quarta-feira, maio 15, 2013

O que diz François

            Um ano após as eleições presidenciais francesas, a apreciação dos eleitores relativamente ao presidente eleito, não podia ser pior. As sondagens, divulgadas na semana passada indicavam que apenas 19% dos eleitores voltaria a votar em François Hollande.
            Se à direita, a derrota inesperada de Nicolas Sarkozy, provocou um mal-estar e obviamente uma grave desconfiança relativa a um presidente de origem socialista, traduzindo-se isto em críticas constantes e depreciação do trabalho efetuado pelo atual presidente, já o eleitorado de esquerda, embalado pelo regresso à presidência, 17 anos depois, esperava não ouvir da boca do eleito palavras como cortes de subsídios, aumento da austeridade, entre outras medidas para combater a crise financeira da França.
              François Hollande não cede ao mediatismo neoliberal: continua consciente do seu sentido europeu – evita o confronto federalista com a Alemanha, no entanto, demonstra o seu poder bélico com um raid no distante Mali; ajusta a dimensão do Estado à receita fiscal, injetando na economia fundos estatais procurando alavanca-la, apesar de, tal como em outros países atlânticos, os indicadores de atividade económica não serem famosos.
            Perante isto, onde errou o presidente francês?
            Veja-se as medidas simbólicas: redução em 30% do seu salário e dos seus ministros, demonstrando o excesso de vencimento que o anterior presidente ousou auferir. Aumento de impostos para as grandes fortunas (1500 franceses), tendo o infortúnio de o autor da medida, o seu ministro das finanças, ser também evasor fiscal – o que obrigou à publicação de uma lei de transparência sobre os rendimentos dos políticos.
Errou?
Na essência, François Hollande escolheu os alvos, a classe política e as grandes fortunas.
A manipulação da opinião pública não se fez esperar. Os comentários depreciativos sobrepõem-se a todos os outros, denegrindo a sua imagem e claro, as sondagens são divulgadas como grande perdas de popularidade e apresentadas como o resultado de uma péssima gestão política.
No essencial, a teoria de Hollande não é aceite.
Muito menos em governos de origem liberal, como o de Portugal. Os políticos do eixo do poder não abdicam dos seus privilégios, não baixam os seus vencimentos, nem as regalias, nem as ajudas de custo, nem mesmo prescindem de gabinetes recheados de assessores, de secretários e de motoristas.
A única medida apresentada nestes últimos dois anos, para redução destes privilégios, foi a eliminação de 18 governadores civis e de 25% dos presidentes de junta de freguesia, não significando com isto uma grande redução da despesa com a classe política. Pelo contrário, Miguel Relvas deixou como legado um diploma enquadrando as várias comunidades intermunicipais, criando novos cargos políticos, que muito provavelmente serão chumbadas pelo Tribunal Constitucional.  
Por cá, a manipulação é feita de outra forma: acusa-se os reformados e os funcionários públicos, ataca-se os seus vencimentos e coloca-se os outros contribuintes contra eles. Os comentadores e analistas dão-se ao frete e a classe política vai reinando, não se beliscando minimamente.
 
(a publicar no dia 16/05/13)
 

quarta-feira, maio 08, 2013

Quilómetro Zero

            Nas cercanias de S. Pedro do Sul, percorrendo o caminho pedestre em parte traçado na antiga linha do Vale do Vouga, desviei-me do trilho, para evitar um afluente em fúria. Um pequeno afastamento, o suficiente para causar um transtorno de horas extra de caminhada. Procurava a distância mais rápida (e seca) para regressar à sede de concelho e surgiu no gps, meramente indicativo – geograficamente mais a oeste, a N 227, ou seja, a estrada nacional 227, que liga S. João da Madeira à cidade da região de Lafões.
            Viajei no tempo.
            Esta estrada nacional iniciava-se precisamente no cimo da Rua da Liberdade. Ali estava implantado o marco do quilómetro zero. Do lado direito quem desce. Um paralelepípedo granítico, com o topo plano, tendo como indicação o tipo de estrada, o seu número e claro o zero, indicando o inicio de contagem.
            A liberdade mudara o nome da rua. A placa do Marechal Carmona ficava submersa na política, a nova designação toponímica viveu durante anos debaixo da consecutiva propaganda, cartazes sobre cartazes, amarelecidos pelo sol, lacados pela humidade, no entanto, uma nova camada de posters sobrepunha-se.
Passei a minha infância sem ver a placa com o nome da rua. No caminho para a escola, passava rente à parede cheia de cartazes, olhava para o outro lado da rua e contemplava o marco. Isolado, na esquina, no alto daquela rua, parecia um trono.
Um dia ao atravessar a rua, a caminho da igreja, ou por outro motivo, convenci quem me acompanhava a deixar-me subi-lo. Sentei-me. Com um sorriso de satisfação, os meus olhos fitaram a janela do meu quarto.
A Rua da Liberdade, na década de 70 do século XX, tinha passeios laterais de calçada portuguesa e a estrada era em paralelo de granito escuro. Na esquina do marco não havia qualquer edifício. Um terreno vazio, desnivelado, com acesso por duas rampas opostas, permitia estacionar dezenas de motorizadas e um Renault 6. Dali para baixo sucediam-se os prédios, ocupados no rés-do-chão por lojas: no imediato surgia a Philips com o seu letreiro vertical azul, seguida dos móveis da Casa Ferreira. Mais abaixo, o Pagapouco ocupou as instalações do Café Eldorado, no entanto, o reclame deste enferrujou-se durante anos, em frente aos meus olhos. A barbearia Salão Dourado existe desde a minha meninice naquelas instalações. Ao seu lado, fechando a sequência, vivia uma família Ribas e se a memória não me atraiçoa, havia ali um estabelecimento de artigos têxtil.
Do outro lado da rua, a sequência iniciava-se com a Casa Glória – outro resistente, seguia-se o alfaiate FatoLindo, segue-se o Café / Casa Avenida – mais um resistente. Noutros tempos existiu mais abaixo a Casa Cilita (Reis). O Estúdio Almeida, grande resistente, antecipava a Garagem LM, ambos tinham reclames exteriores verticais e gigantescos, que ladeavam a minha vista sobre a rua. Deste lado da rua, o Porfírio, ou Grundig, fechava a sequela.
Dali para baixo, até ao cinema, existem alguns prédios que não tenho a certeza se assisti à sua construção, embora a minha recordação esteja associada à instalação das primeiras lojas. O que é normal, se nos colocarmos na perspectiva de uma criança. Por isso, para não desvirtuar a cronologia, vou concentrar-me primeiro no trecho esquerdo da rua. Depois de atravessar a Rua Júlio Dinis, surgia uma drogaria, que deu lugar ao Minipreço. Por ali abaixo, poucas variações houve: Padaria do Souto, Ourivesaria / Relojoaria, Aldeia Velha, a entrada para o Santola, a Sapataria Paulita, uma loja de roupa – cujo nome esqueci – uma entrada para um restaurante e a seguir o Café 25 de Abril, mesmo antes do Cinema Imperador, na época das sextas-feiras manhosas e das matinés de filmes indianos. Do lado direito quem desce a sequência era esta: tintas Robbialac, os concorridos bilhares do 104, as lãs do Sr. Cardoso, a Casa Santos e o Ulic Bar (este prédio vi a ser construído) e a Corpini – embora me recorde de uma outra loja, por ali. A seguir existia uma enorme buraqueira, à espera da construção.   
Comércio, serviços e moradores sempre coabitaram pacificamente na Rua da Liberdade. Vários edifícios albergam ainda hoje escritórios de médicos e advogados. Outrora existiram seguradoras, sindicatos e cabeleireiros.
A azáfama da rua comercial, o rodopio de clientes e forasteiros, nem permitia perceber que naquela rua havia moradores. As portas de serventia estavam abertas para acesso facilitado dos clientes ao primeiro andar e mais acima, nos seus apartamentos, viviam famílias. Não vou nomeá-las exaustivamente. Desculpo-me, prometendo uma outra escrita em futura oportunidade.
Importa registar que a Rua da Liberdade, apesar de atravessada por outra Rua, foi sempre uma só. Não faz sentido, agora no século XXI, ficar dividida em termos de aspecto e funcionalidade. Esperemos que impere o bom senso.
A história vai-se reescrevendo. A da Rua da Liberdade também. Eu como antigo morador perpetuo-a, ficando satisfeito por verificar que o actual Presidente da Câmara de S. João da Madeira, Ricardo Figueiredo, também viveu ali a sua infância. 
 
