quarta-feira, julho 30, 2008

No Horizonte...

 

         Escrever um texto, para ser publicado a um dia do mês de Agosto, traz um grande embaraço.

            Nos últimos dias de Julho, para quem apenas pode usufruir do período de férias, uma vez por ano e em Agosto, pouco ou nada interessa.

            Os principais assuntos de conversa são as férias e qualquer assunto sério, por mais polémico que seja, não serve para despertar a concentração. Nesta fase do ano, em que alguns familiares, amigos e conhecidos estão de férias, todo o pensamento livre tem como objectivo planear as férias. Embora já delineadas, no tocante a marcações logísticas, existem sempre pormenores deixados para a última hora. Além do imprevisto, sinal da espontaneidade neste período do ano.

            Quando prepararei os textos para publicação durante este mês, verifiquei no calendário como seria difícil escrever estas linhas para o último artigo de Julho, pois o pensamento estaria obcecado com as férias.

            Fiquei a contar com o inesperado, com alguma inspiração momentânea e se nada disto surgisse, então preparava uma crónica sobre as férias. Só que nesta altura, o teclado já não recebe impulsos vindos cérebro.  

            Tentei uma alusão a vários tipos de férias. Pensava mencionar os hábitos apenas adquiridos nesta época, como a sesta. Lembrei-me do desespero das crianças, dos meus filhos, um mês à espera das férias do pai e os contratempos fabris a intrometerem-se no desejado tempo livre familiar. Contava expor um pouco a minha privacidade, referindo o volume de livros que projecto ler, divulgando títulos e pesando o número de páginas que terei de virar para terminar a empreitada…

            Constato que tudo isso seria penoso para mim e como tal aborrecido, para quem me lê.

            Para não transformar este artigo numa espécie de não crónica, ensaio uma recordação de férias.

            Uma referência aos festivais de música, que na década passada, significavam o fim do meu período de trabalho e a romagem para as imediações destes palcos, durante três dias. Com o concerto de hoje em Paredes de Coura, a irreverência dos Sex Pistols seria importante para reconquistar a energia dispendida ao longo do último ano. Mesmo trinta anos após o sucesso desta banda, quase vinte e cinco a ouvir as palavras de ordem gritadas por J. Rotten, ainda não será desta que terei oportunidade de assistir à encenação desta banda inglesa. O relativo interesse do concerto de hoje será verificar a capacidade de resistência ao tempo deste grupo. Um dos muitos que foi vítima de um fenómeno curioso da indústria discográfica, a rápida ascensão a ícones, por morte prematura, de jovens, membros de bandas emblemáticas dos novos géneros musicais

            Curiosamente, foi em férias que passei a prestar atenção a estes factos da música. Antes de se tornar viajante do mundo e figura mediática, Gonçalo Cadilhe cruzou-se comigo alguns anos, em tratamentos nas termas. A sua capacidade oratória destacava-se e era contagiante o seu apreço pelo fenómeno Jim Morrison. As peculiaridades deste figueirense, ainda me fizeram subir a um skate, só que a iniciação não podia ter corrido pior: uma forte cabeçada no alcatrão, com direito a um rasgo da pele, foi o resultado dessa tarde de Setembro.      

            Definitivamente tenho que encerrar estas linhas. O desgaste acumulado ao longo do último ano, obrigam-me a pedir descanso.   

            Nada mais me resta senão, enviar as palavras para banhos.

            Aos leitores do Jornal Labor desejo umas óptimas férias, esperando regressar um bocadinho mais inspirado.

 

(a publicar dia 31/07/08)

terça-feira, julho 22, 2008

Conto de Verão

            Numa tarde quente de verão, Marta e Francisco encontravam-se sozinhos junto à piscina do hotel. Os hóspedes estavam recolhidos, por ser hora de almoço e o grupo de amigos, que os acompanhava no fim-de-semana, tinha saído para uma refeição, num restaurante muito conhecido na zona.

            Marta optou por ficar. Pretendia evitar as confusões daqueles espaços, não estava preparada para aguentar as esperas e ouvir os ruídos normais destas salas. Como estava recentemente separada, os amigos não insistiram. Marta pediu a Francisco para lhe fazer companhia. O amigo de sempre aceitou com agrado o convite. Era uma oportunidade para colocar a conversa em dia, ouvir os lamentos da amiga e poder ele próprio explicar os pormenores do seu falhado casamento.

            Francisco era um bom ouvinte. Escutava com atenção a amiga, sem interromper. Ajudava a terminar frases se fosse caso disso e fazia perguntas de forma frontal, o que não permitia a Marta refugiar-se em qualquer segredo. Por seu lado, Marta não estava com capacidade para fixar as palavras do amigo. Ouvia e respondia às perguntas mas, não prestava atenção ao que Francisco lhe contava, relativamente ao seu divórcio. Todas aquelas questões legais da partilha de bens, da guarda dos filhos, da tença, lhe escaparam. Fixou os motivos que levaram o amigo a separar-se, mais para poder comparar com o seu caso, ou então, por ser nessa fase em que se encontrava a sua relação e por aí permaneceria, pois não tinha qualquer filho.

            A separação é irreversível – disse Marta a Francisco. Motivado não se sabe bem porquê, provavelmente pela decisão da amiga e pelo seu estado de descomprometido, Francisco contemplou, como há imenso tempo não o fazia, a beleza da sua amiga. Sempre a admirara, sempre a apreciara, embora nunca tivesse sentido por ela nada senão uma profunda amizade.

            A conversa prosseguiu para outros temas. Pelo meio um cigarro ou outro. Francisco sentiu-se portador de uma oratória sedutora. Como se finalmente, Alonso de Quijano tivesse encontrado a verdadeira Dulcineia de Toloso e pudesse expressar todos os seus sentimentos, as boas intenções para com a sua dama, sem precisar de evocar os seus feitos enquanto cavalheiro da Mancha.

            Sem interromper o desenrolar da conversa, vieram as palavras de galanteio de Francisco. Ao ver um sorriso na boca de Marta, Francisco prontamente disse: “O teu sorriso é o inicio de uma grande perfeição”. Marta sorriu de novo. Seguiram-se mais uma série de piropos, dos quais Marta só reteve alguns: “O arco do teu lábio superior é tão perfeito que parece que foi cinzelado”; “A sensualidade começa no teu peito”. Ao ouvir estas frases Marta começou a ficar confusa. Não percebia onde queria chegar Francisco. Os seus elogios eram agradáveis de ouvir mas, naquele momento da sua vida, eram inoportunos.

            Marta interrompeu a conversa, sugerindo um banho. Sabia que Francisco não apreciaria o convite e assim, ficaria sozinha na piscina por uns momentos.

            Depois de umas braçadas, decidiu mergulhar para o fundo da piscina. Sem esforço ali chegou. Sentia-se bem, sem ouvir conversas, longe de todos. Deitou fora o ar. Aguentou-se sem se preocupar em subir. Ficaria lá. Verificou que não iria fazer algum esforço para voltar a respirar. Sem pânico, esperou pela sua hora.

            Os primeiros ruídos que ouviu, pareciam-lhe uma respiração forte, dentro de si. Abriu os olhos e viu Francisco desesperado a tentar animá-la. Desviou a cara, a água, que propositadamente se alojara em local errado, vinha para fora. Francisco não falava, abraçava-a de modo fraternal. Um dos empregados do hotel, perguntara se seria preciso chamar o 112. Marta negou com a cabeça. Francisco agradeceu a atenção e apelou à descrição dos funcionários. Mais nenhum hóspede se apercebera do sucedido.          

