terça-feira, novembro 29, 2005

Vouginha: do Metro do Porto ao TGV

Na quietude dos dias do século passado, o fumo do Vouguinha rasgava o lado poente de S. João da Madeira. Ainda hoje, apesar de ter deixado o vapor, nas tardes calmas de fim de semana ecoa o som do seu apito, quebrando o silêncio dos dias de descanso. O comboio da Linha do Vale do Vouga teve sempre direito a diminutivo, foi sempre tratado carinhosamente pelos habitantes da região. O movimento das locomotivas e suas carruagens surgiu em 1908, quando este caminho de ferro foi inaugurado, ligando numa primeira fase Espinho a Oliveira de Azeméis. Esta Linha tinha como propósito ligar Viseu ao litoral, objectivo conseguido em 1914. Em seis anos foram construídos 140 quilómetros de carris, aproveitando-se o vale formado pelo Rio Vouga, para ligar a Beira Alta ao litoral. Ao projecto inicial, entroncou-se em 1911, a ligação por via férrea entre Aveiro e Sernada do Vouga – freguesia do concelho de Águeda, que ficou conhecido pelo ramal de Aveiro.
Desde o final de 1989, o Vouginha já não ecoa no seu Vale. A linha resume-se agora à ligação de Espinho até Sernada, mantendo-se o ramal desta estação a Aveiro. Os carris são agora menos, apenas os 62 km de norte para sul, mais os 34 do ramal. Do tempo do vapor, resta agora o Museu, em Macinhata do Vouga.
Factores como a velocidade e os horários dos comboios são fundamentais nas opções de quem pode preferir este transporte. A linha do Vouga está dotada de automotoras herdadas da antiga linha da Póvoa, que atingem velocidades máximas de 70 km/h, caso o estado dos carris o permita. Pelo que pude constatar, de Oliveira de Azeméis para Sul o estado da linha está muito degradado, limitando o andamento das automotoras a 35 km/h. Por outro lado, os horários não são os mais adequados nem para quem trabalha na indústria, nem para serviços e comércios. Algumas estações e apeadeiros, além de estarem muito degradadas, obrigam a paragens do comboio para entrar um ou dois passageiros.
A reconversão desta linha em Metro de Superfície foi um projecto que surgiu há vários anos mas, nunca se concretizou. Na última campanha para as eleições autárquicas, o partido vencedor lançou de novo a ideia. Não cheguei a perceber qual o alcance territorial deste Metro. Se o objectivo único é promover a mobilidade na Região Entre Douro e Vouga (EDV), penso que o projecto não terá viabilidade. Outras regiões, ou agrupamento de concelhos estão a reavaliar os seus projectos de Metro de Superfície, como é o caso de Coimbra e o seu Metro para a Linha da Lousã. Para quem pode, o automóvel próprio é sempre a opção mais rápida e o transito na EDV não é muito intenso, com excepção da ligação de Santa Maria da Feira a S. João da Madeira. As pequenas deslocações dificilmente se farão por Metro.
Caso a opção seja aproveitar o limite do percurso da linha do Vouga, inaugurado em 1908, mas com horários regulares, havendo partidas de quinze em quinze minutos ora para Norte, ora para Sul, poderá ser vantajoso para algumas pessoas deslocarem-se por Metro. No entanto, isto não me parece suficiente para a viabilidade deste projecto. Um Metro a Sul da Área Metropolitana do Porto (AMP) faria certamente pressão suficiente para ligar Espinho a Vila Nova de Gaia e desta forma, expandir o Metro do Porto. Os concelhos do Sul teriam um transporte muito mais rápido e envolvente com o centro da grande cidade e claro, muito mais cómodo.
Penso que a entrada de S. João da Madeira para a AMP, só fará sentido quando este concelho deixar para trás a região híbrida do Entre Douro e Vouga e se envolver plenamente nos projectos comuns com os seus novos parceiros, não desperdiçando nem recursos, nem energias em projectos virtuais.
Apesar desta ser a solução mais lógica, penso que devia ser dada mais dimensão ao Metro. Se a Norte um novo rumo pode ser dado ao “Vouguinha”, o que dizer a Sul? Dado o consenso da estação ferroviária de Aveiro como ponto de paragem tanto do Alfa Pendular, como do comboio de Alta Velocidade, no caso de construção da linha vulgarmente designada como TGV, é imperioso ligar toda esta região a esse rápido e “fashion” transporte, sobretudo para quem se desloca para a capital . Obviamente que o trajecto actual não serve. A passagem por Águeda retira rapidez na ligação a Aveiro. O ideal seria ao trajecto actual S. João da Madeira - Oliveira de Azeméis - Albergaria a – Velha construir um troço entre esta cidade e Aveiro. A viabilidade seria conseguida, claro está, com horários complementares à paragem do comboio rápido em Aveiro mas apenas nas sedes de concelho.
Os próximos tempos serão decisivos em matéria de opções do governo sobre os grandes investimentos públicos. O regresso às ligações ferroviárias, quer em Alta Velocidade, quer em velocidade média, está de novo na ordem do dia. Paralelamente, deviam ser lançados estudos sobre a viabilidade da reconversão da linha do Vouga em Metro de Superfície. Nos últimos tempos, Portugal discutiu muito sobre esses investimentos e adiou a construção da ligação ferroviária em Alta Velocidade a Espanha. À nossa escala, não podemos cometer os mesmos erros, a reconversão do Vouginha devia começar já.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Assobiar Dexis

