quarta-feira, junho 12, 2013

A origem toponímica

         A toponímia, ao contrário do que se possa pensar, não se limita a dar nome às ruas e a colocar placas alusivas a esse nome, nos pontos mais estratégicos dos arruamentos.
            O estudo dos nomes de lugar, da sua origem e evolução, definem verdadeiramente a toponímia, que estuda também os nomes de cidades e outras localidades.
            Ao recolhermos informação sobre uma rua, muitas vezes, temos acesso ao nome anterior e conseguimos perceber a evolução associada, conseguindo datar a mudança e a nova designação. Temos como exemplo, a Rua da Liberdade, anteriormente designada de Marechal Carmona. Esta referência, associada à mudança de regime político em 1974, encontra semelhantes alterações um pouco por todo o país, em Avenidas, Praças, Pontes e outras obras públicas.
            A abertura de novos e modernos arruamentos, eliminando os existentes, provocou no passado o desaparecimento de alguns topónimos. Aqueles com mais relevância, serviram para batizar outras artérias, transferindo-se esse nome para outros locais das cidades, numa eterna homenagem. Não tenho de memória, exemplos lançados em S. João da Madeira, deste género, que possam ter provocado a eliminação, ou a transferência de nomes de ruas, para melhor exemplificar ao leitor, a evolução da cidade.
            Pelas ruas da cidade existem placas explicando os seus nomes: as homenagens da população a notáveis da terra, às profissões que marcaram a economia da cidade, a forasteiros ligados à política e às artes, além da referência à origem da povoação, nomeadamente invocando os seus lugares.
            Os lugares são a génese de qualquer localidade. Os lugares uniram-se por caminhos, estes deram origem a ruas, batizadas ao longo dos anos, conforme a vontade popular ou do poder político.
            Ao observarmos o nome dos lugares de S. João da Madeira, podemos perceber a sua história.
            Primeiro temos que perceber que vários desses nomes são comuns a várias localidades: Fontainhas, Devesa, Corgas, Espadanal, Vale, Fundões, Laranjeiras e Ribeiros. Estão associados à relação do homem com a natureza, neste caso, com cursos de água e aproveitamento agrícola (devesa significa campo fértil das margens de um rio).
            Os nomes Ponte e Travessas pressupõem a ação de travessia, neste caso do rio Ul, o que poderá indiciar o trajeto de antigas estradas, antes do traçado da estrada real.
            Lugares designados como Pedaço, Praça, Tapado, Volta e Vista Alegre são compreensíveis à luz do entendimento popular e das suas simples designações.
O mesmo já não acontece com Parrinho e Carquejido. Nomes sem paralelo no léxico português e de compreensão suposta, através da derivação de palavras associadas a produtos agrícolas, no entanto, como diria Agustina Bessa Luís, “não é qualquer filólogo que se atreve nos labirintos das origens fogosas do linguajar do povo”. Por isso...
Orreiro é definido no dicionário do Instituto Houaiss como “cavidade da trave do moinho de vento”. Assim sendo, ficamos com uma explicação para o nome do lugar e permite equacionar a tese de José Mattoso, sobre a designação tópica “da Madeira”, como localidade onde existiam oficinas de trabalhos em madeira: carpintarias e afins.
  Retrocedendo-se na história, chegamos à origem de outros dois lugares: Quintã – significa grande quinta, surgindo na documentação medieval. Anterior a essa época, ainda em período da reconquista cristã, é a utilização do termo casal – significando pequeno povoado, ou conjunto de casas, ou até mesmo limites de uma propriedade. Casaldelo e o seu oponente Casal Novo devem provir desta época.
Por fim, temos a Mourisca. É aceite pelos historiadores que o termo “mourisco” era utilizado pelos populares para designar tudo o que fosse antigo. Na década de 50 do século passado, procedeu-se a escavações arqueológicas neste lugar da cidade, não se tendo encontrado nada de significativo. O termo popular ficou. A utilização do morro pelos mouros, como ponto de vigilância dos movimentos, de norte para sul, das tropas cristãs é perfeitamente aceitável. O princípio de comunicação com a cidade a defender seria o de atalaias separadas vários quilómetros entre si, dispostas ao longo das principais vias / estradas e comunicando através do fumo, provocado por grandes fogueiras acesas nesses pontos elevados. Efetivamente, da Mourisca tem-se um campo de observação privilegiado sobre toda a envolvente.
Do período Visigótico, já escrevi em texto anterior, que existe um documento que refere S. João da Madeira e um nome de lugar – Ascarigo - de origem germânica, embora para mim, apenas interessado e não estudioso sobre o assunto, seja difícil fazer prova.
A via romana entre Coimbra e Porto teve que atravessar o rio ul, por isso à falta na cidade de vestígios do império, ficamos com uma noção histórica: quando estes chegaram à Península e encontraram os túmulos hemisféricos dos povos celtas, chamaram-lhes mamoas, por se assemelharam à forma de seio feminino.
A existência na cidade da Rua da Mamoínha, com todo o significado arqueológico e linguístico associado, prova que esta cidade foi habitada por povos celtas.
A toponímia permitiu essa revelação, perpetuada pela antiquíssima sepultura, demonstrando como é importante salvaguardar os termos e expressões populares, para se entender melhor a origem duma povoação.
 
(a publicar no dia 13/06/13)
 
 
 

quarta-feira, junho 05, 2013

Feriados

         O próximo dia 10, segunda-feira, será o último feriado nacional, em dia útil, até ao Natal.
            Explicando... O feriado seguinte será o dia 15 de Agosto – Assunção de Nossa Senhora – apesar de ser numa quinta – feira - é no mês de férias da maioria dos portugueses. Depois desse, só volta a ser feriado nacional a 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição, este ano ao Domingo. Por isso, só mesmo no Natal é que haverá novo feriado em dia útil.
            Valha-nos os feriados locais, a maioria em dias da semana, como os próximos S. António e S. João, nos concelhos que adotaram estes santos para oragos e que elegeram o dia do santo padroeiro para feriado municipal.
            S. João da Madeira terá o seu feriado municipal a 11 de Outubro, uma sexta-feira, o que é sempre bom.
            A supressão dos quatro feriados no calendário de 2013, sentiu-se a semana passada. A igreja abdicou de festejar o Corpo de Deus na tradicional 5ª-feira, ou melhor, nos 60 dias a seguir à Páscoa. Os outros três feriados, suspensos este ano, serão no último trimestre do ano, o 5 de Outubro, Dia da Implementação da República, o dia de Todos os Santos – dia 1 de Novembro e finalmente, o dia da Restauração da Independência, o 1º de Dezembro.
Em resumo, nos próximos cinco anos, o primeiro semestre terá sete feriados (um sempre ao Domingo – a Páscoa) e no último haverá apenas três. A estes juntar-se-á o feriado local, como atrás mencionei.
Ficou por resolver o Carnaval, feriado para uns, férias para outros e intolerância para muitos.
Ao longo da minha profissional, já trabalhei em dia feriado, por necessidade laboral. Tirando o primeiro dia do ano, a Páscoa, o quinze de agosto, o primeiro de novembro e o Natal, em todos os outros pontualmente labutei.
Muitas vezes, no calendário industrial, os feriados atrapalham. A programação fica apertada e as perdas associadas, à normal quebra de ritmo, são prejudiciais.
Os feriados encostados ao fim-de-semana são os meus preferidos. O que é entendível pelo prolongamento do descanso, permitindo programar viagens, se for o caso. Pontes, atendendo ao calendário escolar dos meus filhos, prefiro não as ter.
A mobilidade nos festejos do Corpo de Deus, para o último domingo, permitiu verificar que existe a possibilidade de no futuro alterar a data de vários feriados, aproximando-os do fim-de-semana. A rigidez do calendário é prejudicial, nomeadamente ao nível da produtividade, não esquecendo, por outro lado, o desenvolvimento do potencial turístico do país.
Atendendo à necessidade de exemplificar, o feriado de Carnaval podia ser à segunda- feira e o fim do ciclo pascal, podia ser um dia mais tarde, ou seja, o Corpo de Deus festejar-se à 6ª-feira. Como estes, outros feriados sem dia fixo na semana, podiam ser perfeitamente ajustados ao calendário, não se perdendo o seu significado com as respetivas comemorações.
A discussão à volta do número de feriados de um país poderá fazer sentido. Contando que alguns sejam trocados por feriados europeus - para permitir uma maior coesão do espírito continental.
Daqui a cinco anos, tudo será de novo equacionado.
Aproveite bem o feriado do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
 
