quarta-feira, outubro 30, 2013

Ser Lou Reed por um dia

Existe um limite a partir do qual a cultura norte - americana deixa de fazer sentido. Longe dos tops, das listas de mais vendidos, afastada dos holofotes da ribalta, das multidões de seguidores, sem a perseguição de fãs imitadores, ou irritantes. O modo de criação surge, o gosto pelas artes é disperso e a vida privada é recatada, sem aparecimento público digno de registo, com exceção, numa qualquer atuação própria, ou em parceria artística. São os anti— heróis norte - americanos. Das mais variadas artes, com carreiras extraordinárias, com reconhecimento mundial, que convivem com a fama, vivendo longe dela, procurando ter espaço para criar, para produzir arte, sem a obrigação comercial inerente.
Um dos mais conhecidos artistas desta forma de estar americana, foi Lou Reed. Faleceu domingo de manhã, ironicamente, o título da sua mais bela música.
A carreira do músico foi revista por estes dias. Referências ao seu início musical, em especial, à fundação nos anos 60 dos Velvet Underground, uma banda mítica, inspiradora de correntes musicais nas décadas seguintes, provando ser o falecido músico um precursor na cena musical. A sua carreira a solo começou da melhor forma, em 1972 lança dois álbuns, um dos quais, “Transformer”, contém os 3 êxitos musicais, pelos quais Lou Reed é mais conhecido: Walk on the wild side, Satellite of love e Perfect day.
Os quarenta anos de carreira posteriores foram profícuos, com mais de vinte álbuns de estúdio. Uma edição regular, longe da ribalta, com exceção do encantador “New York”, um dos 20 melhores discos representativos da década de 80, segundo a insuspeita revista Rolling Stone.
Este foi o seu disco que mais me marcou. Comprei-o em 1989, poucas semanas depois da sua edição mundial. Ouvi o lado 1. Virei-o. Devo ter limpo o vinil, coloquei a agulha na posição correta. Tocou o lado 2. Não havia um refrão para trautear. Ouvi novamente os dois lados. Nada para fixar e no entanto, o conjunto era encantador. Tocou vezes sem conta no hi-fi familiar. Cheguei a emprestá-lo a amigos, para as reproduções em cassete, ou a gravá-lo para quem mo pedisse. Práticas bem balizadas no tempo, provavelmente não entendidas na era mediática atual. Com “New York” a minha noção da música norte-americana redefiniu-se e comecei a ser consumidor seletivo de outras produções artísticas daquele país, com todo o preconceito cultural inerente.
O fascínio de Lou Reed, ao longo destes anos, pode-se resumir no seu feitio difícil, excêntrico. Pode ser mencionada a sua rebeldia, o seu não alinhamento cultural. O ser esquisito ou estranho, como foi catalogado. Será recordado, é certo, como um excelente músico.
Emir Kusturica, realizador… vá lá… Sérvio, a propósito do título do seu filme Underground, explicava a alegoria dos seres que viveram 30 anos em subterrâneos Jugoslavos, sem saber que a 2ª Guerra Mundial tinha terminado. Para vincar a ideia refere que, também Lou Reed viveu sempre “underground”, uma referência à sua origem musical e obviamente à sua forma de estar.  
Lou Reed cantou pelo respeito pelas diferenças, escreveu pela indiferença à realidade, pela irreverência ao quotidiano burguês, pela necessidade de expressão da clandestinidade urbana e conseguiu na sua longínqua carreira, ser admirado por ser sempre fiel a si próprio, vivendo à margem do sucesso.    
 
(a publicar no dia 31/10/13)

quarta-feira, outubro 23, 2013

A necessidade

                As eleições autárquicas do dia 29 de Setembro foram o culminar do processo de reorganização administrativo do território das freguesias.
                Suportada na lei n.º 11 / A de 2013, publicada em 28 de Janeiro, a agregação de freguesias foi sancionada pela população de forma pacífica e ordeira.
                É necessário recordar que em 2012, quando foi publicada a lei n.º 22, a 30 de Maio, seguiram-se manifestações, em vários pontos do país, contestando-a, além de um mega encontro de protesto na capital do país, em que vários indignados juravam que jamais a reorganização seria aceite pela generalidade da população. Recorreu-se a providências cautelares e vários presidentes de junta de freguesia prometeram organizar boicotes às sucessivas eleições.
                Um ano depois, não foi isso que se viu.
                Na união de freguesias, entendido o conceito, as estruturas partidárias organizaram as suas listas, tendo o cuidado de indicar nomes de candidatos provenientes das várias freguesias e com normalidade o assunto foi esquecido.
Em alguns casos, apesar da união de freguesias, houve partidos que apresentaram os candidatos às freguesias, como se as mesmas não estivessem unidas, tentando contornar algum descontentamento… certamente de algum candidato.
                No dia das eleições, esperava ouvir falar em boicotes e fiquei surpreendido pelo pouco número dessas ocorrências. Pelo que me apercebi, apenas uma freguesia da Covilhã, agregada numa outra, promoveu o boicote. Em Ourondo, a população entendeu não votar, protestando pela não inclusão de qualquer habitante da localidade, nas listas partidárias candidatas na União com Casegas. Na semana seguinte, a eleição repetiu-se. Votaram 10 eleitores. Só um voto foi válido. Fosse qual fosse a adesão e o número de votos, o resultado final não seria alterado, devido à diferença populacional entre as duas freguesias.
                Os próximos meses e anos serão decisivos para se perceber o funcionamento dos novos territórios das freguesias. A distribuição de serviços pelo novo território, a boa utilização das estruturas físicas e dos recursos humanos disponíveis, permitirão verificar se a proximidade à população estará garantida e então veremos, se os eleitos foram capazes de contornar uma lei, que demonstra reversas sobre a capacidade organizativa da administração local do nosso país. 
                Infelizmente continuam a existir concelhos com pouco mais de 2.500 habitantes – número utilizado para definir a necessidade de agregar freguesias. São apenas 4. No entanto, existem 37 concelhos com menos do que 5.000 indivíduos, valor pretendido para a agregação de freguesias. Os números, da distribuição da população pelo território autárquico, identificam 115 concelhos, ou seja, um terço do total de autarquias do país, com menos de 10.000 habitantes. A maioria deles situa-se no interior do país.
                  Perante estes dados, atendendo à continuada crise financeira do país, seria de promover a redução do número de autarquias, através de uma eficiente reorganização da administração local, utilizando-se uma fórmula semelhante à da agregação das freguesias. Pelo passado recente, percebe-se que a população aceitará essa reorganização e compreenderá tal necessidade, se isto se efetivar numa redução da despesa do Estado. A contestação será orquestrada pelos agentes da política mas, tal como se viu na questão das freguesias, tudo será aceite, quando as listas partidárias para as candidaturas autárquicas estiverem a ser elaboradas.             
 
(a publicar no dia 24/10/13)
 

quarta-feira, outubro 16, 2013

Segunda Geração

                Subo à Torre da Oliva, para assistir ao decorrer do Torneio de Xadrez da Associação Estamos Juntos. Enquanto venço os degraus, apercebo-me da grandiosidade do local e penso na relação do espaço físico com o jogo de xadrez.

Um torneio numa torre, um torneio numa peça de xadrez, um torneio num dos símbolos da cidade.

O xadrez é composto por figuras medievais desde há alguns séculos: Reis e Damas, clero, cavaleiros nobres, os castelos e suas torres, mais os numerosos peões, a sempre necessária infantaria. As torres a definirem os contornos do tabuleiro, a limitarem a batalha, a serem agora o espaço para os jogos, para o Torneio.

