quarta-feira, maio 18, 2016

Da Musgueira ao Marquês

                Estes dias de festa, no futebol, fizeram-me reencontrar a minha história. Ao ser recordado da conquista do último tricampeonato conquistado pelo Benfica na temporada de 1976/77, verifiquei que apesar de o ter vivido, não me lembrava de nada. É certo que na anterior conquista de feito idêntico, em 1972/73, tinha dois anos de idade e não podia ter qualquer memória. No episódio seguinte, nos meus seis anos, recordava-me apenas de antigos posters alusivos ao feito dessa equipa, colado nas paredes de casa dos meus pais, mais uma caderneta de cromos dessa época desportiva, guardada numa gaveta, além de me recordar desses jogadores, que continuariam muitos mais anos no clube. Memórias avulsas, provavelmente reconstruídas pelos anos seguintes.

No fundo, tenho que reconhecer, a minha aproximação ao futebol nasceu nesse ano de 1977. A devoção por essa época desportiva, tão especial, acompanhou-me durante alguns anos, já que houve um hiato, até o Benfica voltar a ser campeão, ou qualquer outro clube tricampeão. Esse saudosismo fez-me conhecedor das épocas mais remotas e reconhecer em Eusébio, o símbolo da história do clube.

Essa imagem, de um africano equipado de vermelho, a que eu só tinha acesso através de cromos ou posters mais antigos, já que os jornais apenas publicavam fotografias a preto e branco e as lembranças da televisão eram todas monocromáticas, foi a melhor forma de eu entender o clube e o seu lema, “E Pluribus Unum”, que surge no latim através de uma frase de Virgílio, adaptada para a nossa língua como, “De muitos, um”.

Ao fim destes anos todos, entusiasmo-me sempre que um jogador, de pele mais morena, equipa de vermelho, seja qual for a nacionalidade. Assim foi com Renato Sanches. Reparei nele pelas imagens televisivas de um final dum atribulado jogo, quando enfrentou sozinho o banco do adversário, de um campeonato nacional de juvenis. Anos mais tarde, viu-o em campo em Santa Maria da Feira e apreciei a sua entrega ao jogo. Após o último dia 25 de Outubro, como solução para contrariar o apocalipse, vestindo a pele de “treinador de bancada”, protagonizei a sua entrada para a equipa principal do Benfica. Quando tal aconteceu, o futebol passou a ter outra atenção. E magia.

O resto é conhecido de todos: uma sucessão de vitórias para o campeonato nacional, interrompidas num jogo em atraso e nova sucessão de resultados positivos, interrompidas à 22ª jornada e daí até ao final, sempre a ganhar. Resumindo-se numa 2ª volta com apenas 3 pontos perdidos, o que em termos de estatística dá um valor engraçado, 94,1% de pontos conquistados.

Renato Sanches é um jovem da Musgueira, bairro de Lisboa, catalogado de problemático e normalmente notícia pelas piores razões. Renato é um símbolo da inclusão social, que é possível fazer-se pelo desporto. Um bom exemplo a seguir para todos aqueles jovens, que vivendo em bairros sociais e que muitas vezes são confrontados com o vazio de oportunidades, preferem fazer a sua escolha de vida, longe da hipótese de obter dinheiro de forma fácil e por meios ilícitos.

Na noite de comemoração do título, depois de ter vindo ao aperto da Rua João Deus, um momento nos festejos que já merecia ter passado imagens para órgãos de informação nacional, tamanha é a grandiosidade, retirei-me para casa para assistir, pela televisão, à festa na Rotunda do Marquês de Pombal. Da festa retive a imagem de Renato Sanches a correr o palco todo, a animar a vasta plateia de microfone na mão e a certa altura, destacado do resto da equipa, a empunhar uma grande bandeira alusiva ao Benfica, com a indicação precisamente da Musgueira. O envolvimento da Alta na Baixa da capital, o reconhecimento da transversalidade social do futebol, passando essa imagem para o país inteiro.

O rapaz das tranças está de saída. É um miúdo, só assim se compreende a entrada da mãe no relvado na tarde de domingo a agradecer ao treinador a oportunidade que deu ao seu filho. Fazendo lembrar as despretensiosas histórias de tantos, incluindo as de Eusébio.

