quarta-feira, julho 10, 2013

Baixa-Mar

            A necessidade de frescura, para contrastar com os dias tórridos, as noites quentes, levou-me à praia bem cedo.
            Dormi sem roupa no tronco e de janela bem aberta.
Ergui-me ao toque de alvorada, olhei para o horizonte e observei uma névoa sobre o mar.
            O fresquinho matinal sabia bem, no entanto, sem aragem, adivinhava-se um calor descomunal.
            Era tempo de rumar à praia e esquecer o calor.
            Em dois tempos, conduzi-me para praia, atravessando os inevitáveis pinhais. Ao estacionar, verifiquei que a névoa observada desde casa eram nuvens altas, misturada com uma pequena neblina pousada junto ao areal. No caso concreto da praia escolhida, uma neblina entre os paredões graníticos, que as autoridades municipais e marítimas tanto gostam, cujo efeito prático é a continuidade da erosão costeira.
            Aspetos geográficos à parte, às 8h30m estava na praia. Não era o primeiro, nem tinha essa intenção. A única ambição era chegar cedo, sentir o fresco matinal. Se visse algum barco a recolher as redes xávegas, era um prémio justo, para quem, dia após dia, acorda cedo e ruma para uma fábrica.
            Os sinais da atividade piscatória estavam expressos nas marcas dos rodados do trator na areia. As redes já tinham sido recolhidas. O barco descansava na areia.
            Estava maré baixa, o que dava alguma largura ao areal. A areia seca era reduzida e tinha sido calcada pelo trator. O areal, húmido, apresentava-se disponível e era o mais apetecível, face ao calor sentido nas vésperas. Não caminhei muito, deixei-me ficar junto aos objetos das famílias madrugadoras. As pessoas estavam mais abaixo junto ao mar.
            Deitei-me, peguei num livro, esperando entretanto adormecer, com o som do mar a embalar-me.
            Normalmente, permaneço na praia procurada pelas famílias, com esta condição: o barulho das ondas a rebentar tem que ser superior ao dos meus vizinhos veraneantes. Quando quero silêncio, afasto-me um pouco.
            Não levei protetor, o que para um branquinho como eu, é um crime. Só tinha uma hipótese, cumprir o definido pelos dermatologistas, às 11 horas sair da praia. Como contava recuperar umas horas de sonho, adormecer poderia ser perigoso.
            A areia húmida serviria de barómetro, deitei-me com uma mão a sentir a sua frescura, quando a sentisse seca e quente, estaria na hora recomendada pelo Dr. Osvaldo Correia.
            Ali permaneci deitado, os olhos fecharam-se e cochilei um pouco. Os cochichos eram suportáveis, do meu lado direito vinha o som de conversas sobre o peso perdido, tipo de dietas e outras conversas adequadas à época estival. O barulho das ondas era mais agradável de ouvir, sentia-se um vento sul. A névoa matinal tinha desaparecido, o sol espreitava pelas pequenas nuvens, a areia continuava húmida. Aliás, a minha toalha estava húmida. Uma frescura completa.
            Virei-me de barriga para cima, com os pés direcionados para o mar. Não concebo tornar-me um relógio de sol, com a minha cara a receber a maior incidência dos raios. Fiquei de olhos abertos a espreitar as nuvens, os efeitos dos raios a atravessarem a camada húmida. Por vezes, um par de gaivotas atravessava a praia a voar.
            Ao meu lado, o número de guarda-sóis aumentava, embora, permanecessem sozinhos, pois a sua sombra ainda não era apetecível.
Tentei pegar de novo no sono.
            A enchente da maré obrigou os veraneantes a chegarem-se aos seus pertences. Horas das crianças comerem o reforço do pequeno-almoço. A algazarrava aumentava. Mais gente chegava à praia e rodeavam os madrugadores, conquistando-lhes o areal.
            Sentei-me. Procurei a garrafa, enchida em casa com água fresquinha, bebi insaciavelmente. Optei pelo banho, caminhei em direção ao mar, a frescura da areia, pronunciava o desfecho. A água estava gelada. Só molhei as canelas.
            Voltei à toalha. Abri de novo o livro, procurando desfrutar um pouco mais daquela manhã fresca. As nuvens estavam já dispersas, os raios solares eram agora mais quentes. Ainda assim, a areia continuava húmida e isso era o suficiente para me concentrar na leitura e não ouvir as conversas vizinhas. Página após página, ouvindo sobretudo o som do mar, cheguei ao fim do livro.
Olhei para o mar. Os parceiros que ocuparam a minha frente estavam praticamente a receber a água da onda. Ao meu lado, as crianças já se inquietavam, trocando brinquedos ou disputando baldes e pás. As mães continuavam a falar de trivialidades.
            Voltei a sentir a areia. Estava seca.
Em cada onda, o mar aproximava-se mais das toalhas dos meus vizinhos frontais. Não tardava nada e tinha que me encolher para eles continuarem na praia, por isso, optei por recolher. Sacudi a toalha, já seca. Vesti-me. Tirei o telemóvel do bolso e o seu relógio indicava 11 horas e um minuto. Precisão dermatológica.
As praias da nossa região, devido ao seu reduzido areal, passam a ficar condicionadas pela duração da baixa-mar.
Não quero com isto retirar a devida importância aos conselhos dermatológicos, sobretudo, quando o índice de radiação ultravioleta está sempre próximo do máximo.
 
(a publicar no dia 11/07/13)

quarta-feira, julho 03, 2013

O homem de chapéu

            Percorro as páginas escritas por Raul Brandão. Envolvo-me com os seus mortos, com as respetivas sombras. Delicio-me pela brilhante capacidade de narrar a vida dos mais desgraçados, mesmo nos momentos mais difíceis da sua vida. 
            Com sofreguidão, devoro dois livros de Agustina Bessa Luís. Fico perplexo perante a erudição colocada na voz popular. Por outro lado, aprecio a crítica feroz, embora póstuma, às paixões de Camilo Castelo Branco. Com perdição, leio os seus passos pelas ruas do Porto, pelas casas de Gaia e do Tâmega.
Procuro entre os três escritores o fio condutor. Não é a cidade, não é região, banalmente denominada pela política como Norte.
Não é o estilo, nem a época literária, nem o género.
Nem a sucessão pelos séculos.
Em comum, ficaram imortalizados na tela do cinema, pela mão de Manoel de Oliveira. O cineasta perpetuou a obra literária destes escritores, pelos séculos seguintes. Camilo Castelo Branco, ainda durante o século passado, com base num argumento de Agustina Bessa Luís. Relação que se manteve durante mais anos, com mais adaptações cinematográficas, da vasta obra literária, da escritora do Tâmega. Em 2012, Manoel Oliveira baseando-se num romance de Raul Brandão, prestou-lhe uma homenagem ao realizar o filme “O Gebo e a sombra”.
O cineasta imortalizou na história, sempre volátil, os nomes da literatura nacional. Não esqueceu estes, nem outros, muitas vezes com pequenas aparições das capas dos livros, em momentos dos seus característicos filmes. Por exemplo, o livro S. Paulo, de Teixeira de Pascoaes, uma biografia nada teológica da vida do Santo, surge numa determinada imagem na mão do fotógrafo, protagonista, no filme “O estranho caso de Angélica”.
Percebe-se a intenção de Oliveira: a eternização dos seus escritores favoritos, alguns seus contemporâneos, alguns seus amigos, através da sua arte, com mais capacidade de divulgação, podendo chegar aos mais diversos pontos do continente e até do planeta, algo impensável para os livros editados desses mesmos escritores.
O fator Manoel Oliveira, a sua idade, a sua longevidade como realizador, o seu reconhecimento no contexto europeu do cinema, permitem intitulá-lo como uma das maiores figuras contemporâneas da cultura portuguesa.
À sua figura associa-se o chapéu.
(Cruzei-me com ele, pelo menos, duas vezes em espaço público e vi-o de cabeça coberta, tendo educadamente respondido aos cumprimentos, levantando-o ligeiramente.)
O potencial do uso, por diversas figuras do mundo das artes, deste adereço, um dos produtos tradicionais da indústria de S. João da Madeira, pode ser utilizado para promover um evento cultural na cidade, impondo-lhe um carater sério e uma escala nacional, podendo mesmo, dar-lhe uma dimensão internacional.
Num momento em que os novos espaços culturais públicos são uma realidade e precisam de encontrar um modelo de sustentabilidade financeira, todas as sugestões são importantes.
Como tenho feito ao longo de anos nas páginas do labor, vou apresentando ideias sobre o assunto, contribuindo apenas para a discussão pública.
Sobre este tema, referi em Maio passado, neste jornal, a potencialidade de animação das ruas da cidade, com a utilização maciça de chapéus pela população, conseguindo-se assim, num fim-de-semana do ano, o exotismo necessário para se obter uma cobertura mediática positiva. 
A isto junte-se a tal homenagem a “O Homem de Chapéu”, utilizando-se as novas infraestruturas municipais na área da cultura, conseguindo-se juntar a retrospetiva da sua atividade artística, com a estreia de um novo trabalho, tendo obviamente garantida a presença do artista em causa.
Com isto, teremos tudo para um produto de excelente qualidade, com um mediatismo extremo se pensarmos no próprio Manoel de Oliveira, sucedendo-lhe anualmente nomes de outros artistas reconhecidos pelo uso de chapéu, como Tom Waits ou Clint Eastwood....
Ambição excessiva?
Maior sonho, foi acreditar que um dia S. João da Madeira haveria de ter um nadador Olímpico. 30 anos depois, foi conseguido.    
 