Ao entrar na sala do Torneio, na qual se alinham três longas filas de mesas, verifico a enorme capacidade instalada. Percorro o piso, vejo mais uma antecâmara adjacente e ainda mais um salão, com iguais dimensões à primeira. Começo a olhar para os intervenientes, os jogadores de xadrez, à procura de caras conhecidas, quase quinze anos depois do último torneio jogado. A custo identifico-os, sem me lembrar do nome. Verifico a mesa correspondente onde se senta cada um dos rostos identificados e recorro à tabela de emparceiramento afixada na entrada. Atualizada a memória, cumprimento pelo nome os conhecidos, que circulam pelo hall, compreendendo a sua dificuldade em se lembrarem de uma cara, esquecida num torneio de há década e meia.  

                As instalações impressionam pela qualidade. É a opinião recolhida. Expressa por mais dois espaços, onde estão montados tabuleiros para uso extra torneio, além de mesas onde cada um usa o seu portátil, os pais esperam os filhos, ou os mais novos se dedicam aos trabalhos escolares de fim-de-semana.

                As conversas entre jogadores pouco mudaram – nos intervalos, ou nas pausas, fala-se de jogos, de posições das peças nos tabuleiros, para a qual a capacidade descritiva é suportada nas coordenadas do tabuleiro; revê-se lances e alternativas, tudo sem as peças à frente. A capacidade de cálculo a exacerbar-se. 

                Vivo o momento.

                Revejo os passos dados pela secção para se chegar ao presente. A década de 90 comigo, os quinze anos seguintes, até ao presente, com o Albino Faria. Passos sequenciais, pequenos, com avanços e recuos, sempre com o mesmo objetivo desinteressado de servir a modalidade, permitindo o acesso a todos os interessados.

                A Associação Estamos Juntos é hoje um notável clube de xadrez. Organiza torneios acolhedores, tem um prestígio competitivo apreciável, figurando na segunda divisão nacional, podendo sempre espreitar a primeira, como aconteceu há duas épocas. Desperta simpatia, pois são os jogadores que escolhem jogar pelas suas cores, como é o caso do próprio presidente da Federação Portuguesa de Xadrez, Francisco Castro, que se prepara para continuar a praticar a modalidade pela AEJ, por mais uma época. Além destes fatores, a AEJ continua a apostar na formação dos seus jovens jogadores. Tem escola montada, ensina os seus jogadores e conseguiu, na época que agora terminou, excelentes resultados, como o campeonato nacional de sub-18 em partidas semi rápidas, conquistado pelo Cláudio Sá. Este mesmo jogador confirmou o seu estatuto, ao terminar o nacional de partidas lentas, do mesmo escalão, em 5º. De igual modo, Rodrigo Ribeiro ao tornar-se vice-campeão nacional de sub-08, alcançou a mais brilhante classificação em provas lentas de um jogador deste clube. Estes dois jovens são filhos de jogadores que ingressaram na AEJ nos princípios da década de 90.

                Para mim, ver a atividade do xadrez da AEJ, é gratificante. Tal como ouvir o presidente da Federação Portuguesa de Xadrez a projetar a organização de futuros Campeonatos Nacionais, para a Torre da Oliva, ou seja, uma recuperação de uma faceta da AEJ na década de 90, sendo também uma tradição de S. João da Madeira, já que em 1978, o Clube de Campismo organizou o Campeonato Nacional Absoluto, de tão boa memória.

 

(a publicar no dia 17/10/2013)

quarta-feira, outubro 09, 2013

Cucujães

                Durante o sono, recebo visitas inesperadas.
                Acordo sobressaltado, sinto o rápido bater do coração, abro os olhos, situo-me na escuridão e ponho-me a rever o sonho.
                Das primeiras vezes, procurava uma sombra. Duvidava das minhas certezas. No entanto, com o tempo fui ficando tranquilo, deixei de considerar estas aparições pesadelos e após umas horas de insónia, voltava a dormir.
As visitas trazem-me memórias pessoais. Momentos vividos com familiares, amigos e colegas de trabalho, reavivados durante o sono profundo.
Uma tia que ainda me sorri, outra que me fala das lágrimas derramadas ao ler um texto meu, sobre a sua casa de infância, a dos meus avós maternos. Tudo tão presente que parece ter sido vivido nesse dia.
O irmão mais velho do meu pai insistiu, algumas noites intervaladas, com as virtudes de Churchill.
Uma chefe de equipa, de uma fábrica de componentes de automóveis, esperava pelo programa de produção, ou por saber o seu posto de trabalho, já que a morte prematura, não lhe permitiu conhecer as alterações introduzidas nesse ano na empresa.
Por estes dias, do atual emprego, uma colaboradora falecida num trágico fim-de-semana, surgiu sempre silenciosa a executar as suas tarefas. Uma confusão de imagens. E de consciência.
Ainda insiro moeda numa jukebox manhosa, no 2.000 - na antiga casa de máquinas que em tempos funcionou ao lado do edifício do parque América - selecionando uma música dos Men at work, esperando pelo Paulo Lisboa.
Desde há muitos anos, vou várias noites ao antiquíssimo Pé de Salsa, do tempo em que era num só piso, com duas alas e ali me encontro com o meu amigo Marcos.
Histórias mal resolvidas. A satisfação do prolongar da memória. Uma continuação da amizade.
Uma cigana colou-se a mim em Coimbra. Leu-me a sina. Eu sereno com todas as afirmações ou provocações. Lá pelo meio da lenga - lenga, surgiram os meus mortos, havendo um que me protege.
Sorri-lhe.
Rumo quando necessito a Cucujães. Não tem periodicidade certa. O motivo é espiritual. Vou sozinho. Estaciono o carro do lado da gráfica das Missões. Atravesso a estrada. Observo a banca de venda de velas, ainda distante do dia dos finados. Dirijo-me ao portão mais a norte do cemitério. Atravesso-o, olhando para nascente. Algumas mulheres limpam e enfeitam as campas, com afinco. Nem lhes vejo as caras. Olho para a paisagem, antes de virar à direita. Pelas ruelas cimentadas e asseadas, chego à campa pretendida.
Verifico que apenas está lá uma placa, cujo nome identifico como antepassado do meu amigo. Ali, espero não encontrar o nome de quem partilhou comigo as brincadeiras de infância, as tontarias da adolescência. Ali, parado, com os olhos humidificados, faço a viva voz uma salvação e permaneço o resto do tempo calado.
Saio de Cucujães, com a certeza de que a conversa seguirá numa destas noites, no Pé de Salsa dos anos 80.
 
(a publicar no dia 10/10/2013)

quarta-feira, outubro 02, 2013

Sob o signo dos independentes

Existem várias formas de analisar os resultados numas eleições autárquicas:

a)      Pela tendência de voto nacional, olhando-se para o maior número de câmaras municipais conquistadas por um determinado partido - chamando-se ao efeito onda, colorida conforme a cor do partido dominante na eleição.

b)      Pela tendência de voto regional, existindo zonas geográficas com um grande número de câmaras conquistadas sucessivamente pelo mesmo partido.

c)       Por outros motivos externos à eleição, como absentismo, votos nulos e brancos.

d)      Pela diferença de votos nos vários órgãos autárquicos.

e)      Pelos votos conquistados nas várias urnas.

 

Qualquer análise é plausível para justificar as tendências de votos, adaptando-se ou não, ao real resultado dumas eleições.

Se verificarmos os resultados em S. João da Madeira, não podemos falar em onda rosa, como se evidenciou no país, nem em vitória regional do PSD, pois no Entre Douro e Vouga, Arouca foi ganha pelo PS e Vale de Cambra, pelo CDS-PP.

Outros fatores externos: apesar do valor elevado de abstenção em SJM, de 50,7%, superior à média nacional, que foi 47,4%, ou seja uma diferença de 3,3%, que é um valor mais ou menos equivalente à percentagem que separou o PSD e PS na eleição da Câmara Municipal, não se pode chegar a qualquer conclusão, por não sabermos qual a intenção de voto destes absentistas.

