, com o público mais jovem a sentar-se pela escadaria acima (eu e mais uns tantos). Lembro-me perfeitamente de assistir a atuações de António Pinho Vargas, Pedro Burmester, Nelly Santos Leite, Gustavo Brandão e se a memória não me falha, arrisco um concerto de Florinda Santos.

A promoção de concertos estava limitada à lotação da Biblioteca, às poucas condições do Auditório Municipal e às insuficiências acústicas dos espaços desportivos, incluindo-se o estádio de futebol, embora, este espaço fosse excessivo para os espetáculos organizados.

A década atrás referida terminou com outra intromissão da autarquia nesta área. A promoção de concertos na Praça Luís Ribeiro, de entrada livre, passaram a fazer parte da época estival de S. João da Madeira. De início, com escolhas de bom gosto e após algum tempo, sem qualquer critério de qualidade, apenas um grande número de atuações, nas noites de sábado e domingo, em palco montado para o efeito.

Na década seguinte esta fórmula foi explorada até à exaustão. Todas as infraestruturas inauguradas para o grande público eram testadas com concertos. Sempre gratuitos, associados às comemorações de datas de significado concelhio. No final desse tempo, as obras da Praça retiraram a música ao centro. O anfiteatro projetado, jamais funcionou. O Jardim para a ponte antevia-se como alternativa para os concertos de borla e o tempo comprovou-o.

Três infraestruturas eram projetadas para os primeiros anos do novo milénio. A transformação do antigo edifício da Câmara Municipal em Paços da Cultura, a criação do Museu de Chapelaria, aproveitando-se as antigas instalações da Empresa Nacional de Chapelaria e por fim, a requalificação do cinema Imperador, dotando a cidade de uma sala de espetáculos.

Apenas os dois primeiros foram inaugurados. A melhoria nas infraestruturas permitiu alargar o leque de eventos promovidos. Associações, escolas e outras instituições dinamizam o novo auditório municipal e tentam desesperadamente captar público para assistir aos seus eventos. O mesmo acontecendo no Museu, com as iniciativas paralelas organizadas por aquele espaço.

O modelo projetado para a nova Sala de Espetáculos pressupõe a continuidade da promoção de eventos associado à Câmara Municipal.

A formação instituída há trinta anos na área cultural persiste. A Academia de Música voltará brevemente ao seu espaço natural, já renovado e ampliado para os próximos anos e o Centro de Arte, apesar de ter sido espoliado, prepara-se para os tempos modernos de parceria e casa nova na Oliva Creative Factory.

A próxima vertente a desenvolver-se na área cultural da cidade é precisamente a da criação. Espera-se que apesar de idealizar, restaurar o edifício e promover a nova incubadora de empresas criativas, a Câmara Municipal de S. João da Madeira saiba ser parceira e não tente condicionar os agentes criativos.

É preferível investir na fidelização de público, procurando que aos eventos promovidos em salas municipais ocorra um número significativo de assistentes.

 

(a publicar no dia 24/05/12)

quarta-feira, maio 16, 2012

Londres a meio segundo

         O cronómetro é em algumas especialidades do desporto, o maior adversário dos atletas. Superar-se, conseguindo uma melhor marca pessoal, passa de objetivo a fixação. A presença em Campeonatos Europeus, Mundiais ou nas Olimpíadas é um prémio para quem se sacrifica durante dias, meses e anos, abdicando de tempos livres, para treinar, treinar, competir, voltar a treinar, treinar, sempre para ser cronometrado em futuras competições. Até que o tempo obtido fica abaixo do exigido e a possibilidade de participar nos campeonatos desejados é alcançada. 

         Uma luta contra o tempo, contra o relógio. Contando-se os segundos. O acumular destes. Procurando ser-se mais rápido que os pequenos impulsos do tempo. Ser cronometrado com rigor digital, com resultados exibindo os décimos, os centésimos e por vezes, os milésimos. Os atletas têm que vencer os submúltiplos de segundo. Pequenos gestos, micro hesitações, uma imprecisão no decorrer de uma competição, impercetível na maioria das vezes e o resultado pode ficar aquém do desejado.

Depois é treinar, treinar até à próxima competição. Melhorar a forma, evitar lesões. Convencer-se de que se é capaz e nada temer na prova seguinte.

Isto é o que vai acontecer em Debrecen.

Os Campeonatos da Europa de Natação decorrem na próxima semana em Debrecen, precisamente na Hungria e Ana Rodrigues, nadadora da AEJ, vai estar presente, tentando reduzir, à sua melhor marca deste ano, apenas 50 centésimos de segundo, para deste modo obter os mínimos para participar nos Jogos Olímpicos de Londres.

Depois da medalha de bronze nos Jogos Olímpicos para a Juventude, realizados em Singapura, em 2010, que encheu de orgulho a comunidade local, Ana Rodrigues teve na época seguinte várias apoquentações, incluindo lesões e dificuldades a nível de local e condições de treino. Ultrapassadas estas contrariedades, a presente época está a ser encarada de forma positiva pela atleta e pelo seu treinador, Luís Ferreira.

Os Campeonatos da Europa não se apresentarão como a derradeira tentativa de conseguir o passaporte para Londres mas, como a prova na qual o meio segundo que separa Ana Rodrigues de Londres deixará de existir.

Escrevo de forma positiva por acreditar.

Antecipo os elogios, do mesmo modo que em 2007, de forma percussora, antevi nas páginas deste jornal o trajeto olímpico de Ana.

Há cinco anos, percebi que os feitos desportivos desta atleta destacavam-se, por apresentarem uma consistência bem diferente dos resultados que faziam a história da natação da AEJ.

Títulos em campeonatos e ótimos resultados nacionais conseguidos por Inês Aleixo, João Bastos, André Bastos, Daniela Azevedo na década de noventa, isto é, um percurso iniciado há mais de vinte anos. No princípio do milénio um esporádico resultado conseguido por Gustavo - cujo apelido perdi - e depois este ciclo de quase nove anos…

Foram vários os protagonistas, que me abstenho de enumerar, onde se destacou a persistência de Ana Rodrigues. O evoluir de resultados – títulos em vários escalões, títulos absolutos nacionais, recordes absolutos, internacionalização – que comprovam a sua ascensão como atleta e o excelente trabalho de Luís Ferreira, como técnico.

O fechar de um ciclo?

O tempo dirá… Contudo, está na forja uma equipa de cadetes na AEJ, o que indica o iniciar de um novo ciclo, que espera-se seja tão frutuoso quanto o anterior.

 

Nota: Acompanhei durante meses as crónicas de António Sousa Homem, editadas por um jornal de Lisboa e apadrinhadas pelo atual Secretário de Estado da Cultura. Pela prosa, do último membro de uma família absolutista, segui as peripécias do século XIX da sociedade portuguesa, as suas divisões, os seus ódios e as suas tolerâncias. A semana passada deu-me preguiça e não consultei as referidas crónicas. Acedi na internet a uma página que me induziu em erro e troquei os factos históricos. A Carta Constitucional outorgada por D. Pedro IV, em 1826, procurava sanear as divergências entre políticos liberais e absolutistas. A Carta relativamente à Constituição de 1822 acrescentava poderes ao rei. Os seus defensores ficaram conhecidos como os Cartistas. Sendo liberais e apenas tolerados pela família de António Sousa Homem, não havia qualquer motivo para a minha confusão. As minhas linhas da semana passada podem ter causado algum desconforto aos leitores, conscientes dos seus conhecimentos de história, daí a retificação.

