terça-feira, novembro 03, 2015

Catch 22

                As eleições intercalares em São João da Madeira eram o desfecho inevitável, atendendo à forte tensão em que se realizavam as reuniões da sua Câmara Municipal.

                Em Julho deste ano, há precisamente 4 meses, antecipei este cenário e previ eleições em 2016, quando ainda se punha a hipótese de o orçamento municipal não ser aprovado e o município ter que viver em gestão por duodécimos, durante pelo menos um ano civil. Nesse artigo, na minha análise, adiantava que o PSD iria esperar pelo desfecho das eleições legislativas. Como qualquer resultado dessas eleições lhe seria favorável, este partido tudo faria para promover eleições intercalares no próximo ano, num contexto de fragilidade da oposição municipal, por boicote ao mandato iniciado em 2013.

O certo é que o resultado das legislativas em São João da Madeira, provou que o voto da direita regressou ao PSD e tal como era de esperar, algumas das suas principais figuras ficaram livres, por não integrarem as listas a deputados. Mesmo com a formação do atual Governo Constitucional, segundo se consta, de curto prazo, o próprio Dr. Castro Almeida, novamente nomeado para Secretário de Estado, passará a disponível para a disputa eleitoral que se aproxima.   Em contrapartida, um governo PS atirará para Lisboa, alguns dos dirigentes locais.

              Um cenário óbvio.

Bem avisou, o próprio diretor do jornal labor, Pedro Silva, em editorial publicado em Setembro último, apelando a que em lugar de lamentações, era preferível à oposição renunciar aos mandatos e provocar eleições intercalares, numa jogada de antecipação.

                Tal não aconteceu, sem se perceber muito bem porquê.

                O ardil dos 22 projetos de investimento implicava um paradoxo, tal como na literatura, na obra escrita por Joseph Heller, que intitula este texto. A questão em São João da Madeira, ainda era mais simples. Se aprovassem os investimentos, a oposição daria cobertura à política e sobretudo, às contas do município, validando os empréstimos, aumentando o endividamento, o que contrariava a sua versão, repetida até à exaustão, de que essas contas estavam “erradas”. Pelo contrário, ao reprovarem os investimentos, além de contrariarem as decisões anteriores, aprovadas em reunião, como o Plano de Atividades do presente ano, davam a oportunidade ao executivo PSD de demonstrar a vontade da oposição em boicotar a sua ação.

                A escolha foi feita. 

                As consequências desta opção serão conhecidas a 24 de Janeiro de 2016.

                Poder-se-ia escrever um pouco mais sobre as contradições do processo, nomeadamente os votos favoráveis e em sentido contrário passado uns meses, ou o voto aprovando um empréstimo de 1,7 milhões de euros e chumbando o empréstimo de pouco mais de 200 mil euros, por receio de utilização desta verba para outros fins, que não o acordado. Contudo, cada leitor já teve oportunidade de retirar deste imbróglio a sua própria conclusão, pelo que não acrescentarei nada a este ponto.

                O importante agora é apelar ao bom senso eleitoral. Esperar que as forças políticas, partidos e movimentos, apresentem um programa eleitoral positivo, com propostas concretas para a cidade. Nestes dois anos, tiveram a oportunidade de conhecer os demais dossiers municipais, para agora apresentarem uma ideia de cidade, fundamentada em projetos concretos, projetando-a no futuro.

                Será esta capacidade de distanciamento aos acontecimentos dos dois últimos anos, que será premiada pelos eleitores locais. Viver no passado, no que não aconteceu, no que não foi aprovado, na falta de consensos, na crítica, será penalizador.

                Os eleitores cansaram-se dos episódios destes últimos anos. Aliás, estou convencido que a maioria deles, ainda não percebeu o que se passou nos Paços do Concelho desde 2013.    

               

(a publicar no dia 05/11/15)

quarta-feira, outubro 21, 2015

Ida à bola

                Existe uma perspetiva romântica no futebol, traduzida pela hipótese de os clubes com menos recursos se agigantarem e venceram os mais fortes.

                A Taça de Portugal é uma prova com essa componente sonhadora.

                O reencontro entre as equipas seniores da Sanjoanense e a Académica de Coimbra permitia colocar o clube local na rota das notícias do futebol nacional e claro, recordar a sua tão vasta história.

Assim aconteceu, a imprensa desportiva fez eco do passado glorioso da ADS, as passagens pela primeira divisão há 50 anos atrás e, com igual destaque, os jogadores com a sua formação no clube e que chegaram aos principais emblemas nacionais, tendo por isso, brilhantes currículos como desportistas, incluindo as chamadas à seleção nacional.

Das efemérides com meio século, é importante evocar as figuras que fazem a história do clube. Nas paredes do restaurante Almeida está registado um curioso episódio desses jogos de futebol, entre precisamente estas duas equipas, que se defrontaram no último dia 18. Não me recordo do nome do jogador de Coimbra, que com graça, imortalizou o acontecimento. O estudante, cansado de perder a bola no confronto com o jogador da ADS, precisamente o Almeida, chegou ao intervalo e falou-lhe nas manchas de pele que o caracterizavam. Aproveitando a ingenuidade do jogador adversário, aconselhou-o a não se esforçar muito, que era o melhor remédio. Escusado será dizer, que palavra do médico foi aceite pelo jogador da ADS, com consequências no desempenho dos dois jogadores na etapa complementar. Para se ter uma ideia do valor do jogador da ADS, recorde-se as palavras de Eusébio, que elegeu Almeida como um dos adversários mais temíveis dos que teve de enfrentar.

  Com este cartaz histórico, o apelo para regressar ao Estádio Conde Dias Garcia estava lançado. Oportunidade para voltar àquelas bancadas, quase duas décadas depois.

Um desafio agendado.

Ocasião para rever velhas amizades, também disponíveis para ir à bola.

É engraçado ouvir nas bancadas as expressões de sempre: “bola para o campo do Simões”, ou a verbalização restringente ao treinador do clube adversário com o “vai para a gaiola”. Destacou-se durante o jogo o apoio constante da claque, ajudados pelo restante público, em especial com o incentivo acompanhado com palmas com a sigla do nome do clube.

É igualmente engraçado ter como colegas de bancada tantos jovens e crianças, muitos deles jogadores de futebol das camadas jovens e sobretudo, muitas senhoras.

Um apontamento para a equipa da ADS, muito jovem, com os jogadores a terem uma entrega muito grande ao jogo, o que é importante por ser sinal de que respeitam o clube que representam. Tal como o treinador.

Do que se passou dentro do campo, pode haver melhores relatos. Para os meus olhos de adepto, deixo os meus apontamentos:

- o adversário marcou muito cedo;

- a ADS procurou chegar ao empate e houve lances na área da Académica, que a mim me pareceram merecedores da marcação de grande penalidade;

- o segundo golo dos jogadores de Coimbra poderia ter acabado com o jogo, no entanto, a ADS voltou a empenhar-se em marcar;

- só o conseguiu na 2ª parte (um belo golo), contudo, a Académica marcou de seguida;

- até ao final, o treinador visitante refrescou a equipa e surgiram naturalmente mais dois golos (um por sinal, muito bom).

Apesar das ameaças, foi uma tarde sem chuva. Ainda assim, fui prevenido, com guarda chuva, impermeável e optando pela bancada central. Contrastando com outras épocas, em que não usava o dito acessório e como o dinheiro era pouco, escolhia ver os jogos entre a bancada lateral, a superior ou o antigo peão. Muitas vezes, em dias de chuva, era obrigado ao abrigo debaixo dos ramos de uma qualquer árvore.

É certo que nos dias de hoje, os hábitos e horários dominicais são outros, por isso, apesar de ter passado um bom momento no Estádio Conde Dias Garcia, não devo ali regressar tão cedo. A menos que em próximas épocas, o clube do vizinho concelho a sul, volte a jogar no mesmo Campeonato e série da ADS. Um derby regional é um verdadeiro derby e já tenho saudades de assistir a um jogo desses. Desta forma, não teria que esperar pelo sorteio de uma eliminatória da taça de Portugal para ir outra vez à bola.

 

(a publicar no dia 22/10/15)

quarta-feira, setembro 30, 2015

Uma história antiga

                A música é uma das artes que é pouco tangível. Recorre-se a gravações em vários formatos tecnológicos para ouvi-la e terminando essa auscultação, não sobra nada de concreto. Fica o registo na memória e numa audição seguinte, poderão existir partes bem assimiladas, decoradas até, que permitem ao ouvinte trautear, ou mesmo cantar, se for o motivo.

                Na presença de executantes, em concertos ao vivo, existe uma relação diferente. Naturalmente, que os formatos tecnológicos são substituídos pelos instrumentos executados pelos músicos. A amplificação de som pode introduzir uma dose de tecnologia e as gamas sonoras serem trabalhadas, para o espectador ter oportunidade de ouvir os sons graves, intermédios e agudos sem qualquer dificuldade.

O artista é a alma do concerto. A sua preparação técnica, aliada à sua capacidade de interpretação, sobretudo esta última, são factores que contribuem para a qualidade do espetáculo.

