quarta-feira, julho 25, 2012

Unhas Negras

Ao longo dos séculos, o povoamento na região entre o Douro e Vouga evoluiu de forma semelhante à que é relatada na historiografia nacional:

1)    A existência de ruínas de castros, ou de vestígios arqueológicos de origem celta, em locais como Crestuma, Pedroso, Romariz, Ul e Ossela demostram a existência de aglomerados populacionais dispersos e com ineficiente ligação entre si.  

2)      A chegada dos romanos à Península Ibérica trouxe melhorias significativas, sobretudo, pela construção da via entre as cidades correspondentes às atuais Braga e Coimbra. Atravessada pela via romana - como prova o marco miliário no concelho de Oliveira de Azeméis - desenvolveram-se nesta região as povoações de Cale, Lancóbriga e Talábriga, cuja localização, com exceção da primeira, é ainda hoje objeto de estudo e de várias interpretações.

3)     A revolução económica introduzida pela invasão muçulmana, com uma nova moeda a circular; com o fomento do comércio com o exterior e sobretudo, com a construção de uma via terrestre mais próxima do mar; com a dinamização do porto de Cabanões - entreposto de pescado e de sal - modificaram o equilíbrio populacional existente na região.

4)    A reconquista cristã encontra esta região com a sua povoação mais desenvolvida próxima do mar, embora afastada o suficiente para se proteger dos ataques sanguinários dos nórdicos, vulgarmente conhecidos por vikings, defendida por um castelo voltado para norte e para poente e sobretudo, tendo como principal atividade económica, a realização de uma feira anual.

5)    Durante os séculos seguintes, as Terras de Santa Maria, limitadas a norte pelo Rio Douro, a sul pelo Rio Antuã, a este pelo rio Arda e a oeste pelo Oceano Atlântico tiveram o seu período medieval, com a liderança regional dos senhores do castelo.

6)    Os forais manuelinos no século XVI criam vários concelhos na região, um dos quais, o da Vila da Feira, com mais de sessenta freguesias.

7)    O fim do condado, no século XVIII, possibilitou o aparecimento do concelho de Oliveira de Azeméis. A reforma liberal, já em pleno século XIX de Mouzinho da Silveira manteve-o, agregando, entre outras, duas freguesias, que pertenciam ao concelho de Vila da Feira: Arrifana e S. João da Madeira.

8)    No início do segundo quartel do século XX, em pleno regime republicano, Arrifana regressa ao seu concelho de origem e S. João da Madeira emancipa-se.  

A industrialização deste concelho, apoiada pelo desenvolvimento de vias de comunicação, como a ferrovia do Vouga e a melhorada estrada Porto – Lisboa, fixaram a população e permitiram o seu desenvolvimento demográfico. No entanto, a indústria aumentava e diversificava as áreas de negócio. A mão-de-obra no concelho era insuficiente e havia necessidade de a recrutar nas freguesias vizinhas. O apelo industrial era mais forte do que o quotidiano miserável da agricultura de subsistência. Lentamente os campos foram colocados em segundo plano e o ingresso natural nas indústrias de S. João da Madeira tornou-se no dia-a-dia dos habitantes das freguesias vizinhas.

Um novo conceito de comunidade estabeleceu-se na região. A vivência comum em período laboral, não criou qualquer tipo de hierarquia entre os habitantes de freguesias vizinhas. Antes pelo contrário, como se pode analisar através das opções do fundador da empresa Molaflex.

As ações de cidadania não ficaram limitadas às paredes das diversas indústrias. A evolução do emprego em S. João da Madeira, com comércio e serviços, permitiu a oferta de diversas oportunidades à população desta pequena região. Por outro lado, a procura das escolas desta cidade pelas crianças e jovens - acompanhando o movimento diário dos seus pais - e noutra perspetiva o complemento ao ensino, através da formação em artes nas instituições municipais, ou pela prática de desporto nas associações locais, aumentaram o espírito de comunidade entre terras vizinhas.    

É para mim evidente que o esforço, o empenho dos operários, colaboradores de empresas, retratados por João da Silva Correia e oportunamente homenageados pela cidade, com a edificação de monumentos, não se cinge aos habitantes de S. João da Madeira.

Somos todos Unhas Negras. Os daqui e os que dormem em Milheirós de Poiares.

Mas também os outros vizinhos…

Resta-me espaço, para desejar boas férias aos leitores do labor.

 

(a publicar no dia 26/07/12)

 

 

quarta-feira, julho 18, 2012

Do Casal Ventoso ao Intendente

         Em 1999, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu arrasar o bairro Casal Ventoso. Para trás ficavam quinze anos de vidas degradantes, de toxicodependência ruinosa e de uma zona onde o comércio ilícito de droga era efetuado sem qualquer pudor. O problema não foi erradicado, antes pelo contrário, a venda ilegal proliferou por outras zonas da cidade e a toxicodependência continua a ser um problema na capital.
         O bairro ganhou uma nova cara. Onde se viam barracas vêem-se agora árvores. Onde havia lixo, hoje há relva. A reabilitação urbana foi conseguida. Algumas pessoas que viram as suas casas demolidas foram reintegradas em outros bairros da cidade e hoje, mais de dez anos depois, o Casal Ventoso não é referenciado pelos motivos de outrora.
         O radicalismo da Câmara Municipal foi contrário às políticas sociais de apoio a toxicodependentes. Nessa época, ainda em fase experimental e com grandes sonhos quanto a resultados futuros.
         Outro bairro mal-afamado de Lisboa foi também reabilitado. O Intendente, conhecido pelos mais vários motivos, nomeadamente prostituição, sofreu obras. Terminada a empreitada, a Câmara Municipal de Lisboa arregaçou as mangas e está a promover eventos, incluindo espetáculos musicais, durante este mês de Julho, gratuitos para a população, tendo como objetivo mostrar a cara lavada do bairro.
         Dois exemplos de reabilitação urbana, de cariz municipal, tocando na degradação física da cidade e sobretudo, recuperando a dignidade humana dos seus moradores.
         A fórmula a ser experimentada no presente mês no Intendente - com concertos dos Xutos e Pontapés, de Boss Ac e está programado para amanhã, 20, a exibição da Ópera: "La Bohème", de Pucinni, - importa destacar.
Os modelos de reabilitação, em título na presente crónica, indicam-nos o tipo de decisão a tomar para a Praça Luís Ribeiro. Por um lado, temos o radicalismo utilizado no Casal Ventoso – a utilização do nome do bairro lisboeta, atendendo à longa duração do comércio ilícito na Praça vem a propósito – com a hipótese de destruição do edifício Parque América, com todos os custos inerentes a realojamento e indeminizações a proprietários, ficando no final um amplo e ajardinado largo. Por outro, temos o renascer do Intendente, com reabilitação urbana mais barata e a consequente sedução à população da cidade.  
Esta última fórmula, por ser em tudo semelhante à que projetei para a Praça Luís Ribeiro, em texto publicado neste jornal no presente ano, intitulado “Ideias Úteis” é a minha preferida. É mais barata e de rápida implementação.
É de salutar a admissão de erros. É natural e correto, a sua retificação. Assumir o erro da intervenção municipal de 2006 na zona pedonal, que já por si procurava emendar o desastre de 1999 e projetar lancis de cota diferenciada, é não entender o que aconteceu à Praça.
Não são carros que são necessários no centro, são pessoas. É necessário atrair novos moradores, novos utilizadores, recuperar comércio, serviços e captar novos clientes.
Revitalizar a Praça passa por animá-la.

