terça-feira, setembro 23, 2008

Memória

António havia recebido o convite para um jantar de amigos de outrora, através dos seus pais. Os organizadores não tinham outra forma de o contactarem, senão o número de telefone da casa dos seus progenitores. De início, António considerou normal o procedimento, só depois reflectiu sobre a quantidade de anos que tinham passado, sem que alguma vez tivesse encontrado algum dos seus antigos colegas e amigos. A melhor evidência era não ter recebido nenhum mail, nem sms, nem chamada no telemóvel. Tudo isso tinha aparecido anos depois da comum convivência.

Como tinha que se deslocar alguns quilómetros, António por prudência e respeito pelos amigos, optou por sair do emprego atempadamente. Entrou no restaurante marcado, descoberto com facilidade, dirigiu-se ao primeiro empregado que avistou e pela resposta obtida, apercebeu-se que tinha sido demasiado cauteloso com o horário. Ainda assim, preferiu sentar-se na mesa indicada. Ao tirar o casaco, pediu um aperitivo que foi saboreando.

Ficou à espera, pensando na quantidade de anos que tinham passado. Distraiu-se a contar os lugares marcados e a fazer uma previsão de quem seriam os restantes convivas.

Ao fim de alguns minutos chegou um grupo de antigos colegas. Sem esforço recordou as caras e associou a cada um o nome, apesar do tempo passado. Cumprimentaram-se efusivamente e trocaram a conversa de circunstância: a morada, a profissão, o estado civil, os filhos, a descrição da monotonia dos dias de semana e os programas de fim-de-semana, que afastam as pessoas para longe do seu passado.

O grupo foi crescendo, com a chegada dos outros convidados. Trocaram iguais informações entre aqueles que já não se viam há bastante tempo. Aos poucos introduziram-se outros temas nas várias conversas: a saúde pessoal e de familiares, histórias do presente, projectos para o futuro, as viagens, as férias de sonho, o sucesso dos filhos, os hobbies, o futebol, entre outras.

Quando a propósito uma ou outra recordação dos tempos de juventude. Um ou vários momentos vividos, que por terem sido tão peculiares, merecem a sua evocação.

Nestas ocasiões relembra-se os amigos comuns, sem sentido estarem presentes no repasto, embora sejam elos de ligação entre pessoas conhecidas e sobre os quais devemos informar do seu estado. António, já com todos os convivas sentados à mesa, lembrou-se disso, enquanto falava com a sua ex-colega Márcia e contou-lhe que Frederico ia ser pai de gémeos. Quem? Márcia não se recordava de nenhum Frederico. António tentou encontrar várias formas de lhe recordar o nome, a pessoa, os momentos vividos pelos três. Márcia não se lembrava de nada. Não vale a pena insistir, disse-lhe Márcia. Não era um assunto de maior importância e António já não estava com Márcia seguramente há dez anos. O Frederico tinha desaparecido da vida de ambos um tempo antes e pelas voltas da vida, António voltou a relacionar-se com ele.

Enquanto o jantar era servido, a conversa prosseguiu e António fez várias alusões ao seu passado em comum com Márcia. Um concerto, ela não fazia ideia. Um jantar numa recôndita vila do país, nada. Um outro programa e igualmente nada. Não desesperou e não duvidou da sua sanidade, nem criticou a memória da sua amiga.

Apesar de tudo, desde o início do jantar sentiu sempre que o reencontro entre ambos estava coerente com a relação que tinham mantido no passado. Interesse mútuo e compreensão pelas conversas e preocupações do outro, davam para perceber que a afinidade entre ambos não tinha sido esquecida. Mesmo dez anos depois.

Não sendo o problema dela, o mal estava nele. Na sua memória que fixava coisas insignificantes. Recordava-se de pessoas sem interesse algum, de assistir a concertos que não tinham feito história, de procurar aldeias e vilas para obter uma refeição, sem qualquer condimento especial, em restaurantes entregues à indiferença e por aí adiante.

Percebeu como se tinha enganado no passado. Como tinha sido desinteressante a sua vida. Memórias pessoais sem qualquer significado para o presente, nem para manter uma conversa em jantares de pessoas com vivência em comum.

Tentou com Gustavo, sentado à sua frente, encontrar traços do passado. O resultado foi igual ao obtido com Márcia.

Enquanto Márcia, sentada à sua direita conversava alegremente com a amiga do outro lado, António virou-se para a esquerda e escutou uma história, que bem recordava. Acrescentou uns pormenores à narrativa de Miguel, que exercitava a memória do período juvenil, sentindo que o seu acréscimo não era reconhecido por ninguém. Podia ter ouvido um sensato “já não me lembrava”, ou um entusiástico “pois foi!”. Nada disso. Apenas um indiferente “não me lembro”, seguido de desconcertantes “nem eu”.

Sentiu que estava ali a mais.

Simulou a recepção de um telefonema, alegou a necessidade de uma saída urgente. Providenciou o pagamento do seu jantar, vestiu o casaco, despediu-se e saiu, sem esperar que lhe fosse servido o café.


(a publicar dia 25/09/08)

quarta-feira, setembro 17, 2008

Três anos

            - Tens que mudar de fotografia! Esta é antiga, está desactualizada.

            Estávamos em Setembro de 2005 e os meus primeiros artigos de opinião tinham começado a ser publicados. Como qualquer novato nestas lides, eu pretendia verificar a aceitação dos meus textos juntos dos leitores e conterrâneos. Não foi aquela a primeira impressão recolhida, mas ficou-me na memória. Em lugar de um maior cuidado na apreciação do conteúdo, apenas a forma era analisada. Como a opção do tamanho, o tipo de letra, ou de critérios de paginação não eram da minha responsabilidade, sobrava a fotografia que me acompanha desde que me foi solicitada pelo jornal, para o principal motivo de crítica.

Não mudei de fotografia. Não cedi a tal argumento. Antes pelo contrário, mantive-a. Passei a ser uma “imagem” do interior do jornal. Para muitos leitores, no fundo, é disso que se trata, um rosto com palavras ao lado. Enquanto outros, entre os quais amigos e conhecidos, observam o título, lêem os vários caracteres formando as palavras, seguem as frases ao longo dos parágrafos e sem esforço, chegam ao final do texto.

Pelo meio factos, relatos, opiniões, análises, contos, estórias ou crónicas foram o produto destes três anos que em me dediquei à escrita, no jornal. Iniciei-a com o objectivo de criar uma forma de “comunicação” com os leitores. Um acto de cidadania, em que procurei manter a minha independência. Escrevo sozinho. Raramente recebo recados, ou me presto a encomendas. Os temas para análise ou opinião são escolhidos por mim. Por vezes, divago na escrita, dando palavras à imaginação.

Atravessei estes três anos em concordância com as minhas convicções.

Não cedi. Não vacilei na crítica. Não me embriaguei com argumentos de outros, nem com as inaugurações sucessivas, nem com os projectos para o futuro. Mantive-me firme na análise, na procura de dados, na emissão de opiniões divergentes.