(a publicar no dia 06/10/13)
 

quarta-feira, maio 29, 2013

Depois das 18

            Às seis da tarde começo outra vida.
Saio do trabalho e dedico-me a outras causas.
A viagem de carro permite-me antever o final de tarde. Preparo, ou revejo mentalmente, os assuntos de qualquer reunião marcada para essa hora, ao volante do automóvel, em condução estilo piloto automático. É a melhor forma. São várias as vezes, que chego aos locais de encontro e a temática é prontamente assumida, sem tempo para o retemperador café ser saboreado. Entro repentinamente noutro vocabulário, escuto outras preocupações dos interlocutores, quebrando a rotina e exigindo uma adaptação imediata, para ser produtivo o final de tarde.
Quando o destino é a biblioteca, demoro a desligar-me da atividade profissional. Entro no edifício e verifico a ocupação de quem ali trabalha. Deformação de controlador de atividade laboral. A solicitação de um livro, a dúvida acerca sua disponibilidade, a recolha na estante indexada, são ações que permitem colocar-me no papel de utente. Aparece um curioso, assíduo no espaço, tenta um diálogo, procurando indicar o autor de um ou outro livro, requisitado apenas pelo título, ou tentando citar uma frase escrita. Não o ajudo muito. Fica incrédulo. Se não sei quem é o autor, não finjo. Pouco ou nada cito. Não me interessa, nem tenho memória para isso. Aliás, costumo evocar a frase “este país não teve uma revolução” de António Lobo Antunes mas, se me perguntarem, de que livro? Não recebem uma resposta concreta.
A leitura acompanhou-me no final das tardes desportivas dos meus filhos. Um momento de introspeção prolongado para novas épocas. Uma boa alternativa às reuniões de carater social.
Nem sempre é assim.
Nesta época de provas finais do ano letivo, acompanho com a devida atenção os estudos dos meus filhos. Revejo as matérias, fazendo as sacramentais perguntas:
- Porque falhou o Fontismo?
Apetece-me questionar, depois de verificar as virtudes expressas no manual de História, relativas a este período de governação de Portugal, na segunda metade do século XIX.
Remeto-me ao essencial. À simultaneidade das melhorias dos meios de comunicação, nada digo. Pergunto apenas pelas estradas, pelas linhas ferroviárias e pela melhoria dos portos. A matéria quer-se sabida de acordo com o manual de estudo.
- Qual foi a cartilha do Fontismo?
Um trocadilho apetecível, ao rever João de Deus.
Dou enfâse à ocupação dos baldios, a lei das sesmarias vários séculos depois e contenho-me, para não estragar o estudo. A página seguinte do manual mostra o realismo, a população aumentou e a agricultura não produzia alimentos suficientes. Além do êxodo rural, os desgraçados emigraram, sobretudo para o Brasil, a necessitar de mão-de-obra.
Pela segunda vez, apetece-me perguntar quais as causas de insucesso do fontismo?
O aumento da dívida pública não é mencionado, como consequência da necessidade de contrariar, as várias décadas de atraso estrutural. O despesismo dos Bragança também fica afastado dos manuais. O lado sensato do Rei D. Luís não foi suficiente para o equilíbrio das contas públicas, nem para impedir o aumento de impostos. No entanto, nada disto justifica o regicídio do seu sucessor.
A ação de Fontes Pereira de Melo, António Maria, para completar o seu nome, foi importante para a modernização do país e para a regeneração da política, só que não teve acompanhamento a nível financeiro.
O desequilíbrio nacional perpetuado até aos dias de hoje.
Olho para relógio, ainda dá tempo para mais uma pergunta, de resposta pronta e rápida.
Começo a ouvir a resposta. Fixo-me na hora. Recordo o meu primeiro emprego. Os administrativos tinham já saído, os técnicos também. Dezanove horas quarenta e cinco minutos, ficava sozinho e responsável por fazer cumprir o plano de produção até às vinte e três horas. Tudo corria bem, até o João, do departamento de expedição, surgir com informações antagónicas ao meu plano. Era Melo o seu último apelido. Dada a semelhança, apetecia perguntar-lhe:
- Porque falhou o Fontismo?
Não perguntava. Ainda dava tempo de remediar a produção. 
 
(a publicar no dia 30/05/13)
 

quarta-feira, maio 22, 2013

O borralho da velha

            Nunca tinha vivido um mês de Maio tão frio. Durante anos ouvi o ditado popular, das velhas, das cerejas e do borralho. Quando havia alguma oscilação, tornando as temperaturas primaveris menos amenas, lá surgia o provérbio. Jamais senti as baixas temperaturas de Maio, como as deste ano de 2013.
            Uma experiência para comprovar um adágio popular, é interessante. Os hábitos invernosos não se recuperam. Apesar do frio, do vento cortante, da neve acima dos 1.400 metros, a roupa vestida é mais ligeira. Dispensando-se as lãs e os casacões que tão bem aconchegam o corpo em Janeiro ou Fevereiro. A claridade até ao jantar e o número de horas solares, ajudam a superar o frio. A noite é recebida da mesma forma primaveril e qualquer programa noturno é apetecível.
Foi com este espírito, que na passada sexta-feira, decidi assistir ao concerto de abertura do IX Concurso de Guitarra de S. João da Madeira / G.Artes. Fiquei liberto dos meus compromissos de pai precisamente à hora de início do concerto, só que a quinze minutos de distância. O termómetro do carro indicava 10º centigrado e a noite ainda não estava escura.
Apesar do atraso, optei por assistir ao concerto de Dejan Ivanovic. Entrei no final da primeira música, sem saber qual o alinhamento. Mal me sentei, fui brindando com a explicação da música da seguinte, estremeci ao ouvir o nome de Joaquín Rodrigo. Junto al Generalife, a música executada pelo sérvio, transportou-me pelas paisagens sonoras da guitarra espanhola. Estava já deliciado. As cinco bagatelas (tradução linear) da música posterior, de William Walton, ajudaram-me a continuar a viagem, por um mundo desconhecido.
Ao intervalo, estava rendido ao brilhantismo de Dejan Ivanovic. Para a segunda metade, o alinhamento escolhido mostrou o virtuosismo de dois compositores contemporâneos portugueses, Ricardo Abreu e Carlos Moreira, presentes na sala e por isso, aplaudidos quando chamados ao palco.
A explicação do guitarrista prosseguiu apresentando a música final de J. S. Bach. Para mim, leigo nestas andanças da guitarra, uma novidade sonora. A caraterística barroca esteve presente em toda a execução. Sem exagero, a dedilhação assemelhava o som produzido ao de um cravo, tal era a preciosidade do guitarrista, colocando-nos no século XVIII, num apropriado salão de música do Sacro Império Romano – Germânico. 
Os aplausos finais, com a plateia em pé, permitiram verificar o estado de satisfação do público. Aproveitei o momento, de luz já acesa, para analisar a ocupação da plateia, comprovando a ideia retida ao intervalo, o número de jovens presentes, bem como os membros da Associação de Pais, são o novo público dos concertos organizados pela Academia de Música.
A fidelização de público é essencial para o sucesso de eventos culturais. Só assim, se pode superar a reduzida divulgação e a sobreposição de eventos no calendário regional, lapsos que persistem na programação cultural da cidade.
Cativando essa assistência, tornando-a interessada, regular e em número considerável, como demonstrado nas últimas edições do Festival de Teatro de S. João da Madeira, pode-se ambicionar a eventos de maior dimensão, tão ao jeito da lotação da futura Casa da Criatividade.  
 
