quarta-feira, julho 28, 2010

sinais do tempo

            A frase “não devemos voltar a um lugar onde fomos felizes” é a atribuída a Agatha Cristhie. Não vou ajuizar os seus escritos, até porque não conheço o contexto da qual é retirada e isso é sempre importante para entender completamente uma citação. Extractos retirados da literatura não devem ser utilizados como mandamentos. Se tenho que voltar a um lugar, regresso. Não espero encontrar o que vivi anteriormente. O tempo não volta para trás. Por isso, a expectativa ao reencontrar os espaços já visitados, é procurar novas experiências.

            Respondendo a um pedido dos meus filhos, voltei a acampar. Não o fazíamos há seis anos. Na hora da escolha do parque, não tive dúvidas. Numa aldeola da beira alta, concelho de Sátão, havia montado tenda para três, tendo o meu filho um ano e meio. Dois anos volvidos, regressei ao mesmo parque. A família com um novo elemento, estreando-se no campismo com um ano e três meses. Depois disso nunca mais armei tenda. Ingressar num parque de campismo, com todas as implicações associadas, só poderia ser no mesmo. Desta vez sem fraldas, sem sestas para crianças, sem biberões de leite, nem sopas apropriadas a idades infantis. Só poderia correr bem. E assim foi. O encantamento provocado nas crianças valeu o esforço. Sem qualquer memória de acampar, tudo lhes pareceu novo.

            Existe quem tenha reescrito a frase com que inicio este texto, modificando-lhe o sentido “devemos voltar a um lugar onde fomos infelizes”. Sinceramente, penso já ter experimentado. Não por qualquer tentativa de modificar o curso da minha vida. Por acaso, por coincidência e de todas as vezes que regressei a um desses locais, fiquei com a sensação de me sentir mal, sem perceber muito bem o motivo. Contudo, se me apercebo de estar a cometer o mesmo erro, procuro tirar a melhor satisfação do meio que me envolve, para não ficar associado a experiências negativas.

            Por falar em experiências, regresso várias vezes a algumas abandonadas no passado. Tenho a sensação que algo ficou por fazer e procuro completar. Já por aqui relatei a sensação de alegria que tive em saber a fórmula para resolver o cubo de Rubik. Experiência semelhante fui vivendo este ano, ao retirar do sótão de casa dos meus pais, o meu baixo eléctrico. As primeiras notas tocadas corresponderam a duas músicas da Joy Division. Ficaram em memória estes anos todos. Uma linha de baixo simples, do período urbano - depressivo. Recuei 20 anos, inscrevendo-me em aulas, para aprender um pouco mais sobre o instrumento e melhorar o meu conhecimento sobre música.

            Haverá outras práticas que um dia poderão ser recuperadas. Da infância, ou da adolescência, como referido e começa a fazer sentido resgatar as experiências maltratadas da primeira idade adulta.

            É curioso, até há dois anos, raramente olhava para trás.

            Pode ser consequência da passagem do tempo.

            Certo é que no dia em que se publica esta edição do labor, vou assistir ao concerto de Caetano Veloso, no Coliseu do Porto. Vinte e oito anos depois do seu álbum Cores e Nomes, um dos primeiros que ouvi insistentemente.

            Boas Férias.

 

(a publicar no dia 29/07/10)

quarta-feira, julho 21, 2010

No prelo

No prelo

                Torre norte do World Trade Center, pelas 8 horas e 45 minutos do dia 11 de Setembro de 2001. O grupo de pessoas transportadas num dos elevadores desconhece o final da curta ascensão. Dos ocupantes, três mantêm uma amena conversa e os oito restantes escutam-nos, não revelando qualquer manifestação de interesse. A conversa é entre membros de uma organização não governamental, uma minoria de altruístas, por oposição à indiferença da maioria. John Duckley, defensor da livre circulação de pessoas à escala global - “em homenagem à minha origem irlandesa”, segundo o próprio – o seu entusiasmo contagiante, esconde um ser frágil, com um passado cheio de recalcamentos. Hadiya al-Marakibi uma exilada síria - procurando argumentos para contrariar a desigualdade da condição feminina no seu país de origem - alia o exotismo a uma falsa ingenuidade, tornando-se por isso, uma consistente manipuladora e uma forte negociadora. Jim Motion, advogado especializado em legalizar clandestinos, inconformado na sua actividade, persistente e cosmopolita é o cerne da narrativa. O contraste com os ouvintes mais preocupados com novos modelos de SUV, o obrigatório consumo de combustível elevado; ou com as rentáveis aplicações financeiras não chega a ser evidenciado pelo trágico acontecimento ocorrido segundos depois. O que sobra do relato é a diferença económica no mundo. As migrações humanas. O papel da religião como incentivo à guerra entre povos. O destino irónico de três filantropos que procuravam auxílio para a sua causa – direitos humanos nos países muçulmanos. A ascensão naquela manhã pode figurar como metafórica, relacionando-a com a duração da vida humana. Com o sentido da vida humana…

 

                Umas linhas encarreiradas, preparadas para algo que exigirá um fôlego extraordinário e tempo, sobretudo, tempo para empreitadas criativas.

                Por enquanto, limito-me a preparar a mala para as férias anuais. Este ano vou incluir três volumes do escritor local Manuel Córrego. Mais uns volumes de escritores nacionais, publicados na década de oitenta e mais uns quantos de autores estrangeiros. Para todos vou continuar a utilizar a técnica de leitura dos dois marcadores. Um indica a página que estamos a ler e o segundo marca o objectivo – que pode ser o final do capítulo, ou uma determinada página. Com este método, passei a rapidamente devolver livros à prateleira. Anteriormente utilizava a técnica de navegação Bojador - Boa esperança. Fácil de explicar, as primeiras páginas eram lidas sem grande velocidade, com grande sofrimento (correspondendo aos avanços dos navegadores ao longo da costa africana no século XV), até descobrir o rumo da prosa escrita (obviamente correspondendo à passagem do segundo cabo, acima mencionado). Raro era o livro com o fio condutor a ser descoberto no inicio.

                Pode ser que haja uma melhoria pessoal na técnica da escrita e o alento para publicação de uma maior quantidade de palavras seja conquistado.

 

(a publicar no dia 22/07/10)

 

quarta-feira, julho 14, 2010

A Sul

            Falésias limitam o oceano e entrincheiram areias acumuladas. A erosão nestas rochas é visível pelos penhascos isolados no mar. Um ou outro continua ligado ao maciço, embora furado, permitindo a passagem sob um arco insustentável. A paisagem natural altera-se com outros elementos geográficos inerentes e as praias, consequentemente, surgem mais amplas e extensas. A intervenção humana condicionou os restantes elementos naturais. A ambição de construir moradias e apartamentos junto ao mar alterou toda a paisagem. Os atropelos ambientais e urbanísticos foram-se sucedendo em nome do desenvolvimento turístico. O indefensável conceito, pela ausência de qualidade, obrigou à mudança. Intervenções municipais tentam disfarçar os erros do passado. Inalterável fica a implantação de muralhas de betão, a sobrelotação na época estival, com todas as consequências intrínsecas.

            Em época baixa, a paisagem humana no Algarve é outra. Por detrás da invasão de verão, o encontro de nacionalidades é espantoso. Aprecio em menos de meia hora a passagem de indianos, chineses, outros asiáticos com turbantes na cabeça, mulheres de rosto totalmente tapado, outras com um véu na cabeça, africanos, magrebinos com as suas carpetes para venda aos ombros e peruanos, que à noite se fantasiam com penas como se fossem actores secundários num filme de Hollywood. O desfile continua com brasileiros e ucranianos. Num restaurante, cujo dono é de origem turca, os empregados portugueses conversam amenamente com o cliente de nacionalidade uruguaia, perguntando-lhe pelo número de anos de radicação. Não percebo qual é a sua actividade, fiquei a saber que por ali está há nove anos. Todos estes casos correspondem a pessoas ou seus familiares que encontraram trabalho por aquelas bandas, cruzando-se comigo num momento de pausa.

