quarta-feira, setembro 30, 2009

A evidência do cachucho

            Na sexta-feira passada, Pedro Mexia, conhecido escritor e comentador nacional, iniciou no seu blogue – Lei Seca - a justificação da sua intenção de voto do seguinte modo: “Podia glosar José Mário Branco e dizer que voto à esquerda moderada nas sindicais, voto no centro moderado nas deputais e voto na direita moderada nas presidenciais. Não bate totalmente certo, mas ficam com uma ideia, e além disso soa bem (…)”.

            Sempre esperei citar o cantor portuense, ao longo destes anos de colaboração com o labor. Acreditei que ao fazê-lo, iria derivar para um qualquer assunto proclamado nessa música indescritível chamada FMI. Evocar “Distingue bem o Mortimor do Meirim” ou então, “Marrazes, Marrazes”, “Lourosa, Lourosa”, poderiam servir para descobrir o que é feito de António Medeiros (treinador de futebol da década de 70 do Estoril, Belenenses e mais tarde do Amora) ou para compreender as idiossincrasias duma população, ávida de democracia, para fechar estradas e protestar por causa dos resultados do futebol.

            Não se encerram nestes capítulos as singularidades da letra da canção referida, que começava por comparar o cachucho ao lagostim.

            A menção à divisão de voto nos vários actores do espectro político, permanece actual no ideal português. Cada eleição, um sentido de voto. A famosa frase proferida por um ex-presidente da República: “Os Portugueses não gostam de colocar os ovos todos no mesmo cesto”, é ainda hoje, a melhor forma de definir o conceito de equilíbrio democrático tão ao nosso jeito.

            Os resultados nacionais destas eleições legislativas de 27 de Setembro, quando se cruzarem com os das próximas eleições autárquicas de 11 de Outubro serão a evidência do desapego de grande parte dos Portugueses à ideologia e fidelização partidária. (O nível de abstenção começa a demonstrar o abandono dos eleitores à causa democrática, muito embora, esse seja assunto para outro tipo de considerações). Por agora, mantendo-me dentro do tema da harmonia popular, veja-se as preferências dos eleitores de S. João da Madeira ao longo das várias eleições:

a) Nos últimos 25 anos, nas eleições legislativas de 1985, 1987, 1991, as maiores votações pertenceram sempre ao PSD. A partir de 1995, o PS ganhou sucessivamente as eleições legislativas nas urnas colocadas em S. João da Madeira (1995, 1999, 2002, 2005, 2009).

b) Durante esses anos, o CDS venceu sempre às eleições autárquicas (1985, 1989, 1993, 1997) até à passagem de testemunho ao PSD (vencedor em 2001 e 2005).

c) Pelo meio houve uma série de eleições europeias e presidenciais, com resultados diversos, conforme o tipo de eleição e os candidatos concorrentes que pela sua especificidade, não reportarei os resultados.

            Esta tendência de voto, historicamente e maioritariamente repartido por três partidos e com resultados originando vencedores diversos, prova que o voto dos eleitores locais não obedece a nenhuma estrutura partidária. Aos votos militantes, acresce-se por eleição centenas de votos flutuantes, produzindo os resultados eleitorais atrás referidos.

            Determinar e estudar quem são esses munícipes oscilantes, quais as suas motivações eleitorais, percebendo o seu enquadramento social, seria importante e determinante para quem ambiciona estar na política local e procura captar votos. Uma análise importante podendo retratar esses eleitores locais, à semelhança dos estudos nacionais que definiram o “centrão”.

            Podemos concluir que a lógica dos resultados advém da independência dos eleitores. A motivação para o voto em cada eleição escapa ao controlo da militância. Se uma determinada concelhia pretender reclamar a intenção de voto dos eleitores locais, corre o risco de na eleição seguinte, normalmente de âmbito diferente, cair no ridículo, pois os votos poderão fugir-lhe.

            A sensatez do universo dos eleitores é a prova da sua sabedoria no exercício da democracia.

 

 

(a publicar dia 01/10/09)

quarta-feira, setembro 16, 2009

Adeus ao Verão

            Em Setembro de 1989, na Praça Luís Ribeiro, a Associação Estamos Juntos promoveu um espectáculo com artistas locais. A iniciativa começou de manhã, com uma prova de atletismo, em simultâneo com a realização de um painel, por vários pintores da região. De tarde e até à noite, passaram pelo palco uma série de músicos locais, além de grupos de dança e de uma peça de teatro, promovida para o efeito. Por se realizar na passagem da estação, o espectáculo foi designado de “Adeus ao Verão”.  

            Evocar este acontecimento, precisamente vinte anos depois, serve para recordar a ousadia da organização em promover um alinhamento diversificado, com momentos de grande qualidade sonora, numa época em que os concertos nesse palco eram escassos, quase sempre com artistas aclamados e sobretudo, com muita assistência, enchendo semana após semana, a Praça.

            Já neste século foi organizado um evento semelhante – Raízes – com meios técnicos ajustados aos tempos actuais e com uma maior facilidade de recrutamento, reconheça-se, como resultado da formação ministrada ao longo dos anos, pelo aparecimento de novos valores e pela aposta de vários habitantes locais em esforçadas carreiras artísticas.

            Tal como o “Adeus ao Verão”, este evento não teve continuidade.

            É certo que durante o ano, nos novos palcos entretanto surgidos pela cidade, vários concertos e várias actuações são promovidas com artistas locais. O ciclo “Musicatos”, o “Festival da Juventude”, a “Cidade no Jardim”, entre outros, promovem essas actuações e provavelmente é difícil encontrar agenda e vontade em organizar um evento específico, destinado a impulsionar a divulgação dos artistas locais, nas mais variadas especialidades de artes de palco e não só.   

            A cultura foi aposta forte na cidade nos últimos anos e pelos projectos apresentados, continuará a receber grande atenção, devido à construção de arquipélagos culturais na cidade. Durante vários anos a política cultural esteve vocacionada para o apoio à formação, com o Centro de Arte e a Academia de Música a serem o rosto mais visível dessa vontade, através das suas aulas e claro, pelas respectivas exposições, concertos ou concursos de Piano, como o referenciado “Florinda Santos”. O posterior aparecimento do Museu da Chapelaria e dos Paços da Cultura – com peças de teatro, concertos em ritmo mensal - permitiram diversificar o empenho da autarquia, enquanto agente promotor de cultura. A isto junte-se as novas iniciativas dinamizadas, algumas mencionadas no parágrafo anterior, mais outras como a insistente “Poesia à mesa” e teremos o retrato cultural da cidade.

            Apesar de todo o esforço, é muito reduzida a importância de S. João da Madeira no panorama nacional em todo este domínio.

            Cientes disso mesmo, os actuais autarcas lançaram-se à obra. Dois avultados investimentos estão previstos. O primeiro, já com mais de dez anos, a reconversão do Cinema Imperador, deverá ficar concluído no próximo ano. Apresentado durante anos como o espaço capaz de “alavancar” o nome de S. João da Madeira nos meios culturais, não terá tempo de ser consolidado, absorvido e assimilado pela população, pois um novo projecto - a reconversão da antiga Oliva - tende a ofuscá-lo.

            Esta sucessão de anúncios de novos espaços culturais, retirando importância aos existentes, aos inaugurados recentemente e àqueles que a curto prazo deveriam ficar operacionais, revela alguma descoordenação e sobretudo, uma falta de conhecimento sobre os hábitos culturais da população da cidade.

            Bem, é ainda Setembro, o Verão termina na próxima semana. Só depois será Outono.  

 

 

(a publicar dia 17/09/09)

quarta-feira, setembro 02, 2009

Da tradição ao vazio

            A actual dicotomia entre a tradição e a modernidade na sociedade Portuguesa não é original. O nosso país tem sofrido, ao longo dos vários séculos, com as duas visões antagónicas.

            A história assim o relata.

            A literatura também e na poesia de Camões, a figura do “Velho do Restelo” ficou para sempre eternizada como símbolo da oposição ao progresso.

            Infelizmente, a menção à alegoria camoniana banalizou-se - na argumentação política, qualquer posição tida como discordante duma maioria, relativa ou absoluta, é prontamente rotulada dessa forma, evitando-se a procura de melhores razões. Neste particular, é bom referir, entra-se facilmente na contradição dos dois pólos de discussão, mediante o número de votos obtidos numa determinada eleição. É usual vermos defensores da tradição a transformarem-se em arautos da modernidade e vice-versa.

