compilação dos textos publicados no jornal labor (www.labor.pt), de 2004 a 2020.
quarta-feira, julho 30, 2014
Antes das Férias
quarta-feira, julho 16, 2014
Rabiscos
quarta-feira, maio 28, 2014
Quatro apontamentos sobre as eleições
A expectativa para estas eleições europeias residia em verificar como seria o voto de protesto do eleitorado. O fenómeno das últimas eleições autárquicas, registado na cidade do Porto, um independente a ganhar a dois partidos colossais, não poderia ser igualado, pela própria exigência da lei eleitoral, que apenas permite a candidatura de partidos políticos. Neste sentido, outras soluções foram encontradas pelos eleitores e bem simples: a maioria preferiu não votar (2/3 dos inscritos nos cadernos eleitorais), outros preferiram o voto em candidatos sem perfil político (MPT e LIVRE) e os restantes foram às urnas e não preencheram o boletim, ou então, rabiscaram-no em demasia, ultrapassando o estipulado na validação. Entre brancos e nulos somaram-se perto de 8% dos votos. Razão suficiente para um partido eleger a sua candidata e poder continuar a adiar a sua “morte” anunciada (BE).
Pelos resultados apurados percebe-se que o eleitorado fiel votou sem surpresas. Os partidos históricos captaram 2.358.881 votos. Ao verificarmos a intenção de voto entre eleições similares pode-se depreender que o voto do eleitorado de direita encaminhou-se para o MPT. O verdadeiro voto escrutinado penalizador da política do governo. Sem fazer comparações com outros países europeus, nos quais os partidos marginais, ou anti europeus, conseguiram votações extraordinárias, depreende-se que o discurso e a atitude do cabeça de lista daquele partido agradaram aos portugueses. A eleição do segundo da lista, por arrasto, tornou o resultado eleitoral formidável, premiando uma polémica figura pública nacional, presença constante na televisão, não deixando por isso, o eleitorado indiferente à sua pessoa.
Sem conseguir eleger ninguém, o LIVRE foi uma agradável surpresa eleitoral, sobretudo, no concelho de Lisboa. Longe da militância obtusa, algum do eleitorado de esquerda preferiu escolher um, agora, ex-eurodeputado, um novel partido, sem estruturas locais disseminadas pelos concelhos do país, nem pelos mais variados sindicatos. Um voto do leitor esclarecido, habituado a ler as crónicas do líder deste partido, incisivo para sancionar forças semelhantes, que aparentavam um discurso de abertura e no entanto, vieram a revelar-se tão ou mais ortodoxas que aquelas que tanto criticavam.
O último apontamento para as consequências do resultado desanimador do PS. Parece que desta é de vez. A liderança amorfa passou a ser posta em causa e obviamente perfilha-se a sua sucessão. Espera-se que a vassourada seja generalizada e que os seus apoiantes, mais preocupados com o seu feudo, sejam colocados na prateleira da inutilidade política.
66% de abstenção não podem deixar ninguém calado. É o apontamento extra. Eleições sem adesão deviam obrigar a repensar a lei eleitoral. Mesas de voto para 1.100 eleitores são um exagero, no número de pessoas envolvidas no escrutínio. Com os números do último domingo, cada mesa deveria estar preparada para receber 3.000 potenciais eleitores. Obviamente que isto deixaria muito militante sem a gratificação dos 50 euros, livres de impostos e isso seria uma dor de cabeça para os partidos políticos.
(a publicar no dia 29/05/14)
quarta-feira, maio 07, 2014
Cruzes
Nasci numa época em que a diferença ainda era incompreendida e mesmo motivo para emissão de juízos.
Cresci canhoto.
Em criança pintar, desenhar e mais tarde escrever, foram actividades desenvolvidas com a mão esquerda. Recordo bem a cara dos que me viam a pegar no lápis ou na esferográfica. A mão atravessava o caderno ou folha. Pousava os dedos mindinho e anelar no cabeçalho e segurando no utensílio de escrita, com os outros três, inclinava a mão para o início do papel, ou seja, para a esquerda. Quem olhava, via a minha mão a fazer um acento circunflexo sobre o caderno. Ângulos e contra ângulos para fazer algo tão natural como escrever. É certo que a forma por mim adoptada trazia-me inconvenientes. A mão ao deslizar para a direita passava por cima de tinta fresca e arrastava-a, o que era uma maçada em questões de apresentação de texto. Tudo se resolvia com uma esferográfica adequada, ou com o mais simpático lápis, fosse qual fosse o seu número.