 Ao verificarmos a diferença de votos entre os vários partidos ou movimentos, na eleição para a Câmara Municipal e para a Assembleia Municipal de S. João da Madeira, temos os seguintes valores: PSD + 334 votos; PS + 75 votos; AD SJM + 27 votos; CDU – 173 votos; CDS/PP – 89 votos; BE – 105 votos. Diferenças a demonstrar que o candidato do PSD foi buscar os seus votos de vitória aos partidos que não elegeram vereadores.

Um voto disperso por órgão autárquico, uma forma democrática dos eleitores demonstrarem o seu (des)agrado aos vários partidos, ou pelo contrário, um sentido de voto a premiar o melhor candidato?

A fazer fé na sondagem do labor, editada na semana passada, os eleitores confirmaram a sua preferência, pois o estudo indicava que entre os dois candidatos, melhor posicionados para a vitória, Ricardo Figueiredo tinha a preferência dos auscultados.

Poder-se-ia ainda analisar os votos conseguidos em cada mesa, verificar se existe uma tendência de votos nos eleitores mais antigos na cidade e outra na juventude, ou nos eleitores recentemente recenseados. Confesso que ao seguir a emissão da rádio local, fiquei com essa ideia, no entanto, não consegui verificar tais resultados, por isso, não posso apresentar tais conclusões. Provavelmente na presente edição do labor, serão publicados os resultados parciais e assim, será possível intuir o que significa o somatório de votos de cada urna.

Ricardo Figueiredo saiu vencedor da noite de domingo. Não venceu sozinho, no entanto, encontrou um PSD demasiado confiante na vitória, provavelmente encantado pelos valores apresentados na sondagem de Agosto, o que lhe causou dissabores, ao perder maioria e freguesia. Os próximos tempos, atendendo à composição do executivo, serão de negociação democrática, na qual o perfil empresarial do presidente eleito poderá ser decisivo para a eficácia do seu mandato e consequente melhoria da cidade.

Luís Miguel Ferreira perdeu-se. A fragilidade do adversário, ao assumir os erros da gestão do seu antecessor em matérias como a Praça ou das rendas sociais, não foi aproveitada de forma assertiva. O discurso rondou sempre a politiquice, pouco cativante para 334 eleitores e há rótulos que são difíceis de mudar. No entanto, a concelhia do PS apresentou-se nestas eleições em grande forma, com mobilização interna e o resultado foi melhor do que há quatro anos, aumentando a votação em mais 500 votos, o que é significativo.

Jorge Lima foi outro dos vencedores da noite. Confesso que sempre fui cético relativamente a esta candidatura. Só quando as 1200 assinaturas recolhidas foram aceites pelo tribunal, é que passei a respeitar a vontade deste conterrâneo. Depois seguiu-se a campanha e os números que iam surgindo previam a eleição de um vereador. Como não conheço muitas pessoas e influenciado por relato de amigos conservadores, possíveis eleitores votantes em Jorge Lima, até previ um excelente resultado, com a eleição de um segundo vereador, suportado por uma hipotética sondagem que não vi, nem sei se chegou a existir.

Por fim, a terceira vencedora da noite. A independente Helena Couto venceu, pelo PS, a Junta de Freguesia. Um resultado extraordinário, premiando quem fez campanha para o órgão, apresentando ideias e programa eleitoral próprios. Antevejo um mandato de reforço e de redefinição das competências da Junta de Freguesia, algo que é reclamado há muito, assim como a dotação financeira, estabelecida na lei, essencial para o cumprimento do orçamento. A realização de um bom mandato, poderá projetá-la para outras lutas em 2017, a bem da cidade e da dita igualdade.       

 

(a publicar no dia 03/10/13)

quarta-feira, setembro 25, 2013

Mobilização

                A quatro dias das eleições autárquicas, não posso deixar de apreciar a capacidade de mobilização das mais variadas forças políticas, durante a campanha eleitoral.

As campanhas eleitorais estão mais ou menos padronizadas. Visitas aos aglomerados populacionais, com o intuito de falar com os moradores dos vários prédios, são hoje prática corrente. Do mesmo modo surgem as visitas às instituições e associações da cidade, assim como, a algumas repartições Estatais mais emblemáticas. Comum é também a visita a empresas, alguns autorizados a conhecer o interior e outros ficando à porta, distribuindo brindes, sorrisos e propaganda. Por fim, temos as arruadas, umas bandeiras, uma troca de palavra com os transeuntes, a entrada em algum comércio e a visita ao mercado municipal.

Tudo isto foi visto e revisto pelos demais eleitores.

A capacidade de mobilização varia entre cada força política.

Com o recurso às redes sociais, os candidatos vão divulgando fotos, procurando demonstrar o trabalho efetuado. Alguns espalham-se ao aparecerem praticamente sozinhos, em locais pouco movimentados, em dia de jornada laboral para a maioria dos trabalhadores. Para contrariar esta tendência, publicam várias fotos, de vários acontecimentos, retirando importância aos momentos menos felizes e procurando esconder a pouca mobilização extra partidária.

Existem as forças políticas que enchem espaços públicos recuperados da cidade, ou que promovem concertos gratuitos, ou que promovem convívios com fila para a merenda. Isto é demonstrativo do magnetismo dos candidatos e significa votos no dia das eleições.

Este é o cerne de uma campanha eleitoral.

Há indicadores curiosos: gestão do orçamento da campanha e apreciações globais positivas no facebook – neste campo, convém referir que por motivos exógenos, a campanha do CDS / PP, no dia 18 de Setembro, alcançou uma visibilidade nacional incomparável.

Voltando ao raciocínio, aqueles dados poderão acalentar alguma surpresa no resultado final das eleições, na disputa pelo segundo lugar, já que a lista independente, do movimento AD SJM Sempre, apresenta-se em qualquer dos dois indicadores mencionados, uns furos acima do principal adversário.

A acontecer, isto penalizará a incoerência política de alguns candidatos, pela não realização de um debate sério sobre a Praça, afastando a campanha do centro, optando por ações populistas maioritariamente nos bairros periféricos. A apresentação de soluções avulsas para a Praça, algumas após a divulgação do programa eleitoral, assemelha-se a atos desesperados ao jeito dos candidatos a presidentes de clubes de futebol. 

No domingo, a contagem de votos será esclarecedora.

Será um serão com um ouvido em S. João da Madeira e outro em Setúbal, onde João Ribeiro concorre à autarquia local, com uma certeza, atendendo ao número de eleitores daquela cidade, será o conterrâneo a obter mais votos nas eleições de 2013.

 

(a publicar no dia 26/09/13)

 

quarta-feira, setembro 18, 2013

Opiniões

                Nas páginas do labor destinadas às crónicas, vai imperando o pluralismo. Nos tradicionais artigos de opinião, juntam-se textos de militância com artigos de cidadania. Esta salgalhada evita o unanimismo. Havendo críticas para ambos os lados, trocando-se argumentos e sugerindo-se ações.

                Eu leio com particular atenção os artigos dos meus companheiros de páginas. Não tenho o hábito de publicamente tecer comentários mas, por vezes, comunico diretamente com alguns deles, quando verifico ser necessário.

                No contexto eleitoral que atravessamos, este equilíbrio de publicação de artigos de opiniões, é quebrado com os textos dos candidatos.

Por estes dias, as páginas dos jornais enchem-se de campanha eleitoral. Além das várias reportagens sobre as ações dos vários partidos, surgem textos de opinião, nos quais alguns candidatos discorrem sobre temas, por eles considerados plausíveis de apreciação.