Não me resignei.

Tenho procurado ser discordante quando a propósito e o contrário a despropósito. A conciliação não me agrada. No entanto, ao longo destes três anos, nunca senti qualquer falta de cordialidade dos visados das minhas palavras.

Não ofendo.

Numa relação com o jornal perfeitamente simbiótica, saí do aconchegante anonimato, recebi palavras de incentivo e de reconhecimento. Não desisti de acrescentar valor a estas páginas, mesmo quando terminou o efeito surpresa dos meus textos e passei a ouvir “não cheguei a ler”, “não consegui ler”, “é muito grande”, entre outras escusas semelhantes.

Havia um pressuposto temporal, quando decidi elaborar as crónicas para o labor. O objectivo era escrever durante três anos e meio e depois suspender a colaboração. Como auto-didacta, sei que o voluntariado começa a desgastar a vontade ao fim de algum tempo. Por este motivo, impus este limite à minha colaboração com este jornal, de modo a não me tornar repetitivo, nem a cansar os leitores.

            Prevejo que seis meses antes das eleições autárquicas, tudo o que possa vir a escrever seja confundido com outras intenções. Como esse período, bem sazonal, termina pouco depois do acto eleitoral, caso o jornal esteja interessado cá estarei de novo, com uma fotografia mais recente, se quiserem…

             A contagem decrescente não podia começar da melhor maneira. O meu texto “Odores” publicado no dia 4 do presente mês, despertou para a escrita, nada mais, nada menos, do que a Alzira. Na coluna – “ bem Alzira” - da penúltima página do último número deste jornal, esta voz popular teceu várias considerações e pelo que pude perceber na NET, foram bem recebidas. Espero agora que a Alzira não se cale e seja a voz da insatisfação dos sanjoanenses, no caso do mau cheiro. É necessário não ficar apenas por palavras e se a Alzira tiver capacidade de mobilização, podem acontecer coisas giras.

 

Nota: o meu texto publicado na semana passada, com o título “Descriminar”, continha duas gralhas. A primeira era logo no título que deveria ter surgido com o correcto “Discriminar”. Obviamente, que não pretendo absolver ninguém, muito menos considero que o director do labor precise da minha clemência, por isso, no 3º parágrafo, o que pretendia escrever é que os argumentos ponderados anteriormente por Pedro Silva, poderiam ter sido melhor evidenciados, como ficou explícito ao longo do referido parágrafo. Dada a gravidade do erro cometido, é mais correcto eu pedir a respectiva descriminação e como tal, livrar-me de qualquer tipo de penitência.

 

(a publicar dia 18/09/08)

quarta-feira, setembro 10, 2008

Discriminar

Discriminação foi a palavra escolhida pelo director do labor (vou-me habituar rapidamente à nova forma de escrever o nome do jornal, dada a minha simpatia por letras minúsculas) para classificar a pretensão anunciada pela Câmara Municipal de S. João da Madeira, de apoiar a totalidade dos alunos carenciados frequentadores das escolas do município, independentemente da origem da sua residência.

É sempre bom ler um texto com opiniões discordantes da actividade unânime da política autárquica. O debate de ideias, ou a apresentação de propostas alternativas são de enaltecer.

Descrição foi o que faltou à discriminação defendida por Pedro Silva. Estatisticamente é bastante provável que existam crianças carenciadas residentes em S. João da Madeira, a estudar fora do concelho, para acompanharem o trajecto dos pais para o seu emprego. Se bem me lembro e cito de memória, segundo o censos 2001, o número de habitantes de S. João da Madeira a trabalhar fora do concelho ascendia a cerca de duzentos e cinquenta. Desde essa data, com as transformações económicas inerentes ao encerramento de empresas e abertura de novas, é perfeitamente normal que aquele número se tenha alterado. De qualquer forma, desse número de pessoas que fazem um fluxo diferente daquele política e socialmente consagrado pela aplicação estatística, haverá certamente alguns com crianças em idade escolar e com baixos rendimentos, o que rotula logo os filhos como crianças carenciadas. Dados concretos obtidos com um pouco de pesquisa, suportariam melhor toda esta ideia.

A “medida” aprovada pelo executivo municipal permitiu melhor esclarecer todo o conceito de famílias apoiadas. O emprego dos pais é a evidência de que não são merecedores de subsídio apenas os desempregados, os excluídos, os possuidores de rendimento de reinserção social e por aí fora. Além deste facto, socialmente muito relevante, era importante perceber qual a totalidade de alunos nas escolas do concelho, para de uma vez por todas se evidenciar a percentagem de alunos apoiados e daí se poder tirar conclusões sobre o tecido social da região.

Em contrapartida, um outro aspecto ficou por clarificar: a sobreposição de apoios. Segundo o Ministério de Educação serão apoiadas milhares de crianças de todo o país, em subsídio directo do Estado central, para pagamento de manuais escolares, além dos demais apoios sociais. Com o subsídio autárquico a coincidir na mesma área, esta duplicação será mesmo necessária? E mais dúvidas haveria a enunciar: quantos munícipes de outros concelhos irão realmente candidatar-se e beneficiar deste apoio?

Estes números e o montante envolvido com este possível apoio jamais serão conhecidos.

Sem querer fugir ao tema da discriminação, é necessário não esquecer o ciclo político do próximo ano – três eleições – para compreender o extravasar de competências da Câmara Municipal de S. João da Madeira, que tal como previ nestas páginas no passado dia 17 de Julho, está agora mais vocacionada em demonstrar preocupações sociais.

Apesar deste esforço, a imagem transmitida em matéria de política social é ainda de descoordenação. É certo que os beneficiários de qualquer medida de apoio agradecem essa ajuda, atendendo às dificuldades financeiras com que vivem.

Não esquecendo este ponto importante, convém lembrar que em julho a Câmara Municipal de S. João da Madeira financiou as férias a cento e cinquenta crianças. Ou seja, relativamente ao ano escolar ficaram de fora quatrocentas crianças. O período de férias escolares corresponde a mais de doze semanas e os pais apenas podem acompanhar os filhos em quatro ou cinco dessas semanas. Nas restantes, qualquer solução gratuita é bem-vinda, até porque a disponibilidade de tempo dos menores em algumas idades é problemática.

Provavelmente, durante o presente ano lectivo, os apoios da autarquia local serão alargados aos não residentes, para demonstrar que este primeiro subsídio não foi avulso. Assim, pegando no exemplo descrito, as férias apoiadas pela autarquia local poderão ser uma solução para muitos pais trabalhadores neste concelho.

Espera-se que sem qualquer discriminação.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Odores

            A divulgação no inicio deste ano, de indicadores medindo a qualidade de vida do município, teve um efeito na consciência cívica dos seus habitantes.

            Num dos estudos divulgados foi medido, essencialmente, o grau de satisfação da população. Este cenário permitiu estimular a exigência dos munícipes, na procura níveis de qualidade não aprofundados nos estudos.