 
(a publicar no dia 09/05/2013)
 

terça-feira, abril 30, 2013

Turismo complementar

O Turismo Industrial, lançado nos últimos anos pela Câmara Municipal de S. João da Madeira, evoluiu da fase embrionária - com a criação do conceito, a adesão de empresas, o estabelecimento dos circuitos pelo património industrial, até uma nova fase, de aproximação da cidade ao conceito turístico, transformando as empresas em palcos de concertos, ou em locais onde se declamou poesia e claro, dando oportunidade aos seus trabalhadores de exprimirem as suas capacidades artísticas, como foi o caso do grupo coral da Heliotextil.
Os números divulgados, por ocasião do primeiro aniversário do Turismo Industrial, permitem classificar esta iniciativa de sucesso, com nota muito boa. No entanto, está por estudar o impacto deste turismo na economia local, nomeadamente ao nível dos canais tecnicamente designados por HORECA – Hóteis, Restaurantes e Cafés. Sem esquecer o comércio, de qualquer tipo.
Existe uma barreira entre o Turismo Industrial e o turismo familiar, que apenas aos fins-de-semana e nas suas férias tem oportunidade de viajar - dispondo de tempo para visitar outros locais. A incompatibilidade de horários é um problema.
O grande objectivo do turismo é atrair mais visitantes à cidade.
Para isso é necessário criar um efeito diferenciador, com base em harmonia entre as iniciativas a promover e o conceito turístico.
É sobre este eixo que é necessário complementar o conceito de turismo industrial. Suportando-se no posicionamento exclusivo do conceito e dos vários produtos. A tradição industrial do concelho, os seus produtos esquecidos na história: cera, máquinas de costura, banheiras, torneiras, colchões, além dos artigos de chapelaria, passamanarias e calçado, entre outros, permitem alargar o envolvimento comunitário, potenciando qualquer evento de recriação histórica que se ouse organizar. Para se conseguir uma cobertura mediática positiva, é preciso um certo exotismo, algo conseguido com a utilização maciça pela população de um dos produtos exclusivos atrás mencionados, por exemplo, os chapéus.
A extensão do conceito de turismo industrial à gastronomia tem sido utilizado, através da realização de um festival num único fim-de-semana, no entanto, seria preferível incluir na ementa semanal de alguns restaurantes, tal como é utilizado, com outros pratos típicos da região. A oferta gastronómica pode ser desenvolvida com inovação, com a introdução na comunidade de nomes dos produtos industriais. Exemplificando, as pastelarias locais poderiam concorrer para a criação de bolos chamados capeline ou tamanquinhos, de tamanho apropriado, com formatos iguais aos produtos.
Em matéria de novas “portas” de entrada na cidade, utilizando-se as potencialidades do concelho, em tempos idos, confidenciei a pessoas amigas um conceito a explorar, directamente ligado ao turismo do conhecimento. Relacionava-se com a instalação de um borboletário nos jardins do Palacete dos Condes, propondo ainda uma ala para estudo das traças, essa praga associada ao têxtil e obviamente à chapelaria.
O conceito de turismo na natureza, em ambiente urbano, poderia desencadear através de uma parceria, com um investidor privado, na criação de uma pista permanente de downhill na zona dos antigos moinhos de Casaldelo, podendo-se estender os divertimentos a slide assim para o gigantesco, aproveitando-se a encosta deste lugar para nascente.  
Ideias desenvolvidas nos últimos meses, que optei por divulgar em exclusivo aos leitores do labor e que completam os meus textos alusivos ao turismo, que fui publicando neste jornal.
 
(a publicar no dia 02/05/2013)

