quarta-feira, março 09, 2016

Inquietações poéticas

                Nos próximos quinze dias, a cidade respirará poesia.

                Como os demais anos, a Câmara Municipal promove uma nova edição da iniciativa “Poesia à mesa”. A programação continua a ser diversificada e este ano é um pouco mais ambiciosa.

Existe uma clara aposta da autarquia em Poesia, que não se limita à actividade programada para os próximos dias. O concurso literário “João da Silva Correia” é um bom exemplo dessa promoção.

É bom recordar que, durante anos, a Câmara Municipal de S. João da Madeira procurou investir no património. Identificados os edifícios com interesse municipal, houve dinheiro para a sua aquisição, reabilitação ou restauro e abertura ao público. Praticamente, ano após ano, sucederam-se os investimentos: ampliação da biblioteca municipal; transformação de edifícios a precisar de regeneração, finalizando-os, como os Paços da Cultura, o Museu da Chapelaria, a Casa da Criatividade e mais recentemente com a entrega à cidade da Oliva Creative Factory. Pelo meio, é importante não esquecer a reabilitação das instalações da Academia de Música. Nem, muito menos, as novas instalações da Banda de Música no espaço onde em tempos funcionou o Auditório Municipal. Nesta enumeração, temos que incluir dois edifícios que apesar de restaurados, não conheceram o mesmo fim que os restantes. Refiro-me à Quinta do Rei da Farinha e ao Palacete dos Condes (este praticamente reconstruído), ambos desocupados desde há anos, estando a sua futura ocupação a ser finalmente planeada.

Este cuidar do património, exigente em termos financeiros, foi completado durante todos estes anos com os diversos apoios às associações e iniciativas culturais, algumas destas avulsas. Neste sentido, pela sua longevidade e singularidade, a “Poesia à Mesa” ganhou o seu espaço. Primeiro por ser uma iniciativa organizada pela Câmara Municipal, quando o normal é haver um proponente e a autarquia subsidiar. Segundo pela sua afirmação no calendário municipal de eventos. Finalmente, por este evento ter sido assimilado pela população.

A compreensão dos habitantes da cidade não se limita à participação no programa, quer como assistentes, ou pendurando poemas, ou declamando os seus trabalhos. Existe mais actividade, que extravasa a “Poesia à mesa”.

Logo no início do texto, terceiro parágrafo, referi o Concurso Literário João da Silva Correia. Como é do conhecimento geral, nos últimos anos, este concurso inicialmente previsto para trabalhos de prosa e poesia, apenas tem premiado poemas. Essencialmente pelo número de trabalhos apresentados nas primeiras edições do Concurso. Este sinal de vitalidade da população, ainda hoje se mantém e teve uma maior visibilidade com as informais tertúlias de poesia. As “Fugas poéticas”, idealizadas e concebidas por um grupo de cidadãos, tem sessões regulares ao longo de todo o ano. Curiosamente, em diversos locais da cidade. Chegando a haver por parte de estabelecimentos comerciais o expressar de vontade em albergar as ditas “Fugas”, o que traduz a capacidade da poesia em ser cartaz cultural e ter público para a ouvir.

A expressão artística fica registada, para a posteridade, nas publicações nas páginas dos jornais locais de poemas avulsos de diversos autores. É igualmente importante referir a edição de poemas compilados em livros, que alguns poetas ousam propor aos restantes cidadãos. 

Se houvesse dúvidas sobre o efeito da iniciativa “Poesia à mesa”, por parte da Câmara Municipal, o facto de ter despontado toda esta energia na população (e sua desinibição) é um sinal de uma política cultural bem conseguida.

 

(a publicar no dia 10/03/16)

quarta-feira, março 02, 2016

Manifestações Urbanas

                O arranque da X edição do Festival de Teatro de S. João da Madeira está previsto para o próximo dia 8 de Abril.

Ao longo dos últimos anos, este festival tem recebido várias e justificadas apreciações positivas.

Recompilando alguns desses elogios:

a)      Destaque para a programação, pela mistura dos grupos escolares com grupos amadores locais e dos concelhos vizinhos, acrescentando-se grupos profissionais de âmbito nacional;

b)      Enaltecer a iniciativa da organização, da Escola Secundária Dr. Serafim Leite e pela liderança do processo consecutivamente desde a primeira edição;

c)       O interesse em inovar em cada edição, envolvendo novos parceiros e aproveitando os recursos físicos da cidade;

d)      A metamorfose operada nos elementos dos grupos escolares e dos amadores, em especial, pelo surgimento de dramaturgos, encenadores, construtores de cenários e de guarda-roupa;

e)      A transfiguração no palco dos atores, com óbvia referência para os estudantes, sem desprestígio para os restantes escalões etários.

Este último ponto merece um maior desenvolvimento.

As artes cénicas desenvolvem competências como memória, capacidade de enfrentar plateias, oratória, dicção e expressão corporal, entre outras. Ver alunos, adolescentes a ter as primeiras experiências de representação dramática, de aptidão para a interpretação de personagens é congratulador. Nos palcos do Festival de Teatro verifica-se que a Escola é capaz de transmitir algo mais do que os conhecimentos existentes nos manuais escolares. Qualquer das competências atrás descritas são extremamente importantes no desempenho do jovem enquanto estudante e depois entrando no mundo profissional, ainda mais valorizadas serão.

Numa época em que começa a ser questionado o ensino para a nota, ou seja, reduzindo-se essencialmente à aferição por testes, a participação de alunos em atividades extracurriculares são um bom argumento para os defensores de outro modelo de avaliação. Neste capítulo, o Festival de Teatro e os grupos escolares demonstram assertivamente que existem outras formas de adquirir conhecimentos e competências.

A expressão artística dos jovens alunos de S. João da Madeira não se limita às atividades extracurriculares. É sobejamente conhecido o ensino articulado de música. Mais publicitado por os piores motivos: falta de verbas para pagamento aos professores, atraso nesses pagamentos e mesmo, no inicio do presente ano letivo, redução do número de turmas a criar no ensino de música. Apesar destas dificuldades, os jovens vão progredindo os seus estudos e começam a surgir atuações diferenciadas. O calendário de apresentações ao público vai sendo incrementado, sob a égide da Academia de Música de S. João da Madeira, agendando-se mais espetáculos, como o organizado na semana passada na Casa da Criatividade.     

No contexto do ensino articulado, um parágrafo final para a dança. S. João da Madeira é destino de muitas jovens dos concelhos vizinhos que optam por esta arte, inscrevendo-se na Escola EB 2/3. Esta forma de expressão, manifestada em cultura urbana, tem um enorme potencial de apresentação ao público, que em meu entender ainda não saiu dos muros da referida Escola. Há um potencial enorme, sem esquecer a centralidade, proporcionada pela opção de se estudar na adolescência na cidade, em promover a dança em espaços municipais para a divulgação ao público. Se quiserem ter uma ideia da dimensão destas manifestações urbanas, podem assistir no próximo sábado à noite, no Pavilhão das Travessas, ao Campeonato de Hip Hop e tirar as devidas ilações.     

 

(a publicar no dia 04/02/16)

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

Café sem açúcar

                Cebaldo Smith esteve na génese da secção de xadrez da Associação Estamos Juntos. Corria o ano de 1990 e eu caloiro na Universidade do Porto, não pude dar o meu contributo no Campo de Férias de Julho. Quase no final do mês, fui informado que haveria uma simultânea de xadrez conduzida por um cidadão oriundo do Panamá. Prontifiquei-me a estar presente, repetindo a experiência, já que na década anterior, na Escola Primária do Parque, Flávio Pinho, jogador de xadrez de S. João da Madeira tinha efetuado a primeira simultânea em Campos de Férias da AEJ. A participação de Cebaldo não se limitou apenas ao jogo contra vários adversários em simultâneo, foi transmitindo conhecimentos teóricos e fomentou a prática, ao longo das primeiras semanas do mês. Como era costume nos Campos de Férias, promoveu-se um torneio de xadrez, cuja final decorreu na piscina interior, ao mesmo tempo que decorriam as provas de Natação.

                Ao verificar toda esta atividade em torno do xadrez, idealizei criar uma secção na AEJ. Não havia nenhum clube a praticá-lo em S. João da Madeira, desde a década anterior, condição importante para evitar concorrência na mesma localidade. Havia um potencial desse Campo de Férias que era importante agarrar, só que não se sabia qual seria a aceitação da cidade a uma nova modalidade desportiva. O primeiro passo foi realizar um torneio de xadrez, no Clube Labor Sanjoanense. Divulgação feita através dos jornais locais. Surgiram rapidamente inscrições e pessoas interessadas em praticar xadrez a nível federado.