            Durante os últimos meses, pela imprensa local têm surgido várias notícias, todas evidenciando um fio condutor das preocupações gerais da população. Em 2008, as questões ambientais têm ganho um fôlego impressionante no quotidiano, ao ponto do Jornal Labor colocar na primeira página, para acompanhar uma manchete alusiva à problemática dos resíduos sólidos urbanos, imagens de lixo.

            Na singularidade do concelho, as inquietações ambientais não abrangem a preservação de áreas protegidas. Tão pouco, os resíduos urbanos, atrás citados, constituem problema. A recolha está sistematizada (embora surjam pequenos problemas pontuais) e o respectivo depósito, efectuado fora do concelho, não levanta qualquer questão. Este assunto é de tal forma pacífico, que a difusão de ecopontos pela cidade foi sempre perfeitamente natural, não se tendo até à data colocado hipóteses de valorização de alguns resíduos, nem tão pouco, questionado a percentagem de resíduos que são efectivamente reciclados.

            É no domínio industrial que se agitam os problemas. A possibilidade de contaminação de solos ou de efluentes, a emissão de partículas para o exterior, a existências de ruídos, vibrações, ou maus cheiros são genericamente alguns dos motivos incomodativos para as populações.

            As imposições do Ministério do Ambiente, juntamente com a vontade das Associações de Municípios têm permitido que os resíduos sólidos industriais não constituam hoje em dia, um grave problema em S. João da Madeira.     

            Desta forma, tendo o saneamento alargado a todo o concelho, o esforço da autarquia centrou-se no condicionamento dos efluentes industriais. Com o objectivo de desviá-los do rio Ul, para se conseguir que o Parque Urbano ficasse apto para servir a população. Têm surgido alguns contratempos. O estudo efectuado por alunos do Secundário, promovendo o cadastro dos focos poluentes ao longo do curso do rio, provou que os concelhos devem trabalhar em parceria e não isoladamente. Ainda assim, neste particular o trabalho desenvolvido pela autarquia é digno de assinalar.           

            Sentindo o momento como oportuno, a população forçou a análise dos “casos” ambientais considerados mais graves. Colocando à consideração das entidades competentes, a noção de qualidade de vida.

            A emissão de partículas pela “Oliva 1925” teve direito a abaixo-assinado da população residente nas imediações daquela empresa, incluindo a troca acesa de palavras nos jornais, ou de comentários na respectiva edição on-line.

            Para culminar este processo – que foi, sem dúvida, o mais mediático ao longo do presente ano, a população recebeu por parte da autarquia um sinal claro de aprovação das suas reivindicações. A autarquia deu um parecer desfavorável ao pedido de licença ambiental da “Oliva 1925”, no âmbito da consulta pública relativa a este pedido. O parecer emitido e entregue à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN) poderá ser decisivo, para as pretensões da população residente nas imediações daquela empresa.

            Não é por falta de referência ou de notícias, dando conta do mal-estar da população, que continua por finalizar todo o processo do habitualmente designado “cheiro a casqueira”. Segundo o n.º 146, da I série do Diário da República, do dia 30 de Julho do presente ano, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 119/2008 autoriza a renovação do contrato entre o Estado e a firma “Luís Leal & Filhos”, até ao dia 31 de Março de 2009, para recolha de cadáveres nas explorações de animais mortos, por encefalopatia espongiforme bovina. Além da duração do contrato, é ainda tornado público o montante a pagar pelo Estado pelo serviço prestado, bem como a tonelagem de carcaças de bovinos e equídeos permitida.

            O mais curioso deste processo, é o facto de a resolução ter data de Julho mas, produzir efeito a partir de 1 de Abril de 2008, data de inicio do actual contrato. Face a este novo dado, fica-se com a ideia de que qualquer estudo encomendado, para exposição das preocupações da população aos Ministérios competentes, ou outro tipo de protesto organizado, terá que considerar a renovação automática do contrato, por interesse do Estado.     

            Enquanto isso, a qualidade de vida da maioria dos habitantes da cidade, quando o vento é desfavorável continua sofrível.

 

(a publicar dia 04/09/08)

quarta-feira, julho 30, 2008

No Horizonte...

 

         Escrever um texto, para ser publicado a um dia do mês de Agosto, traz um grande embaraço.

            Nos últimos dias de Julho, para quem apenas pode usufruir do período de férias, uma vez por ano e em Agosto, pouco ou nada interessa.

            Os principais assuntos de conversa são as férias e qualquer assunto sério, por mais polémico que seja, não serve para despertar a concentração. Nesta fase do ano, em que alguns familiares, amigos e conhecidos estão de férias, todo o pensamento livre tem como objectivo planear as férias. Embora já delineadas, no tocante a marcações logísticas, existem sempre pormenores deixados para a última hora. Além do imprevisto, sinal da espontaneidade neste período do ano.

            Quando prepararei os textos para publicação durante este mês, verifiquei no calendário como seria difícil escrever estas linhas para o último artigo de Julho, pois o pensamento estaria obcecado com as férias.

            Fiquei a contar com o inesperado, com alguma inspiração momentânea e se nada disto surgisse, então preparava uma crónica sobre as férias. Só que nesta altura, o teclado já não recebe impulsos vindos cérebro.  

            Tentei uma alusão a vários tipos de férias. Pensava mencionar os hábitos apenas adquiridos nesta época, como a sesta. Lembrei-me do desespero das crianças, dos meus filhos, um mês à espera das férias do pai e os contratempos fabris a intrometerem-se no desejado tempo livre familiar. Contava expor um pouco a minha privacidade, referindo o volume de livros que projecto ler, divulgando títulos e pesando o número de páginas que terei de virar para terminar a empreitada…

            Constato que tudo isso seria penoso para mim e como tal aborrecido, para quem me lê.

            Para não transformar este artigo numa espécie de não crónica, ensaio uma recordação de férias.

            Uma referência aos festivais de música, que na década passada, significavam o fim do meu período de trabalho e a romagem para as imediações destes palcos, durante três dias. Com o concerto de hoje em Paredes de Coura, a irreverência dos Sex Pistols seria importante para reconquistar a energia dispendida ao longo do último ano. Mesmo trinta anos após o sucesso desta banda, quase vinte e cinco a ouvir as palavras de ordem gritadas por J. Rotten, ainda não será desta que terei oportunidade de assistir à encenação desta banda inglesa. O relativo interesse do concerto de hoje será verificar a capacidade de resistência ao tempo deste grupo. Um dos muitos que foi vítima de um fenómeno curioso da indústria discográfica, a rápida ascensão a ícones, por morte prematura, de jovens, membros de bandas emblemáticas dos novos géneros musicais

            Curiosamente, foi em férias que passei a prestar atenção a estes factos da música. Antes de se tornar viajante do mundo e figura mediática, Gonçalo Cadilhe cruzou-se comigo alguns anos, em tratamentos nas termas. A sua capacidade oratória destacava-se e era contagiante o seu apreço pelo fenómeno Jim Morrison. As peculiaridades deste figueirense, ainda me fizeram subir a um skate, só que a iniciação não podia ter corrido pior: uma forte cabeçada no alcatrão, com direito a um rasgo da pele, foi o resultado dessa tarde de Setembro.      