(a publicar no dia 04/07/13)

quarta-feira, junho 26, 2013

A hora do ardina

            Na Praça esticava-se a noite. Após o fecho dos diversos estabelecimentos, prolongavam-se as conversas por mais umas horas. Temas correntes, sem época precisa. Sazonalmente, debaixo dos arcos do Parque América, nos dias frios, ou nos bancos centrais, junto à vegetação, nas noites de verão.
A luz pública iluminava as vozes. As sombras escondiam as diferenças. Discutia-se futebol e política, da mesma forma acalorada que se defendiam os gostos musicais e cinematográficos - atropelando as ideias dos outros. Trocavam-se conhecimentos escolares, os ensinamentos da filosofia, da história, da biologia, entre outras conversas mundanas. E planeavam-se férias. Escapadinhas no valor da mesada, ou da remuneração do trabalho no mês de Julho.
As diferenças suburbanas, acentuadas pelo pós-escolar prematuro de muitos jovens, eram assimiladas sem classes. As frustrações sobrepunham-se à harmonia do entendimento e os alvos eram sempre os que prolongavam os estudos. A violência era latente, explodindo sempre em confronto físico honesto, salvaguardando-se as amizades.
O futuro não existia. O objetivo era inserir uma moeda de vinte e cinco escudos numa máquina e desfrutar dos créditos. Evitar abanar os flippers em demasia e conseguir uns créditos para esticar a tarde, ou o princípio da noite, prolongando a diversão.
A marginalidade convivia paredes meias connosco. A linha era ténue, embora a responsabilidade tivesse sempre prevalecido. Para isso, contribuíram os sonhos de cada um, a ambição pessoal e uma mudança nos hábitos de diversão.
Nas primeiras madrugadas vividas na Praça, com o intuito de aceder às traseiras da padaria, para comprar pão quente e meia-lua, constatávamos as rotinas de quem trabalhava à noite.
Cedo, muito cedo - para nós (para quem dormia, seria tarde), uma carrinha entrava a grande velocidade na Praça, vinda de norte. Abrandava junto aos arcos, largava dois grandes embrulhos e seguia para Sul. Não se pense tratar-se de uma entrega de uma substância ilícita, o patrulhamento à paisana era garantido nessa época naquelas ruas - várias vezes as nossas conversas foram animadas precisamente pelos dois polícias destinados para o efeito. A carrinha era do Jornal de Notícias, ou da sua empresa de distribuição e os embrulhos eram precisamente da edição desse dia. Uns minutos depois, aparecia o Sr. Jaime. Desconfiado perante a nossa saudação, lá respondia atarefado, carregando os volumes e desaparecendo para os seus afazeres.
A sua chegada era o fim da nossa noite.
A partir dessa hora começavam a surgir os outros trabalhadores. O carro da recolha do lixo, com as suas luzes amarelas, obrigava os menos prevenidos a aceder a casa e a carregar o lixo para o rés-do-chão. Falhar essa tarefa era denunciar a hora de chegada a casa, além do vexame de colocar o saco do lixo, de novo dentro do caixote.
Sensivelmente uma hora depois a padeira atacava os prédios. O pão era colocado à porta de cada cliente. Entrar em casa de pão na mão, o que era apetecível quando se regressava cheio de fome, era outro sinal denunciante da hora do fim da noitada.
O cúmulo na vida de boémia, ao fim de semana, era entrar em casa de jornal na mão. A distribuição à porta era efetuada já perto das 7 horas, pelo “Jaime dos jornais”. Via-se os títulos, espreitava-se o jornal do vizinho, algumas vezes um dos jornais tombava do 2º andar, obrigando a descer toda a escadaria, para voltar a subir os 42 degraus, colocando tudo em ordem, sem prejudicar o serviço de quem trabalhava toda a noite.
À semana havia outro limite, que algumas vezes era ultrapassado, embora o interesse do relato não seja pertinente.
O falecimento do Sr. Jaime Ferreira representa o fim dos ardinas da cidade, escreveu-se nos jornais locais. Eu sempre o vi a trabalhar, durante a madrugada, ou em hora vespertina, quando ia comprar A Capital, ou procurava uma revista no escaparate do quiosque por debaixo das antigas instalações da PSP.
Para mim, o Sr. Jaime representa um dos obreiros honestos, essenciais para um conceito de qualidade vida que existe no centro de S. João da Madeira.
A sua ação noturna impôs um horário à minha vida de boémio, por isso, não podia deixar de evocá-lo.        
 
(a publicar no dia 27/06/13)

quarta-feira, junho 19, 2013

5 de Agosto

            Em Janeiro 2009, enalteci o esforço hercúleo do anterior presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, em resolver os problemas de gestão, herdados do seu antecessor. Listei doze assuntos, que estavam já resolvidos, ou em vias de o ser nos anos seguintes.

Apenas um chegou a 2013 por resolver - precisamente o restauro do cinema Imperador.

A semana passada, com a inauguração da Casa da Criatividade, chegou ao fim este capítulo na história da cidade. Não vou tecer considerações alongadas sobre esse período, apenas recordando o lançamento de várias obras, sem garantia de financiamento, que se prolongariam por longos anos, até à sua conclusão.

O endividamento da autarquia local ficou resolvido, em parte, pela venda de terreno municipal para a instalação do centro comercial e não só. Ficou reconhecida a capacidade de gestão do anterior edil, assim como, a sua apetência pela candidatura a fundos comunitários. Desta forma, a cidade não ficou com grandes problemas estruturais por resolver, nem muito menos, com muitas obras pendentes.