Para os leitores mais distraídos, um artigo assinado por um colunista não usual nas páginas dos jornais, confere-se sempre de novidade. Se não reconhecer aquele rosto, há sempre a tendência de leitura do texto, para conhecer a opinião do autor. É claro, que ao fim de algumas linhas, o mistério está desvendado e o colunista identificado com algum partido político, o que pode refrear o entusiasmo do leitor, ou pelo contrário, aumentar o interesse, conforme as opiniões e sensibilidades de cada um.

Alguns articulistas identificam-se, juntando à fotografia e nome, o seu estatuto de candidato. Uma opção honesta para com o leitor, que pode assim, escolher previamente a leitura ou não do artigo assinado. 

                Em democracia, todas as opiniões são válidas. 

                Não consigo classificar do mesmo modo os argumentos esgrimidos. Apreciações pessoais utilizando-se proveniência social e guarda-fatos são extremamente penalizadores para quem as utiliza. Do mesmo modo, agitar com o bairrismo, numa época em que os oito quilómetros quadrados da cidade não são suficientes para a população local, que necessita de trabalhar ou dormir fora do concelho, é um argumento redutor. Já questionar a independência política, quando no geral, todos os partidos têm candidatos e cabeças de lista aos demais órgãos na mesma condição, não é percetível.

                Esperava-se mais dos textos políticos publicados. Acreditava-se que fosse esclarecido o programa eleitoral dos vários partidos. Promessas esmiuçadas. Medidas tangíveis, com números concretos associados a cada uma. Já para não falar do cabimento orçamental. Do ganho associado, indicando o valor de investimento de cada promessa.

Sobre isto nada li.

Ingenuamente, aguardava uma campanha eloquente, sem se utilizar a arma do ataque ao adversário, com alegação básica. Uma campanha esclarecedora, sem procurar a vitimização. Uma campanha com debates de ideias, sem a preocupação de promover manchetes dos jornais.

Provavelmente terei que esperar mais alguns anos…

Enquanto isso, vou continuando a seguir os textos do Artur Nunes, do Pedro Neves, da Joana Costa, do Fernando Moreira, já que a partir de Outubro… só estes me acompanharão na edição do jornal labor.  

 

(a publicar no dia 19/09/13)

quarta-feira, setembro 11, 2013

Ambição

                A nova piscina municipal tem sido tema recorrente nos meus textos. Sempre me manifestei contra, atendendo a que considerava ser possível fazer uma adaptação das atuais instalações, economizando-se uns largos milhares de euros.
Sobre o assunto escrevi várias vezes, idealizando um plano B, caso não fosse garantido financiamento para a nova piscina, através de fundos comunitários.
                Não vou repetir os argumentos de outrora.
Nem mudei de opinião.
Perante a possibilidade, cada vez mais real, do financiamento ficar garantido, é necessário olhar-se para o projecto com outros olhos.
Longe de mim criticar o projecto vencedor e muito menos o seu autor.
Acontece que, por linhas tortas, o dono da obra vai pedir ao autor umas pequenas alterações.
Esta abertura deve ser aproveitada.
A flexibilidade da Câmara Municipal de S. João da Madeira, em pretender dotar o complexo de uma vertente de apoio à natação de alta-competição regional, permite apresentar algumas considerações desportivas. 
Sendo eu um optimista e ambicioso, nada me impede de escrever as seguintes linhas.
A natação, como actividade desportiva e física, engloba cinco fases distintas:
- adaptação ao meio aquático
- ensino
- manutenção física
- treino
- competição  
A estas, deve-se acrescentar a utilização da piscina por aqueles que procuram momentos de lazer: uns mergulhos, umas brincadeiras refrescantes e uma boa dose de diversão.
                Tendo tudo isto presente, o caderno de encargos da nova piscina solicitava soluções para todas utilizações: um tanque para adaptação; um tanque para lazer e outras actividades físicas; uma piscina de 25 metros, com duas pistas de 50 metros acopladas, permitindo o ensino, o treino e também a manutenção física.
                De fora ficava a componente competitiva, pois para receber provas homologadas pelas entidades competentes, é necessário uma adaptação, ficando, para o efeito, a piscina com apenas com 25 metros, o que não permite receber todo o tipo de competições.
                Convém referir que os Campeonatos Nacionais de Natação, em qualquer escalão, atraem centenas de participantes, familiares e demais apreciadores da modalidade, como S. João da Madeira teve oportunidade de verificar no segundo fim-de-semana de Julho passado, na piscina exterior.
                Se for construída como projectada, a nova piscina ficará amputada. Gastar cinco milhões e não construir bem será um erro. Além do desperdício de verbas comunitárias.
                A maior ambição de S. João da Madeira será construir um equipamento público diferenciador. Ora, tal só será conseguido através de uma piscina que englobe todas as vertentes da natação, incluindo a possibilidade de receber, no Inverno, provas nacionais e internacionais homologadas.
                A melhor forma de o fazer é construir uma piscina multiusos.
Tal como os pavilhões modernos, a ideia será dotar a nova piscina com todas as 8 (ou 10?) pistas com 50 metros de comprimento, permitindo adaptar o plano de água às reais necessidades: no dia-a-dia aulas, treinos, horário de actividade física para idosos e espaço de lazer; quando necessário, todas as divisões seriam retiradas e todo o volume de água seria destinado à realização de provas de competição, ou para qualquer outra actividade.
Ressalvo, para evitar erros de interpretação, que sou favorável à construção do tanque de adaptação ao meio aquático, tal como idealizado no projecto vencedor. A grande alteração, seria a fusão dos outros dois num só, repito-me para vincar a ideia.  
                A quinze dias das eleições autárquicas é de estranhar que os vários candidatos ignorem este assunto, não se referindo a ele de forma objectiva e clara. É um grande investimento, espera-se que seja co-financiado, no entanto, vai obrigar a autarquia a contrair um empréstimo, a aumentar a sua dívida e pela cidade espalham-se cartazes partidários e nem uma só palavra sobre o assunto.
                Um debate que não surge, evidenciando que o resultado da sondagem publicada em Agosto, não é fruto do acaso.
                A Câmara Municipal de S. João da Madeira, caso queira, poderá construir na cidade uma piscina ao nível das melhores no país, agradando aos seus habitantes, à comunidade da natação e a todos os forasteiros que a procurem, para os mais variados fins.
                Acredito que será esse o caminho.
 
(a publicar no dia 12/0913)
 

quarta-feira, setembro 04, 2013

Fim de Agosto

Para o regresso, quatro breves apontamentos do mês findo:

1.            A sondagem publicada no jornal “O Regional” condicionou as próximas eleições autárquicas. Em especial, por ser divulgada a menos de dois meses da data agendada para o escrutínio e ao ser publicada na última edição, antes das férias de Agosto.

Ao não permitir qualquer reacção política, nem comentário, nem estudo contraditório, nem acção de mobilização dos eleitores, por coincidir com o mês em que a maioria da população está de férias, existe a forte convicção que as eleições já estão decididas.

                Os números divulgados, a confirmarem-se no dia 29 de Setembro, permitem antever uma folgada vitória de Ricardo Figueiredo, uma disputa curiosa pelo segundo lugar, entre o candidato do PS e a candidatura do Dr. Jorge Lima e uma feroz disputa entre as restantes três forças políticas – CDS/PP, CDU e Bloco de Esquerda – pelo quarto lugar, ou pela fuga à menos votada.

                A sondagem confirma a ideia, expressa anteriormente, da população local se identificar com a independência política. Entre a entrega desinteressada à causa pública ou a luta partidária, os eleitores preferem a primeira, assim como, optam pela elevação argumentadora em detrimento do ataque insultuoso. São sinais democráticos bem visíveis por todo o país e a maioria da população sanjoanense reconhece-se neles. 