            Definitivamente tenho que encerrar estas linhas. O desgaste acumulado ao longo do último ano, obrigam-me a pedir descanso.   

            Nada mais me resta senão, enviar as palavras para banhos.

            Aos leitores do Jornal Labor desejo umas óptimas férias, esperando regressar um bocadinho mais inspirado.

 

(a publicar dia 31/07/08)

terça-feira, julho 22, 2008

Conto de Verão

            Numa tarde quente de verão, Marta e Francisco encontravam-se sozinhos junto à piscina do hotel. Os hóspedes estavam recolhidos, por ser hora de almoço e o grupo de amigos, que os acompanhava no fim-de-semana, tinha saído para uma refeição, num restaurante muito conhecido na zona.

            Marta optou por ficar. Pretendia evitar as confusões daqueles espaços, não estava preparada para aguentar as esperas e ouvir os ruídos normais destas salas. Como estava recentemente separada, os amigos não insistiram. Marta pediu a Francisco para lhe fazer companhia. O amigo de sempre aceitou com agrado o convite. Era uma oportunidade para colocar a conversa em dia, ouvir os lamentos da amiga e poder ele próprio explicar os pormenores do seu falhado casamento.

            Francisco era um bom ouvinte. Escutava com atenção a amiga, sem interromper. Ajudava a terminar frases se fosse caso disso e fazia perguntas de forma frontal, o que não permitia a Marta refugiar-se em qualquer segredo. Por seu lado, Marta não estava com capacidade para fixar as palavras do amigo. Ouvia e respondia às perguntas mas, não prestava atenção ao que Francisco lhe contava, relativamente ao seu divórcio. Todas aquelas questões legais da partilha de bens, da guarda dos filhos, da tença, lhe escaparam. Fixou os motivos que levaram o amigo a separar-se, mais para poder comparar com o seu caso, ou então, por ser nessa fase em que se encontrava a sua relação e por aí permaneceria, pois não tinha qualquer filho.

            A separação é irreversível – disse Marta a Francisco. Motivado não se sabe bem porquê, provavelmente pela decisão da amiga e pelo seu estado de descomprometido, Francisco contemplou, como há imenso tempo não o fazia, a beleza da sua amiga. Sempre a admirara, sempre a apreciara, embora nunca tivesse sentido por ela nada senão uma profunda amizade.

            A conversa prosseguiu para outros temas. Pelo meio um cigarro ou outro. Francisco sentiu-se portador de uma oratória sedutora. Como se finalmente, Alonso de Quijano tivesse encontrado a verdadeira Dulcineia de Toloso e pudesse expressar todos os seus sentimentos, as boas intenções para com a sua dama, sem precisar de evocar os seus feitos enquanto cavalheiro da Mancha.

            Sem interromper o desenrolar da conversa, vieram as palavras de galanteio de Francisco. Ao ver um sorriso na boca de Marta, Francisco prontamente disse: “O teu sorriso é o inicio de uma grande perfeição”. Marta sorriu de novo. Seguiram-se mais uma série de piropos, dos quais Marta só reteve alguns: “O arco do teu lábio superior é tão perfeito que parece que foi cinzelado”; “A sensualidade começa no teu peito”. Ao ouvir estas frases Marta começou a ficar confusa. Não percebia onde queria chegar Francisco. Os seus elogios eram agradáveis de ouvir mas, naquele momento da sua vida, eram inoportunos.

            Marta interrompeu a conversa, sugerindo um banho. Sabia que Francisco não apreciaria o convite e assim, ficaria sozinha na piscina por uns momentos.

            Depois de umas braçadas, decidiu mergulhar para o fundo da piscina. Sem esforço ali chegou. Sentia-se bem, sem ouvir conversas, longe de todos. Deitou fora o ar. Aguentou-se sem se preocupar em subir. Ficaria lá. Verificou que não iria fazer algum esforço para voltar a respirar. Sem pânico, esperou pela sua hora.

            Os primeiros ruídos que ouviu, pareciam-lhe uma respiração forte, dentro de si. Abriu os olhos e viu Francisco desesperado a tentar animá-la. Desviou a cara, a água, que propositadamente se alojara em local errado, vinha para fora. Francisco não falava, abraçava-a de modo fraternal. Um dos empregados do hotel, perguntara se seria preciso chamar o 112. Marta negou com a cabeça. Francisco agradeceu a atenção e apelou à descrição dos funcionários. Mais nenhum hóspede se apercebera do sucedido.          

            Ficando a sós com Marta, Francisco ousou perguntar-lhe se estava bem. Marta disse-lhe que sim e não lhe deu mais explicações. Voltaram para as espreguiçadeiras. Francisco ajudou Marta a sentar-se e embrulhou-a com a toalha. Entretanto, enxugou-se do banho forçado. Ficaram em silêncio.

            Francisco não resistiu e quebrou o sossego: “Jamais pensei tocar nos teus lábios. Não era preciso isto…” Marta interrompeu-o: “Francisco, por favor, esse tom perturba-me. Não estou preparada para questionar a nossa relação.”

            Francisco sentou-se, acendeu um cigarro e pediu desculpa pelas suas palavras. Entretanto, chegaram os amigos do almoço. Francisco pediu a Paula, companheira de quarto de Marta, para olhar por ela, pois a amiga não estava muito bem.

            As duas amigas subiram e Francisco aceitou o convite dos amigos para um jogo de snooker. 

            Durante o restante tempo que permaneceram com o grupo, os dois amigos evitaram-se. Trocaram apenas algumas palavras, circunstanciais, apesar de Francisco procurar agradar a Marta, em gestos e discrição. 

            Separados, terminado o fim-de-semana, Marta recebeu uma série de mensagens do amigo. Apenas respondeu a uma delas secamente, dizendo encontrar-se bem. Evitou as chamadas de telemóvel, a insistência de Francisco em lhe falar.

            Face a este prolongado silêncio, nada mais restou a Francisco senão aceitar e esquecer todo o episódio, aproveitando o que restava do Verão.

 

(a publicar dia 24/07/08)

quarta-feira, julho 16, 2008

Congressos e Afins

 

O dia-a-dia da actividade política é extremamente datado - quando não comentado atempadamente, perde sentido e oportunidade.

Explorar assuntos em opiniões escritas pouco fundamentadas ou cingi-las a momentos impróprios é tornar inválidos os argumentos. Caso a dinâmica de factos, afirmações ou orientações políticas contrariem as opiniões expressas, reduzem todos os pontos de vista a mal entendidos.