            Em S. João da Madeira, a conjugação destes dois vectores, a tradição e a modernidade, conheceu vários momentos. Em geral, a modernidade tem-se sobreposto ao lado conservador. Uma perspectiva que tem fortalecido a identidade da localidade, quando comparada com o desenvolvimento dos concelhos vizinhos e em particular com as suas cidades - sede.

            A busca incessante da modernidade tem conhecido, nos últimos anos, interessantes projectos: a tentativa de cobertura de internet sem fios pela cidade; o Centro Empresarial e Tecnológico; o futuro Creative Factory Oliva, ou para não ferir susceptibilidades, a intitulada Aldeia Criativa. Não se pode esquecer também a procura constante em tornar mais airosas várias artérias da cidade, bem como, o restauro de alguns equipamentos municipais tornando-os mais apelativos.          

            Nos últimos anos um terceiro vector sobrepôs-se, a qualidade de vida. Medida, quantificada e excelentemente posicionada, obrigou a alterar o discurso oficial da cidade, passando-se a utilizar este argumento como cartão-de-visita.

            Tudo isto, conhecido e assimilado por todos, juntamente com o novo centro de compras e de lazer – o shopping 8ª Avenida, mudaram a face da cidade mas, não produziram a desejada melhoria económica, nem tão pouco o crescimento demográfico esperado.

            O emprego continua a estar suportado nas indústrias tradicionais.

            Numa cidade produtora de calçado e de componentes para a indústria automóvel, essencialmente em regime de mão-de-obra intensiva, é curioso que os artigos produzidos, com maior visibilidade, sejam oriundos de processos antigos e exclusivos no nosso país: feltros para chapéus e lápis.

            Compreender este paradoxo é projectar a arqueologia industrial da cidade para a modernidade. Esta é a tarefa mais importante daqueles que se propõem agora a ser eleitos. Não renegar o passado laborioso da cidade, é honrar a capacidade empreendedora dos seus empresários e o esforço colectivo dos seus trabalhadores.             

            No âmbito económico, não podemos esquecer o comércio de rua. Sem rodeios e directamente na jugular, numa das páginas do último livro de Armistead Maupin, o narrador tem o seguinte desabafo: “ (…) Há um pequeno centro comercial óptimo à saída de todo o lado. Já só há centros comerciais! (…)”. Projectar mais grandes superfícies, shoppings e afins para locais com boas acessibilidades e retirados da zona habitacional será uma tendência, a fazer fé no escritor norte-americano, global. A consequência é esvaziar as ruas de peões, permitir a rápida circulação de automóveis, o que permitirá alcançar rapidamente as zonas periféricas.

            As cidades tornam-se impessoais.  

            A fazer fé na escolha de alguns partidos políticos, optando por divulgar os seus candidatos através de grandes cartazes, colocados em locais dirigidos essencialmente para automobilistas, em S. João da Madeira o processo é irreversível.

 

 

 

(a publicar dia 03/09)

quinta-feira, julho 30, 2009

Preocupações sociais

            “Visito, poto, cibo, redimo, tego, colligo, condi”. Do latim, a referência aos sete deveres de caridade. Para enquadramento dos leitores, sirvo-me da tradução de Luísa Benvinda Álvares no livro de David Camus “A Demanda do Cavalheiro Morgennes”: “ (…) visitar os doentes, dar de beber a quem tem sede, alimentar quem tem fome, salvar os cativos, vestir os nus, acolher os estrangeiros e fazer os serviços religiosos em honra dos defuntos (…) ”.

            O mote dos mesteres das boas acções cristãs poderá ajudar-nos a perceber melhor as divergências entre os partidos locais no que concerne à existência, ou não, de acção social.

            Ambos os lados têm razão, embora tenham perspectivas diferentes para os mesmos problemas. Sucintamente, a oposição, mais pelas palavras dos membros do PS, acusa a inexistência de aplicação de políticas socais. Por seu lado, o partido de poder, o PSD, rebate com uma série de apoios concedidos aos mais desfavorecidos.

            Os militantes do PS, apoiados pelas políticas sociais desenvolvidas pelos sucessivos governos do mesmo partido, defensor do conceito do “Estado social”, pretendem ver consagradas na autarquia políticas estruturadas de apoio social.

            A tudo isto, o PSD local, sem qualquer experiência significativa do seu partido nesta área, enquanto governo nos últimos catorze anos, tem pouco onde se suportar. O dilema liberal de redução da importância do Estado está sempre presente no discurso deste partido, obrigando os seus autarcas a recorrerem ao artifício da caridade, concedendo vários e avultados apoios, embora fazendo-o de forma desestruturada e pontual.

            Sem entrar em mais pormenores e porque socialmente a época é de crise conturbada, o período de pré-campanha eleitoral pode ser óptimo para o lançamento de várias promessas de apoio aos mais desfavorecidos.

            É normal.

            Em todos os quadrantes políticos, os programas eleitorais procuram soluções para apoio aos desprotegidos.

            No léxico dos partidos políticos locais, deveria surgir algo mais do que as habituais promessas de auxílio aos grupos sempre visados: os idosos, as pessoas com muito baixo rendimento e, neste ano difícil, os desempregados.  

            É necessário falar-se abertamente dos excluídos – pessoas de faixa etária entre os 40 a 60 anos, com poucas habilitações curriculares e profissionais – para os quais, a mudança no tipo de emprego existente na cidade, os deixou numa situação periclitante e pouco sustentável. Para estes a inclusão social deve prever a rápida reconversão profissional, em parceria com o Instituto de emprego e Formação Profissional (IEFP) local, sem tiques de caciquismo, nem afrontamentos ridículos.

            Sem ser exaustivo existem outros assuntos, que deveriam ser colocados na “ordem do dia”.

            A promoção da igualdade de género não pode ficar apenas patente nas listas de candidatos eleitorais, embora ao abrigo da lei da paridade. O associativismo neste particular deve ser promovido e incentivado, de forma que na vida pública não haja restrições à igualdade de oportunidades para homens e mulheres.

            Este assunto permite recordar o elevado índice de violência doméstica no concelho. Segundo o relatório anual de Segurança Interna de 2008, S. João da Madeira era o terceiro concelho de Portugal continental com mais queixas apresentadas. Se nos lembrarmos do indicador “Taxa de criminalidade”, que colocou S. João da Madeira em 4º lugar dos concelhos de Portugal, segundo dados de 2006 - embora nos remeta para questões de segurança, não deixa de ser a consequência de vários problemas sociais da cidade e freguesias vizinhas – verifica-se que do outro lado da “Qualidade de vida”, o aspecto da cidade é sombrio.

             Não posso terminar sem referir a desigualdade no acesso ao desporto. Nenhuma associação do concelho promove o desporto para pessoas e crianças com deficiência física. A marginalização social neste capítulo permite constatar que o estigma da “diferença”, ainda não favoreceu a integração destes indivíduos na vida da cidade.

            Aproveito as linhas finais para desejar boas férias aos leitores, prometendo retomar a partir de Setembro o contacto mais assíduo, a fim de manter viva a opinião e o direito de cidadania.

 

(publicado dia 30/07/09)

terça-feira, junho 23, 2009

Proveitos com a abstenção

            Em ano de três actos eleitorais, vários agentes políticos apelam à fusão de duas eleições num só dia. Para as últimas europeias, houve pressão para se antecipar as eleições legislativas para o mesmo dia. No actual momento, de indefinição quanto às futuras datas dos próximos actos eleitorais, surgem outras vozes solicitando a coincidência das próximas eleições. Os argumentos apresentados incidem sobre a forte poupança dum acto único. Este é o raciocínio mais conhecido e prevalece sobre os demais, camuflando uma série de jogadas tácticas, que visam confundir eleitores e retirar proveito em benefício partidário. Várias vezes, quem defende a fusão eleitoral, esconde manobras de candidatos e de facções partidárias, que se refugiam no alto valor de uma eleição para conseguir os seus intuitos, baralhando os eleitores com essa simultaneidade.

            A redução de custos nas eleições pode e deve ser conseguida.