Sexta-feira passada, portanto, dia 25 de Setembro, tive oportunidade de assistir ao recital de Piano, por Nelly Santos Leite e Graça Mota, promovido pela Academia de Música de Santa Maria da Feira e incluído no programa de festejos do seu 60º aniversário.   

Para os mais entendidos nestas andanças musicais, este duo apresentou-se a público no final da década de 80, chegando a atuar em S. João da Madeira, na Biblioteca Municipal.

Praticamente 27 anos passados, sentei-me de novo numa plateia para ouvir este Duo a 4 mãos. Em ambiente familiar, ou de grande proximidade às artistas e à instituição promotora do concerto, era importante verificar qual seria a capacidade interpretativa das pianistas e o seu sincronismo, tantos anos passados.

  A maturidade artística ficou evidente logo na primeira peça tocada. Em Suite Dolly op. 56, de Gabriel Fauré, à sobriedade dos andamentos iniciais, seguiu-se uma execução bem quente do “Le Pas Espagnol”, que mexeu com a plateia, transportando-a para uma viagem sonora ao país vizinho. Estava dado o mote do concerto.

Até ao intervalo, os diálogos entre oitavas fizeram-se ouvir nas seleccionadas “Danças Eslavas” de Dvorak ou na magnificência de Brahms, com as duas primeiras “Danças Húngaras”. A plateia estava rendida ao ritmo incutido pelas artistas e a satisfação era visível no rosto dos assistentes, durante a merecida pausa das pianistas.

Na 2ª parte, após a inquietude das “Melodias Rústicas Portuguesas” de Fernando Lopes Graça, que como é evidente não deixou nenhum espetador indiferente, seguiu uma interpretação fabulosa desse brilhante tema de George Gershwin, “Rhapsody in Blue”. Uma sonoridade bem americana, perto do registo jazzístico, como é reconhecido, fazendo parte do repertório de muitos duos a quatro mãos ou mesmo a dois pianos e à qual Nelly Santos Leite e Graça Mota incutiram uma versão extraordinária, com uma cadência estonteante.

No final do concerto, pela longevidade do duo, retive a ideia dos vários caminhos da música. É sempre bom recomeçar um, no qual o artista se sente feliz.

Depois de muitos anos de ensino de música, da sua divulgação na cidade, com a promoção de concursos de piano e também com o acumular da direção de Academia de Música de S. João da Madeira, Nelly Santos Leite sentou-se ao piano, não demonstrando qualquer amargura, ou mesmo ressentimento.

Uma lição de vida, demonstrável pelo entusiasmo com que tocou o repertório musical escolhido.

Uma importante atitude, deixando os mais novos admirados pela segurança exibida.

 

(a publicar no dia 1/10/15)

quarta-feira, setembro 16, 2015

Uma década

                A 15 de Setembro de 2005, iniciei a colaboração, de forma espontânea, com o jornal labor, através da publicação de artigos de opinião.

                Nesta semana, pela proximidade de datas, totalizo 10 anos de colaboração regular neste periódico.

                Tempo de efeméride.

                No decorrer desta década, enviei para este jornal um total de 300 textos, segundo as minhas contas. Uma média anual de trinta publicações, o que permite a aproximação aos três textos editados por mês. Embora tal valor seja excessivo e não corresponda a qualquer métrica pretendida. 

                Nos primeiros quatro anos de colaboração, até 2009, o labor publicou 106 dos meus textos. Após esse período, nos três anos seguintes, foram publicados 99 artigos e finalmente, nos últimos três anos, os restantes 95. Ou seja, nos primeiros quatro anos os textos eram publicados de forma menos intensa, dois por mês e pelos números dos últimos seis anos, passei a editar três artigos por mês.      

Uma intensificação na publicação com o avançar dos anos, facilmente explicável.

Tal como referido no primeiro parágrafo, arranquei por iniciativa pessoal. Ao longo dos meses seguintes, com periodicidade intermitente, fui publicando alguns textos, tentando perceber qual a receptividade dos leitores. O frenético lançamento de obras públicas, sobretudo lideradas e idealizadas pelo município, não me deixavam indiferente. Fazia sugestões de obras julgadas necessárias. Lá pelo meio, conseguia ter a audácia de atirar uma crónica romanceada, ou abordar um assunto nacional relacionado com o quotidiano local.

Das poucas incursões que fazia pela cidade, recebia oralmente o reconhecimento pelos textos publicados. Recebia felicitações pessoalmente, trocava uma ou outra ideia com quem tinha lido as minhas opiniões e ia verificando qual o grau de aceitação.

Pelo meio das publicações, ousei abrir um blogue. Alarguei os temas de escrita e assumi a crítica política, na perspectiva de cidadania. Estávamos em 2007. Ao meu lado, numa das páginas do jornal labor, o conceituado Doutor Renato Figueiredo, entretanto falecido, fazia uma apreciação a um dos meus textos. Quase em simultâneo, um leitor amigo sugeria o lançamento de um livro, com a compilação das crónicas. Sinais de reconhecimento e aumento da responsabilidade, enquanto cronista. Embora me mantivesse sempre fiel ao pedido de publicação, que sempre acompanha o envio do texto para o labor, pelo correio eletrónico.

Nos meses seguintes, incrementei a edição de crónicas romanceadas. Ainda assim, tive tempo para a crítica mais incisiva à atividade política. Esgrimi argumentos contra o hipotético vaivém a implementar na linha do Vouga e muito especialmente, fui, desde a primeira hora, contrário a qualquer Centro de Alto Rendimento desportivo a construir nas margens do Rio Ul. Batalhas argumentativas curiosas, que me permitiam estar mais confortável e publicar textos com maior frequência.

A partir de 2010, decidi estudar um pouco mais, fazendo uns cursos de escrita criativa. Aproveitei esse tempo para publicar nas páginas do jornal, alguns dos contos inventados, ficando meses sem me referir ao quotidiano local. Quando o fazia, repetia a fórmula de sempre, preparava-me com dados concretos e com base neles, tecia considerações. Passei a fazer maiores sugestões à política local, deixando a crítica de lado e sobretudo, abandonando as obras públicas. Descobri por essa altura, por exemplo, a proximidade entre o número de eleitores e número de habitantes de S. João da Madeira. Ainda assim, o comentário político não foi abandonado. Terminei esse ano tecendo considerações futuristas: internet sem fios, em todo o concelho, não seria concretizável; e as requalificações de edifícios tendo em vista a sua ocupação cultural não teriam suporte financeiro para ganhar escala regional e nacional.

Os anos seguintes poderiam ser mais do mesmo. Contudo, tive o convite, endereçado pela concelhia local do PS, para participar no Fórum Re:pensar S. João da Madeira e passei a estar mais próximo da cidade. A publicação de textos cruzou-se com a preparação do Fórum, prevalecendo a ideia prévia de cidadania, em lugar do pressuposto partidário. Curiosamente, muitos desses textos aproximaram-me de muitos leitores e finalmente passei a receber telefonemas de agradecimento pela referência, ou pelo tema eleito, ou mesmo, pelas palavras expressas. 

Apesar da minha saída prematura do Fórum, mantendo-me dentro da linha de independência partidária, continuei em 2013, a publicar regularmente artigos no jornal labor. Nesse ano, apenas falhei duas edições e embora tenha reduzido a presença nestas páginas no ano seguinte e no presente (um sinal de inversão na edição), continuo a receber o contacto direto de alguns leitores, com o mesmo incentivo que recebi anteriormente.

Dez anos volvidos, com pouco tempo para muito mais, continuo a escrever regularmente para o labor. Tentando agradar aos leitores e sobretudo, procurando surpreender, mais pelo conteúdo, do que pelo formato, deixando-os inquietos, sem saber qual o tema a desenvolver nas linhas deste jornal.

Neste ponto, com esta carga em cima dos ombros, é natural ponderar a continuidade desta atividade. Por um lado, pesa-se a inatividade na escrita, beneficiando as noites de leitura e sobretudo, a desobrigação de ter um serão ocupado. Por outro, a regularidade da comunicação escrita, o esquematizar argumentos, preencher com parágrafos colunas de jornal. E ainda há uma outra hipótese, suspender a atividade por tempo indeterminado.     

Por agora, no balanço dos 10 anos de escrita, fica o agradecimento aos leitores pelo tempo dispensado e claro, ao diretor do jornal pela oportunidade oferecida, não esquecendo os demais colaboradores do jornal, pela paciência manifestada em aturar os meus atrasos, ou a imprevisão de envio de artigo, em cima do fecho da edição.

 

(a publicar no dia 17/09/15)

 

quarta-feira, setembro 09, 2015

Ainda não foi desta, Chalana

            Comecei a ver o jogo entre Portugal e França, da passada sexta-feira, apenas na 2ª parte. Pelo meio surgiram notícias de Évora e só me concentrei no jogo de futebol, a 30 minutos do apito final.