quarta-feira, abril 24, 2013

Memórias de um escritor

            Regressei a Aquilino Ribeiro.
Tinha obtido como referência tratar-se de uma obra imperdível - Um escritor confessa-se. Num final de noite, procurei-o na prateleira da sala lá de casa, na colecção de obras completas do escritor. Uma colectânea de romances, todos com a mesma capa castanha, com a lombada em numeração romana, distinguindo-se assim uns dos outros. Para obter o título de cada volume, tive que abrir a capa, para verificar no interior o seu nome. Um por um, procurei em vão. Voltei passado uns dias, com mais tempo e continuei sem sucesso. Não tinha visto mal e afinal faltava ali um importante título da obra de Aquilino Ribeiro.
Mal tive oportunidade, requisitei-o.
Uma das primeiras edições, de 1972, de tiragem reduzida, 350 exemplares, vendidos a duzentos escudos cada. 
No final do primeiro capítulo, percebi logo o que tinha entre mãos. Duma assentada, fiquei preso ao enredo da biografia do escritor. A sua autobiografia, os seus passos na sua instrução, a sua desilusão no seminário, os primeiros dias em Lisboa, o regresso à serra da Nave, de volta à Lisboa pré-republicana, a sua prisão e desterro à espera da revolução de 1910. Um consolo.
Em menos de quatro dias, mesmo cumprindo as minhas obrigações profissionais, pessoais, sociais, domésticas e claro, familiares, sorvi as palavras de Aquilino Ribeiro, mesmo aquelas que o caracterizavam, os neologismos, ou o seu português arcaico de inspiração popular. A coragem demonstrada em campanha revolucionária, a audácia na fuga da prisão e posteriormente o desmascarar dos hipotéticos regicidas são um excelente exemplo da capacidade narrativa do escritor. A isto junte-se o período em Beja, o regime hipócrita do seminário e a sua evidente falta de fé. Os argumentos teológicos expostos e a capacidade de os contrapor, através da metafísica, demonstravam a sua capacidade de estudo, de assimilação e oratória. Uma verdadeira tese, sempre importante para todos os que começam a ter dúvidas.
Outra vantagem de ler Aquilino, é ter um contacto com a evolução social e histórica das aldeias portuguesas, é perceber como durante séculos, nenhuma evolução por ali existiu, nada aconteceu, nem uma estrada foi construída a ligar as aldeias entre si, ou às vilas sede concelho. Perceber isto, é entender as rivalidades entre “os povos de cada aldeia”, segundo palavras do escritor.
Pelo meio da leitura, fui bombardeado pela notícia da semana: a saída do Dr. Castro Almeida para o Governo.
(Isto entra um pouco à pressão.)
Vão ser feitos vários balanços: as obras herdadas e concluídas, as obras lançadas e concluídas ou quase, pois também as há, assim como, as lançadas e não começadas, onde destaco a nova piscina interior.
Nem só de obra se faz um balanço do mandato agora interrompido.
Para quem, como eu, escreveu várias vezes, argumentando o melhor que sabia, opondo-me a algumas medidas, criticando opções, estudando e apresentando alternativas, lutando contra o unanimismo, nunca tendo sentido qualquer agressividade por parte do executivo, nem dos militantes do partido do poder autárquico, só posso realçar a convivência democrática.
A causa pública é assunto recorrente dos meus textos, a vontade em fazer-me ouvir, sem ninguém temer, permitem-me verificar que as palavras dos mestres da literatura nacional, que tanto aprecio, foram assimiladas a preceito.
 
(a publicar no dia 26/04/2013 )
 

quarta-feira, abril 17, 2013

Adeus Leopold Bloom

Aquela noite de 16 de Junho de 1904, tive-a entre mãos durante mais de cem noites. Todo o inverno, incluindo a quaresma, mais uns dias chuvosos a seguir à Páscoa. Noites essencialmente frias, aquecidas a chá, ou a café, com os olhos postos naquelas páginas. Linha após linha, sem grandes avanços, com o marcador fixado na mesma zona do livro. Virava uma folha, lia mais uma página, o marcador avançava esse tanto. Sozinho no estabelecimento comercial, deambulando pelas ruas de Dublin, elegi para bebida o Irish Coffee, mais apropriado à temperatura da narrativa. Sorvia o líquido, ficaram sempre as natas.
Adeus Shane Macgowan. Ébrio esquecido da adolescência. Agora com dentes novos e barriga saliente, a cantar sentado, sobriamente soletrando todas as silabas das canções. “Dirty old town” é uma memória desse período da vida, não a letra, com os acordes e arranjos musicais, é pelo contrário, toda a minha envolvência urbana, em ruas escurecidas, envolvidas pelos papéis, beatas e outras coisas deitadas para as calçadas, as paredes desbotadas, esburacadas e urinadas, velhos prédios com portas abertas libertando a humidade da escadaria para a rua. Adeus ruivos, adeus duendes, adeus O’Hara, O’Sullivan, O’Neill, O’Connor, O'Brien, Byrne, adeus gente vestida de verde, de copo na mão, entoando: “I am going where streams of whiskey are flowing”.
Adeus Trapattoni, velho crente. Fiquei agarrado uma noite a seguir a um jogo de futebol da Irlanda com a França, falseado pela mão de Thierry Henry, como se o italiano ainda estivesse em Lisboa. Não julguem que foi pela crença do italiano. Ainda não fiz a estrada de Damasco. Anúncio publicitário: Visite a Síria, se tiver dúvidas teológicas ou mesmo ideológicas, percorra a nossa estrada mais famosa. Vindo de Tarso, Saulo transformou-se em Paulo, o mais famoso convertido. Ainda temos explosões e clarões. Fim de anúncio.
A edição pela qual segui a noite de Leopold Bloom, dividia-se em 3 partes. Não tinha explicitamente os 18 capítulos. Tornou difícil a leitura. Requisição, prazos de entrega não cumpridos, mais uma requisição, cartas da bibliotecária informando prazo ultrapassado, tudo regularizado, até à leitura final. Uma odisseia literária. De ilha em ilha, até aos braços de Penélope e ao seu monólogo interior. Capítulo por capítulo, com os estilos de narração diversificados, os passos por Dublin de Leopold, os seus encontros com outros personagens, Stephen Dedalus, entre outros, e um final arrebatador com Molly Bloom e o seu Sim.
Adeus Joyce, James, escritor de Dublin, de Trieste, Paris e Zurique. Irlandês, portanto. Referência literária que só agora tive oportunidade de devorar. A fonte de muitos prosadores, o escritor eleito para tantos.
Adeus Leopold Bloom, judeu convertido ao catolicismo, irlandês indiferente ao nacionalismo, publicitário de profissão - o anti-herói, personagem principal do livro que me preencheu o inverno.
Adeus Ulysses. Voltar-nos-emos a encontrar. A próxima vez será na Odisseia, na de Homero. Com cantos explícitos, personagens e episódios da história da literatura, pelas ilhas e batalhas helénicas. Até ao regresso a Ítaca de Ulisses.
 
(a publicar no dia 18/04/13)
 
 

quarta-feira, abril 10, 2013

Um produto integrado de Turismo

Coloquei duas questões nas páginas do labor da semana passada, referentes ao Turismo da região do Entre o Douro e Vouga, prometendo responder-lhes na presente edição: Existem produtos estratégicos para ocupar um turista durante pelo menos um fim-de-semana? Existem produtos regionais para serem comprados pelos turistas, incluindo produtos gastronómicos?

Pode-se responder a ambas as questões, enumerando os pontos de interesse turístico dos vários concelhos, integrantes da região.

Assim, temos em Santa Maria da Feira: o altaneiro castelo, uma aldeia típica nas margens do Douro, os núcleos museológicos do papel e da cortiça, o exotismo ornitológico em Lourosa, o centro de ciência Visionarium e o castro de Romariz. Como oferta de produtos para os turistas, temos a doçaria regional, onde se destaca a fogaça.

Em Arouca temos o convento com o Museu de Arte Sacra, as águas do rio paiva e dos seus afluentes, o geoparque com as suas trilobites e as pedras parideiras, os passeios pedestres, a serra da freita, as aldeias típicas em xisto. A raça bovina arouquesa é o principal atrativo gastronómico do concelho, complementando-se com os doces conventuais, incluindo um pão-de-ló curiosamente húmido.