Espera-se que o seu exemplo faça despontar novos valores, que se orgulhem do equipamento vermelho e branco e que sejam igualmente desinibidos e efusivos nos festejos, não esquecendo as suas humildes origens.

 

(a publicar no dia 19/05/16)

quarta-feira, abril 27, 2016

De Ulisses ao Botox

Se em 1986 me perguntassem se eu queria assistir a concertos de bandas como Gang of four, Buzzcocks, Joy Division, ou The Clash, a resposta ponderada seria negativa. Algumas dessas bandas estavam terminadas, ou em final de carreira, já não fazendo digressões e por isso, por muito que eu quisesse, não havia qualquer hipótese de as ver. Acrescente-se que nesses anos, eram raras as aparições de bandas desse género musical (pós-punk) em Portugal.

Se no mesmo ano, me perguntassem se eu queria assistir a concertos de músicos como Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso ou Chico Buarque, a resposta seria igualmente negativa. As razões para a resposta seriam de motivo diferente, mais relacionados com o gosto musical, numa época em que encetei um processo de “revolução cultural”, optando por caminhos diferentes, mais próximos de bandas como as atrás mencionadas, desligando-me de todo um percurso auditivo, em que passei a excluir música popular brasileira, música jazz, a maioria das bandas da década de 60 e de 70.

Trinta anos depois, dos músicos das bandas mencionadas no primeiro parágrafo, apenas tive oportunidade de assistir à performance de um deles, Peter Hook, enquanto baixista de acompanhamento da The Durutti Column. Em contrapartida, dos brasileiros referidos, já assisti a concertos de três desses quatro nomes, ficando apenas de fora “seu” Chico. Enquanto não surge essa oportunidade (na sua última aparição em Portugal não consegui assistir ao seu espetáculo), não posso deixar de o nomear como um dos romancistas que mais prazer me deu a leitura de sua obra. “Budapeste”, “Leite Derramado” e “Benjamim” foi empreitada fácil, enriquecedora e gratificante. O livro “O meu irmão alemão” é igualmente uma narrativa enriquecedora e compensadora, só que a versão foi editada ao celebrar-se o Acordo Ortográfico de 90. Difícil ler aquele português tropical. Não o português europeu saído desse acordo, sem as consoantes mudas, que só estorvam quem quer escrever. Um português, que nos entra em casa, nas telenovelas, nos filmes, na música e a que estamos auditivamente muito habituados. Quando se trata de leitura, o caso muda de figura.

Ouvir “Cadê”, é facilmente interiorizado. Sabemos que significa “onde é que está”. Ler a mesma palavra é estranho. Mas, aproveitando o final da frase anterior, primeiro estranha-se, depois entranha-se.

O Português é composto por vários sotaques. No continente europeu, uma mudança geográfica de 50 quilómetros pode significar uma fonética diferente da língua e o uso de expressões próprias. De Norte ao Sul, do interior ao litoral, em Portugal, ouvem-se pronúncias características, que nos permitem catalogar a origem dos faladores. O mesmo acontece nos arquipélagos do atlântico norte. Como o povo português andou pelos quatro cantos do mundo, a língua fala-se na América, Africa e Ásia, ou às portas da Oceânia. Em cada um desses países de expressão lusófona, existe um sotaque diferente para a língua portuguesa.

Outra particularidade da língua é a sua origem. Popular. Escrita por Camões em 1572, passou a ser utilizada por reis, nobres e clero muito mais tarde do que a falavam burgueses e o povo.

A erudição é de salutar.

Não deve ser renegada a sua origem, nem a sua difusão pelo mundo e a sua adaptação aos sons vindos de fora.

Parece ter tudo começado com Ulisses. O nome da povoação, fundada pelo navegador grego, foi latinizado com o sufixo “ipo” para Olissiipo e daqui nasceu a Lisboa, bem portuguesa.

Ao longo dos séculos, os estrangeirismos foram adaptados pelos nacionais (como em todas as línguas). Veja-se, por exemplo, o que os Portugueses fizeram à Banana. Em contrapartida, os sons franceses, germânicos, africanos e ingleses foram assimilados pelo nosso povo e nasceram novas palavras. A mais curiosa que encontrei é a origem de armadores, proveniente do termo popular “armãos”, a deriva escrita do plural do nome “Herman”, como se designava popularmente os marinheiros que navegavam do centro da Europa até cá, para trocas comerciais.