Três grandes investimentos municipais terão que ser resolvidos.

O primeiro não é nenhum problema, já que tem data agendada para a inauguração - precisamente a reconversão funcional das antigas instalações da Oliva.

Um dos outros investimentos a concluir será a ampliação do Centro Empresarial e Tecnológico / Sanjotec.

Por fim, teremos a nova piscina, ainda sem financiamento garantido. No entanto, as condicionantes de atribuição dos fundos, com a mudança de tutela, podem ser mais favoráveis ao projeto local. A disponibilização de verbas “lá para finais de 2013” (uma expressão utilizada pelo anterior presidente da Câmara), poderá mesmo acontecer. A nomeação do Dr. Castro Almeida para a Secretaria de Estado com a responsabilidade pela atribuição dos fundos comunitários, permite equacionar um cenário favorável ao financiamento da nova piscina local. Sem maquiavelismo, prevejo a divulgação desse financiamento antes do dia 29 de Setembro deste ano, data agendada para as eleições autárquicas.

A hipótese de conclusão destes projetos municipais, num médio prazo, abre a possibilidade de lançamento de novas ideias sobre a cidade. As eleições serão importantes para sufragar as intenções de cada candidatura. Numa época de crise económica, apresentar investimentos municipais, capazes de dinamizar o contexto social, será a audácia política necessária e obviamente a premiada.

Por agora, tudo está focalizado nas listas de candidatos.

A 5 de Agosto termina o prazo para entrega das candidaturas. Não sendo todas conhecidas, o que não permite extrapolar conclusões, verifica-se nas já apresentadas dois tipos: de um lado a militância, do outro a sociedade civil, encabeçada por candidatos independentes. Outro dado curioso, dos candidatos conhecidos, um é empresário e os restantes são funcionários do Estado.

A interseção destas tipologias acarretou uma novidade política, expressa no apoio de alguns dinâmicos (e jovens) empregadores da cidade, completamente inseridos no tecido social da cidade, que não tiveram qualquer dúvida em alavancar uma das candidaturas.

Os dados estão praticamente todos lançados. Daqui a um mês e meio, todos os candidatos serão conhecidos.

No final de Setembro tudo estará terminado.

 

(a publicar no dia 20/06/13)

 

quarta-feira, junho 12, 2013

A origem toponímica

         A toponímia, ao contrário do que se possa pensar, não se limita a dar nome às ruas e a colocar placas alusivas a esse nome, nos pontos mais estratégicos dos arruamentos.
            O estudo dos nomes de lugar, da sua origem e evolução, definem verdadeiramente a toponímia, que estuda também os nomes de cidades e outras localidades.
            Ao recolhermos informação sobre uma rua, muitas vezes, temos acesso ao nome anterior e conseguimos perceber a evolução associada, conseguindo datar a mudança e a nova designação. Temos como exemplo, a Rua da Liberdade, anteriormente designada de Marechal Carmona. Esta referência, associada à mudança de regime político em 1974, encontra semelhantes alterações um pouco por todo o país, em Avenidas, Praças, Pontes e outras obras públicas.
            A abertura de novos e modernos arruamentos, eliminando os existentes, provocou no passado o desaparecimento de alguns topónimos. Aqueles com mais relevância, serviram para batizar outras artérias, transferindo-se esse nome para outros locais das cidades, numa eterna homenagem. Não tenho de memória, exemplos lançados em S. João da Madeira, deste género, que possam ter provocado a eliminação, ou a transferência de nomes de ruas, para melhor exemplificar ao leitor, a evolução da cidade.
            Pelas ruas da cidade existem placas explicando os seus nomes: as homenagens da população a notáveis da terra, às profissões que marcaram a economia da cidade, a forasteiros ligados à política e às artes, além da referência à origem da povoação, nomeadamente invocando os seus lugares.
            Os lugares são a génese de qualquer localidade. Os lugares uniram-se por caminhos, estes deram origem a ruas, batizadas ao longo dos anos, conforme a vontade popular ou do poder político.
            Ao observarmos o nome dos lugares de S. João da Madeira, podemos perceber a sua história.
            Primeiro temos que perceber que vários desses nomes são comuns a várias localidades: Fontainhas, Devesa, Corgas, Espadanal, Vale, Fundões, Laranjeiras e Ribeiros. Estão associados à relação do homem com a natureza, neste caso, com cursos de água e aproveitamento agrícola (devesa significa campo fértil das margens de um rio).
            Os nomes Ponte e Travessas pressupõem a ação de travessia, neste caso do rio Ul, o que poderá indiciar o trajeto de antigas estradas, antes do traçado da estrada real.
            Lugares designados como Pedaço, Praça, Tapado, Volta e Vista Alegre são compreensíveis à luz do entendimento popular e das suas simples designações.
O mesmo já não acontece com Parrinho e Carquejido. Nomes sem paralelo no léxico português e de compreensão suposta, através da derivação de palavras associadas a produtos agrícolas, no entanto, como diria Agustina Bessa Luís, “não é qualquer filólogo que se atreve nos labirintos das origens fogosas do linguajar do povo”. Por isso...
Orreiro é definido no dicionário do Instituto Houaiss como “cavidade da trave do moinho de vento”. Assim sendo, ficamos com uma explicação para o nome do lugar e permite equacionar a tese de José Mattoso, sobre a designação tópica “da Madeira”, como localidade onde existiam oficinas de trabalhos em madeira: carpintarias e afins.
  Retrocedendo-se na história, chegamos à origem de outros dois lugares: Quintã – significa grande quinta, surgindo na documentação medieval. Anterior a essa época, ainda em período da reconquista cristã, é a utilização do termo casal – significando pequeno povoado, ou conjunto de casas, ou até mesmo limites de uma propriedade. Casaldelo e o seu oponente Casal Novo devem provir desta época.
Por fim, temos a Mourisca. É aceite pelos historiadores que o termo “mourisco” era utilizado pelos populares para designar tudo o que fosse antigo. Na década de 50 do século passado, procedeu-se a escavações arqueológicas neste lugar da cidade, não se tendo encontrado nada de significativo. O termo popular ficou. A utilização do morro pelos mouros, como ponto de vigilância dos movimentos, de norte para sul, das tropas cristãs é perfeitamente aceitável. O princípio de comunicação com a cidade a defender seria o de atalaias separadas vários quilómetros entre si, dispostas ao longo das principais vias / estradas e comunicando através do fumo, provocado por grandes fogueiras acesas nesses pontos elevados. Efetivamente, da Mourisca tem-se um campo de observação privilegiado sobre toda a envolvente.
Do período Visigótico, já escrevi em texto anterior, que existe um documento que refere S. João da Madeira e um nome de lugar – Ascarigo - de origem germânica, embora para mim, apenas interessado e não estudioso sobre o assunto, seja difícil fazer prova.
A via romana entre Coimbra e Porto teve que atravessar o rio ul, por isso à falta na cidade de vestígios do império, ficamos com uma noção histórica: quando estes chegaram à Península e encontraram os túmulos hemisféricos dos povos celtas, chamaram-lhes mamoas, por se assemelharam à forma de seio feminino.
A existência na cidade da Rua da Mamoínha, com todo o significado arqueológico e linguístico associado, prova que esta cidade foi habitada por povos celtas.
A toponímia permitiu essa revelação, perpetuada pela antiquíssima sepultura, demonstrando como é importante salvaguardar os termos e expressões populares, para se entender melhor a origem duma povoação.
 