Em Vale de Cambra é menor a oferta turística, aldeias com casas de xisto onde existem percursos pedestres e praias fluviais a merecerem o maior destaque.

Oliveira de Azeméis esqueceu-se de modernizar o conceito da Casa Ferreira de Castro, no entanto, através de um produto regional único, o pão de Ul, tem sustentado a sua oferta turística. Primeiro através do parque molinológico, instalando percursos pedestres na povoação e mais tarde, transformando Ul em aldeia típica de Portugal.  

S. João da Madeira oferece o Museu da Chapelaria, os seus circuitos pelo património industrial e claro, a venda de alguns produtos incluídos neste conceito turístico.

Uma vasta oferta turística, todos juntos, os concelhos podem ser um produto de integrado turismo: património militar, histórico e religioso, turismo na natureza, núcleos museológicos, centro de ciência e conhecimento, além dos inovadores conceitos de turismo industrial e turismo educativo, este invocado pelo geoparque. Tudo encaixado pela oferta gastronómica da região, como atrás referido.

A proximidade geográfica permite a um visitante completar o seu programa de fim-de-semana, procurando outras experiências turísticas, com curtas deslocações e enriquecendo o seu tempo de lazer. Para isso, é necessário criar um conceito regional comum em termos de turismo, para os cinco concelhos do Entre o Douro e Vouga, à semelhança do trabalho a ser desenvolvido pela ADRITEM – associação de desenvolvimento rural integrado das terras de santa maria. Nada serve ter conceitos inovadores, senão tiverem escala. A escala regional só se adquire com objetivos comuns. Uma nova dinâmica para a Associação de Municípios desta região, que pode ser enquadrada num futuro quadro comunitário de apoio e daí se conseguir o financiamento necessário para articular o turismo regional e dotá-lo de outra dimensão.

O texto já vai longo e por isso, a parte final desta dissertação sobre turismo, precisamente sobre a capacidade do Turismo Industrial se tornar ele próprio um produto integrado, ficará para uma próxima oportunidade. 

 

(a publicar no dia 11/04/13)

 

quarta-feira, abril 03, 2013

Turismo Regional

            A semana passada nas páginas do labor dissertei sobre o Turismo Industrial. Essencialmente, focando a necessidade deste produto ganhar escala, a nível da entidade regional de turismo onde o concelho está inserido, o Porto e Norte de Portugal.

            No enquadramento temático apresentei vários produtos estratégicos de turismo. Nesse texto genericamente demonstrei esses produtos, não entrando em pormenores exemplificativos por região, associação de municípios, ou mesmo por concelho.

           Ao turista, depois de se decidir por um destino, surgem sempre quatro questões: onde dormir? Onde comer? O que fazer? E o que comprar?

            Há concelhos pela sua capacidade de oferta, que respondem bem a todos estes requisitos. Outros estão mais limitados, servindo-se da vizinhança para completar a oferta.

            Exemplificando, com um pequeno passeio familiar, no nosso país. Uma manhã acordei em S. Martinho do Porto, percorrendo a enseada pela marginal. Desloquei-me para o interior, fazendo logo em Alfeizerão uma paragem para a obrigatória compra de pão-de-ló. Retomando a estrada em direção a Alcobaça, fui verificando a herança paisagística da ordem beneditina. Já na cidade, investi no mosteiro, visitando-o, revisitando os túmulos de D. Pedro e D. Inês de Castro. No exterior verificava a evolução turística da praça, as esplanadas envolventes, os arruamentos arranjados, espreitando no outro lado da colina a torre de prospeção petrolífera. Entretanto, a família entrou numa loja de produtos locais. Artesanato, acessórios de moda, louças, artigos de decoração, entre outros. Compra-se isto e aquilo.

O passeio prosseguiu tendo como destino a Batalha. Mais um Mosteiro, com pormenores arquitetónicos peculiares, vestígios históricos e explicações da dinastia de Avis, completavam a oferta dos túmulos da enclítica geração, ladeados pelos dos seus progenitores. Almoçamos ao ar livre, com vista sobre a estátua do Rei D. João I. Depois foi seguir para o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota. O guia fez a receção histórica, encaminhou-nos para o auditório onde foi exibida a recreação explicativa da batalha. No exterior, percorremos o quadrado, a ala dos namorados, até alcançarmos a capela prometida, em caso de vitória, pelo Condestável, o Santo.

De regresso à viagem pelo automóvel, rumei para o interior. Passei ao largo de Porto de Mós, vendo ao longe as particularidades do castelo. Naquele momento só me interessava atingir Mira de Aire. Aguardamos pelo momento da descida às grutas e percorrendo os mais de 600 degraus, deslumbramo-nos com as paisagens subterrâneas. No final, a proximidade a Minde, obrigou a uma visita rápida ao seu mar, em época estival, sem qualquer vestígio de água.

Por ser domingo, o resto da visita foi adiada. Um dia retomarei Tomar (bela redundância), visitando os vestígios dos Templários, seguirei para Ansião para visitar os fósseis marinhos, continuarei para Penela, onde além dos sinais do passado humano, será obrigatório comprar um queijo do Rabaçal e terminarei o passeio em Condeixa, visitando as ruínas romanas em Conímbriga, procurando um pouco mais a sul, as Buracas do Casmilo, pelo seu valor geológico e paisagístico.

Em quatro parágrafos, fiz referência aos produtos estratégicos da região Oeste e Centro. Paisagens, património histórico e religioso, particularidades da natureza são os motivos da visita; produtos gastronómicos e outros produtos regionais são a oferta para venda. Verificando-se como a proximidade entre concelhos pode ajudar a complementaridade na escolha de um itinerário turístico.

Estes concelhos, por terem pontos em comum, promoveram uma estratégia de desenvolvimento regional ao nível turístico.       

            Neste ponto, é importante fazer a reflexão da capacidade turística da região Entre Douro e Vouga. Reconhecendo que ao nível da restauração e hotelaria, existem várias ofertas, praticamente para todos os bolsos.

            Convém então lançar a seguintes questões:

Existem produtos estratégicos para ocupar um turista durante pelo menos um fim-de-semana? Existem produtos regionais para serem comprados pelos turistas, incluindo produtos gastronómicos?

Estas e outras questões merecerão uma resposta na próxima edição do jornal labor. Na qual, procurarei ainda justificar como o Turismo Industrial terá capacidade para se tornar um produto integrado de turismo.