E quando vieram as marcas de produtos, toca a usar esses nomes. Jeep derivou em Jipe mas, cotonete ficou sempre cotonete, velcro sempre velcro, lycra igualmente. Chiclete passou mais tarde a pastilha elástica, gilete virou lâmina de barbear, jet-sky passou a moto de água. No entanto, ainda há produtos que não perdem a designação da primeira marca a chegar ao mercado, em especial, os produtos farmacêuticos. Aspirina será sempre aspirina, por muito que se diga comprimidos de acido acetilsalicílico e Botox até hoje é Botox, por mais operações estéticas que se façam.

   Não posso deixar de citar os regionalismos com origem em marcas. Precisamente o tão característico e nortenho, “cimbalino”. Designação na cidade do Porto para café, precisamente por ter origem na marca italiana de máquinas de café expresso “La cimbali”.

Se a língua é a vontade de todo um povo, é ótimo que se retirem algumas consoantes mudas. Dá ação à língua, no entanto, é um facto, que se cortou de mais. Um egípcio será um habitante do Egipto e não é subtileza dizê-lo, é uma verdade incontornável, pois apesar dos 26 anos de Acordo Ortográfico, não existe consenso dos dois lados do atlântico.

Entre o regredir ou corrigir lapsos iniciais existe uma diferença. Pode-se perfeitamente discordar do acordo, pode-se denegri-lo, só que não me convencem das vantagens em escrever mais um “P” em ótimo, ou mais um “C” em ação. Enquanto em facto, lemos o “C” de facto, existem outros factoides (termo utilizado no Brasil, após acordo ortográfico) que nos unem aos outros povos que se expressam em Português.

A lusofonia é uma realidade Atlântica, que estende ao Indico e ao Pacífico. Não se resume às diferentes sonoridades ou de grafia das palavras, significa a possibilidade de entendimento de milhões de habitantes.

Não podemos permanecer agarrados à dicotomia café – bica, fino – imperial, ao pé – à beira, que durante anos identificou o norte e o sul do país. É preciso saber viver com as diferenças e entranhar o novo acordo ortográfico.      

 

(a publicar no dia 28/04/16)

quarta-feira, abril 20, 2016

Tempos novos, conversas antigas

Há duas formas de conduzir uma entrevista na imprensa local. Uma delas é enviar as perguntas ao entrevistado, para este responder igualmente por escrito. A outra é em direto, dando ao jornalista a oportunidade de fazer as perguntas, ao longo da conversa, com o entrevistado. O método da resposta por escrito é o preferido da maioria dos agentes da política e a entrevista é, por sua vez, o favorito dos jornalistas. Pode parecer um contrassenso, pois a resposta escrita dá mais trabalho ao entrevistado, ficando o jornalista passivo. Por outro lado, a entrevista oral, implica a transposição para texto, por parte do jornalista. Contudo, a condução da entrevista, o momento da pergunta, a imprevisibilidade da mesma, confere ao jornalista um ascendente sobre o entrevistado e este é o fator decisivo para a preferência.

                Anabela Carvalho, enquanto colaborou no jornal labor, não desarmou. Pretendia ouvir o entrevistado e com isso, não agradava à totalidade dos agentes da política local. Nos últimos anos deve ter efetuado seguramente dezenas de entrevistas, utilizando o seu método, entre trabalhos de reportagem e outras peças jornalísticas. A mudança profissional de Anabela é uma perda para a imprensa local, no entanto, não pensem os leitores que os agentes da política ficam mais descansados.

                  A aproximação ao quotidiano local de Sara Dias Oliveira, jornalista com vasta experiência profissional, escrevendo inclusivamente para um jornal diário nacional de referência, precisamente sobre a sub-região Entre Douro e Vouga, é um sinal inequívoco da aposta do jornal labor num patamar de qualidade elevada.

                (abro um parêntesis, para declarar a minha grande estima pela Sara, que já conheço pessoalmente há vários anos, sendo obviamente seu leitor assíduo e reconhecendo-lhe muito mérito nos seus textos, conferindo às pessoas destes concelhos um sentido verdadeiramente cosmopolita, que ela expressa de forma criativa nas suas mais diversas reportagens.)