                Escusado será dizer, que nos anos seguintes convivi de perto com Cebaldo Smith. Torneios, Campeonatos, viagens para uns e para outros, mais todo o apoio que ele me deu a nível de secretariado e não só. Um dia a caminho de Vila Nova de Foz Côa, ainda sem gravuras rupestres sinalizadas, parámos para beber café. Por essa época, a atividade xadrezista desenvolvia-se com muita frequência no interior do País. Os torneios começavam às 10 horas da manhã e tínhamos que viajar pelo IP5, conhecida como a estrada da morte, tal era o número de acidentes com vítimas mortais que ocorriam naquele traçado. Para chegar a tempo aos torneios, saía-se de madrugada e com todos os estabelecimentos comerciais fechados, era portanto, normal fazer-se uma paragem para beber um café, quando o dia clareava. Nessa manhã, servidos os cafés, eu como habitualmente abri o pacote de açúcar e virei-o todo para dentro da chávena. Cebaldo bebeu o seu e perguntou-me se eu gostava de doce de café. Só então reparei que bebia o café sem açúcar. Explicou-me o prazer de sentir o gosto amargo do café e das vantagens em reduzir o açúcar no sangue. A partir desse dia comecei lentamente a reduzir a doçura do café. Primeiro para três quartos do pacote e depois para metade. Lembro-me de comentar o meu feito com uma colega da Faculdade, que transmitiu-me outra perspetiva vantajosa em reduzir o açúcar, o controlo do peso.

                Muitos anos mais tarde, com as máquinas expresso caseiras, passei a beber o café sem açúcar. Fora de casa, faço o mesmo para algumas marcas e descobri que noutras, só com alguns lotes é que é possível não acrescentar o conteúdo do pacote, que vem sempre pousado no pires. Nos casos extremos de sabor amargo, junto apenas um quarto do pacote. Esta minha experiência poderia ser útil para a Direção Geral de Saúde, que espera reduzir o consumo de açúcar, através de saquetas com metade da capacidade das atuais. Um bom café, bem tirado, com a espuma na dose certa, não necessita de açúcar. Ainda existe outra vantagem, a educação do paladar ao sabor natural. Chás e outras infusões, por exemplo, também passei à mesma prática de redução da sacarose, estando quase no limite zero.

                Voltemos a Cebaldo Smith… Muitos leitores devem recordar-se dos seus textos, publicados nas páginas do jornal labor. Na década de 90, ou seja, no final do século passado, Cebaldo partilhou a perspetiva indígena, escrevendo sobre a chegada ao continente americano de Cristóvão Colombo, entre outros temas relacionados com as tribos Índias da América Central. Neste particular, lembro-me de dois textos seus: um sobre como o casamento estava a prejudicar os costumes indígenas, pois se os membros do casal provinham de diferentes idiomas nativos, a opção para a educação dos filhos recaía na língua oficial do país, o castelhano, em detrimento de qualquer um dos idiomas envolvidos; o outro texto partia da sonoridade das línguas nativas e como juntando “neg” - traduzido por lar - e “ócio” – por sua vez traduzido por amor, obtinha-se para o casamento precisamente a palavra negócio. Embaraços da antropologia.

                Cebaldo de Léon Smith sobe ao palco amanhã nos Paços da Cultura. É ele o orador convidado para o “Palcos e Cenas”, iniciativa englobada na X Edição do Festival de Teatro de S. João da Madeira. Pelo cosmopolitismo introduzido na cidade há 25 anos, não tenho dúvidas de ser a escolha certa.

 

(a publicar no dia 25/02/16)

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

Votar no Porto

                Esperava-se que a partir de 24 de Janeiro, a atividade política abrandasse. Duas eleições, intercalares em S. João da Madeira e Presidenciais, em simultâneo e com o calendário eleitoral para o presente ano vazio, sem nada agendado, presumia-se uma diminuição de notícias e de notoriedade dos agentes da política local.

                Os jornais locais nas últimas semanas prolongaram as questões partidárias. Primeiro o mal-estar no PS local e logo na semana seguinte, as eleições para a concelhia do PSD. Uma leitura mais alargada e verifica-se que os dois partidos vão também a votos para eleger as respetivas distritais. A movimentação partidária estende-se no PSD até à eleição da comissão política nacional.

Tanta atividade deve ocupar bastante a militância.

É evidente que deve-se separar as águas: acompanhar as eleições que envolvem a sociedade civil e apenas estar atento às dos partidos políticos. No entanto, é sempre curioso verificar-se as movimentações partidárias. Avaliar a capacidade democrática das estruturas partidárias, sobretudo, nos momentos em que existem críticos. Muitas vezes é necessário conciliar as opiniões divergentes, para transmitir uma mensagem de unidade à sociedade civil. Outras vezes, é importante assumir uma rotura, devido a um passado recente pouco recomendável em termos democráticos, levando a críticas contundentes e ao afastamento de militantes históricos, o que influência negativamente os eleitores e só mesmo um recomeçar de novo, reabilita um partido perante a sociedade civil.

Esta agitação política tem desviado a atenção dos meios de comunicação, de uma proposta do atual governo, sobre a eleição do presidente da Área Metropolitana (AM). Segundo está previsto, este cargo estará sujeito a sufrágio já em 2017, aquando das eleições autárquicas. Ou seja, para além dos três boletins de voto, normais em eleições municipais, um para a Câmara Municipal, outro para a Assembleia Municipal e outro para a Assembleia / Junta de Freguesia, o eleitor receberá um quarto impresso, para votar nos candidatos a presidente da Área Metropolitana, o que no caso de S. João da Madeira, será a respetiva AM do Porto.

Parece ser consensual a criação deste cargo, pois alguns militantes do PSD já encontraram um candidato a apoiar por esse partido. Nada mais, nada menos do que, Rui Rio. Uma candidatura dentro da lógica “da conciliação de opiniões divergentes” e que vai obrigar as outras forças políticas a elevar a qualidade dos seus candidatos, para não perder esta corrida.  

Chegados a este ponto, com os eleitores de S. João da Madeira e dos restantes concelhos vizinhos, inseridos na sub-região Entre Douro e Vouga (EDV), a votar para a AM do Porto, é bom reivindicar, novamente, que os círculos eleitorais distritais sejam ajustados à nova realidade, ou seja, que os eleitores do EDV passem a eleger deputados do distrito do Porto e deixem de votar no distrito de Aveiro. Não fará sentido continuar tudo na mesma. Confirmando-se a possibilidade de eleição para o Presidente da AM do Porto, é o momento oportuno para os partidos políticos repensarem-se, modificando a lei eleitoral e ajustando a realidade política, destes concelhos do EDV, à área geográfica onde estão inseridos.

Continuo a pensar que o maior obstáculo a esta inevitável alteração, é a resistência de algumas estruturas partidárias. O mapa eleitoral só será revisto, ajustando-se concelhos periféricos a outros distritos, se as respetivas estruturas partidárias alterarem o seu perfilamento. Isso só acontecerá, ou por imposição nacional, caso se queira impor um novo mapa, ou por reivindicação da população. Esta última, objetivamente, por uma questão de proximidade, coesão e identidade geográfica a uma nova afinidade regional.

Enquanto tal não acontece, sugiro aos leitores, seguirem outras eleições: as primárias dos Estados Unidos da América. Uma das dúvidas, também por lá, é saber se os Republicanos se chegam mais à direita e se os Democratas tendem mais para a esquerda. A acompanhar atentamente nos próximos meses. 

 

(a publicar no dia 18/02/16)

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Geração do Independente

                No pretérito mês, enquanto decorriam as campanhas eleitorais, dediquei-me à leitura do livro “O Independente – A máquina de triturar políticos”.

                Oportunidade para revisitar a política contemporânea, em especial, a segunda metade dos anos oitenta e a primeira metade da década seguinte, do pretérito século, assinalados pelas maiorias conquistadas nas urnas pelo PSD, sendo o mérito do Professor Cavaco Silva, como ficou registado na História.

Para recordar, o jornal “O Independente” surgiu em 1988, tendo como intenção “ressuscitar” a direita conservadora e liberal. Liderado por Miguel Esteves Cardoso, por sua vez secundado por Paulo Portas e Manuel Falcão, “O Independente” marcou uma geração, que passou a seguir semanalmente os escândalos da política nacional e sobretudo, a ter uma noção do que era o Estado e como a “coisa” era administrada.

Ao longo do primeiro capítulo, os autores, dois antigos jornalistas desse jornal, Filipe Santos Costa e Liliana Valente, percorrem as vicissitudes dos Governos do PSD, enquadrando os temas nas vontades do jornal. Os massacres a Cavaco Silva, a Miguel Cadilhe, a Leonor Beleza, a Fernando Nogueira, a João de Deus Pinheiro, além de Duarte Lima, de Dias Loureiro e de Braga de Macedo, são enquadrados pela vontade do jornal em modificar o paradigma da direita portuguesa. O mote era atacar a social-democracia, o centro direita defendido por Cavaco Silva, contrapondo com uma ideia mais liberal, mais direita e menos centro. Poucos dirigentes socais democratas escaparam às manchetes corrosivas do Independente.

A segunda maioria obtida por Cavaco Silva, em 1991, modificou o jornal, que a partir dessa data, como demonstram os autores do livro ao longo do segundo capítulo, passa a suportar um novo projeto político da direita portuguesa, o CDS – PP. Os protagonistas do PSD são os mesmos, o ataque mantém-se cerrado e estende-se à Presidência da República de então, através dos casos de Macau. Paulo Portas assume a direção do jornal e Miguel Esteves Cardoso passa a diretor adjunto, acumulando o cargo com a direção da revista K, um dos projetos editorais mais engraçados daquela época e provavelmente um dos melhores de sempre da imprensa portuguesa.

A mudança editorial do Independente fez-se na promoção de Manuel Monteiro a líder do CDS. Os autores recolheram testemunhos que indicam que o CDS fazia conferências à quinta-feira e o jornal desenvolvia os mesmos assuntos à sexta-feira. O mal-estar vivido pela redação, era apaziguado por Paulo Portas, até que este começou a preparar o seu ingresso na política ativa, deixando o jornal entregue a uma terceira pessoa.