            À tardinha, antes do inicio do jogo, lembraram-me o Europeu de 1984. Um célebre encontro das meias-finais com a França, jogado no dia de S. João. Ainda falei das derrotas mais recentes, em 2000 na Holanda, pela mão de Abel Xavier ou em 2006, no Mundial da Alemanha, num jogo seco. Só que não eram essas as recordações que motivavam o meu interlocutor. Apenas as de França, de há 31 anos. Um jogo épico, com Portugal a perder o jogo aos 119 minutos, desfazendo-se um empate a duas bolas e terminando uma participação excelente na fase final de um campeonato. Um jogo memorável da nossa seleção – relembravam-me, destacando a participação do pequeno génio, Fernando Chalana, entre outros. Entretanto, a memória falhava e não surgia mais nenhum nome. Lá lembrei o Jordão e um dos golos dessa tal tarde, provavelmente um dos momentos desportivos que mais apreciei e a conversa ficou por ali, pelas fintas em progressão do Chalana, pelos seus cruzamentos para a área, entre outros apontamentos caraterísticos do futebol.

            À noite, com o resultado a nulo, acreditei que um acaso poderia dar uma vitória a Portugal. Pelos vistos, há 40 anos não ganhámos um jogo à seleção de França, o que significa que eu nunca vi tal feito. Antes pelo contrário, só encaixei derrotas, nas tais meias-finais e se calhar em mais uns quantos jogos, que não recordo, ou não segui.

Assim aconteceu… outra vez.

            É certo que o jogo era praticamente de treino e o mais importante era ganhar três dias depois, o que veio a suceder. Sendo assim, abriu-se a hipótese de novamente haver um confronto, em fases finais, entre Portugal e França.

            Em 1984, os jogadores da seleção Portuguesa jogavam todos em clubes nacionais. A diferença para a seleção Francesa era teoricamente brutal, pois os gauleses tinham realizado um Campeonato do Mundo em 1982 sensacional, terminando em 4º e dois anos depois jogavam em casa. Além do fator desportivo, havia toda a condição do país de emigrantes. Um confronto de assalariados com os empregadores. A fadiga, a impreparação para os momentos de pressão num jogo, foram as justificações para o não sucesso de Portugal.

            Em 2000 e em 2006 tudo se tinha alterado. Vários jogadores portugueses alinhavam no estrangeiro, nas melhores equipas europeias e a diferença entre as duas seleções era menor e por isso, o confronto foi sempre equilibrado. É certo que houve falhas, como acontece na maioria das vezes com equipas portuguesas. Aquela desconcentração fatal.

            Em 2015/16, o barómetro de qualidade de uma seleção são os jogadores que alinham em equipas apuradas para a Liga dos Campeões. Como este assunto é melindroso, pois da seleção nacional apenas 5 ou 6 jogadores, respetivamente no jogo de 6ª e de 2ª, é que estão nesta condição, poderá ser explicado por aqui o desaire caseiro com a França. Se considerarmos, outro dos indicadores de qualidade várias vezes utilizado, jogador de equipas a participar nas 5 principais ligas europeias: Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França, o caso ainda fica mais complicado.

Poderá ser este o problema da atual seleção nacional, quando comparada com anos recentes, apenas dois dos seus jogadores são provenientes de uma das oito melhores equipas europeias (Real Madrid), enquanto há uns anos atrás, a convocatória enchia-se com referências a esses colossos.

            A consistência da carreira desportiva é difícil. Manter-se na ribalta durante todo o percurso desportivo não é para todos. Aguentar a pressão dos diversos treinadores, dos colegas de equipa, dos próprios adeptos, mais a dos adversários e mesmo, da opinião pública de um país estrangeiro não está ao alcance de qualquer um.  

            Se um Português aguenta isto tudo, é uma excepção. A maioria desiste, prefere outras paragens, a todos os níveis mais calmos.

O fado nacional, o da curta quimera, a justificar resultados desportivos.

Quando a ambição ocupar o lugar da resignação e a persistência for exemplo, haverá uma geração que olhará para os seus parceiros europeus de outra forma. Sem soberba mas, em contrapartida, sem se sujeitar à humilhação.

O desporto poderia ajudar a vencer o preconceito histórico.

Vejamos o que nos reserva, o Europeu de França de Junho de 2016.

 

(a publicar no dia 10/09/15)

quarta-feira, setembro 02, 2015

O que esperar dos novos deputados?

                A um mês das eleições legislativas, é oportuno introduzir como tema de debate, quais as expetativas dos eleitores, relativamente aos deputados a eleger pelo seu círculo eleitoral – o distrito de Aveiro. 

                Independentemente dos últimos acontecimentos do último ano legislativo, é importante recordar a tentativa do Estado em organizar-se, exercitando a sua proximidade às populações.

À tentativa falhada na década de 90, para introduzir a regionalização, não aceite pelos eleitores em referendo, seguiu-se uma reorganização silenciosa das competências regionais do Estado. Criando-se efetivamente um mapa de regiões, conseguindo-se em cada uma delas, sub-delegações de vários ministérios com competências de gestão administrativa e patrimonial. Neste capítulo, são de fácil exemplo as Direções Regionais de Educação (DRE) ou as Administrações Regionais de Saúde (ARS).

                Com total entendimento, a população de S. João da Madeira viu algumas das suas escolas ficarem ligadas à DRE – Norte (DREN) e os seus equipamentos de saúde serem regidos pela ARS – Norte. O mesmo entendimento motivou não haver objeções à influência da Comissão Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte nos destinos do concelho, há largos anos. De igual forma, a adesão recente à Área Metropolitana do Porto foi entendida como perfeitamente normal pela grande maioria da população, pela proximidade da grande cidade, não esquecendo a afinidade com a mesma.  

                Este reposicionamento do concelho, ligando-se ao Norte do país, não teve o mesmo acompanhamento em termos eleitorais.

                Ao eleger deputados pelo distrito de Aveiro, a população de S. João da Madeira está a escolher eleitos que estão afastados dos centros de decisão da sua área de influência. Na sua maioria estes centros estão localizados na cidade do Porto.

Os deputados do distrito de Aveiro, além da presença habitual na Assembleia da República, têm direito a um dia livre, para exercer a sua atividade no seu círculo eleitoral. Neste cenário, em tal dia, o rodopio dos deputados distritais, entre Aveiro e Porto, deveria ser constante para defender os interesses da população dos concelhos do Entre Douro e Vouga (EDV): S. João da Madeira, Santa Maria da Feira, Arouca, Vale de Cambra e Oliveira de Azeméis.

  Só que existem outros afazeres, nomeadamente, os relacionados com a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro, composta por 11 concelhos do distrito de Aveiro. Ou seja, uma região com mais população e logo com mais potenciais eleitores a quem agradar.

Neste panorama é um anacronismo político para o EDV eleger representantes pelo Distrito de Aveiro.

Este é o desafio colocado aos futuros deputados na Assembleia da República, com ligações a S. João da Madeira:

- ajustar os concelhos às Área Metropolitanas ou a Comunidades intermunicipais, se o números de eleitores o justificar, será a continuação da reorganização silenciosa das regiões. Alterar os círculos eleitorais, aproximando os eleitos dos centros de decisão, tal como a população, é o desafio para uma legislatura.

Estarão os candidatos interessados nisto?

É importante para a defesa dos interesses da população da cidade e dos concelhos vizinhos, que as suas próximas reivindicações tenham sequência nos partidos políticos. 

 

(a publicar no dia 03/09/15)

quarta-feira, julho 29, 2015

Milhões sem festa

Antes das férias de verão, é raro haver assuntos para comentar.
As últimas semanas na política local contrariam a tendência estival.