O recente anúncio publicitário de uma instituição de crédito nacional, incentiva os jovens até aos 35 anos a recorrerem às condições por eles oferecidas para adquirirem habitação. O anúncio é bem simpático por sinal, ao associar a minha geração com uma música dos Dexis Midnigt Runners.
Tivemos sorte. Há alguns anos atrás chamaram-nos “geração rasca” e encharcaram-nos os ouvidos com música pimba. Agora, separado o trigo do joio, mostram-nos com um ar moderno em várias actividades. O que o anúncio televisivo se esqueceu, foi de explicar porque é que alguém aos 35 anos precisa de comprar uma habitação maior. Os vários assobiadores aparecem todos individualmente, sem demonstrarem o seu lado familiar. Para alguns, como é óbvio, a necessidade de compra de uma habitação com maior área surge pelo aumento do número de elementos da família. A vontade de proporcionar uma vida com qualidade aos nossos descendentes, atira-nos para um novo crédito e endividamento até aos 70 anos.
Além desta característica comum, os jovens que cantaram pela noite fora “Come on Eileen”, debatem-se com os sonos, ou a falta deles, dos seus filhos. É usual em encontros de “trintões” ouvirmos falar em noites mal dormidas, insónias até às 5 ou mais da manhã e o facto mais difícil de entender, o acordar cedo, bem cedo, dos pequenos príncipes e princesas ao fim de semana.
Um certo sábado de Setembro, com os primeiros raios solares, uma vozinha chamava-me: “Pai!...”. Mal viu um olho aberto disparou: “o parque Infantil de Arada já abriu! Podemos lá ir?”. À pergunta, como é que sabes, resposta imediata, “está uma placa no poste em frente ao meu quarto, com uns senhores a dizer o caminho”. Surpresa matinal e esforço para perceber. A placa, era afinal um cartaz de propaganda política, para as eleições autárquicas, com uma fotografia colectiva dos membros de uma das listas concorrentes, que tinha como fundo, o novo parque infantil de Arada. Tínhamos acompanhado o inicio das obras, semana após semana e a ansiedade gerada nos miúdos, era recompensada com aquela visão matinal. O prazer de brincar em parques infantis é um dos encantos inesgotáveis das crianças.
Tal como outros, o concelho de S. João da Madeira também apostou nestes equipamentos, abrindo de uma assentada dois parques, no inicio do passado mês de Outubro. Este facto permitiu a muitos habitantes da cidade regressar ao Parque Ferreira de Castro, assim como o rappel já havia sido responsável por algumas peregrinações a Fundo de Vila. Excelentes exemplos da reabilitação urbana de que foi alvo S. João da Madeira nos últimos anos. O centro é que não teve tanta sorte. Todos estes parques são periféricos e a sedução dos mais pequenos retira muitos dos apreciadores da Praça para outros locais. Os comerciantes bem se esforçam, mas uma ida à Praça Luís Ribeiro já não tem o mesmo encanto.
A zona pedonal da cidade tem sofrido algum abandono. Especula-se sobre a necessidade de a abrir ao trânsito, altera-se o sentido de trânsito numa rua, introduz-se transportes especiais no centro e lentamente, esta zona perde o seu sentido pedonal. Existem várias cidades, de variada dimensão, com zonas vedadas ao trânsito, voltadas para o lazer dos seus habitantes, estimulando a partilha de espaços públicos por várias gerações.
Seria bom que a rede de parques infantis no concelho se centralizasse, começando pela criação de um parque na Praça (ali no topo Norte, na confluência da Rua Oliveira Júnior, com a rua Dr. Maciel, por exemplo). A cidade agradecia, os mais pequenos também. Os da geração do assobio podiam voltar à Praça e mesmo os avós teriam mais motivos para sorrir.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Sabor a Mufete