            Ficando a sós com Marta, Francisco ousou perguntar-lhe se estava bem. Marta disse-lhe que sim e não lhe deu mais explicações. Voltaram para as espreguiçadeiras. Francisco ajudou Marta a sentar-se e embrulhou-a com a toalha. Entretanto, enxugou-se do banho forçado. Ficaram em silêncio.

            Francisco não resistiu e quebrou o sossego: “Jamais pensei tocar nos teus lábios. Não era preciso isto…” Marta interrompeu-o: “Francisco, por favor, esse tom perturba-me. Não estou preparada para questionar a nossa relação.”

            Francisco sentou-se, acendeu um cigarro e pediu desculpa pelas suas palavras. Entretanto, chegaram os amigos do almoço. Francisco pediu a Paula, companheira de quarto de Marta, para olhar por ela, pois a amiga não estava muito bem.

            As duas amigas subiram e Francisco aceitou o convite dos amigos para um jogo de snooker. 

            Durante o restante tempo que permaneceram com o grupo, os dois amigos evitaram-se. Trocaram apenas algumas palavras, circunstanciais, apesar de Francisco procurar agradar a Marta, em gestos e discrição. 

            Separados, terminado o fim-de-semana, Marta recebeu uma série de mensagens do amigo. Apenas respondeu a uma delas secamente, dizendo encontrar-se bem. Evitou as chamadas de telemóvel, a insistência de Francisco em lhe falar.

            Face a este prolongado silêncio, nada mais restou a Francisco senão aceitar e esquecer todo o episódio, aproveitando o que restava do Verão.

 

(a publicar dia 24/07/08)

quarta-feira, julho 16, 2008

Congressos e Afins

 

O dia-a-dia da actividade política é extremamente datado - quando não comentado atempadamente, perde sentido e oportunidade.

Explorar assuntos em opiniões escritas pouco fundamentadas ou cingi-las a momentos impróprios é tornar inválidos os argumentos. Caso a dinâmica de factos, afirmações ou orientações políticas contrariem as opiniões expressas, reduzem todos os pontos de vista a mal entendidos.

Durante o último mês, após o congresso do PSD, sucederam-se uma série de afirmações dos novos responsáveis pelo partido, que seriam o mote certo para vários artigos da minha opinião.

Sensatamente, não os escrevi.

Afirmações posteriores, esclarecendo melhor alguns desses argumentos, mostraram-me que foi preferível ficar calado.

O primeiro facto foi a célebre frase: “não há dinheiro para nada”. Dentro do contexto das grandes obras públicas, obviamente. Imaginei o que seria uma análise desse género aos potenciais investimentos municipais e aos programas de várias autarquias… arrepiei-me. Passado uns dias, vários autarcas eleitos pelo PSD pediram esclarecimentos e na passada semana, o novo líder parlamentar sossegou toda a gente.

O segundo caso, não chegou a ser. O líder da distrital do Porto do PSD declarou que o autarca da Cidade Invicta seria novamente candidato. Achei estranho. Por isso, ao verificar que o tempo para tais anúncios não era o correcto, fiquei esclarecido e percebi a malandrice. É ainda cedo para a tomada de decisões. Daqui a meio ano, tudo está decidido. Lá e cá, sem querer colocar um prazo bem definido.

Por fim, o assunto mais sério. Ao colocar como prioridade a “justiça social”, a estratégia de captação de voto do PSD nas próximas legislativas, segundo vários especialistas, passa por aproveitar o descontentamento dos eleitores de esquerda do PS - à semelhança do que este partido tem feito ao PSD, desde 2005. Retirar votos ao partido do poder, que poderiam cair na CDU ou BE, parece estar a resultar. Estas duas forças, estavam cotadas em várias sondagens, com 20% dos votos em conjunto, antes do congresso do PSD. Depois da eleição da nova líder, a última sondagem apresentada (RTP / Antena 1 – dia 15 de Julho de 2008) já invertia a tendência: 17% para as forças de esquerda, subindo o PSD dos 28 para os 32%.

Neste sentido, seguir ao longo do próximo ano as inclinações das várias sondagens e a elaboração das propostas eleitorais do PSD, será bastante elucidativo, para se compreender melhor a política nacional e as vontades dos eleitores.

Um factor bastante importante será coerência de propostas, tanto no programa eleitoral para o Governo, como para as autarquias, por parte do PSD. Pelo facto de ambas as eleições serem próximas, deverá ser promovida a coesão nas promessas a apresentar.

Assistiremos em 2009, independentemente do candidato a apresentar pelo PSD à Câmara Municipal de S. João de Madeira, a um programa com uma componente política forte, versando essencialmente a social-democracia.

Com este PSD mais centralizador, com tiques de esquerda, o que resta para o PS local? Pedro Nuno Santos prepara-se para deixar a JS, em congresso marcado para este próximo fim-de-semana, no Porto. Habituado a programas políticos à escala nacional, com as sempre presentes “causas fracturantes”, o PS local terá um árduo trabalho até às eleições autárquicas do próximo ano.

Sem acreditar no espectro do sebastianismo nacional, as tarefas preliminares do novo líder da estrutura do PS local passam muito por organização interna, de forma a não chegar ao próximo ano com uma candidatura insípida, a ausência de um programa eleitoral e resumindo o acto eleitoral do próximo ano a apresentar as críticas conhecidas à gestão actual da cidade.    

Previsível será a sua vontade em apresentar propostas de esquerda modernista, no âmbito da qualificação da população local, nas facilidades no acesso às novas tecnologias e claro, no estímulo a tornar a autarquia um parceiro do “Estado Social”.   

            Independentemente dos nomes dos candidatos às eleições autárquicas de 2009, estas serão as primeiras, nos últimos vinte e cinco anos, a serem disputadas naquilo que politicamente se designa “centro”.

            É, desde então, a primeira vez nas eleições locais, em que os dois principais partidos da política nacional são os mais sérios candidatos a uma vitória para a autarquia.

            Esperemos que tal facto sirva para elevar o debate político.  

 

(a publicar no dia 17/07/08) 

 

quarta-feira, julho 09, 2008

Principezinho

 

            Na já longa história do Campo de Férias Estamos Juntos existem vários episódios, acontecimentos ou factos, que foram determinantes para a sua longevidade e actual sucesso.

Não consigo precisar em que ano, nem em rigor, qual a edição desse evento de ocupação das férias das crianças e jovens, que perdura desde 1982, em que um participante surpreendeu todos os restantes e demais monitores ou organizadores.

            A passar férias em casa de família, o jovem distinguia-se dos demais, por se fazer acompanhar por um bloco de papel e alguns riscadores. Escusado será comparar esta particularidade com as comuns, entre os jovens, bolas ou outros apetrechos desportivos (raquetes ou bicicletas), ou consolas de jogos, ou até leitores das datadas cassetes.

Este era diferente. Desenhava. Bem, acrescento eu. Resumia os seus trabalhos a bonecos. “Desenho bonecos”, dizia com uma simplicidade e alegria contagiante. Ao longo desse mês a actividade do Campo de Férias ficou retratada, caricaturada pela mão deste pequeno ilustrador. 

A qualidade dos seus trabalhos extravasou o Campo de Férias e uma galeria de arte em S. João da Madeira reconhecendo o seu mérito, expôs alguns dos seus quadros.

Curiosamente, seria através da música que este jovem se afirmaria.