(a publicar no dia 23/05/13)
 

quarta-feira, maio 15, 2013

O que diz François

            Um ano após as eleições presidenciais francesas, a apreciação dos eleitores relativamente ao presidente eleito, não podia ser pior. As sondagens, divulgadas na semana passada indicavam que apenas 19% dos eleitores voltaria a votar em François Hollande.
            Se à direita, a derrota inesperada de Nicolas Sarkozy, provocou um mal-estar e obviamente uma grave desconfiança relativa a um presidente de origem socialista, traduzindo-se isto em críticas constantes e depreciação do trabalho efetuado pelo atual presidente, já o eleitorado de esquerda, embalado pelo regresso à presidência, 17 anos depois, esperava não ouvir da boca do eleito palavras como cortes de subsídios, aumento da austeridade, entre outras medidas para combater a crise financeira da França.
              François Hollande não cede ao mediatismo neoliberal: continua consciente do seu sentido europeu – evita o confronto federalista com a Alemanha, no entanto, demonstra o seu poder bélico com um raid no distante Mali; ajusta a dimensão do Estado à receita fiscal, injetando na economia fundos estatais procurando alavanca-la, apesar de, tal como em outros países atlânticos, os indicadores de atividade económica não serem famosos.
            Perante isto, onde errou o presidente francês?
            Veja-se as medidas simbólicas: redução em 30% do seu salário e dos seus ministros, demonstrando o excesso de vencimento que o anterior presidente ousou auferir. Aumento de impostos para as grandes fortunas (1500 franceses), tendo o infortúnio de o autor da medida, o seu ministro das finanças, ser também evasor fiscal – o que obrigou à publicação de uma lei de transparência sobre os rendimentos dos políticos.
Errou?
Na essência, François Hollande escolheu os alvos, a classe política e as grandes fortunas.
A manipulação da opinião pública não se fez esperar. Os comentários depreciativos sobrepõem-se a todos os outros, denegrindo a sua imagem e claro, as sondagens são divulgadas como grande perdas de popularidade e apresentadas como o resultado de uma péssima gestão política.
No essencial, a teoria de Hollande não é aceite.
Muito menos em governos de origem liberal, como o de Portugal. Os políticos do eixo do poder não abdicam dos seus privilégios, não baixam os seus vencimentos, nem as regalias, nem as ajudas de custo, nem mesmo prescindem de gabinetes recheados de assessores, de secretários e de motoristas.
A única medida apresentada nestes últimos dois anos, para redução destes privilégios, foi a eliminação de 18 governadores civis e de 25% dos presidentes de junta de freguesia, não significando com isto uma grande redução da despesa com a classe política. Pelo contrário, Miguel Relvas deixou como legado um diploma enquadrando as várias comunidades intermunicipais, criando novos cargos políticos, que muito provavelmente serão chumbadas pelo Tribunal Constitucional.  
Por cá, a manipulação é feita de outra forma: acusa-se os reformados e os funcionários públicos, ataca-se os seus vencimentos e coloca-se os outros contribuintes contra eles. Os comentadores e analistas dão-se ao frete e a classe política vai reinando, não se beliscando minimamente.
 
(a publicar no dia 16/05/13)
 

quarta-feira, maio 08, 2013

Quilómetro Zero

            Nas cercanias de S. Pedro do Sul, percorrendo o caminho pedestre em parte traçado na antiga linha do Vale do Vouga, desviei-me do trilho, para evitar um afluente em fúria. Um pequeno afastamento, o suficiente para causar um transtorno de horas extra de caminhada. Procurava a distância mais rápida (e seca) para regressar à sede de concelho e surgiu no gps, meramente indicativo – geograficamente mais a oeste, a N 227, ou seja, a estrada nacional 227, que liga S. João da Madeira à cidade da região de Lafões.
            Viajei no tempo.
            Esta estrada nacional iniciava-se precisamente no cimo da Rua da Liberdade. Ali estava implantado o marco do quilómetro zero. Do lado direito quem desce. Um paralelepípedo granítico, com o topo plano, tendo como indicação o tipo de estrada, o seu número e claro o zero, indicando o inicio de contagem.
            A liberdade mudara o nome da rua. A placa do Marechal Carmona ficava submersa na política, a nova designação toponímica viveu durante anos debaixo da consecutiva propaganda, cartazes sobre cartazes, amarelecidos pelo sol, lacados pela humidade, no entanto, uma nova camada de posters sobrepunha-se.
Passei a minha infância sem ver a placa com o nome da rua. No caminho para a escola, passava rente à parede cheia de cartazes, olhava para o outro lado da rua e contemplava o marco. Isolado, na esquina, no alto daquela rua, parecia um trono.
Um dia ao atravessar a rua, a caminho da igreja, ou por outro motivo, convenci quem me acompanhava a deixar-me subi-lo. Sentei-me. Com um sorriso de satisfação, os meus olhos fitaram a janela do meu quarto.
A Rua da Liberdade, na década de 70 do século XX, tinha passeios laterais de calçada portuguesa e a estrada era em paralelo de granito escuro. Na esquina do marco não havia qualquer edifício. Um terreno vazio, desnivelado, com acesso por duas rampas opostas, permitia estacionar dezenas de motorizadas e um Renault 6. Dali para baixo sucediam-se os prédios, ocupados no rés-do-chão por lojas: no imediato surgia a Philips com o seu letreiro vertical azul, seguida dos móveis da Casa Ferreira. Mais abaixo, o Pagapouco ocupou as instalações do Café Eldorado, no entanto, o reclame deste enferrujou-se durante anos, em frente aos meus olhos. A barbearia Salão Dourado existe desde a minha meninice naquelas instalações. Ao seu lado, fechando a sequência, vivia uma família Ribas e se a memória não me atraiçoa, havia ali um estabelecimento de artigos têxtil.
Do outro lado da rua, a sequência iniciava-se com a Casa Glória – outro resistente, seguia-se o alfaiate FatoLindo, segue-se o Café / Casa Avenida – mais um resistente. Noutros tempos existiu mais abaixo a Casa Cilita (Reis). O Estúdio Almeida, grande resistente, antecipava a Garagem LM, ambos tinham reclames exteriores verticais e gigantescos, que ladeavam a minha vista sobre a rua. Deste lado da rua, o Porfírio, ou Grundig, fechava a sequela.
Dali para baixo, até ao cinema, existem alguns prédios que não tenho a certeza se assisti à sua construção, embora a minha recordação esteja associada à instalação das primeiras lojas. O que é normal, se nos colocarmos na perspectiva de uma criança. Por isso, para não desvirtuar a cronologia, vou concentrar-me primeiro no trecho esquerdo da rua. Depois de atravessar a Rua Júlio Dinis, surgia uma drogaria, que deu lugar ao Minipreço. Por ali abaixo, poucas variações houve: Padaria do Souto, Ourivesaria / Relojoaria, Aldeia Velha, a entrada para o Santola, a Sapataria Paulita, uma loja de roupa – cujo nome esqueci – uma entrada para um restaurante e a seguir o Café 25 de Abril, mesmo antes do Cinema Imperador, na época das sextas-feiras manhosas e das matinés de filmes indianos. Do lado direito quem desce a sequência era esta: tintas Robbialac, os concorridos bilhares do 104, as lãs do Sr. Cardoso, a Casa Santos e o Ulic Bar (este prédio vi a ser construído) e a Corpini – embora me recorde de uma outra loja, por ali. A seguir existia uma enorme buraqueira, à espera da construção.   
Comércio, serviços e moradores sempre coabitaram pacificamente na Rua da Liberdade. Vários edifícios albergam ainda hoje escritórios de médicos e advogados. Outrora existiram seguradoras, sindicatos e cabeleireiros.
A azáfama da rua comercial, o rodopio de clientes e forasteiros, nem permitia perceber que naquela rua havia moradores. As portas de serventia estavam abertas para acesso facilitado dos clientes ao primeiro andar e mais acima, nos seus apartamentos, viviam famílias. Não vou nomeá-las exaustivamente. Desculpo-me, prometendo uma outra escrita em futura oportunidade.
Importa registar que a Rua da Liberdade, apesar de atravessada por outra Rua, foi sempre uma só. Não faz sentido, agora no século XXI, ficar dividida em termos de aspecto e funcionalidade. Esperemos que impere o bom senso.
A história vai-se reescrevendo. A da Rua da Liberdade também. Eu como antigo morador perpetuo-a, ficando satisfeito por verificar que o actual Presidente da Câmara de S. João da Madeira, Ricardo Figueiredo, também viveu ali a sua infância. 
 