 

(a publicar no dia 17/05/12) 

 

quarta-feira, maio 09, 2012

A carta

         A guerra entre absolutistas e liberais condicionou o século XIX em Portugal. Anos antes, as invasões napoleónicas, e a consequente resistência, deram o mote para um período sangrento da história do nosso país. As páginas de Camilo Castelo Branco evidenciaram a vocação para o crime do comum cidadão. Ciladas, quase sempre noturnas, ajustes de contas, tiros à queima-roupa, objetos a partir cabeças, tudo é narrado com perícia pelo escritor dos amores impossíveis.

         Libertos de Napoleão, os Portugueses ensaiaram a escrita da sua Constituição. Motivo de discórdia entre regências e seus opositores. Antecedendo a guerra civil, como contraponto absolutista ao documento original, surgiu em 1826 a Carta Constitucional. Os seus defensores ficaram conhecidos para a história como os cartistas, ou simplesmente, os da Carta.

         Quando a partir de meados da década anterior, comecei a ver referências à “Carta”, sobre as demais temáticas em vários concelhos, temi o pior. A sua simples menção fazia recordar tiques absolutistas. Como os partidos dos extremos, não rebatiam o conteúdo daquelas, antes pelo contrário, solicitavam a realização de cartas sobre diferentes assuntos municipais, percebi que os documentos eram bem assimilados e democráticos. Portanto, o seu conteúdo constituía uma importante ferramenta orientadora sobre a matéria analisada.

         As notícias recentes sobre agrupamentos, mega agrupamentos, fecho e fusões de escolas obrigaram-me à leitura da Carta Educativa de S. João da Madeira.

O documento é de 2006, apresenta-se a si mesmo como dinâmico, com necessidade de se proceder a verificações e atualizações periódicas. Identifica pontos fortes e pontos fracos, vaticina oportunidades e prevê ameaças. Serviu, ao longo da última meia dúzia de anos, como justificativo para a construção de novos edifícios e reabilitação de outros, tornando o parque escolar do concelho extremamente moderno e funcional. Se foi útil até agora, não se percebe o seu esquecimento nesta fase bastante controversa do panorama educativo concelhio.

A posição pública da autarquia foi suficiente para serenar os agentes do meio escolar. Contudo, uma tomada de posição veemente ajudaria a clarificar o momento e até a precaver o futuro de algumas escolas.

Todavia, tudo isto não foi suficiente para ensombrar o festival de Teatro, organizado pelo grupo de professores do Espaço Aberto da Escola Dr. Serafim Leite. Durante catorze dias, esta escola extravasou as suas grades e ofereceu à comunidade local um excelente momento cultural. Com sala cheia a assistir a algumas encenações, indicador da adesão e recetividade do público, importa realçar o número de espetáculos interpretados por grupos locais e destacar a capacidade do público para a interatividade, bem patente no arranque do festival.

Para terminar, no domingo ao ouvir o espectável resultado da eleição francesa, segui o conselho de Voltaire, no seu Cândido e dediquei-me ao trabalho. Mantive-me otimista.

 

(a publicar no 12/05/12)

 

terça-feira, abril 24, 2012

Longevidade

                O desporto promovido pelas associações locais tem vivido sob o paradigma da formação.

Os clubes aproveitaram as significativas melhorias das condições de treino e de jogo, resultado dos investimentos municipais no complexo das corgas, posteriormente no pavilhão das travessas e mais tarde, na transformação do campo pelado no centro de formação desportiva. A maior capacidade das infraestruturas desportivas permitiu o aumento do número de praticantes. O recrutamento de técnicos, teoricamente melhor preparados, possibilitou a melhoria de resultados desportivos nestes escalões. O dirigismo rendeu-se às evidências e as equipas de jovens passaram a estar no topo nacional, ao contrário das suas congéneres seniores.

As competições jovens atraem assistentes à cidade. Hoje em dia, qualquer equipa visitante é acompanhada pelos respetivos progenitores e demais familiares. No último domingo de Março, pelas nove da manhã, fui assistir no centro de formação desportiva, a um jogo de futebol de juvenis C, entre a ADS e o Gondomar, já que nesta equipa joga um dos meus sobrinhos. Um jogo de treino. A assistência afeta aos visitantes fazia-se ouvir constantemente e provavelmente estava em número superior aos adeptos locais. Duas ou, no máximo, três dezenas é certo.

Não tenho outras experiências como assistente, em S. João da Madeira. A única comparação que posso fazer é com um jogo da presente época da Primeira Liga de futebol, em que o União de Leiria enquanto equipa visitante arrastou consigo 4 (quatro!) adeptos, com direito a área restrita, daí ser fácil contá-los.

Os dois exemplos servem apenas para evidenciar que o desporto, em idades de formação, é um meio mais eficaz de promoção de uma localidade. Além das dezenas de atletas que visitam a cidade semanalmente, arrastam assistência em número superior aos das equipas de escalão sénior. Seja em que modalidade for, arrisco sem pestanejar.

As dificuldades em consolidar o modelo desportivo da formação estão inerentes à duração do mandato de cada direção. É normal, nos clubes com mais visibilidade da cidade, a mudança de presidente e outros diretores, a cada dois anos. A pouca longevidade do exercício da gestão desportiva não permite solidificar os propósitos dos diretores e os sócios acabam por capitular, sem entender os objetivos a longo prazo.

Existe uma lacuna no modelo da formação. Aos dezoitos anos os jovens devem continuar a praticar desporto. A competir, tal como em idades inferiores, caso estejam interessados. O quadro desportivo é mais complicado a partir destas idades. Com as limitações no número de jogadores, os clubes não conseguem absorver, todos os anos, os maiores de 18. A rejeição atira muitos para outro tipo de complicações sociais, anteriormente impensáveis.

Só que isto não é apenas um problema das associações locais, antes pelo contrário. Aqui entra-se em outro assunto, na capacidade da autarquia de proporcionar uma vida saudável à maioria dos seus habitantes.

Tema para outra oportunidade.              

 

(a publicar no dia 26/04/12)

quarta-feira, abril 18, 2012

Crepúsculo

                Após a jornada laboral, enquanto aguardo pelos meus filhos, ocupados nas suas atividades extra escolares, concentro-me na leitura. Tenho investido umas horas em autores portugueses, alguns esquecidos e outros clássicos, que infelizmente jamais tinha lido. Livros de páginas amareladas pelo tempo, de edições com algumas décadas, que com gosto, vou reabrindo.

