segunda-feira, março 11, 2013

21.713 - 20.200 = ?

            Uma subtração simples de calcular, 1513 é o resultado.
            Vejamos a que correspondem as parcelas:
            21.713 - estão recordados - é o número de habitantes de S. João da Madeira, segundo o Censos 2011. Números oficiais, segundo publicação do Instituto Nacional de Estatística (INE) no final do ano passado.
            20.200 – corresponde ao número de eleitores do concelho de S. João da Madeira, segundo a Comissão Nacional de Eleições, precisamente nas eleições legislativas de 5 de Junho de 2011.
            A subtração apresentada em título passa a ter outro significado, se ao total da população tirarmos o número de eleitores, estamos a calcular o número de não eleitores, ou seja, os menores de 18 anos.
Os resultados definitivos do Censos 2011 indicam o seguinte:
Menores de 14 anos – 3.136 indivíduos;
Entre os 15 e os 24 anos – 2.514 indivíduos;
Entre os 25 e 64 anos – 12.498 indivíduos;
Maiores de 65 anos – 3.575 indivíduos;
Não são linearmente esclarecedores quanto à população menor de 18 anos.
Vamos proceder a pequenos cálculos.
Considerando a média da classe apresentada entre os 15 e os 24 anos, teremos 251 indivíduos por ano, o que poderá equivaler a 3*251= 753 indivíduos, entre os 15 e os 17 anos. Ou seja, somando com o primeiro valor apresentado, relativo aos menores de 14 anos, podíamos chegar a 3.889 menores de 18 anos, no ano de 2011, no concelho de S. João da Madeira.
Existe uma clara diferença entre os dados do INE e os da Comissão Nacional de Eleições, 3.889 para 1513 jovens.
A divulgação dos resultados definitivos do apuramento da população, ao contrário dos preliminares, não suscitou qualquer tipo de reação, por parte do poder político local, em especial, pelos responsáveis pelo recenseamento.
Perante isto, temos duas hipóteses, a primeira é que o número de eleitores em S. João da Madeira não pode ser o divulgado. Seguindo as contas do INE, só deveriam estar registados 17.824 eleitores. Esta constatação permitiria duvidar dos atos eleitorais, já que, 2376 eleitores seriam “fantasmas” nos cadernos eleitorais, inflacionando o número de mesas de voto por eleição e tendo como consequência uma abstenção prévia de 11%.
A segunda hipótese é aceitar o número de eleitores, pondo em causa a atualização dos cadernos eleitorais, já que os resultados do Censos 2011 são definitivos. Existe a consideração do recenseamento automático dos jovens que atingem 18 anos, que pode efetivamente alterar em muito o número dos eleitores.
Ainda assim, existe outro dado importante para este efeito: a mudança de residência, implicando a alteração de concelho, o que não significa imediatamente alteração do recenseamento eleitoral.
(Falo com experiência própria, pois mudei de residência em 2004 e só em 2011, por ter caducado o meu antigo Bilhete de Identidade, ao ser obrigado a compilar os dados no cartão de cidadão é que alterei o meu círculo de voto.)     
Segundo o INE, o saldo migratório de S. João da Madeira é negativo. Até 2006 os valores eram positivos. Nesse ano, a taxa de crescimento natural anual fixou-se em 0,23%. E o saldo migratório era positivo. Em 2010, os valores dos Indicadores Demográficos são preocupantes: a taxa de crescimento natural é de apenas 0,05% e o saldo migratório passou a ser negativo, ou seja, existe mais população a procurar outros concelhos, do que aqueles que mudam a sua residência para cá.
É de prever, com estes indicadores, que nos próximos atos eleitorais o número de eleitores vá-se aproximando da realidade do recenseamento populacional, no entanto, o mais confrangedor é verificar que, com este ritmo demográfico negativo, daqui a alguns anos, o número de habitantes da cidade regredirá, contrariando o crescimento verificado ao longo de todo o último século. 
 
(a publicar no dia 14/03/13)
 
 

quarta-feira, março 06, 2013

Independanças

            Março entrou no calendário sem pedir licença a fevereiro.
A brusca mudança de mês deixou uma série de assuntos por tratar. Por escrever, neste caso. Agravando-se pela excessiva ocupação na divulgação e preparação do debate sobre desporto. Com tanta insistência na temática, corri o risco de ser relegado para o meio dos resultados desportivos, ou situar-me lado a lado com os relatos dos jogos. Não desfazendo.
Volto a temas incertos.
Houve vários acontecimentos em fevereiro a pedirem reflexão.
Nomeadamente política.
Em primeiro lugar, a iniciativa de plataformas independentes, ao interporem providências cautelares para impedirem a candidatura ao 4º mandato dos autarcas Luís Filipe Menezes e Fernando Seabra. 
Como a legalidade destas candidaturas é duvidosa, o esclarecimento solicitado pelo 3º Juízo Cível do Tribunal da Comarca do Porto obriga a trabalho prévio dos partidos políticos, especialmente no sentido de garantirem que não estão a violar a lei. Confrontado com esta ambiguidade, a classe política autárquica não só pretende interpretar a lei ao seu jeito, ou caso haja ilegalidade, deseja-a alterar, conferindo legitimidade às candidaturas
A iniciativa destes movimentos independentes é um sinal de que a sociedade civil tornou-se intolerante para com os políticos portugueses. Não está a julgamento a capacidade de gestão do endividamento, ou pelo contrário, a resposta aos anseios da população, apenas se pretende prevenir o oportunismo na interpretação das preposições de leis e evitar que questões gramaticais ocupem o tempo dos portugueses.
As candidaturas mencionadas ficam a aguardar a resposta da Justiça, em tempo útil, ou seja, até meados de Agosto, do presente ano.
A consciência política dos novos movimentos de independentes, à semelhança do que se passa em alguns países europeus, obrigou os partidos políticos a encenarem uma abertura.
Nestas autárquicas, por sobrevivência, as estruturas concelhias promovem grupos de reflexão. Algumas procuram programa político, outras mais redutoras procuram preencher listas, outras mais ambiciosas tentam apresentar candidatos.
Existem nomes de figuras independentes a serem testados em sondagens políticas, patrocinadas pelos maiores partidos. Concretamente em S. João da Madeira. 
Enquanto isto, há figuras independentes a apresentar candidaturas, como Rui Moreira no Porto, conseguindo apoios suprapartidários e não só.
Tudo isto para umas eleições autárquicas, marcadas como sempre, pelos perfis dos candidatos.
Depois de Outubro, tudo será diferente.
A independência encontrará afinidades nos indignados, nos movimentos de contestação, ou mesmo nos Juízes e novos valores políticos serão erguidos.
O tempo é de mudança.
Tal como o mês de março, também as modificações sociais não vão pedir licença e um novo período entrará no calendário.
 