 
(a publicar no dia 09/05/2013)
 

terça-feira, abril 30, 2013

Turismo complementar

O Turismo Industrial, lançado nos últimos anos pela Câmara Municipal de S. João da Madeira, evoluiu da fase embrionária - com a criação do conceito, a adesão de empresas, o estabelecimento dos circuitos pelo património industrial, até uma nova fase, de aproximação da cidade ao conceito turístico, transformando as empresas em palcos de concertos, ou em locais onde se declamou poesia e claro, dando oportunidade aos seus trabalhadores de exprimirem as suas capacidades artísticas, como foi o caso do grupo coral da Heliotextil.
Os números divulgados, por ocasião do primeiro aniversário do Turismo Industrial, permitem classificar esta iniciativa de sucesso, com nota muito boa. No entanto, está por estudar o impacto deste turismo na economia local, nomeadamente ao nível dos canais tecnicamente designados por HORECA – Hóteis, Restaurantes e Cafés. Sem esquecer o comércio, de qualquer tipo.
Existe uma barreira entre o Turismo Industrial e o turismo familiar, que apenas aos fins-de-semana e nas suas férias tem oportunidade de viajar - dispondo de tempo para visitar outros locais. A incompatibilidade de horários é um problema.
O grande objectivo do turismo é atrair mais visitantes à cidade.
Para isso é necessário criar um efeito diferenciador, com base em harmonia entre as iniciativas a promover e o conceito turístico.
É sobre este eixo que é necessário complementar o conceito de turismo industrial. Suportando-se no posicionamento exclusivo do conceito e dos vários produtos. A tradição industrial do concelho, os seus produtos esquecidos na história: cera, máquinas de costura, banheiras, torneiras, colchões, além dos artigos de chapelaria, passamanarias e calçado, entre outros, permitem alargar o envolvimento comunitário, potenciando qualquer evento de recriação histórica que se ouse organizar. Para se conseguir uma cobertura mediática positiva, é preciso um certo exotismo, algo conseguido com a utilização maciça pela população de um dos produtos exclusivos atrás mencionados, por exemplo, os chapéus.
A extensão do conceito de turismo industrial à gastronomia tem sido utilizado, através da realização de um festival num único fim-de-semana, no entanto, seria preferível incluir na ementa semanal de alguns restaurantes, tal como é utilizado, com outros pratos típicos da região. A oferta gastronómica pode ser desenvolvida com inovação, com a introdução na comunidade de nomes dos produtos industriais. Exemplificando, as pastelarias locais poderiam concorrer para a criação de bolos chamados capeline ou tamanquinhos, de tamanho apropriado, com formatos iguais aos produtos.
Em matéria de novas “portas” de entrada na cidade, utilizando-se as potencialidades do concelho, em tempos idos, confidenciei a pessoas amigas um conceito a explorar, directamente ligado ao turismo do conhecimento. Relacionava-se com a instalação de um borboletário nos jardins do Palacete dos Condes, propondo ainda uma ala para estudo das traças, essa praga associada ao têxtil e obviamente à chapelaria.
O conceito de turismo na natureza, em ambiente urbano, poderia desencadear através de uma parceria, com um investidor privado, na criação de uma pista permanente de downhill na zona dos antigos moinhos de Casaldelo, podendo-se estender os divertimentos a slide assim para o gigantesco, aproveitando-se a encosta deste lugar para nascente.  
Ideias desenvolvidas nos últimos meses, que optei por divulgar em exclusivo aos leitores do labor e que completam os meus textos alusivos ao turismo, que fui publicando neste jornal.
 
(a publicar no dia 02/05/2013)

