compilação dos textos publicados no jornal labor (www.labor.pt), de 2004 a 2020.
quarta-feira, novembro 28, 2012
Regeneração social
quarta-feira, novembro 21, 2012
Ao debate
Amanhã realiza-se mais uma sessão do Fórum “Re:Pensar a cidade” cujo tema será: Animação Cultural para mais cidade. Ao preparar a minha intervenção, uma análise pessoal sobre a atividade cultural de São João da Madeira, senti a necessidade de validar o diagnóstico junto dos agentes locais e por outro lado, procurei conhecer as suas diferentes realidades.
Munido da minha síntese, entrei em contacto com várias instituições da cidade. Nalgumas fui recebido pela direção, noutras ouvi concertos ou assisti a aulas. Alguns encontros foram em cafés, por facilidade de ambas as partes, ou por ausência de sede da associação visitada.
Todos estes encontros preparativos do debate, obrigaram-me a percorrer mais quilómetros do que habitualmente faço, a fazer mais telefonemas por semana, a dispor do meu tempo livre e a fazer despesa extra em alguns dos cafés onde me sentei. Na maioria das vezes, atravessei sozinho as portas dos diversos locais, sem fotógrafo, nem claque de apoio, nem jornalista para ouvir o conteúdo das conversas.
O objetivo de verificar a dedicação dos munícipes ao associativismo, o aproveitamento dos seus tempos de lazer com hábitos culturais, foi amplamente conseguido.
Mais do que transmitir números da atividade das várias instituições, ou entidades comerciais, pois existem negócios na área cultural em S. João da Madeira, importa é referir a cumplicidade demonstrada por pessoas que até então desconhecia.
Expliquei o meu propósito, recolhi opiniões importantes. Fiquei mais conhecedor da história das associações que se dedicam à cultura, das suas dificuldades e das suas ambições.
Apurei os sentidos. Simpaticamente num dos locais das artes ofereceram-me fogaça, prontamente degustada. Revi velhos conhecidos, um deles ao reconhecer-me, mediante a minha apresentação, não conteve o contentamento e efusivamente deu-me abraços e palmadas, apropriadas ao momento, nas costas. Senti o cheiro das tintas numa aula de pintura, o ar abafado de uma sala após uma aula de ballet. Ouvi professores de música, apesar dos salários em atraso, a excederem-se numa atuação pública, juntamente com os seus alunos. Vi as fardas da Banda de Música armazenadas na sua sede, apreciei as cores dos quadros dos alunos do Centro de Arte. Vi instalações adaptadas, instalações obsoletas, estruturas inadequadas. Por outro lado, visitei em funcionamento letivo a renova academia de música.
Relembrei as dificuldades do associativismo. A falta de recursos humanos nas associações. As poucas dezenas de sócios. Os órgãos sociais a serem preenchidos por pessoas que pretendem dedicar-se às artes. Oferecendo o seu tempo livre a questões burocráticas, em prejuízo da sua performance como artista. Apelei à continuidade de algumas associações, em período de funcionamento intermitente.
Ficaram por ouvir algumas das associações com dedicação à cultura. Faltou-me tempo para visitar alguns empreendedores culturais.
Neste último mês procurei recolher uma amostra da cultura da cidade. Da tradição popular ao eruditismo, do clássico à modernidade, nas mais diversas áreas ou artes a que a comunidade se dedica.
Encontrei suporte, em toda esta auscultação, para a minha ideia inicial, desenvolvida na apresentação pública do Fórum Re:pensar a cidade: é preciso valorizar as pessoas.
A cultura em S. João da Madeira necessita de personalização. O lenitivo para a promoção da cidade.
O debate realiza-se amanhã – dia 23 de Novembro – às 21h30m, no Museu da Chapelaria.
(a publicar no dia 22/11/12)
terça-feira, novembro 13, 2012
Competências
quarta-feira, novembro 07, 2012
Dupond e Dupont
terça-feira, outubro 30, 2012
Por este rio acima
Curiosa coincidência, li de forma sequencial três livros de escritores da comunidade local: Adão Cruz, Eva Cruz e Tiago Moita. Pela ordem inversa, pois o livro deste último havia-o adquirido em Abril, só que atrasei o início da sua leitura até Setembro.
