quarta-feira, outubro 29, 2008

Mediáticos

            A hipotética candidatura de Pedro Santana Lopes à Câmara Municipal de Lisboa não deixou ninguém indiferente. Alguns assustaram-se e reagiram com indignação. Outros amedrontaram-se e pensaram logo em coligações. Houve quem sorrisse, uns por escárnio, outros por satisfação.

            Independentemente do fôlego político do presumível candidato, o anúncio - utilizando a velha técnica de difusão de informações, o boato - abriu a campanha política para as eleições autárquicas de Outubro de 2009.

            Um pouco por todo o país, surgem informações sobre várias candidaturas a outras autarquias, demonstrando-se com isto, a apetência dos demais candidatos pela mediatização pessoal.

            De nada serve às direcções nacionais dos partidos tentarem, de alguma forma, coordenar as escolhas e eventuais candidaturas para cada concelho. Com uma voraz ansiedade são apresentados e votados nomes, ora pela concelhia, ora pela respectiva distrital, mesmo sabendo-se que nalguns casos essa escolha é da responsabilidade do líder do partido, ou então, está delegada num elemento da direcção nacional, como é o caso do PSD.

            Nesta perspectiva, a tarefa destinada a Castro Almeida (como vice-presidente do PSD) não se apresenta nada fácil. Tendo que esgrimir argumentos e equilibrar várias sensibilidades de um partido extremamente dividido, pouco tempo lhe restará para seguir os dossiers da política local, em especial, os assuntos apresentados na campanha eleitoral de há quatro anos e que tardam a ser resolvidos, além do particularmente inacessível encerramento da urgência hospitalar.

            Pela actual conjuntura política nacional, coloca-se como certa a sua recandidatura à autarquia local. Os elogios recebidos e o visível trabalho efectuado à frente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, permitem-lhe encarar a reeleição sem qualquer problema.

            Tudo será imprevisível, caso a oposição política local se decida a disputar as eleições pensando em vitória.

            Pensar em vitória significa apresentar a candidatura de uma pessoa mediática. Um rosto bastante conhecido do público local. Para agradar ao eleitorado, a opção deve ter um efeito de surpresa e recair numa celebridade.

            Uma cara bastante conhecida da televisão, tal como o PSD inventou Francisco Moita Flores para autarca de Santarém ou aproveitou Fernando Seara para a Câmara Municipal de Sintra.

            Uma figura nacional representativa da diáspora sanjoanense.

            Com estas características, acrescentando-se tratar-se de um nome, que várias vezes foi capa de imensas revistas, o leitor terá feito o exercício de triagem de várias personalidades e eleito o nome de Bárbara Guimarães, certamente.

            Uma candidata que expele simpatia, sobejamente conhecida, que não perderia tempo a dar-se a conhecer.

            Em 2005, no apoio à campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa, Bárbara Guimarães surpreendeu pela facilidade nos contactos com a população e mostrou uma proximidade com os eleitores até aí desconhecida.

            Com uma candidata tão mediática, as eleições em S. João da Madeira passariam a estar debaixo das atenções nacionais, o que se repercutiria em reportagens televisivas ou de outros órgãos de comunicação social. Isto seria do agrado do eleitorado local, que veria com bons olhos a projecção da cidade por todo o país.

            Pela experiência profissional de Bárbara Guimarães, a sua envolvência no mundo do espectáculo e das artes, S. João da Madeira ganharia numa fase imediata em animação e atracção.

            O desenvolvimento cultural de S. João da Madeira poderia ser finalmente conseguido e não passar de uma promessa adiada e com isso introduzir-se uma modernização no pensamento da sociedade local.

            Terá este desafio cabimento na vida desta ilustre sanjoanense?

 

(a publicar no dia 30/10/08)

                         

quarta-feira, outubro 22, 2008

Prazeres de Outono

Retiro o segundo pé do chão e hop, sustento-me em cima da balança. No visor analógico, aparecem números há muito esquecidos. Ajeito melhor os pés, inclino de novo a cabeça, não há dúvidas, emagreci.

O meu peso actual afasta-me de ser considerado uma pessoa de peso excessivo, segundo o cálculo do índice de massa corporal e das categorias associadas.

Resultado de uma acção (ou princípio) na refeição que escrupulosamente tento cumprir: não repetir.

A esta restrição diária, com dias de trabalho, por vezes, bastante agitados, procuro nos dias amenos e solarengos de fim-de-semana aproveitar para promover passeios pedestres familiares. Um dos melhores prazeres desta estação.

O destino actual, enquanto a meteorologia o permitir, são os caminhos que limitam as águas da ria de Aveiro. Nas margens do seu estuário, uma diversidade de aves resiste à toxicidade, que impede a apanha de bivalves.

A observação ornitológica ganha contornos de programa familiar. O conhecimento aumenta e através dos binóculos aprende-se a distinguir várias espécies. O fascínio pela aves de rapina e especificamente pelas sagradas águias, são agora acompanhadas pela observação de flamingos, garças, cegonhas e pequenas aves limícolas, como a narceja (na foto), cujo nome surpreendentemente me foi assegurado pelo meu filho, agora com sete anos.

A felicidade de viver próximo de rotas migratórias permite seguir voos de patos, ou vê-los sossegados às centenas, a salvo de qualquer espingarda de mira afinada, devidamente protegidos dentro da reserva natural de S. Jacinto.

Tudo muda com condições climatéricas adversas. Com frio e dias de chuva, o corpo recolhe-se e surgem opções mais caseiras. Em resumo, petiscar e molengar.

Como estou um pouco afastado do limite máximo do índice de massa corporal da categoria saudável, posso encarar o Outono sem restringir a ingestão de alimentos hiper-calóricos típicos desta época do ano.

Os meus prazeres gastronómicos são pequenos e não incluem pratos especiais, nem típicos, nem tão pouco característicos. Ao profiláctico mel que me vai permitindo manter os níveis de saúde em estado razoável, acrescento algumas das preferências: o leite-creme queimado na hora; as enfarruscadas castanhas assadas devidamente encartuchadas; fatias de broa de milho, torradas, devidamente barradas com manteiga (ou derivados com menor índice de gordura); ou a sêmea (a eleita é a da padaria da rua de casa dos meus pais); tabletes de chocolate comidas à dentada; um doce que aprendi a apreciar na Beira Alta, nas cercanias das terras do Conde de Videmonte, doce de abóbora com requeijão. Tudo em doses apropriadas e se a ocasião o proporcionar. Em alguns serões opto por um copinho de Favaios, ou pelo néctar das encostas do Douro num pequeno cálice.

A possibilidade de praticar o direito à preguiça é que infelizmente me é vedada. Se nos dias quentes de verão, adoraria passar uma manhã de um dia de trabalho, junto ao mar, agora, numa destas tardes curtas e cinzentas, que se advinham sobretudo húmidas, gostaria de permanecer em casa optando por uma das várias actividades de lazer: ouvir discos antigos ou actuais; fazer zapping aleatório, à espera de algo que prenda a atenção num canal televisivo; sintonizar uma rádio, de preferência via internet; navegar pela blogada, deixando comentários ocasionais; decidindo-me pela leitura de um dos livros que aguardam vez na prateleira, ou pela escrita de um texto não tão “light” como este, com ideias mais calóricas. Para qualquer uma destas escolhas, o sofá da sala é sempre o melhor suporte.