            Nas ruas, o linguajar de outros povos europeus, ouve-se a qualquer hora. Turistas de sempre. Mais audíveis e visíveis, quando os que vão “para fora cá dentro” são em menor número.

            Um holandês sabendo um dos meus apelidos – Silva – refere-me como curiosidade o número de habitantes do Sri Lanka com apelido igual ao meu, além de outros de origem portuguesa.

            A migração como um acto humano primário.

            Longe da época do turismo em volume, o clima é reconfortante.

            O mar tem a mesma cor.

            As falésias são igualmente erodidas.

            Os prédios estão vazios, os apartamentos fechados, as moradias de igual modo.

            Nas ruas, passeia-se menos gente. Nas praças consegue-se uma sombra. As esplanadas têm pelo menos uma mesa e por todo o lado ser atendido, não é um acto de desespero.

            As praias estão menos povoadas.

            Tudo isto lembra verões passados.

            Para completar a nostalgia, a recordação das noites passadas ao ar livre: em sessões de cinema ou sentado numa qualquer esplanada de um bar ouvindo Orange Juice. O mais difícil será repetir esta última experiência.

 

(a publicar no dia 15/07/10)

terça-feira, julho 06, 2010

A banhos

Nas livrarias enquanto procuro novos títulos, novas leituras de autores consagrados ou de outros mais desconhecidos, abro alguns livros e faço uma curta leitura. Por vezes, desiludo-me. Outras, chego mesmo a surpreender-me. Num livro de contos, uma colectânea de vários autores, um deles assina com o nome de família comum ao meu. Na narrativa reconheço factos pessoais, pequenos indícios da sua vida. Um primo. Confirmo por sms a autoria e coloco o livro nas escolhas.

Aprofundo, descubro obras de escritores eternos. A curiosidade faz-me ler um pequeno excerto de um conto de Italo Calvino: “Quando tomava banho numa praia ocorreu à Srª. Isotta Barbarino um desagradável contratempo. Nadava ela ao largo, quando, parecendo-lhe altura de regressar, e já se dirigia para a margem, se apercebeu de que um facto irremediável acontecera. Perdera o fato de banho”. Sorrio-o. Fecho o livro. Saio da livraria e fico a imaginar o aperto da desgraçada senhora. Não resisto a alinhavar ideias, efabular, dando sequência ao contratempo da banhista.

A primeira ideia da Sr.ª Isotta Barbarino ao ver-se sem fato de banho, foi procura-lo, no pressuposto que este estivesse a boiar nas suas imediações. Não encontrando nada, afundou-se, evitando expor a sua nudez fora de água, procurando o fato de banho submerso, durante o tempo de apneia. Desistiu da ideia, estava a ser cansativo e pouco produtivo.

Voltou-se para a margem. Por sorte o seu marido estava a borda de água. Com o braço a Sr.ª Isotta Barbarino acenou-lhe. O marido respondeu. A atenção estava captada. A Sr.ª Isotta Barbarino fez um gesto chamando-o. Primeiro com uma mão, depois com a outra, em seguida com as duas. Enquanto gesticulava, passou a chamar pelo marido: Lucas!

Na margem, o Sr. Lucas Barbarino via a esposa a gesticular e percebeu que ela o chamava, só não percebia o que dizia. Voltou a acenar-lhe. A Sr.ª Isotta Barbarino continuou com os gestos e pedia-lhe para ele entrar na água e se aproximar. Como a esposa não saía do seu local e sendo uma óptima nadadora, o Sr. Lucas Barbarino entendeu que a Sr.ª Isotta Barbarino estava aflita dentro de água. Todo aquele acenar era para o chamar, pedindo-lhe socorro.

Dentro de água, a Srª. Isotta Barbarino viu o marido a desatar a correr pelo areal até encontrar o nadador salvador. Mais constrangida ficou, quando o vigilante entrou no mar em cima de uma prancha de surf e se começou a aproximar dela.

O nadador salvador sentiu que algo de estranho se passava, pela cara embaraçada da Sr.ª Isotta Barbarino. Todo o corpo da senhora permanecia tranquilo debaixo de água e o seu único movimento foi segurar-se à prancha calmamente, com apenas uma mão. O banheiro arregalou os olhos e em pânico exclamou: Mas, a senhora está nua! A Srª. Isotta Barbarino respondeu-lhe: Por isso! Senti tanto frio.

Regresso à livraria alguns dias depois e não encontro o livro. Procuro na estante, pergunto na caixa. Nada. Além disso, tenho sempre dificuldade em lidar com o nome de livros e por vezes, até de autores. Esta inaptidão de memória torna difícil a correcta transmissão de informação para quem está a trabalhar. Poderia relatar episódios caricatos. O certo, é que até hoje, nunca mais voltei a ver aquele livro, mesmo nas mais consagradas livrarias. Acredito que um dia conseguirei encontrar o resto de enredo.

O final do banho da Sr.ª Isotta Barbarino, perpetuado pelo escritor italiano, poderá ser do conhecimento de alguns leitores. Para esses as minhas linhas poderão parecer ousadia. No entanto, a intenção era apenas recriar um pequeno apontamento de humor. Nada mais.

(a publicar no dia 8/07/10)

quarta-feira, junho 30, 2010

Sombreros

            Um interruptor é substituído por um sensor de movimento, permitindo a respectiva poupança de energia eléctrica. Solicitei essa melhoria durante anos e apesar de saber da alteração, não consigo deixar de observar à distância se as lâmpadas estão acesas. Não se trata de desconfiança, apenas um prudente hábito de economia, de tal forma enraizado no meu inconsciente, não me permitindo deixar de proceder a essa verificação a cada passagem por esse local.

            Após nove meses de ano lectivo, os meus filhos ficam de férias. As rotinas diárias alteram-se. Novos horários, sem a menor preocupação com os seus afazeres escolares. No entanto, nestes primeiros dias das suas férias, ainda me preocupo com a hora de deitar, mesmo sabendo que no dia seguinte os horários a cumprir serão apenas para os progenitores.

            Dezoito dias a seguir o campeonato do mundo de futebol, a fazer contas como defini em crónica anterior, à espera das surpresas. Entusiasmo com o excesso de jogos, sempre em dias sucessivos e de repente… surgem os primeiros dias de descanso.

            Fica uma sensação de abstinência.

            Daqui para a frente, falta a selecção portuguesa mas, mais do que isso, faltam os jogos diários. Começam as paragens no calendário, os jogos rareiam.

            Os resultados diários dão lugar às discussões antigas: as imagens vídeo para avaliar lances duvidosos; a prestação do futebolista português mais mediático no colectivo nacional; o calendário pré-definido que colocará frente-a-frente algumas das melhores selecções do campeonato, ainda nos quartos de final.

            Os próximos jogos serão mais apetecíveis, restando a dúvida se será desta que uma selecção europeia vence um campeonato do mundo, em prova disputada fora do seu continente. As outras questões como saber se o Uruguai será campeão 60 anos depois? Ou a Argentina, 24 anos depois da mão de Maradona? Ou até a própria Alemanha, 20 anos depois do penalti de Brehme? Ou se pelo contrário, o Brasil conquista o hexa? Podem criar emoção mas, nada se compara com a ideia do próximo campeão mundial ser um novo conquistador.

              O futebol é jogado nas quatro linhas. As estórias associadas ao fenómeno, por vezes têm origem em locais estranhos, perdurando no tempo. Longe da África do Sul, num dos países injustamente afastados desta fase final, a Irlanda, surgiu a reacção mais divertida ao afastamento da França. Para quem não se lembra, a França conseguiu o apuramento frente à Irlanda com o golo procedido de mão. Após a derrota da selecção gaulesa frente ao México e ficando praticamente eliminada, os festejos nas ruas e bares de Dublin foram alargados para a televisão, com um dos apresentadores a aparecer com um sombrero.

            E é isto! Na próxima semana termina este Campeonato e outros assuntos merecerão atenção.