Refiro-me em concreto, a Manuel Cruz. Celebrizado no panorama musical nacional como vocalista dos Ornatos Violeta e Pluto e tendo agora lançado o seu primeiro trabalho a solo.

Poderia continuar este texto, invocando as suas capacidades musicais, no entanto, vou-me restringir à sua passagem singular pelo Campo de Férias. Possivelmente única.

A presença do Manel naquele Campo de Férias foi decisiva para o sucesso de organizações futuras da AEJ. O interesse por ele demonstrado e sobretudo, a sensibilidade para a diversão nas férias, sempre com vontade de participar em todas as actividades propostas e sugerindo outras, foram extremamente importantes.

Existia até aquela data, a ideia de proporcionar férias essencialmente desportivas aos participantes. Aulas de natação, de modalidades colectivas e de outros desportos individuais eram as principais actividades. Além disto, havia outro factor preponderante para esta opção, as novas instalações desportivas da cidade: a piscina interior e o pavilhão das Corgas.

Tal como Saint-Exupéry alterou a sua vida pelos desenhos de uma criança, os bonecos de Manel Cruz cativaram toda a essência da AEJ. A partir daquele ano, reconheceu-se definitivamente que as actividades a propor às crianças e jovens, deviam envolve-los de acordo com a sua vontade, motivando o seu interesse e participação.

A imaginação ganhou lugar cativo nos anos seguintes. O principal interesse de quem organizava as actividades era proporcionar um mês de férias único aos participantes. Ali era tempo de esquecer as aulas, a rigidez dos horários, as matérias estudadas, enfim, eram férias, com outras atenções.

O sucesso e a longevidade do Campo de Férias passaram por esta forma de estar, que agradava aos participantes. Muitas vezes contrariando a vontade dos próprios pais, como muitos reconheciam.  

Durante vários anos, o mediatismo da AEJ no contexto da cidade era conseguido apenas no mês de Julho. Os bons resultados desportivos dos atletas eram ainda poucos e isolados. Das actividades com mais visibilidade, a Festa Final na Praça Luís Ribeiro era a sua principal montra. Assisti a representações ousadas de vários jovens, que eram o culminar de um mês de participação interessada. Destaco o sapateado de um jovem luso - francês, cujo nome não me recordo; a capacidade de mobilização de Paulo Cavaleiro; a disposição para o palco de Pedro Nuno Santos; entre vários outros, que não vou nomear para não tornar a lista longa.

Existirão actualmente outros jovens que se destacam, no contexto da actividade da AEJ e do próprio Campo de Férias. É a dinâmica normal de uma Associação de Jovens, que se vai calmamente renovando em termos de idade dos seus dirigentes, mantendo os princípios de organização e o seu propósito.  

Nunca consegui perguntar a Manuel Cruz, qual o caminho para o asteróide 612. Com certeza que desde criança que o conhece. Na sua adolescência soube explicar-nos os pormenores deste pequeno planeta. Eu e outros que durante anos, dedicámos o nosso mês de Julho à AEJ, mantivemos a nossa nave em órbita.

A minha, entretanto, aterrou.

 

(a publicar no dia 10/07/08)

quarta-feira, junho 25, 2008

Tatuagens

           A propósito da eliminação da selecção de futebol de Portugal no Euro 2008, repetiu-se até à exaustão na comunicação social a expressão “o futebol é um jogo de 11 contra 11, em que no final ganha a Alemanha”.

Esta frase poderia ter sido inventada por um português, tipo um jornalista a fazer a cobertura do campeonato, ou por um jogador ou mesmo um técnico, no final do jogo da passada semana, ou então, após o jogo do campeonato do Mundo de 2006, no qual os germânicos conquistaram o terceiro lugar. Porém, não foi.

O seu autor, Gary Lineker, avançado inglês que jogou pela selecção do seu país entre 1986 e 1992 teve que pronunciá-la, certamente, em desespero. Nesse período, em fases finais das principais competições de futebol, a Inglaterra - além de não ter feito nada de assinalável - jogou com a Alemanha apenas no Mundial de 1990. Nas meias-finais, em encontro entre ambas as selecções, a Inglaterra perdeu, no desempate por grandes penalidades, após o empate a uma bola no final do tempo suplementar, com o golo inglês a ser apontado precisamente pelo autor da frase transcrita anteriormente. Mais tarde em 1996, no campeonato da Europa, provavelmente com Gary Lineker como comentador desportivo, a Inglaterra voltou a perder com a Alemanha, precisamente nas meias-finais e novamente, por desempate por grandes penalidades. Nessas duas competições, os alemães ergueram o troféu. Aliás, os últimos conquistados.

As competições internacionais entre selecções criam por vezes a noção de equipas intransponíveis para alguns. As chamadas bestas negras. A Espanha esteve oitenta e oito anos sem vencer a Itália; mais recentemente Portugal ganhou sempre a Inglaterra e à Holanda, em contrapartida tem perdido com a França; outros exemplos existem e por vezes, fazem-se afirmações como a de Gary Lineker, contextualizada numa época mas, sem significado futuro.

Mal estaríamos se assim fosse.

Na época do avançado inglês, a Alemanha perdeu nos Campeonatos da Europa de 88 e 92 com a Holanda. Em 88, assisti ao jogo da meia-final inserido numa aposta entre clientes holandeses e um alemão, dono de um bar. A passagem à final valia um barril de cerveja. Com a derrota germânica, o bar ficou de torneira aberta, algumas horas. O acesso foi garantido a todas as nacionalidades e eu não me lembro de mais nada. Em 92, os holandeses voltaram a vencer a Alemanha, ainda na fase de grupos. Ainda assim, ambas passaram às meias-finais e para surpresa de muitos, a Holanda perdeu com a Dinamarca. O que afinal, não se pôde considerar de tanta estranheza pois a Dinamarca, com os golos de Larsen, derrotou a selecção alemã, Campeã Mundial em 90.

A incerteza quanto a favoritos, vencedores, continua a ser o maior interesse do Europeu. No dia em que escrevo não sei quem serão os finalistas da edição de 2008, tenho essa desvantagem relativamente aos leitores.  

Em matéria de participação da equipa nacional já tudo foi dito ao longo da última semana.

Se nos anos noventa os ingleses baquearam nas penalidades, os portugueses terminaram os jogos com a Alemanha, na década actual, olhando de lado para o seu guarda-redes, independentemente dos seus méritos enquanto jogador e profissional de futebol.

Para quem segue a participação das várias selecções nacionais desde o Euro de 1984, tudo o que aconteceu na Suíça não é novidade. Favoritismo, vedetismo, contratos milionários, estágios interrompidos, jogadores baixos, convocatórias controversas e erros defensivos não são de agora. Resumindo, a displicência nacional.

Nestes últimos vinte e quatro anos, as mudanças dos jogadores portugueses são mais de aspecto capilar. Em 1984, os bigodes eram a principal característica dos nossos seleccionados. Doze anos depois, sem o peculiar “pêlo na venta”, com excepção do seleccionador, a participação portuguesa reduziu-se ao risco ao meio efectuado por Poborsky a Vítor Baía. Passados quatros anos, a imagem felpuda de Abel Xavier foi o desalento da selecção. Em 2004, vencido o trauma da meia-final com um grande golo de Maniche, as particularidades capilares não se concentraram nos jogadores, mas sim, nos estádios construídos para o efeito, estando muitos deles ao fim de quatro anos, sem qualquer adesão de público, desde calvos a cabeludos.