(a publicar dia 07/03/13)
 
 

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Terceira parte

 
                No debate sobre a atividade desportiva em S. João da Madeira, realizado no âmbito do Fórum Re:pensar a cidade, quatro ideias foram expressas pelo painel de convidados:
            - o papel do poder local no desenvolvimento desportivo do país, expressa por Vicente Moura, tendo em conta a construção de infraestruturas desportivas municipais e pelo apoio às coletividades desportivas;
            - a sustentabilidade das modalidades desportivas, sobretudo através das quotas pagas nos escalões de formação e pelos masters (atletas com mais de 25 anos), defendida por Pedro Sarmento;  
            - o pioneirismo de S. João da Madeira, evocado por Augusto Araújo - grande conhecedor da história desportiva da cidade - quando referiu o empreendedorismo da população local em matéria de equipamentos destinados à prática de desporto.
            - a felicidade manifestada por Ana Rodrigues, por ter participado nos Jogos Olímpicos de Londres, apesar das contrariedades vividas na preparação.
            Na apresentação do debate, expressei a minha ideia sobre a atividade desportiva. Defendi a existência de cinco fases no desporto: a captação, o ensino, as competições, o alto-rendimento e uma última, equivalente à manutenção da boa condição física, em idades posteriores à do período de competição.
As três primeiras fases correspondem respetivamente ao primeiro contacto com a modalidade, à noção generalizada do desporto a praticar e ao desenvolvimento de competências físicas dos atletas, através do treino e dos jogos. No topo destas fases temos a alta competição, correspondendo à participação em campeonatos absolutos, ou às equipas seniores participando nos nacionais em divisões superiores.
A quarta fase envolve o alto rendimento desportivo, caraterizado pela chamada à seleção nacional ou pela integração no programa olímpico, mediante obtenção de marcas pessoais correspondente à exigência fixada.
No último nível, temos os praticantes de atividade física, que não pretendem competir em alto nível, pretendendo apenas manter a boa forma física, procurando exercitar-se em termos individuais, ou em equipa, utilizando os espaços disponíveis da cidade.
Com este enquadramento e atendendo aos sensatos conselhos do painel como, a coordenação entre o desporto escolar e o associativo e por outro lado, o evitar megalomanias na construção de equipamentos desportivos (é sempre bom ouvir), devemos perguntar como deve ser feita a gestão desportiva municipal?
Envolvendo os técnicos das associações e professores de educação física das escolas, poderá desenvolver-se um plano integrado de desenvolvimento desportivo, lançando-se a captação e ensino de várias modalidades. Seguindo os ensinamentos do professor Pedro Sarmento, estas modalidades podem ser auto sustentáveis, pagando toda a competição.
Se assim for, uma sustentação conseguida a médio prazo, o papel da autarquia deve canalizar-se para outros campos. Se seguirmos os conselhos dos convidados e fugirmos da construção desenfreada, poderá ser lançado em alternativa um programa ambicioso melhoria da qualidade desportiva dos atletas da cidade. No limite este programa poderá dar apoio a atletas com potencial olímpico, continuando-se na senda do pioneirismo desportivo, defendido por Augusto Araújo.
Uma ideia que poderá mudar o paradigma do desporto nacional: a envolvência das autarquias nos programas olímpicos. O que a fazer fé nas palavras iniciais de Vicente Moura, só assim será garantido novo desenvolvimento desportivo do país.
Ao ouvir Ana Rodrigues a expressar o seu contentamento por toda a sua carreira, percebi que não estava errado ao propor ambicioso título para o debate, da passada sexta-feira. O sucesso desportivo não vive apenas de medalhas olímpicas. O esforço e o sacrifício de Ana foram compensados pela felicidade de estar presente nos Jogos Olímpicos.
É importante que sejam criadas melhores oportunidades para as gerações vindouras.
A população de S. João da Madeira carateriza-se pela ambição, sobretudo, a que se dedica ao desporto. 
         
(a publicar no dia 21/02/13)

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Promotores de vida saudável

            Ao preparar o debate sobre a atividade desportiva de S. João da Madeira, para o Fórum Re:pensar a cidade, recolhi alguns dados dos clubes da cidade.
            À informação do dinamismo desportivo e associativo, juntei os elementos históricos. Elaborei uma escala de tempo e agrupei os clubes pela data de fundação. Escolhi como limites para os intervalos do tempo: a emancipação concelhia – 1926; a revolução democrática – 1974; a mudança de século / milénio – 2000. Os resultados apresento-os no gráfico seguinte:
 
 
            Analisei apenas os clubes ativos na atualidade. Algumas associações foram-se perdendo ao longo destes anos e portanto, não estão contabilizadas.
            Os conhecedores do desporto da cidade, identificam o clube da coluna da esquerda do gráfico – Associação Desportiva Sanjoanense, fundada em 1924. Na segunda coluna acrescentam-se outros dois: o Clube Campismo e o Dínamo Sanjoanense, fundados respetivamente em 1953 e 1957.
A vida democrática a partir de 1974 trouxe uma maior dinâmica associativa à cidade, assim em 1976 o Turbo Clube é constituído e em 1977 formam-se os Kágados. Na década de 80, apareceram pela seguinte ordem: Real Sociedade da Praça, Centro Cultura e Desporto (CCD), CCD Fundo de Vila, Associação Desportiva e Recreativa “Amigos do Vicente” e Associação Estamos Juntos. Já na década de 90 do século anterior, surgiu a Arma – Associação Sanjoanense de Artes Marciais – e Shaolin Si. Finalizando-se este período com 12 coletividades.
            A tendência de formar clubes dedicados a uma só modalidade, continuou com a mudança do milénio. A Associação de Pais da Escola Dr. Serafim Leite, os Serviços Sociais do Pessoal do Município de S. João da Madeira, ambas dedicadas ao atletismo, são um bom exemplo. Nos anos seguintes, a vontade da população em participar ativamente no desporto verificou-se com a fundação de clubes como: a Associação É bom viver, o Clube de Bilhar, a Aproj – Associação de Promoção da Juventude, a Petertumble Motorsport, a SJM – Sub e por fim, a Poolfiction.
            Durante anos os clubes completavam-se, raramente havia modalidades idênticas em clubes diferentes. Hoje isso já não acontece. Temos algumas modalidades a serem praticadas por mais do que um clube, havendo mesmo uma feroz concorrência entre eles. Bilhar, Futsal, Futebol são desportos com jogos entre equipas locais. Todo-o-terreno com uma lógica própria e atletismo completam a lista de modalidades com mais do que um clube.
O fenómeno do atletismo, com quatro clubes dedicados, projeta a cidade como o maior centro da modalidade no distrito de Aveiro. Sendo necessário referir a pouca especialização dos atletas, a maioria essencialmente de estrada, o que a torna no desporto mais praticado em S. João da Madeira.
O número total de atletas em S. João da Madeira ascende a 2285, das mais variadas modalidades, que não vou aqui enumerar. Deste número, 23% são mulheres, ou seja, cerca de 552, provando que a igualdade de género é uma oportunidade do desporto, embora haja ainda muito caminho a percorrer, sobretudo, em modalidades como o futebol ou o futsal, em que nenhuma rapariga as pratica como atletas de desporto federado.
O indicador do número de jovens atletas envolvidos nas coletividades da cidade, é extremamente significativo sobre a mudança de paradigma ocorrido na gestão desportiva da cidade nas últimas décadas. 1500 jovens, equivalente a dois terços do total de atletas, são o exemplo da dedicação das nossas coletividades à promoção da vida saudável da sua juventude. Por detrás deste magnífico número estão dirigentes, seccionistas e técnicos que tudo fazem para assegurar o bom funcionamento de treinos e de jogos destes jovens, durante toda a época desportiva. Não esquecendo que muitos deles o fazem de forma voluntariosa, muitas vezes, com prejuízo da sua vida profissional.
As assistências nos jogos em casa dos escalões de formação, na totalidade das suas equipas, são amplamente superiores aos jogos das equipas de seniores, em qualquer modalidade. Tive a oportunidade de o confirmar ao espreitar o jogo de basquetebol dos sub 16 masculinos, do último fim-de-semana, entre a ADS e a Ovarense.   
A cidade reconhece-se nos seus jovens. Envolve-se em torno deles e isso é importante para erigir o espírito comunitário e fortalecer a sua identidade.
Este será um dos temas do debate do dia 15 de Fevereiro, a Atividade Desportiva da Escola aos Jogos Olímpicos, que irá realizar-se nos Paços da Cultura, pelas 21h30m.
 