 

(a publicar no dia 01/07/10)

quarta-feira, junho 23, 2010

Redução

            Ao escrever sobre a actividade do concelho, em particular, as opções e os projectos do executivo autárquico, não consigo deixar de emitir opinião. A maioria das vezes desfavorável quando verifico que não existe suporte técnico que permita que as intenções dos políticos sejam financeiramente viáveis. Esta foi sempre a minha posição, sobre o transporte vai e vem projectado pela Câmara Municipal de S. João da Madeira para a linha do Vale do Vouga, entre dois apeadeiros localizados a norte a sul da cidade. Em Novembro de 2008, nas páginas do labor escrevia sobre isso mesmo: “Até hoje nunca li um argumento válido para a instalação de tal transporte. Nem percebi em que estudos se baseou a autarquia para verificar qual a sua viabilidade económica e o interesse público de tal obra. Tenho sérias dúvidas sobre a competitividade deste transporte: pela sua extensão (no máximo terá dois quilómetros, com três paragens – ou seja, cada paragem distará da seguinte menos de um quilómetro); pela rigidez dos carris, que não servem a totalidade da população nas suas deslocações internas (numa cidade em que existem transportes colectivos rodoviários a atravessá-la de norte a sul, de este para poente); e considerando que o preço a pagar por um bilhete, será obrigatoriamente barato, tornar viável tal investimento será difícil. Mesmo que esse valor seja reduzido, ou até comparticipado, suportar os futuros custos de exploração de tal transporte não será nada fácil. “

            É a perspectiva de melhoria do concelho que me atrai. A crítica construtiva, com sugestões sobre os mais variados assuntos, tendo em conta que a intervenção é meramente debitada enquanto cidadão. O balanço desta actividade nunca é efectuado. Os assuntos vão-se sucedendo e várias vezes o tempo prova que a razão não é propriedade de ninguém. O importante é conseguir argumentos fortes, obrigando a que as decisões oficiais sejam baseadas em estudos concretos e que a demagogia eleitoral seja superada a bem do concelho e da sua população.

             A falta de receitas da autarquia passou a preocupar o executivo municipal. A redução da despesa, a melhor e mais sensata opção, foi a decisão tomada e como medida simbólica meteu-se na gaveta uma promessa eleitoral de 2005, que aguardava financiamento comunitário.

            Aliás, a despesa do Estado - assunto na ordem do dia pelo país inteiro - e a sua redução têm alterado os propósitos dos partidos. Neste sentido, a redução do número dos concelhos passou para a agenda das prioridades. A reforma administrativa voltou a ser tema de discussão. A ideia é proceder a uma reforma idêntica à da Grécia que reduziu para um terço o número de autarquias do país.

            As mais variadas preocupações dos reformadores surgem pela imprensa: freguesias com menos de 500 eleitores e também concelhos com pouco mais de 2.000 eleitores são apontados como extinguíveis, ou passíveis de fusão. Nesta perspectiva, a hipótese de fusão de concelhos de grande dimensão populacional, como Porto com Matosinhos e Gaia e alguns da Grande Lisboa, não permite vida fácil a concelhos de freguesia única.

            O próximo censos populacional será em 2011. Se houver tempo, será com base nesse estudo que será efectuada a reforma administrativa. É extremamente importante dimensionar o número da população flutuante da cidade e daí demonstrar-se que os limites humanos do concelho de S. João da Madeira, há vários anos, não coincidem com limites físicos.

 

(a publicar no dia 24/06/10)

quarta-feira, junho 16, 2010

Cabo das Tormentas

            O mundial de futebol é composto por quatro fases de apreciação distinta.  

            A primeira, face ao calendário dos primeiros jogos, é a da indiferença e termina, no final da primeira jornada de todos os grupos. Alguns dos jogos não têm entusiasmo nenhum, são aborrecidos, estão em confronto selecções com pouca qualidade e por tudo isso, terminam com poucos golos, ou na pior das hipóteses sem golos, obrigando o assistente a questionar a sua perda de tempo.

            As contas para o apuramento ou o afastamento prematuro são a fase seguinte. Na segunda e terceira jornada de cada grupo, fazem-se previsões de resultados, assiste-se a desaires das mais variadas e impensáveis selecções. É a fase mais longa. É extremamente curiosa as facções de apoio às equipas de países desportivamente menos consagrados. Conscientemente ou não, trata-se de uma escolha “terceiro-mundista”, atendendo a que muitos desses países são economicamente mais desfavorecidos.

            O entusiasmo continua com a fase das surpresas. Não corresponde apenas ao apuramento de países descritos no ponto anterior. A isso, junte-se o resultado inesperado em jogos dos oitavos e dos quartos de final, ficando o campeonato ao rubro. É a melhor parte da prova.

            O que se segue, meia-final e final são a fase seguinte, a histórica. O registo para a posteridade do campeonato mundial, dos seus campeões e das selecções melhores classificadas. Erguer o troféu, proeza até hoje conseguida por um grupo restrito de países, é considerado um feito repetitivo e por isso, em cada edição do campeonato do mundo de futebol, os favoritos à vitória são sempre os mesmos. Esta fase é muitas vezes enfadonha, culminando com as marcações de grandes penalidades para decretar-se o vencedor.

            Nos campeonatos em que Portugal é apurado, tudo muda. A emoção sobrepõe-se a qualquer racionalidade e o interesse principal dos adeptos portugueses é a prestação da selecção nacional.

            Em quatro participações de Portugal - duas esporádicas, a primeira na década de 60, outra na década de 80 e as outras duas correspondentes às últimas edições deste campeonato – existem dados coincidentes curiosos. Os bons desempenhos em território europeu, em 1966 em Inglaterra e em 2006 na Alemanha, 3º e 4º lugar, respectivamente. Eliminações, ainda na fase de grupo, em 1986 e em 2002, no continente Americano e Asiático - em que Portugal venceu o primeiro jogo, perdendo os outros dois a seguir. Outra coincidência, nos bons resultados, a selecção de Portugal foi sempre orientada por um seleccionador de nacionalidade brasileira. Com um seleccionador português, os resultados foram o que sabemos.

            Este é o histórico da participação de Portugal no mundial de futebol. A deste ano por ser ímpar vai desempatar os bons dos maus desempenhos. Os antecedentes históricos da selecção não auguram nada de positivo: campeonato fora da Europa e seleccionador de nacionalidade portuguesa. O único ponto atenuante para contrariar a história foi o empate no jogo inaugural.

            Nos próximos dias veremos se Bartolomeu Dias, navegador português, que ultrapassou pela primeira vez os limites do Oceano Atlântico, entrando em águas do Oceano Índico, baptizando esse promontório como Cabo das Tormentas, profetizou por vários séculos o encontro do seu povo, com o extremo a sul do continente africano. Ou pelo contrário, se a orientação do Rei D. João II, dando-lhe o nome que permaneceu até à actualidade - Cabo da Boa Esperança, é que estava certa.       

 

(a publicar no dia 17/06/10)

terça-feira, junho 08, 2010

Contraste

            S. João da Madeira passou do “concelho mais cuidado” para “o melhor para se viver”, segundo o estudo divulgado pelo jornal semanário Sol, em parceria na elaboração com o Intec – Instituto de Tecnologia Comportamental. A evolução, da edição do ano passado para a do presente, baseia-se nas respostas obtidas junto dos munícipes e em dados estatísticos do INE.      

            A “satisfação com a vida” dos sanjoanenses contribuiu em muito para a classificação obtida, segundo a análise do semanário, publicada na passada sexta-feira, dia 4 de Junho.

            Ao longo da divulgação do estudo foi evidenciado um contraste entre os dados subjectivos, correspondente à apreciação dos habitantes locais e os objectivos, referentes aos dados estatísticos. A título exemplificativo:

a)                  no item Diversidade e Tolerância, S. João da Madeira foi apresentada como liderante no campo dos direitos individuais – aspecto subjectivo positivo - e por outro lado, o aspecto objectivo negativo: “pouca diversidade de população estrangeira que solicita estatuto de residente e fraca proporção de casamentos celebrados entre indivíduos de nacionalidade portuguesa e nacionalidade estrangeira”;

b)                  em Urbanismo e habitação – um dos destaques do estudo – existem no concelho “os melhores espaços verdes, a maior limpeza de ruas e cuidado com os espaços”, segundo a apreciação dos moradores e em contrapartida neste parâmetro S. João da Madeira não aparece classificado entre os melhores 10 concelhos, dos vinte analisados, motivado pelo parque habitacional devoluto;

c)                  no parâmetro Acessibilidades e Transportes, S. João da Madeira lidera devido ao cuidado com a sinalização das estradas. Em contrapartida, o fraco acesso à rede de auto-estradas nacionais e o péssimo estado da rede ferroviária não foram considerados.