A aptidão manual ficou condicionada por ser canhoto. Todos os trabalhos eram determinados pelas ferramentas não serem apropriadas à mão esquerda. Ou somente pelo facto de ser desajeitado.
Se com as mãos era assim, com os pés, um desastre. Canhoto a jogar à bola, jamais entendi o que fazer para progredir com ela. Remeti-me à defesa, desde cedo, ganhando por vezes bolas aqueles que ousavam fintar-me sobre o meu lado esquerdo. Quando o adversário entendia a minha condição, passando-me pela direita, eu só o via a fugir.
Em casa não era o único. O meu irmão Luís também alinha pelo lado esquerdo. Na escola primária havia mais alguns. Adorávamos ficar lado a lado, tal como os destros, para os nossos braços não chocarem. Em secretárias colocadas aos pares, com um canhoto à esquerda e um destro à direita, não havia qualquer atropelo. Já com as posições ao contrário, é fácil entender o que acontecia.
No meu percurso de estudante ouvi de tudo acerca dos canhotos. Ouvir uma professora em 1983 a afirmar que conhecia um estudo indicativo que, ser canhoto era sinal de um certo grau de deficiência, foi a maior prova a que estive sujeito. A data surge para se perceber como era o pensamento no ensino naquela época.
Tive dificuldades em aprender a tocar instrumentos musicais, pois nem ousei virar umas cordas ao contrário, em frente ao professor, para não lhe baralhar o esquema mental.
Fiz natação, com respirações bilaterais, no entanto, o movimento do meu braço direito era sempre motivo para criticas.
Avancei na idade, sem saber o que era entrar com um pé direito.
Quando passei a eleitor, não se me colocou nenhuma dúvida. Sendo totalmente canhoto, a minha simpatia caiu para a defesa das minorias. Não concebia outra ideia, senão uma posição extrema.
Na inspecção militar, um fardado ao fazer-me o teste oftalmológico mandou-me encerrar o olho esquerdo. Vi e distingui as letras todas com o olho direito. Ao contrário, disse-me o da farda. Abri o esquerdo e fechando o direito, só via traços. Fiquei em silêncio, à espera de focar melhor, pensando tratar-se de uma desfocagem momentânea. O homem insistiu e lá comecei a atirar com as letras que parecia ver. Quando fiquei de olhos abertos, envergonhei-me com a troca de letras de grafismo semelhante. O militar comentou comigo, não dei a importância devida. Não podia conceber ver mal do olho esquerdo. Logo desse olho!?
O que é certo, é que este facto alterou a minha vida e pensamento. Mesmo como eleitor, colocando-me ao centro.
Passei a utilizar ferramentas com a mão direita, desenvolvi competências que não esperava, como dactilografar no computador com duas mãos, ainda assim, utilizo o rato do pc com a mão esquerda. Por vezes, se estou com a mão esquerda ocupada, consigo pegar na esferográfica com a mão direita e rabiscar o que me interessa. Um gesto não inato, estranhando sempre que pouso a caneta. Ler o que escrevo nessas condições, é um exercício ainda difícil.
Casei com uma canhota, claro. Filhos, ambos destros.
As minhas competências do outro lado foram aumentando. Ao ponto de conseguir rematar com o pé direito, num jogo caseiro, direitinho para a baliza.
Já a capacidade de visão foi diminuindo. O tropa tinha razão, bem me avisou, embora não fosse por isso que me livrei do serviço. O olho esquerdo vê muito pior que o direito, constatei dez anos depois da inspeção.
Isso condiciona-me o pensamento. Agora com o lado esquerdo ofuscado, começarei a estimular outras competências? E como eleitor o que sucederá?
(a publicar no dia 08/05/14)
quarta-feira, abril 23, 2014
A centralidade
quarta-feira, abril 16, 2014
O centro
quarta-feira, abril 02, 2014
35
O impasse em torno da legalidade jurídica, da manutenção das 35 horas semanais, para os trabalhadores da administração local, permite qualquer reflexão sobre o assunto, mesmo que tardia.
Ao legitimar o horário nas 40 horas semanais para a função pública, no acórdão n.º 794/2013, de 18/12/2013, o Tribunal Constitucional deixou em aberto a possibilidade de em acordos futuros de contratação colectiva, reduzir-se esse horário de referência.