                Se Sara Dias Oliveira tivesse seguido de perto a campanha eleitoral das intercalares para a Câmara Municipal, repararia que o PS visitou praticamente a totalidade das instituições e associações locais, por isso não deixaria de confrontar o seu entrevistado na edição do jornal labor da semana passada, Rodolfo Andrade, com esta redundância.

                Embora se entenda a intenção deste dirigente em reabilitar a imagem do PS, promovendo esses contactos, é importante levar mais do que um discurso bonito para junto dessas instituições ou associações e sobretudo, doravante, adequar as ações políticas dos seus militantes, a esse propósito. Em três anos a bota não bateu com a perdigota. 

                O facto mais relevante da entrevista conduzida por Sara Dias Oliveira é a afirmação do novo líder da concelhia do PS em aproximar-se dos empresários. Esta reflexão, correta, retira o partido de uma bolorenta luta de classes, em que se viu envolvido com a anterior liderança. Contudo, cria um dilema para as próximas eleições.

                Depois de umas eleições intercalares, em que o PS ficou sozinho, é necessário compreender os novos tempos de política de coligações. A direita coligada em S. João da Madeira foi impensável durante 34 anos. Esta possibilidade, oferecida pela complexidade da oposição, vinculou-se num regresso de uma maioria coligada no executivo camarário. A bipolarização, que durante anos, permitia a um só partido político obter maiorias, é nos dias de hoje diferente. Existem frentes democráticas com semelhantes ideologias, que podem fazer acordos pós-eleitorais, ou mesmo pré-eleitorais. A praticamente um ano das eleições autárquicas este é o grande desafio do PS, consegue ou não entender-se com as outras forças políticas do seu espectro político? Ou pelo contrário, tentará engolir o movimento independente S. João da Madeira Sempre, situando-se ao centro?

                Qualquer uma das soluções implicará negociação política e cedência de lugares elegíveis em futuras listas conjuntas. Um processo nada fácil, que poderá ser agravado com a aproximação às entidades empresariais, que requer muita tenacidade e capacidade de autocrítica de todas as forças políticas envolvidas.

 

Nota: Há pessoas que pela sua simplicidade e dedicação ao desporto são exemplares. Ao senhor Gabriel Silva Dias, do basquetebol da ADS, aprendi a respeitá-lo, por o encontrar sempre ocupado junto às 4 linhas de um pavilhão. Neste momento de luto para a sua família, não posso deixar de escrever estas singelas linhas, relembrando a sua simpatia e sabendo que não será fácil substitui-lo, muito menos superá-lo.

 

quarta-feira, abril 06, 2016

Ana Rodrigues - eterna campeã nacional

                É suposto um jornalista abster-se de escrever comentários. Ou de tecer comentários, caso não esteja indexado à imprensa escrita. A nível nacional, a análise política por parte de jornalistas, deixa sempre confusos os leitores e sobretudo, os agentes políticos, mesmo quando os ditos jornalistas escrevem em coluna própria, em espaço visivelmente de opinião, no qual relacionam os factos com a convicção pessoal.

                Por outro lado, um comentador não deve dar notícias. Embora, em espaço televisivo, os comentadores apreciem trazer novidades em primeira mão para o grande público e assim, criar espectativas sobre as informações a divulgar. É frequente isto acontecer ao Domingo à noite, com um ex-presidente de partido político, que já foi ministro.

                Perante estes dois cenários, eu que habitualmente escrevo artigos de opinião, não deveria trazer informação nova para os artigos publicados. Embora, como a minha colaboração está também indexada a crónicas, haja nesta perspetiva de texto, uma oportunidade para relatar alguns factos novos, sobretudo, por verificar que mais ninguém o fez.

                Tudo isto vem a propósito do Campeonato Nacional Absoluto de Natação, que decorreu em Oeiras de 11 a 13 de Março passado.

                Nas últimas edições da imprensa local, fiquei à espera da divulgação de resultados da prestação de Ana Rodrigues, atleta da Associação Estamos Juntos. Edição de dia 17, nada. Edição de dia 24, nada e edição de 31 de Março, igualmente nada.