(a publicar no dia 14/02/2013)
              
 

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Tubarões Azuis

         Sábado passado, tirei a tarde para visualizar o jogo de futebol entre Cabo Verde e Gana, via Eurosport. Às 15 horas, estava em frente ao televisor. Por este canal, futebol, só sigo a Taça das Nações Africanas.
Era a minha oportunidade para ver um jogo da seleção surpresa deste campeonato, que tanto aprecio. Nessa manhã, li o relato de Angola e dos festejos dos 50.000 caboverdianos radicados em Luanda, após o jogo que ditou a derrota e consequente afastamento do país acolhedor destes emigrantes.  
Na minha história de telespetador, o sábado à tarde foi muitas vezes consagrado a seguir jogos de râguebi, devidamente comentados pelo eclético Cordeiro do Vale, que tudo fazia para explicar as regras do jogo. A sua voz acompanhava outras modalidades e jamais percebi qual era a sua verdadeira especialidade. 
No Eurosport, habituei-me aos comentários de Olivier Bonamici, entendendo-o como um seguidor do futebol africano e conhecedor dos jogadores das mais variadas seleções, sobretudo, as de expressão francesa. O seu sotaque está adequado aos mais variados jogos dos países francófonos, por isso, ao ouvi-lo a comentar o jogo de Cabo Verde, estranhei-o.
A primeira parte foi lenta, tão lenta que parecia jogar-se ao ritmo de uma morna. Sentado no sofá, foi tempo de tirar uma sesta.
Uma folguinha.
A desejada atividade de fim-de-semana.
Acordei no início da segunda parte, com o resultado ainda a zero. Ainda estremunhado, ouvi o comentador, atrás mencionado, a falar num país representante da lusofonia.
O conceito tinha sido posto em causa, nas páginas do jornal público por António Pinto Ribeiro, no dia 18 de Janeiro em artigo intitulado “Para acabar de vez com a lusofonia”, fundamentando a sua teoria, pelo número de habitantes dos países africanos que falam português.
O golo do Gana, um penalti ao jeito dos mafiosos jogos europeus, tornou o jogo vivo. Os jogadores de Cabo Verde empolgavam, procurando chegar ao golo do empate. Em matéria de ritmo, a morna tinha sido destronada por um funaná, ou até uma coladeira. Lembrei-me das músicas de Os Tubarões, da voz de Ildo Lobo, que tive a oportunidade de ver a cantar o tema Sodade no cineteatro de Mindelo, na ilha de S. Vicente.
A certa altura, o comentador lusófono fala do mundo crioulo. Na oportunidade de afirmação do mundo crioulo em matéria de desporto. Podendo este campeonato fixar mais jogadores, naturais daquele país, na seleção de Cabo Verde. No mesmo jogo, misturam-se conceitos. No último lance, os mesmos comentadores incentivam o convidado cabo-verdiano a traduzir para crioulo a expressão “vamos ter fé”.
Livre marcado, bola desviada para canto, por um super Abdul Fatawu Dauda, o herói da tarde. Todos na área. Canto mal marcado e após uma longa corrida, o Gana faz o segundo golo.
No final do jogo, Olivier Bonamici fez uma apreciação correta, falando da falta de eficácia dos atacantes de Cabo Verde. O outro comentador e o convidado falaram da vitória moral e do erro de arbitragem como justificativo para a derrota. Argumento que se estendeu a vários jornais dos mais diversos países africanos de expressão oficial portuguesa.
Afinal, a lusofonia existe. Não apenas nas afinidades linguísticas e culturais mas, também na reação coletiva à derrota… desportiva.
 
(a publicar no dia 7/02/13)
 