Uma solução para a lei… à Portuguesa.
Em menos de três meses, vários foram os autarcas que se predispuseram a negociar um novo acordo colectivo, com o Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local (STAL).
A apetência dos autarcas em furar a Lei é extramente conhecida. Na história recente do país temos alguns casos de autarcas condenados, pelos mais diversos motivos.
Neste caso, os autarcas seguiram a sugestão dos juízes do Palácio Ratton, a guarida do Tribunal Constitucional.
Justifica-se a opção dos autarcas por questões políticas. Divido em três, no entanto, reconheço a possibilidade de se listar mais alguns:
1) Por oposição ao diploma do governo – numa atitude clara de confronto pelas opções assumidas pelo executivo governamental.
2) Por populismo – na tentativa de agradar a funcionários municipais, potenciais eleitores e eventualmente decisivos, em caso de eleições bem disputadas, com diferenças entre os partidos mais votados a ser menor do que os 5% de votos.
3) Por conflito de interesses – alguns autarcas são eles próprios funcionários públicos e ao aplicarem a lei das 35 horas, estão apenas a pensar no seu caso pessoal. Uma falta de noção de Estado, por isso diferente da primeira possibilidade, atrás descrita.
Esta opção pelas 35 horas é criticável pela criação de um regime de excepção. Por ora, temos o STAL, não tardarão outros sindicatos a pretender o mesmo e no final só ficarão com o horário das 40 horas, os trabalhadores da Administração Pública, vulgo, funcionários públicos. A discriminação continuará, o estigma social manter-se-á, a penalização incidirá novamente sobre os mesmos.
Aqui, abro um parêntesis para uma declaração de interesses. Informando quem não sabe: não tenho qualquer vínculo profissional com o Estado. Defendo a máxima laboral de trabalhar o tempo necessário, não estabelecendo para isso, um limite mínimo de horário.
Feito o esclarecimento, deixo de lado toda a questão da equidade, tão em voga no passado recente para defesa do interesse de alguns.
Analisemos a questão na ótica local.
O assunto foi debatido eloquentemente em reunião de Câmara Municipal. A decisão final de não adoptar uma redução de horário dos seus funcionários não surpreende.
O facto de o desempate ter sido assegurado por voto de qualidade do presidente, é que deixou estupefactos alguns eleitores. Muitos ainda não perceberam a tendência ideológica, da totalidade dos membros da vereação municipal de S. João da Madeira.
(a publicar no dia 03/04/14)
terça-feira, março 11, 2014
90
quarta-feira, fevereiro 19, 2014
Os centros
O alto rendimento desportivo voltou ao léxico local. O projeto da nova piscina, o consequente parecer favorável da Federação Portuguesa de Natação, trouxeram para a ribalta uma ambição antiga da autarquia, abrir em S. João da Madeira um centro de alto rendimento (CAR).
Relativamente ao projeto inicial, duas mudanças: a localização e uma federação específica a apoiar o centro. A mudança de localização é de enaltecer, em especial, por se desistir de construir as instalações do CAR nas margens do Rio Ul, amputando a expansão a nascente do parque urbano, negando o acesso da população aquela zona do rio.
Sobre o apoio federativo, vou esquecer o facto de ser progenitor de um atleta federado naquele organismo, expressando o meu ponto de vista ao longo das próximas linhas, de uma forma difusa, indicando dados genéricos do desporto de alto rendimento, para o leitor criar a sua própria opinião.
Os resultados nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, uma mudança de Governo em 2005, a necessidade de criar melhores condições de treino para os atletas de alto rendimento de várias modalidades Olímpicas, num país com apetência para a construção desenfreada, que anos antes tinha finalizado a edificação (ou reconstruído) de dez estádios de futebol, foram condições suficientes para se lançar uma ideia peregrina, construir 18 centros de alto rendimento desportivo.
Os projetos foram lançados por algumas autarquias, uns CAR foram recusados, outros conseguiram co-financiamento e foram inaugurados.
Abreviando, existem atualmente em Portugal dez CAR abertos. Outros três estão a finalizar-se. Se cruzarmos este número, com o número de modalidades praticadas em Portugal que conseguem apurar atletas para os Jogos Olímpicos de Verão, precisamente treze a catorze, tudo podia estar bem.
