quarta-feira, setembro 11, 2013

Ambição

                A nova piscina municipal tem sido tema recorrente nos meus textos. Sempre me manifestei contra, atendendo a que considerava ser possível fazer uma adaptação das atuais instalações, economizando-se uns largos milhares de euros.
Sobre o assunto escrevi várias vezes, idealizando um plano B, caso não fosse garantido financiamento para a nova piscina, através de fundos comunitários.
                Não vou repetir os argumentos de outrora.
Nem mudei de opinião.
Perante a possibilidade, cada vez mais real, do financiamento ficar garantido, é necessário olhar-se para o projecto com outros olhos.
Longe de mim criticar o projecto vencedor e muito menos o seu autor.
Acontece que, por linhas tortas, o dono da obra vai pedir ao autor umas pequenas alterações.
Esta abertura deve ser aproveitada.
A flexibilidade da Câmara Municipal de S. João da Madeira, em pretender dotar o complexo de uma vertente de apoio à natação de alta-competição regional, permite apresentar algumas considerações desportivas. 
Sendo eu um optimista e ambicioso, nada me impede de escrever as seguintes linhas.
A natação, como actividade desportiva e física, engloba cinco fases distintas:
- adaptação ao meio aquático
- ensino
- manutenção física
- treino
- competição  
A estas, deve-se acrescentar a utilização da piscina por aqueles que procuram momentos de lazer: uns mergulhos, umas brincadeiras refrescantes e uma boa dose de diversão.
                Tendo tudo isto presente, o caderno de encargos da nova piscina solicitava soluções para todas utilizações: um tanque para adaptação; um tanque para lazer e outras actividades físicas; uma piscina de 25 metros, com duas pistas de 50 metros acopladas, permitindo o ensino, o treino e também a manutenção física.
                De fora ficava a componente competitiva, pois para receber provas homologadas pelas entidades competentes, é necessário uma adaptação, ficando, para o efeito, a piscina com apenas com 25 metros, o que não permite receber todo o tipo de competições.
                Convém referir que os Campeonatos Nacionais de Natação, em qualquer escalão, atraem centenas de participantes, familiares e demais apreciadores da modalidade, como S. João da Madeira teve oportunidade de verificar no segundo fim-de-semana de Julho passado, na piscina exterior.
                Se for construída como projectada, a nova piscina ficará amputada. Gastar cinco milhões e não construir bem será um erro. Além do desperdício de verbas comunitárias.
                A maior ambição de S. João da Madeira será construir um equipamento público diferenciador. Ora, tal só será conseguido através de uma piscina que englobe todas as vertentes da natação, incluindo a possibilidade de receber, no Inverno, provas nacionais e internacionais homologadas.
                A melhor forma de o fazer é construir uma piscina multiusos.
Tal como os pavilhões modernos, a ideia será dotar a nova piscina com todas as 8 (ou 10?) pistas com 50 metros de comprimento, permitindo adaptar o plano de água às reais necessidades: no dia-a-dia aulas, treinos, horário de actividade física para idosos e espaço de lazer; quando necessário, todas as divisões seriam retiradas e todo o volume de água seria destinado à realização de provas de competição, ou para qualquer outra actividade.
Ressalvo, para evitar erros de interpretação, que sou favorável à construção do tanque de adaptação ao meio aquático, tal como idealizado no projecto vencedor. A grande alteração, seria a fusão dos outros dois num só, repito-me para vincar a ideia.  
                A quinze dias das eleições autárquicas é de estranhar que os vários candidatos ignorem este assunto, não se referindo a ele de forma objectiva e clara. É um grande investimento, espera-se que seja co-financiado, no entanto, vai obrigar a autarquia a contrair um empréstimo, a aumentar a sua dívida e pela cidade espalham-se cartazes partidários e nem uma só palavra sobre o assunto.
                Um debate que não surge, evidenciando que o resultado da sondagem publicada em Agosto, não é fruto do acaso.
                A Câmara Municipal de S. João da Madeira, caso queira, poderá construir na cidade uma piscina ao nível das melhores no país, agradando aos seus habitantes, à comunidade da natação e a todos os forasteiros que a procurem, para os mais variados fins.
                Acredito que será esse o caminho.
 
(a publicar no dia 12/0913)
 

quarta-feira, setembro 04, 2013

Fim de Agosto

Para o regresso, quatro breves apontamentos do mês findo:

1.            A sondagem publicada no jornal “O Regional” condicionou as próximas eleições autárquicas. Em especial, por ser divulgada a menos de dois meses da data agendada para o escrutínio e ao ser publicada na última edição, antes das férias de Agosto.

Ao não permitir qualquer reacção política, nem comentário, nem estudo contraditório, nem acção de mobilização dos eleitores, por coincidir com o mês em que a maioria da população está de férias, existe a forte convicção que as eleições já estão decididas.

                Os números divulgados, a confirmarem-se no dia 29 de Setembro, permitem antever uma folgada vitória de Ricardo Figueiredo, uma disputa curiosa pelo segundo lugar, entre o candidato do PS e a candidatura do Dr. Jorge Lima e uma feroz disputa entre as restantes três forças políticas – CDS/PP, CDU e Bloco de Esquerda – pelo quarto lugar, ou pela fuga à menos votada.

                A sondagem confirma a ideia, expressa anteriormente, da população local se identificar com a independência política. Entre a entrega desinteressada à causa pública ou a luta partidária, os eleitores preferem a primeira, assim como, optam pela elevação argumentadora em detrimento do ataque insultuoso. São sinais democráticos bem visíveis por todo o país e a maioria da população sanjoanense reconhece-se neles. 

2.            Uma notícia do Jornal Notícias, sobre a hipotética devolução de alguns hospitais aos respectivos núcleos concelhios da Santa Casa da Misericórdia, evidenciou outra forma de fazer política: a assertividade. Um comunicado curto, vincando uma ideia antiga, a necessidade de o Hospital de S. João da Madeira permanecer no Serviço Nacional de Saúde. Em contraste, uma longa lista de acusações, esquecendo a necessidade de racionalizar meios do Estado, tão correctamente apregoada durante os anos 2005 a 2009.

3.            As características essencialmente urbanas do concelho de S. João da Madeira permitem encarar a época de incêndios com alguma distância. Apesar de muitos fogos serem em freguesias de concelhos vizinhos, as chamas raramente incomodam a população local. O fumo, esse faz-se sentir e permite visualizar ao longe a desgraça que outros estão a viver. Neste contexto, a notícia da detecção de um eventual incendiário, oriundo de S. João da Madeira, não possibilita encarar todo este processo sem se questionar o falhanço da educação e da acção cívica comunitária.

4.            A exposição de Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda com 235.000 espectadores, a grande maioria durante o mês de Agosto e a exibição do filme “A Gaiola Dourada”, ao qual assistiram em Portugal no último mês, o da estreia, 430.000 espectadores, demonstram a capacidade dos criadores nacionais em atrair público. Contribuí para esses números, intervalando os banhos e as sessões de leitura, para, em família, visualizar as concepções de Joana Vasconcelos e a divertida história filmada pelo luso-francês Ruben Alves. Depois do sucesso da exposição em Versailhes da artista portuguesa, temos outro bom exemplo da exploração do filão: comunidades portuguesas.