                Eu, na noite de 13 de Março, aos resultados desportivos que coleciono do fim-de-semana, acrescentei à navegação o tal Campeonato Nacional e registei logo os resultados da atleta e também do clube. Rejubilei com os resultados conseguidos e procurei logo comparar com os de 2012, para verificar se havia melhorias nas marcas pessoais e consequentemente a obtenção de tempos mínimos para a participação nos Jogos Olímpicos de 2016.

                Esta última parte ainda não ficou garantida, contudo a própria Federação Portuguesa de Natação está esperançada que pelo rateio da Federação Internacional (FINA), o tempo obtido em Coimbra em 2015, possa ser suficiente para a Ana Rodrigues voltar às Olimpíadas de Verão.

                Chego à parte do texto que tenho que apresentar os resultados desportivos da atleta da AEJ, despindo o papel de comentador.

                A Ana Rodrigues, agora conhecida no mundo da natação como Ana Pinho Rodrigues, conquistou 7 medalhas nos referidos Campeonatos Nacionais. Em 5 provas conquistou o ouro, correspondente ao 1º lugar e em outras duas ficou em 2º lugar. Vitórias nas provas:

 

1)      50 metros livres, a ficar a somente 19 décimos de segundo do record nacional;

2)      100 metros livres;

3)      50 metros bruços, duplamente, devido às caraterísticas destes campeonatos;

4)      100 metros bruços, prova em que logrou participar nos Jogos Olímpicos de 2012;

 

Os segundos lugares foram obtidos nos 200 metros bruços e nos 50 metros livres, prova atrás já mencionada, o que se explica pelas caraterísticas destes campeonatos.

As medalhas obtidas, unicamente por Ana Rodrigues, permitiram à AEJ colocar-se na estatística de medalhas na 3ª posição. Somente atrás de Escola S. João de Brito e Sporting Clube de Portugal e à frente de Clube Galitos de Aveiro e Futebol Clube do Porto, para destacar os imediatamente classificados, duma lista de 26 clubes. Refira-se que a AEJ esteve representada com mais 4 atletas e estes clubes citados tiveram participações entre 20 a 40 atletas.

Volto ao comentário.

Feito o registo para a posteridade, deve estar o leitor a perguntar porquê é que esta notícia não foi divulgada mais cedo?

Desconheço a resposta. No entanto, é usual na cidade os clubes divulgarem os seus próprios resultados desportivos. Isto iliba em parte os jornais locais, ficando a maior quota de responsabilidade no clube. Por aqui, pouco se pode esperar, atendendo a que Ana Rodrigues, quando regressou à AEJ em 2014, foi extremamente hostilizada pela direção, que seria reeleita nesse mesmo ano, em mandato que ainda vigora. Pelos vistos os principais feitos dos seus atletas, ainda hoje não são compreendidos pelos diretores deste clube, nem merecem a devida atenção, para procederem à sua divulgação.

Estou em crer que a Ana e o seu treinador, Luís, mereciam mais. 

 

(a publicar no dia 07/04/16)

quarta-feira, março 30, 2016

Fidelização de público

                Na curta série de artigos publicados, durante este mês de Março, sobre as práticas culturais dos habitantes da cidade, vou acrescentar na edição desta semana, a questão do público, consumidor de cultura.

                À melhoria das condições de realização de eventos, com a renovação das salas na última década, conseguiu-se um melhor conforto para os espetadores. A melhor oferta traduziu-se num aumento da organização de espetáculos implicando, por sua vez, a progressiva oferta com qualidade.

                Quem olha de fora para o cartaz cultural de S. João da Madeira, concebe uma ideia elitista de consumo de cultura. As exposições permanentes de arte contemporânea e de arte bruta na Oliva Creative Factory, mais o evento da Poesia à Mesa e mesmo o concurso para jovens pianistas “Florinda Santos”, ajudam a montar tal preconceito.

                Se analisarmos os eventos culturais produzidos na cidade, verificamos que não é bem assim.

                Tal como exposto no primeiro destes artigos, o Festival de Teatro, com os seus grupos escolares, atrai à plateia familiares dos jovens protagonistas, desejosos de assistir às suas performances. O mesmo acontecendo nos concertos organizados pela Academia de Música, como fica evidente pela divulgação efetuada pela sua Associação de Pais.