Como essas tardes vão demorar muito a chegar, aproveito o melhor que posso os tempos livres, ou seja, o serão familiar, por vezes, já aquecido pelo fogo envidraçado.

Já nos fins-de-semana, espero que as condições climatéricas durante as horas de brilho solar sejam favoráveis ao passeio pedestre, senão, inventa-se outra actividade, em família.

(a publicar no dia 23/10/08)

quarta-feira, outubro 15, 2008

Bem-vindo ao norte

A obra literária de Teixeira de Pascoaes é eterna. Este escritor de Amarante, poeta do Saudosismo, foi marginalizado pelo seu ideal nacionalista. Incompreendido pelos seus contemporâneos, que o acusavam entre outras coisas de utópico e passadista, o pensamento de Pascoaes atravessou o século passado e é hoje reconhecidamente um importante legado na percepção de quem somos e para onde vamos.

A retórica romântica, saudosista e sebastianista da utopia de Teixeira Pascoaes irrompeu devido à realidade humilhante e traumatizante existente em Portugal no período Oitocentista, após o ultimato Inglês.

Independentemente do esoterismo e misticismo incluídos na filosofia da saudade, Teixeira de Pascoaes criando a sua doutrina político-social (designadamente em “Arte de Ser Português”), observou detalhadamente as características do povo Português, sendo certo que quase um século depois, muitos conceitos descritos nas qualidades e defeitos da “Alma Pátria” perduram na nossa especificidade.

Na história das “Cortes” Portuguesas, peculiares desde a Fundação “pelo belo espírito de independência política” da intervenção do povo junto do Rei, limitando inclusivamente a sua acção, o escritor do Tâmega encontrou o suporte para contrapor à ideia de Estado centralizador, muito omnipresente (e omnipotente por influência francesa), o conceito do Município. Esperava Teixeira de Pascoaes, que o município fosse mais abrangente do que paróquias e freguesias; entre a família e a Pátria não existissem intermediários na forma de “partidos, facções, clientelas, etc.”; idealizou ainda o governo municipal, com a reunião desses governos a formar as “Cortes”, ou seja, o Estado.

Enganou-se, neste capítulo. Além disso, não previu que os Municípios fossem vitimas dos tais defeitos característicos do povo português, que segundo Pascoaes são: falta de persistência; vil tristeza; inveja; vaidade susceptível; intolerância; espírito de imitação.

Na prática poderíamos exemplificar cada um destes defeitos, pela seguinte correspondência: inúmeros projectos municipais esquecidos, num silêncio absoluto; abandono de áreas municipais ao estado decrépito; municípios correndo pelo investimento público, pela abertura de uma qualquer delegação do Estado, muitas vezes apenas para ultrapassar o concelho vizinho; o endividamento autárquico, nalguns casos problemático; assessores para tudo e mais alguma coisa ou empresas municipais constituídas com administradores a serem pagos principescamente, com activos a desvalorizarem constantemente e sendo a facturação inferior aos gastos dessas empresas; finalmente, a construção de quiosques ou cafés modernos em espaços públicos, ou de parques infantis com piso seguro, redes de ciclovias, ou o trânsito condicionado por rotundas e separadores são alguns dos exemplos das opções de algumas autarquias, que imitando o vizinho primam pela quantidade e pela extensão, ou então pela suposta qualidade superior.

Um século depois das palavras do referido escritor, vemos que a prática dos agentes do “município”, salvaguardada pela hipótese de substituição inerente aos regimes democráticos, reduziu quase tudo à lógica do feudalismo.

Apesar da melhoria significativa da qualidade de vida dos munícipes, o desenvolvimento estrutural do país não pode continuar dentro da lógica actual.

Uma nova entidade deveria surgir entre o Município e a Pátria.

As regiões poderão ser esse factor de desenvolvimento estrutural, sem qualquer perigo para o País, apesar de a Europa ser cada vez mais adepta da desagregação de Estados.

Sem querer seguir o texto pela enumeração de novos e inesperados adeptos da regionalização, nem pelo elogio à reorganização de vários Ministérios, de acordo com um mapa comum, sinto que a criação e aumento de competências das áreas metropolitanas das duas principais cidades do país e a forte unidade regional existente no sul do país, permitem encarar o desafio da regionalização de modo diferente da referendada e consequentemente derrotada “divisão” administrativa do país, proposta há dez anos.

Veja-se, como exemplo da nova sensibilidade para a regionalização, como o bairrismo sanjoanense tem sido substituído pelo orgulho de pertencer à Área Metropolitana do Porto.

Na Assembleia da República na semana passada arriscou-se discutir um assunto extra ao programa do partido que forma Governo.

De fora da sessão legislativa e do programa do actual Governo ficará a regionalização. Para as eleições de 2009 deverá constar do programa eleitoral de quase todos os partidos com assento parlamentar.

Quero tornar claro que no supracitado referendo votei duplamente não, em resposta àquelas perguntas disparatadas colocadas no boletim eleitoral. Para não ser mal interpretado por qualquer leitor mal intencionado sobre a minha vontade, se a regionalização voltar a ser apresentada de igual modo em próximo referendo, continuarei a votar não, embora reconheça vantagens competitivas na criação de regiões. Espero, contudo, que as designações futuras das regiões a criar no norte e centro do país, saiam da lógica actual e se enquadrem nos valores locais, tal como existe a sul: Algarve e Alentejo.



(a publicar no dia 16/10/08)

quarta-feira, outubro 08, 2008

Madrid

            As viagens ao abrigo de negócios têm um inconveniente, não controlamos o nosso tempo. A hora do voo de regresso condiciona o tempo que resta livre e por vezes, vemo-nos e desejamo-nos fazendo horas nos aeroportos para o início do check-in, ou por vezes em zonas pouco nobres de cidades cosmopolitas, acercadas do nosso imediato destino final.

            Em Madrid não foi assim.

            Após duas noites mal dormidas, com boa mesa e companhia animada, a actividade proposta terminava no final de uma tarde. O voo era apenas à noite e sobravam um par de horas, que nos permitiria aproximarmo-nos do centro da cidade. Oportunidade para uns comprarem as lembranças para familiares, outros para ver o pulsar de uma cidade.

            Numa qualquer rua, cujo nome nunca soube, perdi o meu olhar pelos transeuntes. Uma sensação fantástica de ver passar carros, pessoas, num dia abafado de Maio, ainda que encoberto.

            Na minha contemplação senti-me observado. Mirando em redor, vi um rosto sublime, com uns olhos igualmente belos a fixar-me. Uma elegante rapariga, bem vestida, não desviou o olhar e eu por uma única vez, perdi a vergonha, continuei a apreciá-la. Sorri, num sorriso meio tímido, sem saber se seria correspondido. A elegância da minha observadora transbordou com um belo sorriso, que faria perder o controlo a qualquer um.

            Afastados uns passos no passeio, eu encostado ao edifício, ela na beira do passeio, esperando um táxi. Uma curta distância separando duas vidas. O objecto esperado aproximava-se. Teria que decidir. Dava os passos, entrava no táxi, ou então, impedia-a de entrar, de forma educada e cortês. Ou pelo contrário, ficaria onde estava e sonharia.

            A decisão teria de ser rápida, tinha que ponderar entre a desconhecida, a aventura, o permanecer na grande cidade, o perder o avião e faltar ao trabalho nos dias seguintes e do outro lado da balança, o regresso à vidinha cumpridora e monótona. A prudência aconselhava ponderar a possibilidade de desilusão pela incerteza do momento.