(a publicar no dia 19/07/12)


terça-feira, julho 10, 2012

Missão Olímpica


Há 30 anos, ainda na Escola Primária do Parque, nos primeiros dias de Junho, pintava-se a faixa alusiva ao Campo de Férias Estamos Juntos desse ano. Era uma das primeiras tarefas de preparação para o mês seguinte. Distribuir os cartazes promocionais pela cidade, limpar as ervas dos campos e fazer as inscrições dos participantes eram as demais funções. Certos anos houve trabalhos mais árduos, como chumbar ao chão hastes e montar um campo de basquetebol. Tudo era compensado por uns jogos bens disputados nos campos arranjados e por umas braçadas no tanque piscina.

A simbologia nos Campos de Férias foi aparecendo. Os cartazes ganhavam melhor imagem - às t-shirts monocromáticas sucediam-se umas bicolores e mais tarde com várias cores estampadas e com desenhos mais imaginativos. O lago, pensado para uma forma oval, conseguiu ser construído, após várias sessões de enxada a remover terra, num mais adequado paralelepípedo. As alfaias foram aproveitadas para roçar o terreno e transforma-lo num campo de basquetebol - dotando o Campo de Férias com três recintos desportivos: futebol, com umas balizas fantásticas, voleibol e o referido novel campo com 2 tabelas. Nas hastes surgia a bandeira do Campo de Férias e houve um ano, em que apareceu a bandeira da Associação Estamos Juntos.

Cruzo a Avenida Renato Araújo e sigo pela Avenida Arantes Oliveira. Contorno a rotunda e observo, na parede do pavilhão Paulo Pinto, a faixa do Campo de Férias Estamos Juntos.

 O primeiro dos símbolos. A história do clube mantem-se viva. Há também cartazes e entretanto, foram surgindo novos atributos. "AEJ o clube das Corgas" profetizei em 2001. Não me enganei. O trabalho dos seus sucessivos diretores, técnicos e atletas fizeram a AEJ ser merecedora de dinamizar uma parte do complexo desportivo das Corgas.

Desde Junho que acedi todos os dias, em alguns mais do que uma vez, ao site da Federação Internacional de Natação e da própria Federação Portuguesa, para verificar a lista de atletas apurados para os Jogos Olímpicos de Londres, nesta modalidade. Fui roendo as unhas, desesperado por não ver a informação que desejava. Tantas vezes acedi que passei a ler uma série de conteúdos disponíveis. 9 de Julho, apareceu-me como a data limite para a confirmação de presenças.

8 de Julho, à noite, o monitor do meu pc tem o nome de Ana Rodrigues, como estando apurada para os 100 metros bruços para os Jogos Olímpicos de Londres. Rejubilei. Agarrei o telemóvel e enviei um sms ao meu amigo Luís Ferreira, seu treinador. Sem resposta. Desconfiei, só atenuando devido à hora imprópria de comunicar. Tive dificuldade em adormecer, esperando uma mensagem de confirmação.

Nada.

No dia seguinte de manhã esperei, desesperei. Comecei a desconfiar do meu otimismo. Imaginei o pior dos cenários. A crise… A burocracia… Tudo me passou pela cabeça. Não consegui pegar no telefone e confrontar o Luís. Depois de almoço, recebo um sms. Era dele. A confirmação. A assinatura de sempre: Estamos Juntos.

Antes de rumar a S. João da Madeira, ao fim da jornada laboral, leio o comunicado do Comité Olímpico de Portugal dessa tarde. Percebi então o receio do Luís. Leio de novo "não ter sido objecto de Wild Card (convite) da FINA, mas sim qualificada de acordo com os rankings de qualificação olímpica (OST - Olympic Selection Time)". Aprecio ainda o destaque dado à Ana Rodrigues pela sua capacidade de trabalho, demonstrada por ser a única atleta presente nas Olimpíadas da Juventude de Singapura, a conseguir o apuramento para Londres.

Caminho para a Piscina Exterior das Corgas. Finalmente chegou o dia de felicitar a Ana pelo seu feito.

Recordo a visão da faixa do Campo de Férias. À minha frente surge a placa da AEJ à porta da sede. Relembro os 30 anos do projeto coletivo.

Atleta Olímpica. A página dourada do desporto desta Associação. Aliás, da cidade de S. João da Madeira.

 Missão cumprida.
(a publicar no dia 12/07/12)

quarta-feira, junho 20, 2012

Gerações

Dia de Portugal. Domingo à tarde. Em frente à televisão assisto à final do torneio Roland-Garros, em ténis. O espanhol Nadal está a vencer o sérvio Djokovic. A recuperação deste entusiasma-me. O jogo vai ser longo, a fazer lembrar a célebre final do Open de Austrália entre os mesmos dois jogadores.

Numa pausa, um pouco antes das 17 horas, aproveitada para exibição dos compromissos comerciais, mudo de canal. Assisto à entrada no relvado dos jogadores de Itália e Espanha. Ao ver o guarda-redes transalpino, fico curioso quanto à sua idade. Agrada-me saber que ainda é convocado e assisto ao seu entusiasmo a entoar a pleno pulmões a “Fratelli d’Italia”, hino do seu país.

- O Buffon tem 42 anos – asseguram-me.

Volto ao jogo de ténis, Djokovic continua a pontuar. Faz 1-2 e parte para o quarto set cheio de vontade de vencer.

42 anos. Ainda há jogadores de futebol no Europeu mais velhos do que eu?

Fico a pensar na idade do italiano. Enquanto isso, a chuva interrompe o jogo de ténis. Maldita. O jogo será retomado no dia seguinte. Às 12 horas. Uma hora imprópria para continuar a segui-lo.

Inconformado, retorno ao futebol.

Assisto aos golos. Às saídas em falso de Buffon e às suas excelentes defesas.

Lembrei-me dos 40 anos de Dino Zoff, o guarda-redes Italiano do primeiro Mundial que acompanhei religiosamente. Naquela época – 1982 - uma marca notável, coroada com a conquista desse título. Ainda recordei Peter Shilton, outro notável guarda-redes, este Inglês e sem o palmarés do italiano, mais conhecido por ter sofrido um golo apontado pela mão de Deus.

- O Buffon tem 42 anos – voltam a assegurar-me.

A idade dos jogadores de futebol e de outros atletas é entendida como uma fasquia geracional. O abandono da atividade desportiva é usual situar-se entre os 30 e os 35 anos. São raros os que prosseguem a prática desportiva depois dessa idade. Ao informarem-me da idade do Italiano, senti-me a rejuvenescer.

Djokovic perdeu o quarto set. Aproveitei a hora de almoço para espreitar um pouco o jogo. Ainda o vi a falhar por centímetros a possibilidade de evitar o tie-break. Nadal confirma-se como especialista em terra batida.

Sucedem-se as jornadas do Euro 2012. Portugal passa a vencer e apura-se para os quartos-de-final. Tal como os seus colegas da desgraça financeira: Grécia, Espanha e Itália.

O Euro absorve-me o tempo livre. O campeonato, ressalve-se. Sucedem-se dias a visualizar os jogos à hora de jantar. Atraso leituras, horas de escrita, por causa deste futebol. Faço contas aos grupos, aos jogos futuros, às possibilidades de encontros entre determinadas seleções e pelo meio, lembro-me de verificar qual a idade de Buffon.

34 anos, segundo a Wikipédia.

Como a fonte já foi mais fidedigna, procuro em site mais especializado e confirma-se, nasceu em 1978. Afinal, sou mais velho do que o guarda-redes italiano. Pesquiso as idades de todos os jogadores selecionados para este Europeu de futebol e verifico o que há muito sabia – já entrei na segunda idade.

Atento para outros pormenores deste Campeonato e recolho datas.

Giovanni Trapattoni orientou uma seleção na fase final do Europeu com 73 anos. Não conta reformar-se, antes pelo contrário, espera ainda ser apurado para o Mundial de 2014.

Uma outra fasquia geracional é afixada.