Neste último Europeu, além do corte de cabelo de Cristiano Ronaldo, que devido aos milhões de euros que actualmente recebe passa incólume a qualquer tratamento depreciativo, os jogadores da selecção nacional evidenciaram-se pelas suas tatuagens.

Neste particular, os requisitos do próximo seleccionador nacional poderão passar pela presença destas marcas no corpo, para se poder promover a rápida aproximação entre o novo treinador e jogadores.

 

(a publicar dia 26/06/08)

quarta-feira, junho 18, 2008

Parques

            Nas últimas semanas, a Praça voltou a ser notícia nas páginas dos jornais locais. Praticamente um ano depois de finalizadas as obras, que repuseram o trânsito e estacionamento em algumas das artérias da zona pedonal, constata-se que pouco mudou no dia-a-dia do centro da cidade.

            Os empresários do comércio reclamam a pouca afluência de clientes aos seus estabelecimentos.

            Por seu lado, os frequentadores e moradores sentem que as alterações efectuadas, introduziram confusão e insegurança na circulação pelas ruas, desde que a total serventia de automóveis ficou assegurada.

            Neste panorama, é necessário não esquecer que no último ano surgiram na cidade dois novos pólos de atracção. Primeiro, com o novo centro comercial, com oferta de várias soluções comerciais, de restauração e de lazer. Tudo, com estacionamento grátis, em ambiente moderno e acolhedor. Em Maio, inaugurou-se o novo Parque Urbano, com áreas verdes apropriadas para o lazer ao ar livre. Estacionamento gratuito também não falta, junto às margens do Rio Ul.

            Estas ofertas dispersaram a população pela cidade.

            O problema é entendido pelos responsáveis municipais, pela forma como o apresentei aqui. Para atrair pessoas ao centro da cidade, a hipotética solução passa pela construção de um parque de estacionamento subterrâneo, em plena Praça Luís Ribeiro. Gratuito? Não. No seguimento da construção dos outros dois construídos em subsolo municipal, na Avenida Renato Araújo e na Rua João de Deus, deve-se dar seguimento à ideia inicial que previa precisamente três parques.

            As notícias de fracos resultados financeiros, da empresa que explora os referidos parques de estacionamento, poderiam inibir esta ideia antiga e incentivar a procura de outras soluções.

            É lógico que o futuro de privados, desde que garantam receitas imediatas para o município, não é um problema para alguns.

            É importante não esquecer a existência de estacionamento pago em parque na Praceta Júlio Dinis; a criação, nesta última intervenção, de estacionamento térreo, em várias ruas da zona pedonal; um outro estacionamento privado (Parque Central), precisamente na Avenida Renato Araújo, em piso subterrâneo do edifício construído nas traseiras do Parque América; para finalizar, correndo o risco de transmitir informação obsoleta ou absurda, recordo-me que precisamente neste último edifício, em plena Praça Luís Ribeiro, existe um parque de estacionamento – o seu estado, ocupação e disponibilidade, não sei precisar.

            Pelo atrás exposto, mesmo com a ressalva pelo exagero nas soluções descritas, verifica-se que existem em bom número lugares de estacionamento. Com um pouco de pesquisa, pode-se calcular o número de lugares disponíveis. Confrontando a taxa de ocupação dos parques actuais com a real necessidade de lugares de estacionamento na zona pedonal, pode-se colocar a seguinte questão: qual a necessidade de massacrar os comerciantes, os seus clientes, os moradores, enfim, os munícipes, com mais e prolongadas obras no centro?     

            A reportagem da semana passada do Jornal Labor trazia vários testemunhos de comerciantes que reclamavam, sobretudo, a necessidade de tornar atractiva a área em que estão instalados. Embora nos depoimentos recolhidos tenham surgido exageros, nomeadamente na alusão a factos ocorridos há vinte anos. Ao fim de duas décadas, toda a dinâmica urbana, ligada à criação da zona pedonal, deveria estar perfeitamente estabilizada.

            Ao longo dos últimos anos, a estratégia da autarquia para a zona central passou pela instalação de equipamentos culturais, após a requalificação de edifícios municipais existentes. O problema é que apenas o primeiro edifício ficou funcional, embora com graves carências a nível de programação. Além disso, os espectáculos por serem nocturnos não podiam atrair os desejados clientes para os espaços dos comerciantes.

            Os sucessivos atrasos, indefinições e mudança de objectivo para a transformação do espaço do antigo Cinema Imperador não permitiram que a estratégia da autarquia fosse alguma vez concretizada.

            Como se vai alterar a futura designação (Casa das Artes e da Iniciativa) deste espaço municipal, seria bom atender às preocupações dos comerciantes e aproveitar esta futura remodelação, procurando ali instalar as tais lojas atractivas, de forma a tornar a zona central atraente não apenas em horas de espectáculos nocturnos mas, durante todo o dia.

 

(a publicar no dia 19/06/08)

quarta-feira, junho 11, 2008

Sina

 

            Em visita de estudo a Lisboa, enquanto esperávamos pelo autocarro, em frente ao Mosteiro de Jerónimos, uma cigana de idade avançada aproximou-se do nosso grupo de estudantes. Teríamos uns dezasseis, ou dezassete anos de idade.

            Pediu uma esmola e eu, engraçando com a figura, ripostei: só se me ler a sina. A mulher não tinha um olho e usava os trajes típicos destes nómadas: uma saia comprida, um lenço em volta da cabeça, com os brincos de argola, provavelmente teria um ou mais colares em volta do pescoço (sobre o resto do tronco não me recordo, nem tenho uma imagem pré-definida do que usa uma idosa cigana sobre o seu corpo).

            Aceitou o desafio. Mostrei-lhe as palmas nas mãos e instantaneamente começou logo a falar sobre os encantos do meu futuro. Entre felicidade e outros sinónimos, pareceu-lhe que via nas minhas mãos muitas mulheres e provando não ser analfabeta, leu um “F” bem desenhado na mão direita. Eu ouvi-a a falar com uma rapidez tremenda. Deu-me um nome feminino, que pela sua análise, seria determinante para o resto da minha vida: Fernanda, era o tal nome começado pela letra “F”.

            Isto foi tudo tão rápido, que nem dei conta que os meus colegas tinham-se encolhido, pelo receio pré-concebido relativamente à etnia. Pelo futuro, paguei o prometido – cem escudos (os actuais cinquenta cêntimos de Euro). Duas risadas e nas despedidas com a cigana, não foi preciso desejar boa sorte, pois a minha, traçada nas minhas mãos, tinha acabada de ser revelada.

            Naquela época eu tinha dificuldade em acreditar no futuro, por isso, durante anos, contei esta historieta com algum humor.

            É claro que não dei importância ao assunto.

            Das minhas relações pessoais e familiares, o nome Fernanda tinha caído em desuso. Os nomes têm épocas. Existem alguns eternos. Outros ficam em moda durante um período e depois tornam-se raros. Alguns são raros hoje e entretanto, com o tempo tornam-se comuns. Dessa data até hoje, com idade próxima da minha, conheci duas ou três Fernandas. Nenhuma mudou a minha vida. 

            A cigana viu um “F”. Podia ter-se enganado no nome. Por esta letra, temos outros nomes: Fábia, Fabiana, Fabíola, Fátima, Faustina, Fedra, Felicia, Felicidade, Felismina, Ferdinanda, Filipa, Filomena, Firmina, Flávia, Flôr, Flora, Florbela, Florência, Florinda, Francelina, Francisca e Frederica. Dada a raridade de alguns destes nomes, jamais me cruzei com pessoas assim chamadas. Dos mais comuns, apesar de com algumas ter criado relações de amizade, nenhuma preencheu o prognóstico da cigana.