 

quarta-feira, julho 24, 2013

As Férias

         Os primeiros indícios da aproximação das férias são a diminuição da atividade escolar, os exames, os resultados, as matrículas, acompanhadas das festas finais das atividades complementares. Enquanto isso, os jovens atletas terminam a sua época desportiva, parando os treinos.

O trabalho dos adultos prossegue, cumprindo-se o calendário.

Nas estradas surgem carros limpinhos, de pintura brilhante, com matrículas com números e letras organizados de forma diferente. Alguns carros trazem a cruz suíça na matrícula e outros apresentam chapa amarela. 

Aos poucos as empresas vão entrando em período de férias. As zonas industriais começam a ter menos movimento. Menos tráfego, menos carros estacionados junto às suas portas, ou nos parques de estacionamento. Poucas pessoas a percorrer as ruas adjacentes às fábricas. Algumas sirenes desligam-se neste período. Vários portões permanecem fechados, cortinas corridas ou persianas desenroladas.  

Os jornais locais anunciam o encerramento para férias, não se publicando durante o mês de agosto.

O comércio espera pelos turistas ocasionais, pelos seus ímpetos consumistas, em especial os emigrantes.

Os serviços e repartições recebem algum fluxo extra de clientes ou utentes, durante as primeiras manhãs de Agosto mas, depois tudo fica mais calmo. A escala de férias vai estabelecendo o ritmo do trabalho.

Nas ruas do centro, as esplanadas são procuradas pela manhã. Grupos de clientes partilham mesas, fazem consumo, agitam-se em conversas. Circulam forasteiros de calções, fazendo abastecimentos matinais, para debandar até à praia durante a tarde.

O movimento de muitos.

As tardes são calmas e no seu final, estranha-se o silêncio. Surpreende a quantidade de lugares de estacionamento disponíveis pelas ruas centrais e sobretudo, o pouco trânsito na hora de ponta.  

O serão é confrangedor.

As noites de verão, em zona balnear, caraterizam-se pela vontade social de conviver. Cafés, bares e esplanadas enchem-se, as ruas apinham-se. Pessoas sem horários, com vontade de passear, de conversar, preferem sair de casa, alterar hábitos, desligar-se da televisão e encontrar amigos.

Em contraste, as ruas vazias da cidade em período noturno, com cafés encerrados para férias, outros com poucos clientes e com jornais antigos amontoados, em especial, o último número dos semanários locais publicado no final de julho, folheado vezes sem conta, observando-se de novo as fotos aí publicadas, aproveitando para comentar com a restante clientela, uma ou outra patenteada, interrompendo a conversa futebolística do dia, baseada nas hipotéticas aquisições dos clubes nacionais, ou nos resultados menos conseguidos na preparação dessas equipas, permitem pensar que é tempo de partir.

Mudar de ares, ver outras caras, envolver-se em outras paisagens. Na praia, no campo, na serra, na cidade, na aldeia, ou mesmo numa vila, é tempo para as merecidas férias.

O reencontro com os leitores fica agendado para Setembro. Até lá, aproveito para descansar os dedos (foi um ano produtivo em textos publicados) e dedicar-me à leitura compulsiva. Vou atacar clássicos da literatura e uma biografia do rei D. Duarte... o do século XV.

Finalizo, desejando a todos, umas ótimas férias.

 

(a publicar no dia 25/07/13)

 

 

 

 

quarta-feira, julho 17, 2013

A sede

                Há quinze dias, terminei a minha crónica fazendo referência ao sonho olímpico da Associação Estamos Juntos. Como estava a terminar o texto, não fiz referência ao autor de tal desejo. Datei-o, demonstrei a sua longevidade. Não fiz mais nenhuma alusão. Por isso, começo este texto por emendar essa omissão.
                Nos anos 80 do século passado, ainda no Tanque-piscina da Escola Primária do Parque, Armando Margalho, monitor de natação, traçava um desafio para o desporto de S. João da Madeira: com o futuro complexo desportivo das Corgas, estavam reunidas condições para um sanjoanense participar nos Jogos Olímpicos.
                Antes de tal feito ser conseguido, muita gente aprendeu a nadar, competiu na AEJ e ficou longe desse objetivo. Uma prestação que serviu para melhorar a componente desportiva da secção de natação. E não só.
Durante esse tempo o clube foi crescendo. Aumentou o número de atletas, aumentou as suas secções desportivas, diversificando a oferta à população.
Os vinte e sete anos de história da AEJ contemplam as suas secções desportivas, as mais antigas e extintas, como o basquetebol e o automobilismo. As antigas e ativas, como o xadrez e o ténis, além de outras recentes e inativas como a capoeira, o parapente e o apoio a pilotos sanjoanenses de karts e de motociclismo, que fizeram a história do clube.
Os resultados desportivos alcançados, ou seja, o reconhecimento do trabalho meritório efetuado pelas secções desportivas; o pioneirismo e a devida grandeza do Campo de Férias, organizado anualmente desde há 32 anos; e por fim, a envolvência dos sócios, fez o clube ser reconhecido pela população, pela comunidade, e sobretudo, pela edilidade. Deste modo, a ambição traçada em 2001 de tornar a AEJ o clube das Corgas, é hoje perfeitamente consagrada e visto com naturalidade no contexto social da cidade. O mesmo acontecendo com a utilização da piscina, para treino dos atletas, no horário nobre em detrimento do público em geral.
À sucessão de diretores, suas vontades e modelos de gestão, a natação permaneceu sempre com os mesmos técnicos: Luís Ferreira, desde 1990, coadjuvado por Augusto Macedo, que regressou ao clube em 1992.
A história olímpica é conhecida, sobretudo a partir de 2007, quando Ana Rodrigues entra no projeto Londres 2012, ou seja, a cinco anos do desfecho feliz.
A partir dessa data, o antigo sonho passava a estar mais próximo e como é natural, passou a orientar a política desportiva do clube.
Concretizado o objetivo antigo, o clube entrou numa nova era.
Nas últimas semanas visitei as Corgas - para assistir ao Torneio SJM 13 e ao Campeonato Nacional de Infantis de Natação -, apercebi-me de um maior envolvimento humano em torno da AEJ. Essa mesma sensação também tive nas provas de cadetes, que acompanho. No passado fim-de-semana, em Coimbra, congratulei-me por ver tanta camisola amarela e a bancada tão cheia de apoiantes, muitos vestidos com as cores do clube, acompanhados do tradicional cachecol.
É importante potenciar toda esta mobilização humana, alarga-la ao dia-a-dia do clube, não esquecendo que a AEJ não é apenas uma associação de pais. Apesar de ser imperioso ter boas contas, a gestão desportiva não é apenas um exercício de contabilidade. É necessário ter capacidade de traçar projetos, alguns utópicos, envolvendo os agentes do clube, sobretudo, os jovens, em torno desses objetivos.
Para os próximos anos, a AEJ vai ter o problema da sede social entre mãos. A hipotética construção da nova piscina, vai obrigar o clube a trocar de instalações. Uma oportunidade para lançar um desafio: a autonomia relativamente à sede social, ou seja, em instalações próprias.
 