quarta-feira, abril 24, 2013

Memórias de um escritor

            Regressei a Aquilino Ribeiro.
Tinha obtido como referência tratar-se de uma obra imperdível - Um escritor confessa-se. Num final de noite, procurei-o na prateleira da sala lá de casa, na colecção de obras completas do escritor. Uma colectânea de romances, todos com a mesma capa castanha, com a lombada em numeração romana, distinguindo-se assim uns dos outros. Para obter o título de cada volume, tive que abrir a capa, para verificar no interior o seu nome. Um por um, procurei em vão. Voltei passado uns dias, com mais tempo e continuei sem sucesso. Não tinha visto mal e afinal faltava ali um importante título da obra de Aquilino Ribeiro.
Mal tive oportunidade, requisitei-o.
Uma das primeiras edições, de 1972, de tiragem reduzida, 350 exemplares, vendidos a duzentos escudos cada. 
No final do primeiro capítulo, percebi logo o que tinha entre mãos. Duma assentada, fiquei preso ao enredo da biografia do escritor. A sua autobiografia, os seus passos na sua instrução, a sua desilusão no seminário, os primeiros dias em Lisboa, o regresso à serra da Nave, de volta à Lisboa pré-republicana, a sua prisão e desterro à espera da revolução de 1910. Um consolo.
Em menos de quatro dias, mesmo cumprindo as minhas obrigações profissionais, pessoais, sociais, domésticas e claro, familiares, sorvi as palavras de Aquilino Ribeiro, mesmo aquelas que o caracterizavam, os neologismos, ou o seu português arcaico de inspiração popular. A coragem demonstrada em campanha revolucionária, a audácia na fuga da prisão e posteriormente o desmascarar dos hipotéticos regicidas são um excelente exemplo da capacidade narrativa do escritor. A isto junte-se o período em Beja, o regime hipócrita do seminário e a sua evidente falta de fé. Os argumentos teológicos expostos e a capacidade de os contrapor, através da metafísica, demonstravam a sua capacidade de estudo, de assimilação e oratória. Uma verdadeira tese, sempre importante para todos os que começam a ter dúvidas.
Outra vantagem de ler Aquilino, é ter um contacto com a evolução social e histórica das aldeias portuguesas, é perceber como durante séculos, nenhuma evolução por ali existiu, nada aconteceu, nem uma estrada foi construída a ligar as aldeias entre si, ou às vilas sede concelho. Perceber isto, é entender as rivalidades entre “os povos de cada aldeia”, segundo palavras do escritor.
Pelo meio da leitura, fui bombardeado pela notícia da semana: a saída do Dr. Castro Almeida para o Governo.
(Isto entra um pouco à pressão.)
Vão ser feitos vários balanços: as obras herdadas e concluídas, as obras lançadas e concluídas ou quase, pois também as há, assim como, as lançadas e não começadas, onde destaco a nova piscina interior.
Nem só de obra se faz um balanço do mandato agora interrompido.
Para quem, como eu, escreveu várias vezes, argumentando o melhor que sabia, opondo-me a algumas medidas, criticando opções, estudando e apresentando alternativas, lutando contra o unanimismo, nunca tendo sentido qualquer agressividade por parte do executivo, nem dos militantes do partido do poder autárquico, só posso realçar a convivência democrática.
A causa pública é assunto recorrente dos meus textos, a vontade em fazer-me ouvir, sem ninguém temer, permitem-me verificar que as palavras dos mestres da literatura nacional, que tanto aprecio, foram assimiladas a preceito.
 
(a publicar no dia 26/04/2013 )
 

quarta-feira, abril 17, 2013

Adeus Leopold Bloom

Aquela noite de 16 de Junho de 1904, tive-a entre mãos durante mais de cem noites. Todo o inverno, incluindo a quaresma, mais uns dias chuvosos a seguir à Páscoa. Noites essencialmente frias, aquecidas a chá, ou a café, com os olhos postos naquelas páginas. Linha após linha, sem grandes avanços, com o marcador fixado na mesma zona do livro. Virava uma folha, lia mais uma página, o marcador avançava esse tanto. Sozinho no estabelecimento comercial, deambulando pelas ruas de Dublin, elegi para bebida o Irish Coffee, mais apropriado à temperatura da narrativa. Sorvia o líquido, ficaram sempre as natas.
Adeus Shane Macgowan. Ébrio esquecido da adolescência. Agora com dentes novos e barriga saliente, a cantar sentado, sobriamente soletrando todas as silabas das canções. “Dirty old town” é uma memória desse período da vida, não a letra, com os acordes e arranjos musicais, é pelo contrário, toda a minha envolvência urbana, em ruas escurecidas, envolvidas pelos papéis, beatas e outras coisas deitadas para as calçadas, as paredes desbotadas, esburacadas e urinadas, velhos prédios com portas abertas libertando a humidade da escadaria para a rua. Adeus ruivos, adeus duendes, adeus O’Hara, O’Sullivan, O’Neill, O’Connor, O'Brien, Byrne, adeus gente vestida de verde, de copo na mão, entoando: “I am going where streams of whiskey are flowing”.
Adeus Trapattoni, velho crente. Fiquei agarrado uma noite a seguir a um jogo de futebol da Irlanda com a França, falseado pela mão de Thierry Henry, como se o italiano ainda estivesse em Lisboa. Não julguem que foi pela crença do italiano. Ainda não fiz a estrada de Damasco. Anúncio publicitário: Visite a Síria, se tiver dúvidas teológicas ou mesmo ideológicas, percorra a nossa estrada mais famosa. Vindo de Tarso, Saulo transformou-se em Paulo, o mais famoso convertido. Ainda temos explosões e clarões. Fim de anúncio.
A edição pela qual segui a noite de Leopold Bloom, dividia-se em 3 partes. Não tinha explicitamente os 18 capítulos. Tornou difícil a leitura. Requisição, prazos de entrega não cumpridos, mais uma requisição, cartas da bibliotecária informando prazo ultrapassado, tudo regularizado, até à leitura final. Uma odisseia literária. De ilha em ilha, até aos braços de Penélope e ao seu monólogo interior. Capítulo por capítulo, com os estilos de narração diversificados, os passos por Dublin de Leopold, os seus encontros com outros personagens, Stephen Dedalus, entre outros, e um final arrebatador com Molly Bloom e o seu Sim.
Adeus Joyce, James, escritor de Dublin, de Trieste, Paris e Zurique. Irlandês, portanto. Referência literária que só agora tive oportunidade de devorar. A fonte de muitos prosadores, o escritor eleito para tantos.
Adeus Leopold Bloom, judeu convertido ao catolicismo, irlandês indiferente ao nacionalismo, publicitário de profissão - o anti-herói, personagem principal do livro que me preencheu o inverno.
Adeus Ulysses. Voltar-nos-emos a encontrar. A próxima vez será na Odisseia, na de Homero. Com cantos explícitos, personagens e episódios da história da literatura, pelas ilhas e batalhas helénicas. Até ao regresso a Ítaca de Ulisses.
 
(a publicar no dia 18/04/13)
 
 

quarta-feira, abril 10, 2013

Um produto integrado de Turismo

Coloquei duas questões nas páginas do labor da semana passada, referentes ao Turismo da região do Entre o Douro e Vouga, prometendo responder-lhes na presente edição: Existem produtos estratégicos para ocupar um turista durante pelo menos um fim-de-semana? Existem produtos regionais para serem comprados pelos turistas, incluindo produtos gastronómicos?

Pode-se responder a ambas as questões, enumerando os pontos de interesse turístico dos vários concelhos, integrantes da região.

Assim, temos em Santa Maria da Feira: o altaneiro castelo, uma aldeia típica nas margens do Douro, os núcleos museológicos do papel e da cortiça, o exotismo ornitológico em Lourosa, o centro de ciência Visionarium e o castro de Romariz. Como oferta de produtos para os turistas, temos a doçaria regional, onde se destaca a fogaça.

Em Arouca temos o convento com o Museu de Arte Sacra, as águas do rio paiva e dos seus afluentes, o geoparque com as suas trilobites e as pedras parideiras, os passeios pedestres, a serra da freita, as aldeias típicas em xisto. A raça bovina arouquesa é o principal atrativo gastronómico do concelho, complementando-se com os doces conventuais, incluindo um pão-de-ló curiosamente húmido.

Em Vale de Cambra é menor a oferta turística, aldeias com casas de xisto onde existem percursos pedestres e praias fluviais a merecerem o maior destaque.