O resto da história é conhecido. Havendo sempre alusões a isso mesmo ao longo do livro. Em 1995, Paulo Portas é candidato pelo CDS – PP pelo distrito de Aveiro. Em 1997, lançou-se na corrida autárquica de Oliveira de Azeméis e em 1998 chega à liderança do partido. Nesse posto, apanha primeiro com as suspeitas do caso Moderna, depois ficou com o orçamento limiano. Aguentou tudo e nas eleições legislativas, de 2002, consegue ser o suporte de uma maioria de direita. Ainda viu o PSD mudar de líder. Fez má cara na tomada de posse de Pedro Santana Lopes e quando perdeu as legislativas, em 2005, saiu de cena, recolhendo-se com várias suspeitas na compra dos submarinos. Nada foi provado e em 2011, nova maioria da direita suportada pelo CDS-PP e de novo Paulo Portas é indigitado ministro. Em meados de 2013, ficou conhecido o episódio irrevogável e chegamos aos dias de hoje.

                O livro “O independente – a máquina de triturar políticos” é uma boa compilação de uma época da história do jornalismo português e das suas ligações com a política. Ajuda a perceber como se chegou ao atual estado da direita portuguesa e daí, é possível, extrapolar para a totalidade do espectro. Existe outro aspeto curioso da leitura do livro, a demonstração de como o jornalismo pode ser o quarto poder e, neste caso concreto, como esse poder pode ser usado para influenciar uma determinada facção da sociedade civil, ou mesmo partidária.

Quando saiu a primeira edição do livro, em Novembro de 2015, Paulo Portas ainda não tinha anunciado a saída da política. Pelo demonstrado no livro, pelos anos de jornalista e mais tarde, como governante, parece ser mais uma decisão revogável. Pela biografia do visado, são 40 anos à volta da política e não se fecha um capítulo sem acabar a totalidade da obra. O facto de ter subtilmente conduzido, nestes últimos quatro anos, o PSD para a direita, tal como pretendia como candidato não aceite à liderança da estrutura jovem do partido, em 1979, e como vice-diretor do jornal da JSD, que tinha um sugestivo título “Pelo Socialismo”, provam a sua mais que reconhecida habilidade política.

Ao encerrarmos o livro, ficamos com a ideia de que esta história não acabou, que haverá outras vontades ainda não assumidas, que poderão passar por liderar um mega partido de direita liberal (uma espécie de fusão dos dois partidos da PàF), ou por tornar-se comentador de fim-de-semana de um canal televisivo, sem direito a contraditório, durante a próxima década, ou mesmo resguardar-se durante esse período, para finalmente se apresentar em 2026 como candidato a Presidente da República.

                Suposições pessoais que terão confirmação nos próximos anos. Ou não…

 

(a publicar no dia 11/02/16)

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Os quatro pilares da vitória

                Os resultados das intercalares do último domingo podem ser explicados através da estratégia, do candidato, da equipa e da campanha eleitoral.

               Tudo começou em Outubro de 2015, com o resultado das eleições legislativas. PSD e CDS concorriam juntos e os votos obtidos pela PàF em S. João da Madeira, permitiam traçar um cenário de vitória numas eventuais eleições intercalares. O voto de direita era superior ao voto do PS. Em época de “tempos novos”, a coligação à direita significava um confronto ideológico e nesse sentido, o movimento independente poderia ser esvaziado. A contrastar esta estratégia, à esquerda não houve coligações. Nem poderia haver. Por um lado, devido às duras trocas de ideias na Assembleia Municipal. Por outro, devido à teimosia de alguns partidos em concorrer sozinhos, não ponderando os ganhos ou as perdas ao assumir tal posição. Haveria uma terceira via, mais pragmática de o PS e o movimento independente concorrerem coligados. Tal cenário, sem ideologia a suportá-lo, seria de confronto eleitoral, só que os riscos para o PS seriam muitos, sobretudo na negociação dos lugares na lista.

                Se a estratégia eleitoral do PSD / CDS era a melhor, o seu candidato era igualmente o que dava mais confiança ao eleitorado. Depois de andar dois anos a ser ridicularizado e mal tratado nas reuniões de Câmara e nas páginas da imprensa local, Ricardo Figueiredo aguentou tudo até a um determinado limite. Durante esse período ganhou experiência política, conheceu melhor a dinâmica da autarquia, estudou dossiers e viu a oposição a ser aquilo a que a sua essência de políticos de ambição local lhes permitia ser, opositores. Perderam-se milhões de investimento garantido e passaram-se dois anos a fazer encenações cínicas ou a apresentar requerimentos, não com o objetivo de ler a resposta, mas com a intenção de obrigar o presidente a responder. Em Outubro, Ricardo Figueiredo jogou a sua última cartada, permitindo aos eleitores acabarem com estado a que a Câmara Municipal de S. João da Madeira tinha chegado.

                Acrescente-se outro factor extremamente importante, ao liderar como independente a coligação do PSD / CDS, Ricardo Figueiredo deu outra indicação à cidade: a preferência pela comunidade e não o partidarismo. Um sinal de reconhecimento dessa opção apareceu na sua Comissão de Honra. Vários dirigentes associativos declararam o seu apoio ao candidato da coligação, não precisando de o justificar.            

                Das listas apresentadas a esta eleição intercalar, considerando apenas as das forças políticas que elegeram vereadores em 2016, só a da coligação é que trazia novidades. A lista do PS não entusiasmou o próprio partido. Em contrapartida, o PSD recuperou dois dos seus antigos vereadores, com a ambição de os eleger, embora o 5º elemento fosse desde sempre considerado inelegível, como veio a acontecer. Esta diferença na constituição das listas marcou o processo eleitoral e permitiu à coligação encarar a campanha de forma mais positiva.

                As maiores diferenças revelaram-se na campanha. Aparentemente não se viu nada de muito diferente. Cartazes, páginas na internet, artigos de opinião, ações de rua, comícios em espaços cobertos, visitas a empresas e a associações foram em tudo semelhantes.

Observando melhor, houve opções que diferenciaram os candidatos. Em primeiro lugar a mensagem política. A coligação pedia uma maioria, o PS insistia num tema já explicado e mal compreendido e apostava tudo no seu cabeça de lista ou candidato. Na internet, a coligação recolheu mais apoios do que o PS, embora neste campo, o Movimento independente tenha aparentemente vencido. No desenrolar da campanha, o PSD e CDS trouxeram figuras locais para a campanha. A título de exemplo, João Almeida, candidato pelo CDS em 2009 e em 2013 à Assembleia Municipal, passou mais dias em S. João da Madeira nestes últimos meses, do que naqueles dois anos. Além disso, outras figuras mediáticas vieram a S. João da Madeira, como Marques Mendes. O próprio futuro Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa fez referência às eleições locais, classificando-as como cruciais para a ambição política do partido. E claro, um presidente do partido estar presente num comício, não é o mesmo do que um presidente de câmara, ou um secretário de Estado.

Outro aspecto que importa focar é o calendário das ações. O PS abriu com um comício e a partir daí a campanha decorreu em ritmo lento, terminando sem chama. Em contrapartida, a sequência de ações de campanha, por parte da coligação, foi sempre criando novas expetativas e conseguindo maior mobilização, o que se refletiu nos resultados eleitorais.

Se a nível de cartazes, a coligação explicou bem porque é que havia eleições intercalares, apostando em divulgar o chumbo dos 22 projetos por parte da oposição, já o PS entrou em contradição com o discurso repetitivo das “más contas”, pois apresentou como compromisso eleitoral, candidatar a cidade ou a região a capital europeia da cultura, algo que em Guimarães custou cem milhões de euros em 2012. Relembrando que recentemente, o PS recusou um empréstimo de dois milhões euros, para a construção das novas piscinas.

                Ricardo Figueiredo é de novo presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira. Está de parabéns. Terá pela frente um desafio imediato: reverter a posição do Ministério da Saúde relativamente ao Hospital. Neste capítulo, as eleições também lhe foram favoráveis, 54% dos eleitores, reais da cidade, votaram em forças políticas que defendem a devolução do Hospital à Santa Casa da Misericórdia. Um número inequívoco, que não deixa dúvidas sobre a real vontade da população. 

 

(a publicar no dia 28/01/15)

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Um homem simples

                Há imagens que nos ficam na memória, a que não queremos sobrepor outras.

De Joaquim Carvalho, gostamos de o recordar como o Quim do Pé de Salsa. Evocamos o animador da nossa juventude, sempre disponível para nos servir, sempre dinâmico atrás do balcão, sempre feliz pela nossa presença, sempre acessível para ouvir novas correntes musicais, ou mesmo para voltar a músicas antigas.

Recordar o Quim, é um exercício de saudosismo. Dos anos despreocupados de adolescente e de jovem adulto. Das horas de folia, das noites com hora marcada para terminarem e que inexplicavelmente se prolongavam madrugada fora. Dos fins-de-semana com diversão em S. João da Madeira, ou em tempos anteriores, em Cortegaça.