            O táxi parou. A porta abriu-se. Um último olhar entre dois seres cruzou aquele passeio. Um novo sorriso. O corpo elegante desapareceu no interior do automóvel. A porta fechou-se e o carro arrancou logo. Não tive tempo para ver se a cabeça ainda se voltou. Outros carros taparam-me a visão.

            Uma voz chamou-me à realidade. “Pensei que perderia o avião!” – disseram-me. Acrescentando, “muito gira”.

            Uma mútua e sonora gargalhada, pôs uma pedra no assunto.

A vida por vezes, resume-se aos sonhos.

 

(texto a publicar (?) no dia 9/10/08)

 

quarta-feira, outubro 01, 2008

Piano

            O telefone tocou na oficina do departamento de manutenção. Bernardo por se encontrar mais perto, atendeu educadamente. Do outro lado da linha, o Sr. Ferreira, responsável pela área administrativa e financeira da empresa, solicitava um técnico para reparação da máquina fotocopiadora. Transmitido o recado à chefia, Bernardo ouviu um imediato “vai tu”. Acrescido do paternalista “se tiveres dificuldades chama”.

            Era a primeira vez que Bernardo era chamado a reparar uma máquina fora da área de produção. Pelo sim, pelo não, precaveu-se levando consigo um jogo de chaves e o indispensável multímetro. Dirigiu-se à área administrativa e ao atravessar o longo salão para alcançar a sala em que estava instalada a máquina avariada, avistou um piano. Estremeceu.   Aproximou-se do bonito instrumento de cauda, castanho-escuro e não resistiu a abrir a tampa. Olhou em redor, só então pensou na maçada que seria ser repreendido por ter ousado mexer no piano. Não viu ninguém. A sua mão direita aproximou-se do teclado. O polegar posicionou-se na tecla branca atrás de duas teclas pretas e desceu suavemente. Um dó cristalino ecoou pela sala. Emocionado, fez uma pausa e repetiu. Desta vez com os restantes dedos da mão direita a seguirem a escala das notas musicais até à nota sol. Indicador, médio, anelar e mindinho. Com o mindinho levantado, desceu-o de novo e invertendo a sequência na escala tocou: sol, fá, mi, ré, dó. Para cada nota musical, um dedo. Estava pronto para repetir, só que ouviu uma porta a abrir-se e parou, fechando a tampa do teclado do piano.

            Caminhou para a sala, em que sabia estar a fotocopiadora. Ao entrar cumprimentou os presentes. O Sr. Ferreira apressadamente o informou sobre a necessidade do departamento de contabilidade de ter a máquina a trabalhar, dado estar em curso um processo delicadíssimo de fecho do mês. Bernardo ouviu, tentando perceber as palavras do Sr. Ferreira. Aproximou-se da máquina, ficando a sós com o responsável do departamento. Este explicou-lhe a avaria da máquina e prontamente deu o seu parecer pouco “técnico”, para resolução do mesmo. Bernardo ouviu, sem ripostar. Delicadamente optou por fazer o seu próprio diagnóstico, carregando nas teclas funcionais da máquina. As folhas saíam em branco. Procurou perceber o mecanismo da máquina, enquanto o Sr. Ferreira lhe assegurava tratar-se de um determinado componente. Bernardo fazia que não ouvia, concentrado no seu trabalho. Abriu as tampas laterais da máquina, não verificando qualquer obstrução. Percebeu que os sensores inseridos dentro do equipamento estavam funcionais e passou a analisar o problema na perspectiva mecânica. Entendeu o mecanismo da máquina e verificou estar uma pequena correia fora do seu lugar, o que impedia o deslocamento da célula de leitura. Nada disse ao Sr. Ferreira. Pegou nas chaves e deixando a tampa superior aberta, começou a tirar os parafusos que prendiam o vidro superior. O Sr. Ferreira quis impedi-lo. Bernardo explicou-se e sossegou o homem. Passado dois minutos a máquina estava funcional.

            No regresso à oficina, parou de novo junto ao piano. Levantou de novo a tampa do teclado. Voltou a colocar a mão direita sobre o teclado e com os cinco dedos percorreu a escala. Lembrou-se da sua infância, de uma melodia que aprendera ao piano, num exercício de iniciação. Dó, ré mi e depois mi, mi, mi. Mi, fá, sol e depois sol, sol, sol. Fá, mi, ré e depois ré, ré, ré. Mi, ré, dó e finalmente dó, dó, dó. Com esta sequência de acordes, que repetiu por mais duas vezes, os seus olhos encheram-se de lágrimas.

            Tocar piano, era voltar à infância. Era recordar os tempos em que a vida dos seus pais corria bem e lhe foi proporcionado o contacto e aulas de piano. Os problemas financeiros obrigaram a família a mudar de terra e a viver uma vida mais modesta. Infelizmente para ele, o ensino de piano ficou para trás. Bernardo adorava o piano, as aulas. Os pais não encontraram nenhuma solução para assegurar a continuação dos seus estudos musicais. Na nova morada, não havia nenhuma escola acessível, apenas professoras particulares, que não estavam ao alcance das posses dos pais. Recordar tudo isto fazia-o ficar triste. As oportunidades perdidas. A vida condicionada. O abandono escolar prematuro e o ingresso no mundo profissional, sempre com a ideia de progredir nos seus estudos em horário nocturno. O estudo do piano ficara irremediavelmente perdido.

            Nessa noite Bernardo não dormiu. Toda a noite pensou no piano. Fez planos para se aproximar dele, para lhe voltar a tocar. Lembrou-se dos seus livros de estudo de piano., arrumados numa caixa com os pertences da sua infância. Procurou-a nos armários, na arrecadação, até que finalmente a encontrou. Vasculhou o seu conteúdo. Ao encontrar um dos livros, deveriam estar ali dois mas, só encontrou um, abriu numa das páginas iniciais e ali viu as claves, uma para cada mão. As pautas, as notas impressas e seguindo por cada linha de referência, voltou a saber ler as notas. Continuou a folhear as páginas e a recordar as aulas do seu passado. Ver a música que em tempos estudara, que trauteara vezes sem conta, retirou-lhe qualquer cansaço nocturno.

            Na manhã seguinte, Bernardo aproveitou uma quebra no serviço para voltar para junto do piano. Voltou a tocar. Desta vez, uma escala completa e com as duas mãos. Apercebeu-se de barulho na contabilidade e rapidamente seguiu para junto da máquina de fotocopiar. Ao ver Bernardo naquela área, o Sr. Ferreira estranhou e questionou-o sobre a sua presença sem ser solicitada. Bernardo não precisou de pensar na desculpa a dar. Preparado, disse ter vindo verificar se a máquina estava em ordem, pois tinha ficado com medo de a correia não ter ficado no sítio. O chefe dos administrativos sorriu e acompanhou Bernardo até ao final do salão, não lhe dando hipótese de tocar de novo.

            Sábado, terminado o trabalho junto à produção, Bernardo decidiu aproximar-se do salão. Tinha verificado que não estava ninguém na contabilidade, nem nos restantes departamentos e com o livro da sua infância dentro da bata, para que ninguém o visse, seguiu para o seu destino, informando onde se encontraria. Ao abrir a porta de acesso ao salão, ficou estático. Nada. Não se via o piano. Olhou melhor. Ligou as lâmpadas, quebrando o lusco-fusco daquela sala grande e nada. O piano tinha sido retirado. Procurou nos compartimentos contíguos, olhou à procura de marcas no chão e realmente não via nada. O piano desaparecera.