Durante o último mês, após o congresso do PSD, sucederam-se uma série de afirmações dos novos responsáveis pelo partido, que seriam o mote certo para vários artigos da minha opinião.

Sensatamente, não os escrevi.

Afirmações posteriores, esclarecendo melhor alguns desses argumentos, mostraram-me que foi preferível ficar calado.

O primeiro facto foi a célebre frase: “não há dinheiro para nada”. Dentro do contexto das grandes obras públicas, obviamente. Imaginei o que seria uma análise desse género aos potenciais investimentos municipais e aos programas de várias autarquias… arrepiei-me. Passado uns dias, vários autarcas eleitos pelo PSD pediram esclarecimentos e na passada semana, o novo líder parlamentar sossegou toda a gente.

O segundo caso, não chegou a ser. O líder da distrital do Porto do PSD declarou que o autarca da Cidade Invicta seria novamente candidato. Achei estranho. Por isso, ao verificar que o tempo para tais anúncios não era o correcto, fiquei esclarecido e percebi a malandrice. É ainda cedo para a tomada de decisões. Daqui a meio ano, tudo está decidido. Lá e cá, sem querer colocar um prazo bem definido.

Por fim, o assunto mais sério. Ao colocar como prioridade a “justiça social”, a estratégia de captação de voto do PSD nas próximas legislativas, segundo vários especialistas, passa por aproveitar o descontentamento dos eleitores de esquerda do PS - à semelhança do que este partido tem feito ao PSD, desde 2005. Retirar votos ao partido do poder, que poderiam cair na CDU ou BE, parece estar a resultar. Estas duas forças, estavam cotadas em várias sondagens, com 20% dos votos em conjunto, antes do congresso do PSD. Depois da eleição da nova líder, a última sondagem apresentada (RTP / Antena 1 – dia 15 de Julho de 2008) já invertia a tendência: 17% para as forças de esquerda, subindo o PSD dos 28 para os 32%.

Neste sentido, seguir ao longo do próximo ano as inclinações das várias sondagens e a elaboração das propostas eleitorais do PSD, será bastante elucidativo, para se compreender melhor a política nacional e as vontades dos eleitores.

Um factor bastante importante será coerência de propostas, tanto no programa eleitoral para o Governo, como para as autarquias, por parte do PSD. Pelo facto de ambas as eleições serem próximas, deverá ser promovida a coesão nas promessas a apresentar.

Assistiremos em 2009, independentemente do candidato a apresentar pelo PSD à Câmara Municipal de S. João de Madeira, a um programa com uma componente política forte, versando essencialmente a social-democracia.

Com este PSD mais centralizador, com tiques de esquerda, o que resta para o PS local? Pedro Nuno Santos prepara-se para deixar a JS, em congresso marcado para este próximo fim-de-semana, no Porto. Habituado a programas políticos à escala nacional, com as sempre presentes “causas fracturantes”, o PS local terá um árduo trabalho até às eleições autárquicas do próximo ano.

Sem acreditar no espectro do sebastianismo nacional, as tarefas preliminares do novo líder da estrutura do PS local passam muito por organização interna, de forma a não chegar ao próximo ano com uma candidatura insípida, a ausência de um programa eleitoral e resumindo o acto eleitoral do próximo ano a apresentar as críticas conhecidas à gestão actual da cidade.    

Previsível será a sua vontade em apresentar propostas de esquerda modernista, no âmbito da qualificação da população local, nas facilidades no acesso às novas tecnologias e claro, no estímulo a tornar a autarquia um parceiro do “Estado Social”.   

            Independentemente dos nomes dos candidatos às eleições autárquicas de 2009, estas serão as primeiras, nos últimos vinte e cinco anos, a serem disputadas naquilo que politicamente se designa “centro”.

            É, desde então, a primeira vez nas eleições locais, em que os dois principais partidos da política nacional são os mais sérios candidatos a uma vitória para a autarquia.

            Esperemos que tal facto sirva para elevar o debate político.  

 

(a publicar no dia 17/07/08) 

 

quarta-feira, julho 09, 2008

Principezinho

 

            Na já longa história do Campo de Férias Estamos Juntos existem vários episódios, acontecimentos ou factos, que foram determinantes para a sua longevidade e actual sucesso.

Não consigo precisar em que ano, nem em rigor, qual a edição desse evento de ocupação das férias das crianças e jovens, que perdura desde 1982, em que um participante surpreendeu todos os restantes e demais monitores ou organizadores.

            A passar férias em casa de família, o jovem distinguia-se dos demais, por se fazer acompanhar por um bloco de papel e alguns riscadores. Escusado será comparar esta particularidade com as comuns, entre os jovens, bolas ou outros apetrechos desportivos (raquetes ou bicicletas), ou consolas de jogos, ou até leitores das datadas cassetes.

Este era diferente. Desenhava. Bem, acrescento eu. Resumia os seus trabalhos a bonecos. “Desenho bonecos”, dizia com uma simplicidade e alegria contagiante. Ao longo desse mês a actividade do Campo de Férias ficou retratada, caricaturada pela mão deste pequeno ilustrador. 

A qualidade dos seus trabalhos extravasou o Campo de Férias e uma galeria de arte em S. João da Madeira reconhecendo o seu mérito, expôs alguns dos seus quadros.

Curiosamente, seria através da música que este jovem se afirmaria.

Refiro-me em concreto, a Manuel Cruz. Celebrizado no panorama musical nacional como vocalista dos Ornatos Violeta e Pluto e tendo agora lançado o seu primeiro trabalho a solo.

Poderia continuar este texto, invocando as suas capacidades musicais, no entanto, vou-me restringir à sua passagem singular pelo Campo de Férias. Possivelmente única.

A presença do Manel naquele Campo de Férias foi decisiva para o sucesso de organizações futuras da AEJ. O interesse por ele demonstrado e sobretudo, a sensibilidade para a diversão nas férias, sempre com vontade de participar em todas as actividades propostas e sugerindo outras, foram extremamente importantes.

Existia até aquela data, a ideia de proporcionar férias essencialmente desportivas aos participantes. Aulas de natação, de modalidades colectivas e de outros desportos individuais eram as principais actividades. Além disto, havia outro factor preponderante para esta opção, as novas instalações desportivas da cidade: a piscina interior e o pavilhão das Corgas.

Tal como Saint-Exupéry alterou a sua vida pelos desenhos de uma criança, os bonecos de Manel Cruz cativaram toda a essência da AEJ. A partir daquele ano, reconheceu-se definitivamente que as actividades a propor às crianças e jovens, deviam envolve-los de acordo com a sua vontade, motivando o seu interesse e participação.

A imaginação ganhou lugar cativo nos anos seguintes. O principal interesse de quem organizava as actividades era proporcionar um mês de férias único aos participantes. Ali era tempo de esquecer as aulas, a rigidez dos horários, as matérias estudadas, enfim, eram férias, com outras atenções.