Tinha a ideia de conhecê-lo desde a minha infância, ou seja, desde sempre. Mas, afinal, não foi assim. Conheci-o apenas nos primeiros anos da minha adolescência, na casa comercial que vendia discos, a Charlui. Eu era frequentador assíduo, após as minhas aulas e um dia apareceu por lá o Quim, sempre apressado, a conversar com o Fernando e logo a seguir a sair. Episódio que se repetiu algumas vezes. Meses mais tarde, descobri-o no Neptúlia, onde trabalhava, e fui cumprimentado de forma calorosa. Algo que ficaria para sempre.

Só me apercebi da sua capacidade de envolvência com os clientes, quando numa festa da AEJ, era necessário mais um voluntário, numa das coreografias, para representar um árabe, sendo sugerido o nome do Quim, pelos restantes elementos do elenco, todos eles clientes do Neptúlia. A sua interatividade e mobilização ficaram patentes quando passou a trabalhar no referido “Pé de Salsa”.

As noites nas imediações da Praça nunca mais foram as mesmas. Transmitia uma dinâmica extraordinária. Vi noites de casa cheia, com o caos instalado e o Quim aparecia após terminar uma outra tarefa e passava a servir cerveja após cerveja, até saciar a sede dos clientes e acalmar os seus ajudantes menos experientes. Era uma época de festas de casa cheia, umas programadas pelo calendário e outras espontâneas. Houve noites de bebidas a serem pagas apenas com uma moeda de dois escudos e cinquenta centavos, que já eram raras nos bolsos dos clientes. Houve noites com aulas de ginástica aeróbica. Houve muitos minutos a ouvir-se Fausto Bordalo Pinheiro, no meio de outras músicas de artistas de expressão anglo-saxónica.

E havia mais do que isso.

Muitas vezes, jantámos à mesma mesa, com mais companheiros e amigos. Fizemos noitadas fora do seu bar. Fomos ao futebol, para aplaudir a ADS. Em matéria futebolística era a única ponte em comum.

Quando a sua sociedade comercial encerrou, o Quim foi trabalhar para outro bar. Continuei seu cliente no Fora d’Horas. Só que tudo estava a mudar. Eu estava a deixar a vida de estudante e passava a ter que cumprir horários. O Joaquim deixava o serviço por detrás do balcão e partia para uma nova aventura. Os encontros passaram a ser ocasionais. No entanto, nos reencontros, recebia sempre o mesmo caloroso abraço. Vim a saber que estava empregado na FEPSA, como responsável de um setor da produção. Fiquei contente por ambas as partes, pois sendo conhecedor do processo produtivo, apercebi-me que a sua dinâmica seria extremamente importante para a empresa. Além disso, vim a constatar que a sua sinceridade e frontalidade, foram importantes para a sua integração e que muito contribuíram para fomentar o espírito de equipa na firma.

A última vez que estive com ele, disse-lhe que ainda me lembrava do seu tique, quando tinha que memorizar as tarefas a executar. Um gesto simples, colocava o dedo na testa e depois apontava uma determinada direção e indicava onde tinha que ir. Uma gesticulação que ajuda ao planeamento instantâneo e a que eu também recorro, naqueles momentos de aperto em que tenho de acompanhar de perto a produção, existindo várias tarefas urgentes a executar, para solucionar o imbróglio criado. Ficou surpreendido e reconhecido.

Não posso deixar de referir um episódio que demonstra a sua honestidade. Na aula de entrega de testes de matemática, o Quim tinha conseguido um bom resultado. A professora estava a enaltecer o seu esforço, o seu estudo por ter conseguido esse resultado. Elogio atrás de elogio e ao ouvir tamanho louvor, o Quim não se conteve e anunciou que tinha copiado o teste todo.

Para a posteridade, ficam estas imagens do Joaquim Carvalho: trabalhador, dinâmico, honesto e simples. Um grande homem.

    

(a publicar no dia 21/01/16)

 

 

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Dias Cinzentos

                Um inicio de ano chuvoso, com dias e dias pardos e sem chama. Seguem-se registos avulsos, deixando pistas pelo meio, para o leitor perceber a desestruturação do texto:

1)      David Bowie foi um grande artista musical, com uma noção de performance fora de série. Criou personagens, recriou-se, lançou vários êxitos musicais. Descobri-o cedo. Não fui indiferente ao “Let’s Dance” de 1983. Um ou dois anos depois tinha acesso, por empréstimo, à sua vasta discografia. De uma assentada 10 LPS e o deslumbramento pela vasta obra ao meu alcance. Compilei algumas músicas em cassete de 90 minutos e ouvi-a anos a fio. Naquela época, importava-me mais a sonoridade e a estética. Havia muito de poses e colocação de braços em palco, que eram absorvidos. David Bowie era diversão. Quando numa discoteca, o dj entoava os acordes de alguma das suas músicas a solo, ou em dueto com MicK Jagger, ou os Queen, seguia-se uma noite memorável de dança. Um registo que se perpetuou no tempo, em especial, nas noites revivalistas. Aliás, confesso que fiquei mais descansado, quando verifiquei que os meus filhos, no seu percurso de descoberta musical, ficaram seguidores de David Bowie. Lá por casa ecoam as ligações de Major Tom para a torre de controlo. A referência a “Space Oddity” é deixada propositadamente para o final, pois durante algum tempo o misterioso lugar onde ficou Major Tom foi uma tentação a atingir. Em “Ashes to Ashes” do LP Scary Monsters, David Bowie redime-se, define o seu astronauta e essa mensagem, singela, é importante para toda uma geração que conviveu com a toxicodependência de perto e no entanto, preferiu viver sóbrio.

2)      6 dias em estado febril, sem hipótese de encostar à cama, para curar uma maldita gripe. Finalmente, o fim-de-semana trouxe o merecido descanso e a respetiva melhora. Em estado de cama, aproveitei para terminar a leitura da viagem de Naipaul (Prémio Nobel da Literatura em 2001) a quatro países que se converteram ao islamismo. Um regresso do escritor à Indonésia, Irão, Paquistão e Malásia, 16 anos após uma primeira vista. O evoluir das várias sociedades, as relações com o passado religioso de cada país, além da situação pessoal de alguns conhecidos do autor depois de 1979, ano da primeira visita. Sem me alongar muito, uma interessante leitura da tensa relação entre as várias fações do islamismo e que ajuda a perceber o conflito Arábia Saudita e Irão. 

3)      Marcelo Rebelo de Sousa impôs a presença de Pedro Passos Coelho em S. João da Madeira. Ao mencionar as eleições intercalares, como partidárias, o candidato eleitoral marcou a agenda. Além da visibilidade nacional transmitida às eleições municipais, todos os agentes políticos ficaram a saber porque é que o professor Marcelo dispensava a presença do líder do PSD na sua campanha eleitoral.

4)      Segui um debate entre dois candidatos presidenciais. Apenas um. A convição inicial não se alterou. A candidata Maria de Belém está a mais nestas eleições. Desde Agosto.

5)      O jornal “O Regional” publicou uma de três sondagens encomendadas para as eleições intercalares de S. João da Madeira. Certamente, outros jornais publicarão outras até ao dia 22 de Janeiro. Os resultados apresentados agradam a uns e logo os desagradados desdenham do estudo, da amostra, do método, etc. É assim a nível nacional, logo a nível local não haveria de ser diferente. Com tanto estudo de opinião a ser publicado até às eleições, todas as candidaturas conseguirão rever-se em algum e com isso acreditar na validade das sondagens.

6)      O parecer do Tribunal de Contas, sobre a passagem do Hospital para a Misericórdia de S. João da Madeira, era dispensável. A decisão em contrário já estava tomada pelo Ministério da Saúde, como se percebe. Serão meses de incerteza os próximos. Pela amostra dos últimos seis, serão meses de agonia para o Hospital.

7)      Mais um dado a acrescentar, para ajudar a captar os votos de militância e de protesto.      

 

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Pelo Estado de Direito

                No jornal Público de sábado, dia 2 de Janeiro, apareceu uma reportagem sobre a importância das Santas Casas de Misericórdia no assistencialismo. Ao virar a página, refletindo sobre os dados apresentados, apercebi-me da importância da União das Misericórdias no Estado Social e também no Estado da Saúde.

                Exercício idêntico tinha feito durante o ano transato, ao apreciar a história e atualidade da Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira.

                Os números nacionais são outros e uma quebra de confiança entre o Estado e a União de Misericórdias, com um hipotético desinteresse destes da função desempenhada no assistencialismo social e mesmo da área da saúde, mergulhava o país numa crise social profunda e irreparável durante anos.

                A notícia não surge em vão.

                O momento é crítico e o texto do jornal nacional foca a importância das Misericórdias. Referindo a passagem nos últimos anos para a esfera da Misericórdia, de vários hospitais, alguns há alguns anos, outros mais recentes e claro, é focado na peça o caso do Hospital de Santo Tirso e de S. João da Madeira, em suspenso à espera da apreciação do Tribunal de Contas.

                O Hospital local será o grande tema de debate destas eleições. São conhecidos todos os factos e as posições dos agentes políticos locais.

                Houve um processo de contestação, com ações concretas como a recolha de mais de 9000 assinaturas e a entrega das mesmas no parlamento.

                Só que um ou dois meses depois, houve um facto novo: um acordo de cedência assinado entre o Estado e a Santa Casa local, em final de Julho do ano passado.

                Ao abordar-se o assunto posteriormente a essa data, não é sério omitir um dos dois outorgantes do contrato.