2.            Uma notícia do Jornal Notícias, sobre a hipotética devolução de alguns hospitais aos respectivos núcleos concelhios da Santa Casa da Misericórdia, evidenciou outra forma de fazer política: a assertividade. Um comunicado curto, vincando uma ideia antiga, a necessidade de o Hospital de S. João da Madeira permanecer no Serviço Nacional de Saúde. Em contraste, uma longa lista de acusações, esquecendo a necessidade de racionalizar meios do Estado, tão correctamente apregoada durante os anos 2005 a 2009.

3.            As características essencialmente urbanas do concelho de S. João da Madeira permitem encarar a época de incêndios com alguma distância. Apesar de muitos fogos serem em freguesias de concelhos vizinhos, as chamas raramente incomodam a população local. O fumo, esse faz-se sentir e permite visualizar ao longe a desgraça que outros estão a viver. Neste contexto, a notícia da detecção de um eventual incendiário, oriundo de S. João da Madeira, não possibilita encarar todo este processo sem se questionar o falhanço da educação e da acção cívica comunitária.

4.            A exposição de Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda com 235.000 espectadores, a grande maioria durante o mês de Agosto e a exibição do filme “A Gaiola Dourada”, ao qual assistiram em Portugal no último mês, o da estreia, 430.000 espectadores, demonstram a capacidade dos criadores nacionais em atrair público. Contribuí para esses números, intervalando os banhos e as sessões de leitura, para, em família, visualizar as concepções de Joana Vasconcelos e a divertida história filmada pelo luso-francês Ruben Alves. Depois do sucesso da exposição em Versailhes da artista portuguesa, temos outro bom exemplo da exploração do filão: comunidades portuguesas.

 

quarta-feira, julho 24, 2013

As Férias

         Os primeiros indícios da aproximação das férias são a diminuição da atividade escolar, os exames, os resultados, as matrículas, acompanhadas das festas finais das atividades complementares. Enquanto isso, os jovens atletas terminam a sua época desportiva, parando os treinos.

O trabalho dos adultos prossegue, cumprindo-se o calendário.

Nas estradas surgem carros limpinhos, de pintura brilhante, com matrículas com números e letras organizados de forma diferente. Alguns carros trazem a cruz suíça na matrícula e outros apresentam chapa amarela. 

Aos poucos as empresas vão entrando em período de férias. As zonas industriais começam a ter menos movimento. Menos tráfego, menos carros estacionados junto às suas portas, ou nos parques de estacionamento. Poucas pessoas a percorrer as ruas adjacentes às fábricas. Algumas sirenes desligam-se neste período. Vários portões permanecem fechados, cortinas corridas ou persianas desenroladas.  

Os jornais locais anunciam o encerramento para férias, não se publicando durante o mês de agosto.

O comércio espera pelos turistas ocasionais, pelos seus ímpetos consumistas, em especial os emigrantes.

Os serviços e repartições recebem algum fluxo extra de clientes ou utentes, durante as primeiras manhãs de Agosto mas, depois tudo fica mais calmo. A escala de férias vai estabelecendo o ritmo do trabalho.

Nas ruas do centro, as esplanadas são procuradas pela manhã. Grupos de clientes partilham mesas, fazem consumo, agitam-se em conversas. Circulam forasteiros de calções, fazendo abastecimentos matinais, para debandar até à praia durante a tarde.

O movimento de muitos.

As tardes são calmas e no seu final, estranha-se o silêncio. Surpreende a quantidade de lugares de estacionamento disponíveis pelas ruas centrais e sobretudo, o pouco trânsito na hora de ponta.  

O serão é confrangedor.

As noites de verão, em zona balnear, caraterizam-se pela vontade social de conviver. Cafés, bares e esplanadas enchem-se, as ruas apinham-se. Pessoas sem horários, com vontade de passear, de conversar, preferem sair de casa, alterar hábitos, desligar-se da televisão e encontrar amigos.

Em contraste, as ruas vazias da cidade em período noturno, com cafés encerrados para férias, outros com poucos clientes e com jornais antigos amontoados, em especial, o último número dos semanários locais publicado no final de julho, folheado vezes sem conta, observando-se de novo as fotos aí publicadas, aproveitando para comentar com a restante clientela, uma ou outra patenteada, interrompendo a conversa futebolística do dia, baseada nas hipotéticas aquisições dos clubes nacionais, ou nos resultados menos conseguidos na preparação dessas equipas, permitem pensar que é tempo de partir.

Mudar de ares, ver outras caras, envolver-se em outras paisagens. Na praia, no campo, na serra, na cidade, na aldeia, ou mesmo numa vila, é tempo para as merecidas férias.

O reencontro com os leitores fica agendado para Setembro. Até lá, aproveito para descansar os dedos (foi um ano produtivo em textos publicados) e dedicar-me à leitura compulsiva. Vou atacar clássicos da literatura e uma biografia do rei D. Duarte... o do século XV.

Finalizo, desejando a todos, umas ótimas férias.

 

(a publicar no dia 25/07/13)

 

 

 

 

quarta-feira, julho 17, 2013

A sede

                Há quinze dias, terminei a minha crónica fazendo referência ao sonho olímpico da Associação Estamos Juntos. Como estava a terminar o texto, não fiz referência ao autor de tal desejo. Datei-o, demonstrei a sua longevidade. Não fiz mais nenhuma alusão. Por isso, começo este texto por emendar essa omissão.
                Nos anos 80 do século passado, ainda no Tanque-piscina da Escola Primária do Parque, Armando Margalho, monitor de natação, traçava um desafio para o desporto de S. João da Madeira: com o futuro complexo desportivo das Corgas, estavam reunidas condições para um sanjoanense participar nos Jogos Olímpicos.
                Antes de tal feito ser conseguido, muita gente aprendeu a nadar, competiu na AEJ e ficou longe desse objetivo. Uma prestação que serviu para melhorar a componente desportiva da secção de natação. E não só.
Durante esse tempo o clube foi crescendo. Aumentou o número de atletas, aumentou as suas secções desportivas, diversificando a oferta à população.
Os vinte e sete anos de história da AEJ contemplam as suas secções desportivas, as mais antigas e extintas, como o basquetebol e o automobilismo. As antigas e ativas, como o xadrez e o ténis, além de outras recentes e inativas como a capoeira, o parapente e o apoio a pilotos sanjoanenses de karts e de motociclismo, que fizeram a história do clube.
Os resultados desportivos alcançados, ou seja, o reconhecimento do trabalho meritório efetuado pelas secções desportivas; o pioneirismo e a devida grandeza do Campo de Férias, organizado anualmente desde há 32 anos; e por fim, a envolvência dos sócios, fez o clube ser reconhecido pela população, pela comunidade, e sobretudo, pela edilidade. Deste modo, a ambição traçada em 2001 de tornar a AEJ o clube das Corgas, é hoje perfeitamente consagrada e visto com naturalidade no contexto social da cidade. O mesmo acontecendo com a utilização da piscina, para treino dos atletas, no horário nobre em detrimento do público em geral.
À sucessão de diretores, suas vontades e modelos de gestão, a natação permaneceu sempre com os mesmos técnicos: Luís Ferreira, desde 1990, coadjuvado por Augusto Macedo, que regressou ao clube em 1992.
A história olímpica é conhecida, sobretudo a partir de 2007, quando Ana Rodrigues entra no projeto Londres 2012, ou seja, a cinco anos do desfecho feliz.
A partir dessa data, o antigo sonho passava a estar mais próximo e como é natural, passou a orientar a política desportiva do clube.
Concretizado o objetivo antigo, o clube entrou numa nova era.
Nas últimas semanas visitei as Corgas - para assistir ao Torneio SJM 13 e ao Campeonato Nacional de Infantis de Natação -, apercebi-me de um maior envolvimento humano em torno da AEJ. Essa mesma sensação também tive nas provas de cadetes, que acompanho. No passado fim-de-semana, em Coimbra, congratulei-me por ver tanta camisola amarela e a bancada tão cheia de apoiantes, muitos vestidos com as cores do clube, acompanhados do tradicional cachecol.
É importante potenciar toda esta mobilização humana, alarga-la ao dia-a-dia do clube, não esquecendo que a AEJ não é apenas uma associação de pais. Apesar de ser imperioso ter boas contas, a gestão desportiva não é apenas um exercício de contabilidade. É necessário ter capacidade de traçar projetos, alguns utópicos, envolvendo os agentes do clube, sobretudo, os jovens, em torno desses objetivos.
Para os próximos anos, a AEJ vai ter o problema da sede social entre mãos. A hipotética construção da nova piscina, vai obrigar o clube a trocar de instalações. Uma oportunidade para lançar um desafio: a autonomia relativamente à sede social, ou seja, em instalações próprias.
 