                Se é assim com estas artes, o mesmo acontece com outras em que os intervenientes são crianças ou jovens. Por exemplo, em demonstrações de dança ou de bailado. Ou mesmo, noutros escalões etários, nas atuações de grupos ou associações, uma grande parte da assistência é composta por familiares ou amigos dos artistas. Tal como sucede nas apresentações de obras de artistas individuais.

                Além desta componente, o cartaz urbano do “Party Sleep Repeat” confere outra dinâmica ao consumo de cultura na cidade.

                E a acrescentar a estes, temos as presenças nos dias da Poesia à Mesa e as visitas às exposições no espaço acima mencionado.

                Ponderando tudo, familiar, urbano e o dito elitista, empiricamente acredito que o maior número de público, de bilhete pago, está presente nas atuações dos jovens ou crianças da cidade.

                Perante tal facto, acredito que a melhor opção para fidelizar o público às plateias dos espaços culturais, é aumentar o número de atuações destes jovens. Lançar desafios de atuações, com temáticas diferenciadas, em eventos disseminados ao longo do calendário, sabendo-se que público estará sempre acautelado. Mesmo não sendo o espetáculo gratuito. Além de proporcionar uma maior envolvência comunitária, este tipo de eventos dão outra motivação aos intervenientes, podendo-os ajudar em questões de orientação escolar, por exemplo, permitindo-lhes enquadrar o mundo das artes de forma mais positiva.

                A superação desta fase cultural ajudará a programar outro tipo de eventos na cidade. A massa crítica será maior e pode-se então, partir para a programação de espetáculos autossustentáveis, ou procurar parceiros para promover esses mesmos eventos culturais, ou seja, só aí terá cabimento planear cultura para um público elitista.

Este texto finaliza a minha análise ao estado da cultura de S. João da Madeira. Na observação que fiz, fui-me abstraindo de entrevistas com actuantes e de recolha de dados. Fui deixando propostas nos vários textos: aproveitar a componente escolar no ensino de artes para fazer captação de talentos; fomentar o espírito associativo cultural na comunidade local; promover um evento anual de mostra dos trabalhos dos artistas locais, englobando grupos, incluindo os informais; lançar desafios de programação aos grupos, escolas, academias e outros artistas para envolvimento social da cultura; não esquecendo a aposta da autarquia (Câmara e Junta) na promoção de algumas artes, refletindo-se essa prática pela desinibição da população.

Espero ter sido claro, evidenciando as boas práticas locais. Inibi-me de criticar abertamente as propostas eleitorais de Janeiro passado, como criar companhias municipais de artes ou até ser capital de cultura. Pelo exposto, durante todo o mês de Março, penso que os leitores compreenderam como a realidade está distante das campanhas eleitorais.

               

Nota: Com mais pompa que os demais anos, o labor festeja o seu 28º aniversário. Os meus parabéns a todos: diretor, redação e demais colaboradores, não esquecendo aqueles que no passado contribuíram para o jornal alcançar esta longevidade.

 

(a publicar no dia 31/03/16)

quarta-feira, março 23, 2016

Produtores de arte

                Nas últimas três semanas salientei algumas das práticas culturais da cidade. Ao longo desses três artigos, comecei por focar a relação do Estado, através das Escolas e do ensino articulado, não esquecendo as atividades extracurriculares, como o teatro. Na semana seguinte, evidenciei como uma boa prática da Autarquia, a “Poesia à Mesa”, tinha sido bem assimilada pela população, que formou um grupo informal de declamadores de poemas. No texto da semana passada, debrucei-me sobre as associações e sua dedicação à promoção da cultura, quer como organizadores de eventos, quer como praticantes das mais variadas artes, ou mesmo, como formadores.

                Para esta semana reservei um outro tema, ainda cultural, sobre o produtor de arte. Onde se enquadra o produtor individual de arte, nestes conceitos coletivos (turmas, grupos e associações) existentes na cidade?

                Escritores, músicos, pintores, fotógrafos, escultores, poetas, ilustradores, cineastas, atores, bailarinas, desenhadores, entre outros, sem mencionar algum em particular, foram sendo referenciados ao longo dos anos pela imprensa local. Alguns fazem parte da comunidade local. Outros vivem fora da cidade, dedicando-se à arte como profissionais. Vários foram galardoados nas suas áreas de atuação. Um sinal de mérito na opção de uma forma de vida.