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Mobilidade

            E os pilaretes? – perguntava-me um amigo. Devias escrever sobre os pilaretes – aconselhava-me.
            Naquela semana, era o terceiro a encomendar-me textos sobre a cidade, os seus problemas e preocupações da população. Consequências da minha maior exposição.
Eu tinha anteriormente criticado a intervenção na praça, aleguei isso mesmo. No entanto, procurei averiguar o que o afligia. A questão prendia-se com a demora na colocação dos pilaretes. A observação da execução da obra permitia duvidar da capacidade técnica da empresa contratada. Os custos poderiam ser ultrapassados e o erário público seria prejudicado.
E os pilaretes?
Rebati os argumentos, defendendo o rigor no controlo de custos das empreitadas contratadas pela Câmara Municipal de S. João da Madeira. O argumento surpreendeu o meu amigo.
(se calhar não foi o único)
Prontamente, a conversa derivou para o excesso da carga fiscal, para o aumento previsto para o ano seguinte e claro, para os devaneios de políticos e voltamos ao descontrolo dos custos de execução.
Os pilaretes ficaram de fora.
Nessa semana, a notícia da cidade era o atraso no pagamento aos professores na Academia de Música. A melhor previsão era o dinheiro ficar disponível para Janeiro de 2013.
As obras nas ruas adjacentes da Praça, entretanto, ficaram concluídas.
O orçamento de Estado, o consequente aumento na carga fiscal começam agora a pesar no vencimento dos portugueses.
Nenhuma solução patrocinada pela Câmara Municipal, para pagamento aos professores da Academia, foi ventilada para o exterior. Nem empréstimo, nem aval de empréstimo sobre o valor em causa, até as verbas do POPH ficarem disponíveis, nada foi transmitido à população. Janeiro termina hoje. As dificuldades da Academia continuam a ser notícia. Outras instituições recebem tratamento diferente: Sanjotec foi notícia por questão semelhante; para alguns clubes criam-se soluções na tesouraria municipal para fazer face às suas necessidades, como pagamento por duodécimos, entre outras antecipações.  
E os pilaretes?
(em mandarim pilaretes escrevem-se: 缆桩)
Circula-se de automóvel pela rua do visconde e segue-se sem constrangimentos para a rua do dourado. Os pilaretes e os blocos de granito ladeiam o percurso, impedindo os pneus de calcar a relva, ou invadir a madeira. O estacionamento é feito em nichos. Alguns carros ficam na zona mais larga, no lado da Praça, encostados aos granitos. Na rua do dourado há pilaretes dos dois lados. No final, um buraco no piso faz estremecer o automóvel.
Sigo para casa para continuar a aventura literária de Joyce.
Os pilaretes são responsáveis pela mobilidade reduzida em espaço urbano, diz Graça Fonseca, no meio do temporal do Orçamento Participativo. A perspetiva de quem trabalha com a ACAPO como parceiro. Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal – ACAPO. O conceito de mobilidade pedonal muda a posição perante os pilaretes. O alerta da vereadora da Câmara Municipal de Lisboa obriga-me a percorrer a rua do visconde de novo. Tenho que verificar se a passagem da Praça para a rua do dourado está acessível. Ou será que os carros estacionados tapam a passagem aos peões? E às pessoas com mobilidade reduzida?
A qualidade de vida numa cidade mede-se pela mobilidade. Em espaço urbano, a eliminação de barreiras arquitetónicas deve ser acompanhada pela dotação de condições de circulação, isentas de constrangimento.    
Afinal, os pilaretes tinham assunto. Não o conceito estético, nem o financeiro, apenas o da mobilidade e o incómodo criado na zona pedonal.
Ainda me falta escrever sobre um desafio lançado por outro amigo.
 
(a publicar no dia 31/01/13)
 

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Plano B

            Uma sondagem telefónica, com a pergunta “que obra gostaria de ver construída em S. João da Madeira?”, foi a novidade da última semana.
            Um dos meus familiares recebeu um dos telefonemas e não fixou qual a empresa associada à sondagem. Sem esta informação, não é possível apurar quem pretende saber, por este meio, como agradar à população local, aos munícipes, ou se quisermos, aos eleitores.
            As extremas condições climatéricas dos últimos dias, as fortes chuvas, as constantes rajadas de vento, tendo como consequência estragos e mais estragos, associadas com faltas de electricidade, podem ter retirado o impacto da sondagem junto da população.
            Não sei que resultados serão conseguidos.
            Muito menos, caso me fizessem essa consulta, teria resposta imediata.
            Preocupa-me mais as obras previstas e sem financiamento garantido, do que hipotéticas obras.
            Se a pergunta fosse “que obra gostaria de não ver construída… ?”, eu tinha a resposta na ponta da língua. Ou utilizando uma linguagem mais positiva e assertiva, reformulando a questão ficaria “qual dos projectos previstos para S. João da Madeira abdicaria de construir?”. Abdicaria… desistia, para ser mais facilmente entendível a pergunta e não parecer uma das questões dos referendos do tempo de António Guterres.
              A minha resposta é simples: a piscina de 50 metros - caso se verifique não ficar garantido o financiamento no actual quadro de apoios comunitários, ressalvo.
            É certo que o concurso está feito, o projecto escolhido, o prémio ao autor atribuído. Só falta o mais difícil garantir o financiamento.
Para 2013 a Câmara Municipal prevê uma verba de 750.000 euros, do seu orçamento. Acontece que o projecto está estimado em cinco milhões. Caso se dilua esta construção pela disponibilidade financeira anual da edilidade local, são necessários praticamente sete anos para concluir a construção da piscina.
Ora, segundo o edil seria mais caro reparar e criar boas condições de utilização na piscina actual, do que construir uma nova. Sendo assim, daqui a sete anos, 2020, a piscina municipal de 25 metros estará obsoleta e impraticável, sem possibilidade de os munícipes poderem praticar natação na cidade.
É evidente que olhando para a verba disponível para este ano no OE municipal, pode-se pensar noutra solução mais low-cost.
O plano B.
Apropriado aos dias de hoje, de projectos mais realistas e de baixo custo de execução.
No seio da autarquia, o gabinete de arquitectura poderá perfeitamente conceber uma piscina de 25 metros, encaixando-a junto à actual. Os balneários seriam os mesmos do complexo desportivo. Esta nova construção seria simples, sem estacionamento em piso inferior e obrigatoriamente sem bancadas de apoio, apenas 2 degraus para as pessoas que pretendem assistir às aulas. Poderia pensar-se num tanque de aprendizagem complementar e tudo isto enquadrado perfeitamente na estrutura actual, sem grandes variações de arquitectura.
Esta quase triplicação dos planos de água permitiria responder às necessidades dos habitantes locais e das freguesias vizinhas. Um complexo idêntico ao que existe em cidades como Viseu, segundo relatos transmitido, porque infelizmente não conheço tais piscinas.
Apenas faltaria a resposta à equipa de competição da Associação Estamos Juntos, que necessita, para ser competitiva, de treinar frequentemente em piscina de 50 metros. Para isso, seria importante pensar em cobrir sazonalmente a piscina exterior. Utilizando-se coberturas amovíveis, ou mangas apropriadas, para garantir a actividade da piscina durante 12 meses e não apenas em três, caso o tempo estie. Previamente deve-se eliminar o atentando ecológico de perda de água da referida piscina. Tratar em seguida de garantir o aquecimento moderado do espaço e então, após a aquisição de uma cobertura moderna, ficar com um complexo aquático adequado preparado para os próximos vinte e cinco anos, na óptica do comum utilizador.
Soluções baratas e concretizáveis. Faltando apenas resolver o problema do desumidificador da actual piscina, o que não deve ser difícil.
Remato, reafirmando que com estas soluções, existe a possibilidade de se continuarem a organizar provas de natação em S. João da Madeira, que atraem forasteiros de todo o país, contribuindo para a divulgação e promoção da cidade, o que não acontecerá caso se concretize o financiamento à nova piscina.
 