A meio do mês fomos confrontados com os valores dos fundos
comunitários atribuídos ao município. 3 milhões desperdiçados, 5 milhões
reclamados, 7 milhões atribuídos, foi a aritmética utilizada na
argumentação. A frase popular "mais vale um pássaro na mão do que dois a
voar", resume a discussão e permite relembrar que existem oportunidades que
não se repetem. Os 5 milhões reclamados pressupunham uma lógica de
favoritismo ao concelho, baseado na ligação do secretário de Estado, Castro
Almeida, à cidade. A invocação da cunha à portuguesa e do típico jeitinho do
político da administração central estavam subentendidos, só que desta vez
não funcionou.
Dias depois, o empréstimo municipal. O presidente da Câmara
Municipal, Ricardo Figueiredo apresentou o seu plano de investimentos, a
necessidade de contrair empréstimo e o valor envolvido. Mais, explicou os
montantes do endividamento atual, as consequências do empréstimo nas contas
municipais e quais os valores a abater nos próximos dois anos, indicando
qual o valor final da dívida municipal. Esperava-se muita discussão e uma
posição de coerência da oposição, chumbando o empréstimo, alegando as "más
contas", como têm vindo a repetir nos últimos dois anos. Contudo, o PS
rebateu. Limitou o endividamento, retirou projetos e ao apresentar a sua
proposta, obviamente teve que vota-la favoravelmente. Ou seja, aprovou
tacitamente as contas do PSD. É claro que o erro político foi reconhecido e
para emendá-lo, atabalhoadamente, voltou a falar-se em auditorias às contas
municipais, quando no ano passado, essa análise já tinha sido efetuada por
entidade competente e aprovada nos órgãos municipais.
No próximo trimestre, se a incoerência não prevalecer, o PS não pode
reprovar o orçamento municipal para 2016. Está agarrado ao seu plano de
investimento e não terá hipótese de alterar o sentido de voto. A teoria dos
duodécimos não se concretizará.
Ao retirar das propostas a Academia de Campeões, o PS voltou a
melindrar as Associações locais. A ADS, um dos clubes lesados, reclamou
prontamente a insensibilidade da ação política. O futebol envolve
diariamente demasiadas crianças e jovens da cidade e seus arredores, em
treinos e aos fins-de-semana em jogos, para em ano de eleições legislativas
optar-se por assumir uma medida impopular.
O choque entre o PS e as associações locais é apanágio desde 2013.
Primeiro foi com os Ecos Urbanos, meses depois com a AEJ, a propósito da
nova piscina municipal. Aliás, antes de avançar no texto, se o que foi feito
com este empréstimo para os investimentos, estudo e contra-proposta, tivesse
sido o método utilizado na piscina, ou seja, analisar o projeto do
arquitecto Souto Moura contrapor com uma redução do custo da obra, indicando
qual o montante máximo do valor final pretendido, estaríamos agora numa
situação totalmente diferente de credibilidade e toda a questão de
responsabilidade seria reconhecida.
Assim não foi. Ficou mais uma vez provado, passado praticamente um
ano, que o PS local quis chumbar a piscina por questões meramente
partidárias, em prejuízo da população.
Entretanto, nesta última semana, foi assinado o protocolo entre a
Santa Casa da Misericórdia e o Ministério da Saúde, para devolução do
Hospital de S. João da Madeira à instituição local.
Um culminar de longas negociações. Apesar do assunto ainda estar
fresco e de os ânimos permanecerem exaltados, é importante esclarecer e
recordar que a Santa Casa da Misericórdia sempre prestou assistencialismo em
S. João da Madeira e que conseguiu erguer valências que promovem a sua
auto-sustentabilidade. Infelizmente confunde-se tudo e ao não se reconhecer
a importância histórica desta instituição, estamos a esquecer a história da
cidade, da sua população sofredora e daqueles que dedicaram a sua vida a
prestar auxílio ao próximo. Não esquecendo a importância da fundação, pela
iniciativa da Santa Casa, do Hospital de S. João da Madeira, que em 1974
passou para a esfera do Estado.
A ilusão dos apoios das redes sociais, dos números conseguidos na
petição em defesa do hospital, estancou na mobilização de rua. A vigília a
16 de Maio demonstrou que a população não estava com o PS. 200 pessoas,
segundo a imprensa local, é um número muito baixo, para quem queria defender
uma causa da cidade e demonstrar ter um grande apoio da população.
É na rua, na mobilização da população para ações políticas, que se verifica
se há tendências de mudança. Em Maio isso não se verificou.
Na manhã de 28 de Julho, em frente às instalações da Santa Casa da
Misericórdia estavam 100 pessoas, segundo a SIC Notícias.
A fraca envolvência dos sanjoanenses, nesta causa, demonstra que o
tema foi mal desenvolvido.
O número de manifestantes foi semelhante ao de uma ação de um
partido de extrema - esquerda.
Uma evidência, com a terrível constatação, o PS local caminha para o
abismo.

quarta-feira, julho 22, 2015

Sapato aos molhos

                Ao longo dos vários anos de escrita no jornal labor, tenho desenvolvido alguns temas utilizando estas páginas como laboratório de ideias.

                A partilha com os leitores surge por dificuldades pessoais (e profissionais) em colocar em prática alguns conceitos e daí ser mais honesto divulgá-los, esperando que um dia a ideia seja desenvolvida por alguém, independentemente de a inspiração ter surgido das minhas palavras ou não.

Um tema assíduo neste jornal foi o desenvolvimento do conceito de turismo industrial à restante cidade, em especial, aos mais variados agentes económicos. Em Maio de 2013, finalizava uma série de artigos, fazendo apelo ao complemento do conceito turístico, sugerindo que, aos seus produtos icónicos: chapéus, sapatos, lápis e etiquetas, fossem acrescentados artigos como colchões, ou mesmo, doutras eras industriais como: as máquinas de costura, torneiras, banheiras e outros como a cera e seus derivados, dos primórdios da industrialização ou provavelmente ainda duma época de manufactura.

Uma forma de complementar os circuitos industriais, sugeri nesse artigo, poderia ser através da sua extensão aos produtos gastronómicos. Exemplos não faltavam no texto e não vou repeti-los.

É conhecida a base da economia nacional, em copiar o negócio do vizinho e conseguir melhores ou idênticos resultados financeiros.

Dentro desta máxima, consegue-se explicar a apetência da restauração duma cidade, ou mesmo duma região, em apresentar aos clientes produtos semelhantes. Pastelaria e pratos cozinhados não diferem muito, se pensarmos bem. Quando alguém tem êxito com a venda dum produto, os outros imitam-no e assim democratiza-se o artigo anteriormente diferenciador.

A diferenciação passa depois a pormenores de paladar e aí entra a subjetividade das papilas de cada um.

Tudo isto é recordado e evocado, porque descobri que um restaurante de S. João da Madeira está com divagações gastronómicas em torno dos circuitos industriais.

Para já, foi apresentado o Sapato, no Restaurante Tudo aos Molhos, no Largo Santo António.

Muito provavelmente, outros produtos do nosso imaginário industrial um dia passarão a constar da ementa deste restaurante.

Tudo vai do começar. Se se repetir a fórmula económica à portuguesa, daqui a uns anos, não haverá na cidade café, bar, restaurante ou hotel que não apresente aos seus clientes, uma ementa onde constem pratos com nomes alusivos à indústria local.

                Para já vamos fazendo a degustação, ali no largo.

 

Nota: Ana Rodrigues estará este fim-de-semana em ação em Coimbra. Será o culminar duma excelente época, no seu regresso à AEJ. Faço votos para que na próxima semana, as felicitações aos seus resultados sejam generalizadas na imprensa local.

 

(a publicar no dia 23/07/15)

quarta-feira, julho 15, 2015

A reabilitação da Rua da Liberdade

 

                Sensivelmente há um ano, ao debruçar-me sobre as obras da Rua da Liberdade, verifiquei que não existia relação causa – efeito entre a empreitada municipal e a abertura de lojas.

                Em Julho de 2014, a parte intervencionada, mais a nascente, ou aproveitando a cota, a parte inferior, tinha sido sujeita a reabilitação, com demoras e várias críticas e no final, os espaços comerciais que estavam encerrados antes do início da empreitada, permaneciam no mesmo estado. Convém relembrar que nessa intervenção reintroduziu-se o trânsito naquela artéria, criando bolsas de estacionamento.

                Em contraste, na parte superior da dita rua, mais próxima da Praça Luís Ribeiro, a intervenção resumiu-se a retirar os chapéus de ferro, melhorando o aspeto visual e a perspetiva do arruamento. Nesse período analisado, abriram três espaços comerciais.

                Recorri a este indicador, de aberturas de lojas, verificando que ainda era cedo para analisar a tal relação causa – efeito da empreitada municipal.

                Um ano depois, apesar da letargia reinante na Rua da Liberdade, muita coisa mudou.

                Na parte inferior, com bolsas de estacionamento, reabriram lojas. E melhor, não fechou nenhuma das existentes. Embora subsistam alguns espaços sem inquilino.

                Comparando com a metade superior, no último ano fecharam três lojas. Não esquecendo que havia já duas encerradas, verifica-se que o panorama é desolador.

                Um ano e meio depois das referidas obras, já é possível verificar uma tendência: a reintrodução de trânsito e estacionamento permitiu revitalizar uma parte da Rua da Liberdade.

                As lajes áridas de granito, enquadradas pela calçada bem portuguesa, não são um grande atrativo. Em especial, com um sentido de trânsito sem saída, ou de retorno ou ponto de entrada.

                A zona pedonal, ou o que resta dela, tem que se ajustar à procura.

                A proximidade do estacionamento foi sempre reclamada pelos comerciantes. Muitos deles, fugiram do centro, instalando-se na Avenida Renato Araújo, por entenderem o modo operatório dos seus clientes, sempre forçando a circulação automóvel até à porta da loja, arriscando multas por estacionamento indevido.

                Dentro desta lógica e de acordo com a evidência da reabertura de lojas devido à reabilitação municipal, seria importante retomar as obras na Rua da Liberdade. Fluir o trânsito ascendentemente e reintroduzi-lo a sul da Praça Luís Ribeiro, parece ser inevitável. Ligar à Rua do Visconde, ou Rua do Dourado, não escandalizará ninguém. Transferir os lugares de estacionamento, existentes na confluência dessas ruas, mais para o centro da Praça, aumentando o seu número, não cria qualquer conflito e até permitirá corrigir alguma falta de mobilidade.