(a publicar no dia 13/06/13)
 
 
 

quarta-feira, junho 05, 2013

Feriados

         O próximo dia 10, segunda-feira, será o último feriado nacional, em dia útil, até ao Natal.
            Explicando... O feriado seguinte será o dia 15 de Agosto – Assunção de Nossa Senhora – apesar de ser numa quinta – feira - é no mês de férias da maioria dos portugueses. Depois desse, só volta a ser feriado nacional a 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição, este ano ao Domingo. Por isso, só mesmo no Natal é que haverá novo feriado em dia útil.
            Valha-nos os feriados locais, a maioria em dias da semana, como os próximos S. António e S. João, nos concelhos que adotaram estes santos para oragos e que elegeram o dia do santo padroeiro para feriado municipal.
            S. João da Madeira terá o seu feriado municipal a 11 de Outubro, uma sexta-feira, o que é sempre bom.
            A supressão dos quatro feriados no calendário de 2013, sentiu-se a semana passada. A igreja abdicou de festejar o Corpo de Deus na tradicional 5ª-feira, ou melhor, nos 60 dias a seguir à Páscoa. Os outros três feriados, suspensos este ano, serão no último trimestre do ano, o 5 de Outubro, Dia da Implementação da República, o dia de Todos os Santos – dia 1 de Novembro e finalmente, o dia da Restauração da Independência, o 1º de Dezembro.
Em resumo, nos próximos cinco anos, o primeiro semestre terá sete feriados (um sempre ao Domingo – a Páscoa) e no último haverá apenas três. A estes juntar-se-á o feriado local, como atrás mencionei.
Ficou por resolver o Carnaval, feriado para uns, férias para outros e intolerância para muitos.
Ao longo da minha profissional, já trabalhei em dia feriado, por necessidade laboral. Tirando o primeiro dia do ano, a Páscoa, o quinze de agosto, o primeiro de novembro e o Natal, em todos os outros pontualmente labutei.
Muitas vezes, no calendário industrial, os feriados atrapalham. A programação fica apertada e as perdas associadas, à normal quebra de ritmo, são prejudiciais.
Os feriados encostados ao fim-de-semana são os meus preferidos. O que é entendível pelo prolongamento do descanso, permitindo programar viagens, se for o caso. Pontes, atendendo ao calendário escolar dos meus filhos, prefiro não as ter.
A mobilidade nos festejos do Corpo de Deus, para o último domingo, permitiu verificar que existe a possibilidade de no futuro alterar a data de vários feriados, aproximando-os do fim-de-semana. A rigidez do calendário é prejudicial, nomeadamente ao nível da produtividade, não esquecendo, por outro lado, o desenvolvimento do potencial turístico do país.
Atendendo à necessidade de exemplificar, o feriado de Carnaval podia ser à segunda- feira e o fim do ciclo pascal, podia ser um dia mais tarde, ou seja, o Corpo de Deus festejar-se à 6ª-feira. Como estes, outros feriados sem dia fixo na semana, podiam ser perfeitamente ajustados ao calendário, não se perdendo o seu significado com as respetivas comemorações.
A discussão à volta do número de feriados de um país poderá fazer sentido. Contando que alguns sejam trocados por feriados europeus - para permitir uma maior coesão do espírito continental.
Daqui a cinco anos, tudo será de novo equacionado.
Aproveite bem o feriado do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
 
(a publicar no dia 06/10/13)
 

quarta-feira, maio 29, 2013

Depois das 18

            Às seis da tarde começo outra vida.
Saio do trabalho e dedico-me a outras causas.
A viagem de carro permite-me antever o final de tarde. Preparo, ou revejo mentalmente, os assuntos de qualquer reunião marcada para essa hora, ao volante do automóvel, em condução estilo piloto automático. É a melhor forma. São várias as vezes, que chego aos locais de encontro e a temática é prontamente assumida, sem tempo para o retemperador café ser saboreado. Entro repentinamente noutro vocabulário, escuto outras preocupações dos interlocutores, quebrando a rotina e exigindo uma adaptação imediata, para ser produtivo o final de tarde.
Quando o destino é a biblioteca, demoro a desligar-me da atividade profissional. Entro no edifício e verifico a ocupação de quem ali trabalha. Deformação de controlador de atividade laboral. A solicitação de um livro, a dúvida acerca sua disponibilidade, a recolha na estante indexada, são ações que permitem colocar-me no papel de utente. Aparece um curioso, assíduo no espaço, tenta um diálogo, procurando indicar o autor de um ou outro livro, requisitado apenas pelo título, ou tentando citar uma frase escrita. Não o ajudo muito. Fica incrédulo. Se não sei quem é o autor, não finjo. Pouco ou nada cito. Não me interessa, nem tenho memória para isso. Aliás, costumo evocar a frase “este país não teve uma revolução” de António Lobo Antunes mas, se me perguntarem, de que livro? Não recebem uma resposta concreta.
A leitura acompanhou-me no final das tardes desportivas dos meus filhos. Um momento de introspeção prolongado para novas épocas. Uma boa alternativa às reuniões de carater social.
Nem sempre é assim.
Nesta época de provas finais do ano letivo, acompanho com a devida atenção os estudos dos meus filhos. Revejo as matérias, fazendo as sacramentais perguntas:
- Porque falhou o Fontismo?
Apetece-me questionar, depois de verificar as virtudes expressas no manual de História, relativas a este período de governação de Portugal, na segunda metade do século XIX.
Remeto-me ao essencial. À simultaneidade das melhorias dos meios de comunicação, nada digo. Pergunto apenas pelas estradas, pelas linhas ferroviárias e pela melhoria dos portos. A matéria quer-se sabida de acordo com o manual de estudo.
- Qual foi a cartilha do Fontismo?
Um trocadilho apetecível, ao rever João de Deus.
Dou enfâse à ocupação dos baldios, a lei das sesmarias vários séculos depois e contenho-me, para não estragar o estudo. A página seguinte do manual mostra o realismo, a população aumentou e a agricultura não produzia alimentos suficientes. Além do êxodo rural, os desgraçados emigraram, sobretudo para o Brasil, a necessitar de mão-de-obra.
Pela segunda vez, apetece-me perguntar quais as causas de insucesso do fontismo?
O aumento da dívida pública não é mencionado, como consequência da necessidade de contrariar, as várias décadas de atraso estrutural. O despesismo dos Bragança também fica afastado dos manuais. O lado sensato do Rei D. Luís não foi suficiente para o equilíbrio das contas públicas, nem para impedir o aumento de impostos. No entanto, nada disto justifica o regicídio do seu sucessor.
A ação de Fontes Pereira de Melo, António Maria, para completar o seu nome, foi importante para a modernização do país e para a regeneração da política, só que não teve acompanhamento a nível financeiro.
O desequilíbrio nacional perpetuado até aos dias de hoje.
Olho para relógio, ainda dá tempo para mais uma pergunta, de resposta pronta e rápida.
Começo a ouvir a resposta. Fixo-me na hora. Recordo o meu primeiro emprego. Os administrativos tinham já saído, os técnicos também. Dezanove horas quarenta e cinco minutos, ficava sozinho e responsável por fazer cumprir o plano de produção até às vinte e três horas. Tudo corria bem, até o João, do departamento de expedição, surgir com informações antagónicas ao meu plano. Era Melo o seu último apelido. Dada a semelhança, apetecia perguntar-lhe:
- Porque falhou o Fontismo?
Não perguntava. Ainda dava tempo de remediar a produção. 
 