            Na reportagem do Sol, efectuada nas ruas da cidade num sábado de manhã, evidenciou-se outra contradição entre o resultado do estudo e a percepção dos moradores, só que desta vez em sentido contrário: o desemprego é considerado elevado – quando a taxa de empregabilidade do concelho é das melhores, segundo o INE.

            O aspecto ambiental, um ponto fraco como mencionado na reportagem, não ficou esquecido. As lixeiras e as toneladas retiradas no Limpar Portugal pesaram mais do que as boas práticas promovidas pela autarquia e mesmo neste ponto, é importante realçar novamente a contradição, pois a percepção dos moradores como se leu no ponto b) é precisamente oposta.

            A estes pontos dúbios, de sensibilidade diversa, o estudo aponta alguns pontos fortes do concelho, onde não residem dúvidas, concretamente o parâmetro do Ensino e Formação, com a melhor taxa bruta de escolarização no ensino secundário e com melhores acessos às escolas, além do renovado parque escolar.

            Alguns parâmetros deixaram de ser preocupantes: a saúde – apesar da perda de valências do hospital, serviço de urgências incluído, teve como contrapartida a melhoria da oferta de serviços por parte do centro de saúde, veja-se o indicador número de utentes sem médico de família; o turismo – apesar de este parâmetro ter sido uma preocupação dos autarcas e não dos moradores, mais preocupados com a sua debandada da cidade no seu tempo livre, fim-de-semana e férias. 

            A Felicidade, por fim. A aceitação da sua vida, com o que é oferecido pelo meio envolvente é uma característica da população. A construção do Parque América e o assunto na ordem do dia, o “cheiro a casqueira” são exemplos de resignação. O grau de exigência é baixo. As pessoas contentam-se com o que recebem. Sentem-se satisfeitas com a vida e isso é que é importante.

 

(a publicar dia 10/06/10)

 

quarta-feira, junho 02, 2010

Silêncio

            A Câmara Municipal de S. João da Madeira, ao manifestar interesse em participar no período de consulta pública do processo de renovação ambiental da empresa Luís Leal, assume ser porta-voz de todos aqueles que têm “queixas do mau cheiro imputado aquela empresa”. Esta tomada de posição, junto da Agência Portuguesa de Ambiente, devido às dificuldades em recolher suporte técnico, poderá não ser suficiente para a resolução deste problema que afecta a qualidade de vida da população da cidade - não esquecendo os moradores da vizinha Arrifana e também de Cucujães, além de outras localidades como Fornos e Mosteirô. Não são apenas os mais 20.000 eleitores de S. João da Madeira que são directamente prejudicados, como se pode ver. Provavelmente é o dobro da população.

            Três concelhos vizinhos, que representam mais de 220.000 mil habitantes. Se fosse feito o protesto pelas respectivas autarquias, obter-se-ia uma maior legitimidade. Se tal acto fosse em conjunto, uma maior visibilidade junto da comunicação social e consequentemente na opinião pública, seria conseguido.

            Por agora, em concreto, só existe a intenção da autarquia local. Facto notável, em coerência com o discurso assumido no passado recente. A promoção da qualidade de vida no concelho não se compadece com atentados ambientais. O fedor do “casqueira” é, infelizmente, um mal-estar, com que os habitantes da cidade aprenderam a viver. Não pode ser eterno. Um péssimo “cartão-de-visita” da cidade.

            Com esta iniciativa, a Câmara Municipal além de assumir a defesa dos interesses da população, retira qualquer possibilidade de agenda política aos partidos da oposição. Nesta fase, qualquer silêncio é crucial e mal interpretado. Seria interessante não serem apenas as autarquias e associações ambientais a participarem na consulta pública. As concelhias partidárias deviam interessar-se, demonstrando estarem atentas aos problemas dos seus eleitores. O alheamento, ou qualquer outra forma de mutismo, acarretará desastres eleitorais nos próximos anos.

              

 

(a publicar no dia 03/06/10)

                       

quarta-feira, maio 26, 2010

Romarias

            A redução da edição do presente ano da Festa do Parque à sua componente religiosa, pode ser interpretado como um sinal da crise social instalada na cidade. Este ponto de vista, extremamente realista, demonstra o sentimento generalizado que se vive em S. João da Madeira, em consequência do encerramento de indústrias, de lojas comerciais, elevando o número de desempregados, pela quantidade de imóveis devolutos, pelas valências de Estado entretanto encerradas e para alguns pelo desaire do clube de futebol. Pode-se contrapor estes argumentos dos arautos do pessimismo, pela oportunidade criada para a modernização dos hábitos culturais da cidade e dos seus habitantes.

            Em pequeno fui alguns anos à Festa do Parque. Os divertimentos, as farturas, as pipocas, o algodão doce seduziam-me. Praticamente era a única festa da então vila. O S. João da Ponte tinha poucos divertimentos, sofrendo da concorrência da festa na cidade do Porto. A Festa grande, como era conhecida, só se realizava em alguns anos e portanto, a ambição de quem aqui tinha nascido era ir até ao Parque. Com o avançar dos anos, o espírito crítico apareceu. O conhecimento de outras festas, da oferta de outros e melhores divertimentos, demonstraram que a Festa do Parque não era o universo perspectivado na infância. Deixando de frequentar assiduamente o Parque a partir da adolescência, em virtude do encerramento do tanque piscina, tive vários anos sem qualquer aproximação à festa. Apenas há alguns anos, num fim de tarde, em que a família procurou o parque infantil ali instalado é que pude constatar que tudo estava igual. As barracas, as suas mesas, o tipo de divertimentos e as estruturas que os albergavam eram a marca de um tempo. No meu imaginário infantil tudo aquilo fazia sentido, só que passados mais de trinta anos, os tempos são outros. As crianças, os jovens e os adultos têm contacto com melhores formas de lazer e ir ao Parque, à festa, deixou de ser sedutor para grande parte da população local. Mesmo os concertos de fim de festa perderam o encanto do passado.

            Este ano prevaleceu o sagrado sobre o profano. A dicotomia das festas populares reduzida à perspectiva religiosa. Muitas festas aliam a componente religiosa a um motivo pitoresco, casos das tradicionais procissões das Fogaceiras ou dos tabuleiros em Tomar. Não esquecendo que as festas de Santo António em Lisboa – com as suas marchas alegóricas - e do S. João do Porto - com os martelos – têm um forte carácter de irreverência. A norte existe uma forte tradição de festas religiosas. Viana do Castelo, Amarante e Ponte de Lima, procuram sempre superar-se, embora seja difícil igualar o momento da Vaca na Corda nesta última localidade. A sul, os ornatos florais de Campo Maior, mesmo ocasionais são o expoente das festas populares, sabendo-se que estas se realizam quando a população o deseja.

            Um pouco por todo o país, surgiram apelos à mobilização dos cidadãos. Com esta modernização criaram-se imensas festas e festivais onde os habitantes passaram de meros espectadores a participantes, o que garante a continuidade dos eventos e o sucesso dos mesmos. Nesta perspectiva, a “Tomatina”, festa realizada na pequena localidade de Buñol em Espanha, conhecida pelo atirar de tomate entre uns e outros, projectou-se globalmente e é hoje um caso de grande sucesso turístico, sendo o pólo das festas bizarras.

            A modernidade, a participação e a inovação, suportados na tradição de cada localidade, são o oposto do que se encontra na maioria das festas do nosso país.

            Os vendedores ambulantes sem novidades, nem grandes preços, as diversões sem segurança, que fazem as festas serem badaladas pelos piores motivos, não são apelativos para ninguém que viva em conceito urbano. Demonstram a passividade, a indiferença e a resignação da população perante o que os rodeia.      