            A vidente não acertou no nome, nem na quantidade anunciada. Até que muitos anos depois…

Saio de casa com as despedidas matinais a deixar-me um nó no peito. Até logo. Diariamente, só volto a encontrar a família, esposa e filhos, à noite, antes de jantar, ou à hora deste.

            No carro, mesmo em estado de cama – com os olhos mais fechados do que abertos –, a rotina da viagem matinal faz-se em piloto automático. Percorro o asfalto, pensando nos problemas pendentes, que tenho à minha espera.

            Coloco o pisca-pisca para virar à esquerda, faço o último corte de acesso à fábrica e enfrento o porteiro. Troco os bons dias. À segunda-feira demoro um pouco mais, para colocar em dia a conversa futebolística. Fico a saber resultados, erros de arbitragem, classificações de vários campeonatos.

            Fecho o carro. Dirijo-me à porta de entrada. Após a sua abertura, não há engano, o som do trabalhar das máquinas indica o tipo de ambiente que vou encarar. Subo as escadas. Nos três mil e seiscentos metros quadrados da instalação fabril, cento e trinta funcionárias, de bata azul clara, estão compenetradas no desempenho da sua função.

            Esta tem sido a minha vida. Dia após dia, em ambiente fabril. Como tenho feito carreira profissional em transformação têxtil, sob a minha responsabilidade existem sempre mais mulheres do que homens. Ao longo destes anos, em empresas diferentes, conheci várias centenas de funcionárias; não deve andar longe do milhar.

            Reconheço que a cigana afinal não se enganou. Só que eu, em adolescente, ao ouvir falar em muitas mulheres na minha vida, pensei tratar-se de outra linha…

 

                                                                                                                                            (a publicar dia 12/06/08)

quarta-feira, junho 04, 2008

Fim de Ciclo?

A ideia de se construir um Centro de Alto Rendimento Desportivo (CAR) em S. João da Madeira ainda não me entusiasmou.

O grau de exigência dos habitantes de uma cidade com qualidade de vida vai aumentando com o passar dos tempos e por isso, é perfeitamente natural a reacção de desconfiança, relativamente ao anúncio deste projecto.

Confesso, como antigo dirigente desportivo, que nutro bastante simpatia pelo conceito do desporto de alta competição. Desde o anúncio do CAR, analisei as várias opiniões emitidas, dos cépticos aos alinhados e não fiquei convencido com os argumentos apresentados. É certo que até ao próximo ano (esta fase de execução do plano de pormenor tem a duração de 12 meses), podem surgir uma série de factos ou factores, que me podem convencer da utilidade e importância para o concelho de tal empreendimento.

Vejamos então, quais as minhas dúvidas sobre a oportunidade deste projecto, que se resumem a três: urbanísticas, desportivas e investimento público.

A inauguração do Parque Urbano do Rio Ul trouxe um dado concreto por parte do projectista. Segundo o Arquitecto Sidónio Pardal, um Parque Urbano demora uns trinta anos a consolidar-se. Se olharmos para os últimos trinta anos, verificamos que a cidade ganhou três espaços verdes. Primeiro através da “doação” de terrenos e árvores, para o Parque Municipal Ferreira de Castro, há alguns anos o Jardim na Avenida da Liberdade e agora com este aproveitamento das margens do rio, em terrenos consagrados na reserva ecológica do concelho.

Para as gerações futuras, os terrenos municipais que restam são poucos. Ao longo das próximas três dezenas de anos, para se continuar a viver com qualidade de vida, é necessário proceder-se à abertura de novos espaços verdes, ou ampliação dos existentes. É certo que os terrenos agrícolas, no lado poente da cidade, poderão dar lugar a um novo parque urbano. Mesmo com esta reserva equilibrada, de longo prazo, parece-me que a natural procura por parte dos munícipes do novo parque do Rio vai obrigar a, no imediato, surgirem soluções de lazer, de forma a enraizar os hábitos urbanos da população. Neste sentido, salvaguardar-se, a médio prazo, os terrenos adjacentes a norte, para aí se estudar hipóteses de implantar novos conceitos de cidades criativas, do conhecimento e da cultura, seria o aconselhável.

Essencialmente, para que não fique apenas o conceito da modernidade, os vinte e quatro hectares consagrados para o CAR seriam suficientes para albergar um parque temático, direccionado para o conhecimento. Exemplos que me ocorrem de espaços semelhantes: Visionarium de Santa Maria da Feira, ou Fluviário de Mora.

Nos últimos anos, os investimentos municipais em equipamentos desportivos, além de proporcionarem melhores condições de treino e jogo aos atletas locais, visaram, sobretudo, a componente de manutenção desportiva, permitindo aos munícipes alugar espaços para a prática de exercício físico. Ao investir num equipamento que não servirá no imediato os habitantes da localidade é, digamos, trocar o bem-estar das pessoas por um cartão-de-visita do município.

Tenho muitas dúvidas, em matéria de ocupação pelas diversas federações desportivas, de quais realmente precisarão de um novo espaço. Existem várias modalidades que devido ao treino em condições específicas, como canoagem, remo, ou vela, estão a desenvolver, em locais apropriados, centros de alto rendimento em determinados pontos do país, com condições naturais para a prática desses desportos. Em Sangalhos vai nascer um CAR associado ao ciclismo, em Rio Maior um para a Natação, o do Jamor vai ser preparado para o atletismo, Mirandela tenta o de ténis de mesa.

O CAR das Travessas poderá estar ocupado, durante vários dias, pelas mais variadas federações e desta forma como se articulará a actividade das colectividades locais? Retirar essa hipótese aos munícipes, implica uma redefinição na política desportiva da cidade.

Em matéria de investimento municipal, as prioridades parecem-me ser outras. Em primeiro lugar, pela falta de capacidade do município. Em 2008 para terminar com os jeitos na rua dos mesmos e com o túnel da Rua 5 de Outubro, a autarquia teve que recorrer à banca. Nos próximos anos, deveria avançar para a transformação do cinema Imperador em Casa das Artes do Espectáculo, o que por si só implica um grande investimento. Caso não haja comparticipação imediata, terá que se recorrer a outro empréstimo.

Penso que tudo poderá ser amenizado, com a lógica das mais-valias para o município, associada aos vários planos de pormenores lançados recentemente. Onde actualmente existe um gaveto, uma empenha de um prédio, um terreno, idealiza-se a edificação, a construção, com toda a possibilidade de criar receitas para o município, através de taxas, impostos e quejandos.

Esta visão empresarial provavelmente é a mais correcta para o concelho mas, confesso que me assusta, pela ausência de políticas centradas nas pessoas, nas suas necessidades e nas suas susceptibilidades.

Na década de 90, do século passado, S. João da Madeira discutiu durante anos a possibilidade de abertura na cidade de um pólo universitário. Várias tentativas foram ensaiadas, desde instituições privadas, até a acordos com a Universidade de Aveiro. Nas eleições autárquicas de 2001, apareceu um candidato que rompeu com a ideia. Tratava-se precisamente do actual Presidente da Câmara Municipal, Castro Almeida.

Sete anos depois, a cidade está de novo focalizada num projecto externo e desenraizado. Corresponderá isso ao fim de um ciclo eleitoral?