            A eleição realizada no passado dia 7 de Junho custou 9,74 milhões de euros, segundo o Correio da Manhã, desse dia. Se traduzirmos este valor em termos de salários, corresponde a 21.645 salários mínimos nacionais. Caso se verifique, cada uma das próximas eleições a realizar-se em datas diferentes, teremos um custo estimado para o ano de 2009 a ascender aos 30 milhões de euros.

            É, convenhamos muito euro.

            Do valor apresentado para a eleição passada, apenas 47% são gastos com os membros das mesas de voto (4,65 milhões de euros, segundo o mesmo jornal). Cada pessoa destacada recebe 76,32 euros pelo dia de eleições. Isto significa que cada mesa de voto, com cinco membros, custa ao País 381,6 euros. Pelo quociente destes valores, ficamos a saber que foram montadas 12.205 mesas de voto, para um total de 9.562.141 eleitores.

            Para quem não sabe, cada mesa de voto deve corresponder a sensivelmente 1.000 eleitores de cada Assembleia de Freguesia. O facto do número de mesas ser superior à esperada proporção, justifica-se por algumas Freguesias terem muito menos que o milhar de eleitores.

            Se me seguiu até aqui, vai ver que os números seguintes são fáceis de entender.

            A crónica abstenção permite reduzir os custos das eleições.

            Siga-me.

            Nas últimas eleições europeias a ausência dos eleitores nas urnas ascendeu os 60% e em 2004, para as mesmas eleições, também. Não existe uma grande justificação para tal afastamento. Se desta vez se falou da chuva, em 2004 justificou-se com o sol, o calor e um grande dia de praia. Estas contradições climatéricas servem pouco como argumento. O desinteresse, mais a pouca idade dos abstencionistas, a falta de esclarecimento e o absentismo técnico, justificado com mudanças recentes de residência, óbitos, etc., são todos verdadeiros, mas explicam a parte e não o todo.

            Observe-se os números do absentismo das eleições realizadas nos últimos anos em Portugal: em 2006 – Presidenciais = 38,47%; em 2005 – Legislativas = 35,74%; nesse mesmo ano – Autárquicas = 39%. Este último valor permite concluir que a proximidade do eleitor ao eleito não é o principal motivo para se ir votar. Ou então, a conhecida centralidade do Estado é implícita no conceito participativo da população, ocorrendo mais às urnas nas eleições legislativas, por sentirem que a resolução dos seus reais problemas, são efectivamente atendidos pelo Governo central.

            Perdoem-me os entendidos em estatística por tamanha ousadia, nas três últimas eleições nacionais a “média” da abstenção foi 37,7%. Com estes valores, enraizados, injustificados como verificamos, é de se propor a revisão dos artigos que regem as várias Leis Eleitorais no que concerne à Mesa de Voto. No lugar de “sensivelmente 1000 eleitores” devia-se prever o mesmo número, mas de votantes, o que significava reduzir, pela estatística, em 35% o número de mesas de voto. No total teríamos teoricamente 7933 mesas, o que significava um custo com a totalidade dos seus membros de 3 milhões de euros. Só aqui conseguia-se uma poupança aos cofres do Estado de 1,6 Milhões de euros, por eleição.

            No ano de 2009, o custo com os membros das mesas de voto poderá ser 13,95 Milhões de euros. Para sermos realistas, nas eleições europeias, com o valor consagrado de abstenção, bastavam, para as filas não serem muito longas, metade das mesas de voto. Fazendo cálculo com base no valor histórico ou estatístico de votantes, poder-se-ia num ano eleitoral excepcional como o actual, poupar 5,6 Milhões de Euros (18%), libertando 980 pessoas por eleição, para outras actividades complementares nesses domingos.

            O mesmo se pode dizer dos boletins de voto: 12 milhões foram realizados para a última eleição, no que se traduz num custo aproximado de 300.000 euros. As contas são agora fáceis de seguir e embora os valores sejam mais baixos, sempre permitia poupar mais uns milhares de euros.

            Se algum dia a tendência da abstenção se inverter, passando a haver mais eleitores a votar, é só verificar os novos valores da abstenção, podendo-se ajustar as mesas e boletins de voto à real procura dos eleitores.

            Enquanto esta tendência se mantiver e o voto electrónico não for uma realidade, seria fácil reduzir os custos de um acto eleitoral, orçamentando-o de acordo com a participação dos Portugueses. Se assim se fizer, em próximos anos, a tentativa de fusão de eleições num só dia, terá que ser melhor justificada… a bem da democracia.  

 

(a publicar no dia 25/06/09)

 

terça-feira, maio 26, 2009

Barbeiro

            Era sábado de manhã, tinha terminado de escolher os artigos a comprar. Esperava pela conta, para pagar e ir-me embora. Pela porta da loja entrou uma pessoa, cuja cara não me era de todo estranha. Entretanto, a conta foi-me apresentada, puxei de cartão de débito e enquanto introduzia o código secreto e esperava pela ligação para validação da compra, o mesmo sujeito pagava e desaparecia na rua. Fiquei na incerteza se o conhecia ou não. Do nome não me lembrava, apenas me recordava vagamente daquela cara.

            Já com as compras colocadas no carro e iniciada a viagem de regresso a casa é que me concentrei, revendo vários pontos da minha passagem pela cidade, até encontrar uma resolução para este exercício de memória. Normalmente, quando me proponho a isso, em poucos minutos consigo recordar-me da pessoa. Embora, na maioria das vezes, desconheça o nome, lembro-me de onde a conhecia e de como a sua actividade profissional se cruzou comigo.

            O desfecho tardou. Eliminei a hipótese de um qualquer cruzamento, mais recente, numa das indústrias locais. Aquela cara trazia recordações mais antigas. Não estava ligada a nenhuma escola, nem a qualquer repartição pública. Não era de nenhum restaurante, muito menos café, nem de uma casa de vídeo - jogos.

            Apostava no comércio, numa loja, com aquela pessoa atrás dum balcão. Só não sabia de qual.   

            Recuei à infância e lembrei-me daquela fisionomia, o tom de pele moreno e os olhos rasgados. Tinha-me cruzado com o barbeiro. Recordava-me agora da sua cara, envolvida numa bata azul. Não atrás do balcão mas, junto às cadeiras do ofício. Não me consigo recordar se alguma vez vi a sua imagem reflectida. Toda aquela confusão que o espelho provocava numa criança, a mão da tesoura observada do lado esquerdo e o contrário com a mão que segurava o pente ou a escova. Não queríamos desviar os olhos daquela imagem, atentos a todos os movimentos do barbeiro e não facilitávamos a sua tarefa, recolocando a cabeça ao jeito de podermos seguir o corte, talhado no nosso cabelo. Pelo meio surgiam uns empurrões mais autoritários na cabeça e no final, seguindo as modas da época, o barbeiro descarregava a laca no cliente. De nada serviam os protestos, moda era moda e carregava-se no spray.

            Se tenho dúvidas, como atrás escrevi, se alguma vez fui seu cliente, recordo-me bem em que barbearia servia. O barbeiro trabalhava ao dobrar da esquina do prédio onde vivia. Passei pela frente daquela fachada, com ele lá dentro, centenas de vezes. Muito pequeno, para educadamente ir buscar a bola que extravasa os limites do pátio do apartamento dos meus pais e invadia as traseiras da moradia de um dos vizinhos, situada precisamente ao lado da barbearia. Poucos anos mais tarde, nos fins de tarde do Outono e Inverno, já escuro portanto, atravessar a mal iluminada Rua Júlio Dinis, com apenas lojas comerciais nas suas extremidades - sabendo-se que circulava pelas ruas da vila um tresloucado que além de apanhar beatas do chão, por vezes tinha comportamentos agressivos - ver a claridade proveniente do interior da barbearia era um sinal de segurança, para transeuntes ainda longe da adolescência e por isso, receosos.

            Nem sei durante quantos mais anos este homem trabalhou naquela loja. Habituei-me a vê-lo ali. Até que um dia deixei de passar por lá e só reparei na sua ausência quando o nome da barbearia mudou. Parafraseando o escritor Dinis Machado, este barbeiro foi um actor anónimo das ruas da minha infância. Mais existem e resistem. Vários são os vizinhos desse meu tempo de infância, que desde essa época acompanham os muitos lojistas. Enumerar uns e outros seria correr o risco imperdoável de esquecer alguém.