            Voltou lívido para junto da produção e dali para a oficina. Disfarçou a sua frustração o melhor que pôde, quando era chamado para junto de uma máquina. Chegado a casa, pousou o livro em cima da mesa da cozinha. A esposa ao ver aquele livro que desconhecia e a má cara de Bernardo, ficou apreensiva. Ficou em silêncio e muito mais tarde perguntou-lhe para que queria ele um livro de música. Sem demoras, Bernardo respondeu: ainda vou a tempo de estudar piano.

 

(a publicar dia 02/10/08)

terça-feira, setembro 23, 2008

Memória

António havia recebido o convite para um jantar de amigos de outrora, através dos seus pais. Os organizadores não tinham outra forma de o contactarem, senão o número de telefone da casa dos seus progenitores. De início, António considerou normal o procedimento, só depois reflectiu sobre a quantidade de anos que tinham passado, sem que alguma vez tivesse encontrado algum dos seus antigos colegas e amigos. A melhor evidência era não ter recebido nenhum mail, nem sms, nem chamada no telemóvel. Tudo isso tinha aparecido anos depois da comum convivência.

Como tinha que se deslocar alguns quilómetros, António por prudência e respeito pelos amigos, optou por sair do emprego atempadamente. Entrou no restaurante marcado, descoberto com facilidade, dirigiu-se ao primeiro empregado que avistou e pela resposta obtida, apercebeu-se que tinha sido demasiado cauteloso com o horário. Ainda assim, preferiu sentar-se na mesa indicada. Ao tirar o casaco, pediu um aperitivo que foi saboreando.

Ficou à espera, pensando na quantidade de anos que tinham passado. Distraiu-se a contar os lugares marcados e a fazer uma previsão de quem seriam os restantes convivas.

Ao fim de alguns minutos chegou um grupo de antigos colegas. Sem esforço recordou as caras e associou a cada um o nome, apesar do tempo passado. Cumprimentaram-se efusivamente e trocaram a conversa de circunstância: a morada, a profissão, o estado civil, os filhos, a descrição da monotonia dos dias de semana e os programas de fim-de-semana, que afastam as pessoas para longe do seu passado.

O grupo foi crescendo, com a chegada dos outros convidados. Trocaram iguais informações entre aqueles que já não se viam há bastante tempo. Aos poucos introduziram-se outros temas nas várias conversas: a saúde pessoal e de familiares, histórias do presente, projectos para o futuro, as viagens, as férias de sonho, o sucesso dos filhos, os hobbies, o futebol, entre outras.

Quando a propósito uma ou outra recordação dos tempos de juventude. Um ou vários momentos vividos, que por terem sido tão peculiares, merecem a sua evocação.

Nestas ocasiões relembra-se os amigos comuns, sem sentido estarem presentes no repasto, embora sejam elos de ligação entre pessoas conhecidas e sobre os quais devemos informar do seu estado. António, já com todos os convivas sentados à mesa, lembrou-se disso, enquanto falava com a sua ex-colega Márcia e contou-lhe que Frederico ia ser pai de gémeos. Quem? Márcia não se recordava de nenhum Frederico. António tentou encontrar várias formas de lhe recordar o nome, a pessoa, os momentos vividos pelos três. Márcia não se lembrava de nada. Não vale a pena insistir, disse-lhe Márcia. Não era um assunto de maior importância e António já não estava com Márcia seguramente há dez anos. O Frederico tinha desaparecido da vida de ambos um tempo antes e pelas voltas da vida, António voltou a relacionar-se com ele.

Enquanto o jantar era servido, a conversa prosseguiu e António fez várias alusões ao seu passado em comum com Márcia. Um concerto, ela não fazia ideia. Um jantar numa recôndita vila do país, nada. Um outro programa e igualmente nada. Não desesperou e não duvidou da sua sanidade, nem criticou a memória da sua amiga.

Apesar de tudo, desde o início do jantar sentiu sempre que o reencontro entre ambos estava coerente com a relação que tinham mantido no passado. Interesse mútuo e compreensão pelas conversas e preocupações do outro, davam para perceber que a afinidade entre ambos não tinha sido esquecida. Mesmo dez anos depois.

Não sendo o problema dela, o mal estava nele. Na sua memória que fixava coisas insignificantes. Recordava-se de pessoas sem interesse algum, de assistir a concertos que não tinham feito história, de procurar aldeias e vilas para obter uma refeição, sem qualquer condimento especial, em restaurantes entregues à indiferença e por aí adiante.

Percebeu como se tinha enganado no passado. Como tinha sido desinteressante a sua vida. Memórias pessoais sem qualquer significado para o presente, nem para manter uma conversa em jantares de pessoas com vivência em comum.

Tentou com Gustavo, sentado à sua frente, encontrar traços do passado. O resultado foi igual ao obtido com Márcia.

Enquanto Márcia, sentada à sua direita conversava alegremente com a amiga do outro lado, António virou-se para a esquerda e escutou uma história, que bem recordava. Acrescentou uns pormenores à narrativa de Miguel, que exercitava a memória do período juvenil, sentindo que o seu acréscimo não era reconhecido por ninguém. Podia ter ouvido um sensato “já não me lembrava”, ou um entusiástico “pois foi!”. Nada disso. Apenas um indiferente “não me lembro”, seguido de desconcertantes “nem eu”.

Sentiu que estava ali a mais.

Simulou a recepção de um telefonema, alegou a necessidade de uma saída urgente. Providenciou o pagamento do seu jantar, vestiu o casaco, despediu-se e saiu, sem esperar que lhe fosse servido o café.


(a publicar dia 25/09/08)

quarta-feira, setembro 17, 2008

Três anos

            - Tens que mudar de fotografia! Esta é antiga, está desactualizada.

            Estávamos em Setembro de 2005 e os meus primeiros artigos de opinião tinham começado a ser publicados. Como qualquer novato nestas lides, eu pretendia verificar a aceitação dos meus textos juntos dos leitores e conterrâneos. Não foi aquela a primeira impressão recolhida, mas ficou-me na memória. Em lugar de um maior cuidado na apreciação do conteúdo, apenas a forma era analisada. Como a opção do tamanho, o tipo de letra, ou de critérios de paginação não eram da minha responsabilidade, sobrava a fotografia que me acompanha desde que me foi solicitada pelo jornal, para o principal motivo de crítica.

Não mudei de fotografia. Não cedi a tal argumento. Antes pelo contrário, mantive-a. Passei a ser uma “imagem” do interior do jornal. Para muitos leitores, no fundo, é disso que se trata, um rosto com palavras ao lado. Enquanto outros, entre os quais amigos e conhecidos, observam o título, lêem os vários caracteres formando as palavras, seguem as frases ao longo dos parágrafos e sem esforço, chegam ao final do texto.

Pelo meio factos, relatos, opiniões, análises, contos, estórias ou crónicas foram o produto destes três anos que em me dediquei à escrita, no jornal. Iniciei-a com o objectivo de criar uma forma de “comunicação” com os leitores. Um acto de cidadania, em que procurei manter a minha independência. Escrevo sozinho. Raramente recebo recados, ou me presto a encomendas. Os temas para análise ou opinião são escolhidos por mim. Por vezes, divago na escrita, dando palavras à imaginação.