(a publicar no dia 05/06/08)

quarta-feira, maio 07, 2008

Fronteira

Conheci Américo Tomás numa tarde amena de Verão. Eu estava com dois companheiros a saciar a sede numa loja no lugar de Rio de Frades, concelho de Arouca. Tínhamos chegado a pé, vindo de Cabreiros, percorrendo o bastante desnivelado caminho do carteiro, João de seu nome. O exclusivo dos seus passos na encosta tinha sido quebrado nessa tarde. Talvez por isso, a dona da loja esmerou-se na preparação duma refeição, umas latas de atum acompanhadas por cebola às rodelas. Provavelmente, a única refeição preparada para uns forasteiros. A recordação de outros tempos abriu caminho para a generosidade, ou talvez a misericórdia, pois ainda teríamos que subir a íngreme encosta.

Entre tragos, a conversa. Tendo como objectivo a procura de vestígios do passado mineiro. Para além dos túneis, dos escombros, dos edifícios vandalizados, os testemunhos físicos da epopeia vivida pela 2ª Guerra Mundial, queríamos ouvir uma história qualquer, para compreender o apogeu daquela povoação, quando ali viviam alemães. Sem pensar na comparação com a presença dos ingleses, em idêntica laboração a menos de cinco quilómetros.

Ao ouvir o rumo das perguntas, apresentou-se o homónimo do ex-almirante e ex-presidente da República. Habilmente, com a experiência de mais de sessenta anos, encaminhou a conversa para dias mais recentes. Entre as peripécias causadas pelo seu nome, contou a infelicidade que o Estado provocou a uma professora primária de Espinho, colocada precisamente naquele lugar no inicio da sua carreira e terminou expondo a sua dúvida, como teria chegado ali o ser humano. Sem tempo para mais e já a pensar no esforço físico a desenvolver para alcançar o automóvel, não nos demorámos nas procuras arqueológicas do nosso interlocutor.

Cinquenta anos depois do grande conflito mundial, nesta aldeia serrana a memória do seu passado glorioso, embora com fins extremamente sangrentos, era escondida. Uma opção que a ser seguida, possivelmente apagará para o futuro, a envolvência do concelho na grande guerra. Por vergonha, por ignorância, ou por desconfiança, assim se vão perdendo os legados do passado e daqui a muitos anos a estratificação humana, juntamente com a natural, remeterá tudo ao esquecimento.

As dificuldades em procurar a história recente, não são comparáveis à tentativa de compreensão do passado remoto.

No dia em que subi a uma das torres do Castelo da Feira, o grande ícone das Terras de Santa Maria, não tive nenhum cicerone. Ninguém chamado Afonso Henriques, nem Sancho, nem com algum dos nomes dos sucessivos condes e senhores do castelo.

A história disponível do castelo explica uma série de pormenores de arquitectura militar, no entanto, apesar disso tudo, não aclara quanto à sua disposição, nem a proximidade ao mar. Nas repetidas leituras e dos acontecimentos históricos associados à reconquista cristã, verifiquei a ausência de qualquer dado para esta região acerca da conquista muçulmana da península e consequente defesa.

Consta em variados textos, que provavelmente o castelo terá sido construído no período da reconquista sobre uma fortaleza existente. Mais baralhado fiquei. Estar dentro de muralhas e avistar o mar, inquietou-me. O recuo do oceano, a formação do cordão de areia com inicio no Carregal em Ovar e estendendo-se até Mira é assumido pela geografia. A semelhante distância à linha de costa tal como os Castelos de Óbidos, ou Aljezur permitiu-me imaginar: um possível alinhamento de fortificações para defesa da costa. Durante meses agarrei-me a essa ideia. No entanto, descobri ser aceite, que por volta de século XI, a costa marítima na zona de Ovar deveria estar situada precisamente nas imediações da actual linha de caminho de ferro. Bem distante, portanto, da fortificação. 

Apesar do desalento surgido e eliminada a possibilidade marítima, concentrei-me na questão da disposição.

Voltei às invasões muçulmanas.

Num parágrafo apresentam-se os factos cronológicos: em 711 os muçulmanos dão início à invasão árabe da Península Ibérica; em dois anos conquistam todo o território peninsular com excepção da província Asturiana; passados 5 anos, em 718 Pelagio das Astúrias um nobre visigodo é eleito rei e avança sobre o exército árabe, iniciando a reconquista Cristã; entre avanços e recuos comandados por sucessivos Reis, depois de conquistada a Galiza em 750, é finalmente tomada a cidade do Porto em 888; em 1066 é conquistada Coimbra e a partir de 1139 entramos já na história de Portugal.

            Um parágrafo, quatro séculos. Lendo melhor, entre a conquista do Porto e a de Coimbra quase dois. Durante este período, que infelizmente se encontra numa nebulosa, sem grandes trabalhos e investigações históricas para esta zona, pouco ou nada se sabe. Cristophe Piccard, historiador francês publicou em 2000, no livro “Le Portugal Musulman”, a noção de que existiria uma linha de defesa e de fronteira, perfeitamente delineada ao longo do rio Douro. Um historiador nacional, Correia de Campos (em 1970), refere mesmo uma linha de defesa composta por uma série de fortificações e castelos ao longo de todo o trajecto do rio Douro, no espaço que é hoje o território português: “Antes da constituição do reino, o fosso do Douro serviu, (...) num determinado período, a linha de fronteira entre a Cruz e o Islão. Uma cortina de fortes ou castelos estendia-se por toda essa linha de alturas, começando, também para defesa da costa, no Castelo da Feira, Castelo de Paiva, Cinfães, Cárquere, Lamego, Penedono, Numão, Castelo Rodrigo e Pinhel, para só nos referirmos aos principais.”

            Tudo isto se encaixava na série de dúvidas por mim formuladas sobre a disposição do Castelo da Feira: virado para Norte, com possibilidade de visão sobre poente.

            Voltando ao século XX, numa aula, de cerca de duas horas, de Geologia de Portugal, o meu professor após uma explicação muito convincente sobre o período Terciário, terminou dizendo: “qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”. Já no século XXI, pensar em escrever num jornal que, durante um século uma das linhas de fronteira do mundo cristão foi precisamente aqui em Terras de Santa Maria, remete-me para o campo da ficção e obriga-me a terminar de forma semelhante à do meu professor.  
 
(a publicar dia 08/05/08)

quinta-feira, maio 01, 2008

Questões de Abril

            No pretérito mês de Abril, a actividade política nacional voltou a cruzar-se com o quotidiano local.

            A “lei das Autarquias” não foi aprovada na especialidade. Resumidamente, depois de ter sido proposta em Dezembro de 2007, pelos principais partidos com assento parlamentar, o PSD reagiu às críticas surgidas, em especial, pela ANAFRE – Associação Nacional das Freguesias e votou contra o decreto de lei de que era co-responsável. Eram necessários dois terços dos votos parlamentares, pelo que em 2009, nada se alterará na elaboração das listas para as eleições autárquicas. Aliás, nesta matéria, nos últimos quatro anos só se produziram propostas de projecto de lei e claro, um maior controlo ao endividamento das autarquias, o que deixou perfeitamente irritados os seus responsáveis.    

            Se da Assembleia da República veio a vontade de não reformar, da Assembleia Municipal surgiu a natural aprovação do relatório de contas referente ao ano de 2007. Uma não notícia, apimentada precisamente pela redução do endividamento municipal. Um sinal claro das actuais preocupações dos autarcas. No outro prato da balança coloca-se a incapacidade de previsão orçamental. A não execução de vinte a vinte e cinco por cento dos valores orçamentados, tem consequências ao nível das verbas associadas, que pura e simplesmente estavam indexadas, rubricadas e não foram utilizadas para os fins previstos.  