(a publicar no dia 30/05/13)
 

quarta-feira, maio 22, 2013

O borralho da velha

            Nunca tinha vivido um mês de Maio tão frio. Durante anos ouvi o ditado popular, das velhas, das cerejas e do borralho. Quando havia alguma oscilação, tornando as temperaturas primaveris menos amenas, lá surgia o provérbio. Jamais senti as baixas temperaturas de Maio, como as deste ano de 2013.
            Uma experiência para comprovar um adágio popular, é interessante. Os hábitos invernosos não se recuperam. Apesar do frio, do vento cortante, da neve acima dos 1.400 metros, a roupa vestida é mais ligeira. Dispensando-se as lãs e os casacões que tão bem aconchegam o corpo em Janeiro ou Fevereiro. A claridade até ao jantar e o número de horas solares, ajudam a superar o frio. A noite é recebida da mesma forma primaveril e qualquer programa noturno é apetecível.
Foi com este espírito, que na passada sexta-feira, decidi assistir ao concerto de abertura do IX Concurso de Guitarra de S. João da Madeira / G.Artes. Fiquei liberto dos meus compromissos de pai precisamente à hora de início do concerto, só que a quinze minutos de distância. O termómetro do carro indicava 10º centigrado e a noite ainda não estava escura.
Apesar do atraso, optei por assistir ao concerto de Dejan Ivanovic. Entrei no final da primeira música, sem saber qual o alinhamento. Mal me sentei, fui brindando com a explicação da música da seguinte, estremeci ao ouvir o nome de Joaquín Rodrigo. Junto al Generalife, a música executada pelo sérvio, transportou-me pelas paisagens sonoras da guitarra espanhola. Estava já deliciado. As cinco bagatelas (tradução linear) da música posterior, de William Walton, ajudaram-me a continuar a viagem, por um mundo desconhecido.
Ao intervalo, estava rendido ao brilhantismo de Dejan Ivanovic. Para a segunda metade, o alinhamento escolhido mostrou o virtuosismo de dois compositores contemporâneos portugueses, Ricardo Abreu e Carlos Moreira, presentes na sala e por isso, aplaudidos quando chamados ao palco.
A explicação do guitarrista prosseguiu apresentando a música final de J. S. Bach. Para mim, leigo nestas andanças da guitarra, uma novidade sonora. A caraterística barroca esteve presente em toda a execução. Sem exagero, a dedilhação assemelhava o som produzido ao de um cravo, tal era a preciosidade do guitarrista, colocando-nos no século XVIII, num apropriado salão de música do Sacro Império Romano – Germânico. 
Os aplausos finais, com a plateia em pé, permitiram verificar o estado de satisfação do público. Aproveitei o momento, de luz já acesa, para analisar a ocupação da plateia, comprovando a ideia retida ao intervalo, o número de jovens presentes, bem como os membros da Associação de Pais, são o novo público dos concertos organizados pela Academia de Música.
A fidelização de público é essencial para o sucesso de eventos culturais. Só assim, se pode superar a reduzida divulgação e a sobreposição de eventos no calendário regional, lapsos que persistem na programação cultural da cidade.
Cativando essa assistência, tornando-a interessada, regular e em número considerável, como demonstrado nas últimas edições do Festival de Teatro de S. João da Madeira, pode-se ambicionar a eventos de maior dimensão, tão ao jeito da lotação da futura Casa da Criatividade.  
 
(a publicar no dia 23/05/13)
 

quarta-feira, maio 15, 2013

O que diz François

            Um ano após as eleições presidenciais francesas, a apreciação dos eleitores relativamente ao presidente eleito, não podia ser pior. As sondagens, divulgadas na semana passada indicavam que apenas 19% dos eleitores voltaria a votar em François Hollande.
            Se à direita, a derrota inesperada de Nicolas Sarkozy, provocou um mal-estar e obviamente uma grave desconfiança relativa a um presidente de origem socialista, traduzindo-se isto em críticas constantes e depreciação do trabalho efetuado pelo atual presidente, já o eleitorado de esquerda, embalado pelo regresso à presidência, 17 anos depois, esperava não ouvir da boca do eleito palavras como cortes de subsídios, aumento da austeridade, entre outras medidas para combater a crise financeira da França.
              François Hollande não cede ao mediatismo neoliberal: continua consciente do seu sentido europeu – evita o confronto federalista com a Alemanha, no entanto, demonstra o seu poder bélico com um raid no distante Mali; ajusta a dimensão do Estado à receita fiscal, injetando na economia fundos estatais procurando alavanca-la, apesar de, tal como em outros países atlânticos, os indicadores de atividade económica não serem famosos.
            Perante isto, onde errou o presidente francês?
            Veja-se as medidas simbólicas: redução em 30% do seu salário e dos seus ministros, demonstrando o excesso de vencimento que o anterior presidente ousou auferir. Aumento de impostos para as grandes fortunas (1500 franceses), tendo o infortúnio de o autor da medida, o seu ministro das finanças, ser também evasor fiscal – o que obrigou à publicação de uma lei de transparência sobre os rendimentos dos políticos.
Errou?
Na essência, François Hollande escolheu os alvos, a classe política e as grandes fortunas.
A manipulação da opinião pública não se fez esperar. Os comentários depreciativos sobrepõem-se a todos os outros, denegrindo a sua imagem e claro, as sondagens são divulgadas como grande perdas de popularidade e apresentadas como o resultado de uma péssima gestão política.
No essencial, a teoria de Hollande não é aceite.
Muito menos em governos de origem liberal, como o de Portugal. Os políticos do eixo do poder não abdicam dos seus privilégios, não baixam os seus vencimentos, nem as regalias, nem as ajudas de custo, nem mesmo prescindem de gabinetes recheados de assessores, de secretários e de motoristas.
A única medida apresentada nestes últimos dois anos, para redução destes privilégios, foi a eliminação de 18 governadores civis e de 25% dos presidentes de junta de freguesia, não significando com isto uma grande redução da despesa com a classe política. Pelo contrário, Miguel Relvas deixou como legado um diploma enquadrando as várias comunidades intermunicipais, criando novos cargos políticos, que muito provavelmente serão chumbadas pelo Tribunal Constitucional.  
Por cá, a manipulação é feita de outra forma: acusa-se os reformados e os funcionários públicos, ataca-se os seus vencimentos e coloca-se os outros contribuintes contra eles. Os comentadores e analistas dão-se ao frete e a classe política vai reinando, não se beliscando minimamente.
 
(a publicar no dia 16/05/13)
 