 

(a publicar no dia 21/06/12)

 

quarta-feira, junho 13, 2012

Calendarizar Eventos

Nas últimas edições do jornal labor, tenho escrito sobre as etapas a consolidar nos novos desafios da área cultural da cidade. A articulação das várias vertentes (ensino, criação e promoção), a fidelização de público, o desenvolvimento de parcerias regionais, foram os temas escolhidos e enquadrados pela complicada afetação orçamental desta vasta área.

A ordem apresentada não pressupõe sequenciação, nem sequer prioridades de ações. 

Existem mais dois temas que são importantes salientar.

Um de cada vez.

Nas últimas semanas foram promovidos alguns eventos, inseridos na divulgação da reconversão das instalações da Oliva, o que é compreensível face à aposta da autarquia para os próximos anos. Iniciativa louvável, embora não se compreenda bem, se haverá mais ocorrências nos próximos meses, ou se ficamos por atos isolados.

Muitas vezes, a promoção cultural da responsabilidade da autarquia perde-se em iniciativas pontuais, sem sequência em anos seguintes, não se conseguindo assim, contornar os hábitos de consumo cultural da população.

O sucesso da “Poesia à mesa” e do Festival de teatro provam isso mesmo. Por terem data marcada, mais dia, menos dia, são facilmente agendados pelo público e são por isso concorridos e participados.

Isto demonstra a necessidade de criar um calendário anual de eventos municipais.

Não querendo ser exaustivo, com apontamentos de organização de eventos, faça-se o seguinte exercício, para os próximos seis meses: quais serão os espetáculos a serem promovidos no auditório dos paços da cultura?

A resposta incerta e vaga, permite concluir-se que um calendário de eventos, incluindo concertos, coreografias, exposições, acrescentando os mencionados sucessos atrás referidos, agendando tudo para o ano inteiro e sobretudo, repetindo-se no ano seguinte. Além da fidelização de público, este calendário permitirá uma melhor organização da divisão cultural e com resultados mais certos. 

É importante referir que a promoção cultural é composta por três pilares: divulgação, qualidade do espetáculo e acolhimento ao público. Boas salas, não significam por si só, grande quantidade de público. Uma das variantes deficitárias, não permitirá que o sucesso da promoção cultural seja conseguido.

Um parêntesis para terminar este ponto, a necessidade de articular calendários de eventos com os concelhos vizinhos e também com os parceiros da área de metropolitana. A simultaneidade, no passado fim-de-semana, da iniciativa “Cidade e o jardim” e “Festa das coletividades” da freguesia vizinha faz temer as comparações sobre a essência dos mesmos.

O difícil nestes eventos é o envolvimento da população local. Feito bem conseguido, aplauda-se, nas dez edições realizadas no jardim da Avenida da Liberdade. No entanto, este esforço não permite dar à cidade qualquer projeção regional e ou nacional. Este reparo, reforça-se na possibilidade de angariação de fundos para as associações, clubes, instituições presentes no evento. Com mais visitantes, a probabilidade de obtenção de maiores receitas é superior, o que numa época de crise é sempre bem-vindo.

Termino a série de artigos, sobre a temática cultural, escrevendo sobre uma etapa desafiante, precisamente, a da adesão da população

Provavelmente é a mais importante.

É uma oportunidade para o concelho.

Para o bem-estar comunitário.

 

(a publicar dia 14/06/12)

quarta-feira, junho 06, 2012

Parcerias Regionais

         Os autarcas de S. João da Madeira, Santa Maria da Feira, Santo Tirso e Paredes presentes na apresentação da Oliva Creative Factory, sentiram dificuldades em explicar como vão cooperar os projetos municipais de incubadoras de empresas criativas. 
A constatação é da jornalista do labor, Liliana Guimarães e não surpreende.
É necessário recordar: cada município foi apresentando o seu projeto individualmente à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte; para obter o respetivo financiado exigiram-lhes a criação de um cluster regional de criatividade, na lógica de interatividade dos vários concelhos; o financiamento foi finalmente concedido, poucos dias antes da apresentação pública atrás referida.
Mais do que o respirar de alívio dos autarcas, importa realçar dois pontos.
Primeiro o negativo. Pela acessibilidade facilitada pela rede de autoestradas - A32, A1, A29, A3 e A4, – consegue-se em menos de trinta minutos alcançar qualquer um destes concelhos, a partir da principal cidade da região. Embora, tal facto se assemelhe a uma vantagem, não o é. Qualquer um destes concelhos é periférico relativamente à cidade do Porto. Cidade altamente revitalizada nos últimos anos… devido ao Aeroporto, ao Metro, à Casa da Música, ao Museu Contemporâneo de Serralves, fatores preponderantes para a tornar numa cidade visitada por imensos turistas.
Para completar a face renovada do Porto, existe um claro interesse em fixar indústrias criativas na cidade. A própria Universidade viu ser aprovado o financiamento à sua incubadora, a instalar em Cedofeita, ou seja, num local encostado à mais atrativa zona da vida noturna da cidade.
A visibilidade assegurada aos criadores, pelo centralismo natural da grande cidade, supera qualquer acesso rápido à periferia do grande Porto.
O ponto positivo está relacionado com a ideia de parceria intermunicipal. As sinergias a obter podem efetivamente evidenciar a lógica regional. Complementarem-se, em especial, os mais próximos, como os dois a sul do Porto. Ou serem promotores de pequenas regiões, envolvidos em zonas habitacionais de centena de milhares de pessoas, com os seus hipotéticos criadores.
Esta escala regional é um grande passo para S. João da Madeira. Concelho de freguesia única, voltado sobre si mesmo e que ao longo dos últimos anos teve dificuldade em estabelecer parcerias com os seus vizinhos.
Com exceção do Festival de Teatro da Escola Serafim Leite, com o envolvimento de grupos de teatros de freguesias vizinhas e do ciclo Musicatos, promovido pela Academia de Música, promovendo a atuação de jovens talentos de outras escolas de localidades próximas, o restante panorama é confrangedor.
Às parcerias da Câmara Municipal com as associações locais e com o conhecido casal colecionador de arte, pouco há a acrescentar.
Os acordos de âmbito nacional com Fundações são desenraizados da população.
Para finalizar, observe-se a capacidade de ação da Fundação Serralves, precisamente um dos parceiros da Câmara local. No fim-de-semana de porta aberta, intitulado “Serralves em Festa”, organizou 220 eventos, contando com um grande número de parceiros. Alguns institucionais. A grande maioria da cidade do Porto, desde projetos comunitários até à Casa da Música. O convite foi alargado à região norte. Houve várias atuações de grupos de Espinho, de Paços de Brandão, de Santa Maria da Feira, só para citar os mais próximos.
Esta abrangência é exemplar e o garante do sucesso da iniciativa, apesar da chuva.

(a publicar no dia 07/06/12)

quarta-feira, maio 30, 2012

Criatividade orçamental

            Na semana passada, nas comemorações do dia da cidade, foram feitas revelações acerca da Casa da Criatividade (acabou-se a indefinição de batismo), permitindo conhecer-se as pretensões da autarquia relativas a plano de atividades e respetivo orçamento deste espaço para os anos imediatos.

Segundo o jornal labor, está previsto realizar-se 40 espetáculos por ano, o que feitas as contas, equivale a um por semana. Existe igualmente a pretensão de “produzir duas peças de raiz”.

Números ambiciosos.

Por outro lado, foram divulgados os números da verba disponibilizada pela autarquia para a dita Casa. Cem mil euros. Um orçamento anual que à primeira leitura pode parecer elevado. Contudo, não é disponibilizada mais informação, não se percebendo se a verba inclui vencimentos, ou se apenas se destina à atividade de programação.

Permanecem dúvidas sobre a sustentabilidade da Casa.