(a publicar no dia 18/07/13)
 

quarta-feira, julho 10, 2013

Baixa-Mar

            A necessidade de frescura, para contrastar com os dias tórridos, as noites quentes, levou-me à praia bem cedo.
            Dormi sem roupa no tronco e de janela bem aberta.
Ergui-me ao toque de alvorada, olhei para o horizonte e observei uma névoa sobre o mar.
            O fresquinho matinal sabia bem, no entanto, sem aragem, adivinhava-se um calor descomunal.
            Era tempo de rumar à praia e esquecer o calor.
            Em dois tempos, conduzi-me para praia, atravessando os inevitáveis pinhais. Ao estacionar, verifiquei que a névoa observada desde casa eram nuvens altas, misturada com uma pequena neblina pousada junto ao areal. No caso concreto da praia escolhida, uma neblina entre os paredões graníticos, que as autoridades municipais e marítimas tanto gostam, cujo efeito prático é a continuidade da erosão costeira.
            Aspetos geográficos à parte, às 8h30m estava na praia. Não era o primeiro, nem tinha essa intenção. A única ambição era chegar cedo, sentir o fresco matinal. Se visse algum barco a recolher as redes xávegas, era um prémio justo, para quem, dia após dia, acorda cedo e ruma para uma fábrica.
            Os sinais da atividade piscatória estavam expressos nas marcas dos rodados do trator na areia. As redes já tinham sido recolhidas. O barco descansava na areia.
            Estava maré baixa, o que dava alguma largura ao areal. A areia seca era reduzida e tinha sido calcada pelo trator. O areal, húmido, apresentava-se disponível e era o mais apetecível, face ao calor sentido nas vésperas. Não caminhei muito, deixei-me ficar junto aos objetos das famílias madrugadoras. As pessoas estavam mais abaixo junto ao mar.
            Deitei-me, peguei num livro, esperando entretanto adormecer, com o som do mar a embalar-me.
            Normalmente, permaneço na praia procurada pelas famílias, com esta condição: o barulho das ondas a rebentar tem que ser superior ao dos meus vizinhos veraneantes. Quando quero silêncio, afasto-me um pouco.
            Não levei protetor, o que para um branquinho como eu, é um crime. Só tinha uma hipótese, cumprir o definido pelos dermatologistas, às 11 horas sair da praia. Como contava recuperar umas horas de sonho, adormecer poderia ser perigoso.
            A areia húmida serviria de barómetro, deitei-me com uma mão a sentir a sua frescura, quando a sentisse seca e quente, estaria na hora recomendada pelo Dr. Osvaldo Correia.
            Ali permaneci deitado, os olhos fecharam-se e cochilei um pouco. Os cochichos eram suportáveis, do meu lado direito vinha o som de conversas sobre o peso perdido, tipo de dietas e outras conversas adequadas à época estival. O barulho das ondas era mais agradável de ouvir, sentia-se um vento sul. A névoa matinal tinha desaparecido, o sol espreitava pelas pequenas nuvens, a areia continuava húmida. Aliás, a minha toalha estava húmida. Uma frescura completa.
            Virei-me de barriga para cima, com os pés direcionados para o mar. Não concebo tornar-me um relógio de sol, com a minha cara a receber a maior incidência dos raios. Fiquei de olhos abertos a espreitar as nuvens, os efeitos dos raios a atravessarem a camada húmida. Por vezes, um par de gaivotas atravessava a praia a voar.
            Ao meu lado, o número de guarda-sóis aumentava, embora, permanecessem sozinhos, pois a sua sombra ainda não era apetecível.
Tentei pegar de novo no sono.
            A enchente da maré obrigou os veraneantes a chegarem-se aos seus pertences. Horas das crianças comerem o reforço do pequeno-almoço. A algazarrava aumentava. Mais gente chegava à praia e rodeavam os madrugadores, conquistando-lhes o areal.
            Sentei-me. Procurei a garrafa, enchida em casa com água fresquinha, bebi insaciavelmente. Optei pelo banho, caminhei em direção ao mar, a frescura da areia, pronunciava o desfecho. A água estava gelada. Só molhei as canelas.
            Voltei à toalha. Abri de novo o livro, procurando desfrutar um pouco mais daquela manhã fresca. As nuvens estavam já dispersas, os raios solares eram agora mais quentes. Ainda assim, a areia continuava húmida e isso era o suficiente para me concentrar na leitura e não ouvir as conversas vizinhas. Página após página, ouvindo sobretudo o som do mar, cheguei ao fim do livro.
Olhei para o mar. Os parceiros que ocuparam a minha frente estavam praticamente a receber a água da onda. Ao meu lado, as crianças já se inquietavam, trocando brinquedos ou disputando baldes e pás. As mães continuavam a falar de trivialidades.
            Voltei a sentir a areia. Estava seca.
Em cada onda, o mar aproximava-se mais das toalhas dos meus vizinhos frontais. Não tardava nada e tinha que me encolher para eles continuarem na praia, por isso, optei por recolher. Sacudi a toalha, já seca. Vesti-me. Tirei o telemóvel do bolso e o seu relógio indicava 11 horas e um minuto. Precisão dermatológica.
As praias da nossa região, devido ao seu reduzido areal, passam a ficar condicionadas pela duração da baixa-mar.
Não quero com isto retirar a devida importância aos conselhos dermatológicos, sobretudo, quando o índice de radiação ultravioleta está sempre próximo do máximo.
 
(a publicar no dia 11/07/13)