Waldemar Bastos é um músico Angolano, com um vasto percurso musical. É um dos rostos mais conhecidos da denominada, World Music. Viveu exilado em Portugal, saindo do seu país devido à guerra civil e por divergências com o MPLA. Gravou os seus discos no Brasil e como o seu talento foi reconhecido, David Byrne, ex - vocalista dos Talking Heads, convidou-o para gravar no seu estúdio nos EUA. Do seu repertório musical destaca-se o primeiro disco, de 1986, intitulado “Estamos juntos”, expressão utilizada pelos angolanos quando se despedem de alguém, em reconhecimento de amizade. O disco de Waldemar é um produto afro, cheio de batucada, coristas e sabor a mufete.
A saudação da fraternidade angolana, esteve na origem do nome da Associação Estamos Juntos. Curiosamente, oficializava-se nesta cidade no mesmo ano da edição desse disco de Waldemar Bastos. A associação não surgiu do nada. Estava-se no final do 5º Campo de Férias, quando se escrituraram os Estatutos. Até aí um grupo de jovens, liderados por Armando Margalho, havia organizado, anualmente, actividades de ocupação dos tempos livres, nas férias grandes de miúdos e jovens dos 4 aos 12 anos.
Voltar a escrever a história desta Associação, não é o propósito destas linhas. Pretende-se apenas lembrar a origem, daquela que hoje é notícia pela eleição de uma nova direcção. A 27 do mês passado, como certamente será noticiado nas páginas deste jornal, a Associação Estamos Juntos elegeu, pela primeira vez, uma direcção não formada por sócios fundadores. Dezanove anos depois, aqueles que estiveram presentes na constituição da associação, deram o seu lugar a outros. Mais novos, bastante mais, nalguns casos. Na assembleia geral, estiveram presentes 6 sócios fundadores, uma clara demonstração do afecto destes pela Associação. É com a sensação de dever cumprido, que assisto a esta passagem de testemunho que, representa igualmente, uma mudança de geração.
Durante estes anos, a Associação Estamos Juntos tornou-se um clube desportivo de referência da cidade. Possui 7 secções desportivas, o que o torna num clube bastante ecléctico. Organiza anualmente, de forma bem sucedida, o Campo de Férias Estamos Juntos – que tal como outrora, ainda é a principal actividade da cidade para ocupação dos tempos livres dos jovens, no período de férias. A dinâmica desta Associação é bem visível na sua sede social, cedida em boa hora pela Câmara Municipal de S. João da Madeira. Aliás, a Associação Estamos Juntos tornou-se um parceiro institucional da autarquia no tocante a políticas de juventude e desportivas.
Com quase 20 anos de história, a Associação Estamos Juntos é reconhecidamente o 2º clube desportivo da cidade. Para isso, muito contribuíram os resultados desportivos dos seus atletas, sob a orientação dos respectivos treinadores e apoio dos vários seccionistas, directores e claro está, presidentes do clube. É um clube singular, pois sendo uma Associação Juvenil assiste praticamente todos os anos à saída dos seus atletas para ingressarem nas Universidades e jamais voltarem a competirem com as suas cores. E o mesmo acontece com os participantes do Campo de Férias, que vão crescendo, ano após ano, até ao limite da idade de participação, e que depois pelos estudos ou por causas laborais, desaparecem das Corgas.
Desde 1982 já passaram por esta Associação centenas ou mesmo, milhares de jovens. Desta cidade, dos arredores, de outros pontos do nosso país mesmo até de outros países. Importa destacar isso mesmo, para se perceber melhor que, existe por esse mundo fora, gente com várias recordações desta cidade e uma das mais importantes é a Associação Estamos Juntos.
Para todos eles, Estamos juntos.