Atravessei estes três anos em concordância com as minhas convicções.

Não cedi. Não vacilei na crítica. Não me embriaguei com argumentos de outros, nem com as inaugurações sucessivas, nem com os projectos para o futuro. Mantive-me firme na análise, na procura de dados, na emissão de opiniões divergentes.

Não me resignei.

Tenho procurado ser discordante quando a propósito e o contrário a despropósito. A conciliação não me agrada. No entanto, ao longo destes três anos, nunca senti qualquer falta de cordialidade dos visados das minhas palavras.

Não ofendo.

Numa relação com o jornal perfeitamente simbiótica, saí do aconchegante anonimato, recebi palavras de incentivo e de reconhecimento. Não desisti de acrescentar valor a estas páginas, mesmo quando terminou o efeito surpresa dos meus textos e passei a ouvir “não cheguei a ler”, “não consegui ler”, “é muito grande”, entre outras escusas semelhantes.

Havia um pressuposto temporal, quando decidi elaborar as crónicas para o labor. O objectivo era escrever durante três anos e meio e depois suspender a colaboração. Como auto-didacta, sei que o voluntariado começa a desgastar a vontade ao fim de algum tempo. Por este motivo, impus este limite à minha colaboração com este jornal, de modo a não me tornar repetitivo, nem a cansar os leitores.

            Prevejo que seis meses antes das eleições autárquicas, tudo o que possa vir a escrever seja confundido com outras intenções. Como esse período, bem sazonal, termina pouco depois do acto eleitoral, caso o jornal esteja interessado cá estarei de novo, com uma fotografia mais recente, se quiserem…

             A contagem decrescente não podia começar da melhor maneira. O meu texto “Odores” publicado no dia 4 do presente mês, despertou para a escrita, nada mais, nada menos, do que a Alzira. Na coluna – “ bem Alzira” - da penúltima página do último número deste jornal, esta voz popular teceu várias considerações e pelo que pude perceber na NET, foram bem recebidas. Espero agora que a Alzira não se cale e seja a voz da insatisfação dos sanjoanenses, no caso do mau cheiro. É necessário não ficar apenas por palavras e se a Alzira tiver capacidade de mobilização, podem acontecer coisas giras.

 

Nota: o meu texto publicado na semana passada, com o título “Descriminar”, continha duas gralhas. A primeira era logo no título que deveria ter surgido com o correcto “Discriminar”. Obviamente, que não pretendo absolver ninguém, muito menos considero que o director do labor precise da minha clemência, por isso, no 3º parágrafo, o que pretendia escrever é que os argumentos ponderados anteriormente por Pedro Silva, poderiam ter sido melhor evidenciados, como ficou explícito ao longo do referido parágrafo. Dada a gravidade do erro cometido, é mais correcto eu pedir a respectiva descriminação e como tal, livrar-me de qualquer tipo de penitência.

 

(a publicar dia 18/09/08)

quarta-feira, setembro 10, 2008

Discriminar

Discriminação foi a palavra escolhida pelo director do labor (vou-me habituar rapidamente à nova forma de escrever o nome do jornal, dada a minha simpatia por letras minúsculas) para classificar a pretensão anunciada pela Câmara Municipal de S. João da Madeira, de apoiar a totalidade dos alunos carenciados frequentadores das escolas do município, independentemente da origem da sua residência.

É sempre bom ler um texto com opiniões discordantes da actividade unânime da política autárquica. O debate de ideias, ou a apresentação de propostas alternativas são de enaltecer.

Descrição foi o que faltou à discriminação defendida por Pedro Silva. Estatisticamente é bastante provável que existam crianças carenciadas residentes em S. João da Madeira, a estudar fora do concelho, para acompanharem o trajecto dos pais para o seu emprego. Se bem me lembro e cito de memória, segundo o censos 2001, o número de habitantes de S. João da Madeira a trabalhar fora do concelho ascendia a cerca de duzentos e cinquenta. Desde essa data, com as transformações económicas inerentes ao encerramento de empresas e abertura de novas, é perfeitamente normal que aquele número se tenha alterado. De qualquer forma, desse número de pessoas que fazem um fluxo diferente daquele política e socialmente consagrado pela aplicação estatística, haverá certamente alguns com crianças em idade escolar e com baixos rendimentos, o que rotula logo os filhos como crianças carenciadas. Dados concretos obtidos com um pouco de pesquisa, suportariam melhor toda esta ideia.

A “medida” aprovada pelo executivo municipal permitiu melhor esclarecer todo o conceito de famílias apoiadas. O emprego dos pais é a evidência de que não são merecedores de subsídio apenas os desempregados, os excluídos, os possuidores de rendimento de reinserção social e por aí fora. Além deste facto, socialmente muito relevante, era importante perceber qual a totalidade de alunos nas escolas do concelho, para de uma vez por todas se evidenciar a percentagem de alunos apoiados e daí se poder tirar conclusões sobre o tecido social da região.

Em contrapartida, um outro aspecto ficou por clarificar: a sobreposição de apoios. Segundo o Ministério de Educação serão apoiadas milhares de crianças de todo o país, em subsídio directo do Estado central, para pagamento de manuais escolares, além dos demais apoios sociais. Com o subsídio autárquico a coincidir na mesma área, esta duplicação será mesmo necessária? E mais dúvidas haveria a enunciar: quantos munícipes de outros concelhos irão realmente candidatar-se e beneficiar deste apoio?

Estes números e o montante envolvido com este possível apoio jamais serão conhecidos.

Sem querer fugir ao tema da discriminação, é necessário não esquecer o ciclo político do próximo ano – três eleições – para compreender o extravasar de competências da Câmara Municipal de S. João da Madeira, que tal como previ nestas páginas no passado dia 17 de Julho, está agora mais vocacionada em demonstrar preocupações sociais.

Apesar deste esforço, a imagem transmitida em matéria de política social é ainda de descoordenação. É certo que os beneficiários de qualquer medida de apoio agradecem essa ajuda, atendendo às dificuldades financeiras com que vivem.

Não esquecendo este ponto importante, convém lembrar que em julho a Câmara Municipal de S. João da Madeira financiou as férias a cento e cinquenta crianças. Ou seja, relativamente ao ano escolar ficaram de fora quatrocentas crianças. O período de férias escolares corresponde a mais de doze semanas e os pais apenas podem acompanhar os filhos em quatro ou cinco dessas semanas. Nas restantes, qualquer solução gratuita é bem-vinda, até porque a disponibilidade de tempo dos menores em algumas idades é problemática.

Provavelmente, durante o presente ano lectivo, os apoios da autarquia local serão alargados aos não residentes, para demonstrar que este primeiro subsídio não foi avulso. Assim, pegando no exemplo descrito, as férias apoiadas pela autarquia local poderão ser uma solução para muitos pais trabalhadores neste concelho.

Espera-se que sem qualquer discriminação.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Odores

            A divulgação no inicio deste ano, de indicadores medindo a qualidade de vida do município, teve um efeito na consciência cívica dos seus habitantes.

            Num dos estudos divulgados foi medido, essencialmente, o grau de satisfação da população. Este cenário permitiu estimular a exigência dos munícipes, na procura níveis de qualidade não aprofundados nos estudos.