quarta-feira, julho 03, 2013

O homem de chapéu

            Percorro as páginas escritas por Raul Brandão. Envolvo-me com os seus mortos, com as respetivas sombras. Delicio-me pela brilhante capacidade de narrar a vida dos mais desgraçados, mesmo nos momentos mais difíceis da sua vida. 
            Com sofreguidão, devoro dois livros de Agustina Bessa Luís. Fico perplexo perante a erudição colocada na voz popular. Por outro lado, aprecio a crítica feroz, embora póstuma, às paixões de Camilo Castelo Branco. Com perdição, leio os seus passos pelas ruas do Porto, pelas casas de Gaia e do Tâmega.
Procuro entre os três escritores o fio condutor. Não é a cidade, não é região, banalmente denominada pela política como Norte.
Não é o estilo, nem a época literária, nem o género.
Nem a sucessão pelos séculos.
Em comum, ficaram imortalizados na tela do cinema, pela mão de Manoel de Oliveira. O cineasta perpetuou a obra literária destes escritores, pelos séculos seguintes. Camilo Castelo Branco, ainda durante o século passado, com base num argumento de Agustina Bessa Luís. Relação que se manteve durante mais anos, com mais adaptações cinematográficas, da vasta obra literária, da escritora do Tâmega. Em 2012, Manoel Oliveira baseando-se num romance de Raul Brandão, prestou-lhe uma homenagem ao realizar o filme “O Gebo e a sombra”.
O cineasta imortalizou na história, sempre volátil, os nomes da literatura nacional. Não esqueceu estes, nem outros, muitas vezes com pequenas aparições das capas dos livros, em momentos dos seus característicos filmes. Por exemplo, o livro S. Paulo, de Teixeira de Pascoaes, uma biografia nada teológica da vida do Santo, surge numa determinada imagem na mão do fotógrafo, protagonista, no filme “O estranho caso de Angélica”.
Percebe-se a intenção de Oliveira: a eternização dos seus escritores favoritos, alguns seus contemporâneos, alguns seus amigos, através da sua arte, com mais capacidade de divulgação, podendo chegar aos mais diversos pontos do continente e até do planeta, algo impensável para os livros editados desses mesmos escritores.
O fator Manoel Oliveira, a sua idade, a sua longevidade como realizador, o seu reconhecimento no contexto europeu do cinema, permitem intitulá-lo como uma das maiores figuras contemporâneas da cultura portuguesa.
À sua figura associa-se o chapéu.
(Cruzei-me com ele, pelo menos, duas vezes em espaço público e vi-o de cabeça coberta, tendo educadamente respondido aos cumprimentos, levantando-o ligeiramente.)
O potencial do uso, por diversas figuras do mundo das artes, deste adereço, um dos produtos tradicionais da indústria de S. João da Madeira, pode ser utilizado para promover um evento cultural na cidade, impondo-lhe um carater sério e uma escala nacional, podendo mesmo, dar-lhe uma dimensão internacional.
Num momento em que os novos espaços culturais públicos são uma realidade e precisam de encontrar um modelo de sustentabilidade financeira, todas as sugestões são importantes.
Como tenho feito ao longo de anos nas páginas do labor, vou apresentando ideias sobre o assunto, contribuindo apenas para a discussão pública.
Sobre este tema, referi em Maio passado, neste jornal, a potencialidade de animação das ruas da cidade, com a utilização maciça de chapéus pela população, conseguindo-se assim, num fim-de-semana do ano, o exotismo necessário para se obter uma cobertura mediática positiva. 
A isto junte-se a tal homenagem a “O Homem de Chapéu”, utilizando-se as novas infraestruturas municipais na área da cultura, conseguindo-se juntar a retrospetiva da sua atividade artística, com a estreia de um novo trabalho, tendo obviamente garantida a presença do artista em causa.
Com isto, teremos tudo para um produto de excelente qualidade, com um mediatismo extremo se pensarmos no próprio Manoel de Oliveira, sucedendo-lhe anualmente nomes de outros artistas reconhecidos pelo uso de chapéu, como Tom Waits ou Clint Eastwood....
Ambição excessiva?
Maior sonho, foi acreditar que um dia S. João da Madeira haveria de ter um nadador Olímpico. 30 anos depois, foi conseguido.    
 
(a publicar no dia 04/07/13)

quarta-feira, junho 26, 2013

A hora do ardina

            Na Praça esticava-se a noite. Após o fecho dos diversos estabelecimentos, prolongavam-se as conversas por mais umas horas. Temas correntes, sem época precisa. Sazonalmente, debaixo dos arcos do Parque América, nos dias frios, ou nos bancos centrais, junto à vegetação, nas noites de verão.
A luz pública iluminava as vozes. As sombras escondiam as diferenças. Discutia-se futebol e política, da mesma forma acalorada que se defendiam os gostos musicais e cinematográficos - atropelando as ideias dos outros. Trocavam-se conhecimentos escolares, os ensinamentos da filosofia, da história, da biologia, entre outras conversas mundanas. E planeavam-se férias. Escapadinhas no valor da mesada, ou da remuneração do trabalho no mês de Julho.
As diferenças suburbanas, acentuadas pelo pós-escolar prematuro de muitos jovens, eram assimiladas sem classes. As frustrações sobrepunham-se à harmonia do entendimento e os alvos eram sempre os que prolongavam os estudos. A violência era latente, explodindo sempre em confronto físico honesto, salvaguardando-se as amizades.
O futuro não existia. O objetivo era inserir uma moeda de vinte e cinco escudos numa máquina e desfrutar dos créditos. Evitar abanar os flippers em demasia e conseguir uns créditos para esticar a tarde, ou o princípio da noite, prolongando a diversão.
A marginalidade convivia paredes meias connosco. A linha era ténue, embora a responsabilidade tivesse sempre prevalecido. Para isso, contribuíram os sonhos de cada um, a ambição pessoal e uma mudança nos hábitos de diversão.
Nas primeiras madrugadas vividas na Praça, com o intuito de aceder às traseiras da padaria, para comprar pão quente e meia-lua, constatávamos as rotinas de quem trabalhava à noite.
Cedo, muito cedo - para nós (para quem dormia, seria tarde), uma carrinha entrava a grande velocidade na Praça, vinda de norte. Abrandava junto aos arcos, largava dois grandes embrulhos e seguia para Sul. Não se pense tratar-se de uma entrega de uma substância ilícita, o patrulhamento à paisana era garantido nessa época naquelas ruas - várias vezes as nossas conversas foram animadas precisamente pelos dois polícias destinados para o efeito. A carrinha era do Jornal de Notícias, ou da sua empresa de distribuição e os embrulhos eram precisamente da edição desse dia. Uns minutos depois, aparecia o Sr. Jaime. Desconfiado perante a nossa saudação, lá respondia atarefado, carregando os volumes e desaparecendo para os seus afazeres.
A sua chegada era o fim da nossa noite.
A partir dessa hora começavam a surgir os outros trabalhadores. O carro da recolha do lixo, com as suas luzes amarelas, obrigava os menos prevenidos a aceder a casa e a carregar o lixo para o rés-do-chão. Falhar essa tarefa era denunciar a hora de chegada a casa, além do vexame de colocar o saco do lixo, de novo dentro do caixote.
Sensivelmente uma hora depois a padeira atacava os prédios. O pão era colocado à porta de cada cliente. Entrar em casa de pão na mão, o que era apetecível quando se regressava cheio de fome, era outro sinal denunciante da hora do fim da noitada.
O cúmulo na vida de boémia, ao fim de semana, era entrar em casa de jornal na mão. A distribuição à porta era efetuada já perto das 7 horas, pelo “Jaime dos jornais”. Via-se os títulos, espreitava-se o jornal do vizinho, algumas vezes um dos jornais tombava do 2º andar, obrigando a descer toda a escadaria, para voltar a subir os 42 degraus, colocando tudo em ordem, sem prejudicar o serviço de quem trabalhava toda a noite.
À semana havia outro limite, que algumas vezes era ultrapassado, embora o interesse do relato não seja pertinente.
O falecimento do Sr. Jaime Ferreira representa o fim dos ardinas da cidade, escreveu-se nos jornais locais. Eu sempre o vi a trabalhar, durante a madrugada, ou em hora vespertina, quando ia comprar A Capital, ou procurava uma revista no escaparate do quiosque por debaixo das antigas instalações da PSP.
Para mim, o Sr. Jaime representa um dos obreiros honestos, essenciais para um conceito de qualidade vida que existe no centro de S. João da Madeira.
A sua ação noturna impôs um horário à minha vida de boémio, por isso, não podia deixar de evocá-lo.        
 