quinta-feira, outubro 20, 2005

A aldeia de Astérix

Nos dias seguintes às eleições, a imprensa nacional tem o bom hábito de apresentar os resultados por via de mapas do nosso país, indicando quem foi o vencedor em cada concelho e atribuindo a cada partido ou coligação partidária uma determinada cor. Esta perspectiva, permite verificar tendências de voto em determinadas zonas do país e encontrar de forma rápida o resultado eleitoral de alguns concelhos, cuja localização nos é familiar.
Nas eleições do passado dia 9, a observação da zona entre rios Douro e Vouga conduz-nos a uma sucessão de concelhos pintados a cor de laranja – concelhos com vitória do PSD, com as faixas laterais pintadas a cor de rosa – concelhos com vitória do PS. Nesses mapas globais, os editores têm sempre dificuldade em contemplar o concelho de S. João da Madeira por motivos vários, como por exemplo, na revista Visão do dia 13 de Outubro, que sobrepôs o nome do distrito à área deste concelho, ficando uma letra a tapar os seus contornos, o que não permitiu evidenciar a separação dos concelhos vizinhos.
Esta tendência editorial surgiu na década anterior, quando os jornais passaram a apresentar páginas a cores. A partir dessa época a apresentação no tocante a resultados das eleições autárquicas era bem mais dignificante para S. João da Madeira. A sua visibilidade era sempre maior, devido a ser apresentado por um ponto azul – símbolo da vitória do CDS/PP - no meio do mesclado laranja e rosa.
Chamava sempre a atenção. Sobretudo, para aqueles que do seu imaginário infantil, se recordam dos livros de Astérix. À terceira página surgia o mapa da Gália e por baixo da lupa a aldeia do herói gaulês. A legenda continha as seguintes frases: “Toda a Gália está ocupada pelos Romanos... Toda? Não! Uma aldeia habitada por irredutíveis gauleses resiste sempre ao invasor”. Com as devidas proporções, evidentemente. A situação ainda ficou mais bizarra, quando nas várias entradas da cidade se colocaram “dois menires” em paralelo.
Apesar da longevidade de Astérix, os tempos são agora outros. O próprio autor do nosso (ou meu) herói, apesar de ser um digno representante da banda desenhada europeia, tem introduzido nos seus livros sinais de mangas – BD japonesa – e de comics americanos, como no último livro, lançado a 14 do presente mês, “ O Céu cai-lhe em cima da cabeça”.
Sinal dessa mudança de tempos, o PSD saiu claro vencedor das eleições autárquicas neste concelho. Uma vitória por maioria absoluta em todas as frentes. A eleição do 5º elemento para o executivo camarário foi deveras uma surpresa, mesmo sabendo que era esse o propósito do reconduzido Presidente da Câmara, desde Dezembro de 2001. Conseguiu-o por pouco mais de 400 votos, os mesmos que fugiram ao PS, para eleger o segundo vereador e sair destas eleições de cabeça erguida, pois teria contrariado o objectivo do PSD. Curiosamente, na votação para a Assembleia Municipal e para a Junta de Freguesia, o PS obteve esses votos!?
Espera-se que a oposição saída destas eleições não hiberne. O PS tem que continuar a sua reestruturação, apresentando alternativas construtivas aos projectos e à dinâmica imposta por Castro Almeida. Não pode esperar por Maio de 2009 e verificar que é necessário encontrar um candidato às eleições autárquicas desse ano. A menos que encontre uma solução semelhante à do PSD em 2001...
E do executivo Camarário, o que se espera? Pelo apresentado e pelos votos conquistados, espero que a meta não seja chegar ao sexto vereador em 2009. A sucessão de inaugurações nos próximos 4 anos vão transformar a cidade. Elejo apenas estas: Centro Empresarial, Cinema Imperador e o novo Centro Comercial na Avenida Renato Araújo. Contudo, gostaria que o novo executivo, perante as questões sociais deste concelho e dos limítrofes, promovesse uma política de emprego ambiciosa, à semelhança do prometido pelos seus correligionários de partido e de área metropolitana.
A poção mágica de S. João da Madeira foi, é e será na minha opinião, a sua capacidade industrial. Reformular o tipo de produção, qualificando os seus agentes, procurando novos produtos com maior valor acrescentado é um desafio da economia nacional e que se aplica particularmente a este concelho.