            Durante os últimos meses, pela imprensa local têm surgido várias notícias, todas evidenciando um fio condutor das preocupações gerais da população. Em 2008, as questões ambientais têm ganho um fôlego impressionante no quotidiano, ao ponto do Jornal Labor colocar na primeira página, para acompanhar uma manchete alusiva à problemática dos resíduos sólidos urbanos, imagens de lixo.

            Na singularidade do concelho, as inquietações ambientais não abrangem a preservação de áreas protegidas. Tão pouco, os resíduos urbanos, atrás citados, constituem problema. A recolha está sistematizada (embora surjam pequenos problemas pontuais) e o respectivo depósito, efectuado fora do concelho, não levanta qualquer questão. Este assunto é de tal forma pacífico, que a difusão de ecopontos pela cidade foi sempre perfeitamente natural, não se tendo até à data colocado hipóteses de valorização de alguns resíduos, nem tão pouco, questionado a percentagem de resíduos que são efectivamente reciclados.

            É no domínio industrial que se agitam os problemas. A possibilidade de contaminação de solos ou de efluentes, a emissão de partículas para o exterior, a existências de ruídos, vibrações, ou maus cheiros são genericamente alguns dos motivos incomodativos para as populações.

            As imposições do Ministério do Ambiente, juntamente com a vontade das Associações de Municípios têm permitido que os resíduos sólidos industriais não constituam hoje em dia, um grave problema em S. João da Madeira.     

            Desta forma, tendo o saneamento alargado a todo o concelho, o esforço da autarquia centrou-se no condicionamento dos efluentes industriais. Com o objectivo de desviá-los do rio Ul, para se conseguir que o Parque Urbano ficasse apto para servir a população. Têm surgido alguns contratempos. O estudo efectuado por alunos do Secundário, promovendo o cadastro dos focos poluentes ao longo do curso do rio, provou que os concelhos devem trabalhar em parceria e não isoladamente. Ainda assim, neste particular o trabalho desenvolvido pela autarquia é digno de assinalar.           

            Sentindo o momento como oportuno, a população forçou a análise dos “casos” ambientais considerados mais graves. Colocando à consideração das entidades competentes, a noção de qualidade de vida.

            A emissão de partículas pela “Oliva 1925” teve direito a abaixo-assinado da população residente nas imediações daquela empresa, incluindo a troca acesa de palavras nos jornais, ou de comentários na respectiva edição on-line.

            Para culminar este processo – que foi, sem dúvida, o mais mediático ao longo do presente ano, a população recebeu por parte da autarquia um sinal claro de aprovação das suas reivindicações. A autarquia deu um parecer desfavorável ao pedido de licença ambiental da “Oliva 1925”, no âmbito da consulta pública relativa a este pedido. O parecer emitido e entregue à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN) poderá ser decisivo, para as pretensões da população residente nas imediações daquela empresa.

            Não é por falta de referência ou de notícias, dando conta do mal-estar da população, que continua por finalizar todo o processo do habitualmente designado “cheiro a casqueira”. Segundo o n.º 146, da I série do Diário da República, do dia 30 de Julho do presente ano, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 119/2008 autoriza a renovação do contrato entre o Estado e a firma “Luís Leal & Filhos”, até ao dia 31 de Março de 2009, para recolha de cadáveres nas explorações de animais mortos, por encefalopatia espongiforme bovina. Além da duração do contrato, é ainda tornado público o montante a pagar pelo Estado pelo serviço prestado, bem como a tonelagem de carcaças de bovinos e equídeos permitida.

            O mais curioso deste processo, é o facto de a resolução ter data de Julho mas, produzir efeito a partir de 1 de Abril de 2008, data de inicio do actual contrato. Face a este novo dado, fica-se com a ideia de que qualquer estudo encomendado, para exposição das preocupações da população aos Ministérios competentes, ou outro tipo de protesto organizado, terá que considerar a renovação automática do contrato, por interesse do Estado.     

            Enquanto isso, a qualidade de vida da maioria dos habitantes da cidade, quando o vento é desfavorável continua sofrível.

 

(a publicar dia 04/09/08)

quarta-feira, julho 30, 2008

No Horizonte...

 

         Escrever um texto, para ser publicado a um dia do mês de Agosto, traz um grande embaraço.

            Nos últimos dias de Julho, para quem apenas pode usufruir do período de férias, uma vez por ano e em Agosto, pouco ou nada interessa.

            Os principais assuntos de conversa são as férias e qualquer assunto sério, por mais polémico que seja, não serve para despertar a concentração. Nesta fase do ano, em que alguns familiares, amigos e conhecidos estão de férias, todo o pensamento livre tem como objectivo planear as férias. Embora já delineadas, no tocante a marcações logísticas, existem sempre pormenores deixados para a última hora. Além do imprevisto, sinal da espontaneidade neste período do ano.

            Quando prepararei os textos para publicação durante este mês, verifiquei no calendário como seria difícil escrever estas linhas para o último artigo de Julho, pois o pensamento estaria obcecado com as férias.

            Fiquei a contar com o inesperado, com alguma inspiração momentânea e se nada disto surgisse, então preparava uma crónica sobre as férias. Só que nesta altura, o teclado já não recebe impulsos vindos cérebro.  

            Tentei uma alusão a vários tipos de férias. Pensava mencionar os hábitos apenas adquiridos nesta época, como a sesta. Lembrei-me do desespero das crianças, dos meus filhos, um mês à espera das férias do pai e os contratempos fabris a intrometerem-se no desejado tempo livre familiar. Contava expor um pouco a minha privacidade, referindo o volume de livros que projecto ler, divulgando títulos e pesando o número de páginas que terei de virar para terminar a empreitada…

            Constato que tudo isso seria penoso para mim e como tal aborrecido, para quem me lê.

            Para não transformar este artigo numa espécie de não crónica, ensaio uma recordação de férias.

            Uma referência aos festivais de música, que na década passada, significavam o fim do meu período de trabalho e a romagem para as imediações destes palcos, durante três dias. Com o concerto de hoje em Paredes de Coura, a irreverência dos Sex Pistols seria importante para reconquistar a energia dispendida ao longo do último ano. Mesmo trinta anos após o sucesso desta banda, quase vinte e cinco a ouvir as palavras de ordem gritadas por J. Rotten, ainda não será desta que terei oportunidade de assistir à encenação desta banda inglesa. O relativo interesse do concerto de hoje será verificar a capacidade de resistência ao tempo deste grupo. Um dos muitos que foi vítima de um fenómeno curioso da indústria discográfica, a rápida ascensão a ícones, por morte prematura, de jovens, membros de bandas emblemáticas dos novos géneros musicais

            Curiosamente, foi em férias que passei a prestar atenção a estes factos da música. Antes de se tornar viajante do mundo e figura mediática, Gonçalo Cadilhe cruzou-se comigo alguns anos, em tratamentos nas termas. A sua capacidade oratória destacava-se e era contagiante o seu apreço pelo fenómeno Jim Morrison. As peculiaridades deste figueirense, ainda me fizeram subir a um skate, só que a iniciação não podia ter corrido pior: uma forte cabeçada no alcatrão, com direito a um rasgo da pele, foi o resultado dessa tarde de Setembro.      

            Definitivamente tenho que encerrar estas linhas. O desgaste acumulado ao longo do último ano, obrigam-me a pedir descanso.   