Se optarmos por considerar o orçamento mensal, teremos pouco mais de oito mil euros por mês. Se fizermos o exercício por números de espetáculos a realizar, teremos dois mil e quinhentos euros por evento e deixo de fora as produções caseiras.

Por mês ou por espetáculo, os números ficam pequenos.

Se começarmos a listar as despesas inerentes à programação, como divulgação e “cachet” de artistas; juntando-se as despesas de exploração, como eletricidade e água; acrescente-se a limpeza e manutenção do edifício - o caso complica-se.

Mesmo considerando a vontade da autarquia em esconder os custos com os fluidos, com a conservação e em suportar os vencimentos do pessoal inerente ao funcionamento da Casa da Criatividade, enquadrando todas as rubricas no Orçamento Municipal, verificamos que é necessário um grande encaixe de bilheteira, para o equilíbrio financeiro deste equipamento cultural.

A qualidade dos espetáculos condicionará a adesão de público. O preço dos bilhetes será outra das variantes a ter em conta. Sabendo-se que um bom espetáculo é oneroso e que o público local não adere em grande número a bilhetes caros, não faltam inquietações ao responsável pela programação.

Por todo o país, observamos autarquias, que anteriormente reabilitaram espaços culturais, a proceder à desorçamentação dos mesmos. Pela austeridade ou pela constatação de uma realidade não calculada? Uma serve de pretexto a outra. No entanto, existem casos em que a identidade dos eventos é preservada, mesmo reduzindo o orçamento. É o exemplo do Festival internacional de teatro de rua - Imaginarius, organizado em Santa Maria da Feira. A edição deste ano conseguiu promover vários projetos comunitários, envolver artistas locais e estrear em termos nacionais algumas peças, contando com uma boa adesão de público, em especial, na noite de sábado.

Apesar de ter sido mais “baratinho”, o orçamento do Festival – 250.000 euros - é superior ao previsto para um ano de programação da Casa da Criatividade. A comparação finaliza o texto, servindo apenas para o leitor se aperceber da asfixia a que estará sujeita a programação cultural desta cidade.  

 

(a publicar no dia 31/05/12)

 

quarta-feira, maio 23, 2012

Ano 1 AC (antes da criatividade)

         No início da década de 80, a cultura institucionalizou-se em S. João da Madeira. Primeiro com a fundação da Academia de Música e alguns anos mais tarde, através da criação do Centro de Arte. Instituições vocacionadas para a formação, de alunos em idade escolar e de outros curiosos, procurando exibir ciclicamente o trabalho desenvolvido durante o ano letivo, assim como, procurando espreitar outras tendências, organizando-se concertos ou exposições de talentos exteriores à cidade.

Por este tempo, a Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo abria as suas portas à comunidade, promovendo, entre outras atividades, concertos na sua sala de entrada. Cheia em várias sessões, com o público mais jovem a sentar-se pela escadaria acima (eu e mais uns tantos). Lembro-me perfeitamente de assistir a atuações de António Pinho Vargas, Pedro Burmester, Nelly Santos Leite, Gustavo Brandão e se a memória não me falha, arrisco um concerto de Florinda Santos.

A promoção de concertos estava limitada à lotação da Biblioteca, às poucas condições do Auditório Municipal e às insuficiências acústicas dos espaços desportivos, incluindo-se o estádio de futebol, embora, este espaço fosse excessivo para os espetáculos organizados.

A década atrás referida terminou com outra intromissão da autarquia nesta área. A promoção de concertos na Praça Luís Ribeiro, de entrada livre, passaram a fazer parte da época estival de S. João da Madeira. De início, com escolhas de bom gosto e após algum tempo, sem qualquer critério de qualidade, apenas um grande número de atuações, nas noites de sábado e domingo, em palco montado para o efeito.

Na década seguinte esta fórmula foi explorada até à exaustão. Todas as infraestruturas inauguradas para o grande público eram testadas com concertos. Sempre gratuitos, associados às comemorações de datas de significado concelhio. No final desse tempo, as obras da Praça retiraram a música ao centro. O anfiteatro projetado, jamais funcionou. O Jardim para a ponte antevia-se como alternativa para os concertos de borla e o tempo comprovou-o.

Três infraestruturas eram projetadas para os primeiros anos do novo milénio. A transformação do antigo edifício da Câmara Municipal em Paços da Cultura, a criação do Museu de Chapelaria, aproveitando-se as antigas instalações da Empresa Nacional de Chapelaria e por fim, a requalificação do cinema Imperador, dotando a cidade de uma sala de espetáculos.

Apenas os dois primeiros foram inaugurados. A melhoria nas infraestruturas permitiu alargar o leque de eventos promovidos. Associações, escolas e outras instituições dinamizam o novo auditório municipal e tentam desesperadamente captar público para assistir aos seus eventos. O mesmo acontecendo no Museu, com as iniciativas paralelas organizadas por aquele espaço.

O modelo projetado para a nova Sala de Espetáculos pressupõe a continuidade da promoção de eventos associado à Câmara Municipal.

A formação instituída há trinta anos na área cultural persiste. A Academia de Música voltará brevemente ao seu espaço natural, já renovado e ampliado para os próximos anos e o Centro de Arte, apesar de ter sido espoliado, prepara-se para os tempos modernos de parceria e casa nova na Oliva Creative Factory.

A próxima vertente a desenvolver-se na área cultural da cidade é precisamente a da criação. Espera-se que apesar de idealizar, restaurar o edifício e promover a nova incubadora de empresas criativas, a Câmara Municipal de S. João da Madeira saiba ser parceira e não tente condicionar os agentes criativos.

É preferível investir na fidelização de público, procurando que aos eventos promovidos em salas municipais ocorra um número significativo de assistentes.

 

(a publicar no dia 24/05/12)

quarta-feira, maio 16, 2012

Londres a meio segundo

         O cronómetro é em algumas especialidades do desporto, o maior adversário dos atletas. Superar-se, conseguindo uma melhor marca pessoal, passa de objetivo a fixação. A presença em Campeonatos Europeus, Mundiais ou nas Olimpíadas é um prémio para quem se sacrifica durante dias, meses e anos, abdicando de tempos livres, para treinar, treinar, competir, voltar a treinar, treinar, sempre para ser cronometrado em futuras competições. Até que o tempo obtido fica abaixo do exigido e a possibilidade de participar nos campeonatos desejados é alcançada. 

         Uma luta contra o tempo, contra o relógio. Contando-se os segundos. O acumular destes. Procurando ser-se mais rápido que os pequenos impulsos do tempo. Ser cronometrado com rigor digital, com resultados exibindo os décimos, os centésimos e por vezes, os milésimos. Os atletas têm que vencer os submúltiplos de segundo. Pequenos gestos, micro hesitações, uma imprecisão no decorrer de uma competição, impercetível na maioria das vezes e o resultado pode ficar aquém do desejado.

Depois é treinar, treinar até à próxima competição. Melhorar a forma, evitar lesões. Convencer-se de que se é capaz e nada temer na prova seguinte.

Isto é o que vai acontecer em Debrecen.

Os Campeonatos da Europa de Natação decorrem na próxima semana em Debrecen, precisamente na Hungria e Ana Rodrigues, nadadora da AEJ, vai estar presente, tentando reduzir, à sua melhor marca deste ano, apenas 50 centésimos de segundo, para deste modo obter os mínimos para participar nos Jogos Olímpicos de Londres.

Depois da medalha de bronze nos Jogos Olímpicos para a Juventude, realizados em Singapura, em 2010, que encheu de orgulho a comunidade local, Ana Rodrigues teve na época seguinte várias apoquentações, incluindo lesões e dificuldades a nível de local e condições de treino. Ultrapassadas estas contrariedades, a presente época está a ser encarada de forma positiva pela atleta e pelo seu treinador, Luís Ferreira.