Não tenciono fazer qualquer crítica literária às obras publicadas, nem tenho essa pretensão. O objetivo deste texto é referenciar a criatividade dos autores e enaltecer a publicação em livro dos seus trabalhos como escritores. O livro de Adão Cruz, “Vai o rio no estuário”, inspirou-me o título para este artigo. Segurei-me numa música de Fausto Bordalo Dias, baseada na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.
Inverti o caudal ao rio, parti para montante.
A grande maturidade da poesia de Adão Cruz é patente na forma de apresentação dos poemas. Sem métrica predefinida, sem rima consagrada, obrigando o leitor a fazer pausas, exigindo-lhe encontrar nas palavras o sentido da poesia. Os poemas editados são lidos com um grande fôlego. Sustem-se a respiração pela intimidade destapada. Fica-se em apneia na sucessão de versos. Ao reencontrarmos o rio, o seu silêncio, temas transversais ao longo da sua obra, sentimos o conforto da poesia. Volta-se ao início do poema, relê-se, interioriza-se, entre avanços e recuos, deixamos o estuário.
As estâncias termais pressupõem as rotinas diárias. Os tratamentos, as refeições, os momentos de lazer, de convívio e os tempos entre uma coisa e outra. Quem já “fez” termas, hospedado por temporadas, identifica-se com o livro de Eva Cruz. Encontra nas suas descrições, os momentos por si vividos. A chegada, o reencontro com conhecidos, a identificação das mudanças, o lamento das ausências e a troca de outras informações pertinentes sobre os demais, são rituais termais. O enquadramento na montanha, o rio, numa fase mais aguerrida, mais jovem, são lugares comuns no imaginário dos frequentadores de quaisquer termas. “Corconte” é isto tudo e é na verdade portador de um nome enigmático, que permite várias interpretações.
O “Último Império” de Tiago Moita recupera a história nacional. A fundação do reino, a presença dos templários na reconquista, o reinado de D. Dinis, a batalha de Alcácer Quibir, a acusação ao Padre António Vieira são acontecimentos revisitados e reescritos à luz da interpretação do autor. No livro são explicadas várias correntes da parapsicologia e interligadas com o decorrer da ação. Tudo isto numa centena de capítulos, onde os personagens vão descobrindo vários mistérios. A sequenciação dos capítulos está muito bem conseguida, a narrativa vai aproximando os personagens - cada qual vai entrando na estória em capítulos próprios e por motivos diversos – e cada ação individual é interrompida no final de cada capítulo, entrando a narração para outro personagem.
O rio de Fernão Mendes Pinto, evidenciando com o relato da sua viagem, em pleno século XVI, a não existência de qualquer império digno desse nome, sob a bandeira da coroa nacional. Por vezes, esquecemo-nos da Peregrinação.
Tiago Moita procurou outra via e encontrou uma resolução interessante para o Quinto Império.
Morreu Eurico Alves, homem de palavras. Sempre pronto para homenagear os que partiram antes dele. Passei muitas horas da minha vida entre as ruas do Barroco e a Benjamim Araújo, por isso, cruzei-me com ele várias vezes. Aprendi a respeitar a sua escrita. A forma poética como descrevia os almoços da tertúlia, era bem recebida e ficarão para sempre na memória da cidade.
(a publicar no dia 01/11/12)
quarta-feira, outubro 24, 2012
Homenagem
terça-feira, outubro 09, 2012
A linha
quarta-feira, outubro 03, 2012
Moedas
quarta-feira, setembro 26, 2012
Leituras ao serão
quarta-feira, setembro 19, 2012
Esplanadas
quarta-feira, setembro 12, 2012
Pontos de vista sobre o preço da água
quarta-feira, setembro 05, 2012
Medalhas, gravatas, baloiços e camisa.
quarta-feira, julho 25, 2012
Unhas Negras
Ao longo dos séculos, o povoamento na região entre o Douro e Vouga evoluiu de forma semelhante à que é relatada na historiografia nacional:
1) A existência de ruínas de castros, ou de vestígios arqueológicos de origem celta, em locais como Crestuma, Pedroso, Romariz, Ul e Ossela demostram a existência de aglomerados populacionais dispersos e com ineficiente ligação entre si.