O sucesso e a longevidade do Campo de Férias passaram por esta forma de estar, que agradava aos participantes. Muitas vezes contrariando a vontade dos próprios pais, como muitos reconheciam.  

Durante vários anos, o mediatismo da AEJ no contexto da cidade era conseguido apenas no mês de Julho. Os bons resultados desportivos dos atletas eram ainda poucos e isolados. Das actividades com mais visibilidade, a Festa Final na Praça Luís Ribeiro era a sua principal montra. Assisti a representações ousadas de vários jovens, que eram o culminar de um mês de participação interessada. Destaco o sapateado de um jovem luso - francês, cujo nome não me recordo; a capacidade de mobilização de Paulo Cavaleiro; a disposição para o palco de Pedro Nuno Santos; entre vários outros, que não vou nomear para não tornar a lista longa.

Existirão actualmente outros jovens que se destacam, no contexto da actividade da AEJ e do próprio Campo de Férias. É a dinâmica normal de uma Associação de Jovens, que se vai calmamente renovando em termos de idade dos seus dirigentes, mantendo os princípios de organização e o seu propósito.  

Nunca consegui perguntar a Manuel Cruz, qual o caminho para o asteróide 612. Com certeza que desde criança que o conhece. Na sua adolescência soube explicar-nos os pormenores deste pequeno planeta. Eu e outros que durante anos, dedicámos o nosso mês de Julho à AEJ, mantivemos a nossa nave em órbita.

A minha, entretanto, aterrou.

 

(a publicar no dia 10/07/08)

quarta-feira, junho 25, 2008

Tatuagens

           A propósito da eliminação da selecção de futebol de Portugal no Euro 2008, repetiu-se até à exaustão na comunicação social a expressão “o futebol é um jogo de 11 contra 11, em que no final ganha a Alemanha”.

Esta frase poderia ter sido inventada por um português, tipo um jornalista a fazer a cobertura do campeonato, ou por um jogador ou mesmo um técnico, no final do jogo da passada semana, ou então, após o jogo do campeonato do Mundo de 2006, no qual os germânicos conquistaram o terceiro lugar. Porém, não foi.

O seu autor, Gary Lineker, avançado inglês que jogou pela selecção do seu país entre 1986 e 1992 teve que pronunciá-la, certamente, em desespero. Nesse período, em fases finais das principais competições de futebol, a Inglaterra - além de não ter feito nada de assinalável - jogou com a Alemanha apenas no Mundial de 1990. Nas meias-finais, em encontro entre ambas as selecções, a Inglaterra perdeu, no desempate por grandes penalidades, após o empate a uma bola no final do tempo suplementar, com o golo inglês a ser apontado precisamente pelo autor da frase transcrita anteriormente. Mais tarde em 1996, no campeonato da Europa, provavelmente com Gary Lineker como comentador desportivo, a Inglaterra voltou a perder com a Alemanha, precisamente nas meias-finais e novamente, por desempate por grandes penalidades. Nessas duas competições, os alemães ergueram o troféu. Aliás, os últimos conquistados.

As competições internacionais entre selecções criam por vezes a noção de equipas intransponíveis para alguns. As chamadas bestas negras. A Espanha esteve oitenta e oito anos sem vencer a Itália; mais recentemente Portugal ganhou sempre a Inglaterra e à Holanda, em contrapartida tem perdido com a França; outros exemplos existem e por vezes, fazem-se afirmações como a de Gary Lineker, contextualizada numa época mas, sem significado futuro.

Mal estaríamos se assim fosse.

Na época do avançado inglês, a Alemanha perdeu nos Campeonatos da Europa de 88 e 92 com a Holanda. Em 88, assisti ao jogo da meia-final inserido numa aposta entre clientes holandeses e um alemão, dono de um bar. A passagem à final valia um barril de cerveja. Com a derrota germânica, o bar ficou de torneira aberta, algumas horas. O acesso foi garantido a todas as nacionalidades e eu não me lembro de mais nada. Em 92, os holandeses voltaram a vencer a Alemanha, ainda na fase de grupos. Ainda assim, ambas passaram às meias-finais e para surpresa de muitos, a Holanda perdeu com a Dinamarca. O que afinal, não se pôde considerar de tanta estranheza pois a Dinamarca, com os golos de Larsen, derrotou a selecção alemã, Campeã Mundial em 90.

A incerteza quanto a favoritos, vencedores, continua a ser o maior interesse do Europeu. No dia em que escrevo não sei quem serão os finalistas da edição de 2008, tenho essa desvantagem relativamente aos leitores.  

Em matéria de participação da equipa nacional já tudo foi dito ao longo da última semana.

Se nos anos noventa os ingleses baquearam nas penalidades, os portugueses terminaram os jogos com a Alemanha, na década actual, olhando de lado para o seu guarda-redes, independentemente dos seus méritos enquanto jogador e profissional de futebol.

Para quem segue a participação das várias selecções nacionais desde o Euro de 1984, tudo o que aconteceu na Suíça não é novidade. Favoritismo, vedetismo, contratos milionários, estágios interrompidos, jogadores baixos, convocatórias controversas e erros defensivos não são de agora. Resumindo, a displicência nacional.

Nestes últimos vinte e quatro anos, as mudanças dos jogadores portugueses são mais de aspecto capilar. Em 1984, os bigodes eram a principal característica dos nossos seleccionados. Doze anos depois, sem o peculiar “pêlo na venta”, com excepção do seleccionador, a participação portuguesa reduziu-se ao risco ao meio efectuado por Poborsky a Vítor Baía. Passados quatros anos, a imagem felpuda de Abel Xavier foi o desalento da selecção. Em 2004, vencido o trauma da meia-final com um grande golo de Maniche, as particularidades capilares não se concentraram nos jogadores, mas sim, nos estádios construídos para o efeito, estando muitos deles ao fim de quatro anos, sem qualquer adesão de público, desde calvos a cabeludos.

Neste último Europeu, além do corte de cabelo de Cristiano Ronaldo, que devido aos milhões de euros que actualmente recebe passa incólume a qualquer tratamento depreciativo, os jogadores da selecção nacional evidenciaram-se pelas suas tatuagens.

Neste particular, os requisitos do próximo seleccionador nacional poderão passar pela presença destas marcas no corpo, para se poder promover a rápida aproximação entre o novo treinador e jogadores.

 

(a publicar dia 26/06/08)

quarta-feira, junho 18, 2008

Parques

            Nas últimas semanas, a Praça voltou a ser notícia nas páginas dos jornais locais. Praticamente um ano depois de finalizadas as obras, que repuseram o trânsito e estacionamento em algumas das artérias da zona pedonal, constata-se que pouco mudou no dia-a-dia do centro da cidade.

            Os empresários do comércio reclamam a pouca afluência de clientes aos seus estabelecimentos.

            Por seu lado, os frequentadores e moradores sentem que as alterações efectuadas, introduziram confusão e insegurança na circulação pelas ruas, desde que a total serventia de automóveis ficou assegurada.