                Com isto amplia-se o acesso à zona comercial, condicionando o trânsito a uma faixa de um só sentido. Permitirá aumentar o estacionamento e ao mesmo tempo, criar zonas de mobilidade ampla para pessoas com necessidades especiais. Um corredor bem no centro da Praça.

                É evidente que isto seria um remendo, caso a ambição seja, de uma vez por todas, retirar o Elemento Arquitectónico da Praça, a Rua da Liberdade deveria ligar a Norte, à Rua Oliveira Júnior, rasgando a Praça em dois lados: um com as suas esplanadas e demais comércio e o outro com várias hipóteses, uma das quais o badalado parque infantil.

                Daqui a uns anos, cá estaremos para ver a solução e verificar a repercussão que a mesma teve no comércio tradicional. 

                 O importante é programar a obra mais simples para os próximos meses.

 

(a publicar no dia 16/07/15)

quarta-feira, julho 08, 2015

O rastilho

                Nas últimas semanas tem-se escrito repetidamente sobre a hipótese de convocação de eleições autárquicas antecipadas, no concelho de S. João da Madeira.

                O assunto está a fervilhar e parece ser iminente a concretização da ameaça.

                Afinal, o que falta?

                À primeira vista, o calendário eleitoral, com as eleições legislativas no próximo mês de Setembro, condicionará qualquer aventura.

                Analisando a envolvência de militantes, das diversas concelhias partidárias, na política nacional, pode-se arriscar que haverá alguns deles que serão candidatos a deputados pelo círculo de Aveiro, em posição de serem eleitos.

Mais arriscado será diagnosticar a posição de cabeça de lista para alguns desses mesmos militantes, em especial, nas forças partidárias do arco governamental. Destaque neste capítulo, para a posição atribuída a Moisés Ferreira do Bloco de Esquerda, cabeça de lista deste partido, pelo círculo de Aveiro.

Perante todo este jogo de bastidores, as concelhias até ao princípio de Outubro estarão a preparar as candidaturas, a promover as campanhas eleitorais e por isso, mesmo que algum prestigiado militante fique melindrado por não ser candidato a deputado, o processo de provocar eleições antecipadas na autarquia ficará adiado.

Chegados a este ponto, analisemos o que pode acontecer a seguir às eleições legislativas, ou seja, com cenário de vitória da atual coligação governamental, ou o oposto, a vitória do PS.

A premissa é a mesma, haverá alguns prestigiados militantes das concelhias locais, que poderão ser convidados para secretários de Estado, chefes de gabinete, ou para outros cargos na Administração Central. Poderá haver convites para ministro? Não me parece.

Qualquer um dos cenários atrás mencionado é possível de se concretizar, já que as últimas sondagens previam um empate técnico, com incerteza quanto ao vencedor.

Na hipótese de vitória nas eleições legislativas da coligação PSD / CDS, tudo indica que os destacados membros das concelhias locais continuariam centrados em Lisboa, em cargos semelhantes aos ocupados até ao momento.

Pelo histórico dos últimos Governos do PS, o cenário de vitória deste partido nas legislativas de próximo mês de Setembro / Outubro levará ao novo Governo membros da concelhia de S. João da Madeira.

Este último cenário, colocará em Lisboa militantes e dirigentes da concelhia do PS e por outro lado deixará desocupados ou em cargos de menor prestígio alguns dos atuais governantes. Neste caso, a pressão partidária para convocar eleições será imensa. A implosão será inevitável.

O outro cenário deixará a Câmara Municipal em idêntica constituição. Poder-se-ia pensar que as eleições não seriam antecipadas tão cedo, no entanto, a hipotética recuperação do eleitorado de direita na vitória da coligação nas legislativas, dará um novo alento ao PSD para ir a votos em S. João da Madeira.

Dois cenários, igual desfecho. Em 2016, haverá eleições intercalares em S. João da Madeira. A dúvida que fica é se os protagonistas serão os mesmos, ou caberá a outros ir a votos.

 

(a publicar no dia 9/7/15)

 

quarta-feira, junho 24, 2015

As cores dos impostos

                O Orçamento de Estado para 2015 trazia como novidade o relançamento da fiscalidade verde, suportada pela introdução do respetivo imposto sobre os combustíveis, de uma taxa sobre os sacos de plástico leves e do aumento do imposto sobre veículos. Em contraponto, a esta possível receita fiscal, retomava-se o incentivo ao abate dos automóveis com mais de 15 anos, introduzia-se a dedução do IVA em viaturas turísticas híbridas ou elétricas e por fim, a possível redução do IMI para prédios com comprovada eficiência energética.

                Ao fim de seis meses é possível fazer-se um balanço a algumas destas medidas.

                Logicamente não avançarei com números oficiais, por não dispor deles. No entanto, existem algumas considerações empíricas que são importantes analisar.

                À possibilidade dos sacos de plástico aumentarem para 10 cêntimos, sobretudo nas grandes superfícies, os Portugueses responderam da forma mais ecológica – reduziram o seu consumo. O seu stock doméstico diminuiu. Os sacos reutilizáveis passaram a acompanhar nas compras. Aproveitando-se, no ato, caixas de cartão e outras embalagens, para empacotar momentaneamente os produtos, facilitando o seu transporte.

                Perante estes factos, é evidente que a receita fiscal, associada aos sacos de plástico, não atingirá um grande valor.

                Para compensar, as outras fontes do imposto verde são extremamente proveitosas. O agravamento do imposto sobre os veículos para novas viaturas, taxado em função da emissão de CO2, atendendo ao número de automóveis vendidos este semestre, permitirá ao Estado arrecadar uma verba considerável (possivelmente na ordem dos 28 milhões de euros). Relativamente ao imposto sobre combustíveis, por ora, saltemos o assunto, para nos concentrarmos nas deduções fiscais verdes.

                Das três medidas referidas, apenas foi amplamente divulgada o incentivo ao abate dos automóveis, com mais de quinze anos. Embora, os concessionários tivessem dificuldade em obter informações sobre a lei e mesmo o legislador tivesse recuado na intenção inicial, criando escalões de incentivos em função das caraterísticas da nova viatura: valorização da viatura a abater em 4.500 euros na compra de uma viatura elétrica; para viaturas híbridas o incentivo ficou em 3.250 euros; para automóveis com combustível a gasolina ou a gasóleo com emissão de CO2 inferior a 100 gramas / quilómetro o estímulo reduz-se a 2.000 euros.

                Das restantes medidas não vi até ao momento qualquer divulgação. Poderá ser distração minha.

                Voltando ao imposto sobre combustíveis. A nova taxa, apurada pela indexação da cotação de carbono, segundo o leilão do Sistema Europeu de Comércio de Emissões, aumentou o preço final dos combustíveis. Logo no primeiro dia de 2015, em 5 cêntimos por litro e passado uns dias em mais 2 ou 3. É importante recordar que o preço do petróleo e do barril respetivo encontra-se em baixa e à volta dos 65 dólares, quando há um ano estava na ordem dos 100 dólares.

                Perante este cenário, definido genialmente pelo deputado da CDU, Paulo Sá, na explicação dos legos, o Governo atual tentou abater o preço dos combustíveis, introduzindo o conceito do “combustível sem aditivos” aos principais revendedores.

                Saiu gorada a expetativa. Em primeiro lugar, porque nem todas as marcas de revendedores, obrigados pelo decreto de lei a proceder a essa introdução, seguiram as indicações do Governo. A esta frouxidão, seguiu-se a pouca redução do preço do combustível “low cost”: numa bomba normal a diferença entre o combustível com aditivos e o sem estes químicos está em 2 cêntimos e quando comparada com as gasolineiras situadas nas grandes superfícies a diferença para o combustível igualmente sem aditivos é de 11 cêntimos.

                É evidente que os Portugueses viciaram-se em talões de descontos e outras promoções das gasolineiras, olhando mais para o valor obtido na redução do que para o preço total a pagar.

                O pouco espírito crítico sobre o excesso de impostos sobre os combustíveis e a resignação perante o preço ao consumidor são de lamentar.

                Este ano, o aumento das taxas para o contribuinte efectuou-se sob a cor verde. Esperemos que esta paleta não tenha todas as cores do arco-íris.          

 

(a publicar no dia 25/06/15)

quarta-feira, junho 17, 2015

Futebolland

                No último mês, o país dedicou-se ao futebol.

Atolou, semana após semana, como provam as capas de jornais publicadas neste período.

Futebol nacional, com títulos conquistados, festejos exacerbados e trocas de treinadores. Futebol internacional, com eleições suspeitas na FIFA, finais europeias e jogos de seleções.

Neste clima, a imprensa local não fugiu ao tema e deu também o seu contributo. Entrevistas e conferências de imprensa foram o mote.

Pelo meio decorreu o ato eleitoral da Associação Desportiva Sanjoanense.

Acompanhei pela comunicação social este processo.

Registei o adiamento das eleições e o motivo anunciado – dar oportunidade aos concorrentes de se apresentarem aos sócios e debaterem ideias.