(a publicar no dia 27/06/13)

quarta-feira, junho 19, 2013

5 de Agosto

            Em Janeiro 2009, enalteci o esforço hercúleo do anterior presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, em resolver os problemas de gestão, herdados do seu antecessor. Listei doze assuntos, que estavam já resolvidos, ou em vias de o ser nos anos seguintes.

Apenas um chegou a 2013 por resolver - precisamente o restauro do cinema Imperador.

A semana passada, com a inauguração da Casa da Criatividade, chegou ao fim este capítulo na história da cidade. Não vou tecer considerações alongadas sobre esse período, apenas recordando o lançamento de várias obras, sem garantia de financiamento, que se prolongariam por longos anos, até à sua conclusão.

O endividamento da autarquia local ficou resolvido, em parte, pela venda de terreno municipal para a instalação do centro comercial e não só. Ficou reconhecida a capacidade de gestão do anterior edil, assim como, a sua apetência pela candidatura a fundos comunitários. Desta forma, a cidade não ficou com grandes problemas estruturais por resolver, nem muito menos, com muitas obras pendentes.

Três grandes investimentos municipais terão que ser resolvidos.

O primeiro não é nenhum problema, já que tem data agendada para a inauguração - precisamente a reconversão funcional das antigas instalações da Oliva.

Um dos outros investimentos a concluir será a ampliação do Centro Empresarial e Tecnológico / Sanjotec.

Por fim, teremos a nova piscina, ainda sem financiamento garantido. No entanto, as condicionantes de atribuição dos fundos, com a mudança de tutela, podem ser mais favoráveis ao projeto local. A disponibilização de verbas “lá para finais de 2013” (uma expressão utilizada pelo anterior presidente da Câmara), poderá mesmo acontecer. A nomeação do Dr. Castro Almeida para a Secretaria de Estado com a responsabilidade pela atribuição dos fundos comunitários, permite equacionar um cenário favorável ao financiamento da nova piscina local. Sem maquiavelismo, prevejo a divulgação desse financiamento antes do dia 29 de Setembro deste ano, data agendada para as eleições autárquicas.

A hipótese de conclusão destes projetos municipais, num médio prazo, abre a possibilidade de lançamento de novas ideias sobre a cidade. As eleições serão importantes para sufragar as intenções de cada candidatura. Numa época de crise económica, apresentar investimentos municipais, capazes de dinamizar o contexto social, será a audácia política necessária e obviamente a premiada.

Por agora, tudo está focalizado nas listas de candidatos.

A 5 de Agosto termina o prazo para entrega das candidaturas. Não sendo todas conhecidas, o que não permite extrapolar conclusões, verifica-se nas já apresentadas dois tipos: de um lado a militância, do outro a sociedade civil, encabeçada por candidatos independentes. Outro dado curioso, dos candidatos conhecidos, um é empresário e os restantes são funcionários do Estado.

A interseção destas tipologias acarretou uma novidade política, expressa no apoio de alguns dinâmicos (e jovens) empregadores da cidade, completamente inseridos no tecido social da cidade, que não tiveram qualquer dúvida em alavancar uma das candidaturas.

Os dados estão praticamente todos lançados. Daqui a um mês e meio, todos os candidatos serão conhecidos.

No final de Setembro tudo estará terminado.

 

(a publicar no dia 20/06/13)

 

quarta-feira, junho 12, 2013

A origem toponímica

         A toponímia, ao contrário do que se possa pensar, não se limita a dar nome às ruas e a colocar placas alusivas a esse nome, nos pontos mais estratégicos dos arruamentos.
            O estudo dos nomes de lugar, da sua origem e evolução, definem verdadeiramente a toponímia, que estuda também os nomes de cidades e outras localidades.
            Ao recolhermos informação sobre uma rua, muitas vezes, temos acesso ao nome anterior e conseguimos perceber a evolução associada, conseguindo datar a mudança e a nova designação. Temos como exemplo, a Rua da Liberdade, anteriormente designada de Marechal Carmona. Esta referência, associada à mudança de regime político em 1974, encontra semelhantes alterações um pouco por todo o país, em Avenidas, Praças, Pontes e outras obras públicas.
            A abertura de novos e modernos arruamentos, eliminando os existentes, provocou no passado o desaparecimento de alguns topónimos. Aqueles com mais relevância, serviram para batizar outras artérias, transferindo-se esse nome para outros locais das cidades, numa eterna homenagem. Não tenho de memória, exemplos lançados em S. João da Madeira, deste género, que possam ter provocado a eliminação, ou a transferência de nomes de ruas, para melhor exemplificar ao leitor, a evolução da cidade.
            Pelas ruas da cidade existem placas explicando os seus nomes: as homenagens da população a notáveis da terra, às profissões que marcaram a economia da cidade, a forasteiros ligados à política e às artes, além da referência à origem da povoação, nomeadamente invocando os seus lugares.
            Os lugares são a génese de qualquer localidade. Os lugares uniram-se por caminhos, estes deram origem a ruas, batizadas ao longo dos anos, conforme a vontade popular ou do poder político.
            Ao observarmos o nome dos lugares de S. João da Madeira, podemos perceber a sua história.
            Primeiro temos que perceber que vários desses nomes são comuns a várias localidades: Fontainhas, Devesa, Corgas, Espadanal, Vale, Fundões, Laranjeiras e Ribeiros. Estão associados à relação do homem com a natureza, neste caso, com cursos de água e aproveitamento agrícola (devesa significa campo fértil das margens de um rio).
            Os nomes Ponte e Travessas pressupõem a ação de travessia, neste caso do rio Ul, o que poderá indiciar o trajeto de antigas estradas, antes do traçado da estrada real.
            Lugares designados como Pedaço, Praça, Tapado, Volta e Vista Alegre são compreensíveis à luz do entendimento popular e das suas simples designações.
O mesmo já não acontece com Parrinho e Carquejido. Nomes sem paralelo no léxico português e de compreensão suposta, através da derivação de palavras associadas a produtos agrícolas, no entanto, como diria Agustina Bessa Luís, “não é qualquer filólogo que se atreve nos labirintos das origens fogosas do linguajar do povo”. Por isso...
Orreiro é definido no dicionário do Instituto Houaiss como “cavidade da trave do moinho de vento”. Assim sendo, ficamos com uma explicação para o nome do lugar e permite equacionar a tese de José Mattoso, sobre a designação tópica “da Madeira”, como localidade onde existiam oficinas de trabalhos em madeira: carpintarias e afins.
  Retrocedendo-se na história, chegamos à origem de outros dois lugares: Quintã – significa grande quinta, surgindo na documentação medieval. Anterior a essa época, ainda em período da reconquista cristã, é a utilização do termo casal – significando pequeno povoado, ou conjunto de casas, ou até mesmo limites de uma propriedade. Casaldelo e o seu oponente Casal Novo devem provir desta época.
Por fim, temos a Mourisca. É aceite pelos historiadores que o termo “mourisco” era utilizado pelos populares para designar tudo o que fosse antigo. Na década de 50 do século passado, procedeu-se a escavações arqueológicas neste lugar da cidade, não se tendo encontrado nada de significativo. O termo popular ficou. A utilização do morro pelos mouros, como ponto de vigilância dos movimentos, de norte para sul, das tropas cristãs é perfeitamente aceitável. O princípio de comunicação com a cidade a defender seria o de atalaias separadas vários quilómetros entre si, dispostas ao longo das principais vias / estradas e comunicando através do fumo, provocado por grandes fogueiras acesas nesses pontos elevados. Efetivamente, da Mourisca tem-se um campo de observação privilegiado sobre toda a envolvente.
Do período Visigótico, já escrevi em texto anterior, que existe um documento que refere S. João da Madeira e um nome de lugar – Ascarigo - de origem germânica, embora para mim, apenas interessado e não estudioso sobre o assunto, seja difícil fazer prova.
A via romana entre Coimbra e Porto teve que atravessar o rio ul, por isso à falta na cidade de vestígios do império, ficamos com uma noção histórica: quando estes chegaram à Península e encontraram os túmulos hemisféricos dos povos celtas, chamaram-lhes mamoas, por se assemelharam à forma de seio feminino.
A existência na cidade da Rua da Mamoínha, com todo o significado arqueológico e linguístico associado, prova que esta cidade foi habitada por povos celtas.
A toponímia permitiu essa revelação, perpetuada pela antiquíssima sepultura, demonstrando como é importante salvaguardar os termos e expressões populares, para se entender melhor a origem duma povoação.
 