O prazer encontrado nesses fins de tarde prolonga-se para os dias de pausa. Entre sábados ou domingos, sento-me para o pôr-do-sol de livro na mão. Sempre que possível fico no exterior. Mesmo em dias com o anoitecer antes da hora de jantar. Se necessário, recorro a uma manta. Imitando os hábitos de repouso de Hans Castorp, quando passava as horas entre refeições, sentado na varanda do seu quarto.

Lembrei-me do personagem de Thomas Mann por esse e por outros dois motivos.

Nas tardes de semana, um dos locais por mim escolhidos para a leitura, tem uma pesada porta metálica envidraçada. Entro, instalo-me numa das mesas disponíveis, faço o meu pedido e concentro-me na leitura. Trazem-me o café ou o chá, conforme a solicitação e tudo fica tranquilo. Até que a porta bate com estrondo. Mais do que o susto, é o incómodo que me faz perder a linha de leitura. Aí, recordo as entradas no salão de jantar da bela rapariga que tanto agradou a Hans Castorp. Levanto os olhos, no sentido de apurar quem entra sem cuidado. Sendo o único por ali sentado, quem entra cumprimenta-me. Não percebo se para se desculpar, ou por mera simpatia. A cena repete-se por várias tardes, só que jamais volto a levantar os olhos, nem para reprovar o comportamento descuidado, nem para ser saudado.

Aproveitei a pausa da Páscoa para voltar à montanha. O tempo estava propício a uma caminhada. Frio, sem chuva. Conduzi para lá da Freita. Atravessei Cabreiros, Candal e subi à Coelheira. Já na serra de Arada. Uma nuvem encobria a paisagem. Visibilidade reduzida. Encostei o carro junto ao parque de campismo da Fraguinha. O termómetro marcava seis graus. Voltava para percorrer aquele trilho ao fim de doze anos. O tempo passa. Anteriormente, tinha feito aquele percurso com outras condições climatéricas. Uma primeira vez numa manhã quente de Setembro. Uma segunda vez, numa tarde repleta de neve em Abril e numa terceira e derradeira subida num ameno dia de Primavera, perdi-me.

Nunca usei meios de orientação, além de mapas. Antecipadamente observava o mapa com o percurso e memorizava o caminho. Quando se parte pela terceira vez para o mesmo percurso, mesmo sendo em três anos diferentes, não se espera nada de anormal, além das alterações climatéricas. Uma pequena intervenção humana no percurso, não me permitiu verificar que me desviava ligeiramente do trilho conhecido. Dei por mim junto a uma antena retransmissora de sinal de uma operadora de telemóvel, que jamais tinha visto por ali. Corta à esquerda, corta à direita e nada de pontos de referência. Perdido. Anos mais tarde, ao ler “A montanha mágica”, percebi perfeitamente o desespero de Hans Castorp ao ver-se envolvido pelo nevão, sem saber que rumo tomar para voltar ao hotel.

Na serra de Arada, acabei por retomar o trilho que pretendia, depois de estar completamente desnorteado. Voltei ao ponto de viragem. Percebi o que me tinha acontecido. Lá retomei o caminho. No regresso, memorizei o desvio para no futuro não me voltar a perder. Doze anos depois, tudo estava a correr bem, apesar do estado do trilho estar mais áspero. Uma ligeira aberta na nuvem que nos envolvia, permitia ver o cimo da encosta. A chegada ao planalto anunciava-se. Aí teria que ter cuidado para não cometer o erro anterior e enfiar-me num caminho errado. À distância visualizei um portão, formado por uma barra de ferro. Entendi-o como um indicador de impedimento de seguir em frente e obrigar a desviar pelo caminho pretendido. Assim o fiz. Os meus companheiros seguiram-me. Nenhum deles era nascido, da última vez que ali passei. Dei mais uns passos e encontrei uma estrada nova. Em redor, não se via nada. Tudo cinzento. Estávamos no meio da nuvem. Ouvia-se o movimento de um aerogerador, não se percebendo se estava à nossa direita ou à esquerda. A estrada era agora o caminho a seguir. Só que não sabia para onde, por isso, voltei para trás.

Ao descer, apercebi-me de como numa dúzia de anos, as pequenas intervenções humanas tinham alterado as rotas da natureza.

Como terá sido o regresso de Hans Castorp, depois de sete anos na montanha?

Nos meus crepúsculos, os livros não terminam na última página.        

 

(a publicar dia 19/04/12)

 

quarta-feira, março 28, 2012

O chapéu de Tom Waits

                Um português apresentava-se frequentemente na fronteira, transportando-se numa bicicleta e levando consigo um saco vazio. O guarda espanhol pedia para abrir o saco. Umas horas depois o português regressava. Tudo igual, só que o saco apresentava-se cheio. O mesmo guarda pretendendo encontrar algum contrabando, exigia a abertura do saco. O português abria o saco e exibia o seu conteúdo:

- Terra.

O ritual repetiu-se dia após dia, até à reforma do guarda fronteiriço. Mais tarde encontraram-se por acaso e o ex-guarda pretendeu satisfazer um pouco mais a sua curiosidade, perguntando ao português o porquê de trazer terra de Espanha. O português respondeu-lhe que a terra era um disfarce, ele dedicava-se ao contrabando de bicicletas.

A anedota é comum em várias fronteiras. A versão portuguesa, se a memória não me falha, apareceu num filme narrada por Tom Waits. Espero mesmo não estar enganado… Não tive oportunidade de verificar, consultando um dos muitos apreciadores do músico norte- americano.

Tom Waits é conhecido pelo seu timbre de voz. Em público, surge frequentemente com o cabelo tapado. Os mais atentos associam o músico ao seu chapéu. O acessório que completa a sua imagem. “Porkpie hat” é o modelo. Produzido por cá. Ou não? Independentemente da proveniência do seu, Tom Waits é o artista mais reconhecido, que usa habitualmente chapéu. Não é um personagem em hora e meia de filme, é uma vida com chapéu. Quase quarenta anos de carreira e outros tantos com o seu “pork-pie” empoeirado e com a aba dobrada para cima, em todo o perímetro.

A ambição de chamar a S. João da Madeira turistas que aterram no aeroporto Sá Carneiro precisa de programas ainda mais atrativos.

Concertos com músicos internacionais, do calibre do atrás citado, seriam uma forma rápida de esgotar a lotação da Casa das Artes e Criatividade e uma oportunidade para divulgar as várias atividades, projetos e melhorias que o concelho tem vindo a desenvolver.  

É necessário captar vários públicos.

Ter programação que vá além da fórmula - ensaiada no concelho num passado recente - da associação de estudantes, caraterizada pela repetição exaustiva de ações desencadeadas em outras localidades, sem critério de qualidade, sem traço de criatividade e na maioria das vezes sem utilidade pública. 

O chapéu, um dos elementos diferenciadores da tradição industrial do concelho, deve ser o mote para essa mudança.

                Não se pense que é mais do mesmo, o lado pitoresco do chapéu deve ser explorado ao máximo e por aí conseguir-se a internacionalização do nome da cidade. 