Existem CAR nas seguintes localidades: Montemor-o-Velho, Anadia, Nazaré, Caldas da Rainha, Rio Maior, Vila Real de Santo António, Aveiro – S. Jacinto, Golegã, Peniche e Viana do Castelo. Estando a ser finalizados dois CAR, um em Gaia e outro em Vila Nova de Foz Côa - Pocinho. O terceiro projetado é na Maia. Embora, Coimbra tenha anunciado em período de campanha eleitoral a construção do seu.
Acontece que cada centro não corresponde a uma modalidade Olímpica. Várias federações utilizam os mesmos centros, já que os espaços de treino são similares, ou os CAR têm versatilidade suficiente para receber modalidades diferentes.
Terei que esmiuçar: em Montemor-o-Velho reúnem-se Canoagem, Remo, Triatlo e Natação (modalidade águas livres); em Rio Maior está indexada a Natação Pura; na Golegã o Hipismo; na Anadia, no Velódromo Nacional, temos em comum Ciclismo, Esgrima, Ginástica e Judo; nas Caldas da Rainha, junto à respetiva Federação, o CAR de Badmington. Gaia irá receber dois CAR: Ténis de Mesa e Taekwondo. Para completar as restantes modalidades presentes nos Jogos de Londres em 2012, agrupam-se em Lisboa, no Complexo do Jamor, Atletismo, Vela, Tiro e Tiro com Arco.
Esta distribuição demostra o aproveitamento das sinergias das várias modalidades e um bom planeamento da gestão desportiva, até porque alguns centros são próximos de cidades universitárias e isso permitirá aos atletas continuar os seus estudos.
Vejamos agora o outro lado da moeda: para a mesma modalidade, não Olímpica, o surf, existem em Portugal quatro CAR: Peniche, Nazaré, Viana do Castelo e Aveiro – S. Jacinto. Um exagero, quanto mais não seja pela proximidade geográfica de alguns destes equipamentos. Além desta casualidade, existem mais dois aspetos que fazem cair o argumento do bom planeamento: Vila Real de Santo António não tem nenhuma modalidade associada; o da Maia por agora também não tem, nem se deslumbra qual será a modalidade associada; o de Foz Côa receberá o CAR de Remo, desviando atletas de Montemor-o-Velho. O mesmo acontecerá com o de Coimbra, que reclama a abertura de um CAR para a modalidade de Judo e Canoagem, ou seja, fará concorrência aos vizinhos já existentes.
Perante este cenário de duplicação de CAR por modalidades, ou de ausência de modalidades indexadas, havendo um reduzido contingente de atletas nacionais de alto rendimento, é urgente encontrar-se uma solução para o equilíbrio financeiro destes Centros, sabendo-se que para isso, a tutela delegou competências na Fundação do Desporto, mantendo-se o Complexo do Jamor, sob a alçada do Instituto Português da Juventude e do Desporto.
É este o contexto do desporto de Alto Rendimento em Portugal.
É nesta lógica de desperdício que surgirá o segundo CAR da Federação Portuguesa de Natação.
(a publicar no dia 19/02/14)
quarta-feira, fevereiro 05, 2014
O ardil
A lei n.º 75/2013 publicada a 12 de Setembro, ou seja, a menos de três semanas das eleições autárquicas, surgiu na sequência das acções necessárias para fazer cumprir o ponto 3.44 do memorando de entendimento assinado em Maio de 2011, entre o Estado português e a troika. Nesse ponto, denominado “Reorganizar a estrutura da administração local”, partia-se do número de concelhos – 308 – e de freguesias – 4.259 – e inscrevia-se como acção, um plano de consolidação para reorganizar e reduzir significativamente o número destas estruturas, tendo como prazo o próximo ciclo eleitoral local.
É sempre bom recordar, em jeito de resenha histórica, que apenas Lisboa, através da sua Câmara Municipal, elaborou o seu plano de fusão de freguesias, ainda em 2012, estabelecendo também a transferência de competências, incluindo pessoal e verbas, para as novas entidades territoriais.
No restante país, prevaleceu o situacionismo característico da administração pública, o que implicou a promulgação da Lei Relvas, fortemente contestada pelos agentes políticos locais, que seriam despojados do seu título de presidente da junta, pois a lei n.º 22/2012 estabelecia o regime jurídico da reorganização administrativa territorial autárquica. Após a contestação, incluindo ameaças várias de mudança de território, o mapa da agregação de freguesias foi publicado a 16 de Janeiro de 2013.