quarta-feira, maio 08, 2013

Quilómetro Zero

            Nas cercanias de S. Pedro do Sul, percorrendo o caminho pedestre em parte traçado na antiga linha do Vale do Vouga, desviei-me do trilho, para evitar um afluente em fúria. Um pequeno afastamento, o suficiente para causar um transtorno de horas extra de caminhada. Procurava a distância mais rápida (e seca) para regressar à sede de concelho e surgiu no gps, meramente indicativo – geograficamente mais a oeste, a N 227, ou seja, a estrada nacional 227, que liga S. João da Madeira à cidade da região de Lafões.
            Viajei no tempo.
            Esta estrada nacional iniciava-se precisamente no cimo da Rua da Liberdade. Ali estava implantado o marco do quilómetro zero. Do lado direito quem desce. Um paralelepípedo granítico, com o topo plano, tendo como indicação o tipo de estrada, o seu número e claro o zero, indicando o inicio de contagem.
            A liberdade mudara o nome da rua. A placa do Marechal Carmona ficava submersa na política, a nova designação toponímica viveu durante anos debaixo da consecutiva propaganda, cartazes sobre cartazes, amarelecidos pelo sol, lacados pela humidade, no entanto, uma nova camada de posters sobrepunha-se.
Passei a minha infância sem ver a placa com o nome da rua. No caminho para a escola, passava rente à parede cheia de cartazes, olhava para o outro lado da rua e contemplava o marco. Isolado, na esquina, no alto daquela rua, parecia um trono.
Um dia ao atravessar a rua, a caminho da igreja, ou por outro motivo, convenci quem me acompanhava a deixar-me subi-lo. Sentei-me. Com um sorriso de satisfação, os meus olhos fitaram a janela do meu quarto.
A Rua da Liberdade, na década de 70 do século XX, tinha passeios laterais de calçada portuguesa e a estrada era em paralelo de granito escuro. Na esquina do marco não havia qualquer edifício. Um terreno vazio, desnivelado, com acesso por duas rampas opostas, permitia estacionar dezenas de motorizadas e um Renault 6. Dali para baixo sucediam-se os prédios, ocupados no rés-do-chão por lojas: no imediato surgia a Philips com o seu letreiro vertical azul, seguida dos móveis da Casa Ferreira. Mais abaixo, o Pagapouco ocupou as instalações do Café Eldorado, no entanto, o reclame deste enferrujou-se durante anos, em frente aos meus olhos. A barbearia Salão Dourado existe desde a minha meninice naquelas instalações. Ao seu lado, fechando a sequência, vivia uma família Ribas e se a memória não me atraiçoa, havia ali um estabelecimento de artigos têxtil.
Do outro lado da rua, a sequência iniciava-se com a Casa Glória – outro resistente, seguia-se o alfaiate FatoLindo, segue-se o Café / Casa Avenida – mais um resistente. Noutros tempos existiu mais abaixo a Casa Cilita (Reis). O Estúdio Almeida, grande resistente, antecipava a Garagem LM, ambos tinham reclames exteriores verticais e gigantescos, que ladeavam a minha vista sobre a rua. Deste lado da rua, o Porfírio, ou Grundig, fechava a sequela.
Dali para baixo, até ao cinema, existem alguns prédios que não tenho a certeza se assisti à sua construção, embora a minha recordação esteja associada à instalação das primeiras lojas. O que é normal, se nos colocarmos na perspectiva de uma criança. Por isso, para não desvirtuar a cronologia, vou concentrar-me primeiro no trecho esquerdo da rua. Depois de atravessar a Rua Júlio Dinis, surgia uma drogaria, que deu lugar ao Minipreço. Por ali abaixo, poucas variações houve: Padaria do Souto, Ourivesaria / Relojoaria, Aldeia Velha, a entrada para o Santola, a Sapataria Paulita, uma loja de roupa – cujo nome esqueci – uma entrada para um restaurante e a seguir o Café 25 de Abril, mesmo antes do Cinema Imperador, na época das sextas-feiras manhosas e das matinés de filmes indianos. Do lado direito quem desce a sequência era esta: tintas Robbialac, os concorridos bilhares do 104, as lãs do Sr. Cardoso, a Casa Santos e o Ulic Bar (este prédio vi a ser construído) e a Corpini – embora me recorde de uma outra loja, por ali. A seguir existia uma enorme buraqueira, à espera da construção.   
Comércio, serviços e moradores sempre coabitaram pacificamente na Rua da Liberdade. Vários edifícios albergam ainda hoje escritórios de médicos e advogados. Outrora existiram seguradoras, sindicatos e cabeleireiros.
A azáfama da rua comercial, o rodopio de clientes e forasteiros, nem permitia perceber que naquela rua havia moradores. As portas de serventia estavam abertas para acesso facilitado dos clientes ao primeiro andar e mais acima, nos seus apartamentos, viviam famílias. Não vou nomeá-las exaustivamente. Desculpo-me, prometendo uma outra escrita em futura oportunidade.
Importa registar que a Rua da Liberdade, apesar de atravessada por outra Rua, foi sempre uma só. Não faz sentido, agora no século XXI, ficar dividida em termos de aspecto e funcionalidade. Esperemos que impere o bom senso.
A história vai-se reescrevendo. A da Rua da Liberdade também. Eu como antigo morador perpetuo-a, ficando satisfeito por verificar que o actual Presidente da Câmara de S. João da Madeira, Ricardo Figueiredo, também viveu ali a sua infância. 
 
 
(a publicar no dia 09/05/2013)
 

terça-feira, abril 30, 2013

Turismo complementar

O Turismo Industrial, lançado nos últimos anos pela Câmara Municipal de S. João da Madeira, evoluiu da fase embrionária - com a criação do conceito, a adesão de empresas, o estabelecimento dos circuitos pelo património industrial, até uma nova fase, de aproximação da cidade ao conceito turístico, transformando as empresas em palcos de concertos, ou em locais onde se declamou poesia e claro, dando oportunidade aos seus trabalhadores de exprimirem as suas capacidades artísticas, como foi o caso do grupo coral da Heliotextil.
Os números divulgados, por ocasião do primeiro aniversário do Turismo Industrial, permitem classificar esta iniciativa de sucesso, com nota muito boa. No entanto, está por estudar o impacto deste turismo na economia local, nomeadamente ao nível dos canais tecnicamente designados por HORECA – Hóteis, Restaurantes e Cafés. Sem esquecer o comércio, de qualquer tipo.
Existe uma barreira entre o Turismo Industrial e o turismo familiar, que apenas aos fins-de-semana e nas suas férias tem oportunidade de viajar - dispondo de tempo para visitar outros locais. A incompatibilidade de horários é um problema.
O grande objectivo do turismo é atrair mais visitantes à cidade.
Para isso é necessário criar um efeito diferenciador, com base em harmonia entre as iniciativas a promover e o conceito turístico.
É sobre este eixo que é necessário complementar o conceito de turismo industrial. Suportando-se no posicionamento exclusivo do conceito e dos vários produtos. A tradição industrial do concelho, os seus produtos esquecidos na história: cera, máquinas de costura, banheiras, torneiras, colchões, além dos artigos de chapelaria, passamanarias e calçado, entre outros, permitem alargar o envolvimento comunitário, potenciando qualquer evento de recriação histórica que se ouse organizar. Para se conseguir uma cobertura mediática positiva, é preciso um certo exotismo, algo conseguido com a utilização maciça pela população de um dos produtos exclusivos atrás mencionados, por exemplo, os chapéus.
A extensão do conceito de turismo industrial à gastronomia tem sido utilizado, através da realização de um festival num único fim-de-semana, no entanto, seria preferível incluir na ementa semanal de alguns restaurantes, tal como é utilizado, com outros pratos típicos da região. A oferta gastronómica pode ser desenvolvida com inovação, com a introdução na comunidade de nomes dos produtos industriais. Exemplificando, as pastelarias locais poderiam concorrer para a criação de bolos chamados capeline ou tamanquinhos, de tamanho apropriado, com formatos iguais aos produtos.
Em matéria de novas “portas” de entrada na cidade, utilizando-se as potencialidades do concelho, em tempos idos, confidenciei a pessoas amigas um conceito a explorar, directamente ligado ao turismo do conhecimento. Relacionava-se com a instalação de um borboletário nos jardins do Palacete dos Condes, propondo ainda uma ala para estudo das traças, essa praga associada ao têxtil e obviamente à chapelaria.
O conceito de turismo na natureza, em ambiente urbano, poderia desencadear através de uma parceria, com um investidor privado, na criação de uma pista permanente de downhill na zona dos antigos moinhos de Casaldelo, podendo-se estender os divertimentos a slide assim para o gigantesco, aproveitando-se a encosta deste lugar para nascente.  
Ideias desenvolvidas nos últimos meses, que optei por divulgar em exclusivo aos leitores do labor e que completam os meus textos alusivos ao turismo, que fui publicando neste jornal.
 