            Neste panorama, é necessário não esquecer que no último ano surgiram na cidade dois novos pólos de atracção. Primeiro, com o novo centro comercial, com oferta de várias soluções comerciais, de restauração e de lazer. Tudo, com estacionamento grátis, em ambiente moderno e acolhedor. Em Maio, inaugurou-se o novo Parque Urbano, com áreas verdes apropriadas para o lazer ao ar livre. Estacionamento gratuito também não falta, junto às margens do Rio Ul.

            Estas ofertas dispersaram a população pela cidade.

            O problema é entendido pelos responsáveis municipais, pela forma como o apresentei aqui. Para atrair pessoas ao centro da cidade, a hipotética solução passa pela construção de um parque de estacionamento subterrâneo, em plena Praça Luís Ribeiro. Gratuito? Não. No seguimento da construção dos outros dois construídos em subsolo municipal, na Avenida Renato Araújo e na Rua João de Deus, deve-se dar seguimento à ideia inicial que previa precisamente três parques.

            As notícias de fracos resultados financeiros, da empresa que explora os referidos parques de estacionamento, poderiam inibir esta ideia antiga e incentivar a procura de outras soluções.

            É lógico que o futuro de privados, desde que garantam receitas imediatas para o município, não é um problema para alguns.

            É importante não esquecer a existência de estacionamento pago em parque na Praceta Júlio Dinis; a criação, nesta última intervenção, de estacionamento térreo, em várias ruas da zona pedonal; um outro estacionamento privado (Parque Central), precisamente na Avenida Renato Araújo, em piso subterrâneo do edifício construído nas traseiras do Parque América; para finalizar, correndo o risco de transmitir informação obsoleta ou absurda, recordo-me que precisamente neste último edifício, em plena Praça Luís Ribeiro, existe um parque de estacionamento – o seu estado, ocupação e disponibilidade, não sei precisar.

            Pelo atrás exposto, mesmo com a ressalva pelo exagero nas soluções descritas, verifica-se que existem em bom número lugares de estacionamento. Com um pouco de pesquisa, pode-se calcular o número de lugares disponíveis. Confrontando a taxa de ocupação dos parques actuais com a real necessidade de lugares de estacionamento na zona pedonal, pode-se colocar a seguinte questão: qual a necessidade de massacrar os comerciantes, os seus clientes, os moradores, enfim, os munícipes, com mais e prolongadas obras no centro?     

            A reportagem da semana passada do Jornal Labor trazia vários testemunhos de comerciantes que reclamavam, sobretudo, a necessidade de tornar atractiva a área em que estão instalados. Embora nos depoimentos recolhidos tenham surgido exageros, nomeadamente na alusão a factos ocorridos há vinte anos. Ao fim de duas décadas, toda a dinâmica urbana, ligada à criação da zona pedonal, deveria estar perfeitamente estabilizada.

            Ao longo dos últimos anos, a estratégia da autarquia para a zona central passou pela instalação de equipamentos culturais, após a requalificação de edifícios municipais existentes. O problema é que apenas o primeiro edifício ficou funcional, embora com graves carências a nível de programação. Além disso, os espectáculos por serem nocturnos não podiam atrair os desejados clientes para os espaços dos comerciantes.

            Os sucessivos atrasos, indefinições e mudança de objectivo para a transformação do espaço do antigo Cinema Imperador não permitiram que a estratégia da autarquia fosse alguma vez concretizada.

            Como se vai alterar a futura designação (Casa das Artes e da Iniciativa) deste espaço municipal, seria bom atender às preocupações dos comerciantes e aproveitar esta futura remodelação, procurando ali instalar as tais lojas atractivas, de forma a tornar a zona central atraente não apenas em horas de espectáculos nocturnos mas, durante todo o dia.

 

(a publicar no dia 19/06/08)

quarta-feira, junho 11, 2008

Sina

 

            Em visita de estudo a Lisboa, enquanto esperávamos pelo autocarro, em frente ao Mosteiro de Jerónimos, uma cigana de idade avançada aproximou-se do nosso grupo de estudantes. Teríamos uns dezasseis, ou dezassete anos de idade.

            Pediu uma esmola e eu, engraçando com a figura, ripostei: só se me ler a sina. A mulher não tinha um olho e usava os trajes típicos destes nómadas: uma saia comprida, um lenço em volta da cabeça, com os brincos de argola, provavelmente teria um ou mais colares em volta do pescoço (sobre o resto do tronco não me recordo, nem tenho uma imagem pré-definida do que usa uma idosa cigana sobre o seu corpo).

            Aceitou o desafio. Mostrei-lhe as palmas nas mãos e instantaneamente começou logo a falar sobre os encantos do meu futuro. Entre felicidade e outros sinónimos, pareceu-lhe que via nas minhas mãos muitas mulheres e provando não ser analfabeta, leu um “F” bem desenhado na mão direita. Eu ouvi-a a falar com uma rapidez tremenda. Deu-me um nome feminino, que pela sua análise, seria determinante para o resto da minha vida: Fernanda, era o tal nome começado pela letra “F”.

            Isto foi tudo tão rápido, que nem dei conta que os meus colegas tinham-se encolhido, pelo receio pré-concebido relativamente à etnia. Pelo futuro, paguei o prometido – cem escudos (os actuais cinquenta cêntimos de Euro). Duas risadas e nas despedidas com a cigana, não foi preciso desejar boa sorte, pois a minha, traçada nas minhas mãos, tinha acabada de ser revelada.

            Naquela época eu tinha dificuldade em acreditar no futuro, por isso, durante anos, contei esta historieta com algum humor.

            É claro que não dei importância ao assunto.

            Das minhas relações pessoais e familiares, o nome Fernanda tinha caído em desuso. Os nomes têm épocas. Existem alguns eternos. Outros ficam em moda durante um período e depois tornam-se raros. Alguns são raros hoje e entretanto, com o tempo tornam-se comuns. Dessa data até hoje, com idade próxima da minha, conheci duas ou três Fernandas. Nenhuma mudou a minha vida. 

            A cigana viu um “F”. Podia ter-se enganado no nome. Por esta letra, temos outros nomes: Fábia, Fabiana, Fabíola, Fátima, Faustina, Fedra, Felicia, Felicidade, Felismina, Ferdinanda, Filipa, Filomena, Firmina, Flávia, Flôr, Flora, Florbela, Florência, Florinda, Francelina, Francisca e Frederica. Dada a raridade de alguns destes nomes, jamais me cruzei com pessoas assim chamadas. Dos mais comuns, apesar de com algumas ter criado relações de amizade, nenhuma preencheu o prognóstico da cigana.

            A vidente não acertou no nome, nem na quantidade anunciada. Até que muitos anos depois…

Saio de casa com as despedidas matinais a deixar-me um nó no peito. Até logo. Diariamente, só volto a encontrar a família, esposa e filhos, à noite, antes de jantar, ou à hora deste.