                É necessário perceber que o contrato não foi assinado entre o Governo demissionário e um qualquer privado de saúde. Não. O contrato foi assinado, por um Governo de valor duvidoso, é certo. Só que o receptor é um parceiro local, precisamente a Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira, que excelente prova tem dado no assistencialismo aos mais desfavorecidos da cidade, ao longo de várias décadas. 

                Na reportagem do labor, percebeu-se o embaraço de Manuel Pizarro, quando confrontada pela jornalista deste jornal, ao desconhecer o teor do acordo, disparando com uma resposta enigmática, que não satisfez os presentes, como num artigo paralelo, ficou expresso através do testemunho de Helena Bastos.

                É precisamente nesse testemunho, duma pessoa conhecedora do processo, sobre as valências transferidas para o Hospital de S. João da Madeira, aquando da constituição do Centro Hospitalar do Hospitalar de Entre Douro e Vouga e as reduzidas atuais, que recai a desconfiança sobre o futuro.

                Mesmo ali, percebeu-se que se fosse claramente conhecida a intenção do anterior Governo, alguns dos assinantes da petição teriam dúvidas em assiná-la e preferiam a certeza do hospital ficar em gestão de uma Instituição local, como a Santa Casa da Misericórdia, do que o incerto futuro no Serviço Nacional de Saúde.

                    Tal como referi, no artigo acima mencionado, houve vários Hospitais a serem transferidos ao longo dos últimos anos para a gestão da União das Misericórdias. Seria interessante avaliar o estado da saúde em cada concelho abrangido e verificar se houve ganhos concretos para a população. Não ponderar isto é entrar na omissão demagógica.

                A Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira só ficará completa quando recuperar o seu Hospital, para colocá-lo ao serviço da população local, tal como acordado com o Estado. Uma reivindicação de 40 anos, que não foi entendida pelos novos agentes políticos locais.

                Esperemos que os próximos tempos sejam esclarecedores e que os erros, anteriormente cometidos, sejam mais uma vez corrigidos.

                A Bem da Cidade e da cordialidade da sua população. Extremismos só levam a radicalismos e a Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira provou ser uma instituição bem-intencionada, ao longo dos seus quase 100 anos de existência.

 

(a publicar no dia 07/01/16)

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Um ano não resolvido

                No balanço do ano de 2015 é importante destacar os acontecimentos que marcaram a vida local.

A devolução, pelo Estado, do Hospital à Santa Casa da Misericórdia em Julho e meses mais tarde, a marcação de eleições municipais intercalares, foram os acontecimentos políticos do ano.

Um ano que arrancou com a ressaca de três milhões desperdiçados pela maioria da vereação, que não soube aproveitar o financiamento garantido, para obrigar a construir-se uma piscina coberta, tão necessária para a população local e dos arredores.

Esta amputação do bem estar dos cidadãos, privados de receber um moderno equipamento necessário para atividades físicas, treinos desportivos, que permitiria oferecer uma melhoria das condições de saúde da população, estava ao alcance dos vereadores eleitos.

No processo do Hospital, onde se procurou um consenso generalizado ignorando a proprietária do espaço, precisamente a Santa Casa da Misericórdia, havia outros pressupostos: uma governação com uma reforma do sistema nacional de saúde, liderada pelo então ministro Correia de Campos, em que se impôs uma racionalização dos meios hospitalares, atendendo às pretensões das autarquias, logo das populações, isto a partir de 2005 e um segundo pressuposto, iniciado numa fase posterior, da devolução às Santa Casas dos Hospitais nacionalizados em 1974. Segundo a imprensa local, o processo terá sido iniciado pelo então secretário de Estado, Manuel Pizarro, alguém que com frequência visita a cidade.

Toda a contestação, verificada ao longo de 2015, peca por tardia e chega fora do contexto partidário do PS, quando exerce responsabilidade de Governo e sobretudo, do seu sentido de Estado.

                Apesar da intenção desse mesmo Estado, em devolver à Santa Casa da Misericórdia a gestão do hospital, existem dúvidas que serão esclarecidas, nos primeiros dias de Janeiro, pelo Tribunal de Contas.

                É também em Janeiro que ficará resolvida, democraticamente, a questão da composição da vereação. A 24 de Janeiro, os eleitores serão chamados às urnas para votarem nas eleições intercalares. Todos os cenários estão em aberto. É a grande certeza de um processo eleitoral.

                Para a memória futura fica o registo dos últimos dias da anterior vereação e a pretensa confusão, por desconhecimento da lei, da constituição da comissão administrativa. De tal forma, que ainda hoje, apesar de a referida comissão ser composta por apenas 5 elementos, alguns dos ex-vereadores ainda são referidos como titulares do cargo.

                Outro registo curioso, verificado em vários textos de opinião e não só, é a interpretação do conceito de democracia. Pedir aos eleitores que decidam o futuro da presidência e da vereação municipal foi apelidado de tudo. Um pouco de humildade ficava melhor a quem escreve, reconhecendo o próximo ato eleitoral, como a verdadeira prova de esclarecimento sobre o que se passou na cidade, desde 2013.

O número de concorrentes às eleições intercalares é um sinal dos tempos atuais, pós bipartidarismo. A dispersão de voto fica garantida, apesar de haver fortes indícios de apenas duas forças políticas conseguirem mais de 2.000 votos.

Se 2015 é um ano não resolvido politicamente, também noutras áreas há vários assuntos que ficam para 2016. Vou destacar apenas dois de âmbito desportivo. Por um lado, o regresso aos Jogos Olímpicos da Ana Rodrigues. Os tempos obtidos na época de retorno à AEJ, permitem ter esperanças, que tal como, em Londres - 2012, em 2016 esta atleta estará no Rio de Janeiro. Nos próximos meses os tempos mínimos de acesso aos Jogos serão certamente obtidos e reconhecidos. O outro apontamento desportivo, do balanço do ano, que hoje termina, está relacionado com a equipa sénior masculina de basquetebol da ADS. Pela segunda época consecutiva, os últimos segundos dos jogos decisivos têm sido terríveis para a formação sanjoanense. Espera-se uma inversão na presente época e que os últimos jogos da presente época tenham um desfecho favorável às cores alvinegras e a tão desejada subida de divisão seja atingida.

Um último parágrafo para desejar um excelente ano novo aos leitores.

 

(a publicar no dia 31/12/15)

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Que a Força esteja convosco

 

                Pela proximidade da quadra festiva, nos últimos dias andei arredado da pré-campanha eleitoral. Não visitei páginas de facebook dos candidatos, não vi as fotografias do porta-a-porta, nem quem aparece a apoiar os candidatos. Não li promessas eleitorais e soube que tinha sido publicada uma entrevista de um dos candidatos mas, nem perdi o meu tempo. Poderia apelar a uma campanha diferenciadora, recolhendo as semelhanças encontradas nas várias organizações, só que decidi concentrar-me em outros assuntos e essa análise ficará para uma próxima oportunidade.

                O fim-de-semana passado foi rico em acontecimentos distintos. Aqui fica um resumo de alguns dos temas que despertaram o meu interesse:

1)      As eleições em Espanha colaram-me ao televisor no Domingo à noite. O sul da Europa contínua a repudiar as maiorias de direita. Ainda é cedo para tecer considerações, contudo, salta à vista que a bipolarização assente em duas ideologias terminou. Como em muitos países do norte da Europa, o espectro político alarga-se e os acordos parlamentares para formação de governo passam a ser comuns, formando-se coligações de programas diferentes, assumindo-se desta forma uma maioria relativa. A Espanha, pela sua importância económica, é fundamental para a reivindicação dos países do sul. Essencialmente para a Europa repensar-se, reestruturando dívidas, questionando, entre outros pontos, o facto de esses países terem uma moeda forte, com uma economia débil, o que lhes impossibilita de serem competitivos fora do espaço europeu.    

2)      A intervenção no banco Banif mostrou a agilidade do novo governo. Depois do BCP no primeiro governo de José Sócrates, do BPN no seu segundo governo, do BES no governo de Passos Coelho, temos um quarto banco a ser intervencionado pelo Estado em menos de seis anos. Ou em menos de um menos mês do novo governo. É certo que no primeiro caso, a intervenção foi camuflada. No mais recente, ficou evidente a debilidade da economia portuguesa: a banca ou está nacionalizada ou em mãos de estrangeiros. As dívidas ficam na mão dos contribuintes portugueses.

3)      O sétimo episódio da Guerra das Estrelas fez-me regressar a uma sessão de início da tarde de cinema. Sou seguidor da saga desde os anos oitenta. Os episódios 4, 5 e 6, os primeiros a serem publicados, vi-os vezes sem conta, em casa, através do sistema de leitor de vídeo. Confesso que a sequência relativa aos três primeiros episódios, tive alguma dificuldade em assimilar. Um deles nem vi. Por isso, fui assistir a este episódio com alguma reserva. Com o desenrolar da ação, voltei a viver o mesmo prazer que tinha sentido no episódio quatro. E ao identificar as imagens da sucata de todas as máquinas das várias Guerras, percebi que estava a ver um remake desse episódio, sem no entanto, estar assim classificado. Os princípios da saga estão consagrados ao longo de todo o filme: a dualidade do mal e do bem, o vencer aproveitando um facto inesperado, o sentir da Força e o descobrir de um novo Jedi.       

Mais haveria a mencionar, só que não é o momento certo.