            Nada disto é relevante comparado com o grande assunto de momento da política local. Nada relacionado com questões financeiras. O tema para o próximo mês será a eleição para presidente do PSD. 

            Se o envolvimento dos militantes, como se trata de eleição directa, é inevitável, mais legítimo é o apoio a qualquer um dos candidatos. Nesta lógica partidária, não admira vermos um activo militante, como Castro Almeida, abraçado a uma das candidaturas. 

            A instabilidade na liderança do PSD, já permitiu ao actual presidente da Câmara, no exercício das suas funções, ter contactado com quatro presidentes de partido, em sete anos. Bem, a longevidade do actual Governo, faz-nos esquecer que durante esses anos, Portugal teve precisamente quatro “chefes” de governo. Neste clima de mudança, não constante mas de alguma incerteza, é difícil fazer-se projecções sobre a carreira dos agentes da política local.

            A título de exemplo, no final do ano passado, em virtude da posição conseguida no Conselho Nacional do PSD, tudo apontava para que Castro Almeida fizesse sombra a Luís Filipe Menezes, durante o presente ano, para consolidar o seu estatuto de político de âmbito nacional.

            Passados seis meses, tudo mudou e ficou em aberto.

            Nesta fase, a sensivelmente um mês das eleições do PSD, é ainda prematuro fazer cenários com base em eventuais resultados finais, até porque no momento em que escrevo, não é certo quem realmente será candidato.

            Como não conto voltar a este assunto, terei que corrigir o parágrafo anterior. Não fazer cenários, mesmo que prematuros e fantasiosos, seria imperdoável e certamente alguns leitores não me desculpariam a omissão.

            Um resultado possível é a derrota da candidata apoiada por Castro Almeida! Com este desfecho, o autarca local exerceria o seu mandato até ao final, centralizado na cidade e preparando a sua candidatura autarca para mais um mandato. O objectivo, durante os próximos anos, seria ascender a médio prazo a protagonista da política nacional.

            Já a vitória do PSD sobre o PPD, poderá alterar o panorama político local. Tudo depende do grau de envolvência de Castro Almeida na eleição da candidata por si apoiada. Como o partido necessita de se apresentar com protagonistas com uma visão de Estado, obrigará a uma dedicação maior à causa nacional. Nesta hipótese, bastante provável, o actual autarca continuará a exercer o seu mandato, embora as três etapas de unir, credibilizar o partido e por fim, preparar as eleições legislativas obrigam a disponibilizar mais do seu tempo a questões nacionais.

Dentro deste cenário surge a derradeira hipótese, a vitória do PSD nas próximas eleições legislativas. Estando dentro do núcleo duro do Partido, Castro Almeida será certamente convidado a exercer funções governativas, o que o afastará por uns anos de S. João da Madeira, cumprindo assim, os prometidos oito anos de mandato como Presidente da Câmara Municipal.

A um ano e poucos meses das eleições legislativas e autárquicas, que curiosamente podem ser no mesmo mês, ou até no mesmo dia, a acção política local fica, para já, adiada até ao final de Maio.

Em pouco tempo, todas as certezas desapareceram. Passamos ao campo das suposições e as aqui formuladas não passam de hipotéticos cenários, sem qualquer rigor. No entanto, aos leitores, que me leram até estas linhas, penso ter arrancado um sorriso – nalguns casos de contentamento, noutros de incredulidade. De qualquer forma, a indiferença não provoca sorrisos.

 

(a publicar dia 02/05/08)

terça-feira, abril 22, 2008

Alvoradas

            Uma mudança de casa implica uma série de tarefas: empacotamento, carregamento, transporte e consequente arrumo, dentro das prioridades pré-estabelecidas sobre os nossos pertences. Alguns objectos vão ficando para trás, esperando o seu momento para serem transferidos.

            Ao deixar para o final um pequeno cágado criei uma aflição num dos meus familiares. O sossegado bichinho ficou uns dias à espera da sua hora na mudança. Entretanto, no remate das tarefas, o cágado lá veio para a nova casa, para descanso do ente querido. Curiosamente, este foi um dos poucos animais que até hoje não perturbaram o meu sono. Infelizmente, o cágado não durou muito tempo e provavelmente por isso, não teve oportunidade para essa interacção comigo.

            Além deste, poucos foram os animais que dormiram dentro de minha casa. Peixes dentro dum aquário, com a natural sucessão de vidas em água fria, acompanharam-me durante anos. Apesar de serem extremamente calmos, ainda fui acordado algumas vezes pelos ocupantes da tina. Um salto matinal, um borbulhar mais ruidoso, ou o raio de um batente do varão dos cortinados que numa madrugada caiu precisamente dentro do aquário, de forma ruidosa.

            É evidente que comparados com o ladrar de cães, isto são pequenos barulhos. Os canídeos são sem dúvida, um dos maiores agitadores de sono dos humanos. Neste momento vivo rodeado por vizinhos, donos de cães. Várias são as noites que ladram. Umas vezes, é o cão do vizinho da frente, outras vezes é o das traseiras, outras ainda é um dos que vivem ao lado. Normalmente, não me apoquento muito. Identifico o som, mentalmente verifico a proveniência e volto a fechar os olhos. Nalgumas noites começam todos a ladrar, numa cacofonia infernal e humanamente incompreensível.

            Gatos, apesar de mais silenciosos, já me acordaram várias vezes. Nas noites de grande namoro em Janeiro, ou Fevereiro, um casal lembrava-se de entrar no jogo de sedução junto à janela do meu quarto, numa casa de família. Os esforços para os calar eram vários mas, o diálogo continuava noite fora. A melhor solução, para se obter a desejada tranquilidade, era soltar os cães, tarefa que um dos vizinhos, com acesso à propriedade, incumbia-se de fazer.

            Além destes animais mais comuns dentro dos domésticos, é óbvio que várias manhãs, acordei com o cacarejar de galos. Embora esse despertador campestre, com toque prematuro relativo à alvorada industrial, permita voltar a adormecer, o que sabe sempre bem.

            No campo já despertei com relinchar de éguas, com chocalhos no pescoço das mesmas, ou de gado diversificado. Inclusivamente numa determinada noite ouvi uns passos de pequeno roedor, por cima do tecto do quarto onde estava a dormir.

            Acordo todos os dias e fico logo a ouvir o piar dos passaritos. Despertei várias vezes com eles, em manhãs fantásticas de Primavera, ou Verão. Durante algum tempo, foram o relógio da minha filha, que acordada pelo chilrear dos pássaros, verificando ser de dia, adorava partilhar a madrugada com os progenitores.

            Se na cidade e no campo, podemos ser incomodados pelo som madrugador destes, ou de outros animais, imagine o leitor o que poderá acontecer junto ao mar.

            Uma alvorada ouvindo gaivotas é do mais irritante que existe (sobretudo, quando estas vivem como pombos, comendo da mão humana). Em primeiro lugar, por não ser um som habitual, temos dificuldade em o identificar, o que nos leva a despertar intrigados. Depois de reconhecido o incomodativo barulho – uma espécie de gargalhada alarve -, verifica-se que nada as faz parar até ficarem com a sua fome saciada. Fui espreitá-las e estavam posicionadas em frente a uma janela de um dos prédios, no largo onde eu tentava dormir, à espera que a mão amiga acordasse e as alimentasse. O que só aconteceu após muita risada, destes animais com penas.     