            Da janela do meu quarto via a rua toda. Desde o cimo, do marco do quilómetro zero da estrada nacional 227, até ao cinema. Uma rua animada. Com movimentações constantes de automóveis e de pessoas, muitas provenientes de autocarros, esvaziados de manhã cedo e que se enchiam ao fim do dia, devolvendo às freguesias vizinhas quem para aqui vinha trabalhar diariamente.

            Rua de contrastes. No mesmo dia, podia ser atravessada por um transporte de longa dimensão, carregado com alguma grande obra de metalomecânica proveniente de Vale de Cambra, obrigando a retirar e colocar cabos aéreos, e mais tarde, no sossego do fim de tarde, uma vaca transpunha o empedrado, recolhendo-se do pasto, para pernoitar, nas imediações da rua. Aos domingos, nas manhãs, o descanso era interrompido pelo altifalante da igreja evangélica. Minutos depois, um vizinho rebatia com uma música dos Pink Floyd. Nessas tardes, as ruas eram invadidas após as matines do cinema e enquanto esperavam pelo transporte, as raparigas forasteiras, algumas bem ingénuas, sujeitavam-se aos piropos atrevidos dos jovens locais, que interrompiam as suas partidas de snooker para uns minutos de diversão.  

            Tudo mudou, é certo. Acompanhei as primeiras transformações físicas da rua, em período de mudança de idade. A substituição do granito paralelepípedo pela calçada calcária, os novos canteiros, as floreiras centrais e a expansão comercial, acompanharam-me desde a minha adolescência até à idade adulta. As últimas alterações, com o consequente declínio a todos os níveis, já me apanharam de saída.

            A minha participação no quotidiano da rua limita-se actualmente a meia dúzia de passos, entre a garagem onde estaciono o carro e a porta de serventia do prédio, onde ainda moram os meus pais. Meia hora depois faço o caminho inverso, fecho a garagem, cumprimento quem ainda me reconhece e sigo pelo empedrado abaixo.

            Hoje sou eu o figurante. Nada mais posso ambicionar do que ser reconhecido, daqui a trinta anos, por um qualquer observador mais atento, como isso mesmo: um personagem sem nome, nem protagonismo na história de uma rua.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Metamorfose

            O relato efectuado pelo labor, na sua última edição, da troca de argumentos mantida numa sessão da Assembleia Municipal, acerca da construção de um hipotético parque subterrâneo na Praça Luís Ribeiro, deixou a cidade em suspenso e pouco esclarecida.

            Os anos da gestão autárquica de Castro Almeida têm sido marcados pela defesa do bem-estar da população, do interesse público, das contas da autarquia. Neste sentido foram realizadas uma série de obras, enquadradas dentro de um programa eleitoral, que evidenciavam um projecto para a cidade de S. João da Madeira, a curto e médio prazo.

            É apanágio dos autarcas efectivar obras, no sentido de perpetuar o seu mandato e torná-lo visível aos olhos dos eleitores. Por seu lado, os eleitores ao avaliarem o mandato de autarcas, tendem similarmente a apreciar o trabalho realizado, comparando os avaliados com os seus antecessores.

            A separação da forma do conteúdo, no exercício do cargo político, foi a principal alteração introduzida no primeiro mandato de Castro Almeida, relativamente ao seu antecessor. A dinâmica evidenciada, muito suportada no cuidado da imagem, permitiu alcançar uma folgada vitória para um segundo mandato. Apoiado pelo seu partido e por grande parte da sociedade civil, a maioria política acreditou e convenceu-se da unanimidade em torno das ideias do presidente do executivo municipal.

            Alertadas no devido tempo, as restantes forças políticas modificaram a sua forma de agir, passando a questionar e a debater ideias sobre a cidade. Efectivamente, o que se espera de uma democracia.

            Da tal sessão da Assembleia Municipal os argumentos, a favor da construção do mencionado parque, oscilaram entre a vacuidade e a contradição. O de primeiro tipo porque não existiu um argumento favorável válido: não existem estudos; não se analisou a actual situação após a construção dos outros dois parques; não se decifrou o que falta na Praça para captar o interesse das pessoas. Por outro lado, segundo o labor, foi referido que será necessário criar condições para “libertar as ruas para os peões” - uma vontade oposta à da última intervenção efectuada na zona pedonal, em 2007.

            O inexplicável desempenho em rectificar esse erro, não permite compreender o empenho da autarquia no alinhamento de rotundas, separadores centrais e outros condicionantes de trânsito, em artérias não essenciais ao regular fluxo do tráfego na cidade. A sucessão de intervenções nas vias públicas, mais o retirar de pedras, noticiadas recentemente, fazem recordar os idos de 90, ainda hoje incompreensíveis para os eleitores, pela forma espontânea como eram executadas a maioria das construções, obrigando a questionar a sua utilidade, assim como a prioridade e a importância.

            Nestes tempos difíceis de convulsão económica, há que ponderar entre o interesse pelos arranjos ou pela desejada harmonia social. As políticas sociais do município resumem-se a donativos, amplamente divulgados e pouco concretizados, mais uma série de organizações com idosos.

Em simultâneo, na indústria, as principais empresas empregadoras da cidade estão em agitação. Os seus trabalhadores vivem momentos de incerteza. Por sua vez, o comércio tradicional sofre com a deslocação dos clientes para o centro comercial. Os números sobre a população activa divulgados pelo centro de emprego são significativos. Mais preocupante é que o número de empregos começa a diminuir.

A cidade está sobredimensionada com mais habitação do que moradores, com mais pavilhões industriais do que empresas, com mais lojas do que comércio.

            O poder político prefere ignorar este estado devoluto, arrepiando caminho com o lançamento de mais obras, de pouco ou nenhum interesse público. 

            Curioso nestes tempos difíceis é assistirmos à reconciliação da primitiva forma com o conteúdo. Um retrocesso, tornando o quotidiano político banal e sem qualquer motivo de interesse para o futuro.

 

(a publicar dia 19/02/09)

 

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Vazio

A separação da família, a caminho do divórcio, atirou-o para fora de casa. Longe da ex-mulher, dos filhos, deixou as lágrimas à porta do seu lar familiar e recomeçou a vida numa nova condição.

O árduo trabalho mantendo-o ocupado, as noites bem passadas em casa de amigos – recentes e antigos, as saídas e programas de fim-de-semana com os filhos, não lhe fizeram lembrar o passado.

A inquietação que permanece no final de uma relação, a dúvida da opção tomada: onde tinha ficado, antes de… não tinha ainda surgido no seu novo dia-a-dia.

O destino, numa noite terminada demasiadamente cedo, levou-o de volta ao local do seu tempo de juventude. Deviam ter passado uns treze ou talvez catorze anos, desde a última vez que cruzara a porta de serventia daquele bar e subira os degraus daquela escada. Tudo estava semelhante. O mesmo dono, homem atrás do balcão, com uns cabelos brancos, recordando a passagem do tempo e umas rugas complementares na face. Não saberia se seria reconhecido e não pensava encontrar ninguém do seu tempo por ali.

Após os cumprimentos com o dono do bar, com a conversa de circunstância interrompida pelos pedidos dos outros clientes, olhou em redor e fitou algumas caras que o reconheciam. Amigos não eram, apenas conhecidos, companheiros de alguma noite, de alguma jornada colectiva, de copos e uns charros.

Trocados os olhares, apertadas as mãos, um abraço nalguns casos, verificou que o ritual se mantinha, copos de cerveja, gargalhadas, conversas ocasionais e umas saídas ao exterior, para umas passas numa mortalha bem lambida.

No meio de tantas recordações, lembrou-se do seu esquema de engate, mantido naquele estabelecimento, durante alguns anos, com uma conhecida. Uma forma de estar com alguém, sem estar. Nunca mais se tinha lembrado dela, nem ousava perguntar por ela, nem pelo seu estado. Eram coisas do passado, da adolescência tardia, ou da idade jovem de adulto. Nunca tinha percebido como aquela relação tinha durado tanto tempo. Era inexplicável. Nada sentia pela fulana, nada sabia dela. Além do sexo, nada mais lhe interessava.