 

(a publicar no dia 29/03/12)

 

quarta-feira, março 14, 2012

Visitas

Faz as tuas visitas – recomendava o reitor à mais velha das suas pupilas.

Em Mosteirô, no final da tarde de segunda-feira, recordei o quotidiano descrito por Júlio Dinis, no século XIX. A vida simples da ruralidade e os seus princípios, que se conservaram na sociedade portuguesa durante vários anos, dominaram o decorrer da eucaristia a que assisti.

Acompanhei a viagem da minha última professora da escola primária, à sua derradeira morada.

A Dª. Carolina era um símbolo do Jardim do Sol. A recordação coletiva, dos muitos que ali estudaram. Por ela passavam os alunos na 4ª classe. A todos preparava com rigor, para os anos seguintes de ensino.

Não tenho um episódio, aquele episódio apropriado para estes momentos, para relatar. Lembro-me da sua opção em me trocar constantemente de colega de carteira. Não por mau comportamento, apenas por estratégia sua. Colocava ao meu lado os alunos que tinham mais dificuldades. Quando o rendimento do meu colega melhorava e assim estabilizava, eu passava a ter um novo colega de carteira. Com esta hábil medida, a Dª. Carolina condicionou a minha forma de estar, acutilando em mim atitudes solidárias e sobretudo, o espírito de interajuda, princípio basilar do trabalho em equipa.

A última vez que vi a D.ª Carolina na rua, fiquei retido por um político e não consegui alcançá-la. Só de pensar, mordo-me todo. Uma tentativa de influenciar o meu voto, não me permitiu falar com a minha professora. Quando finalmente me libertei do assédio, a senhora não estava no meu raio de visão.

Faz as tuas visitas – lembrava-me a minha mãe.

Durante uns anos ainda fiz. Depois afastei-me. Dos hábitos e mais tarde, das ruas da minha infância. As visitas por cá escasseiam. Encontros e apenas acidentais.

Fiquei-me pelas intenções.

Perdi oportunidades. A última esta semana.

Faz as tuas visitas – recomendava o reitor.

Desnecessário conselho.

Margarida não dava essa preocupação. Visitava os necessitados e enfermos, fazendo as suas obras de misericórdia sem ninguém lhe pedir.

A sua bondade foi premiada com um final feliz.

A epígrafe no entardecer de segunda-feira.

 

(a publicar no dia 15/03/2012)

segunda-feira, março 05, 2012

Ideias úteis

A Praça Luís Ribeiro tem sido tema recorrente dos colunistas da imprensa local. Sempre no mesmo tom. Saudosismo para uns e para outros, atribuição de erros.

Sucedem-se os escritos, permanecem os problemas.

Nos meus últimos textos publicados no labor incidi sobre a Praça. No da semana passada, evidenciei alguns erros da gestão municipal e no anterior demostrara o lado positivo do centro, utilizando para o efeito, o título de uma música dos B-52’s (Funplex), som que me recorda bons momentos vividos ali na Praça, no final da década de 80.

Lentamente, começa-se a apresentar a ideia que a praça só volta a ser o que era com mais obras. Solução incipiente que visa terminar com a zona pedonal, trazendo o trânsito automóvel e muito estacionamento para o centro e pouco mais.

Mais obras?

Mais transtorno para quem ali vive. Com pó no ar nos dias secos, lama nos dias de chuva, barulho e movimentação de máquinas. Mais os taipais, para afugentar de vez os clientes do comércio resistente.

Resultará?

Não creio.

A intervenção da autarquia na Praça, só se justifica para minimizar os erros do passado recente. No entanto, a edilidade deve exercer algumas ações.

O movimento centrífugo da cidade idealizado nos últimos anos, retirou à Praça a sua importância como zona habitacional, comercial e de serviços. Nem concertos são para ali programados.

O problema do centro consiste na redução do número de habitantes.

A recuperação de edifícios degradados não foi promovida – optou-se pela sua demolição - e a construção de novas habitações há muito que não é projetada, nem os tempos são para isso.      

A fixação de população jovem na cidade pode ser conseguida pela promoção de arrendamento com preços adequados a jovens. Casais ou não. Ao olhar para o edifício que domina o centro, ao olhar em redor para a quantidade de habitações devolutas, ao olhar para antigos escritórios vazios, apetece sugerir isso mesmo. Acrescente-se as dificuldades dos jovens em conseguir crédito bancário e pode-se seduzir os proprietários de todas essas potenciais habitações a alinharem num “povoamento” da zona central.

Outra forma de trazer pessoas à Praça, é transferir serviços que se destinem ao grande público. O atendimento aos clientes da empresa Águas de S. João devia estar no denominado “pirilau”. Nos tempos modernos os pagamentos são efetuados por débitos diretos, ou por pagamento por multibanco. Só que existe sempre aquela pessoa que se atrasa, que tem uma reclamação a fazer. Obrigá-la a ir à Praça, no horário de expediente, anima o centro e alegra os comerciantes.

Outros serviços municipais deslocarem-se para a Praça não fará sentido.

Existem delegações de Ministérios em espaços alugados e espalhados pela cidade. Conseguir a sua transferência para a Praça seria o ideal. Não haverá muitos espaços municipais para alberga-las, no entanto, se as novas rendas forem vantajosas para o erário público é um ganho ótimo, em tempo de crise e de austeridade.

Estas medidas serão úteis para o movimento durante a semana. Enquanto o Centro Artes Espetáculo e Criatividade (leia-se antigo Imperador) não abre ao público, os fins de semana na Praça terão que receber alguma iniciativa. Festival da juventude, por exemplo. Cidade no jardim. Leram bem. A iniciativa “Cidade no Jardim” é perfeitamente realizável na Praça e ruas adjacentes. Com palco instalado e tudo o resto. E criando-se de novo esta dinâmica à volta do centro, será possível noutros dias de descanso, realizar concertos de fim de tarde, de princípio de noite. Ao ar livre e com bom gosto, trazendo público para a Praça e de futuro para a sala de espetáculo.

Ideias úteis e gratuitas. Sem investimento municipal. Com baixo custo de execução e grande probabilidade de sucesso.

Ideias partilhadas para serem encontradas soluções para a Praça. Para o seu futuro não ser um tormento.

 

(a publicar dia 08/03/12)

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Oito por oito

                As opiniões recolhidas pelo labor, analisando os dez anos de mandato do atual presidente da Câmara Municipal, provam que em política a memória é curta.

Em geral, o balanço incidiu sobre os últimos cinco anos. Os factos mais focados, em especial os pontos negativos, ocorreram neste último mandato, ou nos três anos anteriores.

E na primeira metade? Além da capacidade de executar obras, sobretudo, herdadas do executivo anterior, foram lançadas algumas iniciativas que criaram empatia junto da população, tendo como resultado em eleições sucessivas, a maioria absoluta.

Perante estes dados, vasculhar o passado de pouco serve. A menos que a justificação, para alguns dos problemas atuais da cidade, tenham origem nessa época.