(a publicar no dia 13/06/13)
 
 
 

quarta-feira, junho 05, 2013

Feriados

         O próximo dia 10, segunda-feira, será o último feriado nacional, em dia útil, até ao Natal.
            Explicando... O feriado seguinte será o dia 15 de Agosto – Assunção de Nossa Senhora – apesar de ser numa quinta – feira - é no mês de férias da maioria dos portugueses. Depois desse, só volta a ser feriado nacional a 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição, este ano ao Domingo. Por isso, só mesmo no Natal é que haverá novo feriado em dia útil.
            Valha-nos os feriados locais, a maioria em dias da semana, como os próximos S. António e S. João, nos concelhos que adotaram estes santos para oragos e que elegeram o dia do santo padroeiro para feriado municipal.
            S. João da Madeira terá o seu feriado municipal a 11 de Outubro, uma sexta-feira, o que é sempre bom.
            A supressão dos quatro feriados no calendário de 2013, sentiu-se a semana passada. A igreja abdicou de festejar o Corpo de Deus na tradicional 5ª-feira, ou melhor, nos 60 dias a seguir à Páscoa. Os outros três feriados, suspensos este ano, serão no último trimestre do ano, o 5 de Outubro, Dia da Implementação da República, o dia de Todos os Santos – dia 1 de Novembro e finalmente, o dia da Restauração da Independência, o 1º de Dezembro.
Em resumo, nos próximos cinco anos, o primeiro semestre terá sete feriados (um sempre ao Domingo – a Páscoa) e no último haverá apenas três. A estes juntar-se-á o feriado local, como atrás mencionei.
Ficou por resolver o Carnaval, feriado para uns, férias para outros e intolerância para muitos.
Ao longo da minha profissional, já trabalhei em dia feriado, por necessidade laboral. Tirando o primeiro dia do ano, a Páscoa, o quinze de agosto, o primeiro de novembro e o Natal, em todos os outros pontualmente labutei.
Muitas vezes, no calendário industrial, os feriados atrapalham. A programação fica apertada e as perdas associadas, à normal quebra de ritmo, são prejudiciais.
Os feriados encostados ao fim-de-semana são os meus preferidos. O que é entendível pelo prolongamento do descanso, permitindo programar viagens, se for o caso. Pontes, atendendo ao calendário escolar dos meus filhos, prefiro não as ter.
A mobilidade nos festejos do Corpo de Deus, para o último domingo, permitiu verificar que existe a possibilidade de no futuro alterar a data de vários feriados, aproximando-os do fim-de-semana. A rigidez do calendário é prejudicial, nomeadamente ao nível da produtividade, não esquecendo, por outro lado, o desenvolvimento do potencial turístico do país.
Atendendo à necessidade de exemplificar, o feriado de Carnaval podia ser à segunda- feira e o fim do ciclo pascal, podia ser um dia mais tarde, ou seja, o Corpo de Deus festejar-se à 6ª-feira. Como estes, outros feriados sem dia fixo na semana, podiam ser perfeitamente ajustados ao calendário, não se perdendo o seu significado com as respetivas comemorações.
A discussão à volta do número de feriados de um país poderá fazer sentido. Contando que alguns sejam trocados por feriados europeus - para permitir uma maior coesão do espírito continental.
Daqui a cinco anos, tudo será de novo equacionado.
Aproveite bem o feriado do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
 
(a publicar no dia 06/10/13)
 