A delegação de competências nestas novas unidades territoriais ficou definida pela tal lei n.º 75/2013. Atente-se no sentido lato da designação da lei: “Estabelece o regime jurídico das autarquias locais, aprova o estatuto das entidades intermunicipais, estabelece o regime jurídico da transferência de competências do Estado para as autarquias locais e para as entidades intermunicipais e aprova o regime jurídico do associativismo autárquico”.
Demasiadas entidades a serem reguladas. Por agora, concentremo-nos nos órgãos locais.
Nos primeiros artigos da nova lei, são inscritas as atribuições da freguesia:
a) Equipamento rural e urbano;
b) Abastecimento público;
c) Educação;
d) Cultura, tempos livres e desporto;
e) Cuidados primários de saúde;
f) Ação social;
g) Proteção civil;
h) Ambiente e salubridade;
i) Desenvolvimento;
j) Ordenamento urbano e rural;
k) Proteção da comunidade.
Discorrendo nas competências nos artigos seguintes.
Após algumas páginas surgem as atribuições do município. Publico-as na íntegra, fazendo cópia das várias alíneas, para o leitor entender a legislação:
a) Equipamento rural e urbano;
b) Energia;
c) Transportes e comunicações;
d) Educação;
e) Património, cultura e ciência;
f) Tempos livres e desporto;
g) Saúde;
h) Ação social;
i) Habitação;
j) Proteção civil;
k) Ambiente e saneamento básico;
l) Defesa do consumidor;
m) Promoção do desenvolvimento;
n) Ordenamento do território e urbanismo;
o) Polícia municipal;
p) Cooperação externa.
Várias são as alíneas comuns, algumas com texto diferente, no entanto, com o mesmo âmbito. Um processo nada claro, bem diferente do desencadeado em Lisboa. Por aqui se constata qual a intenção do legislador, criar confusão, atirando para o lado das freguesias e dos municípios, a reclamação e a negação de competências.
É neste cenário, de sobreposição de atribuições, em que a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de S. João da Madeira estão. A situação de interpretação da lei é ainda mais complicada, pela partidarização da questão. Cedência, qualquer uma, será atribuir competências aos adversários políticos e não vejo grande vontade nisso.
Os argumentos de descentralização e proximidade à população, num concelho com uma só freguesia, ou seja, precisamente, a mesma população, deverão ser mais bem elaborados, já que na realidade junta e câmara estão instaladas precisamente no mesmo edifício.
Abro aqui um parêntesis para recordar um projecto de lei do primeiro Governo de José Sócrates, que previa precisamente a abolição das freguesias únicas, ficando esses municípios (eram cinco ao todo em Portugal, com a agregação passaram a seis) com todas as competências de proximidade às populações. Este projecto jamais viu a sua publicação, pois encalhou precisamente no sinistro conservadorismo partidário, mais interessado em defender os interesses dos seus militantes, do que o Erário Público.
Voltando à lei do ano passado, recordando que em campanha eleitoral nenhum partido prometeu reduzir as competências da junta de freguesia, antes pelo contrário, deverá ser encontrada uma solução equilibrada, conseguindo-se um qualquer ganho para os munícipes, significando isto uma menor despesa no orçamento global municipal e da freguesia e não o contrário.
Existe uma ameaça inscrita na lei - atribuir a totalidade de competências à junta de freguesia. Sem atribuições inerentes, corre-se um sério risco para o município. Voltemos ao primeiro parágrafo deste texto, releia-se o compromisso do Estado. As freguesias foram agregadas, seguem-se os municípios. Uma redução em igual percentagem à da agregação das freguesias, aponta para 50, 60 ou 70 municípios. Será? Nada foi dito até ao momento. A delegação de competências nas freguesias levará à perda de relevância para o município e como a proximidade do Estado à população já estará assegurada, a fusão de concelhos será mais facilitada e será difícil obter qualquer contestação, excepto, claro, dos suspeitos do costume.
Numa época de fecho de várias repartições públicas, de encerramento de juízos dos tribunais, entre várias medidas de redução de serviços Estatais, havendo já vereadores a verbalizar o seu receio pela continuidade do município, será importante ponderar as lutas partidárias, inerentes às competências da junta de freguesia.
Apelar à mobilização da população para impugnação poderá ser tarde e revelar-se igual ao interesse dos eleitores nas eleições, ou seja, uma grande alheamento pelas cínicas causas partidárias.