Para o estado a que chegou a Praça, analisa-se constantemente a última intervenção municipal. Obra de fachada, com péssima escolha de materiais, que apesar de permitir a circulação e criar estacionamento em algumas artérias, não impediu o encerramento de alguns estabelecimentos. A intervenção no pavimento foi mal executada, como provam as constantes obras de reparação. No entanto, não é a principal causa para os problemas sociais e económicos da Praça.

É necessário recuar alguns anos.

Em 2003, a Câmara Municipal anunciava um projeto revolucionário na área de tratamento a toxicodependentes. Mal apoiada, a edilidade iludia-se e acreditava ter encontrado uma solução para um vasto problema social. A pretensão transbordou para os ecrãs da televisão, convidando-se outros concelhos a copiar o modelo local. É sempre bom referir que o projeto Trilho da Santa Casa da Misericórdia, na época já em ação, foi ignorado e hostilizado, por seguir diretrizes contrárias, em concordância com o Ministério da Saúde.

Após nove anos, os toxicodependentes ainda resistem na Praça. Habituais todos os dias. São o exemplo do falhanço de uma péssima medida de política social e são apontados como um dos principais motivos para o degredo do centro.

Ainda nos primeiros mandatos e continuando na Praça, temos uma iniciativa não continuada. Refiro-me à animação de Natal. Com alguns exageros mas, com vasto programa entre o sagrado e o profano. Terminou o apoio. Precisamente nos anos em que era necessário dinamizar a área comercial, pela concorrência direta do shopping 8ª Avenida, os comerciantes foram abandonados. Em Dezembro, claro. E no resto do ano. Não existe nenhuma iniciativa para atrair pessoas ao centro.

Os erros do passado projetam-se no presente.

A Praça perdeu importância?

Momentaneamente, devemos dizer que sim, no entanto, as cidades vivem dos seus centros, da sua história.

Na era democrática, houve duas intervenções nas ruas do centro que modificaram a política de S. João da Madeira. O pavimento da rua Alão de Morais nos anos 80 e mais tarde, a oposição à intervenção na rua do Castilho podem ser apontados como ações decisivas, que conduziram a sucessivos mandatos de dezoito e agora de doze anos.

O apreço pela Praça é reconhecido pela população.

O futuro não está escrito e o da Praça pode começar agora.

 

(a publicar dia 01/03/12)

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Funplex

                Um quarto de século tem esta Praça. Sem semáforos, nem passadeiras, nem alcatrão. E sem trânsito, só ocasionais automóveis e pessoas a circular, em ruas calçadas à portuguesa. Lojas, cargas e descargas, clientes, mais os esquecidos moradores fizeram o seu dia-a-dia.

Local de encontros diurnos.

E noturnos.

No espaço pedonal, sem consumo obrigatório, ou nas inúmeras cadeiras envolvendo as mesas das esplanadas. Sessões de horário alargado, com música de fundo. Colunas debitando sons para o momento. Diversão democrática. Para todos, eles e elas. Conversas, gritinhos e gargalhadas sobrepondo-se a tudo. As ruas animadas em frente a bares. E dentro destes, o ambiente igual.

Tem sido assim durante estes últimos vinte e cinco anos. Provavelmente, a noite é o único elemento diferenciador para a Praça. A partir de certa hora, não tem concorrência dentro da cidade.

Estes hábitos de convívio, descontraídos e de procura de diversão, alteraram o modo de estar dos cidadãos.  

Um dado relacionado e curioso é apreciar a notoriedade na sociedade portuguesa dos habitantes locais. Reduzida há vinte e cinco anos, limitava-se à enumeração de dois ou três jogadores de futebol. Hoje, tudo é diferente. Apresentadoras de televisão, jornalistas, estilista e músicos surgem como os mais destacados. Profissões ligadas a áreas de entretenimento, lazer, cultura e criatividade, demonstrando opções diferentes perante o mercado de trabalho. Uma coincidência geracional, podendo-se enquadrar, sem muito esforço, como consequência na alteração de mentalidades desenvolvida na sociedade local no último quarto de século.

Esta mudança, na visibilidade dos nossos cidadãos, ganha contornos distintos, ao mencionarmos uma nadadora como a desportista no ativo com melhores resultados. Além de ser uma prova inequívoca da igualdade de género, já implícita nas menções por profissão do parágrafo anterior, significa uma melhoria técnica no desporto praticado na cidade, o que é outro dado curioso em termos de evolução social. 

Regressando à Praça.

Não se fez nada para incentivar a fixação de população nas ruas centrais. Hoje há menos moradores no centro. A equação fica reduzida a partir daqui. Regresse à última linha do primeiro parágrafo. Coloque menos antes de todas as palavras aí encontradas. Menos população, menos clientes. Menos comércio. Menos serviços. Tudo menos.

O que sobra, a marginalidade.

                Curiosamente mais visível durante o dia, enquanto a Praça está meia vazia, do que durante a noite.

 

(a publicar no dia 26/01/2012)

terça-feira, janeiro 17, 2012

Ascarigo

                A História baseia-se em documentos. Complementa-se com monumentos e achados arqueológicos. Sem isto, apenas existem deduções hipotéticas, ou “fantasias”, acrescentavam os historiadores antigos.

                A equipa de José Mattoso, auxiliado por Luís Krus e Amélia Andrade, tem estudado a época medieval, procurando evidenciar a existência de sociedade civil, além dos senhores feudais e da poderosa igreja católica. Neste sentido, o papel desempenhado pelos vários Monarcas, em especial, D. Afonso Henriques, no desenvolvimento de centros populacionais tem sido objeto de variadas interpretações, encontrando-se nos documentos da época justificativas para esta arrojada tese.

                Este trabalho científico de partir da observação, para apurar, ordenar e aproximar factos, procurando tirar daí um nexo explicativo e construir um relato coerente, tem sido colocado em livro. Em vários.

                Ao descrever a “Terra de Santa Maria entre os séculos XI e XIII”, José Mattoso serve-se da toponímia local para sustentar as suas ideias. Desta forma exemplifica a expansão demográfica, com a existência de artesãos agrupados em aldeias e surge assim a justificação de nomes, aqui apresentados ainda sem orago: Marinha, Oleiros e Madeira. Este último é o que interessa expandir.

                As palavras do historiador são: “Contudo, a exploração do bosque não se esgotava no fornecimento de pastagens e matos. A madeira era, sem dúvida, o principal produto que deles se extraía, chegando a referenciar toponimicamente uma das freguesias da Terra de Santa Maria, a de S. João da Madeira. Para além da lenha utilizada na produção de energia, construíam-se com ela as habitações e um sem número de utensílios domésticos e rurais, dos quais os inquéritos régios do século XIII enfatizam as cubas destinadas ao armazenamento do vinho nos lagares régios (…)”. Esta ideia contraria a proveniência toponímica devido à forte existência de mato ou bosque, antecipando em vários séculos a instalação de indústrias em S. João da Madeira. Estará mais perto dessa arcaica ideia, ventilada durante anos, S. Miguel do Mato freguesia do concelho de Arouca.