Oliveira de Azeméis esqueceu-se de modernizar o conceito da Casa Ferreira de Castro, no entanto, através de um produto regional único, o pão de Ul, tem sustentado a sua oferta turística. Primeiro através do parque molinológico, instalando percursos pedestres na povoação e mais tarde, transformando Ul em aldeia típica de Portugal.  

S. João da Madeira oferece o Museu da Chapelaria, os seus circuitos pelo património industrial e claro, a venda de alguns produtos incluídos neste conceito turístico.

Uma vasta oferta turística, todos juntos, os concelhos podem ser um produto de integrado turismo: património militar, histórico e religioso, turismo na natureza, núcleos museológicos, centro de ciência e conhecimento, além dos inovadores conceitos de turismo industrial e turismo educativo, este invocado pelo geoparque. Tudo encaixado pela oferta gastronómica da região, como atrás referido.

A proximidade geográfica permite a um visitante completar o seu programa de fim-de-semana, procurando outras experiências turísticas, com curtas deslocações e enriquecendo o seu tempo de lazer. Para isso, é necessário criar um conceito regional comum em termos de turismo, para os cinco concelhos do Entre o Douro e Vouga, à semelhança do trabalho a ser desenvolvido pela ADRITEM – associação de desenvolvimento rural integrado das terras de santa maria. Nada serve ter conceitos inovadores, senão tiverem escala. A escala regional só se adquire com objetivos comuns. Uma nova dinâmica para a Associação de Municípios desta região, que pode ser enquadrada num futuro quadro comunitário de apoio e daí se conseguir o financiamento necessário para articular o turismo regional e dotá-lo de outra dimensão.

O texto já vai longo e por isso, a parte final desta dissertação sobre turismo, precisamente sobre a capacidade do Turismo Industrial se tornar ele próprio um produto integrado, ficará para uma próxima oportunidade. 

 

(a publicar no dia 11/04/13)

 

quarta-feira, abril 03, 2013

Turismo Regional

            A semana passada nas páginas do labor dissertei sobre o Turismo Industrial. Essencialmente, focando a necessidade deste produto ganhar escala, a nível da entidade regional de turismo onde o concelho está inserido, o Porto e Norte de Portugal.

            No enquadramento temático apresentei vários produtos estratégicos de turismo. Nesse texto genericamente demonstrei esses produtos, não entrando em pormenores exemplificativos por região, associação de municípios, ou mesmo por concelho.

           Ao turista, depois de se decidir por um destino, surgem sempre quatro questões: onde dormir? Onde comer? O que fazer? E o que comprar?

            Há concelhos pela sua capacidade de oferta, que respondem bem a todos estes requisitos. Outros estão mais limitados, servindo-se da vizinhança para completar a oferta.

            Exemplificando, com um pequeno passeio familiar, no nosso país. Uma manhã acordei em S. Martinho do Porto, percorrendo a enseada pela marginal. Desloquei-me para o interior, fazendo logo em Alfeizerão uma paragem para a obrigatória compra de pão-de-ló. Retomando a estrada em direção a Alcobaça, fui verificando a herança paisagística da ordem beneditina. Já na cidade, investi no mosteiro, visitando-o, revisitando os túmulos de D. Pedro e D. Inês de Castro. No exterior verificava a evolução turística da praça, as esplanadas envolventes, os arruamentos arranjados, espreitando no outro lado da colina a torre de prospeção petrolífera. Entretanto, a família entrou numa loja de produtos locais. Artesanato, acessórios de moda, louças, artigos de decoração, entre outros. Compra-se isto e aquilo.

O passeio prosseguiu tendo como destino a Batalha. Mais um Mosteiro, com pormenores arquitetónicos peculiares, vestígios históricos e explicações da dinastia de Avis, completavam a oferta dos túmulos da enclítica geração, ladeados pelos dos seus progenitores. Almoçamos ao ar livre, com vista sobre a estátua do Rei D. João I. Depois foi seguir para o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota. O guia fez a receção histórica, encaminhou-nos para o auditório onde foi exibida a recreação explicativa da batalha. No exterior, percorremos o quadrado, a ala dos namorados, até alcançarmos a capela prometida, em caso de vitória, pelo Condestável, o Santo.

De regresso à viagem pelo automóvel, rumei para o interior. Passei ao largo de Porto de Mós, vendo ao longe as particularidades do castelo. Naquele momento só me interessava atingir Mira de Aire. Aguardamos pelo momento da descida às grutas e percorrendo os mais de 600 degraus, deslumbramo-nos com as paisagens subterrâneas. No final, a proximidade a Minde, obrigou a uma visita rápida ao seu mar, em época estival, sem qualquer vestígio de água.

Por ser domingo, o resto da visita foi adiada. Um dia retomarei Tomar (bela redundância), visitando os vestígios dos Templários, seguirei para Ansião para visitar os fósseis marinhos, continuarei para Penela, onde além dos sinais do passado humano, será obrigatório comprar um queijo do Rabaçal e terminarei o passeio em Condeixa, visitando as ruínas romanas em Conímbriga, procurando um pouco mais a sul, as Buracas do Casmilo, pelo seu valor geológico e paisagístico.

Em quatro parágrafos, fiz referência aos produtos estratégicos da região Oeste e Centro. Paisagens, património histórico e religioso, particularidades da natureza são os motivos da visita; produtos gastronómicos e outros produtos regionais são a oferta para venda. Verificando-se como a proximidade entre concelhos pode ajudar a complementaridade na escolha de um itinerário turístico.

Estes concelhos, por terem pontos em comum, promoveram uma estratégia de desenvolvimento regional ao nível turístico.       

            Neste ponto, é importante fazer a reflexão da capacidade turística da região Entre Douro e Vouga. Reconhecendo que ao nível da restauração e hotelaria, existem várias ofertas, praticamente para todos os bolsos.

            Convém então lançar a seguintes questões:

Existem produtos estratégicos para ocupar um turista durante pelo menos um fim-de-semana? Existem produtos regionais para serem comprados pelos turistas, incluindo produtos gastronómicos?

Estas e outras questões merecerão uma resposta na próxima edição do jornal labor. Na qual, procurarei ainda justificar como o Turismo Industrial terá capacidade para se tornar um produto integrado de turismo.