2) A chegada dos romanos à Península Ibérica trouxe melhorias significativas, sobretudo, pela construção da via entre as cidades correspondentes às atuais Braga e Coimbra. Atravessada pela via romana - como prova o marco miliário no concelho de Oliveira de Azeméis - desenvolveram-se nesta região as povoações de Cale, Lancóbriga e Talábriga, cuja localização, com exceção da primeira, é ainda hoje objeto de estudo e de várias interpretações.
3) A revolução económica introduzida pela invasão muçulmana, com uma nova moeda a circular; com o fomento do comércio com o exterior e sobretudo, com a construção de uma via terrestre mais próxima do mar; com a dinamização do porto de Cabanões - entreposto de pescado e de sal - modificaram o equilíbrio populacional existente na região.
4) A reconquista cristã encontra esta região com a sua povoação mais desenvolvida próxima do mar, embora afastada o suficiente para se proteger dos ataques sanguinários dos nórdicos, vulgarmente conhecidos por vikings, defendida por um castelo voltado para norte e para poente e sobretudo, tendo como principal atividade económica, a realização de uma feira anual.
5) Durante os séculos seguintes, as Terras de Santa Maria, limitadas a norte pelo Rio Douro, a sul pelo Rio Antuã, a este pelo rio Arda e a oeste pelo Oceano Atlântico tiveram o seu período medieval, com a liderança regional dos senhores do castelo.
6) Os forais manuelinos no século XVI criam vários concelhos na região, um dos quais, o da Vila da Feira, com mais de sessenta freguesias.
7) O fim do condado, no século XVIII, possibilitou o aparecimento do concelho de Oliveira de Azeméis. A reforma liberal, já em pleno século XIX de Mouzinho da Silveira manteve-o, agregando, entre outras, duas freguesias, que pertenciam ao concelho de Vila da Feira: Arrifana e S. João da Madeira.
8) No início do segundo quartel do século XX, em pleno regime republicano, Arrifana regressa ao seu concelho de origem e S. João da Madeira emancipa-se.
A industrialização deste concelho, apoiada pelo desenvolvimento de vias de comunicação, como a ferrovia do Vouga e a melhorada estrada Porto – Lisboa, fixaram a população e permitiram o seu desenvolvimento demográfico. No entanto, a indústria aumentava e diversificava as áreas de negócio. A mão-de-obra no concelho era insuficiente e havia necessidade de a recrutar nas freguesias vizinhas. O apelo industrial era mais forte do que o quotidiano miserável da agricultura de subsistência. Lentamente os campos foram colocados em segundo plano e o ingresso natural nas indústrias de S. João da Madeira tornou-se no dia-a-dia dos habitantes das freguesias vizinhas.
Um novo conceito de comunidade estabeleceu-se na região. A vivência comum em período laboral, não criou qualquer tipo de hierarquia entre os habitantes de freguesias vizinhas. Antes pelo contrário, como se pode analisar através das opções do fundador da empresa Molaflex.
As ações de cidadania não ficaram limitadas às paredes das diversas indústrias. A evolução do emprego em S. João da Madeira, com comércio e serviços, permitiu a oferta de diversas oportunidades à população desta pequena região. Por outro lado, a procura das escolas desta cidade pelas crianças e jovens - acompanhando o movimento diário dos seus pais - e noutra perspetiva o complemento ao ensino, através da formação em artes nas instituições municipais, ou pela prática de desporto nas associações locais, aumentaram o espírito de comunidade entre terras vizinhas.
É para mim evidente que o esforço, o empenho dos operários, colaboradores de empresas, retratados por João da Silva Correia e oportunamente homenageados pela cidade, com a edificação de monumentos, não se cinge aos habitantes de S. João da Madeira.
Somos todos Unhas Negras. Os daqui e os que dormem em Milheirós de Poiares.
Mas também os outros vizinhos…
Resta-me espaço, para desejar boas férias aos leitores do labor.
(a publicar no dia 26/07/12)