(a publicar no dia 02/05/2013)

quarta-feira, abril 24, 2013

Memórias de um escritor

            Regressei a Aquilino Ribeiro.
Tinha obtido como referência tratar-se de uma obra imperdível - Um escritor confessa-se. Num final de noite, procurei-o na prateleira da sala lá de casa, na colecção de obras completas do escritor. Uma colectânea de romances, todos com a mesma capa castanha, com a lombada em numeração romana, distinguindo-se assim uns dos outros. Para obter o título de cada volume, tive que abrir a capa, para verificar no interior o seu nome. Um por um, procurei em vão. Voltei passado uns dias, com mais tempo e continuei sem sucesso. Não tinha visto mal e afinal faltava ali um importante título da obra de Aquilino Ribeiro.
Mal tive oportunidade, requisitei-o.
Uma das primeiras edições, de 1972, de tiragem reduzida, 350 exemplares, vendidos a duzentos escudos cada. 
No final do primeiro capítulo, percebi logo o que tinha entre mãos. Duma assentada, fiquei preso ao enredo da biografia do escritor. A sua autobiografia, os seus passos na sua instrução, a sua desilusão no seminário, os primeiros dias em Lisboa, o regresso à serra da Nave, de volta à Lisboa pré-republicana, a sua prisão e desterro à espera da revolução de 1910. Um consolo.
Em menos de quatro dias, mesmo cumprindo as minhas obrigações profissionais, pessoais, sociais, domésticas e claro, familiares, sorvi as palavras de Aquilino Ribeiro, mesmo aquelas que o caracterizavam, os neologismos, ou o seu português arcaico de inspiração popular. A coragem demonstrada em campanha revolucionária, a audácia na fuga da prisão e posteriormente o desmascarar dos hipotéticos regicidas são um excelente exemplo da capacidade narrativa do escritor. A isto junte-se o período em Beja, o regime hipócrita do seminário e a sua evidente falta de fé. Os argumentos teológicos expostos e a capacidade de os contrapor, através da metafísica, demonstravam a sua capacidade de estudo, de assimilação e oratória. Uma verdadeira tese, sempre importante para todos os que começam a ter dúvidas.
Outra vantagem de ler Aquilino, é ter um contacto com a evolução social e histórica das aldeias portuguesas, é perceber como durante séculos, nenhuma evolução por ali existiu, nada aconteceu, nem uma estrada foi construída a ligar as aldeias entre si, ou às vilas sede concelho. Perceber isto, é entender as rivalidades entre “os povos de cada aldeia”, segundo palavras do escritor.
Pelo meio da leitura, fui bombardeado pela notícia da semana: a saída do Dr. Castro Almeida para o Governo.
(Isto entra um pouco à pressão.)
Vão ser feitos vários balanços: as obras herdadas e concluídas, as obras lançadas e concluídas ou quase, pois também as há, assim como, as lançadas e não começadas, onde destaco a nova piscina interior.
Nem só de obra se faz um balanço do mandato agora interrompido.
Para quem, como eu, escreveu várias vezes, argumentando o melhor que sabia, opondo-me a algumas medidas, criticando opções, estudando e apresentando alternativas, lutando contra o unanimismo, nunca tendo sentido qualquer agressividade por parte do executivo, nem dos militantes do partido do poder autárquico, só posso realçar a convivência democrática.
A causa pública é assunto recorrente dos meus textos, a vontade em fazer-me ouvir, sem ninguém temer, permitem-me verificar que as palavras dos mestres da literatura nacional, que tanto aprecio, foram assimiladas a preceito.
 
(a publicar no dia 26/04/2013 )
 

quarta-feira, abril 17, 2013

Adeus Leopold Bloom

Aquela noite de 16 de Junho de 1904, tive-a entre mãos durante mais de cem noites. Todo o inverno, incluindo a quaresma, mais uns dias chuvosos a seguir à Páscoa. Noites essencialmente frias, aquecidas a chá, ou a café, com os olhos postos naquelas páginas. Linha após linha, sem grandes avanços, com o marcador fixado na mesma zona do livro. Virava uma folha, lia mais uma página, o marcador avançava esse tanto. Sozinho no estabelecimento comercial, deambulando pelas ruas de Dublin, elegi para bebida o Irish Coffee, mais apropriado à temperatura da narrativa. Sorvia o líquido, ficaram sempre as natas.
Adeus Shane Macgowan. Ébrio esquecido da adolescência. Agora com dentes novos e barriga saliente, a cantar sentado, sobriamente soletrando todas as silabas das canções. “Dirty old town” é uma memória desse período da vida, não a letra, com os acordes e arranjos musicais, é pelo contrário, toda a minha envolvência urbana, em ruas escurecidas, envolvidas pelos papéis, beatas e outras coisas deitadas para as calçadas, as paredes desbotadas, esburacadas e urinadas, velhos prédios com portas abertas libertando a humidade da escadaria para a rua. Adeus ruivos, adeus duendes, adeus O’Hara, O’Sullivan, O’Neill, O’Connor, O'Brien, Byrne, adeus gente vestida de verde, de copo na mão, entoando: “I am going where streams of whiskey are flowing”.
Adeus Trapattoni, velho crente. Fiquei agarrado uma noite a seguir a um jogo de futebol da Irlanda com a França, falseado pela mão de Thierry Henry, como se o italiano ainda estivesse em Lisboa. Não julguem que foi pela crença do italiano. Ainda não fiz a estrada de Damasco. Anúncio publicitário: Visite a Síria, se tiver dúvidas teológicas ou mesmo ideológicas, percorra a nossa estrada mais famosa. Vindo de Tarso, Saulo transformou-se em Paulo, o mais famoso convertido. Ainda temos explosões e clarões. Fim de anúncio.
A edição pela qual segui a noite de Leopold Bloom, dividia-se em 3 partes. Não tinha explicitamente os 18 capítulos. Tornou difícil a leitura. Requisição, prazos de entrega não cumpridos, mais uma requisição, cartas da bibliotecária informando prazo ultrapassado, tudo regularizado, até à leitura final. Uma odisseia literária. De ilha em ilha, até aos braços de Penélope e ao seu monólogo interior. Capítulo por capítulo, com os estilos de narração diversificados, os passos por Dublin de Leopold, os seus encontros com outros personagens, Stephen Dedalus, entre outros, e um final arrebatador com Molly Bloom e o seu Sim.
Adeus Joyce, James, escritor de Dublin, de Trieste, Paris e Zurique. Irlandês, portanto. Referência literária que só agora tive oportunidade de devorar. A fonte de muitos prosadores, o escritor eleito para tantos.
Adeus Leopold Bloom, judeu convertido ao catolicismo, irlandês indiferente ao nacionalismo, publicitário de profissão - o anti-herói, personagem principal do livro que me preencheu o inverno.
Adeus Ulysses. Voltar-nos-emos a encontrar. A próxima vez será na Odisseia, na de Homero. Com cantos explícitos, personagens e episódios da história da literatura, pelas ilhas e batalhas helénicas. Até ao regresso a Ítaca de Ulisses.
 