quinta-feira, setembro 29, 2005

O bom governador Sancho Pança

Sabiam os leitores que o famoso Sancho Pança foi governador de uma ilha?
A ilha situava-se em pleno reino de Aragão e não era circundada por água mas, esse pormenor geográfico, não afectou Sancho Pança no desempenho das suas funções. A nomeação foi feita pelo Duque e senhor daquelas terras, em sinal do reconhecimento da dedicação e devoção de Sancho, enquanto escudeiro do Cavaleiro da Triste Figura, D. Quixote de la Mancha, o último dos cavaleiros Andantes.
O seu governo durou pouco, apenas uma semana. Durante esse período, Sancho dedicou-se a resolver os conflitos que iam surgindo na ilha. A todos eles respondeu com mestria, surpreendendo os demais. Emendou injustiças, desmascarou burlões e evitou com facilidade uma trapalhada que lhe queria propor um desonesto comerciante. Ao fim de 8 dias Sancho Pança abdicou invocando dois motivos. Por um lado, não aguentou o controlo à sua degustação por parte do seu médico. Passou fome o que, para um sôfrego comedor e ainda por cima sendo novel governador, esperando poder comer todas iguarias possíveis devido ao cargo exercido, foi terrível. Por outro lado, ao verificar a sua falta de capacidade de liderar as suas tropas, no ataque virtual dos seus inimigos, entendeu que o lugar de governador não lhe era ajustado, preferindo por isso continuar a ser fiel escudeiro de D. Quixote.
Tudo isto nos conta Miguel Cervantes, no seu livro, publicado em dois volumes – “O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha” - considerado por muitos como o primeiro romance da era moderna e pelo autor como o último livro sobre a Cavalaria Andante. As lições de ética e honestidade de Sancho Pança e os bons conselhos de D. Quixote ao seu escudeiro, antes de este se tornar governador, são eternos. Numa clara prova da eternidade da literatura. Não consta, segundo o relato de Miguel Cervantes, que Sancho Pança tivesse inaugurado qualquer estrada, ou ponte, ou qualquer tipo de edificação. Nem sequer projectado. O seu governo ficou perpetuado pela história, pelas palavras e não pela construção. Hoje, praticamente 400 anos depois do seu governo, Sancho Pança é mais recordado do que qualquer Alcaide seu contemporâneo, Aragonês, Manchego ou até Português, pois nessa época toda a Península Ibérica estava unificada sob a coroa Espanhola.
Recentemente, o conhecido comentador desportivo, candidato à presidência da Câmara Municipal de Sintra, numa entrevista dizia mais ou menos o seguinte “Na actual conjuntura económica do país, com o PEC e a necessidade de redução do défice, nos próximos 4 anos as verbas do PIDAC serão cada vez menores. (...) Prometer grandes investimentos para o concelho seria pura demagogia (...)”.
De norte a sul, da esquerda à direita, passando pelos demais independentes, a ânsia da eternidade não permite aos candidatos a autarcas verificarem a realidade económica do país. Sobretudo ao elaborarem programas eleitorais, nos quais sobejam projectos e mais projectos de construção, ampliação e outras tantas obras de renovação de vários equipamentos existentes nos respectivos concelhos, além das inevitáveis melhorias das acessibilidades... Esses programas de promoção de obras municipais, ou melhor, estes “cadernos de encargos” parecem seduzir mais os empreiteiros do que os próprios munícipes.
Por vezes, os nossos autarcas enquanto candidatos devem ser atacados pelos mesmos nigromantes e demónios que atormentavam D. Quixote, os famosos encantamentos, que transformavam gigantes em moinhos de vento, cabeças de gigante em odres de vinho, exércitos de Cavaleiros em rebanhos de ovelhas e mesmo a bela donzela Dulcinea numa vulgar e carrancuda camponesa...