Como a edição deste jornal é publicada, precisamente na véspera do dia de Natal, cumpro a tradição de desejar a todos os leitores Votos de Festas Felizes.

               

 

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Tira - Teimas

                Esperava-se um pouco mais dos partidos políticos de S. João da Madeira.

Ao praticamente não alterarem as suas listas, os partidos locais assumiram um risco nulo e lançam para as eleições praticamente os mesmos intervenientes de há dois anos. Basicamente a única alteração que existe é a oitava recandidatura do Engenheiro Cortez e na constituição das listas dos partidos mais votados, as modificações surgem a partir do quarto ou do quinto lugar, conforme a coligação ou partido.

Um calculismo extremamente revelador do que aconteceu nos últimos anos, sem ninguém querer assumir uma cisão com a inércia municipal, exercida de forma prejudicial para a cidade e os seus cidadãos.

Esperava-se um pouco mais: uma estratégia mais ousada por algum dos partidos; uma ruptura com o passado recente; uma reestruturação das listas, com nomes novos, bem posicionados para serem eleitos de forma clara. Mas não, o eleitorado terá que se pronunciar sobre os acontecimentos dos últimos anos, elegendo praticamente os mesmos vereadores.

A própria exceção, da apresentação do candidato da CDU, é no fundo a continuação da disputa política estendida à Assembleia Municipal. O candidato Jorge Cortez, é um dos políticos mais considerados da cidade e dos mais experientes. A sua actividade política recente não passou despercebida, pela aproximação às posições defendidas pelo PSD, mas também pelo feroz combate político, em especial, pelos fortes ataques ao PS local. A exemplo disso, numa sessão da Assembleia Municipal, este deputado da CDU acusou o partido socialista de ter práticas fascistas. Inimaginável, para muitos, só que não se viu qualquer repúdio em forma de comunicado por parte do partido visado. Um silêncio constrangedor, que terá desiludido muitos militantes e simpatizantes socialistas, contribuindo muito provavelmente para o mal-estar vivido na comissão política concelhia. Certo é que Jorge Cortez pode captar mais votos do que é costume e se atingir novamente o milhar de votos, pode ser eleito, tal como nas eleições intercalares de 1984. Como o Bloco de Esquerda irá comparecer às eleições de 2016, existirá um voto ideológico concorrencial. Este partido tentará consolidar o resultado das eleições legislativas e afirmar-se como força política em S. João da Madeira, contudo, a grande notoriedade  do candidato da CDU poderá prevalecer na decisão dos eleitores.

É certo que os partidos e o movimento independente puseram estas intercalares como uma continuação das eleições de 2013. No entanto, é preciso não esquecer que daqui a um ano e meio, estaremos de novo em eleições autárquicas para um período de 4 anos.

Neste capítulo, o regresso de Paulo Cavaleiro e Fátima Roldão às listas autárquicas, poderá ser interpretado como um sinal para o futuro, sobretudo se o PSD garantir a eleição do quarto vereador. A eleição do quinto elemento, apesar de toda a estima que me merece a candidata, não me parece atingível.

Não queria terminar este pequeno comentário, sem referir duas máximas que fui aprendendo da política.

A primeira foi com o diretor do labor, Pedro Silva, que em 2001 ensinou-me que candidato derrotado, em eleições anteriores, não se deve candidatar de novo. Atos eleitorais recentes comprovaram a sua regra, havendo exceções, como a eleição de Ricardo Rio à Câmara Municipal de Braga, eleito quando concorreu pela terceira vez, no entanto, os seus adversários em 2013, eram pela primeira vez cabeças de lista.

A segunda regra é igualmente simples e refere-se à constituição de listas. A melhor forma de calar os críticos partidários, é convidá-los a integrarem a lista. Um bom exemplo é o mais recente Governo liderado por António Costa. A facção do PS, que se preparava para ser oposição interna e provavelmente exigir a demissão do líder, foi desmembrada, por agora, através do convite a alguns dos seus membros para Ministros ou Secretários de Estado.

Por tudo o que ficou atrás escrito, é que se esperava um pouco mais dos partidos políticos. Aguardemos pelas propostas e programa eleitoral, para verificarmos se há mais audácia.

 

(a publicar no dia 17/12/15)

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Slogans eleitorais

                Entre o processo de demissão e o de nomeação da comissão administrativa da Câmara Municipal de S. João da Madeira, houve uma reportagem da imprensa nacional, salvo erro do Jornal Notícias (JN), que ao fazer referência à oposição, utilizou o plural para líder.

Numa frase, ao duplicar a liderança, o jornalista do JN resumiu a actividade política do concelho, desde 2013 até ao presente. Uma oposição com liderança bicéfala, com dois vereadores a assumir o comando, um pelo número de mandatos conseguidos – três - e outro, mesmo singular, a conseguir impor a agenda, fazendo a ouvir a sua voz minoritária. Ainda em matéria de reportagens pela comunicação social, as imagens da RTP, após a reunião de apresentação de demissão da totalidade dos elementos da lista do PSD, dando primazia ao vereador do Movimento Independente SJM Sempre, retrataram o que se passou durante estes últimos dois anos.

A oposição incomodou o executivo municipal, em particular pelos ataques constantes ao seu presidente. No entanto, a dupla liderança retirou protagonismo ao mais votado e perturbou a necessidade da sua afirmação política.

A emancipação política foi uma preocupação do líder da concelhia do PS, sobretudo atendendo à contestação partidária, presente em pequenos episódios como as declarações de João Carlos Silva no chumbo do PS às novas piscinas, ou mesmo, na apresentação das duas listas de delegados ao congresso do partido e que culminou na semana passada, com as divergências manifestadas na comissão política da concelhia local, face à constituição da lista a apresentar nas eleições intercalares de 2016.

Estes condicionalismos foram razão para a aposta num slogan pessoal da candidatura do PS. Uma jogada arriscada, típica de um jogo de poker, quando um apostador coloca todas as suas fichas em cima da mesa, comprometendo tudo naquele momento. Além disso, o slogan não traz nenhuma mensagem política, pois jamais se provou a ausência temporal do Presidente da Câmara, nos últimos dois anos, evidenciando-se desde a primeira hora, a redução do seu salário, como benéfica para os cofres municipais.

A poucos dias da data limite de entregas das candidaturas, ainda só é conhecido mais um cartaz eleitoral. As outras forças políticas terão até ao dia 14 de Dezembro para apresentarem as suas listas e darem a conhecer os seus argumentos eleitorais. Enquanto isso não acontece, ou não surgem notícias na imprensa local, concentremo-nos no slogan da coligação PSD / CDS.

O apelo à maioria é um desígnio dos partidos da direita, com pelo menos 35 anos. Depois de 12 anos em maioria absoluta, o PSD não conseguiu em 2013 atingir votação suficiente para a reconquistar. Os últimos dois anos trouxeram um imobilismo táctico, com desperdício de verbas comunitárias e limite ao endividamento. Esses factos políticos foram aproveitados para solicitar ao eleitorado uma clarificação. Uma posição extremamente democrática, que contraria a argumentação utilizada durante dois anos pela oposição.

O slogan em si é singelo. O pedido ao eleitorado coincide com a situação política nacional, na qual a maioria relativa não venceu a maioria ideológica do parlamento e por tal, a coligação do PSD / CDS viu-se apeada do poder. Esta combinação de momentos atrai mais o eleitorado, que pode rever-se nas eleições locais e mobilizar-se para evitar novos desaforos dos partidos derrotados.

Temos, portanto, um cartaz com cariz político a defrontar um slogan mais pessoal. É claro que, ainda faltam os outros concorrentes e as contas aí baralham-se e passam a ser outras.

Neste particular confronto entre PSD e PS, para as eleições de 2016 a vantagem está do lado do PSD. Em 2013, o PS tinha uma mensagem política forte e do lado do PSD, havia a necessidade de dar a conhecer o candidato.

Desta vez não.

 

 

quarta-feira, dezembro 02, 2015

Coligações

Trinta e dois anos depois, PSD e CDS vão concorrer coligados às eleições autárquicas de S. João da Madeira.

Depois da maioria obtida em 1979 e repetida em 1982, pela coligação denominada AD, o poder autárquico a partir dessa data, tem alternado entre CDS / PP - de 1984 a 2001 - e PSD, a partir desse ano até ao presente.

Durante os últimos 15 anos, a soma dos votos dos dois partidos, nas respetivas eleições autárquicas, variou da seguinte forma:

- em 2001: PSD + CDS = 8462 votos;

- em 2005: PSD + CDS = 7922 votos;

- em 2009: PSD + CDS = 7356 votos;

- em 2013: PSD + CDS = 4104 votos;

Em 12 anos, a intenção de voto nestes dois partidos diminuiu para mais de metade. A perda de votos do CDS foi mais intensa: passou de 3059 votos em 2001, para os 296 de 2013; a esta tendência decrescente, verifica-se uma gradual descida em 2005, 1463 votos e em 2009, o CDS obteve 833. Pelo lado do PSD, o percurso é diferente: em 2009 atingiu a sua melhor votação, 6523 votos, depois dos 5403 em 2001 e dos 6459 em 2005; já em 2013, verificou-se uma queda abrupta para os 3808 votos.