(a publicar no dia 18/04/13)
 
 

quarta-feira, abril 10, 2013

Um produto integrado de Turismo

Coloquei duas questões nas páginas do labor da semana passada, referentes ao Turismo da região do Entre o Douro e Vouga, prometendo responder-lhes na presente edição: Existem produtos estratégicos para ocupar um turista durante pelo menos um fim-de-semana? Existem produtos regionais para serem comprados pelos turistas, incluindo produtos gastronómicos?

Pode-se responder a ambas as questões, enumerando os pontos de interesse turístico dos vários concelhos, integrantes da região.

Assim, temos em Santa Maria da Feira: o altaneiro castelo, uma aldeia típica nas margens do Douro, os núcleos museológicos do papel e da cortiça, o exotismo ornitológico em Lourosa, o centro de ciência Visionarium e o castro de Romariz. Como oferta de produtos para os turistas, temos a doçaria regional, onde se destaca a fogaça.

Em Arouca temos o convento com o Museu de Arte Sacra, as águas do rio paiva e dos seus afluentes, o geoparque com as suas trilobites e as pedras parideiras, os passeios pedestres, a serra da freita, as aldeias típicas em xisto. A raça bovina arouquesa é o principal atrativo gastronómico do concelho, complementando-se com os doces conventuais, incluindo um pão-de-ló curiosamente húmido.

Em Vale de Cambra é menor a oferta turística, aldeias com casas de xisto onde existem percursos pedestres e praias fluviais a merecerem o maior destaque.

Oliveira de Azeméis esqueceu-se de modernizar o conceito da Casa Ferreira de Castro, no entanto, através de um produto regional único, o pão de Ul, tem sustentado a sua oferta turística. Primeiro através do parque molinológico, instalando percursos pedestres na povoação e mais tarde, transformando Ul em aldeia típica de Portugal.  

S. João da Madeira oferece o Museu da Chapelaria, os seus circuitos pelo património industrial e claro, a venda de alguns produtos incluídos neste conceito turístico.

Uma vasta oferta turística, todos juntos, os concelhos podem ser um produto de integrado turismo: património militar, histórico e religioso, turismo na natureza, núcleos museológicos, centro de ciência e conhecimento, além dos inovadores conceitos de turismo industrial e turismo educativo, este invocado pelo geoparque. Tudo encaixado pela oferta gastronómica da região, como atrás referido.

A proximidade geográfica permite a um visitante completar o seu programa de fim-de-semana, procurando outras experiências turísticas, com curtas deslocações e enriquecendo o seu tempo de lazer. Para isso, é necessário criar um conceito regional comum em termos de turismo, para os cinco concelhos do Entre o Douro e Vouga, à semelhança do trabalho a ser desenvolvido pela ADRITEM – associação de desenvolvimento rural integrado das terras de santa maria. Nada serve ter conceitos inovadores, senão tiverem escala. A escala regional só se adquire com objetivos comuns. Uma nova dinâmica para a Associação de Municípios desta região, que pode ser enquadrada num futuro quadro comunitário de apoio e daí se conseguir o financiamento necessário para articular o turismo regional e dotá-lo de outra dimensão.

O texto já vai longo e por isso, a parte final desta dissertação sobre turismo, precisamente sobre a capacidade do Turismo Industrial se tornar ele próprio um produto integrado, ficará para uma próxima oportunidade. 

 

(a publicar no dia 11/04/13)

 

quarta-feira, abril 03, 2013

Turismo Regional

            A semana passada nas páginas do labor dissertei sobre o Turismo Industrial. Essencialmente, focando a necessidade deste produto ganhar escala, a nível da entidade regional de turismo onde o concelho está inserido, o Porto e Norte de Portugal.

            No enquadramento temático apresentei vários produtos estratégicos de turismo. Nesse texto genericamente demonstrei esses produtos, não entrando em pormenores exemplificativos por região, associação de municípios, ou mesmo por concelho.

           Ao turista, depois de se decidir por um destino, surgem sempre quatro questões: onde dormir? Onde comer? O que fazer? E o que comprar?

            Há concelhos pela sua capacidade de oferta, que respondem bem a todos estes requisitos. Outros estão mais limitados, servindo-se da vizinhança para completar a oferta.

            Exemplificando, com um pequeno passeio familiar, no nosso país. Uma manhã acordei em S. Martinho do Porto, percorrendo a enseada pela marginal. Desloquei-me para o interior, fazendo logo em Alfeizerão uma paragem para a obrigatória compra de pão-de-ló. Retomando a estrada em direção a Alcobaça, fui verificando a herança paisagística da ordem beneditina. Já na cidade, investi no mosteiro, visitando-o, revisitando os túmulos de D. Pedro e D. Inês de Castro. No exterior verificava a evolução turística da praça, as esplanadas envolventes, os arruamentos arranjados, espreitando no outro lado da colina a torre de prospeção petrolífera. Entretanto, a família entrou numa loja de produtos locais. Artesanato, acessórios de moda, louças, artigos de decoração, entre outros. Compra-se isto e aquilo.

O passeio prosseguiu tendo como destino a Batalha. Mais um Mosteiro, com pormenores arquitetónicos peculiares, vestígios históricos e explicações da dinastia de Avis, completavam a oferta dos túmulos da enclítica geração, ladeados pelos dos seus progenitores. Almoçamos ao ar livre, com vista sobre a estátua do Rei D. João I. Depois foi seguir para o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota. O guia fez a receção histórica, encaminhou-nos para o auditório onde foi exibida a recreação explicativa da batalha. No exterior, percorremos o quadrado, a ala dos namorados, até alcançarmos a capela prometida, em caso de vitória, pelo Condestável, o Santo.

De regresso à viagem pelo automóvel, rumei para o interior. Passei ao largo de Porto de Mós, vendo ao longe as particularidades do castelo. Naquele momento só me interessava atingir Mira de Aire. Aguardamos pelo momento da descida às grutas e percorrendo os mais de 600 degraus, deslumbramo-nos com as paisagens subterrâneas. No final, a proximidade a Minde, obrigou a uma visita rápida ao seu mar, em época estival, sem qualquer vestígio de água.

Por ser domingo, o resto da visita foi adiada. Um dia retomarei Tomar (bela redundância), visitando os vestígios dos Templários, seguirei para Ansião para visitar os fósseis marinhos, continuarei para Penela, onde além dos sinais do passado humano, será obrigatório comprar um queijo do Rabaçal e terminarei o passeio em Condeixa, visitando as ruínas romanas em Conímbriga, procurando um pouco mais a sul, as Buracas do Casmilo, pelo seu valor geológico e paisagístico.

Em quatro parágrafos, fiz referência aos produtos estratégicos da região Oeste e Centro. Paisagens, património histórico e religioso, particularidades da natureza são os motivos da visita; produtos gastronómicos e outros produtos regionais são a oferta para venda. Verificando-se como a proximidade entre concelhos pode ajudar a complementaridade na escolha de um itinerário turístico.

Estes concelhos, por terem pontos em comum, promoveram uma estratégia de desenvolvimento regional ao nível turístico.       

            Neste ponto, é importante fazer a reflexão da capacidade turística da região Entre Douro e Vouga. Reconhecendo que ao nível da restauração e hotelaria, existem várias ofertas, praticamente para todos os bolsos.

            Convém então lançar a seguintes questões:

Existem produtos estratégicos para ocupar um turista durante pelo menos um fim-de-semana? Existem produtos regionais para serem comprados pelos turistas, incluindo produtos gastronómicos?

Estas e outras questões merecerão uma resposta na próxima edição do jornal labor. Na qual, procurarei ainda justificar como o Turismo Industrial terá capacidade para se tornar um produto integrado de turismo.

 

(a publicar no dia 04/04/13)