No meio destas reminiscências, alguém o convida para umas passas, ele acede. Na rua, um disfarce menos rigoroso do que no seu tempo, embora as semelhanças fossem evidentes. Entrar num carro, num local pouco concorrido, numa rua escura, ou num parque mal iluminado. Regressar ao bar, mais uns copos e umas risadas. Estava completamente fora de si.

À sua frente surgiu uma cara feminina. Era ela. Não queria acreditar. Como era possível? Conversa animada, uma mudança de bebida. E um convite para prolongarem a noite os dois…

Quando acordou, viu que estava acompanhado e com dificuldade lembrou-se do que tinha acontecido. A ressaca impediu-o de focar melhor a mulher que estava com ele. Olhou para o relógio e preocupou-se. Os seus três filhos chegariam dali a pouco acompanhados pela ex-mulher e seria complicado explicar o seu estado e a presença de outra pessoa com ele. Pronunciou o nome da sua companheira nocturna e pediu-lhe com bons modos para acordar, explicando-lhe a pressa e desculpando-se pela situação.

À sua frente surgiu uma cara desconhecida, num corpo desconhecido.

- Estive a noite toda a ouvir esse nome, pensei que fosse da tua ex-mulher e descubro agora que não é, por isso não me importei – disse-lhe a desconhecida.

Focou melhor. Aquela cara era-lhe mesmo estranha, nem o seu nome sabia. A necessidade de a despachar dali, enchia-lhe a cabeça. Tentou pôr-se de pé mas, cambaleou com a ressaca. Nada de gestos bruscos, pensou.

A companheira continuava a falar e ele não ouvia nada. Abriu a persiana, a luz solar feriu-lhe os olhos. Procurou um comprimido para evitar o mal-estar. Tinha que se apressar e sobretudo, tirar aquela sujeita dali. Quem seria afinal?

Engoliu o comprimido e procurou o chuveiro. Debaixo de água, sentiu-se melhor. Saiu da banheira, secou-se e apercebeu-se de movimentações no quarto. Menos mal, pensou. Regressou ao quarto, sem saber se havia de surgiu nu, se com o roupão. Optou pela primeira opção, a mais sensata depois da noite vivida. No quarto, a fulana já estava vestida. Perguntou-lhe se não queria tomar banho. Nem ouviu a resposta… enfastiado, não conteve o vómito e teve que ir de volta à casa de banho.    Recomposto, vestido, ofereceu café e uma refeição ligeira, mais por educação do que por consideração. Como seria possível ter uma pessoa completamente desconhecida em casa?

Procurou novamente apressar a companheira, falando no aproximar da hora de chegada dos filhos, na necessidade de arrumar a casa e limpar o que fosse possível. Que não, que não, fazia tudo sozinho – disse agradecendo a gentileza pela oferta da sua ajuda. O que mesmo pretendia era ficar sozinho, para se preparar, desculpou-se.

Não sabia o que dizer. Não tinha vontade de a ver de novo. Tentou explicar-lhe o embaraço mas, não foi necessário. A sua companhia nocturna percebeu tudo. Disse-lhe que sairia já, já. Estava a tentar ser simpática. Não queria atrapalhar. Não esperava encontrá-lo de novo, nem que ele a procurasse. Não era nenhuma profissional, apenas engatava desconhecidos e bem-parecidos, naquele bar apenas, à procura de prazer apenas. E ao sair, rematou: essa fulana com quem me confundiste toda a noite, deve ter sido muito feliz contigo, não?

O telemóvel tocou, era a ex-mulher, pedia desculpa estava super atrasada, só chegariam à hora de jantar e portanto, ele tinha a tarde toda livre. Arrumou tudo direitinho, limpou o que havia a assear e continuando mal disposto, expeliu o que o estômago continha.

Tentou reconstituir a noite, o jantar em casa dos amigos, a ida ao bar e resto já descrito. Ligou para casa dos amigos e engasgado lá explicou o sucedido. Ficou surpreendido quando do outro lado do telefone lhe disseram: Esse bar fechou há mais de cinco anos, pá! Precisamente quando o dono faleceu. Onde era esse bar, agora é um estabelecimento comercial, que encerra às 19 horas, como os outros todos nessa rua. Aliás, nas imediações não há nenhum bar. Quando saíste daqui já ias um pouco torto, pá. Eu bem te disse para não pegares no carro. Afinal por onde andaste?
 
(a publicar dia 12/02/09)

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Último desejo

            O dia tinha amanhecido muito brilhante. Júlio, que despertara com a luz matinal, permanecia há alguns dias acamado, num dos quartos de sua casa, por causa de uma doença prolongada que lhe causava um grande mal-estar e sofrimento. Naquela manhã acordara sem as dores que o apoquentavam, sentia-se melhor. O brilho no quarto era intenso, sinal de que o céu devia estar limpo, com uma forte luminosidade, pouco comum nos dias anteriores, cinzentos, frios e chuvosos. Estava a ser um Inverno “à antiga” - todos que o vinham visitar contavam-lhe as peripécias da meteorologia; a já referida chuva, incomodara muitos dos seus amigos e familiares; a neve divertira de início mas, a sua queda constante era sinal de frio e desconforto e pelo que Júlio se apercebia, apesar de estar doente, estavam todos fartos de dias assim.

            Júlio notou uma alteração na luminosidade do quarto. Parecia que uma nuvem passara em frente ao sol. O doente tentou rodar a cabeça para tirar as suas dúvidas. Apesar do esforço, não se mexera. Tentou de novo e nada. Estava com dificuldade em mover-se. Pensou em levantar a cabeça, apoiar as mãos para erguer o tronco e não conseguia fazer qualquer movimento. Tentou, estando deitando de barriga para cima e por isso sem fazer qualquer esforço, mexer os dedos da mão, os dos pés e nada. Nenhum músculo reagia, nenhum osso se movia.

            O quarto ficara mais escuro. Júlio concentrou-se no seu corpo. Ainda ouvia a sua respiração e percebia que o seu coração pulsava. Tentou abrir a boca para pedir ajuda e não conseguiu. Quis soltar um grito, não teve forças. Procurou acalmar-se e chamar normalmente os seus familiares, só que nada aconteceu.

            Júlio estava inerte. Não queria acreditar que vivia os seus últimos momentos. A luz do quarto era já muito ténue. Havia um silêncio incomodativo. Não se ouvindo qualquer ruído da rua, do exterior da casa, ou vindo dos outros compartimentos. Seria o fim?

            Queria despedir-se dos seus familiares, pedir-lhes pela última vez os seus desejos. A sua vontade era que alguém fizesse um discurso de homenagem na cerimónia fúnebre, antes de se fechar a sua urna. Sempre que começava a formular esse desejo, a conversa era interrompida pelo seu interlocutor. Ainda é cedo, para falar em morte - diziam-lhe. Todos esperavam que durasse anos e não uns dias só.

            Sentiu os seus olhos a ganharem lágrimas, como quando comparecia em funerais e ao ver o acto de fechar a urna se emocionava e deixava correr uma lágrima, em silêncio. Era a sua forma de homenagear o defunto, fosse ele familiar, alguém próximo, um qualquer desconhecido. Permanecia de pé na cerimónia, sem qualquer manifestação religiosa até ao encerrar do caixão. Depois, apresentava os cumprimentos à família e seguia a sua vida, sem qualquer tipo de hipocrisia.

            Este seu ritual sentimentalista provinha da literatura. Afeiçoava-se às personagens, especialmente em biografias e qualquer morte era extremamente sentida, ficando em lágrimas, obrigando-se a enxugar os olhos, para prosseguir para as páginas seguintes.

            Dos livros tinha vindo a ideia dos discursos na homenagem final. Não queria nada megalómano, uma breve referência dita por algum bom orador. Um familiar de preferência. A escolha ficaria para os seus descendentes. Um discurso, não o trocava por nada. Nem por música, nem por poemas, nem orações.

            O silêncio era agora total. Já não ouvia a sua respiração. Pensou tratar-se apenas de um inesperado e tranquilo sono.

            Não, estava enganado!

            Não respirava mesmo. Não ouvia as batidas do seu coração, nem sentia qualquer último movimento dos seus órgãos.

            As dores tinham efectivamente desaparecido.

            O quarto ficou escuro, totalmente escuro.

            A manhã continuava com uma claridade fora do comum. Daqui a pouco, em casa do Senhor Júlio soariam os primeiros despertadores, impondo o acordar.