quarta-feira, maio 29, 2013

Depois das 18

            Às seis da tarde começo outra vida.
Saio do trabalho e dedico-me a outras causas.
A viagem de carro permite-me antever o final de tarde. Preparo, ou revejo mentalmente, os assuntos de qualquer reunião marcada para essa hora, ao volante do automóvel, em condução estilo piloto automático. É a melhor forma. São várias as vezes, que chego aos locais de encontro e a temática é prontamente assumida, sem tempo para o retemperador café ser saboreado. Entro repentinamente noutro vocabulário, escuto outras preocupações dos interlocutores, quebrando a rotina e exigindo uma adaptação imediata, para ser produtivo o final de tarde.
Quando o destino é a biblioteca, demoro a desligar-me da atividade profissional. Entro no edifício e verifico a ocupação de quem ali trabalha. Deformação de controlador de atividade laboral. A solicitação de um livro, a dúvida acerca sua disponibilidade, a recolha na estante indexada, são ações que permitem colocar-me no papel de utente. Aparece um curioso, assíduo no espaço, tenta um diálogo, procurando indicar o autor de um ou outro livro, requisitado apenas pelo título, ou tentando citar uma frase escrita. Não o ajudo muito. Fica incrédulo. Se não sei quem é o autor, não finjo. Pouco ou nada cito. Não me interessa, nem tenho memória para isso. Aliás, costumo evocar a frase “este país não teve uma revolução” de António Lobo Antunes mas, se me perguntarem, de que livro? Não recebem uma resposta concreta.
A leitura acompanhou-me no final das tardes desportivas dos meus filhos. Um momento de introspeção prolongado para novas épocas. Uma boa alternativa às reuniões de carater social.
Nem sempre é assim.
Nesta época de provas finais do ano letivo, acompanho com a devida atenção os estudos dos meus filhos. Revejo as matérias, fazendo as sacramentais perguntas:
- Porque falhou o Fontismo?
Apetece-me questionar, depois de verificar as virtudes expressas no manual de História, relativas a este período de governação de Portugal, na segunda metade do século XIX.
Remeto-me ao essencial. À simultaneidade das melhorias dos meios de comunicação, nada digo. Pergunto apenas pelas estradas, pelas linhas ferroviárias e pela melhoria dos portos. A matéria quer-se sabida de acordo com o manual de estudo.
- Qual foi a cartilha do Fontismo?
Um trocadilho apetecível, ao rever João de Deus.
Dou enfâse à ocupação dos baldios, a lei das sesmarias vários séculos depois e contenho-me, para não estragar o estudo. A página seguinte do manual mostra o realismo, a população aumentou e a agricultura não produzia alimentos suficientes. Além do êxodo rural, os desgraçados emigraram, sobretudo para o Brasil, a necessitar de mão-de-obra.
Pela segunda vez, apetece-me perguntar quais as causas de insucesso do fontismo?
O aumento da dívida pública não é mencionado, como consequência da necessidade de contrariar, as várias décadas de atraso estrutural. O despesismo dos Bragança também fica afastado dos manuais. O lado sensato do Rei D. Luís não foi suficiente para o equilíbrio das contas públicas, nem para impedir o aumento de impostos. No entanto, nada disto justifica o regicídio do seu sucessor.
A ação de Fontes Pereira de Melo, António Maria, para completar o seu nome, foi importante para a modernização do país e para a regeneração da política, só que não teve acompanhamento a nível financeiro.
O desequilíbrio nacional perpetuado até aos dias de hoje.
Olho para relógio, ainda dá tempo para mais uma pergunta, de resposta pronta e rápida.
Começo a ouvir a resposta. Fixo-me na hora. Recordo o meu primeiro emprego. Os administrativos tinham já saído, os técnicos também. Dezanove horas quarenta e cinco minutos, ficava sozinho e responsável por fazer cumprir o plano de produção até às vinte e três horas. Tudo corria bem, até o João, do departamento de expedição, surgir com informações antagónicas ao meu plano. Era Melo o seu último apelido. Dada a semelhança, apetecia perguntar-lhe:
- Porque falhou o Fontismo?
Não perguntava. Ainda dava tempo de remediar a produção. 
 
(a publicar no dia 30/05/13)
 

quarta-feira, maio 22, 2013

O borralho da velha

            Nunca tinha vivido um mês de Maio tão frio. Durante anos ouvi o ditado popular, das velhas, das cerejas e do borralho. Quando havia alguma oscilação, tornando as temperaturas primaveris menos amenas, lá surgia o provérbio. Jamais senti as baixas temperaturas de Maio, como as deste ano de 2013.
            Uma experiência para comprovar um adágio popular, é interessante. Os hábitos invernosos não se recuperam. Apesar do frio, do vento cortante, da neve acima dos 1.400 metros, a roupa vestida é mais ligeira. Dispensando-se as lãs e os casacões que tão bem aconchegam o corpo em Janeiro ou Fevereiro. A claridade até ao jantar e o número de horas solares, ajudam a superar o frio. A noite é recebida da mesma forma primaveril e qualquer programa noturno é apetecível.
Foi com este espírito, que na passada sexta-feira, decidi assistir ao concerto de abertura do IX Concurso de Guitarra de S. João da Madeira / G.Artes. Fiquei liberto dos meus compromissos de pai precisamente à hora de início do concerto, só que a quinze minutos de distância. O termómetro do carro indicava 10º centigrado e a noite ainda não estava escura.
Apesar do atraso, optei por assistir ao concerto de Dejan Ivanovic. Entrei no final da primeira música, sem saber qual o alinhamento. Mal me sentei, fui brindando com a explicação da música da seguinte, estremeci ao ouvir o nome de Joaquín Rodrigo. Junto al Generalife, a música executada pelo sérvio, transportou-me pelas paisagens sonoras da guitarra espanhola. Estava já deliciado. As cinco bagatelas (tradução linear) da música posterior, de William Walton, ajudaram-me a continuar a viagem, por um mundo desconhecido.
Ao intervalo, estava rendido ao brilhantismo de Dejan Ivanovic. Para a segunda metade, o alinhamento escolhido mostrou o virtuosismo de dois compositores contemporâneos portugueses, Ricardo Abreu e Carlos Moreira, presentes na sala e por isso, aplaudidos quando chamados ao palco.
A explicação do guitarrista prosseguiu apresentando a música final de J. S. Bach. Para mim, leigo nestas andanças da guitarra, uma novidade sonora. A caraterística barroca esteve presente em toda a execução. Sem exagero, a dedilhação assemelhava o som produzido ao de um cravo, tal era a preciosidade do guitarrista, colocando-nos no século XVIII, num apropriado salão de música do Sacro Império Romano – Germânico. 
Os aplausos finais, com a plateia em pé, permitiram verificar o estado de satisfação do público. Aproveitei o momento, de luz já acesa, para analisar a ocupação da plateia, comprovando a ideia retida ao intervalo, o número de jovens presentes, bem como os membros da Associação de Pais, são o novo público dos concertos organizados pela Academia de Música.
A fidelização de público é essencial para o sucesso de eventos culturais. Só assim, se pode superar a reduzida divulgação e a sobreposição de eventos no calendário regional, lapsos que persistem na programação cultural da cidade.
Cativando essa assistência, tornando-a interessada, regular e em número considerável, como demonstrado nas últimas edições do Festival de Teatro de S. João da Madeira, pode-se ambicionar a eventos de maior dimensão, tão ao jeito da lotação da futura Casa da Criatividade.  
 
(a publicar no dia 23/05/13)
 