            Este foi um amanhecer extremamente desagradável, só superado pelas incursões nocturnas de alguns bichinhos. Em casa depois da mudança, tivemos uma invasão de um morcego. Ficou pelo tecto falso. Como estava desorientado, batia com as asas no pladur. Foi difícil adormecer, com o intruso por cima das nossas cabeças. Só descobriu a saída dois dias depois, pelo que se dormiu em sobressalto.

            O voo dos pequenos mosquitos ou melgas é extremamente comum e desagradável. Mesmo com os eficientes ou eficazes sistemas eléctricos para os destruir, estes insectos parecem cada vez mais inteligentes. Nas noites que me despertam e provocam longas insónias, observo comportamentos curiosos: tentativas de camuflagem em portas de madeira; procura de esconderijos por baixo das camas, ou atrás de armários; ou simplesmente pousados no chão. Os que estão satisfeitos, pesados pela recolha de sangue humano e por isso, lentos, têm normalmente o destino traçado e esmagado.

            Se os insectos voadores nos invadem o sono, em geral pelo processo auditivo e claro, pelas suas picadas, confesso que uma das alvoradas mais curiosas que vivi até hoje, foi precisamente com formigas. No tal quarto da casa de família, acordei uma manhã com uma desagradável sensação de cócegas nas pernas. Por vezes, esse extremar da sensibilidade era acompanhado por pequenas pontadas. Quando espreitei, verifiquei estar no trilho de formigas. Fiquei na incerteza de qual seria o destino daquela correria e claro, a dúvida do que tinha provocado estes bichinhos a escolher a minha cama.

            Termino sem saber, que tipo de surpresas me reserva o futuro.

 

(a publicar dia 24/04/08)

quarta-feira, abril 09, 2008

Vinil

Na edição comemorativa dos vinte anos do Labor, entre os demais destaques, recordou-se a sua origem hertziana. A explicação, para a procedência do jornal, deixou no ar um certo desapontamento pela orfandade, a que a Lei da Rádio vetou o jornal. Não está explícito nas palavras do director e fundador do jornal, Pedro Silva, mas a amputação, com a não atribuição da licença radiofónica, ao projecto global de comunicação social, ainda é sentida como uma desilusão.

Recuemos os vinte e poucos anos: em Portugal existiam dois canais estatais de televisão, uma série limitada de rádios estatais, ou sob a alçada da Igreja Católica. A rádio era a principal alternativa, para quem não queria passar horas a olhar para os programas da RTP, por exemplo, quem optava por estudar pela noite fora, preferindo um som de fundo.

O fenómeno das rádios piratas atraiu vários ouvintes. A novidade, a proximidade, os animadores e locutores conhecidos, as notícias, os resultados e o acompanhamento em directo do desporto local e sobretudo, os discos pedidos eram as principais atracções. Neste contexto, surgiram duas rádios em S. João da Madeira.

            A rádio Serra – Mar emitia e operava em local privilegiado, no piso zero do edifício que alberga o Centro de Arte. Pelo menos, durante algum tempo. Em Outubro de 1986, fui convidado para divulgar algumas das músicas que eu gostava, ao abrigo de um programa existente. As sessões repetiram-se semanalmente, por mais uns três meses. Até que em meados de 1987, com apenas 16 anos, passei a ter uma hora de emissão semanal, ao Domingo às 22 horas, sob a minha responsabilidade. Estávamos na década de 80 e apenas optava por emitir som de grupos dessa época.

Para recordar mais do que isto, vi-me aflito.

Lembrava-me de ter feito rádio, de alguns episódios vividos e de algumas músicas que obrigatoriamente tinham tocado. Recordava a última emissão, no final de Julho, tendo como convidado um Inglês, oriundo de Newcastle, que liderou todo o programa. Foi o único registo áudio efectuado e claro, viajou com o súbito de Sua Majestade, quando terminou o período de intercâmbio, em que estava inserido.  

            Sem registos, sem memória dos acontecimentos, sabia que a noção de rádio pirata, pela irreverência do nome, estava adequada ao meu conceito de juventude. A oportunidade de divulgar os discos adquiridos por um vasto auditório, de dissertar sobre as bandas que gravavam os seus sete ou doze polegadas, como eram conhecidos os discos em vinil, era basicamente o que me interessava. A mim e a quase todos os que se tinham transformado em colaboradores de rádios em frequência modelada.

Revivi o tempo em que era metódico e extremamente organizado. Os álbuns, em casa dos meus pais, eram ordenados por ordem alfabética e fazia o registo para a posteridade das músicas seleccionadas para cada programa. Com algum esforço, descobri-os. O tempo tornou o papel amarelado, a tinta ainda continua viva. Nomes de bandas e de músicas que me acompanharam durante anos. Outros nomes de bandas que já tinha esquecido e por isso, passei uma noite agarrado ao Youtube, procurando essas preciosidades.

A título de exemplo, a 8 de Janeiro de 1987, num programa dedicado a divulgar alguns dos melhores trabalhos do ano anterior, tocaram pela seguinte ordem: New Order, The Smiths (o ano da edição do mítico The Queen is Dead), Cocteau Twins, as misteriosas Voix Bulgares, Woodentops (fantásticos, recordá-los foi uma emoção), R.E.M. (ainda longe do êxito actual, que se desenhou a partir de 91), Stan Ridgway, Carmel e os portugueses G.N.R., que tinham acabado de fazer um concerto em S. João da Madeira.

Curiosamente, nas últimas páginas dos apontamentos surgiram nomes da singularidade dessa época, indicadores duma certa tendência de divulgação de novos valores: The Wedding Present, Shop Assistants e Primal Scream.

A rádio entretanto perdeu o lado pirata, passou a local. Eu fui de férias por dois meses e quando voltei, não tinha espaço na grelha, ou então, prescindia do Sábado à noite, o que não era nada aliciante.

Músicas mais antigas (ouvidas na infância) ocupavam mais horas nas ondas hertzianas, com os eternos riscos no vinil; a última música do primeiro lado do vinil a ser tocada até ao fim e em directo, a agulha a entrar pela faixa sem gravação, a levantar e o braço a dirigir-se para o repouso. Músicas a entrar no final. Rotações trocadas. Uma vez, duas vezes, várias e passei a sintonizar outras frequências.

A Lei da Rádio deu a machadada final. Calou-se a Serra Mar, abriram-se novos canais. Nunca os segui atentamente. Fui a andares ou a caves como convidado, já em funções associativas e pouco mais.

Ouço rádio apenas no automóvel. Em casa, esqueço-me de sintonizar qualquer uma: nacional ou local. A vulgaridade das rádios locais tornou-as inaudíveis. Os meios técnicos são hoje superiores mas, tornou-se tudo demasiado repetitivo e boçal.    

A interrogação que fica é se tudo seria diferente se a licença de rádio tivesse sido atribuída à Serra - Mar? Sinceramente, apesar da simpatia pelo projecto da então Cooperativa, o tempo encarregar-se-ia de tornar tudo semelhante. Certo é o que estes anos decorridos vieram provar, em matéria de comunicação social, o jornal Labor ser melhor produto do que qualquer uma das rádios existentes no concelho.

Fica para a posteridade o misticismo de um nome, banal é certo, mas que serviu para muitos poderem por umas semanas, ou meses, partilharem os seus gostos musicais, através do registo determinante para o início das rádios piratas, precisamente, o vinil.

 

(a publicar dia 10/04/08)