                A origem de S. João da Madeira é anterior à nacionalidade. Em 1088 aparece mencionada num documento, segundo Arlindo de Sousa em “Toponímia Arqueológica de Entre Douro e Vouga” de 1961.

Em mais documentos dos séculos seguintes, é mencionada esta freguesia de Terras de Santa Maria. Um dos quais, Inquirições de 1251, no reinado de D. Afonso III, refere a existência de uma ponte terrenha em Ascarigo, aqui em S. João da Madeira. Um lugar cujo nome se perdeu com o tempo. “Asks” refere José Mattoso, remetendo para um estudo etimológico, é um prefixo bélico – heroico de origem germânica, significando lança de freixo. Uma possível forma de evolução de Ascarigo, seria Escarigo e ainda existem duas freguesias em Portugal com esse nome. Uma delas igualmente habitada no século XIII.

Por cá, o nome do lugar pode ter evoluído para qualquer um dos atuais, ou ter-se abreviado. A sua origem remete-nos para o século V a VIII, só que não existe qualquer documento a comprová-lo e afirmar isto, é uma hipotética fantasia.    

 

(a publicar dia 19/01/2012)

 

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Recordação

                Aos primeiros acordes, fecho os olhos. Não resisto. O som do piano delicia-me. No instrumento, as pequenas mãozinhas vão seguindo o compasso, procurando não falhar, controlando o sistema nervoso para evitar os erros. Só ouço as notas, evito olhar para a prestação. Faço-o habitualmente, acompanhando a harmonia da música, sem desprestigiar a interpretação. Estou confiante no pequeno artista. Ouço os progressos diariamente. Tão empenhado na sequência das teclas, nem se apercebe do meu cerrar de olhos durante a sua execução na Recordação. Uma simples música de Lopes Graça, descoberta nas audições de crianças.

A melodia atravessa-me. Apesar da envolvência, a introspecção remete-me para momentos de mágoa. Alheia ao momento. “Os meus mortos estão cada vez mais vivos”, escreveu Raul Brandão, mal começou a descrever os pitorescos Pescadores, ainda na Cantareira. Os meus desfilam durante as notas da Recordação. Os familiares, os amigos, os colegas de escola, do trabalho, os vizinhos, os simples conhecidos entram na lembrança.

Não esqueço os que escrevem nos jornais. Também não esqueço as estrelas da rádio, nem as da Tv. Nem os heróis de domingo à tarde, vedetas pisando um relvado. Remeto-me para os primeiros. Os que perdem horas de vida social e familiar procurando um assunto. Teclando em contra relógio um texto, em esforço conseguindo um final. Cumprindo prazos de fecho de edição, apenas para agradar aos leitores. Fazer parte do quotidiano de quem lê jornais. Entrar em casa dos outros sem ser convidado e ser bem acolhido.

Emitir opiniões, exigir soluções, criticar a passividade, em modelo de entretenimento. Sem entrar no reparo do buraco da estrada, nem na critica pessoal, nem no banal ataque político. Escrever inesperadamente sobre a rua, o bairro, lembrando os vizinhos. Invocar a memória colectiva. Recordar uma ou mais árvores, um edifício esquecido, uma rua arrasada, ou ampliada. Uma paisagem alterada. Uma vila esquecida, uma aldeia perdida. Pelo meio, escrever sobre tudo e sobre nada.

Semana após semana. Com a irregularidade necessária.

Habituámo-nos a ler essas opiniões. Estranhamos as ausências prolongadas.

Manuel Tavares e José Manuel Bastos acompanharam-nos toda a vida.

Em 2011 deixaram um vazio muito preocupante na imprensa local.

Um pouco antes do último compasso, abro os olhos. Foco o piano. Preparo as mãos para a merecida aclamação. Quando surgem os aplausos, um sorriso de dever cumprido instala-se no rosto do pianista. A audição prossegue. De olhos abertos, marco os tempos de cadência com o pé elevado.

- É preciso marcar o compasso – disse-me inesperadamente, ao reparar uma avaria, o falecido Sr. Moreira, mecânico de profissão, músico nas horas livres.

   

(a publicar no dia 29/12/11)

quarta-feira, dezembro 14, 2011

O efeito Campelo

                O actual Secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural, Daniel Campelo, causou polémica quando, no ano 2000, fez uma greve de fome no Parlamento, em protesto contra a transferência da produção do queijo Limiano para fora do concelho de Ponte de Lima, do qual era autarca à época. Nesse ano e no seguinte, como deputado, viabilizaria os Orçamentos de Estado do Governo liderado por António Guterres, conseguindo várias contrapartidas para o seu concelho. Melhoria nas acessibilidades e garantia de investimento, promovendo a criação de emprego no concelho, foram as mais apregoadas.

                 Este modelo norteou os autarcas eleitos depois de 2001. O alargamento da rede de auto-estrada foi exigido praticamente por todos. O investimento público, co-financiado por fundos comunitários estruturais, assegurou inaugurações de edifícios de utilidade incerta. Durante vários anos, assistiu-se à reivindicação desse financiamento para projectos semelhantes em concelhos vizinhos. Ou para a abertura de valências do Estado, tentando retirá-las aos concelhos mais próximos.

Em paralelo, a criação de emprego mudou de paradigma. Esgotados os investimentos em indústrias de mão-de-obra intensiva, em especial, de capital europeu - protagonizada nos finais da década de 80 e ainda durante os anos 90, do século passado - surgiram as grandes superfícies e os serviços associados. Hipermercados e centros comerciais desafogaram os cofres das autarquias.

Esta última variável fugiu um pouco do modelo de Daniel Campelo. Mais interessado em preservar a zona histórica da sua vila, o seu comércio tradicional, mantendo as margens do rio Lima entregues à população. Desta forma evitou a especulação imobiliária e a construção de aberrações arquitectónicas.

Tudo corria bem aos autarcas do nosso país. A pretensão ao estatuto de “cidade-estado” podia ser ventilada, não fosse a dependência nas verbas enviadas pelo governo central.

Até que a necessidade de racionalizar os equipamentos do Estado, por escassez de verbas do Orçamento de Estado, alterou tudo. Hospitais, centros de saúde, esquadras, tribunais, escolas, repartições, passaram a ser equacionadas e a encerrar caso não se verificasse a sua utilidade.

Uma luta fratricida.

A recordar a história. Os senhores dos isolados castros a resistirem à presença romana ou muitos séculos mais tarde, os senhores medievais sempre interessados em desviarem do Rei, os proveitos que lhe eram devidos.

Este é o balanço da última década de poder local. Não é o balanço dos dez anos de mandatos do Dr. Castro Almeida. Reconhecidos como muito positivos, embora com demasiados projectos em aberto, para ser atribuída uma nota final.

No atrás exposto, mais do que uma crítica, está a clara intenção de enquadramento destes mandatos em contexto histórico político.

Daqui a alguns anos, se calhar, nova década, novo balanço será feito. Com outros protagonistas. Então subjugados ao efeito Relvas, caso a reforma da Administração local seja implementada.