Os Campeonatos da Europa não se apresentarão como a derradeira tentativa de conseguir o passaporte para Londres mas, como a prova na qual o meio segundo que separa Ana Rodrigues de Londres deixará de existir.

Escrevo de forma positiva por acreditar.

Antecipo os elogios, do mesmo modo que em 2007, de forma percussora, antevi nas páginas deste jornal o trajeto olímpico de Ana.

Há cinco anos, percebi que os feitos desportivos desta atleta destacavam-se, por apresentarem uma consistência bem diferente dos resultados que faziam a história da natação da AEJ.

Títulos em campeonatos e ótimos resultados nacionais conseguidos por Inês Aleixo, João Bastos, André Bastos, Daniela Azevedo na década de noventa, isto é, um percurso iniciado há mais de vinte anos. No princípio do milénio um esporádico resultado conseguido por Gustavo - cujo apelido perdi - e depois este ciclo de quase nove anos…

Foram vários os protagonistas, que me abstenho de enumerar, onde se destacou a persistência de Ana Rodrigues. O evoluir de resultados – títulos em vários escalões, títulos absolutos nacionais, recordes absolutos, internacionalização – que comprovam a sua ascensão como atleta e o excelente trabalho de Luís Ferreira, como técnico.

O fechar de um ciclo?

O tempo dirá… Contudo, está na forja uma equipa de cadetes na AEJ, o que indica o iniciar de um novo ciclo, que espera-se seja tão frutuoso quanto o anterior.

 

Nota: Acompanhei durante meses as crónicas de António Sousa Homem, editadas por um jornal de Lisboa e apadrinhadas pelo atual Secretário de Estado da Cultura. Pela prosa, do último membro de uma família absolutista, segui as peripécias do século XIX da sociedade portuguesa, as suas divisões, os seus ódios e as suas tolerâncias. A semana passada deu-me preguiça e não consultei as referidas crónicas. Acedi na internet a uma página que me induziu em erro e troquei os factos históricos. A Carta Constitucional outorgada por D. Pedro IV, em 1826, procurava sanear as divergências entre políticos liberais e absolutistas. A Carta relativamente à Constituição de 1822 acrescentava poderes ao rei. Os seus defensores ficaram conhecidos como os Cartistas. Sendo liberais e apenas tolerados pela família de António Sousa Homem, não havia qualquer motivo para a minha confusão. As minhas linhas da semana passada podem ter causado algum desconforto aos leitores, conscientes dos seus conhecimentos de história, daí a retificação.

 

(a publicar no dia 17/05/12) 

 

quarta-feira, maio 09, 2012

A carta

         A guerra entre absolutistas e liberais condicionou o século XIX em Portugal. Anos antes, as invasões napoleónicas, e a consequente resistência, deram o mote para um período sangrento da história do nosso país. As páginas de Camilo Castelo Branco evidenciaram a vocação para o crime do comum cidadão. Ciladas, quase sempre noturnas, ajustes de contas, tiros à queima-roupa, objetos a partir cabeças, tudo é narrado com perícia pelo escritor dos amores impossíveis.

         Libertos de Napoleão, os Portugueses ensaiaram a escrita da sua Constituição. Motivo de discórdia entre regências e seus opositores. Antecedendo a guerra civil, como contraponto absolutista ao documento original, surgiu em 1826 a Carta Constitucional. Os seus defensores ficaram conhecidos para a história como os cartistas, ou simplesmente, os da Carta.

         Quando a partir de meados da década anterior, comecei a ver referências à “Carta”, sobre as demais temáticas em vários concelhos, temi o pior. A sua simples menção fazia recordar tiques absolutistas. Como os partidos dos extremos, não rebatiam o conteúdo daquelas, antes pelo contrário, solicitavam a realização de cartas sobre diferentes assuntos municipais, percebi que os documentos eram bem assimilados e democráticos. Portanto, o seu conteúdo constituía uma importante ferramenta orientadora sobre a matéria analisada.

         As notícias recentes sobre agrupamentos, mega agrupamentos, fecho e fusões de escolas obrigaram-me à leitura da Carta Educativa de S. João da Madeira.

O documento é de 2006, apresenta-se a si mesmo como dinâmico, com necessidade de se proceder a verificações e atualizações periódicas. Identifica pontos fortes e pontos fracos, vaticina oportunidades e prevê ameaças. Serviu, ao longo da última meia dúzia de anos, como justificativo para a construção de novos edifícios e reabilitação de outros, tornando o parque escolar do concelho extremamente moderno e funcional. Se foi útil até agora, não se percebe o seu esquecimento nesta fase bastante controversa do panorama educativo concelhio.

A posição pública da autarquia foi suficiente para serenar os agentes do meio escolar. Contudo, uma tomada de posição veemente ajudaria a clarificar o momento e até a precaver o futuro de algumas escolas.

Todavia, tudo isto não foi suficiente para ensombrar o festival de Teatro, organizado pelo grupo de professores do Espaço Aberto da Escola Dr. Serafim Leite. Durante catorze dias, esta escola extravasou as suas grades e ofereceu à comunidade local um excelente momento cultural. Com sala cheia a assistir a algumas encenações, indicador da adesão e recetividade do público, importa realçar o número de espetáculos interpretados por grupos locais e destacar a capacidade do público para a interatividade, bem patente no arranque do festival.

Para terminar, no domingo ao ouvir o espectável resultado da eleição francesa, segui o conselho de Voltaire, no seu Cândido e dediquei-me ao trabalho. Mantive-me otimista.

 

(a publicar no 12/05/12)

 

terça-feira, abril 24, 2012

Longevidade

                O desporto promovido pelas associações locais tem vivido sob o paradigma da formação.

Os clubes aproveitaram as significativas melhorias das condições de treino e de jogo, resultado dos investimentos municipais no complexo das corgas, posteriormente no pavilhão das travessas e mais tarde, na transformação do campo pelado no centro de formação desportiva. A maior capacidade das infraestruturas desportivas permitiu o aumento do número de praticantes. O recrutamento de técnicos, teoricamente melhor preparados, possibilitou a melhoria de resultados desportivos nestes escalões. O dirigismo rendeu-se às evidências e as equipas de jovens passaram a estar no topo nacional, ao contrário das suas congéneres seniores.

As competições jovens atraem assistentes à cidade. Hoje em dia, qualquer equipa visitante é acompanhada pelos respetivos progenitores e demais familiares. No último domingo de Março, pelas nove da manhã, fui assistir no centro de formação desportiva, a um jogo de futebol de juvenis C, entre a ADS e o Gondomar, já que nesta equipa joga um dos meus sobrinhos. Um jogo de treino. A assistência afeta aos visitantes fazia-se ouvir constantemente e provavelmente estava em número superior aos adeptos locais. Duas ou, no máximo, três dezenas é certo.

Não tenho outras experiências como assistente, em S. João da Madeira. A única comparação que posso fazer é com um jogo da presente época da Primeira Liga de futebol, em que o União de Leiria enquanto equipa visitante arrastou consigo 4 (quatro!) adeptos, com direito a área restrita, daí ser fácil contá-los.

Os dois exemplos servem apenas para evidenciar que o desporto, em idades de formação, é um meio mais eficaz de promoção de uma localidade. Além das dezenas de atletas que visitam a cidade semanalmente, arrastam assistência em número superior aos das equipas de escalão sénior. Seja em que modalidade for, arrisco sem pestanejar.

As dificuldades em consolidar o modelo desportivo da formação estão inerentes à duração do mandato de cada direção. É normal, nos clubes com mais visibilidade da cidade, a mudança de presidente e outros diretores, a cada dois anos. A pouca longevidade do exercício da gestão desportiva não permite solidificar os propósitos dos diretores e os sócios acabam por capitular, sem entender os objetivos a longo prazo.