            No carro, mesmo em estado de cama – com os olhos mais fechados do que abertos –, a rotina da viagem matinal faz-se em piloto automático. Percorro o asfalto, pensando nos problemas pendentes, que tenho à minha espera.

            Coloco o pisca-pisca para virar à esquerda, faço o último corte de acesso à fábrica e enfrento o porteiro. Troco os bons dias. À segunda-feira demoro um pouco mais, para colocar em dia a conversa futebolística. Fico a saber resultados, erros de arbitragem, classificações de vários campeonatos.

            Fecho o carro. Dirijo-me à porta de entrada. Após a sua abertura, não há engano, o som do trabalhar das máquinas indica o tipo de ambiente que vou encarar. Subo as escadas. Nos três mil e seiscentos metros quadrados da instalação fabril, cento e trinta funcionárias, de bata azul clara, estão compenetradas no desempenho da sua função.

            Esta tem sido a minha vida. Dia após dia, em ambiente fabril. Como tenho feito carreira profissional em transformação têxtil, sob a minha responsabilidade existem sempre mais mulheres do que homens. Ao longo destes anos, em empresas diferentes, conheci várias centenas de funcionárias; não deve andar longe do milhar.

            Reconheço que a cigana afinal não se enganou. Só que eu, em adolescente, ao ouvir falar em muitas mulheres na minha vida, pensei tratar-se de outra linha…

 

                                                                                                                                            (a publicar dia 12/06/08)

quarta-feira, junho 04, 2008

Fim de Ciclo?

A ideia de se construir um Centro de Alto Rendimento Desportivo (CAR) em S. João da Madeira ainda não me entusiasmou.

O grau de exigência dos habitantes de uma cidade com qualidade de vida vai aumentando com o passar dos tempos e por isso, é perfeitamente natural a reacção de desconfiança, relativamente ao anúncio deste projecto.

Confesso, como antigo dirigente desportivo, que nutro bastante simpatia pelo conceito do desporto de alta competição. Desde o anúncio do CAR, analisei as várias opiniões emitidas, dos cépticos aos alinhados e não fiquei convencido com os argumentos apresentados. É certo que até ao próximo ano (esta fase de execução do plano de pormenor tem a duração de 12 meses), podem surgir uma série de factos ou factores, que me podem convencer da utilidade e importância para o concelho de tal empreendimento.

Vejamos então, quais as minhas dúvidas sobre a oportunidade deste projecto, que se resumem a três: urbanísticas, desportivas e investimento público.

A inauguração do Parque Urbano do Rio Ul trouxe um dado concreto por parte do projectista. Segundo o Arquitecto Sidónio Pardal, um Parque Urbano demora uns trinta anos a consolidar-se. Se olharmos para os últimos trinta anos, verificamos que a cidade ganhou três espaços verdes. Primeiro através da “doação” de terrenos e árvores, para o Parque Municipal Ferreira de Castro, há alguns anos o Jardim na Avenida da Liberdade e agora com este aproveitamento das margens do rio, em terrenos consagrados na reserva ecológica do concelho.

Para as gerações futuras, os terrenos municipais que restam são poucos. Ao longo das próximas três dezenas de anos, para se continuar a viver com qualidade de vida, é necessário proceder-se à abertura de novos espaços verdes, ou ampliação dos existentes. É certo que os terrenos agrícolas, no lado poente da cidade, poderão dar lugar a um novo parque urbano. Mesmo com esta reserva equilibrada, de longo prazo, parece-me que a natural procura por parte dos munícipes do novo parque do Rio vai obrigar a, no imediato, surgirem soluções de lazer, de forma a enraizar os hábitos urbanos da população. Neste sentido, salvaguardar-se, a médio prazo, os terrenos adjacentes a norte, para aí se estudar hipóteses de implantar novos conceitos de cidades criativas, do conhecimento e da cultura, seria o aconselhável.

Essencialmente, para que não fique apenas o conceito da modernidade, os vinte e quatro hectares consagrados para o CAR seriam suficientes para albergar um parque temático, direccionado para o conhecimento. Exemplos que me ocorrem de espaços semelhantes: Visionarium de Santa Maria da Feira, ou Fluviário de Mora.

Nos últimos anos, os investimentos municipais em equipamentos desportivos, além de proporcionarem melhores condições de treino e jogo aos atletas locais, visaram, sobretudo, a componente de manutenção desportiva, permitindo aos munícipes alugar espaços para a prática de exercício físico. Ao investir num equipamento que não servirá no imediato os habitantes da localidade é, digamos, trocar o bem-estar das pessoas por um cartão-de-visita do município.

Tenho muitas dúvidas, em matéria de ocupação pelas diversas federações desportivas, de quais realmente precisarão de um novo espaço. Existem várias modalidades que devido ao treino em condições específicas, como canoagem, remo, ou vela, estão a desenvolver, em locais apropriados, centros de alto rendimento em determinados pontos do país, com condições naturais para a prática desses desportos. Em Sangalhos vai nascer um CAR associado ao ciclismo, em Rio Maior um para a Natação, o do Jamor vai ser preparado para o atletismo, Mirandela tenta o de ténis de mesa.

O CAR das Travessas poderá estar ocupado, durante vários dias, pelas mais variadas federações e desta forma como se articulará a actividade das colectividades locais? Retirar essa hipótese aos munícipes, implica uma redefinição na política desportiva da cidade.

Em matéria de investimento municipal, as prioridades parecem-me ser outras. Em primeiro lugar, pela falta de capacidade do município. Em 2008 para terminar com os jeitos na rua dos mesmos e com o túnel da Rua 5 de Outubro, a autarquia teve que recorrer à banca. Nos próximos anos, deveria avançar para a transformação do cinema Imperador em Casa das Artes do Espectáculo, o que por si só implica um grande investimento. Caso não haja comparticipação imediata, terá que se recorrer a outro empréstimo.

Penso que tudo poderá ser amenizado, com a lógica das mais-valias para o município, associada aos vários planos de pormenores lançados recentemente. Onde actualmente existe um gaveto, uma empenha de um prédio, um terreno, idealiza-se a edificação, a construção, com toda a possibilidade de criar receitas para o município, através de taxas, impostos e quejandos.

Esta visão empresarial provavelmente é a mais correcta para o concelho mas, confesso que me assusta, pela ausência de políticas centradas nas pessoas, nas suas necessidades e nas suas susceptibilidades.

Na década de 90, do século passado, S. João da Madeira discutiu durante anos a possibilidade de abertura na cidade de um pólo universitário. Várias tentativas foram ensaiadas, desde instituições privadas, até a acordos com a Universidade de Aveiro. Nas eleições autárquicas de 2001, apareceu um candidato que rompeu com a ideia. Tratava-se precisamente do actual Presidente da Câmara Municipal, Castro Almeida.

Sete anos depois, a cidade está de novo focalizada num projecto externo e desenraizado. Corresponderá isso ao fim de um ciclo eleitoral?



(a publicar no dia 05/06/08)