 

(a publicar dia 27/05/10)

           

quarta-feira, maio 19, 2010

Desculpas

            A semana política nacional ficou marcada por um insólito pedido de desculpas aos portugueses. Depois da arrogância, do diálogo, da fuga, da incompetência, do “chico-espertismo” - os estilos característicos dos sucessivos chefes de governo dos últimos vinte e cinco anos – é aberta uma nova página na democracia portuguesa, a do estilo humilde, utilizado pelo líder do PSD.

            A novidade pressupõe o debutar de uma geração de políticos, proveniente das juventudes partidárias, contrastando com uma estirpe de idade mais avançada, marcada por um carácter mais orgulhoso, que raramente assume os seus erros.

            As reacções ao perdão surgiram em tom jocoso.

            A justificativa invocação do sentido de Estado, aparece cada vez mais como expiatória e tem pouco de atenuante.

            Os contribuintes olham para o aumento de impostos como um regresso ao passado. A 2005 e três anos seguintes, no caso do IVA. Ao período de 2003, quando não havia vida além do défice, no caso do IRS e IRC – com a excepção da alteração da taxa para os rendimentos mais elevados.

            O esforço para voltar a apertar o cinto é aceite, desta vez, com condições. O contribuinte espera que a despesa do Estado diminua.

            O valor do défice não pode ser controlado durante uma legislatura e no ano das eleições legislativas disparar para o dobro, o triplo, ou o quádruplo do ano anterior.

            Os argumentos para adiamento dos grandes investimentos do Estado são evidentes para todos os portugueses, excepto para os envolvidos na construção. Veja-se os episódios do projectado TVG – há um ano três linhas projectadas Lisboa - Madrid, Lisboa – Porto, Porto – Vigo; há um mês, apenas sobrou uma entre capitais; esta semana, as vantagens apresentadas para manter as duas capitais ligadas por alta velocidade (estações no centro das capitais, tempo de viagem mais reduzido comparando com o somatório do tempo de deslocação para e do aeroporto, tempo para check-in, tempo de viagem e tempos de espera, resumidas pelo ministro à possibilidade de os espanhóis fazerem surf perto de Lisboa) foram esquecidas - o TGV reduziu-se à ligação entre um Poceirão e Madrid. Por este andar, daqui a uns dias é apresentada uma nova fase do projecto - tipo a construção de um só um carril e argumentos favoráveis para esta amputação serão certamente expostas com igual veemência que os actuais.

            O plano de austeridade tem que se efectivar na redução da verba por cada Ministério. O hábito de executar todas as rubricas orçamentadas, apenas para garantir verbas para o ano seguinte, deveria ser melhor controlado. Reduzir um por cento num ano, não me parece uma utopia. Mas nestas matérias existe sempre uma facilidade tremenda em apresentar soluções e por outro lado, uma resistência enorme em não reduzir o orçamento do Estado, em matéria de despesas de funcionamento do mesmo.

            O problema ficará sempre por resolver e a solução será aumentar impostos. A menos que no futuro, ninguém queira pedir desculpas aos portugueses.

 

 

(a publicar dia 20/05/10)       

quarta-feira, maio 12, 2010

Espectador

Espectador

 

            A passividade é a principal característica do assistente num evento. No cinema, o espectador apenas contempla. Em concertos ou no teatro, a interacção com o palco varia conforme o tipo de espectáculo. As tradicionais palmas - sinónimo de apreciação - foram sendo substituídas por maiores participações da assistência e o público passou a ter uma maior actividade. 

                Em tempos, a televisão também promoveu a passividade. Na época do canal quase único, sem cor, quem ligava a televisão não tinha escolha. Recordo as tardes de sábado assistindo aos duelos com espada esgrimidos por Errol Flynn, aos numerosos tiros por minuto de John Wayne e dos gritos selvagens de Tarzan. A opção duplicou com o alargamento de horário das emissões do segundo canal – ainda assim, várias pessoas têm recordações semelhantes ao enumerar séries televisivas seguidas nesse período (já a cores): os miúdos em férias no Verão Azul; as aventuras do opiómano Holmes e o seu elementar companheiro; um detective zarolho que não largava a sua gabardine; e claro, os estudantes de uma escola de artes. Entretanto, chegaram os videogravadores – passou a ser possível seguir um canal e gravar outro, ou então, sair de casa e gravar um programa – enfim, as opções aumentaram, sobretudo com os alugueres em vídeo clube. A partir dessa época, o resumo da visualização da noite televisiva anterior deixou de ser comum. 

                Na televisão, o espectador deixou de lado a passividade com o zapping. Parabólicas, com canais estrangeiros, a seguir os canais privados portugueses e mais tarde, o serviço por cabo, ofereceram programações diferentes ao alcance do comando de cada um. A escolha de canais ao gosto de cada família ou de cidadão, pois cada lar possui em média mais do que um aparelho de televisão.

                Ser espectador é não tomar partido. É assistir, testemunhar. Apesar da cada vez maior interactividade, um concerto de orquestra é apreciado pelo seu todo. Um solista merece aplausos mas, o resto da orquestra não fica esquecida, nem os instrumentos graves com “tão pouco romantismo”, como apregoa Ana Bacalhau dos Deolinda.

                Como espectador faço a escolha do que quero consumir. Sigo padrões estéticos, ouso envolver-me de vez em quando com uma novidade, alargando assim, o meu gosto cultural, sempre cautelosamente. No cinema, por exemplo, tudo mudou quando vi Amacord de Federico Fellini. O realizador italiano passou a ser o meu preferido, exageros típicos de adolescente. Consumi a sua obra praticamente em retrospectiva, as tristezas de Cabíria, 8 e qualquer coisa, A doce vida e os restantes palhaços… Ao vazio provocado pela sua morte, seguiu-se a fixação em Rohmer, pelo seu conto de Verão e não só. Pelo meio, assisti a belos momentos de cinema, a alguns dos meus filmes preferidos, como o fabuloso destino daquela francesa ou, para não me situar apenas na Europa, apesar do excelente Adeus a Lenine, não posso deixar de referenciar a transformação do actor pistoleiro em mestre da realização.

                Se, como espectador de cinema, consigo deslumbrar-me com a oferta, com o humor subtil, com o romance, com a narrativa, com a restituição histórica, com a imagem, com as actrizes, com o desempenho dos actores e espero passivamente por uma excelente surpresa, já como espectador de desporto sou o contrário. Posso assistir indiferente, via televisão refira-se, a uma clássica regata no rio Tamisa, sem escolher nenhuma das escolas. Incentivo sentado no sofá, qualquer atleta que nade ou corra contra o cronómetro. E nestes exemplos, posso definir-me como espectador. Só que em desportos com bola, passo a adepto: em ténis em função dos jogadores escolho sempre um dos lados para apoiar; em desportos colectivos só conheço um lado. Por isso, qualquer prosa sobre os acontecimentos desportivos e respectivos festejos, os meus incluídos, efectuados no passado fim-de-semana, seriam sempre argumentos de simpatizante da causa e isso pode ferir a susceptibilidade de alguns leitores.

 

(a publicar dia 13/05/10)

quarta-feira, maio 05, 2010

Cêntimo a cêntimo

            Arlindo ia pagar o seu abastecimento de gasóleo e foi surpreendido com a pergunta da funcionária da caixa: É sócio do Porto? Admirado, Arlindo deve ter colocado má cara, pois a funcionária tentou emendar, perguntando se era do Benfica. Sem compreender o interesse da senhora, Arlindo lá respondeu espantado que não. E do ACP é sócio? Sim, sou – respondeu Arlindo. Tem direito a um desconto de seis cêntimos por litro, se apresentar o cartão de sócio. Apresentado o cartão, feito o pagamento, Arlindo agradeceu a preocupação da funcionária e seguiu para o seu automóvel.

            Arlindo comentou o sucedido, fazendo a analogia com os vales de desconto já usados noutras gasolineiras.

            - Todas dão desconto, engraçado.