Apresente-se os resultados do PS, desde 2001 até 2013, em eleições autárquicas:

- em 2001: PS = 2433 votos;

- em 2005: PS = 2270 votos;

- em 2009: PS = 3077 votos;

- em 2013: PS = 3513 votos;

Ou seja, o PS aumentou a sua votação desde 2005, no entanto, não absorveu a totalidade de votos perdidos pelos dois partidos de direita. Os cerca de 4358 perdidos ao longo dos anos pelos dois partidos, não se refletem em ganhos no PS (1243 votos em 8 anos, repartidos por praticamente 800 votos de 2005 para 2009 e o restante dessa data para 2013). Pode-se então concluir, que o voto autárquico em 2013 foi um voto de protesto, penalizando o PSD, o que não significou uma grande transferência para o PS.

Antes de avançar e para não ficar a ideia de que a tendência de voto em S. João da Madeira é nos partidos da coligação, convém analisar qual o somatório dos resultados eleitorais destas duas forças políticas, em período semelhante, nas eleições legislativas e europeias, comparando-os com os do PS. O último resultado, dos que se seguem, corresponde aos votos na coligação, como todos se recordam.

Assim, nas eleições legislativas, recolhendo os valores dos últimos 17 anos:

- em 1999: PSD + CDS = 4928; PS = 5664 votos

- em 2002: PSD + CDS = 5700; PS = 5020 votos;

- em 2005: PSD + CDS = 4451; PS = 6226 votos;

- em 2009: PSD + CDS = 4944; PS = 4967 votos;

- em 2011: PSD + CDS = 5023; PS = 3888 votos;

- em 2015: PSD + CDS = 4700; PS = 4037 votos;

            Convém indicar que os votos no CDS têm pouca amplitude de variação: um mínimo de 1108 e um máximo de 1423. Quando a amplitude máxima do somatório dos partidos é cerca de 1000 votos. Portanto, a maior alteração registada foram os votos para o PSD.

            Nas eleições europeias, há uma ligeira diferença, pois tanto o primeiro como o último valor correspondem a resultado efetivos da coligação de direita:

- em 2004: PSD + CDS = 2633; PS = 3995 votos;

- em 2009: PSD + CDS = 3264; PS = 2367 votos;

- em 2014: PSD + CDS = 2160; PS = 2522 votos;

            A oscilação apresentada em ambas eleições, com os valores mais altos a coincidir com vitórias nacionais, permite concluir sobre a flutuação de votos, em conformidade com o programa ou os candidatos dos partidos, não sendo por isso linear existir um voto ideológico na cidade.

            Existe na análise política, a ideia do voto penalizador ao partido do Governo, nas eleições autárquicas, europeias e até presidenciais. Por outro lado, à semelhança dos restantes países europeus, começou a indexar-se o voto de protesto, ou antissistema, como aquele aplicado nas franjas do espetro político (por exemplo, independentes em eleições autárquicas ou MPT nas últimas europeias). As eleições europeias, normalmente a meio do mandato de um Governo, provam que foi essa a ideia do eleitorado local, pois em 2004, em pleno Governo de coligação de direita, o PS teve mais votos. Em 2009 inverteu-se a tendência, sendo a eleição antes do final do mandato de um Governo PS e já em 2014, a coligação de direita perdeu novamente votos.

            Se o eleitorado local segue as tendências nacionais, podemos interpretar os resultados das eleições autárquicas à luz desses fenómenos. Embora, não seja possível relacionar o partido vencedor com qualquer sinal de protesto do eleitorado.

Tal como a tendência nacional, o voto autárquico de protesto em 2013, dispersou-se em S. João da Madeira por independentes, pequenos partidos, ou brancos e nulos, ou mesmo no aumento da abstenção.

É certo que a primeira leitura que se faz é que o voto no Movimento Independente SJM Sempre recebeu os votos dos descontentes de direita, por inerência da aritmética, daqueles que sempre votaram no CDS. É prematuro perceber se esse voto se vai manter, porque estas eleições autárquicas, sendo intercalares, têm um enquadramento diferente: existe uma coligação autárquica entre dois partidos dominadores da vida política local dos últimos 36 anos; existe um ressentimento político face aos acontecimentos da política nacional (o que pode transmitir-se no voto de protesto ao Governo em funções); existe um vasto conhecimento da forma de atuação dos vários candidatos.

Por tudo isto, a coligação de direita espera captar o voto militante ou simpatizante dos eleitores locais, montando a sua campanha com este objetivo. 

Em contrapartida, só uma ampla coligação de esquerda, seria suficiente para travar este ímpeto. No entanto, com as péssimas relações existentes entre as estruturas locais dos demais partidos, tal será impossível em 2016.

 

quarta-feira, novembro 25, 2015

À boleia

Há coincidências curiosas. As eleições Presidenciais serem marcadas precisamente para o dia, já definido, das intercalares para a Câmara Municipal de S. João da Madeira, é uma dessas casualidades que permite tecer alguns comentários.

                Em primeiro lugar, o benefício na redução dos custos da democracia. A poupança no escrutínio, com a formação das mesas eleitorais para um só dia, só pode ter vantagens. Além disso a própria autarquia, ao abrir as suas portas num só domingo, para as duas eleições, também tem proveito, na redução de despesas de funcionamento: em horas extraordinárias dos seus funcionários, além de outros custos como eletricidade e outros.

                Mais baralhadas ficam as estruturas locais dos partidos políticos, com as duas eleições no mesmo dia. O empenho terá que ser repartido entre as duas eleições, não se podendo desprezar nenhuma delas, como é óbvio.

                Isto se a maioria dos partidos políticos definir previamente, qual o candidato a Presidente da República que apoiarão. É certo que apenas o PSD e CDS estão indecisos, o PS deu liberdade de voto aos seus militantes, pois há duas candidaturas da sua área: uma de militante e outra independente, esta patrocinada pelos seus mais destacados partidários e ex-presidentes da República e posto isto, temos à esquerda as candidaturas apoiadas pelos respetivos partidos: Marisa Matias, pelo BE e Edgar Silva, pela CDU.

                Se as máquinas partidárias podem ficar fragilizadas pelas duas eleições em simultâneo, já as próprias candidaturas locais podem aproveitar a embalagem da eleição presidencial para receber mais alguns votos e apoios inesperados.

                Todos se recordam da presença do Professor Marcelo Rebelo de Sousa em S. João da Madeira no último mês de Setembro, num comício que encheu a Casa da Criatividade, numa ação da candidatura distrital do PàF. Conseguir juntar as duas campanhas, repetindo a presença do candidato Presidencial em S. João da Madeira, poderia catapultar a candidatura local de Ricardo Figueiredo para uma vitória maioritária.

                O mesmo acontecendo, em escala diferente, aos candidatos do BE e CDU. A presença dos candidatos Presidenciais, em ações concretas de campanha, pode permitir a fixação de mais votos, embora os dois casos sejam distintos, como veremos mais adiante.

                Já para o PS local, fruto das divisões de Lisboa, o melhor é ignorar as eleições presidenciais. Se apoiar um, pode desiludir os seus eleitores. Se apoiar o outro, pode receber o mesmo grau de insatisfação de outros. Este isolamento, que à primeira vista poderia ser benéfico para o resultado local, poderá trazer dissabores, se considerarmos a necessidade de afirmação das outras forças partidárias.

Se analisarmos as últimas eleições, portanto, as legislativas, verificamos que o Bloco de Esquerda conseguiu cerca de 1.200 votos neste concelho. Esta mesma votação nas autárquicas permitirá eleger um vereador no próximo dia 24 de Janeiro. Sendo assim, atendendo ao crescimento eleitoral desta força partidária, é razoável que o Bloco, nestas eleições, se apresente com a forte convicção de eleger um vereador (ou vereadora) em S. João da Madeira. Além disso, atendendo às circunstâncias dos últimos dois anos, das divergências políticas do executivo e da Assembleia Municipal, o Bloco de Esquerda é a única força política imaculada, por ter estado ausente dos órgãos municipais, durante esse período. Este afastamento pode permitir captar votos dos descontentes com o nível do debate político, dos aborrecidos com o extremar de posições, dos desgostosos por tudo se resumir a questões apenas partidárias, ou mesmo no limite, pela excessiva partidarização da sociedade local.

Estamos perante uma alternativa ao voto de esquerda, que poderá apanhar a boleia da candidatura presidencial, ajudada pela disponibilidade dos seus mediáticos militantes presentes em campanha e daí elevar o debate autárquico, introduzindo novos e importantes temas, dentro do quadro ideológico que carateriza o Bloco de Esquerda. A eleição de Moisés Ferreira para deputado provou que o voto no distrito de Aveiro, nesta força política, é firme. O desafio agora é consolidar esse voto também em S. João da Madeira.

A data das duas eleições pode ser uma mera coincidência, no entanto, como aqui demonstrado, pode ser bem aproveitada. Por alguns...

 

(a publicar no dia 26/11/15)

quarta-feira, novembro 18, 2015

À procura de gambozinos

                No rescaldo da noite eleitoral do passado dia 4 de Outubro, Helena Roseta, independente eleita deputada pelas listas do PS, pelo círculo eleitoral do distrito de Lisboa, à pergunta se “o voto do centro tinha fugido ao partido?”, respondeu prontamente que “os eleitores do centro são os gambozinos da política portuguesa”.