 

(a publicar no dia 04/04/13)

 

quarta-feira, março 27, 2013

Indústria & Turismo

                O turismo é um dos mais importantes setores da economia nacional.
As particularidades de Portugal, a sua organização Estatal e o potencial turístico de determinadas regiões, conduziram à criação de onze entidades regionais de turismo (ERT).
De Norte para o Sul, correspondendo à organização regional do Estado, as várias delegações do turismo de Portugal foram distribuídas pelos mais variados locais, tendo como princípio a descentralização, dentro de cada região. Exemplificando: o Turismo do Porto e Norte de Portugal está sediado em Viana do Castelo; o Turismo do Centro de Portugal está localizado em Aveiro; em Santarém é a sede do Turismo de Lisboa e Vale do Tejo; a sede do Turismo do Alentejo, E.R.T. fica em Beja e o Turismo do Algarve, contraria a lógica anterior, pois está centrado em Faro.
Em algumas regiões, desenvolveram-se destinos turísticos com enorme potencial, surgiram assim as restantes seis ERT, apresentando-se também o local da sua sede: Turismo do Douro em Vila Real; Turismo da Serra da Estrela na Covilhã; Turismo de Leiria-Fátima em Leiria; Turismo do Oeste está em Óbidos; mais a sul temos o Turismo Terras do Grande Lago Alqueva em Reguengos de Monsaraz e o Turismo do Alentejo Litoral em Grândola.
            Cada região tem produtos turísticos, estratégicos e inerentes, a dinamizar. Em todas elas é comum a promoção da gastronomia, dos vinhos, do golfe, do património, do enquadramento paisagístico, de tratamentos de bem-estar e saúde, de turismo de negócios, de turismo na natureza ou de turismo religioso.
            Um pouco por todo o país existem roteiros, rotas, itinerários, circuitos ou percursos sobre o mais diversificado produto, inclusive patrimonial.
A diversidade gastronómica está presente nos imensos festivais, feira por produto, nos mais variados museus, ou até nas sete maravilhas.
O turismo na natureza alia as condições singulares de cada zona, em especial com o potencial desportivo de cada região, desenvolvendo-se infraestruturas para apoio aos turistas, em locais menos urbanos.
A região do Porto e Norte de Portugal, com enorme potencial turístico, procurou descentrar a sua atividade, criando delegações para se aproximar dos seus produtos estratégicos. Encontramos, assim:  
a) City & Short Breaks no Porto;
b) Touring Cultural & Paisagístico e dos Patrimónios em Guimarães;
c) Saúde & Bem -Estar em Chaves;
d) do Turismo de Natureza em Bragança;
e) do Turismo Religioso em Braga;
Dentro deste espírito, as autarquias procuraram enquadrar o seu potencial turístico, desenvolvendo os seus próprios produtos. Muitas potenciaram as tradições das suas populações, as suas festividades, o património histórico, o património religioso, as atividades culturais, além da culinária – a mais apreciada.
S. João da Madeira centrou-se na sua tradição industrial. Procurou os seus produtos característicos, produções exclusivas em território nacional em alguns casos e desenvolveu o seu próprio produto turístico: circuitos pelo património industrial, simplificados por Turismo Industrial.
Este conceito deu visibilidade às suas indústrias, dando-lhe um lado humano, permitindo conhecer o ofício de quem trabalha nas fábricas, dando a conhecer as operações diárias, a rotina do operador, o produto que manuseia, além das cores do artigo, dos cheiros das matérias-primas, dos barulhos das máquinas e essencialmente, o espaço envolvente ao operador em cada uma das indústrias.
Como novo produto estratégico, é necessário que o Turismo Industrial adquira uma escala maior. Um enquadramento dentro do Porto e Norte, ultrapassando os limites do concelho e também do Entre Douro e Vouga.
A região norte em termos turísticos divide-se em 4 sub-regiões: Minho, Trás-os-Montes, Douro e Porto. Toda a zona em redor da cidade do Porto, a sul e a norte não tem enquadramento turístico. Toda esta zona é caraterizada pela sua forte componente industrial. Indústrias variadas, de produtos diversos, algumas fortemente localizadas em determinadas vilas, cidades, concelhos, associações de município, ou micro-regiões. Extravasando o conceito Turismo Industrial de S. João da Madeira à região, poderíamos ter um produto chamado Porto Industrial ou Norte Industrial, ganhando escala mundial, alargando a oferta aos milhões de turistas que aterram no aeroporto da região.
Toda esta ideia assenta na possibilidade de se estabelecer em S. João da Madeira a delegação do Turismo do Porto e Norte correspondente ao Porto Industrial (é a minha designação favorita), ou seja, um aumento de importância do Wellcome Center instalado na Torre da Oliva, em Outubro de 2012.    
Desta forma, o pioneirismo da cidade, neste conceito turístico, seria premiado.
 
(a publicar no dia 28/03/13)
 
 

quarta-feira, março 20, 2013

Coligações

                Nos últimos cinco meses, nas reuniões com várias associações ou personalidades ligadas à cultura e ao desporto da nossa cidade, eu a tentar captar a atenção dos meus interlocutores, expondo as minhas ideias, procurando a sua validação para os debates do Fórum repensar a cidade e a sentir, do outro lado, uma enorme vontade de desviar o tema da conversa. Surgia a pergunta sacramental: Sabe quem é o candidato do PSD? Alguns sem formalismo, outros com reservas. No geral, colecionei várias hipóteses, ouvi todo o tipo de teses. Se de início fiquei surpreendido, nalguns casos quase irritado, passei a viver a situação num pleno estado de diversão.
Percebi que as eleições autárquicas de resumem a isso: a descobrir quem são os candidatos. O “tabu”, o tempo de espera na divulgação desse nome, imposto pelo PSD, tem intrigado a cidade. Procuram-se novidades entre os aficionados da política, nos militantes das várias forças políticas e como nada surge, é de crer que nada está decidido. A gestão das expetativas está a ser bem conseguida.
Neste impasse surgiu um actante novo, improvável. Uma carta do secretário-geral do PS aos seus homónimos do PCP e Bloco de Esquerda, propondo coligações para as próximas eleições autárquicas.
Quanto valeria uma coligação destas em S. João da Madeira?
Em termos de votos, o único ponto que pretendo avaliar, nas últimas eleições autárquicas a soma das três forças políticas equivaleu a 4.061 votos, com o PS a obter 3078, a CDU obteve 673 e os restantes 310 foram arrecadados pelo BE. Os resultados eleitorais em eleições legislativas são diferentes: em 2011, o somatório das forças de esquerda equivaleu 5280 votos – divididos da seguinte forma PS = 3888; CDU = 672; BE = 720; em 2009 o resultado tinha sido ampliado pelo “efeito Socrátes”, 6961 votos recolheu a esquerda, com o PS a amealhar 4967; nestas eleições o BE obteve 1386 e por fim, a CDU 608 votos.
Três eleições com cenários diferentes. O BE com resultados mais expressivos nas legislativas do que nas eleições autárquicas e a CDU a manter o seu nível de votação em todas as eleições. Por outro lado, o PS a conseguir um ótimo resultado nas legislativas de 2009 e em seguida, duas eleições com menor número de votos. Tanto este partido, como o BE, têm piores resultados nas eleições autárquicas do que nas legislativas, sinal de que o seu eleitorado não é fiel e não se identifica com os candidatos locais, nem com as propostas apresentadas para a cidade.
Perante isto, que interesse poderia haver na coligação das três forças de esquerda?
Aparentemente nenhuma.
A desproporção entre os votos de uma força (PS) para as outras duas é gritante, colocando vários problemas na idealização de uma lista conjunta, pela inerência dos possíveis eleitos de cada um dos partidos, retirando em caso de coligação e de vitória eleitos ao PS. É evidente que o contrário é verdadeiro. As duas forças, CDU e BE, que não elegeram vereadores, poderiam conseguir esse objetivo em coligação.
Qual poderá então ser o interesse na coligação à esquerda?
Só a vejo em S. João da Madeira, como resposta a igual coligação à direita, ou seja, um acordo pré-eleitoral entre PSD e CDS-PP. Cenário ponderado e não recusado pelo partido centrista, obviamente com condições que eu desconheço.
As duas forças de direita em legislativas valeram: em 2011, 6135 votos e em 2009, 4992 votos. Em ambas, o CDS conseguiu mais de 1.300 votos, o que por si só justifica um papel de relevo em hipotética coligação. A proporção do eleitorado das duas forças é em média 1 para 3.  
Neste cenário, já testado na cidade há três décadas, uma candidatura isolada perde escala e arrisca-se a sair perdedora.
O fechar de antemão as portas a coligações e a precipitação em anunciar rapidamente candidaturas, pode revelar-se imprudente e ser fatal politicamente.
A expetativa eleitoral continua a ser grande.
Esperemos que a sociedade civil seja premiada nas escolhas partidárias.
 