            - Um valor semelhante do desconto. Nalguns casos o valor de desconto é fixo e para todos os dias, outros casos é só duas vezes por semana e há ainda os que têm apenas um dia com o combustível mais barato.

            Arlindo nem se apercebeu do sucedido. Durante meses aproveitou os descontos e o período de baixa de preço do barril de crude. O gasóleo era barato, com os descontos conseguia preços idênticos aos de Espanha e por isso tudo estava bem.

            Em semanas sucessivas o preço do combustível aumentou. Poucos cêntimos de cada vez, pelas razões de sempre – variação do preço do crude, com rápido acompanhamento nas subidas e esquecimento na baixa do seu valor.

            Em consequência disso, Arlindo viu os descontos a aumentarem. A lógica de venda mudou. A periodicidade passou a ser fixa, todos os dias menos seis cêntimos, acumulados com mais algum desconto, em alguns postos de revenda.

            Só então, Arlindo percebeu. O desconto dos vales corresponde ao acréscimo no valor do combustível, ou seja, na venda mediante a apresentação de cartão de sócios, vales, ou em dias a menor preço, o combustível inflacionado é vendido com menor lucro.

            Munido das novas ferramentas de comparação de preços, Arlindo passou a verificar a diferença no seu distrito, 15 cêntimos entre o mais caro e o mais barato. Arlindo pouco percebe do negócio da venda de combustíveis, dos custos fixos, dos custos com o pessoal, do preço da aquisição da matéria-prima à refinaria. As suas contas são outras, em cada depósito abastecido no posto mais barato do distrito a diferença são 9 euros, para 60 litros.

            - Quase 13% se o combustível for gasóleo, diz Arlindo aos amigos.

            - Ninguém faz descontos permanentes para perder dinheiro.

            - Consta-se que perto da fronteira portuguesa, são já poucos os postos de venda de gasolina abertos, pois a maioria dos portugueses prefere abastecer em Espanha. Qualquer dia, acontece o mesmo no resto do país, ficam apenas a vender as mais baratas e outras encerram.

            - Antes disso, os descontos em alguns postos ficam mais elevados, para que o preço seja mais baixo do que as mais baratas.

            - Será?

            - Já vi anúncios de menos 18 cêntimos.

            - Ena.

 

            Arlindo é um nome fictício. A narrativa e os diálogos são por isso imaginados, tudo o resto não.

             

(a publicar no dia 06/05/10)

quarta-feira, abril 28, 2010

Ruínas

 

                A evolução do ordenamento territorial obrigou à distinção, em perímetro urbano, das áreas de habitação de outras com fins industriais. A necessidade de responder às exigências populacionais relativas a qualidade de vida e sobretudo, ambientais, implicaram a criação de ferramentas de gestão de urbanismo, por parte das autarquias.

            As próprias empresas, com unidades industriais confinadas em aglomerados habitacionais, sentiram a carência de espaço e deslocaram-se para zonas apropriadas. Este fluxo libertou áreas no centro das cidades, algumas aproveitadas para projectos imobiliários. Por outro lado, o carácter ou interesse público dessas fábricas devolutas, permitiram através da capacidade de investimento dos municípios em que estavam inseridas, o restauro da infra-estrutura, transformando-as para adquirirem outra utilidade.

            Toda esta resenha histórica, semelhante a vários municípios, não tem um final feliz. Antigos edifícios industriais abandonados, com os vidros das janelas quebrados, estruturas metálicas enferrujadas e vergadas, telhados com buracos, portas substituídas por tijolos - para impedir o acesso a intrusos - fazem parte da paisagem urbana das localidades com passado industrial. Esta imagem de degradação fica completa com a pincelada de grafittis nas paredes envelhecidas dos edifícios.

            Infelizmente, pelo que se pôde observar nas fotografias que acompanham os artigos publicados na imprensa, assim como pelas reportagens editadas pela televisão, o parque industrial da Oliva apresenta graves sinais de deterioração. Da descrição anterior, pode-se retirar os tijolos e as estruturas metálicas vergadas. Acrescente-se a cor castanha ou alaranjada que circunvizinha aquela área da cidade, proveniente daquela empresa e o cenário decrépito fica traçado.

            O futuro das instalações desta empresa passará pelo retalho: uma parte para a cultura municipal, outra para a especulação imobiliária. Permanecem as letras na torre e o nome para o projecto das indústrias criativas, para memória futura.

            Fica uma marca, que será recordada pelos seus produtos, em especial pelas máquinas de costura.

            Restam as histórias de quem por lá laborou; de quem se especializou em metalomecânica; de quem trabalhou para o bom nome da empresa. O contributo social desta empresa para a história da cidade é inegável. Todos o reconhecem e tem sido documentado ao longo de vários anos. O legado técnico e organizacional nem por isso. Uma lacuna que convinha erradicar, recolhendo testemunhos e compilando essa informação. Na história da cidade pode-se abrir uma página diferente, que não seja apenas povoada por edifícios, marcas ou empreendedores.

            Por agora, o panorama é outro e não é nada agradável. É triste este final. Sem glória. Deixando na incerteza os seus qualificados trabalhadores e acalmados os seus vizinhos, tal era o impacto negativo causado pela recente laboração desta empresa.

            Um desfecho, aos 85 anos, em que sobrevivem as ruínas do passado magnífico da Oliva.

 

(a publicar no dia 29/04/10)

segunda-feira, abril 19, 2010

Estrangeira

            Era feriado, uma quinta-feira, de Junho. Paula, de regresso das compras matinais, passou em frente da igreja. Avistou à sombra um grupo de senhoras todas bem vestidas e uns cavalheiros de fato e gravata. Interrogou-se sobre a efeméride e só quando viu umas crianças, também elas aperaltadas, é que percebeu tratar-se da comunhão. O céu estava limpo, o sol radioso. Paula ficou feliz por não ter recebido nenhum convite de algum amigo ou familiar. O dia prometia ser quente, por isso, era preferível ir até à beira-mar, do que estar fechada numa festa.

            Depois de almoço, a temperatura do ar era de 38 graus centígrados. Paula protegeu-se em casa. Adormeceu o filho e entreteve-se com a lida doméstica. O marido estava para fora, em serviço profissional.

            A viagem até à praia foi rápida. Ao contrário do esperado, a temperatura não desceu muito na aproximação ao mar. Pelas dezoito horas, o termómetro do carro marcava trinta e seis graus, junto ao Oceano Atlântico. Encontrar lugar para o estacionamento não foi difícil, para muitos aquela era a hora de regressar a casa. Quando saiu do automóvel não corria qualquer vento. Paula estranhou não sentir qualquer humidade marítima. Com o filho pela mão foi caminhando em direcção à praia. O miúdo ia contente, com uma mochila transparente às costas, carregada de baldes, pás e formas para brincar com a areia.

            No cimo da escadaria, observou o areal, estreito mas extenso. A praia estava repleta de pessoas. Verificou uma clareira a uns duzentos metros, pegou no filho ao colo e começou a descer. Degrau após degrau. Na areia tirou as sandálias ao filho e as suas. Iam ambos de calções, por isso, foram caminhando junto à água para se refrescarem. O miúdo estava feliz. Tagarelava com a mãe, ria-se quando a água o molhava. No local escolhido, Paula estendeu as toalhas, tirou a roupa exterior ao seu filho e por prudência aplicou-lhe protector solar. Enquanto o miúdo brincava com a areia, Paula aproveitou para se pôr em biquíni. Olhou para o sol, para o relógio e optou por não se proteger do sol. Sentou-se junto ao filho para brincar com ele.