(a publicar no dia 18/07/13)
 

quarta-feira, julho 10, 2013

Baixa-Mar

            A necessidade de frescura, para contrastar com os dias tórridos, as noites quentes, levou-me à praia bem cedo.
            Dormi sem roupa no tronco e de janela bem aberta.
Ergui-me ao toque de alvorada, olhei para o horizonte e observei uma névoa sobre o mar.
            O fresquinho matinal sabia bem, no entanto, sem aragem, adivinhava-se um calor descomunal.
            Era tempo de rumar à praia e esquecer o calor.
            Em dois tempos, conduzi-me para praia, atravessando os inevitáveis pinhais. Ao estacionar, verifiquei que a névoa observada desde casa eram nuvens altas, misturada com uma pequena neblina pousada junto ao areal. No caso concreto da praia escolhida, uma neblina entre os paredões graníticos, que as autoridades municipais e marítimas tanto gostam, cujo efeito prático é a continuidade da erosão costeira.
            Aspetos geográficos à parte, às 8h30m estava na praia. Não era o primeiro, nem tinha essa intenção. A única ambição era chegar cedo, sentir o fresco matinal. Se visse algum barco a recolher as redes xávegas, era um prémio justo, para quem, dia após dia, acorda cedo e ruma para uma fábrica.
            Os sinais da atividade piscatória estavam expressos nas marcas dos rodados do trator na areia. As redes já tinham sido recolhidas. O barco descansava na areia.
            Estava maré baixa, o que dava alguma largura ao areal. A areia seca era reduzida e tinha sido calcada pelo trator. O areal, húmido, apresentava-se disponível e era o mais apetecível, face ao calor sentido nas vésperas. Não caminhei muito, deixei-me ficar junto aos objetos das famílias madrugadoras. As pessoas estavam mais abaixo junto ao mar.
            Deitei-me, peguei num livro, esperando entretanto adormecer, com o som do mar a embalar-me.
            Normalmente, permaneço na praia procurada pelas famílias, com esta condição: o barulho das ondas a rebentar tem que ser superior ao dos meus vizinhos veraneantes. Quando quero silêncio, afasto-me um pouco.
            Não levei protetor, o que para um branquinho como eu, é um crime. Só tinha uma hipótese, cumprir o definido pelos dermatologistas, às 11 horas sair da praia. Como contava recuperar umas horas de sonho, adormecer poderia ser perigoso.
            A areia húmida serviria de barómetro, deitei-me com uma mão a sentir a sua frescura, quando a sentisse seca e quente, estaria na hora recomendada pelo Dr. Osvaldo Correia.
            Ali permaneci deitado, os olhos fecharam-se e cochilei um pouco. Os cochichos eram suportáveis, do meu lado direito vinha o som de conversas sobre o peso perdido, tipo de dietas e outras conversas adequadas à época estival. O barulho das ondas era mais agradável de ouvir, sentia-se um vento sul. A névoa matinal tinha desaparecido, o sol espreitava pelas pequenas nuvens, a areia continuava húmida. Aliás, a minha toalha estava húmida. Uma frescura completa.
            Virei-me de barriga para cima, com os pés direcionados para o mar. Não concebo tornar-me um relógio de sol, com a minha cara a receber a maior incidência dos raios. Fiquei de olhos abertos a espreitar as nuvens, os efeitos dos raios a atravessarem a camada húmida. Por vezes, um par de gaivotas atravessava a praia a voar.
            Ao meu lado, o número de guarda-sóis aumentava, embora, permanecessem sozinhos, pois a sua sombra ainda não era apetecível.
Tentei pegar de novo no sono.
            A enchente da maré obrigou os veraneantes a chegarem-se aos seus pertences. Horas das crianças comerem o reforço do pequeno-almoço. A algazarrava aumentava. Mais gente chegava à praia e rodeavam os madrugadores, conquistando-lhes o areal.
            Sentei-me. Procurei a garrafa, enchida em casa com água fresquinha, bebi insaciavelmente. Optei pelo banho, caminhei em direção ao mar, a frescura da areia, pronunciava o desfecho. A água estava gelada. Só molhei as canelas.
            Voltei à toalha. Abri de novo o livro, procurando desfrutar um pouco mais daquela manhã fresca. As nuvens estavam já dispersas, os raios solares eram agora mais quentes. Ainda assim, a areia continuava húmida e isso era o suficiente para me concentrar na leitura e não ouvir as conversas vizinhas. Página após página, ouvindo sobretudo o som do mar, cheguei ao fim do livro.
Olhei para o mar. Os parceiros que ocuparam a minha frente estavam praticamente a receber a água da onda. Ao meu lado, as crianças já se inquietavam, trocando brinquedos ou disputando baldes e pás. As mães continuavam a falar de trivialidades.
            Voltei a sentir a areia. Estava seca.
Em cada onda, o mar aproximava-se mais das toalhas dos meus vizinhos frontais. Não tardava nada e tinha que me encolher para eles continuarem na praia, por isso, optei por recolher. Sacudi a toalha, já seca. Vesti-me. Tirei o telemóvel do bolso e o seu relógio indicava 11 horas e um minuto. Precisão dermatológica.
As praias da nossa região, devido ao seu reduzido areal, passam a ficar condicionadas pela duração da baixa-mar.
Não quero com isto retirar a devida importância aos conselhos dermatológicos, sobretudo, quando o índice de radiação ultravioleta está sempre próximo do máximo.
 
(a publicar no dia 11/07/13)