(a publicar no dia 21/03/13)
 
 

segunda-feira, março 11, 2013

21.713 - 20.200 = ?

            Uma subtração simples de calcular, 1513 é o resultado.
            Vejamos a que correspondem as parcelas:
            21.713 - estão recordados - é o número de habitantes de S. João da Madeira, segundo o Censos 2011. Números oficiais, segundo publicação do Instituto Nacional de Estatística (INE) no final do ano passado.
            20.200 – corresponde ao número de eleitores do concelho de S. João da Madeira, segundo a Comissão Nacional de Eleições, precisamente nas eleições legislativas de 5 de Junho de 2011.
            A subtração apresentada em título passa a ter outro significado, se ao total da população tirarmos o número de eleitores, estamos a calcular o número de não eleitores, ou seja, os menores de 18 anos.
Os resultados definitivos do Censos 2011 indicam o seguinte:
Menores de 14 anos – 3.136 indivíduos;
Entre os 15 e os 24 anos – 2.514 indivíduos;
Entre os 25 e 64 anos – 12.498 indivíduos;
Maiores de 65 anos – 3.575 indivíduos;
Não são linearmente esclarecedores quanto à população menor de 18 anos.
Vamos proceder a pequenos cálculos.
Considerando a média da classe apresentada entre os 15 e os 24 anos, teremos 251 indivíduos por ano, o que poderá equivaler a 3*251= 753 indivíduos, entre os 15 e os 17 anos. Ou seja, somando com o primeiro valor apresentado, relativo aos menores de 14 anos, podíamos chegar a 3.889 menores de 18 anos, no ano de 2011, no concelho de S. João da Madeira.
Existe uma clara diferença entre os dados do INE e os da Comissão Nacional de Eleições, 3.889 para 1513 jovens.
A divulgação dos resultados definitivos do apuramento da população, ao contrário dos preliminares, não suscitou qualquer tipo de reação, por parte do poder político local, em especial, pelos responsáveis pelo recenseamento.
Perante isto, temos duas hipóteses, a primeira é que o número de eleitores em S. João da Madeira não pode ser o divulgado. Seguindo as contas do INE, só deveriam estar registados 17.824 eleitores. Esta constatação permitiria duvidar dos atos eleitorais, já que, 2376 eleitores seriam “fantasmas” nos cadernos eleitorais, inflacionando o número de mesas de voto por eleição e tendo como consequência uma abstenção prévia de 11%.
A segunda hipótese é aceitar o número de eleitores, pondo em causa a atualização dos cadernos eleitorais, já que os resultados do Censos 2011 são definitivos. Existe a consideração do recenseamento automático dos jovens que atingem 18 anos, que pode efetivamente alterar em muito o número dos eleitores.
Ainda assim, existe outro dado importante para este efeito: a mudança de residência, implicando a alteração de concelho, o que não significa imediatamente alteração do recenseamento eleitoral.
(Falo com experiência própria, pois mudei de residência em 2004 e só em 2011, por ter caducado o meu antigo Bilhete de Identidade, ao ser obrigado a compilar os dados no cartão de cidadão é que alterei o meu círculo de voto.)     
Segundo o INE, o saldo migratório de S. João da Madeira é negativo. Até 2006 os valores eram positivos. Nesse ano, a taxa de crescimento natural anual fixou-se em 0,23%. E o saldo migratório era positivo. Em 2010, os valores dos Indicadores Demográficos são preocupantes: a taxa de crescimento natural é de apenas 0,05% e o saldo migratório passou a ser negativo, ou seja, existe mais população a procurar outros concelhos, do que aqueles que mudam a sua residência para cá.
É de prever, com estes indicadores, que nos próximos atos eleitorais o número de eleitores vá-se aproximando da realidade do recenseamento populacional, no entanto, o mais confrangedor é verificar que, com este ritmo demográfico negativo, daqui a alguns anos, o número de habitantes da cidade regredirá, contrariando o crescimento verificado ao longo de todo o último século. 
 
(a publicar no dia 14/03/13)
 
 