 
(a publicar no dia 24/01/13)
 
Nota: infelizmente recuei ao antigo acordo ortográfico, se tiver  oportunidade corrijo isto.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

O sopro de Dylan

            A sintonia analógica era difícil. As ondas hertzianas não eram bem captadas e algumas estações de rádio teimavam em serem ouvidas com ruído de fundo. Ainda assim, dada a preferência, uma questão de afirmação juvenil, ouvia-se as emissões com alguma dose de religiosidade. 
            Por essa época, havia um ou outro programa que teimava em repor músicas de décadas anteriores. Em horas específicas e longe da música dos tops, rolava o som de “Like a Rolling Stone”, pela voz de Bob Dylan. A música foi gravada em 1965 e praticamente duas décadas depois, eu ouvia-a com grande entusiasmo. Havia algo naquela voz que mexia comigo. O refrão era cantarolado, a letra não era entendida.
O mesmo aconteceu várias vezes, até eu ter uma perceção musical diferente e uma sensibilidade maior para as palavras das canções. “Take walk on the wild side” de Lou Reed, enquadrava-se no género e acompanhou-me sempre ao longo destas quase três décadas.
Apesar da melhoria na sintonização dos rádios digitais e da possibilidade de memorizar as estações de rádios, acompanhada pela evolução tecnológica nos suportes e leitores de música, prefiro continuar ouvir vozes de registo diferente. Leonard Cohen e Tom Waits, já por aqui expliquei, são inigualáveis. 
Nos últimos anos, as minhas surpresas musicais surgiram por meios diferentes, Manu Chao na televisão, Robyn Hitchcock no cinema, entrando de perfil num filme de Jonhatan Demme - nos jardins do casamento de Rachel - e Andrew Bird, no genérico de um filme, cujo nome não me ocorre.
Vozes diferentes, outras melodias.
O inesperado momento em que não se esperava nada de novo, até que o som duma música, captando a atenção, desperta novas sensações.
No carro, ao ouvir um célebre disco de Dave Brubeck, descobri o magnífico “Take Five”. Rolei-o vezes sem conta, em férias, nas viagens da praia para casa e de retorno. Decompondo a música, ouvindo o tema do saxofone, o ritmo do piano, o solo de bateria, tendo sempre a linha de baixo no centro de atenção. Insistentemente, transmitindo aos meus filhos o brilhantismo musical do pianista e compositor jazzístico norte-americano. Reconhecimento surgido apenas ao visionarem um episódio da série Simpsons, em que Liza no seu clube de jazz, tocando o seu saxofone, executa precisamente o virtuoso momento de “Take Five”.
Pelo youtube, o meu principal meio de audição de música, cheguei a “god’s gonna cut you down” interpretado por Johnny Cash, que me deixou atónito. Um registo fabuloso. Uma surpresa que partilho com amigos, deixando-os em igual estado ao escutarem o imprevisto som, longe do estereótipo da música “country” onde o tínhamos encaixado.
Nas viagens de carro entre a casa e o trabalho, o rádio vai ligado para ouvir as notícias do dia, as últimas do futebol, as brincadeiras do Bruno Nogueira e do João Quadros, com sonoplastia de outro fulano, cujo nome, apesar de repetido diariamente, não me ocorre. Na hora de almoço, nessa estação, das iniciais da telefonia sem fios, passam músicas selecionadas por personalidades públicas. Músicas antigas, ou de artistas consagradas, do género dos atrás por mim mencionados. Há dias, numa hora em que deviam estar a ser lidas as notícias, o meu ouvido captou uma melodia curiosa. A voz não me era estranha, embora não estivesse a reconhecer de quem era. Fiz um esforço de memória e parecia-me a de um consagrado músico negro, tipo Louis Amstrong. Com um registo menos grave e com uma guitarra a sobressair. Esperei pelo fim e o locutor anunciou nem mais, nem menos, do que Bob Dylan. Fiquei surpreendido, acreditei tratar-se de uma qualquer música antiga. Descobri que não. Era do seu último álbum. Trata-se da música Dusquene Whistle, cujo vídeo – entretanto encontrei-o sem dificuldade – pela violência apresentada, parece inspirado nos filmes de Tarantino.  
Aos 50 anos de carreira, Dylan aproveitou bem o apito do comboio de Dusquene. Demonstrou estar com fôlego para ainda se ouvir o seu sopro. A mim surpreendeu-me pela acidentalidade e voltei a ter prazer em ouvir uma canção.
 
(a publicar no dia 17/01/13)
 