Existe uma lacuna no modelo da formação. Aos dezoitos anos os jovens devem continuar a praticar desporto. A competir, tal como em idades inferiores, caso estejam interessados. O quadro desportivo é mais complicado a partir destas idades. Com as limitações no número de jogadores, os clubes não conseguem absorver, todos os anos, os maiores de 18. A rejeição atira muitos para outro tipo de complicações sociais, anteriormente impensáveis.

Só que isto não é apenas um problema das associações locais, antes pelo contrário. Aqui entra-se em outro assunto, na capacidade da autarquia de proporcionar uma vida saudável à maioria dos seus habitantes.

Tema para outra oportunidade.              

 

(a publicar no dia 26/04/12)

quarta-feira, abril 18, 2012

Crepúsculo

                Após a jornada laboral, enquanto aguardo pelos meus filhos, ocupados nas suas atividades extra escolares, concentro-me na leitura. Tenho investido umas horas em autores portugueses, alguns esquecidos e outros clássicos, que infelizmente jamais tinha lido. Livros de páginas amareladas pelo tempo, de edições com algumas décadas, que com gosto, vou reabrindo.

O prazer encontrado nesses fins de tarde prolonga-se para os dias de pausa. Entre sábados ou domingos, sento-me para o pôr-do-sol de livro na mão. Sempre que possível fico no exterior. Mesmo em dias com o anoitecer antes da hora de jantar. Se necessário, recorro a uma manta. Imitando os hábitos de repouso de Hans Castorp, quando passava as horas entre refeições, sentado na varanda do seu quarto.

Lembrei-me do personagem de Thomas Mann por esse e por outros dois motivos.

Nas tardes de semana, um dos locais por mim escolhidos para a leitura, tem uma pesada porta metálica envidraçada. Entro, instalo-me numa das mesas disponíveis, faço o meu pedido e concentro-me na leitura. Trazem-me o café ou o chá, conforme a solicitação e tudo fica tranquilo. Até que a porta bate com estrondo. Mais do que o susto, é o incómodo que me faz perder a linha de leitura. Aí, recordo as entradas no salão de jantar da bela rapariga que tanto agradou a Hans Castorp. Levanto os olhos, no sentido de apurar quem entra sem cuidado. Sendo o único por ali sentado, quem entra cumprimenta-me. Não percebo se para se desculpar, ou por mera simpatia. A cena repete-se por várias tardes, só que jamais volto a levantar os olhos, nem para reprovar o comportamento descuidado, nem para ser saudado.

Aproveitei a pausa da Páscoa para voltar à montanha. O tempo estava propício a uma caminhada. Frio, sem chuva. Conduzi para lá da Freita. Atravessei Cabreiros, Candal e subi à Coelheira. Já na serra de Arada. Uma nuvem encobria a paisagem. Visibilidade reduzida. Encostei o carro junto ao parque de campismo da Fraguinha. O termómetro marcava seis graus. Voltava para percorrer aquele trilho ao fim de doze anos. O tempo passa. Anteriormente, tinha feito aquele percurso com outras condições climatéricas. Uma primeira vez numa manhã quente de Setembro. Uma segunda vez, numa tarde repleta de neve em Abril e numa terceira e derradeira subida num ameno dia de Primavera, perdi-me.

Nunca usei meios de orientação, além de mapas. Antecipadamente observava o mapa com o percurso e memorizava o caminho. Quando se parte pela terceira vez para o mesmo percurso, mesmo sendo em três anos diferentes, não se espera nada de anormal, além das alterações climatéricas. Uma pequena intervenção humana no percurso, não me permitiu verificar que me desviava ligeiramente do trilho conhecido. Dei por mim junto a uma antena retransmissora de sinal de uma operadora de telemóvel, que jamais tinha visto por ali. Corta à esquerda, corta à direita e nada de pontos de referência. Perdido. Anos mais tarde, ao ler “A montanha mágica”, percebi perfeitamente o desespero de Hans Castorp ao ver-se envolvido pelo nevão, sem saber que rumo tomar para voltar ao hotel.

Na serra de Arada, acabei por retomar o trilho que pretendia, depois de estar completamente desnorteado. Voltei ao ponto de viragem. Percebi o que me tinha acontecido. Lá retomei o caminho. No regresso, memorizei o desvio para no futuro não me voltar a perder. Doze anos depois, tudo estava a correr bem, apesar do estado do trilho estar mais áspero. Uma ligeira aberta na nuvem que nos envolvia, permitia ver o cimo da encosta. A chegada ao planalto anunciava-se. Aí teria que ter cuidado para não cometer o erro anterior e enfiar-me num caminho errado. À distância visualizei um portão, formado por uma barra de ferro. Entendi-o como um indicador de impedimento de seguir em frente e obrigar a desviar pelo caminho pretendido. Assim o fiz. Os meus companheiros seguiram-me. Nenhum deles era nascido, da última vez que ali passei. Dei mais uns passos e encontrei uma estrada nova. Em redor, não se via nada. Tudo cinzento. Estávamos no meio da nuvem. Ouvia-se o movimento de um aerogerador, não se percebendo se estava à nossa direita ou à esquerda. A estrada era agora o caminho a seguir. Só que não sabia para onde, por isso, voltei para trás.

Ao descer, apercebi-me de como numa dúzia de anos, as pequenas intervenções humanas tinham alterado as rotas da natureza.

Como terá sido o regresso de Hans Castorp, depois de sete anos na montanha?

Nos meus crepúsculos, os livros não terminam na última página.        

 

(a publicar dia 19/04/12)

 

quarta-feira, março 28, 2012

O chapéu de Tom Waits

                Um português apresentava-se frequentemente na fronteira, transportando-se numa bicicleta e levando consigo um saco vazio. O guarda espanhol pedia para abrir o saco. Umas horas depois o português regressava. Tudo igual, só que o saco apresentava-se cheio. O mesmo guarda pretendendo encontrar algum contrabando, exigia a abertura do saco. O português abria o saco e exibia o seu conteúdo:

- Terra.

O ritual repetiu-se dia após dia, até à reforma do guarda fronteiriço. Mais tarde encontraram-se por acaso e o ex-guarda pretendeu satisfazer um pouco mais a sua curiosidade, perguntando ao português o porquê de trazer terra de Espanha. O português respondeu-lhe que a terra era um disfarce, ele dedicava-se ao contrabando de bicicletas.

A anedota é comum em várias fronteiras. A versão portuguesa, se a memória não me falha, apareceu num filme narrada por Tom Waits. Espero mesmo não estar enganado… Não tive oportunidade de verificar, consultando um dos muitos apreciadores do músico norte- americano.

Tom Waits é conhecido pelo seu timbre de voz. Em público, surge frequentemente com o cabelo tapado. Os mais atentos associam o músico ao seu chapéu. O acessório que completa a sua imagem. “Porkpie hat” é o modelo. Produzido por cá. Ou não? Independentemente da proveniência do seu, Tom Waits é o artista mais reconhecido, que usa habitualmente chapéu. Não é um personagem em hora e meia de filme, é uma vida com chapéu. Quase quarenta anos de carreira e outros tantos com o seu “pork-pie” empoeirado e com a aba dobrada para cima, em todo o perímetro.

A ambição de chamar a S. João da Madeira turistas que aterram no aeroporto Sá Carneiro precisa de programas ainda mais atrativos.

Concertos com músicos internacionais, do calibre do atrás citado, seriam uma forma rápida de esgotar a lotação da Casa das Artes e Criatividade e uma oportunidade para divulgar as várias atividades, projetos e melhorias que o concelho tem vindo a desenvolver.  

É necessário captar vários públicos.

Ter programação que vá além da fórmula - ensaiada no concelho num passado recente - da associação de estudantes, caraterizada pela repetição exaustiva de ações desencadeadas em outras localidades, sem critério de qualidade, sem traço de criatividade e na maioria das vezes sem utilidade pública. 