quarta-feira, julho 03, 2013

O homem de chapéu

            Percorro as páginas escritas por Raul Brandão. Envolvo-me com os seus mortos, com as respetivas sombras. Delicio-me pela brilhante capacidade de narrar a vida dos mais desgraçados, mesmo nos momentos mais difíceis da sua vida. 
            Com sofreguidão, devoro dois livros de Agustina Bessa Luís. Fico perplexo perante a erudição colocada na voz popular. Por outro lado, aprecio a crítica feroz, embora póstuma, às paixões de Camilo Castelo Branco. Com perdição, leio os seus passos pelas ruas do Porto, pelas casas de Gaia e do Tâmega.
Procuro entre os três escritores o fio condutor. Não é a cidade, não é região, banalmente denominada pela política como Norte.
Não é o estilo, nem a época literária, nem o género.
Nem a sucessão pelos séculos.
Em comum, ficaram imortalizados na tela do cinema, pela mão de Manoel de Oliveira. O cineasta perpetuou a obra literária destes escritores, pelos séculos seguintes. Camilo Castelo Branco, ainda durante o século passado, com base num argumento de Agustina Bessa Luís. Relação que se manteve durante mais anos, com mais adaptações cinematográficas, da vasta obra literária, da escritora do Tâmega. Em 2012, Manoel Oliveira baseando-se num romance de Raul Brandão, prestou-lhe uma homenagem ao realizar o filme “O Gebo e a sombra”.
O cineasta imortalizou na história, sempre volátil, os nomes da literatura nacional. Não esqueceu estes, nem outros, muitas vezes com pequenas aparições das capas dos livros, em momentos dos seus característicos filmes. Por exemplo, o livro S. Paulo, de Teixeira de Pascoaes, uma biografia nada teológica da vida do Santo, surge numa determinada imagem na mão do fotógrafo, protagonista, no filme “O estranho caso de Angélica”.
Percebe-se a intenção de Oliveira: a eternização dos seus escritores favoritos, alguns seus contemporâneos, alguns seus amigos, através da sua arte, com mais capacidade de divulgação, podendo chegar aos mais diversos pontos do continente e até do planeta, algo impensável para os livros editados desses mesmos escritores.
O fator Manoel Oliveira, a sua idade, a sua longevidade como realizador, o seu reconhecimento no contexto europeu do cinema, permitem intitulá-lo como uma das maiores figuras contemporâneas da cultura portuguesa.
À sua figura associa-se o chapéu.
(Cruzei-me com ele, pelo menos, duas vezes em espaço público e vi-o de cabeça coberta, tendo educadamente respondido aos cumprimentos, levantando-o ligeiramente.)
O potencial do uso, por diversas figuras do mundo das artes, deste adereço, um dos produtos tradicionais da indústria de S. João da Madeira, pode ser utilizado para promover um evento cultural na cidade, impondo-lhe um carater sério e uma escala nacional, podendo mesmo, dar-lhe uma dimensão internacional.
Num momento em que os novos espaços culturais públicos são uma realidade e precisam de encontrar um modelo de sustentabilidade financeira, todas as sugestões são importantes.
Como tenho feito ao longo de anos nas páginas do labor, vou apresentando ideias sobre o assunto, contribuindo apenas para a discussão pública.
Sobre este tema, referi em Maio passado, neste jornal, a potencialidade de animação das ruas da cidade, com a utilização maciça de chapéus pela população, conseguindo-se assim, num fim-de-semana do ano, o exotismo necessário para se obter uma cobertura mediática positiva. 
A isto junte-se a tal homenagem a “O Homem de Chapéu”, utilizando-se as novas infraestruturas municipais na área da cultura, conseguindo-se juntar a retrospetiva da sua atividade artística, com a estreia de um novo trabalho, tendo obviamente garantida a presença do artista em causa.
Com isto, teremos tudo para um produto de excelente qualidade, com um mediatismo extremo se pensarmos no próprio Manoel de Oliveira, sucedendo-lhe anualmente nomes de outros artistas reconhecidos pelo uso de chapéu, como Tom Waits ou Clint Eastwood....
Ambição excessiva?
Maior sonho, foi acreditar que um dia S. João da Madeira haveria de ter um nadador Olímpico. 30 anos depois, foi conseguido.    
 
(a publicar no dia 04/07/13)

quarta-feira, junho 26, 2013

A hora do ardina

            Na Praça esticava-se a noite. Após o fecho dos diversos estabelecimentos, prolongavam-se as conversas por mais umas horas. Temas correntes, sem época precisa. Sazonalmente, debaixo dos arcos do Parque América, nos dias frios, ou nos bancos centrais, junto à vegetação, nas noites de verão.
A luz pública iluminava as vozes. As sombras escondiam as diferenças. Discutia-se futebol e política, da mesma forma acalorada que se defendiam os gostos musicais e cinematográficos - atropelando as ideias dos outros. Trocavam-se conhecimentos escolares, os ensinamentos da filosofia, da história, da biologia, entre outras conversas mundanas. E planeavam-se férias. Escapadinhas no valor da mesada, ou da remuneração do trabalho no mês de Julho.
As diferenças suburbanas, acentuadas pelo pós-escolar prematuro de muitos jovens, eram assimiladas sem classes. As frustrações sobrepunham-se à harmonia do entendimento e os alvos eram sempre os que prolongavam os estudos. A violência era latente, explodindo sempre em confronto físico honesto, salvaguardando-se as amizades.
O futuro não existia. O objetivo era inserir uma moeda de vinte e cinco escudos numa máquina e desfrutar dos créditos. Evitar abanar os flippers em demasia e conseguir uns créditos para esticar a tarde, ou o princípio da noite, prolongando a diversão.
A marginalidade convivia paredes meias connosco. A linha era ténue, embora a responsabilidade tivesse sempre prevalecido. Para isso, contribuíram os sonhos de cada um, a ambição pessoal e uma mudança nos hábitos de diversão.
Nas primeiras madrugadas vividas na Praça, com o intuito de aceder às traseiras da padaria, para comprar pão quente e meia-lua, constatávamos as rotinas de quem trabalhava à noite.
Cedo, muito cedo - para nós (para quem dormia, seria tarde), uma carrinha entrava a grande velocidade na Praça, vinda de norte. Abrandava junto aos arcos, largava dois grandes embrulhos e seguia para Sul. Não se pense tratar-se de uma entrega de uma substância ilícita, o patrulhamento à paisana era garantido nessa época naquelas ruas - várias vezes as nossas conversas foram animadas precisamente pelos dois polícias destinados para o efeito. A carrinha era do Jornal de Notícias, ou da sua empresa de distribuição e os embrulhos eram precisamente da edição desse dia. Uns minutos depois, aparecia o Sr. Jaime. Desconfiado perante a nossa saudação, lá respondia atarefado, carregando os volumes e desaparecendo para os seus afazeres.
A sua chegada era o fim da nossa noite.
A partir dessa hora começavam a surgir os outros trabalhadores. O carro da recolha do lixo, com as suas luzes amarelas, obrigava os menos prevenidos a aceder a casa e a carregar o lixo para o rés-do-chão. Falhar essa tarefa era denunciar a hora de chegada a casa, além do vexame de colocar o saco do lixo, de novo dentro do caixote.
Sensivelmente uma hora depois a padeira atacava os prédios. O pão era colocado à porta de cada cliente. Entrar em casa de pão na mão, o que era apetecível quando se regressava cheio de fome, era outro sinal denunciante da hora do fim da noitada.
O cúmulo na vida de boémia, ao fim de semana, era entrar em casa de jornal na mão. A distribuição à porta era efetuada já perto das 7 horas, pelo “Jaime dos jornais”. Via-se os títulos, espreitava-se o jornal do vizinho, algumas vezes um dos jornais tombava do 2º andar, obrigando a descer toda a escadaria, para voltar a subir os 42 degraus, colocando tudo em ordem, sem prejudicar o serviço de quem trabalhava toda a noite.
À semana havia outro limite, que algumas vezes era ultrapassado, embora o interesse do relato não seja pertinente.
O falecimento do Sr. Jaime Ferreira representa o fim dos ardinas da cidade, escreveu-se nos jornais locais. Eu sempre o vi a trabalhar, durante a madrugada, ou em hora vespertina, quando ia comprar A Capital, ou procurava uma revista no escaparate do quiosque por debaixo das antigas instalações da PSP.
Para mim, o Sr. Jaime representa um dos obreiros honestos, essenciais para um conceito de qualidade vida que existe no centro de S. João da Madeira.
A sua ação noturna impôs um horário à minha vida de boémio, por isso, não podia deixar de evocá-lo.        
 
(a publicar no dia 27/06/13)

quarta-feira, junho 19, 2013

5 de Agosto

            Em Janeiro 2009, enalteci o esforço hercúleo do anterior presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, em resolver os problemas de gestão, herdados do seu antecessor. Listei doze assuntos, que estavam já resolvidos, ou em vias de o ser nos anos seguintes.

Apenas um chegou a 2013 por resolver - precisamente o restauro do cinema Imperador.

A semana passada, com a inauguração da Casa da Criatividade, chegou ao fim este capítulo na história da cidade. Não vou tecer considerações alongadas sobre esse período, apenas recordando o lançamento de várias obras, sem garantia de financiamento, que se prolongariam por longos anos, até à sua conclusão.