quarta-feira, janeiro 09, 2013

A Tábua de Flandres

 
            Fechei o livro. Li a última página, antes de iniciar a escrita destas linhas.
Durante anos fugi deste livro, de Arturo Pérez-Reverte. No entanto, adoro a sua escrita. Possuo outros títulos seus na minha pequena biblioteca: O Hussardo, Um dia de cólera, O Pintor de Batalhas. Devorei a capacidade do autor em recriar factos históricos, em nos agarrar à narrativa, derramando litros de sangue para fazer avançar o enredo literário.
A Tábua de Flandres escapava há vinte anos.
Ao regressar à atividade associativa via xadrez distrital, senti um desejo de voltar a mexer nas peças do nobre jogo. Deixei o jogo como desportista federado há quinze anos. Uma ou outra partida no computador, mais umas aventuras nuns sites internacionais e a última ação, foi como participante numa simultânea, promovida na Figueira da Foz, tendo como oponente uma jovem promessa Russa, que me dizimou ao fim de 35 lances. Depois disso, jamais me aventurei, com exceção das partidas domésticas, mais didáticas e pedagógicas, com os meus filhos.
A minha inatividade, não passou despercebida na última Assembleia Geral da Associação de Xadrez de Aveiro. De todos os diretores e delegados credenciados, eu era o único não jogador. Apenas dirigente.
Por causa das funções que por ali exerço, tenho-me entretido com a leitura da lei de bases da atividade física e do desporto – lei n.º 5/2007. As suas implicações no regime jurídico das federações desportivas. Derivando daqui para a consulta dos novos estatutos de algumas Federações Desportivas, conscientes que essa revisão era imperiosa para manter o estatuto de instituição de utilidade pública. Para rematar este processo, tenho estudado a revisão estatutária de várias associações distritais, de desportos tão díspares como futebol ou natação. Por outro lado, tenho verificado a organização territorial em vários desportos, verificando que nalguns casos a divisão distrital perdeu o sentido e sem problemas, passaram a existir associações regionais.
Tudo isto é enfadonho.
Preferia voltar a empurrar as peças de madeira pelo tabuleiro. Ou as de plástico, mais usuais nos clubes.
Antes de ceder a essa tentação, tive um acerto literário com o meu passado.
Requisitei o já mencionado livro. Interessei-me pelo restauro do quadro do século XV “A partida de Xadrez”, no qual estão representados um cavaleiro e o seu senhor medieval, a disputar precisamente um animado jogo de xadrez. Inquietei-me com o enigma escondido na tela: Quem matou o cavaleiro? O descobrir do mistério, através da recomposição secular dos últimos lances da partida, fascinou-me. E quando a trama já parecia resolvida, no presente surgem assassinos dos amigos da restauradora, pretendendo o autor dos crimes continuar a partida de xadrez pintada no século quinhentista, o que me levou a estudar a posição das peças, a sugerir lances, envolvendo-me duplamente na intriga do livro.
Por aquelas páginas, revi momentos vividos enquanto jogador. O falso silêncio dos clubes, quebrado por breves murmúrios, o jogo de olhares entre oponentes perante a situação no tabuleiro, o descobrir as fragilidades do adversário, tudo muito bem relatado. Depois o enfrentar do desaire, a estratégia mal concebida, a tática falhada, os nervos não dominados são descritos de forma exemplar.
O autor retrata extremamente bem o jogador de xadrez. A sua excentricidade. Nalguns casos, o mundo isolado em que vive, a sua abertura e as relações sociais apenas para o jogo. Enquanto lia, revia caras, concebia uma imagem do personagem com base na centena de jogadores de xadrez que conheci. Os pormenores físicos descritos para mim eram recordações. Os olhares ausentes, os trejeitos corporais, entre outros. Do retrato psicológico do excêntrico jogador de xadrez desenvolvido ao longo do livro, abstenho-me de comentar pela sua complexidade.
Ao fechar o livro, compreendi que não estava errado quando abandonei a prática da modalidade.
O meu caminho não era aquele.
O acerto não foi só literário.
 
(a publicar no dia 10/01/2013)
 

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Ano Velho

            De 2012 ficaram alguns assuntos por tratar. A quadra natalícia faz-nos perder oportunidades. Não se proporcionam explanações alongadas sobre qualquer tema, seja de cariz aborrecido, sério, próprio, nem muito menos leviano.

            O jornal labor apresentou num dos seus suplementos, uma compilação de valores dos montantes despendidos entre 2003 e o último ano, nas celebrações municipais de Natal.

Não passou despercebido.

A diferença entre o valor mais elevado, correspondente a 2007 e o valor de 2012, precisamente o menor, é superior a mais de cem mil euros. A justificação oficial para esta diferença é a redução de receitas municipais. Tal facto não sofre qualquer contestação. A população aceita. Com saudosismo evoca o passado, as iluminações faustosas, os presépios, a animação festiva na Praça.

Olhando para trás, não se percebe a estratégia da autarquia. Criou uma animação sazonal, divulgou-a exaustivamente, promovendo indiretamente os comerciantes estabelecidos na zona central. A partir do momento em que surge um centro comercial, nada mais se fez para consolidar e perpetuar no tempo esse apoio. Para chegar-se ao estado atual, não era necessário gastar tanto dinheiro, ano após ano, em eventos pontuais e sem sequência. Sem grande rigor e com base nas contas feitas pelo labor, contabiliza-se pelo menos meio milhão (500.000) de euros de desperdício nas celebrações de Natal, ao longo destes nove anos, considerando-se aceitável o realizado no presente.

É evidente que este exercício, baseado no estado atual da animação da cidade, permite listar outros desperdícios de verbas municipais. As inexplicáveis quatro edições da Volta a Portugal em bicicleta, com etapas a finalizar em S. João da Madeira - com o preço anual a fixar-se no valor próximo dos setenta e cinco mil euros - tiveram um custo total, entre 2004 e 2008, equivalente a trezentos mil (300.000) euros, desembolsados pela autarquia. Em matéria de eventos desportivos desenraizados, pode-se acrescentar uma etapa da Taça de Mundo de Ginástica Artística realizada em 2010, de pouca memória para a cidade, cujo montante despendido desconheço.

Continuando o exercício, sabendo-se que a entrada para o Centro Coordenador de Transportes (CCT) pela Rua 5 de Outubro está fechada, é natural que se questione o porquê da execução da obra no passado? Acrescente-se a remodelação da cobertura deste equipamento, a preços exorbitantes; mais um estudo encomendado para transformar o referido CCT numa plataforma bi-modal; mais o estudo que pretendia acrescentar um transporte tipo vai-vém na linha do vouga (abandonado por falta de viabilidade financeira) e chegamos a um valor altíssimo. Tudo junto deve chegar ao milhão de euros, valor mencionado frequentemente por um dos cronistas habituais do jornal “O Regional”.

É natural acrescentar-se outras duas obras de remodelação de edifícios municipais, executadas sem qualquer previsão de futura ocupação: o palacete dos Condes e a Quinta do Rei da Farinha. Para o primeiro foram aplicados setecentos e cinquenta mil euros (750.000), ao abrigo do protocolo de investimento do parceiro privado do negócio da água municipal. A remodelação do segundo ficou mais barata. Em ambos os casos, louva-se a intervenção, o que se condena é a falta de ideias para os equipamentos. Não se sabendo qual será a sua utilidade futura e se quando voltarem a ter inquilino, não será necessário novas obras de adaptação, com novos encargos para a autarquia?

Animação inconsequente, eventos desapegados, portas encerradas, edifícios fechados e sem inquilinos, tudo exemplos de uma cidade a funcionar em dias de crise. No passado recente com uma dívida municipal superior, houve dinheiro para tudo. A fazer fé nos dados atrás mencionados, retirados da imprensa local, pelo menos dois milhões e quinhentos mil (2.500.000) euros não tiveram um efeito apreciado na cidade. O esmiuçar efetuado, pode ter o acréscimo de outras rubricas.

Hoje a aplicação de verbas públicas é condicionada a um maior rigor. Está certo.

Se tivesse sido sempre assim, as contas municipais seriam outras.

Com isto, despeço-me do ano velho, transmitindo um ponto de vista ao leitor, que lhe permitirá ajuizar melhor a causa pública e ser árbitro no conflito político que uma das estruturas partidárias locais inventou.  

 

(a publicar no dia 04/01/2012)

 

 

quinta-feira, dezembro 27, 2012

O fim em 2012

        

         O desporto mereceu em 2012 o maior dos destaques. No balanço do ano, assinalo a importante presença de Ana Rodrigues nos Jogos Olímpicos de Londres, como o acontecimento de maior relevo de 2012.