quarta-feira, março 06, 2013

Independanças

            Março entrou no calendário sem pedir licença a fevereiro.
A brusca mudança de mês deixou uma série de assuntos por tratar. Por escrever, neste caso. Agravando-se pela excessiva ocupação na divulgação e preparação do debate sobre desporto. Com tanta insistência na temática, corri o risco de ser relegado para o meio dos resultados desportivos, ou situar-me lado a lado com os relatos dos jogos. Não desfazendo.
Volto a temas incertos.
Houve vários acontecimentos em fevereiro a pedirem reflexão.
Nomeadamente política.
Em primeiro lugar, a iniciativa de plataformas independentes, ao interporem providências cautelares para impedirem a candidatura ao 4º mandato dos autarcas Luís Filipe Menezes e Fernando Seabra. 
Como a legalidade destas candidaturas é duvidosa, o esclarecimento solicitado pelo 3º Juízo Cível do Tribunal da Comarca do Porto obriga a trabalho prévio dos partidos políticos, especialmente no sentido de garantirem que não estão a violar a lei. Confrontado com esta ambiguidade, a classe política autárquica não só pretende interpretar a lei ao seu jeito, ou caso haja ilegalidade, deseja-a alterar, conferindo legitimidade às candidaturas
A iniciativa destes movimentos independentes é um sinal de que a sociedade civil tornou-se intolerante para com os políticos portugueses. Não está a julgamento a capacidade de gestão do endividamento, ou pelo contrário, a resposta aos anseios da população, apenas se pretende prevenir o oportunismo na interpretação das preposições de leis e evitar que questões gramaticais ocupem o tempo dos portugueses.
As candidaturas mencionadas ficam a aguardar a resposta da Justiça, em tempo útil, ou seja, até meados de Agosto, do presente ano.
A consciência política dos novos movimentos de independentes, à semelhança do que se passa em alguns países europeus, obrigou os partidos políticos a encenarem uma abertura.
Nestas autárquicas, por sobrevivência, as estruturas concelhias promovem grupos de reflexão. Algumas procuram programa político, outras mais redutoras procuram preencher listas, outras mais ambiciosas tentam apresentar candidatos.
Existem nomes de figuras independentes a serem testados em sondagens políticas, patrocinadas pelos maiores partidos. Concretamente em S. João da Madeira. 
Enquanto isto, há figuras independentes a apresentar candidaturas, como Rui Moreira no Porto, conseguindo apoios suprapartidários e não só.
Tudo isto para umas eleições autárquicas, marcadas como sempre, pelos perfis dos candidatos.
Depois de Outubro, tudo será diferente.
A independência encontrará afinidades nos indignados, nos movimentos de contestação, ou mesmo nos Juízes e novos valores políticos serão erguidos.
O tempo é de mudança.
Tal como o mês de março, também as modificações sociais não vão pedir licença e um novo período entrará no calendário.
 
(a publicar dia 07/03/13)
 
 

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Terceira parte

 
                No debate sobre a atividade desportiva em S. João da Madeira, realizado no âmbito do Fórum Re:pensar a cidade, quatro ideias foram expressas pelo painel de convidados:
            - o papel do poder local no desenvolvimento desportivo do país, expressa por Vicente Moura, tendo em conta a construção de infraestruturas desportivas municipais e pelo apoio às coletividades desportivas;
            - a sustentabilidade das modalidades desportivas, sobretudo através das quotas pagas nos escalões de formação e pelos masters (atletas com mais de 25 anos), defendida por Pedro Sarmento;  
            - o pioneirismo de S. João da Madeira, evocado por Augusto Araújo - grande conhecedor da história desportiva da cidade - quando referiu o empreendedorismo da população local em matéria de equipamentos destinados à prática de desporto.
            - a felicidade manifestada por Ana Rodrigues, por ter participado nos Jogos Olímpicos de Londres, apesar das contrariedades vividas na preparação.
            Na apresentação do debate, expressei a minha ideia sobre a atividade desportiva. Defendi a existência de cinco fases no desporto: a captação, o ensino, as competições, o alto-rendimento e uma última, equivalente à manutenção da boa condição física, em idades posteriores à do período de competição.
As três primeiras fases correspondem respetivamente ao primeiro contacto com a modalidade, à noção generalizada do desporto a praticar e ao desenvolvimento de competências físicas dos atletas, através do treino e dos jogos. No topo destas fases temos a alta competição, correspondendo à participação em campeonatos absolutos, ou às equipas seniores participando nos nacionais em divisões superiores.
A quarta fase envolve o alto rendimento desportivo, caraterizado pela chamada à seleção nacional ou pela integração no programa olímpico, mediante obtenção de marcas pessoais correspondente à exigência fixada.
No último nível, temos os praticantes de atividade física, que não pretendem competir em alto nível, pretendendo apenas manter a boa forma física, procurando exercitar-se em termos individuais, ou em equipa, utilizando os espaços disponíveis da cidade.
Com este enquadramento e atendendo aos sensatos conselhos do painel como, a coordenação entre o desporto escolar e o associativo e por outro lado, o evitar megalomanias na construção de equipamentos desportivos (é sempre bom ouvir), devemos perguntar como deve ser feita a gestão desportiva municipal?
Envolvendo os técnicos das associações e professores de educação física das escolas, poderá desenvolver-se um plano integrado de desenvolvimento desportivo, lançando-se a captação e ensino de várias modalidades. Seguindo os ensinamentos do professor Pedro Sarmento, estas modalidades podem ser auto sustentáveis, pagando toda a competição.
Se assim for, uma sustentação conseguida a médio prazo, o papel da autarquia deve canalizar-se para outros campos. Se seguirmos os conselhos dos convidados e fugirmos da construção desenfreada, poderá ser lançado em alternativa um programa ambicioso melhoria da qualidade desportiva dos atletas da cidade. No limite este programa poderá dar apoio a atletas com potencial olímpico, continuando-se na senda do pioneirismo desportivo, defendido por Augusto Araújo.
Uma ideia que poderá mudar o paradigma do desporto nacional: a envolvência das autarquias nos programas olímpicos. O que a fazer fé nas palavras iniciais de Vicente Moura, só assim será garantido novo desenvolvimento desportivo do país.
Ao ouvir Ana Rodrigues a expressar o seu contentamento por toda a sua carreira, percebi que não estava errado ao propor ambicioso título para o debate, da passada sexta-feira. O sucesso desportivo não vive apenas de medalhas olímpicas. O esforço e o sacrifício de Ana foram compensados pela felicidade de estar presente nos Jogos Olímpicos.
É importante que sejam criadas melhores oportunidades para as gerações vindouras.
A população de S. João da Madeira carateriza-se pela ambição, sobretudo, a que se dedica ao desporto. 
         
(a publicar no dia 21/02/13)

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Promotores de vida saudável

            Ao preparar o debate sobre a atividade desportiva de S. João da Madeira, para o Fórum Re:pensar a cidade, recolhi alguns dados dos clubes da cidade.
            À informação do dinamismo desportivo e associativo, juntei os elementos históricos. Elaborei uma escala de tempo e agrupei os clubes pela data de fundação. Escolhi como limites para os intervalos do tempo: a emancipação concelhia – 1926; a revolução democrática – 1974; a mudança de século / milénio – 2000. Os resultados apresento-os no gráfico seguinte:
 