Um dado curioso: a data, inicialmente prevista para estas eleições, era no dia anterior às eleições da FIFA. Apesar das suspeitas lançadas sobre o processo eleitoral do organismo internacional e do apelo para o adiamento, a teimosia de um dos candidatos, querendo manter-se a toda a força no poder, demonstrou que as eleições em associações, se não houver bom senso e não se salvaguardar o bom nome da instituição, podem ser processos nebulosos.

Das eleições da Fifa, nada mais direi. Das eleições da ADS, aproveito para felicitar o presidente reeleito, Luís Vargas Cruz, desejando-lhe as maiores felicidades para o próximo biénio.

Não posso deixar de fazer uma analogia entre estas eleições (da ADS) e o ato eleitoral realizada em Outubro passado, noutra associação de S. João da Madeira, a Associação Estamos Juntos (AEJ).

Em ambos os casos, duas listas.

Numa das eleições, a tentativa de informar os sócios do propósito e objectivos de cada lista. Mais, concedeu-se tempo para os elementos concorrentes passarem a ser conhecidos pelos eventuais votantes. Isto tudo, nestas eleições de Maio / Junho, da ADS.

Em Outubro de 2014, na AEJ, foi solicitado por um sócio, no inicio da Assembleia Geral, o adiamento do ato eleitoral, colocando os concorrentes em pé de igualdade. De igual modo, foi pedido que ambas as listas apresentassem na Assembleia os seus programas eleitorais. Conforme foi divulgado, na época, ambas as solicitações foram rejeitadas.

Compare-se os processos dos dois clubes.

Compreende-se melhor porque razão, o ato eleitoral da AEJ foi sujeito a impugnação judicial. No fundo, quem ficou a perder pela não transparência das eleições, foi o próprio clube e claro está, os seus sócios, que poderiam ter um processo eleitoral pacífico, com debate de ideias, com conhecimento dos candidatos, ficando a conhecer os objectivos de cada lista concorrente para a sua Associação.

Provavelmente, com o adiamento das eleições na AEJ, o desfecho seria o mesmo do das eleições da ADS: uma só lista a concorrer.

Dois últimos apontamentos para a AEJ: o pedido de demissão, seis meses depois, de um dos diretores reeleitos, demonstrando que a coesão diretiva era efémera. Por fim, apesar de todas as dúvidas sobre o ato eleitoral, expressas nas semanas seguintes na imprensa local, alguns agentes da política concelhia não hesitaram em reconhecer a direção eleita. A eterna atração dos políticos a processos sombrios.

 

(a publicar no dia 18/06/15)

quarta-feira, maio 13, 2015

E porque não?

 

                A evolução dos argumentos, na discussão sobre o Hospital de S. João da Madeira, criou uma cisão ideológica em torno da pretensão da Santa Casa da Misericórdia, em recuperar a gestão daquele edifício.

                Para entender melhor todo o processo do Hospital, dediquei-me à leitura dos dois volumes dos “Subsídios para a História da Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira”, magnificamente compilados por Manuel Pais Vieira Júnior, no final do século passado.

                Pelas suas páginas, consegue-se perceber a evolução da cidade, da Misericórdia, do Hospital local, além das políticas nacionais de Solidariedade Social e também as de Saúde.

                Compreende-se quem foi quem na história da localidade. A toponímia fica mais perceptível. Os nomes das ruas em dedicatória a pessoas beneméritas, ou a figuras gradas das instituições locais. Entende-se porque alguns têm busto alusivo e nome de rua, enquanto outros ficaram apenas por metade dessas homenagens, embora nem todos sejam constantemente recordados. Ou pelo menos, espontaneamente, precisando de memórias encomendadas.

                Os primeiros anos da história da Misericórdia são um hino à generosidade. Concentram-se na sua atividade a maioria dos ilustres sanjoanenses. As preocupações sociais dos irmãos beneméritos foram compartilhadas por João da Silva Correia. O escritor inspira-se na vida e obra de Durbalino Laranjeira, doador de terras e bens em testamento à Santa Casa da Misericórdia, para criar no seu livro “Unhas Negras”, o generoso personagem e igualmente farmacêutico – Camilo Palmeira.

                É com base no reconhecimento da ação desinteressada da Santa Casa da Misericórdia, que a população se une e os demais desafogados acedem à angariação de fundos para comparticipar na edificação do Hospital de S. João da Madeira, no edifício que hoje conhecemos. Para trás ficava o velho hospital, construído na Rua do Visconde, nos anos 20 do século passado e que com o evoluir da povoação, cedo se demonstrou ser exíguo para satisfazer as necessidades da então vila e as pequenas terras dos arredores.

                Mesmo com a vertente hospitalar, a Santa Casa continuou a dedicar-se ao apoio a idosos e a crianças menos afortunadas, tal como havia feito durante os demais anos, desde a sua fundação.

                Em 1974 surge o ano de viragem. O Hospital de S. João da Madeira é “estatizado” e o Estado Português, através de Maria de Lourdes Pintassilgo, aconselha a Santa Casa da Misericórdia a dedicar-se ao assistencialismo durante os anos seguintes, já que o processo de saúde estaria condenado a permanecer num impasse durante os anos seguintes.

                Sugestão aceite. A Santa Casa da Misericórdia voltou a edificar, reinstalando o Lar de idosos e o Centro infantil das Laranjeiras (o pronome devia ser masculino atendendo à referência ao benemérito Durbalino, atrás citado).

                Nos anos seguintes, isto é, na década de 80 e 90, o desenvolvimento da Santa Casa da Misericórdia é feito em parceria com vários Ministérios, incluindo o da Saúde. Aliás, é o próprio Estado que lhe propõe a gestão de algumas valências (IOS e Centro de Acolhimento de Menores). Ora, por todo este período, a instituição local nunca desistiu de recuperar a gestão do hospital. Procurou inclusivamente, recuperar a maternidade para S. João da Madeira. Nos anos difíceis do Hospital Distrital, com incapacidade de infra-estruturas para responder a todas as solicitações da população abrangida, a Santa Casa proponha-se a aumentar as instalações e fazia pressão sobre o Estado, para isso acontecer em tempo útil.

                Para contextualizar o processo do hospital, relato em seguida alguns dados dos últimos dezassete anos. No final da década de 90 é inaugurado o Hospital S. Sebastião em S. Maria da Feira. É necessário esperar-se por 2005 e pelo ministro Correia Campos para haver uma racionalização dos recursos nacionais de saúde, com resultados financeiros evidentes, embora com resistência de algumas autarquias de cor contrária. Entretanto, dentro da mesma lógica, desde 2011, o Estado tem procurado devolver às várias Santas Casas da Misericórdia, alguns dos Hospitais estatizados no passado. Dessa data até hoje, é encerrado o Serviço de Urgência do Hospital de S. João da Madeira, segundo o Governo atual por pouca procura de utentes.

                É neste contexto que surge uma petição pública, pedindo a reabertura do Serviço de Urgências no Hospital local. Sendo legítima, face aos acontecimentos desastrosos do último inverno, constata-se a pouca adesão da população local.

                Existe uma guerra de números, devido a outras igualmente pouco sucedidas, efetuadas no passado, que vou contornar.

                Na conjetura atual, ignorar as pretensões da Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira é uma prova de ingratidão.

                É importante recordar que, ao longo dos anos, face às solicitações de assistencialismo da cidade e da região, muitas vezes, por pressão do próprio Estado, a Santa Casa da Misericórdia recrutou técnicos e pessoal competente para ser capaz de responder capazmente. Nada garante, a não ser suposições ideológicas, ou outros interesses obscuros, que essa competência não prevaleça. Sendo um parceiro de ação social reconhecido, é confrangedor verificar a clivagem em torno da sua pretensão, com mais de 40 anos, de recuperar a gestão do Hospital. 

Talvez por isso, a maioria dos sanjoanenses não assine as petições.

 

(a publicar no dia 14/05/15)

quarta-feira, abril 29, 2015

Para lá do palco

                O Festival de Teatro de S. João da Madeira transcende os palcos, os bastidores, as plateias, enfim, as duas salas onde decorrem os espetáculos.

                A Escola Dr. Serafim Leite envolve os seus alunos e não se limita a isso. A comunidade escolar responde favoravelmente, com outras encenações.

A cidade comparece. São centenas a assistir.

O programa alarga-se aos grupos de teatro local e mesmo os de terras vizinhas não são esquecidos.

Uma fórmula que resulta todos os anos e ainda acrescenta peças de companhias do panorama nacional na programação. Ano após ano, nove vezes sem interrupção, escrevem-se peças, estreiam-se gargalhadas, ensaiam-se dramas, sempre com inovação, alternando o humor com o sério.

                A ousadia fica registada nos dias com teatro em S. João da Madeira. Na taxa de ocupação das salas, nas plateias esgotadas, na dupla exibição para atender à procura de espetadores.

                É impossível ficar indiferente.

                É importante focar a diferença.

                Uma ação escolar não limitada às salas de aulas, com capacidade de abraçar a comunidade regional, é algo incomum. A raridade merece referência e será sempre bom enaltecer o feito, esperando que sirva de exemplo para outro tipo de mobilizações envolvendo a comunidade.