(a publicar no dia 06/02/14)
sexta-feira, dezembro 27, 2013
O ano em revista
Na última edição de 2013 proponho-me a fazer o balanço de um ano que foi muito marcado pelas eleições autárquicas de Setembro.
Recordando as edições impressas dos jornais locais, houve importantes inaugurações, nomeadamente da Casa da Criatividade e da Oliva Creative Factory, incluindo a devolução à cidade dos espaços da torre da antiga metalúrgica.
O poder autárquico prosseguiu com a ampliação da zona industrial e com a renovação do parque escolar, finalizando a modernização da Escola básica das Fontainhas.
Os feitos desportivos dos atletas, das mais variadas associações locais, receberam o devido destaque. Sendo importante referir que tanto em modalidades tradicionais, como em modernas sem ainda reconhecimento olímpico, os desportistas da cidade conseguiram excelentes desempenhos, a nível regional, nacional e internacional. Um sinal compensatório para quem se dedica diariamente ao treino, abdicando do conforto doméstico, comprovando a essência do ecletismo no desporto local.
Voltando ao tema político, o período da pré-campanha às eleições de Setembro começou antes da nomeação de Castro Almeida para secretário de Estado. A sua substituição causou perplexidade. O vereador, eleito como número dois em 2009, assumia democraticamente a presidência da Câmara. Ricardo Figueiredo, um mês após ser anunciado como candidato do PSD à autarquia, atingia o lugar, sobre um coro de incompreensíveis protestos.
A pré-campanha continuou a merecer o destaque da imprensa, até ao mês de Julho. A apresentação dos seis candidatos ocupou outras tantas semanas, não se destacando um discurso diferente, normal neste período, das promessas vãs, para captar descontentes.
Uma sondagem lançada no princípio de Agosto retratava os meses antecedentes. Nos primeiros dias de Setembro tudo mudou. Ao jeito da fábula da formiga e da cigarra, os partidos e movimento independente passaram a fazer o trabalho de campanha, o porta-a-porta, a criar factos para manchete dos jornais, a apresentar candidatos, programa eleitoral e a mostrar capacidade de mobilização. Um trabalho sério que alterou o sentido de voto, como ficou demonstrado na sondagem publicada, quatro dias antes das eleições, pelo jornal labor.
Os resultados eleitorais comprovaram a aproximação prevista na última sondagem. Perante tal cenário, à boa moda nacional, todos reclamaram vitória. Os que ganharam, os que perderam, os que foram eleitos e os que não foram… Um facto que condicionou o período pós eleitoral.
Os dois meses seguintes à eleição têm sido intensos. A atividade partidária intensificou-se. Os acontecimentos das reuniões de Câmara, da Assembleia Municipal e até da Assembleia de Freguesia provocaram comunicados, esclarecimentos e troca de acusações. Esgrimiram-se argumentos, num tom pouco saudável, para os leitores ajuizarem. Um clima pouco pacífico, surgindo num texto uma acusação de fascismo a um partido de esquerda. Algo inédito na democracia portuguesa, que não mereceu qualquer repúdio veemente dos dirigentes locais desse partido, ao contrário de outras picadelas, com acusações menores.
A guerrilha política prolongou-se para as páginas on-line dos jornais locais. Comentários anónimos surgiram antes da eleição a apoiar uns e a repudiar outros. Longe dos olhos da maioria dos leitores, estes comentários são uma forma cobarde de fazer política. O refúgio no anonimato, ou num falso nome, demonstram uma falta de carater para quem usa essa técnica para atacar os outros. A sua publicação não isenta de culpa as redações dos jornais, que optam por dar cobertura a esta forma de atuar, não colhendo qualquer benefício deontológico, apenas promovem um clima de conspiração, a roçar a provocação e perto do insulto.
A contrastar com tudo isto, temos a atitude silenciosa do Presidente da Câmara. Sem se esquivar ao confronto, Ricardo Figueiredo vai-se habituando a viver sem maioria, uma estratégia que coloca demasiada pressão sobre a oposição. Escrevo sem saber em que ponto está a aprovação do Orçamento para 2014, no entanto, a maioria dos eleitores espera o cumprimento do mandato até 2017. Qualquer antecipação das eleições, um cenário desejado por muitos, pode ser penalizador para quem cobiça, no entanto, a estratégia de fazer oposição quatro anos, pode trazer resultados catastróficos, como o verificado entre 1997 e 2001, pelo atual partido da oposição. Um cenário em que viveu o PSD de 1985 até ao final do século.