 
            Analisei apenas os clubes ativos na atualidade. Algumas associações foram-se perdendo ao longo destes anos e portanto, não estão contabilizadas.
            Os conhecedores do desporto da cidade, identificam o clube da coluna da esquerda do gráfico – Associação Desportiva Sanjoanense, fundada em 1924. Na segunda coluna acrescentam-se outros dois: o Clube Campismo e o Dínamo Sanjoanense, fundados respetivamente em 1953 e 1957.
A vida democrática a partir de 1974 trouxe uma maior dinâmica associativa à cidade, assim em 1976 o Turbo Clube é constituído e em 1977 formam-se os Kágados. Na década de 80, apareceram pela seguinte ordem: Real Sociedade da Praça, Centro Cultura e Desporto (CCD), CCD Fundo de Vila, Associação Desportiva e Recreativa “Amigos do Vicente” e Associação Estamos Juntos. Já na década de 90 do século anterior, surgiu a Arma – Associação Sanjoanense de Artes Marciais – e Shaolin Si. Finalizando-se este período com 12 coletividades.
            A tendência de formar clubes dedicados a uma só modalidade, continuou com a mudança do milénio. A Associação de Pais da Escola Dr. Serafim Leite, os Serviços Sociais do Pessoal do Município de S. João da Madeira, ambas dedicadas ao atletismo, são um bom exemplo. Nos anos seguintes, a vontade da população em participar ativamente no desporto verificou-se com a fundação de clubes como: a Associação É bom viver, o Clube de Bilhar, a Aproj – Associação de Promoção da Juventude, a Petertumble Motorsport, a SJM – Sub e por fim, a Poolfiction.
            Durante anos os clubes completavam-se, raramente havia modalidades idênticas em clubes diferentes. Hoje isso já não acontece. Temos algumas modalidades a serem praticadas por mais do que um clube, havendo mesmo uma feroz concorrência entre eles. Bilhar, Futsal, Futebol são desportos com jogos entre equipas locais. Todo-o-terreno com uma lógica própria e atletismo completam a lista de modalidades com mais do que um clube.
O fenómeno do atletismo, com quatro clubes dedicados, projeta a cidade como o maior centro da modalidade no distrito de Aveiro. Sendo necessário referir a pouca especialização dos atletas, a maioria essencialmente de estrada, o que a torna no desporto mais praticado em S. João da Madeira.
O número total de atletas em S. João da Madeira ascende a 2285, das mais variadas modalidades, que não vou aqui enumerar. Deste número, 23% são mulheres, ou seja, cerca de 552, provando que a igualdade de género é uma oportunidade do desporto, embora haja ainda muito caminho a percorrer, sobretudo, em modalidades como o futebol ou o futsal, em que nenhuma rapariga as pratica como atletas de desporto federado.
O indicador do número de jovens atletas envolvidos nas coletividades da cidade, é extremamente significativo sobre a mudança de paradigma ocorrido na gestão desportiva da cidade nas últimas décadas. 1500 jovens, equivalente a dois terços do total de atletas, são o exemplo da dedicação das nossas coletividades à promoção da vida saudável da sua juventude. Por detrás deste magnífico número estão dirigentes, seccionistas e técnicos que tudo fazem para assegurar o bom funcionamento de treinos e de jogos destes jovens, durante toda a época desportiva. Não esquecendo que muitos deles o fazem de forma voluntariosa, muitas vezes, com prejuízo da sua vida profissional.
As assistências nos jogos em casa dos escalões de formação, na totalidade das suas equipas, são amplamente superiores aos jogos das equipas de seniores, em qualquer modalidade. Tive a oportunidade de o confirmar ao espreitar o jogo de basquetebol dos sub 16 masculinos, do último fim-de-semana, entre a ADS e a Ovarense.   
A cidade reconhece-se nos seus jovens. Envolve-se em torno deles e isso é importante para erigir o espírito comunitário e fortalecer a sua identidade.
Este será um dos temas do debate do dia 15 de Fevereiro, a Atividade Desportiva da Escola aos Jogos Olímpicos, que irá realizar-se nos Paços da Cultura, pelas 21h30m.
 
(a publicar no dia 14/02/2013)
              
 

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Tubarões Azuis

         Sábado passado, tirei a tarde para visualizar o jogo de futebol entre Cabo Verde e Gana, via Eurosport. Às 15 horas, estava em frente ao televisor. Por este canal, futebol, só sigo a Taça das Nações Africanas.
Era a minha oportunidade para ver um jogo da seleção surpresa deste campeonato, que tanto aprecio. Nessa manhã, li o relato de Angola e dos festejos dos 50.000 caboverdianos radicados em Luanda, após o jogo que ditou a derrota e consequente afastamento do país acolhedor destes emigrantes.  
Na minha história de telespetador, o sábado à tarde foi muitas vezes consagrado a seguir jogos de râguebi, devidamente comentados pelo eclético Cordeiro do Vale, que tudo fazia para explicar as regras do jogo. A sua voz acompanhava outras modalidades e jamais percebi qual era a sua verdadeira especialidade. 
No Eurosport, habituei-me aos comentários de Olivier Bonamici, entendendo-o como um seguidor do futebol africano e conhecedor dos jogadores das mais variadas seleções, sobretudo, as de expressão francesa. O seu sotaque está adequado aos mais variados jogos dos países francófonos, por isso, ao ouvi-lo a comentar o jogo de Cabo Verde, estranhei-o.
A primeira parte foi lenta, tão lenta que parecia jogar-se ao ritmo de uma morna. Sentado no sofá, foi tempo de tirar uma sesta.
Uma folguinha.
A desejada atividade de fim-de-semana.
Acordei no início da segunda parte, com o resultado ainda a zero. Ainda estremunhado, ouvi o comentador, atrás mencionado, a falar num país representante da lusofonia.
O conceito tinha sido posto em causa, nas páginas do jornal público por António Pinto Ribeiro, no dia 18 de Janeiro em artigo intitulado “Para acabar de vez com a lusofonia”, fundamentando a sua teoria, pelo número de habitantes dos países africanos que falam português.
O golo do Gana, um penalti ao jeito dos mafiosos jogos europeus, tornou o jogo vivo. Os jogadores de Cabo Verde empolgavam, procurando chegar ao golo do empate. Em matéria de ritmo, a morna tinha sido destronada por um funaná, ou até uma coladeira. Lembrei-me das músicas de Os Tubarões, da voz de Ildo Lobo, que tive a oportunidade de ver a cantar o tema Sodade no cineteatro de Mindelo, na ilha de S. Vicente.
A certa altura, o comentador lusófono fala do mundo crioulo. Na oportunidade de afirmação do mundo crioulo em matéria de desporto. Podendo este campeonato fixar mais jogadores, naturais daquele país, na seleção de Cabo Verde. No mesmo jogo, misturam-se conceitos. No último lance, os mesmos comentadores incentivam o convidado cabo-verdiano a traduzir para crioulo a expressão “vamos ter fé”.
Livre marcado, bola desviada para canto, por um super Abdul Fatawu Dauda, o herói da tarde. Todos na área. Canto mal marcado e após uma longa corrida, o Gana faz o segundo golo.
No final do jogo, Olivier Bonamici fez uma apreciação correta, falando da falta de eficácia dos atacantes de Cabo Verde. O outro comentador e o convidado falaram da vitória moral e do erro de arbitragem como justificativo para a derrota. Argumento que se estendeu a vários jornais dos mais diversos países africanos de expressão oficial portuguesa.
Afinal, a lusofonia existe. Não apenas nas afinidades linguísticas e culturais mas, também na reação coletiva à derrota… desportiva.
 
(a publicar no dia 7/02/13)