            Pelo meio da brincadeira, Paula olhava em redor. Procurava perceber quem os rodeava. Não reconhecendo ninguém, tendia a atenção para o filho. Apetecia-lhe encontrar alguém conhecido, uma amiga, para conversar um pouco. De vez em quando olhava para o mar. Além dos banhistas, vários surfistas tentavam consumar a sua estadia no mar, com um deslize em cima da prancha. Algumas pessoas passavam à sua frente, dirigindo-se para a única saída da praia, a escadaria por onde descera. Por vezes, Paula perdia nelas o seu olhar. Logo, logo, o filho lhe resgatava a atenção. De olhar em olhar, surgiu da sua esquerda um grupo de três homens, mais ou menos da sua idade. Um deles carregava um guarda-sol fechado, nos outros dois de mãos livres, adivinhava-se sacos às costas, pelas alças exibidas nos dois ombros. Um deles ia passar junto a Paula. Estava mais recuado em relação aos restantes elementos do grupo. Paula fitou-o. Sentada, ergueu um pouco a cabeça. O homem pareceu-lhe conhecido. Focou melhor. Martinho! Não podia ser. Interrogou-se, como era possível ele estar naquela praia? Olhou para os outros dois para ver se os reconhecia. Olhou novamente para Martinho. Era ele sem dúvida. Continuava a usar o cabelo comprido, não engordara e mantinha o seu corpo atlético. Confusa, esperou pela passagem de Martinho junto a si para dissipar todas as dúvidas. No momento em que este passava à sua frente, o sol coincidia naquela direcção. Paula ainda viu o perfil de Martinho, era ele mesmo. Aquele nariz era inconfundível. Toda aquela luz nos seus olhos perturbou Paula, que não conseguiu dizer qualquer palavra, perdendo a oportunidade de chamar o amigo. Ficou a olhá-lo de costas, ganhando coragem para gritar o seu nome. Nisto, o seu filho desatou a correr para o mar, com um balde na mão. Paula foi socorrê-lo e quando voltou a sua cabeça à procura de Martinho e dos seus amigos, já os seus corpos estavam imiscuídos na multidão. Por mais alto que o chamasse, seria impossível a Martinho ouvi-la.

            Paula conhecera Martinho na faculdade. Ingressaram no mesmo ano e obtiveram a licenciatura praticamente em simultâneo. Ambos suburbanos, ela vivia na margem sul e ele na margem norte da grande cidade. Almoçavam juntos e perdiam tardes a conversar, a conhecerem-se. Apesar de manter o seu namoro de adolescente, Paula passou a sentir uma paixão por Martinho. Passaram férias em conjunto, saíram várias noites com muita diversão e muita proximidade. Certa noite, Paula ganhou coragem e declarou-se a Martinho. Era o desfecho evidente. Só que Martinho sempre resistiu. Ria-se do que ela lhe dizia, não a julgando a sério. Talvez por isso, Paula adoeceu. Não apareceu umas semanas pela faculdade. Entretanto, o seu namoro de adolescente terminou e quando Paula voltou à frequência das aulas, percebeu que Martinho estava interessado numa outra rapariga. Nos decorrer desse ano lectivo, Paula refugiou-se na sua terra natal. Todos pensavam que o desgosto de amor sofrido pelo rompimento com o seu namorado de adolescente a deixara de rastos. No íntimo, ela sabia que o seu maior sofrimento tinha sido provocado pela negação de Martinho, só que jamais o admitiria publicamente. Até ao final dos seus estudos, passou a estar com Martinho esporadicamente, embora este sempre mantivesse a mesma cordialidade com ela. Logo após terminar o curso, Paula ainda viu Martinho um par de vezes. Depois entrou no mundo profissional e deixou tudo isto para trás. Até que naquela tarde, na praia onde se banhava desde adolescente, lhe pareceu ter visto aquele que a rejeitara.

            O nariz de Martinho era inconfundível, por ser esquisito. Um pequeno alto a meio da cana de um longo nariz era motivo de troça por parte de colegas, com as quais Martinho tinha-se habituado a conviver. Paula, quando conheceu Martinho, vivia uma fase de procura da imperfeição na beleza. Uma bizarria. Numa cara bonita procurava uma cicatriz, uma marca das doenças infantis, uma ruga precoce, um dente desalinhado, um olho de cada cor, um sinal inestético, ou outra qualquer alteração física. Martinho tinha sido um achado. Nele destacava-se o trato educado, a simpatia que transmitia e foram estas características que fizeram Paula apaixonar-se por ele. O modo de ser de Paula nunca passou despercebido às suas amigas. Estranha, embora de relacionamento fácil, parecia nunca estar satisfeita com a vida. Por exemplo, dizia várias vezes que não era feliz por viver naquela localidade mas, nunca a abandonara. Devido a estas proclamações, Paula era conhecida no seu grupo de amigos pela sua diferença e tinha como alcunha a “estrangeira”, numa clara alusão ao livro de Camus.

            O sucedido naquela tarde de Junho não podia ser relatado por Paula a ninguém. Tudo seria mal interpretado e o facto de a incidência solar lhe perturbar a voz, seria motivo para as suas amigas soltarem umas boas gargalhadas:

            - És mesmo Estrangeira!

 

 

(a publicar no dia 22/04/10)

 

 

quarta-feira, março 31, 2010

Ciúme

Raul não conseguia dormir. Estava deitado junto a Eva, na sua cama de casal e não havia forma de adormecer. Já se tinha virado para os dois lados da cama, de barriga para cima, para baixo e nada. Acendeu o candeeiro, pegou na “Origem das Espécies”, leu umas páginas.

A luz não incomodava a sua esposa, tão sossegada a dormir. Raul contemplou Eva. Tranquila de olhos fechados, uma beleza angelical. 

            - A Antónia não simpatiza comigo. Deve ter ciúmes pelas minhas conversas com o marido dela à porta da repartição, enquanto fumamos.

Raul fechou o livro, não se concentrava. Pombos, bicos, papos e caudas em leque.

- És parvo, Raul. A Eva é incapaz de te trair, pá.

Alberto não queria acreditar na desconfiança de Raul. Amigo do casal, desde longa data, confiava plenamente nas virtudes da amiga.

- Há frases que te elucidam Alberto. Passei a noite sem dormir. Nem o Darwin me cansou. Ao referir-se à pouca empatia da Antónia, eu como a considero mal encarada, não relacionei com nada. Passado uns dias, pensei melhor no significado das palavras da Eva. Imaginei o Marco, é o marido da Antónia…

- Sei…

- … a falar em casa das conversas com a Eva. A Antónia a ouvir o nome dela várias vezes. A escutar o partilhar de cigarros, de histórias, das preocupações maternais, das preocupações laborais de outra mulher. Outra mulher, a invadir-lhe a casa, sem pela porta entrar. A dominar a atenção do marido. O marido a sorrir ao referir-se ao nome da Eva. Essa provocação fez Antónia alterar o seu comportamento. O Marco a falar-lhe de uma mulher, enaltecendo as suas qualidades, despertou a desconfiança da Antónia.

- Raul, meu amigo, estás a seguir a intuição feminina.

- Provavelmente. Jamais falei com a Antónia sobre o assunto, só que comecei a recordar-me das vezes que Eva falou do Marco lá em casa. Das ajudas mútuas que foram solicitadas. De recordação em recordação, percebi que o encantamento entre os dois foi crescendo.

- Ena que imaginação!

- Lembrei-me como nos apaixonávamos em jovens. A afeição que sentíamos por determinada rapariga. De como nos sentíamos felizes a conversar, a trocar ideias, livros, discos com amigas e de como, entretanto, o sentimento mudava, crescia e abandonávamos uma namorada e partíamos para outra.

- Ninguém te deixou, Raul.

- Eu sei Alberto. A angústia dominou-me. Não dormi nada. Estou com uma directa em cima.

Alberto procurava as melhores palavras para consolar o amigo.

- A Antónia não simpatiza comigo.

Sem ser interrompido, Alberto explicou ao amigo as virtudes da literatura, dos dramas e das figurações específicas das narrações. Recordou-lhe que se repetem, em várias obras literárias uma série de discussões, umas das quais é o ciúme.

- Como deves compreender a tua desconfiança, insegurança diria, fez-me lembrar um conto sobre o ciúme. Basicamente o marido queria colocar à prova o amor da esposa, desaparecendo e fazendo frequentar a sua casa, um belo jovem, para verificar como incondicional era o amor da sua amada.

- Um clássico.