 

(a publicar dia 05/02/09)

 

terça-feira, janeiro 27, 2009

Infusões

            No mundo moderno beber chá passou a ser um conceito urbano, sem qualquer vinculação a um género, ou idade. Os efeitos terapêuticos desta bebida estão perfeitamente difundidos e assimilados, no entanto, o consumo de chá extravasou a ideia preventiva e curativa, generalizando-se. Hoje em dia, é usual em vários estabelecimentos existir uma gama alargada de sabores e tipos de chás.

            "Beber chá" era uma expressão utilizada para justificar a boa educação. Passar tardes em família, ouvindo as conversas, sabendo ter um comportamento adequado ao momento, falar em tom e com assunto apropriado, era simplesmente resumido pela frase "bebeu muito chá em pequeno".

            Depois dessa fase, o chá só era bebido em dias especiais. Em momentos de fraqueza do corpo, como doenças, má disposição e ressacas (ui!) ou nos tais dias de família, no aconchego do lar.

            No exterior, em espaços abertos ao público, o direito de ocupação de uma mesa e respectivas cadeiras era (e ainda é) muitas vezes obtido pelo pedido de café. O lado social de beber ou tomar café é extremamente saudável. Esse costume permite encontrarmo-nos com inúmeros conhecidos em sítios variados, ou em encontros inesperados, dá-nos a hipótese de nos sentarmos relaxados a conversar.

            Como gosto imenso de beber café, durante uns bons anos bebia cinco ou seis cafés por dia. Três até ao pós almoço e mais outros três até à noite. Dormia perfeitamente. Um dia, ofereci um café ao comercial de uma empresa e este ao recusar, explicou-me as complicações que havido tido com o palpitar do seu nervo óptico. Abreviando a história, o seu médico chegou à conclusão que o problema era devido a ingestão de demasiados cafés. Tal como eu, o fulano bebia seis por dia. Tal como ele, o meu olho esquerdo tinha tendência para latejar. Sem precisar de qualquer consulta médica, resolvi reduzir o consumo de café, para metade por dia. Com os três cafés, nalguns dias apenas dois, o meu olho nunca mais se agitou. Tudo corria bem, se não fosse o facto de nesse período da minha vida, os meus filhos serem bebés e chorarem constantemente de noite, acordando-me e obrigando-me a dormir poucas horas. Até conseguir equilibrar estes dois factores passei um mau bocado…

            Recentemente foi divulgado um estudo sobre o consumo de café. Segundo um investigador britânico o excesso de café pode provocar alucinações. Passo a transcrever parte da notícia difundida, no portal Sapo: "Beber grandes quantidades de café pode provocar uma maior tendência para sofrer de alucinações, segundo um estudo efectuado por psicólogos da Universidade de Durham, na Grã-Bretanha, e divulgado pela edição on-line da BBC Saúde. Segundo a investigação, pessoas que consomem mais de sete chávenas de café instantâneo por dia têm três vezes mais probabilidade de ouvir vozes, ver coisas que não existem, do que as que bebem menos que o equivalente a uma chávena (…)".

            A exposição da minha vida, dos meus hábitos, feita nos parágrafos anteriores permite-me assegurar aos leitores que não escrevo sob efeito de excesso de café, sobretudo nos assuntos relacionados com o quotidiano da cidade. Neste particular, escrevo sobre o que observo, a minha perspectiva da realidade, portanto. O mundo virtual ou as alucinações são da responsabilidade de outros, mediante o número de cafés que bebem, ou das ilusões que defendem...
 
(a publicar dia 29/01/09)

terça-feira, janeiro 20, 2009

Jeremias

            Na terra natal ficara conhecido como Jeremias, devido a uma música de Jorge Palma, que ele adorava. Por estar sempre a ouvi-la, a cantá-la, a declarar os seus versos, colou-se a alcunha. Muitos companheiros desse tempo nunca chegaram a saber qual o seu verdadeiro nome. Era apresentado como o Jeremias e o nome de guerra ficou. Ele próprio adoptou o nome, por considerar que aquela letra do músico português, representava o que ele pensava do mundo e da forma como queria estar:  

"Jeremias gosta do guarda-roupa negro e dos mitos do fora-da-lei

Gosta do calor da aguardente e de seguir remando contra a maré (…)"

         Depois de uma infância e inicio de adolescência pouco problemáticos, a vida de Jeremias alterou-se pela morte prematura da mãe. Ficou a viver sozinho com o seu progenitor. As irmãs, mais novas, foram viver com uma tia, irmã da mãe, para outra cidade. Este isolamento familiar transtornou Jeremias. O seu rendimento escolar fraquejou, levando-o a repetir um ano.

            Sem a sua rede de colegas, Jeremias procurou outro sentido para a sua vida. Passou a vestir-se de preto, a procurar nos armários de casa gabardinas ou sobretudos antigos do pai. Comprou botas da tropa. Nem os motores, nem as motas lhe interessavam. Desinteressou-se pelo desporto, ou por qualquer forma de socialização. Na escola permaneceu com notas baixas e outro "chumbo" se aproximava.

            Jeremias passou a ter poucos interesses. A música, com os seus cantores malditos e as suas vidas ditas fantásticas, cheias de histórias de droga e álcool, passaram a seduzi-lo. Passou a ouvir discos, a gravar cassetes de discos emprestados por novas amizades, a memorizar letras e refrões; a ler biografias de músicos famosos e a literatura referenciada pelos tais músicos. Mesmo ainda novo passou a sair aos fins-de-semana à noite, procurando abrigo nos salões de jogos, fintando a interdição de entrada a menores. Encontrava-se com rapazes com gostos musicais idênticos, trocavam impressões, referências, etc. Foi assim que ficou conhecido como o Jeremias.

            O pai, entretanto, entrou em grande depressão. A medicação receitada, obrigava-o a deitar-se cedo. Jeremias saía de casa todas as noites. Passou a frequentar pequenas tascas e cafés de clientela duvidosa. Sem dificuldade, serviam-lhe bebidas com elevado grau alcoólico e apercebeu-se da facilidade em adquirir e consumir drogas.

            Sem mais pessoas da sua família naquela cidade, as opções de Jeremias escandalizaram vizinhos e amigos do pai. Ao alertarem o seu pai, este definhou. Sem forças para mais, deixou-se abater completamente, perdendo completamente o interesse em lutar pela vida. Jeremias viu-se, ainda com 17 anos, sozinho no mundo. Sem saber qual o rumo da sua vida, valeu-lhe um irmão do pai. Este, extremamente pragmático, retirou-o da casa e da cidade onde vivia. De nada serviu protestar, alegar mil e uma soluções para o seu futuro. O tio foi intransigente. 

            Jeremias, aproveitando uma folga no seu serviço, decidiu passar um dia na cidade da sua adolescência. Tinham decorrido vários anos, quase um quarto de século. Não tinha perdido os laços com as suas irmãs, visitava-as várias vezes, mas num acesso de saudades programou uma visita ao local do seu passado.

            Ao procurar estacionamento na rua, foi auxiliado por um arrumador. Após estacionar, tirou uns trocos do bolso e dirigiu-se para o arrumador. Viu o seu estado lastimoso, dentes estragados, braço direito atrofiado num corpo demasiado magro. Droga que os pariu, era a frase utilizada por seu tio, quando foi viver com ele. Antes da incorporação no exército, passavam horas visitando locais terríveis, repletos de toxicodependentes, vivendo na rua, ou em casas abandonadas. A realidade é isto, dizia-lhe o tio, não tenhas ilusões de viveres uma vida mágica, extraordinária. O teu futuro se continuares com as tuas fantasias será isto, remata o tio.

            No gesto de agradecer as moedas recebidas, Jeremias pensou reconhecer o arrumador. Lamentou o seu estado físico em voz alta. Este queixou-se da sua vida. Jeremias não tinha dúvidas, sabia quem era o arrumador. Obviamente não iria confrontar o atordoado interlocutor com um passado tão longínquo. Não era a primeira vez que lhe entregava dinheiro. Se calhar quantias semelhantes, para outros fins.