O endividamento da autarquia local ficou resolvido, em parte, pela venda de terreno municipal para a instalação do centro comercial e não só. Ficou reconhecida a capacidade de gestão do anterior edil, assim como, a sua apetência pela candidatura a fundos comunitários. Desta forma, a cidade não ficou com grandes problemas estruturais por resolver, nem muito menos, com muitas obras pendentes.

Três grandes investimentos municipais terão que ser resolvidos.

O primeiro não é nenhum problema, já que tem data agendada para a inauguração - precisamente a reconversão funcional das antigas instalações da Oliva.

Um dos outros investimentos a concluir será a ampliação do Centro Empresarial e Tecnológico / Sanjotec.

Por fim, teremos a nova piscina, ainda sem financiamento garantido. No entanto, as condicionantes de atribuição dos fundos, com a mudança de tutela, podem ser mais favoráveis ao projeto local. A disponibilização de verbas “lá para finais de 2013” (uma expressão utilizada pelo anterior presidente da Câmara), poderá mesmo acontecer. A nomeação do Dr. Castro Almeida para a Secretaria de Estado com a responsabilidade pela atribuição dos fundos comunitários, permite equacionar um cenário favorável ao financiamento da nova piscina local. Sem maquiavelismo, prevejo a divulgação desse financiamento antes do dia 29 de Setembro deste ano, data agendada para as eleições autárquicas.

A hipótese de conclusão destes projetos municipais, num médio prazo, abre a possibilidade de lançamento de novas ideias sobre a cidade. As eleições serão importantes para sufragar as intenções de cada candidatura. Numa época de crise económica, apresentar investimentos municipais, capazes de dinamizar o contexto social, será a audácia política necessária e obviamente a premiada.

Por agora, tudo está focalizado nas listas de candidatos.

A 5 de Agosto termina o prazo para entrega das candidaturas. Não sendo todas conhecidas, o que não permite extrapolar conclusões, verifica-se nas já apresentadas dois tipos: de um lado a militância, do outro a sociedade civil, encabeçada por candidatos independentes. Outro dado curioso, dos candidatos conhecidos, um é empresário e os restantes são funcionários do Estado.

A interseção destas tipologias acarretou uma novidade política, expressa no apoio de alguns dinâmicos (e jovens) empregadores da cidade, completamente inseridos no tecido social da cidade, que não tiveram qualquer dúvida em alavancar uma das candidaturas.

Os dados estão praticamente todos lançados. Daqui a um mês e meio, todos os candidatos serão conhecidos.

No final de Setembro tudo estará terminado.

 

(a publicar no dia 20/06/13)

 

quarta-feira, junho 12, 2013

A origem toponímica

         A toponímia, ao contrário do que se possa pensar, não se limita a dar nome às ruas e a colocar placas alusivas a esse nome, nos pontos mais estratégicos dos arruamentos.
            O estudo dos nomes de lugar, da sua origem e evolução, definem verdadeiramente a toponímia, que estuda também os nomes de cidades e outras localidades.
            Ao recolhermos informação sobre uma rua, muitas vezes, temos acesso ao nome anterior e conseguimos perceber a evolução associada, conseguindo datar a mudança e a nova designação. Temos como exemplo, a Rua da Liberdade, anteriormente designada de Marechal Carmona. Esta referência, associada à mudança de regime político em 1974, encontra semelhantes alterações um pouco por todo o país, em Avenidas, Praças, Pontes e outras obras públicas.
            A abertura de novos e modernos arruamentos, eliminando os existentes, provocou no passado o desaparecimento de alguns topónimos. Aqueles com mais relevância, serviram para batizar outras artérias, transferindo-se esse nome para outros locais das cidades, numa eterna homenagem. Não tenho de memória, exemplos lançados em S. João da Madeira, deste género, que possam ter provocado a eliminação, ou a transferência de nomes de ruas, para melhor exemplificar ao leitor, a evolução da cidade.
            Pelas ruas da cidade existem placas explicando os seus nomes: as homenagens da população a notáveis da terra, às profissões que marcaram a economia da cidade, a forasteiros ligados à política e às artes, além da referência à origem da povoação, nomeadamente invocando os seus lugares.
            Os lugares são a génese de qualquer localidade. Os lugares uniram-se por caminhos, estes deram origem a ruas, batizadas ao longo dos anos, conforme a vontade popular ou do poder político.
            Ao observarmos o nome dos lugares de S. João da Madeira, podemos perceber a sua história.
            Primeiro temos que perceber que vários desses nomes são comuns a várias localidades: Fontainhas, Devesa, Corgas, Espadanal, Vale, Fundões, Laranjeiras e Ribeiros. Estão associados à relação do homem com a natureza, neste caso, com cursos de água e aproveitamento agrícola (devesa significa campo fértil das margens de um rio).
            Os nomes Ponte e Travessas pressupõem a ação de travessia, neste caso do rio Ul, o que poderá indiciar o trajeto de antigas estradas, antes do traçado da estrada real.
            Lugares designados como Pedaço, Praça, Tapado, Volta e Vista Alegre são compreensíveis à luz do entendimento popular e das suas simples designações.
O mesmo já não acontece com Parrinho e Carquejido. Nomes sem paralelo no léxico português e de compreensão suposta, através da derivação de palavras associadas a produtos agrícolas, no entanto, como diria Agustina Bessa Luís, “não é qualquer filólogo que se atreve nos labirintos das origens fogosas do linguajar do povo”. Por isso...
Orreiro é definido no dicionário do Instituto Houaiss como “cavidade da trave do moinho de vento”. Assim sendo, ficamos com uma explicação para o nome do lugar e permite equacionar a tese de José Mattoso, sobre a designação tópica “da Madeira”, como localidade onde existiam oficinas de trabalhos em madeira: carpintarias e afins.
  Retrocedendo-se na história, chegamos à origem de outros dois lugares: Quintã – significa grande quinta, surgindo na documentação medieval. Anterior a essa época, ainda em período da reconquista cristã, é a utilização do termo casal – significando pequeno povoado, ou conjunto de casas, ou até mesmo limites de uma propriedade. Casaldelo e o seu oponente Casal Novo devem provir desta época.
Por fim, temos a Mourisca. É aceite pelos historiadores que o termo “mourisco” era utilizado pelos populares para designar tudo o que fosse antigo. Na década de 50 do século passado, procedeu-se a escavações arqueológicas neste lugar da cidade, não se tendo encontrado nada de significativo. O termo popular ficou. A utilização do morro pelos mouros, como ponto de vigilância dos movimentos, de norte para sul, das tropas cristãs é perfeitamente aceitável. O princípio de comunicação com a cidade a defender seria o de atalaias separadas vários quilómetros entre si, dispostas ao longo das principais vias / estradas e comunicando através do fumo, provocado por grandes fogueiras acesas nesses pontos elevados. Efetivamente, da Mourisca tem-se um campo de observação privilegiado sobre toda a envolvente.
Do período Visigótico, já escrevi em texto anterior, que existe um documento que refere S. João da Madeira e um nome de lugar – Ascarigo - de origem germânica, embora para mim, apenas interessado e não estudioso sobre o assunto, seja difícil fazer prova.
A via romana entre Coimbra e Porto teve que atravessar o rio ul, por isso à falta na cidade de vestígios do império, ficamos com uma noção histórica: quando estes chegaram à Península e encontraram os túmulos hemisféricos dos povos celtas, chamaram-lhes mamoas, por se assemelharam à forma de seio feminino.
A existência na cidade da Rua da Mamoínha, com todo o significado arqueológico e linguístico associado, prova que esta cidade foi habitada por povos celtas.
A toponímia permitiu essa revelação, perpetuada pela antiquíssima sepultura, demonstrando como é importante salvaguardar os termos e expressões populares, para se entender melhor a origem duma povoação.
 
(a publicar no dia 13/06/13)