            Nada mais me resta senão, enviar as palavras para banhos.

            Aos leitores do Jornal Labor desejo umas óptimas férias, esperando regressar um bocadinho mais inspirado.

 

(a publicar dia 31/07/08)

terça-feira, julho 22, 2008

Conto de Verão

            Numa tarde quente de verão, Marta e Francisco encontravam-se sozinhos junto à piscina do hotel. Os hóspedes estavam recolhidos, por ser hora de almoço e o grupo de amigos, que os acompanhava no fim-de-semana, tinha saído para uma refeição, num restaurante muito conhecido na zona.

            Marta optou por ficar. Pretendia evitar as confusões daqueles espaços, não estava preparada para aguentar as esperas e ouvir os ruídos normais destas salas. Como estava recentemente separada, os amigos não insistiram. Marta pediu a Francisco para lhe fazer companhia. O amigo de sempre aceitou com agrado o convite. Era uma oportunidade para colocar a conversa em dia, ouvir os lamentos da amiga e poder ele próprio explicar os pormenores do seu falhado casamento.

            Francisco era um bom ouvinte. Escutava com atenção a amiga, sem interromper. Ajudava a terminar frases se fosse caso disso e fazia perguntas de forma frontal, o que não permitia a Marta refugiar-se em qualquer segredo. Por seu lado, Marta não estava com capacidade para fixar as palavras do amigo. Ouvia e respondia às perguntas mas, não prestava atenção ao que Francisco lhe contava, relativamente ao seu divórcio. Todas aquelas questões legais da partilha de bens, da guarda dos filhos, da tença, lhe escaparam. Fixou os motivos que levaram o amigo a separar-se, mais para poder comparar com o seu caso, ou então, por ser nessa fase em que se encontrava a sua relação e por aí permaneceria, pois não tinha qualquer filho.

            A separação é irreversível – disse Marta a Francisco. Motivado não se sabe bem porquê, provavelmente pela decisão da amiga e pelo seu estado de descomprometido, Francisco contemplou, como há imenso tempo não o fazia, a beleza da sua amiga. Sempre a admirara, sempre a apreciara, embora nunca tivesse sentido por ela nada senão uma profunda amizade.

            A conversa prosseguiu para outros temas. Pelo meio um cigarro ou outro. Francisco sentiu-se portador de uma oratória sedutora. Como se finalmente, Alonso de Quijano tivesse encontrado a verdadeira Dulcineia de Toloso e pudesse expressar todos os seus sentimentos, as boas intenções para com a sua dama, sem precisar de evocar os seus feitos enquanto cavalheiro da Mancha.

            Sem interromper o desenrolar da conversa, vieram as palavras de galanteio de Francisco. Ao ver um sorriso na boca de Marta, Francisco prontamente disse: “O teu sorriso é o inicio de uma grande perfeição”. Marta sorriu de novo. Seguiram-se mais uma série de piropos, dos quais Marta só reteve alguns: “O arco do teu lábio superior é tão perfeito que parece que foi cinzelado”; “A sensualidade começa no teu peito”. Ao ouvir estas frases Marta começou a ficar confusa. Não percebia onde queria chegar Francisco. Os seus elogios eram agradáveis de ouvir mas, naquele momento da sua vida, eram inoportunos.

            Marta interrompeu a conversa, sugerindo um banho. Sabia que Francisco não apreciaria o convite e assim, ficaria sozinha na piscina por uns momentos.

            Depois de umas braçadas, decidiu mergulhar para o fundo da piscina. Sem esforço ali chegou. Sentia-se bem, sem ouvir conversas, longe de todos. Deitou fora o ar. Aguentou-se sem se preocupar em subir. Ficaria lá. Verificou que não iria fazer algum esforço para voltar a respirar. Sem pânico, esperou pela sua hora.

            Os primeiros ruídos que ouviu, pareciam-lhe uma respiração forte, dentro de si. Abriu os olhos e viu Francisco desesperado a tentar animá-la. Desviou a cara, a água, que propositadamente se alojara em local errado, vinha para fora. Francisco não falava, abraçava-a de modo fraternal. Um dos empregados do hotel, perguntara se seria preciso chamar o 112. Marta negou com a cabeça. Francisco agradeceu a atenção e apelou à descrição dos funcionários. Mais nenhum hóspede se apercebera do sucedido.          

            Ficando a sós com Marta, Francisco ousou perguntar-lhe se estava bem. Marta disse-lhe que sim e não lhe deu mais explicações. Voltaram para as espreguiçadeiras. Francisco ajudou Marta a sentar-se e embrulhou-a com a toalha. Entretanto, enxugou-se do banho forçado. Ficaram em silêncio.

            Francisco não resistiu e quebrou o sossego: “Jamais pensei tocar nos teus lábios. Não era preciso isto…” Marta interrompeu-o: “Francisco, por favor, esse tom perturba-me. Não estou preparada para questionar a nossa relação.”

            Francisco sentou-se, acendeu um cigarro e pediu desculpa pelas suas palavras. Entretanto, chegaram os amigos do almoço. Francisco pediu a Paula, companheira de quarto de Marta, para olhar por ela, pois a amiga não estava muito bem.

            As duas amigas subiram e Francisco aceitou o convite dos amigos para um jogo de snooker. 

            Durante o restante tempo que permaneceram com o grupo, os dois amigos evitaram-se. Trocaram apenas algumas palavras, circunstanciais, apesar de Francisco procurar agradar a Marta, em gestos e discrição. 

            Separados, terminado o fim-de-semana, Marta recebeu uma série de mensagens do amigo. Apenas respondeu a uma delas secamente, dizendo encontrar-se bem. Evitou as chamadas de telemóvel, a insistência de Francisco em lhe falar.

            Face a este prolongado silêncio, nada mais restou a Francisco senão aceitar e esquecer todo o episódio, aproveitando o que restava do Verão.

 

(a publicar dia 24/07/08)

quarta-feira, julho 16, 2008

Congressos e Afins

 

O dia-a-dia da actividade política é extremamente datado - quando não comentado atempadamente, perde sentido e oportunidade.

Explorar assuntos em opiniões escritas pouco fundamentadas ou cingi-las a momentos impróprios é tornar inválidos os argumentos. Caso a dinâmica de factos, afirmações ou orientações políticas contrariem as opiniões expressas, reduzem todos os pontos de vista a mal entendidos.

Durante o último mês, após o congresso do PSD, sucederam-se uma série de afirmações dos novos responsáveis pelo partido, que seriam o mote certo para vários artigos da minha opinião.

Sensatamente, não os escrevi.

Afirmações posteriores, esclarecendo melhor alguns desses argumentos, mostraram-me que foi preferível ficar calado.

O primeiro facto foi a célebre frase: “não há dinheiro para nada”. Dentro do contexto das grandes obras públicas, obviamente. Imaginei o que seria uma análise desse género aos potenciais investimentos municipais e aos programas de várias autarquias… arrepiei-me. Passado uns dias, vários autarcas eleitos pelo PSD pediram esclarecimentos e na passada semana, o novo líder parlamentar sossegou toda a gente.

O segundo caso, não chegou a ser. O líder da distrital do Porto do PSD declarou que o autarca da Cidade Invicta seria novamente candidato. Achei estranho. Por isso, ao verificar que o tempo para tais anúncios não era o correcto, fiquei esclarecido e percebi a malandrice. É ainda cedo para a tomada de decisões. Daqui a meio ano, tudo está decidido. Lá e cá, sem querer colocar um prazo bem definido.