            Seguiu o seu caminho. Circulou pelas ruas à procura de outros sinais do tempo ali vivido. Foi à rua onde vivera com os pais. A sua casa já não existia. Em seu lugar erguera-se um prédio com vários andares. Olhou em redor e identificou alguns dos prédios antigos. Eram visíveis várias placas propondo soluções para espaços devolutos. Procurou moradas dos amigos de infância. Não teve sorte. Portões fechados, campainhas tocadas sem resposta, portas abertas por estranhos e nada. Não encontrou ninguém. Ficava com a ideia de que por detrás daquelas entradas, ia encontrar objectos resistentes ao tempo, guardados por pessoas que pouco a pouco o iriam reconhecer e ficariam agradadas com a sua aparição. Lembrava-se dos momentos felizes ali vividos e não estava ali pelo passado para redimir, o que queria era recordar esses momentos. Falar e saber como estavam todos. Explicar como era a sua vida, o que tinha feito…

            Tentou nas lojas comerciais encontrar alguém do seu tempo. Entrava, olhava para o balcão de atendimento e desiludia-se. Ainda assim, por educação explicava o seu propósito. Indicaram-lhe uma loja, cujo dono estava estabelecido há muitos anos. Porém, na loja referida não encontrou o sujeito, acamado há alguns dias com uma gripe. Por esse motivo não o incomodou.

            Vagueava pelas ruas, verificando os melhoramentos introduzidos. Os prédios, as lojas comerciais, o alinhamento dos passeios, o asfalto nas ruas, os candeeiros, as floreiras, alguns bancos de jardim. Não tinha onde entrar, não tinha ninguém a esperá-lo. Ninguém para recebê-lo. Jeremias verifica que, mais do que apartamentos ou moradias vazias, mais do que compartimentos sem mobília, o que realmente sobrou do seu passado são memórias devolutas.

            Agitou-se ao encarar uma moradia em ruínas. Abandonada ao tempo, a casa estava rodeada de vegetação. Aquela fora a casa que o acolhera noites e noites, depois da hora do fecho dos cafés que frequentava - quando o dono ficava cansado de estar aberto, sem servir nada durante horas. Propriedade de familiares de um amigo, a casa avistada passou a ser local de peregrinação de vários noctívagos. Primeiro com electricidade e vários móveis. Depois apenas iluminada pelo luar e vazia. Procurou a entrada, forçou a fechadura, a custo abriu a porta. O telhado em parte ruíra. Passou por cima de telhas, transpôs salas e chegou a um compartimento mal iluminado. Acendeu o isqueiro e na sua frente apareciam uma série de inscrições. Sem esforço, encontrou uma escrita por ele: Jeremias escolheu o seu lugar do lado de fora.

            De volta ao carro, vendo que o arrumador ainda estava naquela zona, deu-lhe mais uma moeda e não se conteve, perguntando-lhe se ele se lembrava do Jeremias. Como a resposta tardou, Jeremias entrou no carro e preparou-se para arrancar.

            O seu passado seria arrasado naquela cidade.         
 
(a publicar dia 22/01/09)

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Magalhães

O computador Magalhães foi entregue pela escola ao meu filho.

Finalmente!

Quatro meses decorridos desde o inicio das aulas, meio ano após o seu anúncio pelo Governo chegaram os desejados portáteis, para os alunos do ensino básico.

Uma medida representativa da face mais simpática do executivo liderado por José Sócrates e do seu “choque tecnológico”.

A ansiedade criada nos mais pequenos e por sua vez nos seus pais - obrigados a explicar vezes sem conta a demora na entrega dos computadores, quando ao mesmo tempo apareciam anúncios da sua venda ao público - deveria ter sido evitada.

À oportunidade para propaganda política interna do Governo, ou mesmo para serem exibidos em cimeiras externas, neste caso no limiar do mau gosto, apresentaram-se contra-argumentos políticos, alguns a rasar a mediocridade.

No fundo é necessário não esquecer o alcance desta iniciativa: a democratização da informática, distribuindo-se um portátil com capacidade suficiente para a aprendizagem dos alunos do ensino básico.

Pelo caminho, os mais pequenos assistiram à sátira do Magalhães, constante nos melhores momentos da série humorística “Zé Carlos”. Não é fácil, dada a credulidade em plena idade da inocência, assistir às divertidas e supostas aplicações do portátil, como as apresentadas pelo Gato Fedorento, para arma de defesa pessoal, ou torradeira, perdão “tosteira”, ou até máquina de engomar gravatas, entre outras.

Se algumas crianças já receberam o computador, outras ainda não, tendo em conta que apenas alguns encarregados de educação receberam os dados para efectuar o respectivo pagamento, ainda em Dezembro. Na sala de aula do meu filho, no momento que escrevo estas linhas, apenas três alunos tinham recebido o Magalhães. Esta entrega em pequenos lotes, não faz sentido nenhum.

Toda esta espera é prejudicial para o bom funcionamento do projecto, a menos que o Ministério da Educação e as suas Direcções Regionais sejam adeptas da máxima educativa de que todas as contrariedades causadas aos filhos “ajudam a formar o carácter”, utilizada pelo pai de Calvin, o personagem das tiras de banda de desenhada, criadas por Bill Watterson.

Atendendo ao calendário avançado do presente ano lectivo, pouca ou nenhuma interferência o Magalhães irá causar na aprendizagem do meu filho. Neste sentido, a melhor ajuda que se pretende, para o futuro, é na redução indiscutível do peso a transportar para a escola pelos nossos filhos. Através de todos os meios didácticos e informáticos possíveis, espera-se essa melhoria sustentável, sem esquecer que é importante salvaguardar as qualificações apropriadas às crianças neste grau de ensino. No passado, o facto de existirem calculadoras, não inibiu que se promovesse o cálculo mental, nem a aprendizagem da tabuada. Do mesmo modo, a existência de processadores de texto no Magalhães, destacando esta das outras competências inerentes, não impede que se continue a fomentar a caligrafia clara e a evitar os sempre incómodos erros ortográficos.

É engraçado ver um miúdo de sete anos a ligar o seu pc, a digitar a sua palavra passe e aceder a uma série de menus e programas, tal qual um adulto. Obviamente, espero mais do Magalhães! Aguardo pelo ensino com as novas metodologias, assim como, pelo tipo de interesse a despertar nos alunos e claro, espero pelos resultados finais disto tudo, sabendo que esta alteração produzirá efeito efectivo só daqui a doze ou quinze anos.

Até lá, espero que as actuais gerações de jovens com idade superior ao meu filho, aprendam a viver com as novas tecnologias, adaptando-se e utilizando melhor os meios informáticos que têm ao ser dispor, para quando ingressarem no mundo do trabalho, estarem aptos a serem competitivos.

Enquanto escrevo este texto, o meu filho explora o seu Magalhães ligando-lhe o mp4 para ouvir música.

(a publicar dia 15/01/09)

terça-feira, janeiro 06, 2009

Doze trabalhos

            Após dois anos problemáticos, 2008 correu da melhor forma ao executivo liderado por Castro Almeida. O terceiro ano do seu segundo mandato ficou marcado por várias inaugurações. Estes actos, sempre do agrado das populações, prosseguiram dentro da lógica de cumprimento das promessas eleitorais de 2005. A concretização do Centro Empresarial e a inauguração do Parque, em conceito urbano, do Rio Ul, a exemplo do atrás referido, tiveram os maiores destaques, por motivos óbvios.

            Pelo meio e de forma não dissimulada prosseguiu-se a resolução de problemas herdados dos últimos mandatos do anterior Presidente. Neste sentido, a abertura ao trânsito do túnel ligando a Rua 5 de Outubro à Rua do Brasil e o inicio das obras na denominada Rua dos “jeitos”, foram coerentemente os principais assuntos resolvidos. No passado havia sido o Pontão do Orreiro e a finalização em mandato anterior dos projectos municipais do Museu da Chapelaria, dos Paços da Cultura e inauguração do Jardim, com a sua inútil esfera, nas imediações dos Paços do Concelho.

            O esforço hercúleo obrigou ainda no actual mandato à modificação do conceito da zona pedonal - com reposição de algum trânsito em algumas artérias contínuas à Praça Luís Ribeiro (embora no geral as alterações em nada resultassem) e ao controlo da dívida municipal herdada, através da venda de património municipal. 

            O Cinema Imperador adquirido pela autarquia local em 1999, comemorou 50 anos, não com a inauguração da Casa das Artes e da Criatividade (CAeC) mas fechado, degradado e com o anúncio do inicio das obras, para ficar o espaço pronto em 2010.