 

(a publicar no dia 04/04/13)

 

quarta-feira, março 27, 2013

Indústria & Turismo

                O turismo é um dos mais importantes setores da economia nacional.
As particularidades de Portugal, a sua organização Estatal e o potencial turístico de determinadas regiões, conduziram à criação de onze entidades regionais de turismo (ERT).
De Norte para o Sul, correspondendo à organização regional do Estado, as várias delegações do turismo de Portugal foram distribuídas pelos mais variados locais, tendo como princípio a descentralização, dentro de cada região. Exemplificando: o Turismo do Porto e Norte de Portugal está sediado em Viana do Castelo; o Turismo do Centro de Portugal está localizado em Aveiro; em Santarém é a sede do Turismo de Lisboa e Vale do Tejo; a sede do Turismo do Alentejo, E.R.T. fica em Beja e o Turismo do Algarve, contraria a lógica anterior, pois está centrado em Faro.
Em algumas regiões, desenvolveram-se destinos turísticos com enorme potencial, surgiram assim as restantes seis ERT, apresentando-se também o local da sua sede: Turismo do Douro em Vila Real; Turismo da Serra da Estrela na Covilhã; Turismo de Leiria-Fátima em Leiria; Turismo do Oeste está em Óbidos; mais a sul temos o Turismo Terras do Grande Lago Alqueva em Reguengos de Monsaraz e o Turismo do Alentejo Litoral em Grândola.
            Cada região tem produtos turísticos, estratégicos e inerentes, a dinamizar. Em todas elas é comum a promoção da gastronomia, dos vinhos, do golfe, do património, do enquadramento paisagístico, de tratamentos de bem-estar e saúde, de turismo de negócios, de turismo na natureza ou de turismo religioso.
            Um pouco por todo o país existem roteiros, rotas, itinerários, circuitos ou percursos sobre o mais diversificado produto, inclusive patrimonial.
A diversidade gastronómica está presente nos imensos festivais, feira por produto, nos mais variados museus, ou até nas sete maravilhas.
O turismo na natureza alia as condições singulares de cada zona, em especial com o potencial desportivo de cada região, desenvolvendo-se infraestruturas para apoio aos turistas, em locais menos urbanos.
A região do Porto e Norte de Portugal, com enorme potencial turístico, procurou descentrar a sua atividade, criando delegações para se aproximar dos seus produtos estratégicos. Encontramos, assim:  
a) City & Short Breaks no Porto;
b) Touring Cultural & Paisagístico e dos Patrimónios em Guimarães;
c) Saúde & Bem -Estar em Chaves;
d) do Turismo de Natureza em Bragança;
e) do Turismo Religioso em Braga;
Dentro deste espírito, as autarquias procuraram enquadrar o seu potencial turístico, desenvolvendo os seus próprios produtos. Muitas potenciaram as tradições das suas populações, as suas festividades, o património histórico, o património religioso, as atividades culturais, além da culinária – a mais apreciada.
S. João da Madeira centrou-se na sua tradição industrial. Procurou os seus produtos característicos, produções exclusivas em território nacional em alguns casos e desenvolveu o seu próprio produto turístico: circuitos pelo património industrial, simplificados por Turismo Industrial.
Este conceito deu visibilidade às suas indústrias, dando-lhe um lado humano, permitindo conhecer o ofício de quem trabalha nas fábricas, dando a conhecer as operações diárias, a rotina do operador, o produto que manuseia, além das cores do artigo, dos cheiros das matérias-primas, dos barulhos das máquinas e essencialmente, o espaço envolvente ao operador em cada uma das indústrias.
Como novo produto estratégico, é necessário que o Turismo Industrial adquira uma escala maior. Um enquadramento dentro do Porto e Norte, ultrapassando os limites do concelho e também do Entre Douro e Vouga.
A região norte em termos turísticos divide-se em 4 sub-regiões: Minho, Trás-os-Montes, Douro e Porto. Toda a zona em redor da cidade do Porto, a sul e a norte não tem enquadramento turístico. Toda esta zona é caraterizada pela sua forte componente industrial. Indústrias variadas, de produtos diversos, algumas fortemente localizadas em determinadas vilas, cidades, concelhos, associações de município, ou micro-regiões. Extravasando o conceito Turismo Industrial de S. João da Madeira à região, poderíamos ter um produto chamado Porto Industrial ou Norte Industrial, ganhando escala mundial, alargando a oferta aos milhões de turistas que aterram no aeroporto da região.
Toda esta ideia assenta na possibilidade de se estabelecer em S. João da Madeira a delegação do Turismo do Porto e Norte correspondente ao Porto Industrial (é a minha designação favorita), ou seja, um aumento de importância do Wellcome Center instalado na Torre da Oliva, em Outubro de 2012.    
Desta forma, o pioneirismo da cidade, neste conceito turístico, seria premiado.
 
(a publicar no dia 28/03/13)
 
 

quarta-feira, março 20, 2013

Coligações

                Nos últimos cinco meses, nas reuniões com várias associações ou personalidades ligadas à cultura e ao desporto da nossa cidade, eu a tentar captar a atenção dos meus interlocutores, expondo as minhas ideias, procurando a sua validação para os debates do Fórum repensar a cidade e a sentir, do outro lado, uma enorme vontade de desviar o tema da conversa. Surgia a pergunta sacramental: Sabe quem é o candidato do PSD? Alguns sem formalismo, outros com reservas. No geral, colecionei várias hipóteses, ouvi todo o tipo de teses. Se de início fiquei surpreendido, nalguns casos quase irritado, passei a viver a situação num pleno estado de diversão.
Percebi que as eleições autárquicas de resumem a isso: a descobrir quem são os candidatos. O “tabu”, o tempo de espera na divulgação desse nome, imposto pelo PSD, tem intrigado a cidade. Procuram-se novidades entre os aficionados da política, nos militantes das várias forças políticas e como nada surge, é de crer que nada está decidido. A gestão das expetativas está a ser bem conseguida.
Neste impasse surgiu um actante novo, improvável. Uma carta do secretário-geral do PS aos seus homónimos do PCP e Bloco de Esquerda, propondo coligações para as próximas eleições autárquicas.
Quanto valeria uma coligação destas em S. João da Madeira?
Em termos de votos, o único ponto que pretendo avaliar, nas últimas eleições autárquicas a soma das três forças políticas equivaleu a 4.061 votos, com o PS a obter 3078, a CDU obteve 673 e os restantes 310 foram arrecadados pelo BE. Os resultados eleitorais em eleições legislativas são diferentes: em 2011, o somatório das forças de esquerda equivaleu 5280 votos – divididos da seguinte forma PS = 3888; CDU = 672; BE = 720; em 2009 o resultado tinha sido ampliado pelo “efeito Socrátes”, 6961 votos recolheu a esquerda, com o PS a amealhar 4967; nestas eleições o BE obteve 1386 e por fim, a CDU 608 votos.
Três eleições com cenários diferentes. O BE com resultados mais expressivos nas legislativas do que nas eleições autárquicas e a CDU a manter o seu nível de votação em todas as eleições. Por outro lado, o PS a conseguir um ótimo resultado nas legislativas de 2009 e em seguida, duas eleições com menor número de votos. Tanto este partido, como o BE, têm piores resultados nas eleições autárquicas do que nas legislativas, sinal de que o seu eleitorado não é fiel e não se identifica com os candidatos locais, nem com as propostas apresentadas para a cidade.
Perante isto, que interesse poderia haver na coligação das três forças de esquerda?
Aparentemente nenhuma.
A desproporção entre os votos de uma força (PS) para as outras duas é gritante, colocando vários problemas na idealização de uma lista conjunta, pela inerência dos possíveis eleitos de cada um dos partidos, retirando em caso de coligação e de vitória eleitos ao PS. É evidente que o contrário é verdadeiro. As duas forças, CDU e BE, que não elegeram vereadores, poderiam conseguir esse objetivo em coligação.
Qual poderá então ser o interesse na coligação à esquerda?
Só a vejo em S. João da Madeira, como resposta a igual coligação à direita, ou seja, um acordo pré-eleitoral entre PSD e CDS-PP. Cenário ponderado e não recusado pelo partido centrista, obviamente com condições que eu desconheço.
As duas forças de direita em legislativas valeram: em 2011, 6135 votos e em 2009, 4992 votos. Em ambas, o CDS conseguiu mais de 1.300 votos, o que por si só justifica um papel de relevo em hipotética coligação. A proporção do eleitorado das duas forças é em média 1 para 3.  
Neste cenário, já testado na cidade há três décadas, uma candidatura isolada perde escala e arrisca-se a sair perdedora.
O fechar de antemão as portas a coligações e a precipitação em anunciar rapidamente candidaturas, pode revelar-se imprudente e ser fatal politicamente.
A expetativa eleitoral continua a ser grande.
Esperemos que a sociedade civil seja premiada nas escolhas partidárias.
 