Por fim, o assunto mais sério. Ao colocar como prioridade a “justiça social”, a estratégia de captação de voto do PSD nas próximas legislativas, segundo vários especialistas, passa por aproveitar o descontentamento dos eleitores de esquerda do PS - à semelhança do que este partido tem feito ao PSD, desde 2005. Retirar votos ao partido do poder, que poderiam cair na CDU ou BE, parece estar a resultar. Estas duas forças, estavam cotadas em várias sondagens, com 20% dos votos em conjunto, antes do congresso do PSD. Depois da eleição da nova líder, a última sondagem apresentada (RTP / Antena 1 – dia 15 de Julho de 2008) já invertia a tendência: 17% para as forças de esquerda, subindo o PSD dos 28 para os 32%.

Neste sentido, seguir ao longo do próximo ano as inclinações das várias sondagens e a elaboração das propostas eleitorais do PSD, será bastante elucidativo, para se compreender melhor a política nacional e as vontades dos eleitores.

Um factor bastante importante será coerência de propostas, tanto no programa eleitoral para o Governo, como para as autarquias, por parte do PSD. Pelo facto de ambas as eleições serem próximas, deverá ser promovida a coesão nas promessas a apresentar.

Assistiremos em 2009, independentemente do candidato a apresentar pelo PSD à Câmara Municipal de S. João de Madeira, a um programa com uma componente política forte, versando essencialmente a social-democracia.

Com este PSD mais centralizador, com tiques de esquerda, o que resta para o PS local? Pedro Nuno Santos prepara-se para deixar a JS, em congresso marcado para este próximo fim-de-semana, no Porto. Habituado a programas políticos à escala nacional, com as sempre presentes “causas fracturantes”, o PS local terá um árduo trabalho até às eleições autárquicas do próximo ano.

Sem acreditar no espectro do sebastianismo nacional, as tarefas preliminares do novo líder da estrutura do PS local passam muito por organização interna, de forma a não chegar ao próximo ano com uma candidatura insípida, a ausência de um programa eleitoral e resumindo o acto eleitoral do próximo ano a apresentar as críticas conhecidas à gestão actual da cidade.    

Previsível será a sua vontade em apresentar propostas de esquerda modernista, no âmbito da qualificação da população local, nas facilidades no acesso às novas tecnologias e claro, no estímulo a tornar a autarquia um parceiro do “Estado Social”.   

            Independentemente dos nomes dos candidatos às eleições autárquicas de 2009, estas serão as primeiras, nos últimos vinte e cinco anos, a serem disputadas naquilo que politicamente se designa “centro”.

            É, desde então, a primeira vez nas eleições locais, em que os dois principais partidos da política nacional são os mais sérios candidatos a uma vitória para a autarquia.

            Esperemos que tal facto sirva para elevar o debate político.  

 

(a publicar no dia 17/07/08) 

 

quarta-feira, julho 09, 2008

Principezinho

 

            Na já longa história do Campo de Férias Estamos Juntos existem vários episódios, acontecimentos ou factos, que foram determinantes para a sua longevidade e actual sucesso.

Não consigo precisar em que ano, nem em rigor, qual a edição desse evento de ocupação das férias das crianças e jovens, que perdura desde 1982, em que um participante surpreendeu todos os restantes e demais monitores ou organizadores.

            A passar férias em casa de família, o jovem distinguia-se dos demais, por se fazer acompanhar por um bloco de papel e alguns riscadores. Escusado será comparar esta particularidade com as comuns, entre os jovens, bolas ou outros apetrechos desportivos (raquetes ou bicicletas), ou consolas de jogos, ou até leitores das datadas cassetes.

Este era diferente. Desenhava. Bem, acrescento eu. Resumia os seus trabalhos a bonecos. “Desenho bonecos”, dizia com uma simplicidade e alegria contagiante. Ao longo desse mês a actividade do Campo de Férias ficou retratada, caricaturada pela mão deste pequeno ilustrador. 

A qualidade dos seus trabalhos extravasou o Campo de Férias e uma galeria de arte em S. João da Madeira reconhecendo o seu mérito, expôs alguns dos seus quadros.

Curiosamente, seria através da música que este jovem se afirmaria.

Refiro-me em concreto, a Manuel Cruz. Celebrizado no panorama musical nacional como vocalista dos Ornatos Violeta e Pluto e tendo agora lançado o seu primeiro trabalho a solo.

Poderia continuar este texto, invocando as suas capacidades musicais, no entanto, vou-me restringir à sua passagem singular pelo Campo de Férias. Possivelmente única.

A presença do Manel naquele Campo de Férias foi decisiva para o sucesso de organizações futuras da AEJ. O interesse por ele demonstrado e sobretudo, a sensibilidade para a diversão nas férias, sempre com vontade de participar em todas as actividades propostas e sugerindo outras, foram extremamente importantes.

Existia até aquela data, a ideia de proporcionar férias essencialmente desportivas aos participantes. Aulas de natação, de modalidades colectivas e de outros desportos individuais eram as principais actividades. Além disto, havia outro factor preponderante para esta opção, as novas instalações desportivas da cidade: a piscina interior e o pavilhão das Corgas.

Tal como Saint-Exupéry alterou a sua vida pelos desenhos de uma criança, os bonecos de Manel Cruz cativaram toda a essência da AEJ. A partir daquele ano, reconheceu-se definitivamente que as actividades a propor às crianças e jovens, deviam envolve-los de acordo com a sua vontade, motivando o seu interesse e participação.

A imaginação ganhou lugar cativo nos anos seguintes. O principal interesse de quem organizava as actividades era proporcionar um mês de férias único aos participantes. Ali era tempo de esquecer as aulas, a rigidez dos horários, as matérias estudadas, enfim, eram férias, com outras atenções.

O sucesso e a longevidade do Campo de Férias passaram por esta forma de estar, que agradava aos participantes. Muitas vezes contrariando a vontade dos próprios pais, como muitos reconheciam.  

Durante vários anos, o mediatismo da AEJ no contexto da cidade era conseguido apenas no mês de Julho. Os bons resultados desportivos dos atletas eram ainda poucos e isolados. Das actividades com mais visibilidade, a Festa Final na Praça Luís Ribeiro era a sua principal montra. Assisti a representações ousadas de vários jovens, que eram o culminar de um mês de participação interessada. Destaco o sapateado de um jovem luso - francês, cujo nome não me recordo; a capacidade de mobilização de Paulo Cavaleiro; a disposição para o palco de Pedro Nuno Santos; entre vários outros, que não vou nomear para não tornar a lista longa.

Existirão actualmente outros jovens que se destacam, no contexto da actividade da AEJ e do próprio Campo de Férias. É a dinâmica normal de uma Associação de Jovens, que se vai calmamente renovando em termos de idade dos seus dirigentes, mantendo os princípios de organização e o seu propósito.  

Nunca consegui perguntar a Manuel Cruz, qual o caminho para o asteróide 612. Com certeza que desde criança que o conhece. Na sua adolescência soube explicar-nos os pormenores deste pequeno planeta. Eu e outros que durante anos, dedicámos o nosso mês de Julho à AEJ, mantivemos a nossa nave em órbita.

A minha, entretanto, aterrou.

 

(a publicar no dia 10/07/08)