O chapéu, um dos elementos diferenciadores da tradição industrial do concelho, deve ser o mote para essa mudança.

                Não se pense que é mais do mesmo, o lado pitoresco do chapéu deve ser explorado ao máximo e por aí conseguir-se a internacionalização do nome da cidade. 

 

(a publicar no dia 29/03/12)

 

quarta-feira, março 14, 2012

Visitas

Faz as tuas visitas – recomendava o reitor à mais velha das suas pupilas.

Em Mosteirô, no final da tarde de segunda-feira, recordei o quotidiano descrito por Júlio Dinis, no século XIX. A vida simples da ruralidade e os seus princípios, que se conservaram na sociedade portuguesa durante vários anos, dominaram o decorrer da eucaristia a que assisti.

Acompanhei a viagem da minha última professora da escola primária, à sua derradeira morada.

A Dª. Carolina era um símbolo do Jardim do Sol. A recordação coletiva, dos muitos que ali estudaram. Por ela passavam os alunos na 4ª classe. A todos preparava com rigor, para os anos seguintes de ensino.

Não tenho um episódio, aquele episódio apropriado para estes momentos, para relatar. Lembro-me da sua opção em me trocar constantemente de colega de carteira. Não por mau comportamento, apenas por estratégia sua. Colocava ao meu lado os alunos que tinham mais dificuldades. Quando o rendimento do meu colega melhorava e assim estabilizava, eu passava a ter um novo colega de carteira. Com esta hábil medida, a Dª. Carolina condicionou a minha forma de estar, acutilando em mim atitudes solidárias e sobretudo, o espírito de interajuda, princípio basilar do trabalho em equipa.

A última vez que vi a D.ª Carolina na rua, fiquei retido por um político e não consegui alcançá-la. Só de pensar, mordo-me todo. Uma tentativa de influenciar o meu voto, não me permitiu falar com a minha professora. Quando finalmente me libertei do assédio, a senhora não estava no meu raio de visão.

Faz as tuas visitas – lembrava-me a minha mãe.

Durante uns anos ainda fiz. Depois afastei-me. Dos hábitos e mais tarde, das ruas da minha infância. As visitas por cá escasseiam. Encontros e apenas acidentais.

Fiquei-me pelas intenções.

Perdi oportunidades. A última esta semana.

Faz as tuas visitas – recomendava o reitor.

Desnecessário conselho.

Margarida não dava essa preocupação. Visitava os necessitados e enfermos, fazendo as suas obras de misericórdia sem ninguém lhe pedir.

A sua bondade foi premiada com um final feliz.

A epígrafe no entardecer de segunda-feira.

 

(a publicar no dia 15/03/2012)

segunda-feira, março 05, 2012

Ideias úteis

A Praça Luís Ribeiro tem sido tema recorrente dos colunistas da imprensa local. Sempre no mesmo tom. Saudosismo para uns e para outros, atribuição de erros.

Sucedem-se os escritos, permanecem os problemas.

Nos meus últimos textos publicados no labor incidi sobre a Praça. No da semana passada, evidenciei alguns erros da gestão municipal e no anterior demostrara o lado positivo do centro, utilizando para o efeito, o título de uma música dos B-52’s (Funplex), som que me recorda bons momentos vividos ali na Praça, no final da década de 80.

Lentamente, começa-se a apresentar a ideia que a praça só volta a ser o que era com mais obras. Solução incipiente que visa terminar com a zona pedonal, trazendo o trânsito automóvel e muito estacionamento para o centro e pouco mais.

Mais obras?

Mais transtorno para quem ali vive. Com pó no ar nos dias secos, lama nos dias de chuva, barulho e movimentação de máquinas. Mais os taipais, para afugentar de vez os clientes do comércio resistente.

Resultará?

Não creio.

A intervenção da autarquia na Praça, só se justifica para minimizar os erros do passado recente. No entanto, a edilidade deve exercer algumas ações.

O movimento centrífugo da cidade idealizado nos últimos anos, retirou à Praça a sua importância como zona habitacional, comercial e de serviços. Nem concertos são para ali programados.

O problema do centro consiste na redução do número de habitantes.

A recuperação de edifícios degradados não foi promovida – optou-se pela sua demolição - e a construção de novas habitações há muito que não é projetada, nem os tempos são para isso.      

A fixação de população jovem na cidade pode ser conseguida pela promoção de arrendamento com preços adequados a jovens. Casais ou não. Ao olhar para o edifício que domina o centro, ao olhar em redor para a quantidade de habitações devolutas, ao olhar para antigos escritórios vazios, apetece sugerir isso mesmo. Acrescente-se as dificuldades dos jovens em conseguir crédito bancário e pode-se seduzir os proprietários de todas essas potenciais habitações a alinharem num “povoamento” da zona central.

Outra forma de trazer pessoas à Praça, é transferir serviços que se destinem ao grande público. O atendimento aos clientes da empresa Águas de S. João devia estar no denominado “pirilau”. Nos tempos modernos os pagamentos são efetuados por débitos diretos, ou por pagamento por multibanco. Só que existe sempre aquela pessoa que se atrasa, que tem uma reclamação a fazer. Obrigá-la a ir à Praça, no horário de expediente, anima o centro e alegra os comerciantes.

Outros serviços municipais deslocarem-se para a Praça não fará sentido.

Existem delegações de Ministérios em espaços alugados e espalhados pela cidade. Conseguir a sua transferência para a Praça seria o ideal. Não haverá muitos espaços municipais para alberga-las, no entanto, se as novas rendas forem vantajosas para o erário público é um ganho ótimo, em tempo de crise e de austeridade.

Estas medidas serão úteis para o movimento durante a semana. Enquanto o Centro Artes Espetáculo e Criatividade (leia-se antigo Imperador) não abre ao público, os fins de semana na Praça terão que receber alguma iniciativa. Festival da juventude, por exemplo. Cidade no jardim. Leram bem. A iniciativa “Cidade no Jardim” é perfeitamente realizável na Praça e ruas adjacentes. Com palco instalado e tudo o resto. E criando-se de novo esta dinâmica à volta do centro, será possível noutros dias de descanso, realizar concertos de fim de tarde, de princípio de noite. Ao ar livre e com bom gosto, trazendo público para a Praça e de futuro para a sala de espetáculo.

Ideias úteis e gratuitas. Sem investimento municipal. Com baixo custo de execução e grande probabilidade de sucesso.

Ideias partilhadas para serem encontradas soluções para a Praça. Para o seu futuro não ser um tormento.

 

(a publicar dia 08/03/12)

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Oito por oito

                As opiniões recolhidas pelo labor, analisando os dez anos de mandato do atual presidente da Câmara Municipal, provam que em política a memória é curta.

Em geral, o balanço incidiu sobre os últimos cinco anos. Os factos mais focados, em especial os pontos negativos, ocorreram neste último mandato, ou nos três anos anteriores.

E na primeira metade? Além da capacidade de executar obras, sobretudo, herdadas do executivo anterior, foram lançadas algumas iniciativas que criaram empatia junto da população, tendo como resultado em eleições sucessivas, a maioria absoluta.

Perante estes dados, vasculhar o passado de pouco serve. A menos que a justificação, para alguns dos problemas atuais da cidade, tenham origem nessa época.

Para o estado a que chegou a Praça, analisa-se constantemente a última intervenção municipal. Obra de fachada, com péssima escolha de materiais, que apesar de permitir a circulação e criar estacionamento em algumas artérias, não impediu o encerramento de alguns estabelecimentos. A intervenção no pavimento foi mal executada, como provam as constantes obras de reparação. No entanto, não é a principal causa para os problemas sociais e económicos da Praça.