Dilemas…
Já entrei em capítulo de projeção, por isso, é o momento de desejar um Excelente 2014 aos leitores.
Recordo as minhas palavras da semana palavra, a edição destes meus textos passará a ser irregular, por isso, além dos votos acima enviados, aproveito para me despedir da mesma forma que outros dois cronistas do labor: um abraço e até já…
(a publicar no dia 27/12/13)
quarta-feira, dezembro 18, 2013
No prelo
sexta-feira, dezembro 13, 2013
Natal
quarta-feira, dezembro 11, 2013
O princípio das causas atuais
quarta-feira, dezembro 04, 2013
Aquilo que não escrevi
Ao ler o jornal da semana, não deixo de espreitar a página da necrologia. Ao deparar com uma fotografia, um nome, de alguém conhecido, de quem não fui informado do óbito, não deixo de expressar a surpresa.
A particularidade de antever textos para a edição da semana seguinte, coloca-me perante o desafio de alinhavar umas linhas, ao jeito de homenagem para com um desses falecidos - o obituário com o meu cunho.
A atualidade sobrepõe-se, na maioria das vezes, ao texto imaginado e adio a referência, escrevendo um texto diferente do inicialmente previsto, deixando para uma melhor oportunidade as palavras de tributo. Por vezes, sucedem-se os outros assuntos e as semanas passam, ficando tais textos por editar.
Não vão enumerar as minhas omissões.
As publicações de agências funerárias de freguesias vizinhas, permitem recolher informações sobre muitos dos que por S. João da Madeira trabalharam.
Descobri outro interesse, nessas publicações.
A divulgação de nomes de lugares ou de ruas das freguesias vizinhas, que para a maioria dos leitores nada significa. A utilidade dessa informação é poder cruzar com outros dados de pesquisas históricas, a que me dedico de forma atabalhoada e por auto recreação, servindo muitas vezes, para explicar a toponímia da cidade, a sua história, a origem de alguns vocábulos, que por vezes, serviram para batizar lugares e as próprias localidades.
Ninguém se deve lembrar de um texto meu, intitulado Ascarigo, publicado a 19/01/2012. Resumidamente, nesse texto, mencionava que as Inquirições de 1251, no reinado de D. Afonso III, referem a existência de uma ponte terrenha em Ascarigo, aqui em S. João da Madeira.
Ascarigo, pelo que eu conheço de S. João da Madeira, seria um lugar cujo nome se perdeu com o tempo. “Asks” refere o historiador José Mattoso, remetendo para um estudo etimológico, é um prefixo bélico – heroico de origem germânica, significando lança de freixo.
E escrevi mais uma linha de considerações, pensando que o nome do lugar poderia ter evoluído, ou adaptando outro nome, ou eliminando a forma germânica, sugerindo implicitamente o uso popular da designação mais simples para o atual lugar da Ponte.
Uma possível forma de evolução de Ascarigo, seria Escarigo, existindo, na época em que escrevi o texto, duas freguesias em Portugal com esse nome.
Algumas pessoas tentaram-me convencer que Ascarigo teria evoluído para Escariz e que eu estava errado na análise. Acontece que as mesmas Inquirições também referem aquela freguesia de Arouca, sem relacionar obviamente com S. João da Madeira.
Este ano, descubro nas referidas páginas de necrologia do jornal labor, a existência de uma rua em Milheirós de Poiares chamada precisamente de Escarigo. Pelo que pude perceber situa-se no lugar de Pereiró.
A proximidade deste Escarigo a S. João da Madeira permite relacionar os dois dados e claro, deduzir tratar-se do mesmo Ascarigo, mencionado nas Inquirições de 1251.
Este dado é interessante em termos históricos, para perceber qual o traçado da estrada real, ou mesmo da via romana, que atravessava S. João da Madeira, o que poderá ser útil para o estudo da evolução da povoação ao longo dos anos.
De qualquer forma, sem prejuízo para a freguesia vizinha, depreende-se do documento histórico, que os limites das duas freguesias, em Terras de Santa Maria, nem sempre foram os atuais.
Um argumento que poderia ter sido útil, nos dias que se seguiram ao referendo organizado em Milheirós de Poiares no ano passado.
(a publicar no dia 05/12/13)