 

(a publicar dia 15/12/11)

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Eu e o Vouguinha


Rumei a sul. Segui pela auto-estrada até Albergaria-a-Velha. Apanhei outra e continuei até ao rio Vouga. A partir daí, fui circulando por estradas secundárias, orientado pelas indicações de Museu Ferroviário. Cheguei a Macinhata do Vouga. Atravesso a passagem de nível, sem guarda e observo a bitola. Em simultâneo, uma automotora grafitada chegou à estação. Espantosa coincidência. Poucos passageiros. Rapidamente o comboio fica vazio e parado. O condutor abandona o seu posto de trabalho e dirige-se para o fim do comboio. Está feita a inversão de marcha. O Vouguinha está pronto a arrancar para Aveiro. O interesse desperta a curiosidade acerca do horário. Duas horas depois parte. Nem procuro saber a hora de retorno.


Concentro-me no motivo da visita. Volto atrás. À entrada para o largo da estação, uma locomotiva a vapor de cor preta, aparentando bom estado de conservação, mostra-se aos visitantes. Caminho para a entrada do Museu e a porta fechada ostenta um pequeno aviso. Visitas só por marcação. Espreito pelos vidros, observando as peças recolhidas. Despacho de mercadorias, com todos os utensílios e objectos burocráticos reunidos no átrio. Locomotivas ou carruagens tinham visibilidade condicionada. Espreitei pelo meio de traves. Vi o que pude. Voltei à entrada da estação e contentei-me com a locomotiva preta.


Escrevi várias vezes sobre o Vouguinha, expliquei a sua história, mencionei a beleza da ponte de Santiago, fiz referência ao Museu e quando me decido a visitá-lo está fechado.


Sigo de automóvel sem voltar para trás. Desorientado. Esqueço o entroncamento em Sernada do Vouga. O ramal sul vindo de Aveiro a encontrar-se com o troço Espinho – Viseu. O único local largo na linha de bitola estreita. Fica para a próxima.


Perdi a linha ferroviária de vista. O rio Vouga faz uma curva larga à minha direita. Observo a larga planície. Na estrada, à esquerda uma placa indica a estação arqueológica do Alto do Cabeço de Vouga. Subo. O gradeamento de segurança impede o acesso. Ao domingo está encerrada ao público. Detenho-me um momento ante das grades a observar. As construções arredondadas e ao fundo o rio Vouga.


De volta à estrada. Uns metros depois, estou no IC2. Lamas do Vouga. A ponte medieval do Marnel. Uma bateira, no meio do campo alagadiço, justifica a construção histórica. Na ponte, sinais de uma portagem. As taxas que nos acompanham desde a fundação da nação.


Regresso a casa. Para norte. Estrada nacional ou auto-estrada. Escolha múltipla. Duas hipóteses para cada tipo. A nascente, os carris do Vouguinha reclamam interessados. Um quarto de século ao abandono.


“Na quietude dos dias do século passado, o fumo do Vouguinha rasgava o lado poente de S. João da Madeira. Ainda hoje, apesar de ter deixado o vapor, nas tardes calmas de fim de semana ecoa o som do seu apito, quebrando o silêncio dos dias de descanso (…)”. Relembro as minhas palavras, alinhadas a outro propósito.


Um dia hei-de escrever sobre essas tardes calmas.



(a publicar dia 08/12/11)

quarta-feira, novembro 23, 2011

Prestar contas

Prestar Contas

                A ausência de reacções à provocação expressa pelo director do labor, acerca do abandono de funções do presidente da Câmara de S. João da Madeira para ingressar na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN), é curiosa.

Há alguns meses, neste jornal, Castro Almeida foi apresentado como possível candidato a autarca do concelho de Santa Maria da Feira. O silêncio sobre o assunto foi esclarecedor.

O limite do número de mandatos, imposto pela actual lei eleitoral, permite entrar-se em especulação sobre o futuro dos vários autarcas. Aceitando-se que a interpretação da nova lei, contrariando o jeito português, manterá o limite de mandatos dos presidentes das autarquias, haverá vários que pretendem conservar a sua actividade política em outros concelhos. É perfeitamente conhecida, a intenção do presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia em atravessar a margem do Douro, por exemplo. A tentação de copiar este figurino, provável vencedor, deve ser obsessão de várias concelhias dos partidos políticos.

  A outra variável política é a suspensão de mandato. Em Cascais e em Coimbra, os presidentes eleitos suspenderam funções, para darem oportunidade aos seus vereadores de “mostrarem” serviço e potenciarem-se como candidatos a autarcas nas respectivas eleições de 2013.

Estas tácticas políticas, ao serem equacionadas para S. João da Madeira, merecem da população uma resignação surpreendente. A suspensão de mandato é a única que pode merecer o meu comentário. O actual presidente da Câmara não o deve fazer. Pode mas, não deve. A lei permite. A ambição política de exercer um cargo de dimensão regional é tentadora, só que existe um balanço a apresentar aos seus actuais eleitores.

Neste momento a convulsão vivida na cidade, motivada por obras municipais, é elevada:

a)      Dois palacetes restaurados sem destino à vista. A Quinta do Rei da Farinha continua sem o seu inquilino e terminadas as obras para o Palacete dos Condes, sem surpresa, anunciou-se uma intenção, que poderá acarretar empréstimos elevados numa conjuntura nada favorável, para o possível ocupante.     

b)      A reabilitação do cineteatro imperador e da academia de música. Empreiteiros falidos, ou a caminho. Empreitadas canceladas e abertura de novos concursos. Os contratempos e respectivos atrasos nas obras a adiarem a inauguração. Além disso, é importante garantir a futura sustentabilidade do projecto da Casa das Artes e do Espectáculo, incluindo a Criatividade.

c)       A ampliação da incubadora de empresas, entregue a empreiteiro mencionado, com a solvência incerta.

d)      A nova piscina a precisar de financiamento em 2013. Ou na ausência deste, de um projecto realista.

e)      A Oliva CF a ser atraiçoada pelo seu co-criador. À espera do estudo de viabilidade económica ou do desastre completo?

Além destas obras municipais (deve haver mais), a preocupação com o futuro do hospital e da linha do Vouga, cujos encerramentos prejudicarão a qualidade de vida dos habitantes locais, não permite saídas airosas a quem quer que seja.

O sentido de responsabilidade vingará, estou certo.

 

(a publicar dia 24/11/11)

quarta-feira, novembro 16, 2011

Guarda-roupa

                Comecei por ler banda – desenhada na revista Tintim. Semanalmente, acompanhava as histórias publicadas, ao ritmo de duas páginas por edição e aguardava pacientemente pela semana seguinte. Com o desfecho de cada aventura, havia a incerteza de qual seria o herói a preencher aquelas páginas e a ocupar as horas de leitura. Este contacto intermitente, deu-me a conhecer a maioria dos autores e respectivos bonecos da banda-desenhada franco-belga.