quarta-feira, maio 15, 2013

O que diz François

            Um ano após as eleições presidenciais francesas, a apreciação dos eleitores relativamente ao presidente eleito, não podia ser pior. As sondagens, divulgadas na semana passada indicavam que apenas 19% dos eleitores voltaria a votar em François Hollande.
            Se à direita, a derrota inesperada de Nicolas Sarkozy, provocou um mal-estar e obviamente uma grave desconfiança relativa a um presidente de origem socialista, traduzindo-se isto em críticas constantes e depreciação do trabalho efetuado pelo atual presidente, já o eleitorado de esquerda, embalado pelo regresso à presidência, 17 anos depois, esperava não ouvir da boca do eleito palavras como cortes de subsídios, aumento da austeridade, entre outras medidas para combater a crise financeira da França.
              François Hollande não cede ao mediatismo neoliberal: continua consciente do seu sentido europeu – evita o confronto federalista com a Alemanha, no entanto, demonstra o seu poder bélico com um raid no distante Mali; ajusta a dimensão do Estado à receita fiscal, injetando na economia fundos estatais procurando alavanca-la, apesar de, tal como em outros países atlânticos, os indicadores de atividade económica não serem famosos.
            Perante isto, onde errou o presidente francês?
            Veja-se as medidas simbólicas: redução em 30% do seu salário e dos seus ministros, demonstrando o excesso de vencimento que o anterior presidente ousou auferir. Aumento de impostos para as grandes fortunas (1500 franceses), tendo o infortúnio de o autor da medida, o seu ministro das finanças, ser também evasor fiscal – o que obrigou à publicação de uma lei de transparência sobre os rendimentos dos políticos.
Errou?
Na essência, François Hollande escolheu os alvos, a classe política e as grandes fortunas.
A manipulação da opinião pública não se fez esperar. Os comentários depreciativos sobrepõem-se a todos os outros, denegrindo a sua imagem e claro, as sondagens são divulgadas como grande perdas de popularidade e apresentadas como o resultado de uma péssima gestão política.
No essencial, a teoria de Hollande não é aceite.
Muito menos em governos de origem liberal, como o de Portugal. Os políticos do eixo do poder não abdicam dos seus privilégios, não baixam os seus vencimentos, nem as regalias, nem as ajudas de custo, nem mesmo prescindem de gabinetes recheados de assessores, de secretários e de motoristas.
A única medida apresentada nestes últimos dois anos, para redução destes privilégios, foi a eliminação de 18 governadores civis e de 25% dos presidentes de junta de freguesia, não significando com isto uma grande redução da despesa com a classe política. Pelo contrário, Miguel Relvas deixou como legado um diploma enquadrando as várias comunidades intermunicipais, criando novos cargos políticos, que muito provavelmente serão chumbadas pelo Tribunal Constitucional.  
Por cá, a manipulação é feita de outra forma: acusa-se os reformados e os funcionários públicos, ataca-se os seus vencimentos e coloca-se os outros contribuintes contra eles. Os comentadores e analistas dão-se ao frete e a classe política vai reinando, não se beliscando minimamente.
 
(a publicar no dia 16/05/13)
 

quarta-feira, maio 08, 2013

Quilómetro Zero

            Nas cercanias de S. Pedro do Sul, percorrendo o caminho pedestre em parte traçado na antiga linha do Vale do Vouga, desviei-me do trilho, para evitar um afluente em fúria. Um pequeno afastamento, o suficiente para causar um transtorno de horas extra de caminhada. Procurava a distância mais rápida (e seca) para regressar à sede de concelho e surgiu no gps, meramente indicativo – geograficamente mais a oeste, a N 227, ou seja, a estrada nacional 227, que liga S. João da Madeira à cidade da região de Lafões.
            Viajei no tempo.
            Esta estrada nacional iniciava-se precisamente no cimo da Rua da Liberdade. Ali estava implantado o marco do quilómetro zero. Do lado direito quem desce. Um paralelepípedo granítico, com o topo plano, tendo como indicação o tipo de estrada, o seu número e claro o zero, indicando o inicio de contagem.
            A liberdade mudara o nome da rua. A placa do Marechal Carmona ficava submersa na política, a nova designação toponímica viveu durante anos debaixo da consecutiva propaganda, cartazes sobre cartazes, amarelecidos pelo sol, lacados pela humidade, no entanto, uma nova camada de posters sobrepunha-se.
Passei a minha infância sem ver a placa com o nome da rua. No caminho para a escola, passava rente à parede cheia de cartazes, olhava para o outro lado da rua e contemplava o marco. Isolado, na esquina, no alto daquela rua, parecia um trono.
Um dia ao atravessar a rua, a caminho da igreja, ou por outro motivo, convenci quem me acompanhava a deixar-me subi-lo. Sentei-me. Com um sorriso de satisfação, os meus olhos fitaram a janela do meu quarto.
A Rua da Liberdade, na década de 70 do século XX, tinha passeios laterais de calçada portuguesa e a estrada era em paralelo de granito escuro. Na esquina do marco não havia qualquer edifício. Um terreno vazio, desnivelado, com acesso por duas rampas opostas, permitia estacionar dezenas de motorizadas e um Renault 6. Dali para baixo sucediam-se os prédios, ocupados no rés-do-chão por lojas: no imediato surgia a Philips com o seu letreiro vertical azul, seguida dos móveis da Casa Ferreira. Mais abaixo, o Pagapouco ocupou as instalações do Café Eldorado, no entanto, o reclame deste enferrujou-se durante anos, em frente aos meus olhos. A barbearia Salão Dourado existe desde a minha meninice naquelas instalações. Ao seu lado, fechando a sequência, vivia uma família Ribas e se a memória não me atraiçoa, havia ali um estabelecimento de artigos têxtil.
Do outro lado da rua, a sequência iniciava-se com a Casa Glória – outro resistente, seguia-se o alfaiate FatoLindo, segue-se o Café / Casa Avenida – mais um resistente. Noutros tempos existiu mais abaixo a Casa Cilita (Reis). O Estúdio Almeida, grande resistente, antecipava a Garagem LM, ambos tinham reclames exteriores verticais e gigantescos, que ladeavam a minha vista sobre a rua. Deste lado da rua, o Porfírio, ou Grundig, fechava a sequela.
Dali para baixo, até ao cinema, existem alguns prédios que não tenho a certeza se assisti à sua construção, embora a minha recordação esteja associada à instalação das primeiras lojas. O que é normal, se nos colocarmos na perspectiva de uma criança. Por isso, para não desvirtuar a cronologia, vou concentrar-me primeiro no trecho esquerdo da rua. Depois de atravessar a Rua Júlio Dinis, surgia uma drogaria, que deu lugar ao Minipreço. Por ali abaixo, poucas variações houve: Padaria do Souto, Ourivesaria / Relojoaria, Aldeia Velha, a entrada para o Santola, a Sapataria Paulita, uma loja de roupa – cujo nome esqueci – uma entrada para um restaurante e a seguir o Café 25 de Abril, mesmo antes do Cinema Imperador, na época das sextas-feiras manhosas e das matinés de filmes indianos. Do lado direito quem desce a sequência era esta: tintas Robbialac, os concorridos bilhares do 104, as lãs do Sr. Cardoso, a Casa Santos e o Ulic Bar (este prédio vi a ser construído) e a Corpini – embora me recorde de uma outra loja, por ali. A seguir existia uma enorme buraqueira, à espera da construção.   
Comércio, serviços e moradores sempre coabitaram pacificamente na Rua da Liberdade. Vários edifícios albergam ainda hoje escritórios de médicos e advogados. Outrora existiram seguradoras, sindicatos e cabeleireiros.
A azáfama da rua comercial, o rodopio de clientes e forasteiros, nem permitia perceber que naquela rua havia moradores. As portas de serventia estavam abertas para acesso facilitado dos clientes ao primeiro andar e mais acima, nos seus apartamentos, viviam famílias. Não vou nomeá-las exaustivamente. Desculpo-me, prometendo uma outra escrita em futura oportunidade.
Importa registar que a Rua da Liberdade, apesar de atravessada por outra Rua, foi sempre uma só. Não faz sentido, agora no século XXI, ficar dividida em termos de aspecto e funcionalidade. Esperemos que impere o bom senso.
A história vai-se reescrevendo. A da Rua da Liberdade também. Eu como antigo morador perpetuo-a, ficando satisfeito por verificar que o actual Presidente da Câmara de S. João da Madeira, Ricardo Figueiredo, também viveu ali a sua infância. 
 
 
(a publicar no dia 09/05/2013)