            O percurso desportivo de Ana Rodrigues é sobejamente conhecido. Captada na escola Municipal de Natação, ensinada e fidelizada à modalidade na Associação Estamos Juntos, cedo viu o seu talento ser reconhecido, ao vencer campeonatos regionais e nacionais. Atempadamente integrou o desporto de alto-rendimento, com chamadas à seleção nacional e passou a ser esperança para os Jogos de Londres. Pelo meio, participou e conquistou uma medalha de bronze nos 50 metros bruços, nas primeiras Olimpíadas da Juventude, disputadas em Singapura.

            Em 2012, foi exigido a Ana a obtenção dos tempos mínimos para estar presente em Londres. Em Março, no nosso Nacional Absoluto, esse tempo foi conseguido, embora essa marca só fosse homologada, como tempo de admissão às olimpíadas, a quinze dias do início do torneio olímpico.

            A 29 de Julho, pouco depois das 10 horas da manhã, Ana Rodrigues mergulhava para a piscina de Londres cumprindo o seu sonho de atleta. Para trás ficavam horas de sacrifício, de treino, de apuramento de forma física, de competições essencialmente contra o relógio, enfim de dedicação a uma modalidade desportiva extremamente exigente.

            Com o feito de Ana, o desporto em S. João Madeira talhava uma nova página na história da cidade. A página dourada do desporto, como eu próprio lhe chamei em Julho.

Anos de trabalho, anos de paciência e de esperança.

O reconhecimento da atleta, do seu treinador e do próprio clube foram atempadamente testemunhados. A natação, ao longo dos últimos cinco anos, teve um destaque na imprensa local, não muito comum no panorama nacional da comunicação social. A própria autarquia cedo apoiou Ana Rodrigues na sua cruzada, concedendo-lhe subsídios individuais e passando a transferir verbas de montante superior para a Associação Estamos Juntos.

Ana Rodrigues foi um projeto do desporto local. Essencialmente, do seu treinador e por inerência do seu clube. Um projeto integral de desporto de alto rendimento, da escola aos jogos olímpicos. Com todas as fases a serem executadas na cidade. Excetuando os treinos de outono, inverno e primavera em piscina de 50 metros (e as chamadas à seleção nacional). Evidenciando-se desta forma, ser possível com os meios existentes em S. João da Madeira, desenvolver projetos sérios no desporto, salvaguardando a exceção atrás mencionada.

Em setembro, no arranque da época 2012/2013, Ana mudou de clube. Parte para o novo ciclo olímpico, a terminar em 2016 no Rio de Janeiro, com enormes perspetivas de sucesso. A experiência adquirida até Londres, permitir-lhe-á enquadrar o próximo desafio de forma segura. É evidente que o seu novo clube, FC Porto - campeão nacional da modalidade, lhe oferece outras condições de treino e competitivas e obviamente isso, em desporto de alto rendimento, é fundamental.

Com a saída de Ana Rodrigues, o desporto em S. João da Madeira ficou amputado. Perdeu definitivamente a sua vertente de alto-rendimento. Recorde-se que, no ano passado, já havia encerrado o centro de alto rendimento de basquetebol, que trouxe qualidade e resultados à modalidade praticada na cidade pela ADS.

Em 2012 foi o fim.

Não nos devemos esquecer, apesar da saída de Ana Rodrigues, que o técnico, Luís Ferreira continua nos quadros da AEJ - tal como foi mencionado por Fernando Moreira na semana passada no jornal - e a experiência por si adquirida nestes últimos anos, poderá ser importante para se fazer a ligação entre a escola municipal de natação e os restantes degraus de competição nesta modalidade.

A natação poderá servir como o bom exemplo, a seguir por outras modalidades desportivas. Terá que se ponderar para o futuro, que tipo de política desportiva se pretende para os clubes de S. João da Madeira? Como enquadrar o desporto de alto-rendimento? E claro desenvolver políticas de captação, identificação de talentos, além das necessárias para o ensino e fidelização dos jovens como praticantes de desporto federado, de preferência olímpico.

Esperemos que o novo ano, traga mudanças no paradigma desportivo da cidade e a presença futura de atletas sanjoanenses em Jogos Olímpicos seja reconhecida pelo seu mérito e não apenas, como obra do acaso, como infelizmente alguns verbalizaram.            

 

(a publicar dia 28/12/12)

quarta-feira, dezembro 19, 2012

Advento

         Para mim o advento começa no primeiro de Dezembro.
Nesse dia iniciamos a preparação do Natal. Enfeitando a casa com os motivos apropriados. Montando a árvore com bonequinhos, com luzes e uma apropriada estrela no seu cimo. Instalando o presépio, construindo uma gruta com pedras e colocando o musgo a aconchegar as figuras representativas. O cartão de boas festas familiar é feito nesse dia e aproveitando as novas tecnologias, envia-se via internet aos amigos. Para os mais novos, é entregue um calendário do advento. Por cada dia, uma janela é aberta, até ao dia 25.
Na verdade, o calendário de advento corresponde às quatro semanas antes do Natal. O religioso.
O calendário impresso, mais comum, resume-se aos vinte cinco dias de Dezembro. Com 24 janelas de tamanho idêntico e uma 25ª de dimensão diferente, correspondente ao dia da chegada, o significado de advento, isso mesmo, chegada.
Aproximamos desse dia.
Ainda é tempo de preparação.
Compra-se os presentes. Cria-se expectativa nos mais novos.
Aguarda-se pela chegada de familiares. Preparam-se ementas. Tudo para viver com alegria a grande noite de família.
O advento pode ser uma ideia de relançamento do espirito comunitário.
Ao visualizar um anúncio televisivo do operador de comunicações de prefixo 96, encantou-me a ideia expressa do calendário de advento. As janelas de um edifício da cidade do Porto decoradas com os números. As exibições artísticas, associadas a cada uma das janelas, pareceu-me uma ideia brilhante. Entretanto, outro operador, o do prefixo 93, recuperava os duetos improváveis, em torno de um clássico da música pop. Na aldeia minhota, à volta da fogueira, na eira, ou em casa das velhotas, surgiram figuras antagónicas da música nacional a cantar uma velha canção dos The Beatles. O resultado é cativante.
Com base nestes dois anúncios, suportando-me na conceção de animação de Natal, existente na cidade até há três anos, penso que seria de a recuperar, trazendo de novo à Praça os agentes culturais da cidade, assim como público, isto é, eventuais clientes.
A fórmula é simples. É em seguida apresentada para memória futura.
Na zona central da cidade, escolhe-se alguns edifícios. Para decorar cada janela do advento convida-se escolas, associações de pais e outras, tal como se faz atualmente com as rotundas. Em cada dia é aberta uma janela. Nesse mesmo dia, um grupo musical da cidade é convidado para uma atuação de vinte minutos, tendo como temas obrigatórios cinco músicas de Natal. Algumas bandas poderão agrupar-se com outras de género musical diferente e dar outra envolvência ao momento. O final deveria ser a 25, promovendo um concerto alusivo, mais alargado em tempo, sempre com grupos locais.
O problema é que nesta época, a meteorologia não ajuda muito. A chuva acompanha o advento, encerrando ou adiando algumas das animações que se promovem nesta quadra festiva.
Esperando que o tempo chuvoso não se instale por muito tempo, desejo a todos os leitores um ótimo Natal.
 