                Os livros adquiridos, para a família, completavam a edição em revista. Às colecções por herói e muito posteriormente as de autor, só em adulto é que passei à aquisição. Vários são os títulos a preencher a estante, dedicada ao tema. Colecções completas, só as de Tintim, Corto Maltese e Calvin. A rendição ao miúdo das tiras dos jornais, não é o único sacrilégio cometido, contudo, não existe espaço em casa para "mangas" e "comics" (bandas desenhadas japonesas e norte-americanas, aqui mencionadas apenas para justificar o meu puritanismo em matéria de preferências).

                Na adaptação para animação das aventuras dos heróis europeus, o repórter belga ficou a ganhar. Fiel ao original, a emoção das vinhetas excedeu-se em acção, ritmo, suspense e claro, nos momentos de humor. A música da introdução e a apresentação do episódio em francês são marcas para os seguidores do Tintim.

                O filme de Steven Spielberg, num cinema perto de si, consegue criar um impacto positivo junto dos fãs do herói de BD. O juntar três livros – "O segredo do Licorne"; "O Tesouro de Rackham, o terrível"; "O caranguejo das tenazes de ouro" - numa só história está bem conseguido. A narrativa flui perfeitamente, apesar das três aventuras aparecerem baralhadas, sem respeitar a cronologia do autor, Hergé.

O argumento percorre em detalhe as páginas dos livros. O vilão do filme é o simples coleccionador de antiguidades, um personagem secundário. Os irmãos Pardal, os verdadeiros vilões no livro, aparecem retratados no início do filme, quando Tintim está a posar para um desenhador de rua. Outros pormenores, distinguidos por quem tem horas e horas de leitura da obra de Hergé, permitem apreciar a passagem subtil por outros dois álbuns. O jipe vermelho da perseguição nas ruas da cidade marroquina é o mesmo do livro "O País do Ouro Negro" e a corrida para chegar ao destino do navio "Karaboudjan" faz recordar o episódio de "A estrela Misteriosa". Existem ainda outras minúcias no argumento do filme: o nome da porteira – sinceramente não me recordava de alguma vez ter sido mencionado – e a opção de excluir o Professor Girassol, que em livro surgiu precisamente na procura do mencionado Tesouro.

                A técnica utilizada pelo realizador permitiu dotar os personagens com as suas melhores virtudes. Tintim apenas perde por não falar francês, conseguindo-se através da sua imagem cinematográfica ultrapassar aquele lado de escuteiro. A sua imaturidade, sempre apta para o desafio que a aventura lhe proporciona, está sempre presente em todo o filme.

                Onde se esperava um pouco mais do filme, era em matéria de guarda-roupa. A opção em dotar Tintim com a sua camisola azul-turquesa e a camisa branca por baixo, não é discutível. A gabardine de cor bege escuro, muito menos. Acontece que Hergé, sempre fez por variar a indumentária do seu personagem e nas histórias que o guião do filme segue, o pequeno repórter sempre apareceu com roupas diferentes. O minimalismo do filme, obriga Tintim em pleno deserto a carregar a sua camisola numa mão e praticamente a utilizar os mesmos sapatos em toda a aventura.

                Estas considerações não retiram qualquer mérito ao filme, antes pelo contrário. A sequela, obrigatória pelo final, permite que os aficionados calculem quais os livros a adaptar, os personagens a figurar, ficando-se a aguardar se Tintim continuará a manter junto de si, mesmos nas situações mais adversas, toda a sua roupa.

 

(a publicar dia 17/11/11)

terça-feira, novembro 08, 2011

As pontes do rio Uíma

Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro, Vouga, Mondego, Tejo, Sado, Mira e Guadiana. Os principais rios de Portugal, caracterizados por desaguarem no Oceano Atlântico. Na instrução primária ou para cultura geral memorizava-se o nome destes onze cursos de água, apresentando-os pela sua disposição geográfica. Em matéria de nomes de rios, aprendia-se os principais afluentes do rio Douro, o Tâmega (e vá lá o Paiva) e dos afluentes do Tejo, restava o Zêzere.

Todos os outros eram desconsiderados.

Abria-se raras excepções: rio Leça, pelo aproveitamento portuário e rio Liz pela passagem pela cidade de Leiria. Os demais, jamais eram referenciados pelo comprimento ou distância entre margens, a bem dizer, apenas em épocas de forte precipitação, com o galgar do leito, inundavam os noticiários e as margens envolventes ganhavam importância, sobretudo, se havia estradas cortadas, com a água a atingir os tabuleiros das respectivas pontes. Nestes rios secundários, a maioria das ligações rodoviárias era estreita – previa-se sempre pouco tráfego - e sobretudo, curta, por tão reduzida ser a largura do curso de água. Era frequente atravessar-se pontes, sem se perceber que rio corria por baixo.

As necessidades eléctricas implicaram a construção de barragens. Em geral, os leitos dos rios principais alteraram-se, subindo a cota das águas. O conceito de passagem entre margens repensou-se. O aumento do trânsito rodoviário e os novos itinerários completaram a reformulação na configuração de pontes. Ainda assim, comedidas em comprimento e ajustada em largura.

Viajar, pelo país, passou a ser enriquecedor em termos geográficos, no meio do vão de qualquer ponte, uma indicação do nome desse rio, apesar de na maioria das vezes, não se deslumbrar qualquer água por baixo do tabuleiro.

Com a proliferação de auto-estradas, os conceitos de construção alteraram-se. Partindo para o exemplo concreto, na A41, a sul do Porto, entre Espinho e Crestuma surge a ponte sobre o Rio Uíma. Leia-se os dados técnicos: "uma extensão aproximada de 670 metros e é composta por dois tabuleiros paralelos que se estendem ao longo de 12 vãos de comprimentos diferentes, tendo o maior dos vãos uma distancia de 110 metros entre pilares. Os pilares mais altos têm uma altura de 42 metros aproximadamente (…)". Seguindo-se pela A41 para Norte atravessa-se o rio Douro, por uma ponte de características semelhantes – extensão 760 metros e altura de pilares 45 metros, que permite observar-se a central termo eléctrica da Tapada do Outeiro, sobranceira na margem norte.

Não duvide dos seus conhecimentos sobre os rios de Portugal. O rio Uíma nasce em Romariz e corre para norte, atravessando várias freguesias do concelho de Santa Maria da Feira e Vila Nova de Gaia até desaguar no rio Douro, junto a Crestuma, ou seja, perto de 20 quilómetros de extensão e poucos metros de largura ao longo do seu percurso.

Comparar o rio Uíma com o rio Douro é um exercício inútil. Só está ao alcance de alguns.

Na nova auto-estrada A32 surge um viaduto sobre o rio Uíma. Não consegui encontrar os dados técnicos dessa ponte. Empiricamente pareceu-me mais curta, embora, com altura de pilares excessiva, pois tal como na A41, não tive qualquer hipótese de espiar o rio.

No espaço de três quilómetros, duas pontes sobre o rio Uíma. Dois exemplos do exagero vivido em Portugal na última década. Auto-estradas de utilidade reduzida, construídas com custos excessivos e com poucos utilizadores.

É novidade?

Só para os distraídos.

(a publicar dia 10/11/11)