- Exactamente. O desfecho é sempre o mesmo, doloroso para quem desconfia. Por isso, acredita que a maturidade da Eva é maior do que quando era adolescente. Do Marco não posso falar. Se a Eva te conta das desconfianças da Antónia é porque isso a entristece, Raul. Nada mais. Não alimenta nenhuma ilusão, nem pretende abandonar-te. A relação dela contigo é a mais honesta possível. Ela é transparente. Conta-te tudo.         

A conversa terminou com Alberto a aconselhar Raul a trocar de livro.

- Coloca o Miguel Cervantes no teu quarto. E não penses que é por causa do amor incondicional do engenhoso fidalgo de La Mancha.

Nessa manhã, Eva estranhou não ver Marco à porta da repartição. Perguntou por ele a um dos colegas fumadores.

- Não apareceu esta manhã. Segundo o Miguel, o Marco afirmou-se. Saiu de casa para viver com a Emília.

 

(a publicar dia 01/04/10)

 

 

quarta-feira, março 24, 2010

Nós limpamos

 

            No passado sábado, dia 20 de Março, fui um dos 80 participantes do projecto Limpar Portugal, Limpar SJM. Destacado pela organização para a zona da Devesa Velha, tive durante esse dia, a oportunidade de verificar a quantidade de resíduos depositados em zonas verdes da cidade.

O cálculo efectuado nas acções de reconhecimento realizadas pelo grupo local, demonstrou ser deficitário. Afinal, havia muito mais lixo abandonado nas quatro zonas da cidade, cujo propósito era serem limpas por voluntários no âmbito da campanha de índole nacional, Limpar Portugal.

Às oito horas e trinta minutos, já se limpava. Ainda não tinham chegado todos os participantes, nem o funcionário municipal destacado pela Câmara Municipal, nem o material de apoio previsto para a equipa de limpeza e já os restos têxteis de dois colchões de cama, mais de uma dezena de garrafas de vidro, uma série de recipientes de plástico e de metal estavam ensacados, prontos para serem recolhidos.

Com o reforço humano e de meios, conseguiu-se limpar: restos de material de uma tinturaria, desperdícios e frascos de tinta atirados para o mato; os evitáveis desaproveitamentos da indústria de calçado; imensos cacos de vidro quebrados ao longo dos anos, provenientes de placas abandonadas por um construtor civil; roupas; botas velhas; brinquedos e uma carpete já assimilada pela natureza, com um arbusto, entretanto nascido, a atravessá-la.

Todos estes resíduos estavam próximos da estrada - aqui Rua do Visconde. O grupo desceu um pouco mais, a caminho do IC2, inclinando para a esquerda, posicionando-se sensivelmente em frente ao Centro Empresarial e Tecnológico. Ali em baixo, retiraram-se 30 pneus. Todos depositados na ribanceira, já com silvas a cobri-los e metade deles, obrigando a subir à estrada para serem empurrados, pois não havia outra forma de os retirar dali. A seguir aos pneus, estavam depositadas três carcaças de frigoríficos, cheias de pedras e com troncos sobrepostos, obrigando a um trabalho extra para a sua remoção. Dali para a frente restos de caixas de estores, de persianas, de tubos em PVC, de esferovites e de outros materiais de construção estavam inseridos na paisagem.

Este foi o entulho retirado. As fortes chuvas do dia anterior tornaram o terreno lamacento. Não se conseguia prosseguir naquela direcção, tendo ficado uma das ribanceiras com algum lixo. Da zona pantanosa, ainda retirámos dois pneus, deixando lá ficar louça de casa de banho, uma sanita, um bidé e uma pia das mãos, mais uma série de entulho. Às dificuldades devido ao excesso de água acumulada, pelo menos até a meio da canela, acresce que todo aquele canto estava impregnado por um cheiro a águas residuais, verificando-se algumas manchas gordurosas nas margens do pequeno curso de água que por ali deambula.

Podia continuar a descrição, indicando os resíduos retirados da vala criada pela abertura do colector municipal, assegurando que mais não se tirou por causa da água acumulada, só que a apresentação dos tipos de resíduos e acções desencadeadas seria muito parecida com os parágrafos anteriores.

Penso que os leitores terão compreendido o que esconde a nossa floresta. O relato aqui apresentado, do entusiasmo e empenho dos doze voluntários que optaram pela Devesa-Velha, será certamente muito semelhante ao das restantes equipas que puseram mãos à obra em S. João da Madeira e no resto do país.

Apesar de tudo, ainda ficaram muitos resíduos por retirar.

A autarquia pode agora aproveitar o levantamento prévio e completar o trabalho iniciado, corrigindo algumas anomalias detectadas, estabelecendo procedimentos de vigilância e continuando a proibir a deposição de resíduos em zonas verdes.  

Quem se mobilizou nesse dia para a limpeza da floresta espera, no fundo, que a mensagem de sensibilização transmitida nesta campanha seja bem assimilada pela restante população, ajudando a alterar hábitos que não contribuem para o bem-estar de todos.  

 

(a publicar no dia 25/03/10)

         

quarta-feira, março 17, 2010

Da gastronomia

 

            O coelho, atendendo à utilização do seu pêlo como matéria-prima na indústria de chapelaria, teve certamente uma importância na história de S. João da Madeira.

             A necessidade de abastecer as máquinas de feltros, acompanhando a grande quantidade de encomendas de chapéus recepcionadas na indústria local, provocou certamente uma enorme existência de coelhos nas redondezas. A sua criação esteve sempre facilitada pela capacidade de reprodução da espécie.

            O crescimento de unidades industriais de chapelaria, não terá permitido aos criadores de coelhos proceder a uma selecção metódica da espécie, melhorando-a com o objectivo de encontrar uma relação óptima de peso e a qualidade de pêlo. A lógica de entrega, em quantidades sucessivas, foi certamente o que imperou no fornecimento à indústria local. Ainda são visíveis, nas traseiras de moradias mais antigas, vestígios dessa época de grande criação doméstica. 

            Anos mais tarde, o desuso do chapéu, a consequente diminuição da produção de feltros, introduziu um novo factor na criação de coelhos, levando à redução do número de existências, apesar da grande capacidade reprodutora - uma gestação da coelha demora apenas 31 dias, nascendo ao fim desse período 4 ou 5 crias.

            Factores como a qualidade do pêlo, provenientes de espécies existentes noutros países, ou mesmo de outros animais, originando chapéus diferenciadores, terão contribuído para uma estagnação do número de coelhos nesta região, embora, longe de qualquer perigo de extinção, naturalmente.

            O raciocínio da produção vertical, com controlo total das matérias-primas e do produto final, encontrando-se soluções de venda para fases intermédias, permitiu que fosse encontrado no coelho, pela sua importância na arqueologia industrial, o prato típico da gastronomia de S. João da Madeira.

            Qual a forma de o preparar e servir, não consegui apurar. Receitas de coelho, segundo a Associação Portuguesa de Cunicultura, existem 48 diferentes. Poderia reproduzir alguma exemplificando, só que não sou grande apreciador desta carne, pelo que além da maçada provocada aos leitores, não teria qualquer prazer pessoal na transcrição.

            Para a confeitaria, numa região rica em doçaria – fogaça, pão-de-ló, entre outras – foi eleita a torta de cenoura. Um pouco arrojado, mantendo-se a ligação ao coelho, desta vez, às suas preferências alimentares.

            Acontece que em casa dos meus pais, uma das sobremesas de eleição confeccionada é precisamente a torta de cenoura. Não deixa de ser curiosa a coincidência, atendendo a que os meus progenitores vieram para S. João da Madeira há quase cinquenta anos.

            Em festas familiares era um dos doces mais aguardados. No momento de o servir, o meu pai aumentava a ansiedade das crianças sentadas à volta da mesa. Pegava na faca e perguntava quem queria. Educadamente respondíamos um bocadinho. Assim era servido. Um pequeno pedaço, correspondente a um terço, ou menos, de uma fatia normal. Desapontados e não percebendo o jogo, voltávamos a pedir outro bocadinho… A brincadeira repetia-se, longe de imaginarmos que aquele doce seria proposto para emblemático da terra que nos viu crescer.

           

             

(a publicar no dia 18/03/10)