                Perante uma afirmação tão contundente, convém recordar alguns episódios da história democrática do nosso país. Em 1975, Mário Soares colocou o socialismo na gaveta, ao formar governo, repetindo a sempre graça, quando era empossado primeiro-ministro. Muitos anos mais tarde, o assumido católico, António Guterres, conquista o poder e forma Governo de inspiração pouco socialista. Após a sua demissão, um dos seus ex-ministros das Finanças, Sousa Franco, viria a escrever, por volta de 2003, que o PS só ganharia eleições se tivesse um discurso apelativo para o centro, agradando a esse eleitorado, que inclinava o seu sentido de voto conforme as propostas apresentadas pelos partidos do arco do poder. E a verdade, é que em 2005, José Sócrates venceu com maioria parlamentar, com um discurso e programa de governo, claramente social-democrata.

                Estas oscilações do partido do centro-esquerda, também foram acompanhadas por iguais migrações programáticas e até ideológicas por parte do PSD. Entre a social-democracia e o liberalismo, conforme a opção dos seus militantes ao elegerem o líder do partido. Ficou célebre a acusação de Luís Filipe Menezes, em 1995, aos “sulistas, elitistas e liberais” apoiantes de Durão Barroso, no confronto que este teve com Fernando Nogueira. É certo que em 1999, Durão Barroso assumiu a liderança do partido e desde aí, a aproximação ao programa liberal foi ziguezagueando, até encontrar em Passos Coelho um claro defensor do liberalismo.

                Ora, esta opção ideológica colocou o PSD afastado do centro, bem à direita. O PS fez o seu recente programa eleitoral apontando ao centro-esquerda, aproveitando a trincheira definida pelo PSD, durante a última governação e na própria campanha eleitoral.

Os resultados eleitorais das eleições legislativas demonstraram, entre outras coisas, a perda de 700 mil votos por parte da coligação PAF, relativamente a 2011. Acontece que estas centenas de milhares de votos, não tiveram a deslocação habitual para o partido do centro-esquerda. Desta vez, muitos desses eleitores migraram o seu sentido de voto mais para a esquerda, votando no Bloco de Esquerda, apesar de o PS ter reconquistado umas quatro a cinco centenas de milhares de votos. Ou seja, o descontentamento, o voto penalizador aos partidos do Governo, não seguiu a tradicional tendência de voto no partido da oposição ideologicamente mais próximo do centro. Uma tradição que ditou a alternância vitoriosa de PSD e PS, nos últimos 40 anos.

A partir da contagem dos votos das eleições legislativas e até aos dias de hoje, observamos o PS a abrir uma outra trincheira. Abandonou o centro, muito provavelmente com receio que o fenómeno europeu da radicalização atingisse o partido e o extinguisse. Com dois acordos, colocou-se mais à esquerda, agora bem no espectro do socialismo democrático.

Temos portanto, uma bipolarização da política nacional em dois blocos antagónicos: uma direita entrincheirada no liberalismo e a esquerda, por sua vez, alinhada atrás do socialismo democrático.

Com este cenário, havendo um vazio ao centro, devemos questionar o que irá acontecer à social-democracia no atual panorama político nacional?

Sem propostas para os eleitores que sempre preferiram partidos que promovessem a justiça social, com base na sociedade e não apenas no Estado, ficam dúvidas sobre em quem estes eleitores poderão votar. Poderia pensar-se ser o momento ou a oportunidade de formar-se um novo partido, no entanto, olhando para as movimentações de alguns militantes de ambos os partidos, é de crer que PSD e PS ainda se vão colocar de novo ao centro e até num futuro muito próximo.

Pelo caminho, haverá umas eleições presidenciais, em que um dos candidatos assumiu claramente a sua costela social-democrática e outra das candidatas também aposta nesse eleitorado, deixando os extremos entregues aos seus próprios protagonistas, com clara ausência da direita liberal. Portanto, haverá nos próximos meses, na política nacional “caça aos gambozinos” e estou convencido que ainda não será desta que os portugueses moderados, não serão decisivos em eleições.

            Apenas mais três parágrafos, para não defraudar os leitores, relacionando as eleições intercalares, para a Câmara Municipal de S. João da Madeira, com este fenómeno nacional em curso.

Não é clara a linha ideológica de cada força na política local. Direita conservadora em confronto com o centro-direita e a hipotética esquerda a sofrer duros ataques dos eleitos da CDU, além da normal dualidade PSD – PS são normais na história democrática. Para agravar a questão, as “alianças” políticas pós-eleitorais confundiram o eleitorado, não permitindo identificar blocos programáticos ou ideológicos na política local.

Como é lógico, o balanço da atividade da política em S. João da Madeira, resume-se basicamente à rejeição dos investimentos, municipais ou co-participados por fundos comunitários, dos últimos dois anos. E isso torna-se difícil de enquadrar, sobretudo quando em 2014 se rejeita um investimento de pouco mais de 2 milhões de euros e no ano seguinte, se aprova praticamente o mesmo valor para outros fins, sem, no entanto, o autorizar. Não existem gambozinos que entendam isto, por isso, as eleições intercalares do próximo dia 24 de Janeiro, serão um episódio circunscrito à realidade local, não havendo qualquer relação com a política nacional.

 

(a publicar no dia 19/11/15)

quarta-feira, novembro 11, 2015

Uma vida dedicada ao desporto

                João Araújo foi meu professor de Educação Física. Corria o ano de 1983, a Escola Secundária ainda não tinha patrono, nem sequer pavilhão. Os alunos, para ter as suas aulas, deslocavam-se no intervalo das atividades, do antigo Liceu até ao Pavilhão de Desportos da ADS. Regressando de novo à escola, após a hora de exercício físico.

Por esses anos, o panorama de infra-estruturas desportivas da cidade resumia-se ao estádio de futebol com campo relvado e pista de atletismo; ao campo de futebol em terra batida ali adjacente; o tal pavilhão atrás referido, mais os pavilhões de duas escolas – da Escola Secundária Serafim Leite e da Escola Preparatória; a acrescentar a isto junte-se um tanque piscina nas traseiras da escola do parque.

Com tão poucas infra-estruturas, a oportunidade de iniciar a prática desportiva para uma criança era reduzida. As modalidades abriam os seus treinos aos miúdos de 10 ou 12 anos, com raras excepções, como a escola de patinagem da ADS, que admitia crianças de tenra idade. Sendo assim, havia uma série de jovens, cujo contacto com a atividade física era demasiado tardio. Com este enquadramento, nessa época, o professor de Educação Física desempenhava um papel extremamente importante no ensino de movimentos que permitiriam ao aluno aumentar a sua agilidade, a sua velocidade, a sua flexibilidade e mesmo a sua resistência física.

Dentro deste espírito, o professor Araújo desempenhava extremamente bem o seu papel. Recebia-nos no pavilhão sempre com um sorriso. Os rapazes sempre solicitando uma aula de desporto colectivo, de preferência com bola, e o professor a encaminhar a turma para a atividade por si pretendida, acompanhando com mestria toda a turma, corrigindo movimentos e ensinando com um discurso fácil e pedagógico o que pretendia. No final dessas aulas, concedia aos alunos o jogo com bola, ou a promessa de o fazer na aula seguinte, o que era cumprido.

Depois desse ano, mudei de escola e mesmo afastado, acompanhei à distância o trabalho no desporto do Professor Araújo, enquanto preparador físico das equipas de hóquei em patins. Primeiro aqui na ADS e depois, ao longo de anos, na sua carreira noutros clubes, com um palmarés invejável, como é do conhecimento geral.

A sua nomeação para diretor da piscina municipal foi extremamente importante para a Associação Estamos Juntos, devido à sua sensibilidade para as condições intrínsecas de cada modalidade desportiva. O direito da equipa de natação de treinar no horário nobre da piscina foi por si defendido e implementado, contra ventos e marés, como é normal, quando há uma mudança de paradigma.

Anos mais tarde, o professor Araújo enquanto “promotor” concelhio de desporto fazia-me chegar convites para divulgação em S. João da Madeira, do xadrez, de cuja secção era eu responsável na AEJ. Assisti a várias reuniões, por si lideradas, de planeamento dessas ações desportivas e percebi a sua intenção de apoiar as modalidades com menor visibilidade na cidade, puxando-as para entrarem na esfera autárquica. Isto numa época em que não era vereador.

Em 1997, quando me aproximei do Partido Socialista, o professor Araújo como me conhecia bem do passado, recebeu-me sem qualquer desconfiança e com a simpatia de sempre. Desde esse ano, passámos a conversar mais frequentemente, atendendo à proximidade de residência e aos pontos de vista em comum, não só desportivos mas também políticos, mesmo comigo arredado destas últimas lides. 

Na minha faceta de colaborador do labor, encontrei no professor Araújo um leitor atento, que parava para falar comigo sobre o que eu escrevia, dando-me conselhos sobre alguns assuntos, ou mesmo informações que eu registava e utilizava meses ou anos depois, nas minhas crónicas.

Fica a saudade, sobretudo das nossas conversas desportivas, em que eu escutava atentamente a sua vontade em perceber o treino, no desenvolvimento da metodologia, contando-me como foi recolhendo pormenores ao longo da sua vida, como por exemplo, os treinos de Mário Wilson (o velho capitão) no futebol da Académica de Coimbra.

Fica também a homenagem pelo seu apoio às mais diversas modalidades e o reconhecimento, se tivesse sido vereador com pelouro, o desporto em S. João da Madeira teria ficado bem diferente, para melhor, claro.                 

 

(a publicar no dia 12/11/15)