sábado, setembro 17, 2005

Tendências de voto

Os resultados eleitorais em S. João da Madeira nos últimos 10 anos permitem constatar que os eleitores Sanjoanenses votam em sentidos opostos: quando se trata de eleições legislativas ou europeias, o voto tende para o Partido Socialista e nas eleições autárquicas o voto tende a divergir. Em 1995, 1999 e 2005, para as eleições legislativas, a vitória nacional do PS sempre foi acompanhada, também nesta cidade, pelo maior número de votos neste partido. Mesmo em 2002, após o descalabro do governo de António Guterres, o PS foi o partido mais votado em S. João da Madeira nas eleições legislativas desse ano, contrariando a tendência distrital e nacional, que permitiram a vitória ao PSD.
Se analisarmos os resultados locais das várias eleições na década anterior, de 1985 a 1991, verificamos um acompanhamento da tendência nacional da época, isto é, vitórias claras do PSD. Ou seja, desde 1995, houve uma inflexão na tendência de voto dos eleitores Sanjoanenses, que passaram a votar maioritariamente no PS.
Em termos de eleições locais, desde esse ano que os resultados tiveram desfechos diferentes. Nas autárquicas de 1997, o CDS/PP venceu por apenas 199 votos de diferença e em 2001,o PSD triunfou com maioria absoluta, no tocante ao número de vereadores eleitos. Entre as duas eleições, o PS local passou de segunda força política para terceira. Passou da derrota por apenas 200 votos, com maioria na Assembleia Municipal e conquista da Junta de Freguesia, para o pior resultado de sempre em eleições autárquicas.
Se quiséssemos analisar as causas para esta diferença na tendência de voto entraríamos num vasto campo de especulações. No entanto, se perguntarmos a um militante local do PS, este naturalmente justificará as derrotas com o CDS/PP pelo efeito Manuel Cambra e a última, com o PSD, pela “onda laranja”, que percorreu o país em 2001. Se a primeira justificação tem raízes em 1985, numa coligação em bloco central de apoio a José Pinho - que provocou uma cisão profunda dentro da estrutura local do PS, já a segunda, não tem razão alguma, pois passados três meses, como anteriormente referi, o PS venceria em SJM para as eleições legislativas, contrariando precisamente essa “onda”.
Em jeito de seriedade, um destacado membro da concelhia local confidenciava-me há uns meses atrás que o problema era essencialmente de personalidades. A questão é essa mesma, pois existe a máxima que “quem ganha as eleições autárquicas são as pessoas”, à qual este Concelho não parece fugir.
Para as eleições do próximo dia 9 de Outubro, o PS formou listas com mais equilíbrio. À primeira vista venceu o complexo Manuel Cambra, fazendo regressar à vida política alguns dos seus militantes antigos. Em segundo lugar, encontrou candidatos que abrangem várias gerações e sem fazer qualquer tipo de avaliação pessoal, qualquer uma das três listas, é formada por candidatos com um currículo político superior aos das listas formadas há 4 anos. O próprio candidato a Presidente da Câmara, com o seu jeito dinâmico e empresarial, é uma mudança na história recente do partido.
Poderá não ser o suficiente para vencer, é certo. Mas uma derrota do PS será por mérito de quem vença e não por causas externas, como seria tentador pensar face “ao desagrado dos eleitores locais pelas políticas do governo”. Esta fuga à responsabilidade e atitude do tipo “avestruz”, já não se justifica. A actual liderança da concelhia encontrou as estratégias para que o partido saia do abismo em que outrora mergulhou. Não se pode voltar atrás.