É necessário recuar alguns anos.

Em 2003, a Câmara Municipal anunciava um projeto revolucionário na área de tratamento a toxicodependentes. Mal apoiada, a edilidade iludia-se e acreditava ter encontrado uma solução para um vasto problema social. A pretensão transbordou para os ecrãs da televisão, convidando-se outros concelhos a copiar o modelo local. É sempre bom referir que o projeto Trilho da Santa Casa da Misericórdia, na época já em ação, foi ignorado e hostilizado, por seguir diretrizes contrárias, em concordância com o Ministério da Saúde.

Após nove anos, os toxicodependentes ainda resistem na Praça. Habituais todos os dias. São o exemplo do falhanço de uma péssima medida de política social e são apontados como um dos principais motivos para o degredo do centro.

Ainda nos primeiros mandatos e continuando na Praça, temos uma iniciativa não continuada. Refiro-me à animação de Natal. Com alguns exageros mas, com vasto programa entre o sagrado e o profano. Terminou o apoio. Precisamente nos anos em que era necessário dinamizar a área comercial, pela concorrência direta do shopping 8ª Avenida, os comerciantes foram abandonados. Em Dezembro, claro. E no resto do ano. Não existe nenhuma iniciativa para atrair pessoas ao centro.

Os erros do passado projetam-se no presente.

A Praça perdeu importância?

Momentaneamente, devemos dizer que sim, no entanto, as cidades vivem dos seus centros, da sua história.

Na era democrática, houve duas intervenções nas ruas do centro que modificaram a política de S. João da Madeira. O pavimento da rua Alão de Morais nos anos 80 e mais tarde, a oposição à intervenção na rua do Castilho podem ser apontados como ações decisivas, que conduziram a sucessivos mandatos de dezoito e agora de doze anos.

O apreço pela Praça é reconhecido pela população.

O futuro não está escrito e o da Praça pode começar agora.

 

(a publicar dia 01/03/12)

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Funplex

                Um quarto de século tem esta Praça. Sem semáforos, nem passadeiras, nem alcatrão. E sem trânsito, só ocasionais automóveis e pessoas a circular, em ruas calçadas à portuguesa. Lojas, cargas e descargas, clientes, mais os esquecidos moradores fizeram o seu dia-a-dia.

Local de encontros diurnos.

E noturnos.

No espaço pedonal, sem consumo obrigatório, ou nas inúmeras cadeiras envolvendo as mesas das esplanadas. Sessões de horário alargado, com música de fundo. Colunas debitando sons para o momento. Diversão democrática. Para todos, eles e elas. Conversas, gritinhos e gargalhadas sobrepondo-se a tudo. As ruas animadas em frente a bares. E dentro destes, o ambiente igual.

Tem sido assim durante estes últimos vinte e cinco anos. Provavelmente, a noite é o único elemento diferenciador para a Praça. A partir de certa hora, não tem concorrência dentro da cidade.

Estes hábitos de convívio, descontraídos e de procura de diversão, alteraram o modo de estar dos cidadãos.  

Um dado relacionado e curioso é apreciar a notoriedade na sociedade portuguesa dos habitantes locais. Reduzida há vinte e cinco anos, limitava-se à enumeração de dois ou três jogadores de futebol. Hoje, tudo é diferente. Apresentadoras de televisão, jornalistas, estilista e músicos surgem como os mais destacados. Profissões ligadas a áreas de entretenimento, lazer, cultura e criatividade, demonstrando opções diferentes perante o mercado de trabalho. Uma coincidência geracional, podendo-se enquadrar, sem muito esforço, como consequência na alteração de mentalidades desenvolvida na sociedade local no último quarto de século.

Esta mudança, na visibilidade dos nossos cidadãos, ganha contornos distintos, ao mencionarmos uma nadadora como a desportista no ativo com melhores resultados. Além de ser uma prova inequívoca da igualdade de género, já implícita nas menções por profissão do parágrafo anterior, significa uma melhoria técnica no desporto praticado na cidade, o que é outro dado curioso em termos de evolução social. 

Regressando à Praça.

Não se fez nada para incentivar a fixação de população nas ruas centrais. Hoje há menos moradores no centro. A equação fica reduzida a partir daqui. Regresse à última linha do primeiro parágrafo. Coloque menos antes de todas as palavras aí encontradas. Menos população, menos clientes. Menos comércio. Menos serviços. Tudo menos.

O que sobra, a marginalidade.

                Curiosamente mais visível durante o dia, enquanto a Praça está meia vazia, do que durante a noite.

 

(a publicar no dia 26/01/2012)

terça-feira, janeiro 17, 2012

Ascarigo

                A História baseia-se em documentos. Complementa-se com monumentos e achados arqueológicos. Sem isto, apenas existem deduções hipotéticas, ou “fantasias”, acrescentavam os historiadores antigos.

                A equipa de José Mattoso, auxiliado por Luís Krus e Amélia Andrade, tem estudado a época medieval, procurando evidenciar a existência de sociedade civil, além dos senhores feudais e da poderosa igreja católica. Neste sentido, o papel desempenhado pelos vários Monarcas, em especial, D. Afonso Henriques, no desenvolvimento de centros populacionais tem sido objeto de variadas interpretações, encontrando-se nos documentos da época justificativas para esta arrojada tese.

                Este trabalho científico de partir da observação, para apurar, ordenar e aproximar factos, procurando tirar daí um nexo explicativo e construir um relato coerente, tem sido colocado em livro. Em vários.

                Ao descrever a “Terra de Santa Maria entre os séculos XI e XIII”, José Mattoso serve-se da toponímia local para sustentar as suas ideias. Desta forma exemplifica a expansão demográfica, com a existência de artesãos agrupados em aldeias e surge assim a justificação de nomes, aqui apresentados ainda sem orago: Marinha, Oleiros e Madeira. Este último é o que interessa expandir.

                As palavras do historiador são: “Contudo, a exploração do bosque não se esgotava no fornecimento de pastagens e matos. A madeira era, sem dúvida, o principal produto que deles se extraía, chegando a referenciar toponimicamente uma das freguesias da Terra de Santa Maria, a de S. João da Madeira. Para além da lenha utilizada na produção de energia, construíam-se com ela as habitações e um sem número de utensílios domésticos e rurais, dos quais os inquéritos régios do século XIII enfatizam as cubas destinadas ao armazenamento do vinho nos lagares régios (…)”. Esta ideia contraria a proveniência toponímica devido à forte existência de mato ou bosque, antecipando em vários séculos a instalação de indústrias em S. João da Madeira. Estará mais perto dessa arcaica ideia, ventilada durante anos, S. Miguel do Mato freguesia do concelho de Arouca.

                A origem de S. João da Madeira é anterior à nacionalidade. Em 1088 aparece mencionada num documento, segundo Arlindo de Sousa em “Toponímia Arqueológica de Entre Douro e Vouga” de 1961.

Em mais documentos dos séculos seguintes, é mencionada esta freguesia de Terras de Santa Maria. Um dos quais, Inquirições de 1251, no reinado de D. Afonso III, refere a existência de uma ponte terrenha em Ascarigo, aqui em S. João da Madeira. Um lugar cujo nome se perdeu com o tempo. “Asks” refere José Mattoso, remetendo para um estudo etimológico, é um prefixo bélico – heroico de origem germânica, significando lança de freixo. Uma possível forma de evolução de Ascarigo, seria Escarigo e ainda existem duas freguesias em Portugal com esse nome. Uma delas igualmente habitada no século XIII.

Por cá, o nome do lugar pode ter evoluído para qualquer um dos atuais, ou ter-se abreviado. A sua origem remete-nos para o século V a VIII, só que não existe qualquer documento a comprová-lo e afirmar isto, é uma hipotética fantasia.    

 

(a publicar dia 19/01/2012)