                Tantas áreas que precisam de cooperação, como a preservação ambiental, a divulgação da ciência, mesmo outras artes e até algumas atividades desportivas, não esquecendo eventos de moda, devendo-se neste caso envolver os comerciantes locais.

Tudo isto poderá ser um desafio para os agrupamentos escolares e para as suas inúmeras valências. Esperando-se um movimento exógeno, ultrapassando os limites escolares e partindo para a totalidade da cidade e da região que a envolve, à semelhança do Festival de Teatro.

Para finalizar, convém relembrar que há algumas décadas atrás, devido à oferta das infra-estruturas diferenciadoras, as escolas eram, obviamente, locais de estudo e também de tempos de lazer. A transgressão das grades da Escola Dr. Serafim Leite, por exemplo, era frequente, mesmo ao fim-de-semana, para acesso aos campos desportivos ali existentes. Volvidos todos estes anos, realça-se a inversão. A expansão da Escola, como “Espaço Aberto” é a prova de que com boa vontade e intensa dedicação é possível promover agradáveis organizações.

   

   

(a publicar no dia 30/04/15)

quarta-feira, abril 15, 2015

Paradoxos do desporto

                O Comité Olímpico Português (COP) decidiu abanar a estrutura do desporto nacional, ao apresentar aos partidos políticos com assento parlamentar e federações desportivas um retrato pouco animador.

                A estagnação do número de atletas federados e os escassos bons resultados obtidos em grandes competições são consequências de uma política desportiva mal delineada, segundo o COP. Com esbanjamento de dinheiro, na construção de excessivos centros de alto rendimento e com pouca articulação com o desporto escolar, conclui o documento.

                O mérito dos resultados recai completamente para atletas excepcionais e demonstra a pouca contextualização para a repetição dos mesmos, é subentendido no estudo.

                Convém recordar as medalhas portuguesas em Jogos Olímpicos nos últimos 40 anos: Canoagem – Londres 2012; Atletismo e Triatlo - Pequim 2008; Atletismo e ciclismo – Atenas 2004; Judo e Atletismo  – Sidney 2000; Atletismo e Vela – Atlanta 1996; Atletismo – Seul 1988; Atletismo – Los Angeles 1984; Atletismo e Tiro com armas de caça – Montreal – 1976. 

                Apesar do atletismo se prolongar premiado durante várias décadas, convém recordar as medalhas obtidas por disciplina: meio fundo e fundo em 1976, 1984, 1988, 1996 e 2000. Em 2004, Portugal ainda ganha uma medalha no meio fundo e curiosamente arrecada uma medalha nos 100 metros. Em 2008, a medalha foi conseguida numa prova de saltos, por definição mais técnica – o triplo salto.

                A dispersão por modalidade e uma evolução técnica dos desportos premiados em Olimpíada ficam demonstrados. A casualidade por atleta, ou o prémio pelo seu esforço e empenho poderiam ser objeto de análise, no entanto, nem este é o espaço certo, nem o propósito deste artigo.

                O outro indicador apresentado no estudo do COP é curioso: a estagnação do número de atletas federados. Existe a ideia, empírica, de os Portugueses estarem mais ativos, com mais horas dedicadas ao exercício físico e à vida saudável. Refletindo-se estas boas práticas com mais inscritos em provas populares de atletismo, entre outros eventos. Tal facto parece não corresponder a um aumento do número de atletas inscritos no desporto federado.

Existem mais atletas, mas não federados e ao mesmo tempo, surge outro paradoxo: existem atualmente mais atletas nas estradas (análogos aos corredores de meio-fundo e fundo) e os resultados desportivos internacionais nas disciplinas correspondentes são piores.

Nem tudo é mau. A melhoria no método de treino tem que ser reconhecida. E explica os bons resultados. Além da melhoria generalizada das condições de treino. Só que tudo isto não chega para a consistência de resultados internacionais.

O estudo do COP aponta para a má aplicação do investimento público, pela disseminação de centros de alto rendimento no país, 13 ao todo, quando em países com melhores índices económicos e sociais, apenas existem 5 a 6 desses pólos e esses países tem resultados desportivos mais consistentes. A viabilidade financeira destes centros, pela pouca ocupação, é hoje posta em causa.

O documento foca ainda a necessidade de articular o sistema escolar, com a identificação e captação de talentos desportivos e, não menos importante, pela criação de percursos escolares compatíveis com os estudos e a preparação desportiva, à semelhança do que existe nas artes, com o ensino articulado.

Como se prepara a Carta Desportiva do concelho, é importante que as conclusões do citado estudo estejam presentes, para evitar-se directrizes erradas (ainda há 8 anos se projetava a construção de um centro de alto rendimento em S. João da Madeira) e se tomem decisões mais consistentes com as necessidades reais do desporto local, baseado no ecletismo e no associativismo.

Nota final: Ana Rodrigues voltou aos resultados excepcionais e o regresso aos Jogos Olímpicos pode ter ficado assegurado. Para já, um mínimo B foi conseguido. Tal como há 4 anos, a história parece repetir-se.

 

(a publicar no dia 16/04/15)

quarta-feira, abril 08, 2015

Os anos do cinema

                Ficou tudo escrito acerca de Manoel Oliveira.

Será pretensioso acrescentar umas linhas sobre a vida e a obra do realizador. Vou correr esse risco.

                Reconhecido como um dos grandes cineastas europeus, Manoel Oliveira teve a oportunidade, pela sua longevidade, de ser homenageado atempadamente pela sociedade portuguesa.

                Torna-se difícil escrever algo distinto, sem repisar os lugares comuns destes momentos, ou ampliar elogios à obra do realizador.

Há três aspetos que são obrigatórios no elogio ao cineasta português: a temporalidade das imagens do país, a visão histórica de Portugal e por fim, a evocação da literatura nacional.

Filmar o país no século XXI e obter uma imagem datada do século anterior foi uma particularidade da obra de Oliveira. As encostas do Douro, os seus solares, o casario e ruelas das vilas, os lugarejos do Alto Minho, imagens seleccionadas para vários dos seus filmes, fazem parte da recolha de quem viajou por esses lugares esquecidos e muitos daqueles planos, remetem-nos para essa memória pessoal. No fundo, um reencontro com o nosso passado.

A história de Portugal é, segundo Manoel Oliveira, ligeiramente diferente da que nos ensinam os manuais escolares. Como qualquer país conquistador, houve vitórias e derrotas em batalhas campais. Conquistas e reconquistas territoriais sucessivas até à definição da fronteira, ou mesmo durante a expansão marítima. Infelizmente, os manuais escolares só fazem referência a derrotas na expansão: uma em Fez e outra em Alcácer Quibir. Pelo realizador, ficamos a saber que não faz sentido esta visão heróica de Portugal. Desde a derrota na batalha de Badajoz, D. Afonso Henriques, ao não respeitar os tratados firmados, inaugurou uma história normal para um país. Além da crítica à propaganda nacionalista, o cinema permitiu revelar a normalidade de um povo, durante anos intoxicados com a bravia dos seus antepassados.

Camilo Castelo Branco, José Régio, Agustina Bessa Luís e por fim, Raul Brandão são alguns dos escritores presentes na obra do realizador portuense. Alguns vêem a origem geográfica como foco comum. Outros chamaram-lhe o cineasta literário, embora tal designação não seja bem aceite pelos seus seguidores, pois preferem vê-lo como realizador de cinema e não como um adaptador de literatura ao cinema. A evocação da literatura na obra de Manoel Oliveira é uma homenagem do mestre aos seus mestres. Ao filmar as sombras de Raul Brandão, o realizador dá-as a conhecer ao mundo. O mesmo acontecendo com a obra de Agustina, ou com o perpetuar, por mais um século, dos amores de perdição de Camilo.

No posfácio do livro “Páscoa Feliz”, escrito pelo seu autor José Rodrigues Miguéis, este refere-se aos rótulos que um escritor recebe por ter vivido num determinado país, como se a criatividade dependesse apenas deste factor. José Rodrigues Miguéis não se pôs em bicos de pés, descartou-se da vivência norte-americana. Há, no entanto, uma influência do género que se adapta. A comparação com Raul Brandão, aquando da publicação da “Páscoa Feliz”, deixou o autor lisonjeado, ao ser reconhecida a claustrofobia mental do personagem do seu livro e pela casualidade do desaparecimento deste escritor.

A sucessão, um conceito tão português.

No cinema é tempo de aventar hipóteses. Os próximos tempos serão de comparação. Esperemos que a longevidade de Manoel Oliveira tenha permitido ao cinema português preparar-se para esses tempos, não prejudicando o trabalho das novas gerações. 

 

(a publicar no dia 09/04/15)

 

quarta-feira, abril 01, 2015

Aqui há gato

                A edificação de quarteirões na zona central da cidade deixou marcas da evolução do urbanismo ao longo dos anos.

                Antes do planeamento urbano, das ferramentas apropriadas, os PDM, os plano de urbanismo e os planos de pormenor, os quarteirões centrais continham fábricas, moradias individuais, prédios de poucos andares e nalguns casos, alguns campos formavam uma das frentes.   