quarta-feira, maio 26, 2004

O Camacho no Real foi tabu lá em casa.

Este Espanhol que veio para trabalhar (como o próprio dizia), revolucionou a vida lá de casa e vai ficar para a nossa história. Como dizia, recentemente numa entrevista, Mário Wilson “o velho Capitão”, “Camacho é um dos nossos”.
Ontem à noite, no final do noticiário desportivo, o choque foi total quando passaram a sua apresentação como novo treinador “merengue”. O Manel ficou desolado. O Camacho não podia sair do Benfica. “Não quero”, “O Camacho é do Benfica”, “O Camacho é o Benfica”, dizia o petiz com os olhos em lágrimas e com a cabeça encostada ao sofá. Tentei explicar-lhe, em vão, que o Real Madrid era para o Camacho, o mesmo que o Benfica era para mim, que ele era Espanhol e ia treinar em Espanha. “Não quero!”
A olhar para o Manel inconsolável, recordei, sem saudade, o meu desespero quando saiu do Benfica o Jordão, o Chalana e mais tarde (e sem o mesmo fervor), o Rui Águas e o Paulo Sousa.
Veio a mãe e o amuo e a tristeza continuaram. As mesmas ideias, Espanha, espanhol, nada.
Valeu-nos o Moreira, esse pequeno Santo, que é para o Manel aquilo que o Bento foi para mim, o maior. O Moreira fica, é do Benfica e de Portugal (outra das paixões fomentada pela mãe).
Para o Manel praticamente tudo começou com Camacho, tirando o facto de, ao ano e meio de idade a olhar para a televisão, dizer algo parecido com Benfica ao ver um jogo de futebol. A Zé ensinou-lhe quem era o Camacho, o treinador do Benfica, Espanhol. Desde aí, sempre que o homem aparecia na televisão, ouvia-se “Olha o Camacho”. Espanha era a terra do Camacho e os espanhóis falavam como o Camacho. Depois veio o Féher, o desespero de todos e o miúdo sem perceber o que se passava. Quando viu o Camacho a chorar, ficou muito preocupado e durante quinze dias a um mês, perguntava pelo Húngaro. Foi o momento certo para lhe ensinar o nome dos outros jogadores e os seus atributos: Tiago como o teu primo, Nuno Gomes que tem cara de menina, Simão como o irmão do Tomás (colega da escola), Miguel como o teu colega, Ricardo (Rocha) como o vizinho das primas, João (Pereira) como o teu colega e Moreira que é guarda-redes e usa luvas. Este foi o mote para nova devoção. Com luvas nas mãos, o Manel gosta de imitar o Moreira a atirar-se para o chão e tentar agarrar a bola. Agora, sempre que vê o Moreira, quer em jogos, quer em publicidade, diz “Olha o Moreira”.
No final da Taça, além de ter ficado feliz por ver o Camacho, alegre saiu para a rua para engrossar a caravana de festejos, com o seu sorriso característico e depois de ouvir do Moreira as mesmas palavras do pai: “A Taça é nossa”.
Espero, para concluir, que o Benfica tenha reaprendido com Camacho, valores como dedicação e rigor. Os adeptos foram os primeiros a entende-lo e por isso, após a conquista da Taça, gritavam pelo seu nome, em homenagem ao trabalho desenvolvido em 18 meses. Nesse dia, os jogadores em campo, entregaram-se ao jogo da forma como ele gostava, com “sangue, suor e lágrimas”.