(a publicar no dia 20/12/12)
 
 

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Ideologias

            Os executivos municipais são difíceis de catalogar em matéria ideológica. As suas práticas, apesar do enquadramento dos partidos políticos, deixam confusa qualquer pessoa.
            A privatização parcial do fornecimento de água à população, tem sido um tique comum de liberalismo, a que a Câmara Municipal de S. João da Madeira também aderiu. Por outro lado, a interferência na economia, planeando as áreas de negócios e condicionando investimentos, como fica evidente na criação de incubadoras de empresas, transfere o idealismo para o campo do centro-esquerda, muito perto do socialismo.
            Neste campo, o último sinal da colagem do executivo municipal à esquerda, surgiu com a defesa da nacionalização do hospital de S. João da Madeira.   
            Este espectro político alargado, torna a vida difícil às oposições. Onde se devem colocar?
À direita, aceita-se a redução do peso do Estado e aplaude-se a criação de emprego, com incentivos ao empreendedorismo. Tudo o resto, deveria servir como trunfo para a campanha política.
            Isso não preocupou o executivo liderado pelo PSD. Antes pelo contrário. Com muita tática política, o executivo encostou-se à esquerda, neste último mandato, por forma a esvaziar a principal força da oposição, precisamente o PS.
            Esta força política terá que reagir, sabendo-se manter dentro do seu espectro político natural. Não entrando na 3ª via, com tiques liberais, como na década passada utilizou a nível nacional, com resultados duvidosos.
A defesa do interesse da população deve ser procurada pela sugestão, fundamentada, da redução das taxas municipais. A abolição da taxa de disponibilidade nos contadores da água, por exemplo, entre outros impostos municipais diretos ou indiretos. Aludindo, em simultâneo, às despesas municipais que devem ser reduzidas.
O discurso político terá que versar os seguintes aspetos: a inclusão social; a qualificação e a empregabilidade da população; a requalificação urbana – aproveitando-se as verbas do próximo quadro de apoio comunitário; a promoção do potencial cultural e desportivo do concelho.
O objetivo deverá centrar-se na fixação da juventude na cidade, que obviamente só poderá ser conseguida com melhoria na oferta de residência, emprego e dotando de cosmopolitismo o concelho.
  
(a publicar no dia 13/12/12)
 

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Parideiras

            Subir à serra da Freita é uma atividade por mim exercida regularmente.
Desde a infância, em passeio familiar, alcançando a serra por sinuosas estradas de terra batida. Na adolescência durante os períodos de férias escolares, alcançando a montanha a pé, ou à boleia, com a mochila nas costas. Mais tarde, já adulto, na fase pós urbana, percorrendo os trilhos da serra em viaturas motorizadas. Até me cansar e voltar a calçar as botas de montanha para caminhar.
A pé na adolescência percorri o triângulo formado pelas aldeias de Merujal, Albergaria e Mizarela. Várias vezes fui a Castanheira, voltando por carreiros de cabras, com a mochila carregada com pedras parideiras (pequenas amostras). Só mais tarde, já de automóvel cheguei a Cabreiros. Depois visitei as aldeias, o Rio Paiva, o monte de S. Macário. Quando dali vi ao longe os contrafortes da Estrela, percebi que de carro já não tinha piada e voltei às caminhadas, em jeito de atividade semanal. Abrindo mato, traçando trilhos, unindo aldeias e lugares.
A periodicidade atual é apenas trimestral. Em família, incutindo o gosto pela natureza e pela descoberta nos meus filhos. Aos poucos vou-lhes mostrando a serra, as suas paisagens, as suas pedras, os cursos de água, enfim, os seus pontos de interesse turístico. Neste despertar do interesse pela montanha, não ficam de fora os rebanhos, a vida nas aldeias e os achados arqueológicos.
Eu próprio, por vezes, sou surpreendido com novas descobertas. Vestígios no passado mal interpretados, ou por desconhecimento teórico, ou por falta de atenção. Caso dos restos dos troços da via romana, construída para ligar o Porto a Viseu, atravessando a serra da Freita e por mim percorridos vezes sem conta, sem me aperceber da disposição daquelas lajes, da largura da via e do seu significado. Em Manhouce, aldeia do concelho de S. Pedro do Sul, fez-se a preservação de um desses troços. Subindo em direção à Freita, são visíveis mais dois fragmentos, um deles, saindo de Gestoso para Albergaria das Cabras. À entrada desta aldeia, atrás do cemitério, a via romana foi destruída. Tendo-se alargado a via e colocado novas pedras, uns modernos paralelepípedos. Um arranjo de quarenta metros, para desembocar num trilho de montanha, apenas acessível a pessoas, animais e veículos não motorizados.
Este exemplo serve para demonstrar a série de atrocidades à preservação histórica e por arrasto ambiental, a que foi sujeita a Serra da Freita ao longo dos últimos anos. Conscientes desse perigo, tentando evitar um desastre ainda maior, as autoridades responsáveis vedaram com rede o complexo das pedras parideiras, conseguindo-se a sua proteção ao longo dos últimos vinte e cinco anos.
O interesse por este fenómeno geológico, mais a existência de fósseis de trilobites em Canelas, entre outros geossítios, levou à criação do Geopark de Arouca.
A evolução turística, com alicerces científicos e pedagógicos, associando-se a oferta do património histórico e religioso, bem como, os produtos gastronómicos da região, mais a possibilidade de praticar desportos de natureza, permitem enquadrar o concelho de Arouca como um moderno promotor de turismo.
À diversificação da oferta, junte-se uma outra questão, os horários alargados e adequados a todo o tipo de turistas.
Neste último domingo de manhã, no terraço da Castanheira, espreitava a queda de água da Mizarela e as diferenças litológicas do maciço envolvente. Na escombreira, aos meus pés, encontravam-se vários exemplares de pedras parideiras, restos de rochas removidas para fazer as habitações da aldeia. Apontei os binóculos para o litoral, distingui as cidades desta região, pelo seus prédios e à distância, percebi o quanto falta para fazer um produto turístico por aqui.
 
(a publicar no dia 06/12/12)