                Estes campos, outrora rasgados para dar lugar a ruas ou estradas, podiam conter hortas ou mesmo árvores de fruto, podendo no seu conjunto, apelidar-se de pequenos pomares. Muitas casas mantinham nas traseiras esses sinais dos tempos agrícolas da povoação. Embora houvesse terrenos em pousio, já à espera da evolução urbana, nesses quarteirões permaneciam os vestígios do passado pré-industrial da cidade.

                Posso enumerar alguns desses quarteirões e dos terrenos outrora agrícolas, hoje em pousio: na Rua Benjamim Araújo, nos dois lados da rua; atrás na Rua Sá Carneiro, temos mais um exemplar; o interior do quarteirão formado pela Praça Luís Ribeiro – Rua da Liberdade – Rua Júlio Dinis – Rua 11 de Outubro – Rua Padre Oliveira, hoje exposto pela demolição das moradias nesta última rua. A estes exemplos podia juntar-se até há 20 anos, a Rua João de Deus e mesmo a Rua do Dourado.

Quem percorrer as ruas centrais para o lado poente da cidade, sem dificuldade encontrará outros exemplos.

                Uma das características destes terrenos agrícolas era a existência de animais domésticos. Pombos, cães e gatos, perduraram mais no tempo. No caso destes últimos, pela sua capacidade de mobilidade, foram-se movendo de uns quarteirões para outros, ocupando as traseiras das moradias, ou de prédios de pequeno porte.

                Esta mobilidade, aliada à independência e à oportunidade de saltar das traseiras para a frente, permitia aos gatos circularam pelas ruas da cidade, a qualquer hora do dia.

                Hoje em dia, quando se entra na Praceta Júlio Dinis, é usual depararmo-nos com três gatos. Estendidos ao sol, indiferentes aos automóveis que por ali estacionam. Por vezes, um deles empoleira-se numa caixa elétrica, junto à entrada de um dos prédios. Pela observação diária, coincidente com a minha hora de almoço, apercebi-me que estão à espera da refeição, fornecida por mão humana e amiga. Antes ou depois do repasto, além da sorna, também é frequente vê-los em correrias, perseguindo-se uns aos outros, ou fintando as pernas dos transeuntes.  

                A Praceta Júlio Dinis, aterrada ao longo dos anos em cima de um terreno agrícola manteve uma ligação com o passado. A abertura para as traseiras de um prédio, sito na Rua do Visconde, permite visualizar os restos dessa época em que a construção não significava ocupação total da área de terreno. Ali ainda perduram árvores de fruto e uma nesga de terreno, que poderá ter sido cultivada no passado. São estes vestígios que enquadram os gatos.

                Os pequenos felinos, como animal de rua, atravessaram a modernidade da povoação. Por isso, merecem o reconhecimento como animal doméstico da cidade. 

                Posto isto, desejo boa Páscoa para todos.         

 

(a publicar no dia 02/04/15)

quarta-feira, março 25, 2015

Botas, edredões e outros excessos

                É reconhecida a pouca confiança que os portugueses têm nos seus políticos.

                Os acontecimentos dos últimos quatro meses, envolvendo um ex-primeiro ministro e o atual, traduziram-se na evidência do enriquecimento pessoal – num caso supostamente ilícito e no outro, assumidamente para pagar dívidas antigas – contribuindo para aumentar a desconfiança dos eleitores perante os eleitos.

O descrédito da classe é tal que um estudo publicado nos últimos dias, indicou o comentador professor Marcelo Rebelo Sousa, afastado das questões partidárias há 16 anos, como o político em que os portugueses mais confiam.

A partidarização da democracia portuguesa é apontada por muitos, como a principal causa do atraso da nossa sociedade.

                Para atenuar este argumento, aponta-se as justificações históricas, baseadas na pouca idade da democracia, procurando-se desculpar todos os erros dos militantes partidários na condução do Estado Português.

                Atualmente, surgem teses justificando a pouca preparação desses militantes, explicando-se que a opção pela militância partidária, é extremamente semelhante à escolha pelo clube de futebol. Existe todo um lado irracional, evidenciado no comportamento dos militantes. Pela observação das bancadas parlamentares, quer assistindo a debates televisivos, ou mesmo acompanhando algumas autarquias e jornais locais, chega-se à conclusão que na maioria das vezes, a militância não respeita o adversário… tal como as claques de qualquer clube também não o fazem.

Não sendo certo que possa ser apontado como postulado: a primeira escolha ainda na infância é clubista. Só com o avançar dos anos e em idade mais madura, é que a política começa a interessar e a identificação com algum ideal passa a realizar-se. Também aqui, é possível justificar a reduzida exigência política da sociedade portuguesa, pelos anos da ditadura militar, em que os cidadãos podiam simpatizar com um clube e não tinham as mesmas hipóteses em questão de militância, salvaguardando-se a clandestinidade.

Se por um lado, a detenção de políticos devido à mediatização dos processos, oferece hipótese aos defensores dos direitos dos reclusos, de fazer pressão junto do poder legislativo para alterar essas condições, tornando-as mais humanas, não existe a mesma pressão da sociedade civil exigindo uma moralização no acesso à carreira política.

A crise moral em que Portugal mergulhou obriga a condicionar a carreira política.

Qualquer cidadão para fazer negócio com o Estado, é obrigado a apresentar uma certidão de isenção de dívidas ao fisco e à segurança social. Não se entende, como qualquer candidato a deputado, ou mesmo a autarca, não tenha que fazer a mesma prova.

   Se o enriquecimento ilícito precisa de ser legislado, é obrigatório que o dia-a-dia dos nossos governantes seja mais moderado. Não se entende como qualquer Secretaria de Estado tem carro “preto”, com vários motoristas, com direito a viagens para o fim-de-semana, entre outras mordomias. 

Aliás, este é o ponto.

Os excessos da Administração Pública jamais foram sujeitos a contenção, nos últimos 4 anos. Enquanto isso, os portugueses…

 

(a publicar no dia 26/03/15)

quarta-feira, março 11, 2015

Danças e cantares

                A identificação das regiões de Portugal sempre se baseou em conceitos geográficos, históricos e climatéricos. Na caracterização dessas regiões sobressaía a pronúncia da população, as tradições etnográficas, as habitações, a gastronomia, entre outras.

                Num país pequeno, a diversidade entre cada região causa perplexidade. Viajando poucos quilómetros, a paisagem natural altera-se, a oferta culinária torna-se diferente e os vinhos têm uma denominação de origem própria.

As diferenças não ficam por aqui, embora hoje em dia não sejam fáceis de identificar.

Pesquisando-se, encontram-se as antigas tradições de cada região: as habitações adaptadas ao clima e à atividade económica; o vestuário típico; as ancestrais industrias ou as manufacturas; ou simplesmente a artesanal agricultura; não se esquecendo as danças e os cantares, além dos contos populares e outras formas orais de transmissão de histórias.

O perpetuar dessas tradições encerrou-se em museus etnográficos ou industriais, numa ou outra habitação reabilitada, posteriormente requalificada e nos grupos de folclore existentes pelo país fora.

    A recolha destas tradições musicais, começou a ser efectuada por etnomusicólogos oriundos de outras paragens e mesmo estrangeiros. O mais conhecido foi Michel Giacometti, oriundo da Córsega, que iniciou na década de 60, do século passado, a gravação de músicas populares, percorrendo, para isso, o país. Ficou para a História a apresentação, durante a década de 70, do seu programa “Povo que canta”, exibido pela RTP, durante 3 anos.

Desde o inicio do presente ano, a RTP, no seu segundo canal, exibe o programa “Povo que ainda canta”. O seu autor, Tiago Pereira, repetiu, mais de quarenta anos depois a fórmula da recolha da tradição popular.

Além de aspetos regionais, agrupados por programas temáticos, explicando a introdução do fandango no Ribatejo, ou a introdução do acordeão no corridinho algarvio, existem pesquisas reveladoras da diversidade musical de cada região, em especial, com a exibição de instrumentos rudimentares, produzidos por verdadeiros artesãos e com tocadores apenas dessa determinada área.

Por outro lado, a difusão de alguns instrumentos, como a concertina, na música popular do norte ao sul do país, identifica a ligação de um povo com a sua música. Existem outras características comuns como o cantar ao desafio, conhecida a norte como desgarrada e a sul como despique.

No programa televisivo, em cada nova edição, aparecem sempre factos surpreendentes.

Numa nova era, num século novo, com o turismo a ser um grande contributo para a economia nacional, esta pesquisa musical, pode ser um grande contributo para a oferta turística de cada região. Um complemento ao pacote fornecido, podendo-se intercalar viagens ao interior, com experiências musicais únicas, incluindo-se provas de degustação, contemplação de paisagens e conhecimento dos hábitos humanos, mencionando-se os laborais, de um povo que por infelizmente ter vivido isolado, conseguiu preservar a sua cultura.

Finalizo, informando que o programa é exibido à 5ª-feira, pelas 23 horas. Ou seja, no dia da publicação do jornal.

Divirta-se ao som dos cantares nacionais.  

 

(a publicar no dia 12/03/15)