(a publicar no dia 21/03/13)
 
 

segunda-feira, março 11, 2013

21.713 - 20.200 = ?

            Uma subtração simples de calcular, 1513 é o resultado.
            Vejamos a que correspondem as parcelas:
            21.713 - estão recordados - é o número de habitantes de S. João da Madeira, segundo o Censos 2011. Números oficiais, segundo publicação do Instituto Nacional de Estatística (INE) no final do ano passado.
            20.200 – corresponde ao número de eleitores do concelho de S. João da Madeira, segundo a Comissão Nacional de Eleições, precisamente nas eleições legislativas de 5 de Junho de 2011.
            A subtração apresentada em título passa a ter outro significado, se ao total da população tirarmos o número de eleitores, estamos a calcular o número de não eleitores, ou seja, os menores de 18 anos.
Os resultados definitivos do Censos 2011 indicam o seguinte:
Menores de 14 anos – 3.136 indivíduos;
Entre os 15 e os 24 anos – 2.514 indivíduos;
Entre os 25 e 64 anos – 12.498 indivíduos;
Maiores de 65 anos – 3.575 indivíduos;
Não são linearmente esclarecedores quanto à população menor de 18 anos.
Vamos proceder a pequenos cálculos.
Considerando a média da classe apresentada entre os 15 e os 24 anos, teremos 251 indivíduos por ano, o que poderá equivaler a 3*251= 753 indivíduos, entre os 15 e os 17 anos. Ou seja, somando com o primeiro valor apresentado, relativo aos menores de 14 anos, podíamos chegar a 3.889 menores de 18 anos, no ano de 2011, no concelho de S. João da Madeira.
Existe uma clara diferença entre os dados do INE e os da Comissão Nacional de Eleições, 3.889 para 1513 jovens.
A divulgação dos resultados definitivos do apuramento da população, ao contrário dos preliminares, não suscitou qualquer tipo de reação, por parte do poder político local, em especial, pelos responsáveis pelo recenseamento.
Perante isto, temos duas hipóteses, a primeira é que o número de eleitores em S. João da Madeira não pode ser o divulgado. Seguindo as contas do INE, só deveriam estar registados 17.824 eleitores. Esta constatação permitiria duvidar dos atos eleitorais, já que, 2376 eleitores seriam “fantasmas” nos cadernos eleitorais, inflacionando o número de mesas de voto por eleição e tendo como consequência uma abstenção prévia de 11%.
A segunda hipótese é aceitar o número de eleitores, pondo em causa a atualização dos cadernos eleitorais, já que os resultados do Censos 2011 são definitivos. Existe a consideração do recenseamento automático dos jovens que atingem 18 anos, que pode efetivamente alterar em muito o número dos eleitores.
Ainda assim, existe outro dado importante para este efeito: a mudança de residência, implicando a alteração de concelho, o que não significa imediatamente alteração do recenseamento eleitoral.
(Falo com experiência própria, pois mudei de residência em 2004 e só em 2011, por ter caducado o meu antigo Bilhete de Identidade, ao ser obrigado a compilar os dados no cartão de cidadão é que alterei o meu círculo de voto.)     
Segundo o INE, o saldo migratório de S. João da Madeira é negativo. Até 2006 os valores eram positivos. Nesse ano, a taxa de crescimento natural anual fixou-se em 0,23%. E o saldo migratório era positivo. Em 2010, os valores dos Indicadores Demográficos são preocupantes: a taxa de crescimento natural é de apenas 0,05% e o saldo migratório passou a ser negativo, ou seja, existe mais população a procurar outros concelhos, do que aqueles que mudam a sua residência para cá.
É de prever, com estes indicadores, que nos próximos atos eleitorais o número de eleitores vá-se aproximando da realidade do recenseamento populacional, no entanto, o mais confrangedor é verificar que, com este ritmo demográfico negativo, daqui a alguns anos, o número de habitantes da cidade regredirá, contrariando o crescimento verificado ao longo de todo o último século. 
 
(a publicar no dia 14/03/13)
 
 

quarta-feira, março 06, 2013

Independanças

            Março entrou no calendário sem pedir licença a fevereiro.
A brusca mudança de mês deixou uma série de assuntos por tratar. Por escrever, neste caso. Agravando-se pela excessiva ocupação na divulgação e preparação do debate sobre desporto. Com tanta insistência na temática, corri o risco de ser relegado para o meio dos resultados desportivos, ou situar-me lado a lado com os relatos dos jogos. Não desfazendo.
Volto a temas incertos.
Houve vários acontecimentos em fevereiro a pedirem reflexão.
Nomeadamente política.
Em primeiro lugar, a iniciativa de plataformas independentes, ao interporem providências cautelares para impedirem a candidatura ao 4º mandato dos autarcas Luís Filipe Menezes e Fernando Seabra. 
Como a legalidade destas candidaturas é duvidosa, o esclarecimento solicitado pelo 3º Juízo Cível do Tribunal da Comarca do Porto obriga a trabalho prévio dos partidos políticos, especialmente no sentido de garantirem que não estão a violar a lei. Confrontado com esta ambiguidade, a classe política autárquica não só pretende interpretar a lei ao seu jeito, ou caso haja ilegalidade, deseja-a alterar, conferindo legitimidade às candidaturas
A iniciativa destes movimentos independentes é um sinal de que a sociedade civil tornou-se intolerante para com os políticos portugueses. Não está a julgamento a capacidade de gestão do endividamento, ou pelo contrário, a resposta aos anseios da população, apenas se pretende prevenir o oportunismo na interpretação das preposições de leis e evitar que questões gramaticais ocupem o tempo dos portugueses.
As candidaturas mencionadas ficam a aguardar a resposta da Justiça, em tempo útil, ou seja, até meados de Agosto, do presente ano.
A consciência política dos novos movimentos de independentes, à semelhança do que se passa em alguns países europeus, obrigou os partidos políticos a encenarem uma abertura.
Nestas autárquicas, por sobrevivência, as estruturas concelhias promovem grupos de reflexão. Algumas procuram programa político, outras mais redutoras procuram preencher listas, outras mais ambiciosas tentam apresentar candidatos.
Existem nomes de figuras independentes a serem testados em sondagens políticas, patrocinadas pelos maiores partidos. Concretamente em S. João da Madeira. 
Enquanto isto, há figuras independentes a apresentar candidaturas, como Rui Moreira no Porto, conseguindo apoios suprapartidários e não só.
Tudo isto para umas eleições autárquicas, marcadas como sempre, pelos perfis dos candidatos.
Depois de Outubro, tudo será diferente.
A independência encontrará afinidades nos indignados, nos movimentos de contestação, ou mesmo nos Juízes e novos valores políticos serão erguidos.
O tempo é de mudança.
Tal como o mês de março, também as modificações sociais não vão pedir licença e um novo período entrará no calendário.
 
(a publicar dia 07/03/13)