            Para o futuro imediato anuncia-se o restauro do Palácio dos Condes, envolvido no negócio das Águas Municipais.

            Refira-se que a criação da empresa da água foi um dos assuntos mais polémicos do último ano. A factura elevada, reclamada pelos munícipes, nunca foi considerada um problema pela edilidade local, ao longo dos demais anos. A situação recebida em 2001 - cobrança de valor por m3 elevado, acrescido da elevada taxa de alugueres de totalizadores - jamais foi ponderada e modificada pelo executivo municipal, de forma a facilitar a vida dos eleitores.

            Antes pelo contrário.

            O corolário da privatização, salvaguardando a manutenção dos actuais preços para os próximos quatro anos, prova que o valor pago pela água, actualmente e ao longo destes últimos tempos, estava de facto demasiado inflacionado.

            Superado, ou em vias de o ser, os doze trabalhos do legado de Manuel Cambra (indicados ao longo deste texto a negrito, para uma melhor identificação), Castro Almeida demonstrou um forte sentido de gestão municipal, ao controlar os ímpetos dos seus acólitos mais preocupados em apagar os vestígios desse período existentes na cidade. Uma obsessão que inexplicavelmente ainda recebe novos adeptos. Superior a tudo isso, o presidente do executivo procurou ultrapassar as dificuldades e inesperadamente começa agora a fraquejar, ao ponderar deslocar o Centro de Artes de instalações, ou a admitir que ainda se questione a demolição do elemento arquitectónico.

            No novo ano aparecem fortes possibilidades de se voltar uma nova página na história da cidade.

            Antes disso, existem uma série de condicionantes para resolver.

            Em primeiro lugar, o cumprimento do programa eleitoral estará sujeito a ses… ou a execuções para lá do actual mandato: a auto-estrada A32 só ficar pronta em 2010 e o vai-vem será em 2011, se houver fundos comunitários, além da mencionada CAeC para o ano.   

            Não se pode esquecer a árdua tarefa de analisar o acordo com o Ministério da Saúde, acerca da manutenção do serviço de urgência.

            Acrescentando a isto, haverá uma atenção redobrada para outros assuntos que ameaçam tornar-se flops: a internet sem fios para todo o concelho e as obras do mercado municipal, traduzindo-se na implantação das barracas nas suas portas - anunciando transformar a Avenida Arantes de Oliveira, na nova rua dos “jeitos”.

            A partir daqui aparecerá um novo projecto global para S. João da Madeira. A sua apresentação surgirá com as eleições autárquicas de Outubro, entretanto, vários tópicos foram já ventilados. Contudo, novas empreitadas serão divulgadas, como é apanágio quando são badaladas as promessas e os programas eleitorais.

            As grandes novidades serão projectos virados para o exterior, dos quais alguns nascerão completamente desenraizados (Centro de Alto Rendimento, por exemplo).

            Perante tudo isto, a população espera que a sua qualidade de vida se torne real, não sendo incomodada pelo excesso de obras de investimento municipal e pela diminuição do elevado índice de criminalidade existente na cidade. Um problema que nos começa a inquietar, não se verificando vontade política em o assumir.

 

(a publicar no dia 08/01/09)

terça-feira, dezembro 16, 2008

Nitrato do Chile

 

            Um pouco por todo o país, mais nos meios rurais, agrícolas se preferirem, era comum encontrar-se nas fachadas de algumas casas, uns painéis publicitários, formados por azulejos, com a silhueta de um cavaleiro e a sua montada em tons negros, sobre um fundo amarelo, representando as cores do amanhecer, com as inscrições "Adubai com Nitrato do Chile". Além deste produto, havia publicidade utilizando o mesmo suporte aos portuguesíssimos pneus "Mabor General", com esta inscrição a preto, envolvida pelo G a vermelho, sobre azulejo branco.

            Alguns subsistiram ao tempo e ainda se conservam nos locais onde foram implantados. Eram os meios de propaganda do Portugal dos anos 70, da minha meninice. Além destes, era frequente encontrar-se na estrada, os pitorescos cartazes do "Licor Beirão", numa época em que na televisão, se repetia as maravilhas do "restaurador Olex" e da "pasta medicinal Couto".

            Poderia evocar o "homem da Regisconta", a figura escura da capa do "Porto Sandeman", partir daqui para outros anúncios televisivos, tipo o da "Laranjina C", ou os históricos da "Citroën", ou da "Coca-Cola" e de recordação em lembrança, perfilhava-se uma série completa, tipo "Anúncios de Graça", completando com os produtos industriais da cidade de outrora, os reclames luminosos "máquinas de costura Oliva" e o boneco dos "colchões Molaflex". 

            Atalhando, porque a hora de fecho da edição começa-se a aproximar e a redacção perde a paciência com os meus atrasos, volto aos nitratos, para justificar a sua evocação. Uma referência ao composto químico, à guerra do Pacífico, entre vários países sul-americanos, apareceu nas minhas incursões literárias. Só por aqui, já tinha premissa justificativa para a recordação.

            Continuando no Chile, evoco agora escritos curiosos pela mão de uma geração de escritores, que viveram na juventude a ilusão da vitória democrática do socialismo. Quando iniciaram as suas prosas muitos anos mais tarde, não é raro encontrar-se as menções a familiares incompreendidos, não alinhados na aventura colectiva e também não indiferentes à revolução militar, reprovando-a. Normalmente, com a incerteza literária, esses antepassados dos escritores são referidos de forma respeitosa e sente-se nas palavras escolhidas uma ponta de nostalgia, por só perceberem os pensamentos desses familiares, pelo traquejo adquirido.

            Desenrolando… eram pessoas que acreditavam sobretudo na humanidade. Uma ideia utópica com traços comuns na obra literária de Miguel Unamuno e Frederico Lorca, para citar escritores ibéricos, finalizando com Miguel Torga e Teixeira de Pascoaes. Repugnava-lhes qualquer ideia de Estado centralizador.

            Apressando o raciocínio…

            Nos tempos actuais, assistimos ao regresso do Estado a vários sectores da nossa vida social. Se esta preocupação é felizmente comum às várias ideologias políticas, não sendo exclusiva de nenhuma sensibilidade, nem partido político, como em tempos defendi nas páginas deste jornal (Setembro de 2007), já a interferência do Estado nos mais variados sectores, é mais difícil de enquadrar na generalidade dos partidos políticos Portugueses.

            Nos últimos anos temos assistido à "municipalização" de S. João da Madeira! Quem observar com atenção as páginas dos jornais locais, verifica com facilidade o peso da Autarquia na edição de notícias. Além dos relatos das reuniões Camarárias, das Assembleias Municipais e de Freguesia, existem várias páginas dando conta de obras em curso, inaugurações e projectos futuros. Fora esta perspectiva de construção, temos uma série de iniciativa promovidas… pela Autarquia, ou com a sua bênção, nas mais variadas áreas. Ou então, a lista de subsídios atribuídos… pela autarquia. E no meio disto tudo, surgem artigos de "opinião" que compilam as notas informativas emitidas… pela autarquia. A situação é de tal forma asfixiante, que chegou-se ao ponto de se transcrever afirmações de um programa televisivo de debate político nacional, no qual o Presidente da autarquia faz parte do painel de comentadores (obviamente o visado não tem qualquer interferência no assunto).

            Numa cidade que é reconhecida pela sua capacidade empreendedora, pela iniciativa das suas gentes, pelo dinamismo dos seus empresários, verificamos que algo está errado. Entre o que as notícias publicadas transcrevem e o que deveria ser uma cidade activa e criativa, existe uma grande diferença. Salvo raro excepções, como por exemplo, a recente acção promovida por um grupo de empresários na Rua do Dourado, criando um espaço de apoio aos pais, que pretendendo fazer as suas compras nesta quadra de Natal, na zona pedonal, podem ali deixar os seus filhos entretidos.

          Não me alongo mais, até porque o limite de espaço e de tempo pretendido pela redacção já foi ultrapassado.

            Para facilitar as próximas edições do jornal, decidi entrar de férias das escritas até Janeiro. Por isso, envio a todos os leitores votos de umas ecuménicas Boas Festas.
 
(a publicar dia 18/12/08)