                A cidade em algumas áreas oferece formação: a preferência no secundário pela área de artes é possível na cidade; a Academia de Música ensina vários instrumentos, com uma componente teórica associada; o próprio Centro de Arte tem cursos para vários escalões etários, em áreas como pintura, fotografia, banda desenhada, desenho e serigrafia. Não esquecendo as aulas de dança nas Academias Liliana Leite e Luísa Mendonça, assim como, o ensino da Banda de Música de S. João da Madeira.

                Se aqueles que recorrem a estas instituições têm oportunidade de fazer apresentações ao público dos seus trabalhos, ou do seu desempenho enquanto instrumentista, o cenário é um pouco mais dificultado para os outros.

                É certo que sempre existiram espaços comerciais com vertente de galeria, exibindo nas suas paredes quadros com pinturas, desenhos, fotografias, tapeçarias ou azulejos de artistas locais ainda sem nome no mercado da arte. O mesmo acontecendo nas exibições de grupos musicais, que atuam por vezes em espaços comerciais de horário noturno.

                A Biblioteca Municipal neste capítulo tem sido sempre uma boa montra para os novatos artistas locais.

                Nos últimos anos, com a difusão da animação de rua, vários artistas passaram a dedicar-se às artes circenses. Obviamente, que a rua é o melhor local para a sua exibição. Espontâneo, ou organizado por associações, ou mesmo pela Autarquia vão surgindo episódios destas manifestações.

                A criatividade ganhou espaço próprio na cidade. A vertente empresarial ocupa um grande espaço na antiga Oliva. A exposição dos vários negócios foi uma preocupação bem conseguida, com a abertura das portas para divulgação ao grande público.

São estas sinergias que são importantes conciliar. Aproveitar a atividade das empresas criativas, da animação de rua, dos artistas individuais, dos grupos informais, dos alunos das várias instituições de formação e mesmo das escolas privadas e organizar um evento no espaço da Oliva Creative Factory. Aberto ao público, com o objetivo de exibir a capacidade artística dos nossos conterrâneos.

No fundo, não é nada de novo. É recuperar a ideia que esteve na génese do espetáculo “Raízes”, que infelizmente se perdeu. Conferindo-lhe na atualidade um grau de transversalidade às várias artes, como teve o evento organizado pela Associação Estamos Juntos, em 1989, intitulado “Adeus ao Verão”. 

Como prefiro o modelo deste último, nada melhor para finalizar, do que propor a adaptação dum evento desta natureza ao calendário de festejos da emancipação da concelhia.

Votos de boa Páscoa.

 

(a publicar no dia 24/03/16)

quarta-feira, março 16, 2016

Associações Culturais

                Um prémio é sempre um sinal de reconhecimento do trabalho efetuado. Ao ser premiado o Festival “Party Sleep Repeat”, a Associação Cultural Luís Lima foi recompensada pela audácia em promover eventos culturais. Para quem começou há pouco tempo, nada melhor do quer ser laureado, imprimindo um caráter motivacional importante para os próximos tempos.

                Esta Associação assimilou o investimento autárquico em equipamentos culturais. Com mais auditórios, de capacidades diversas, com melhores salas para acolher espetáculos de lotações distintas, S. João da Madeira dispõe de infraestruturas suficientes para albergar iniciativas culturais de média dimensão, ou seja, adequadas para a realidade geográfica em que está envolvida.

                Tendo-se formado a Associação Cultural Luís Lima nos tempos atuais, pode-se utilizar uma linguagem informática, para a intitular como uma associação 3.0, relacionando-a com a mais recente reabilitação do património cultural da Cidade. Seguindo o mesmo princípio, recuando mais de duas décadas, arrolando a criação do Centro de Arte e a ocupação da antiga escola primária da Quintã, para instalação da Academia de Música, permite ligar-se estes dados com a fundação da Associação Cultural Alão de Morais e ainda com o Coro de Câmara de S. João da Madeira.

Para trás, no período de início da democracia, a grande época de incremento do associativismo, com génese cultural, desportivo e recreativo, envolvendo as três componentes no objetivo de cada associação, também a cidade viu nascer alguns clubes do género. Utilizavam-se os poucos espaços municipais disponíveis, como o Auditório construído na antiga Escola Industrial ou mesmo o antigo e devoluto hospital. Desse período, como associação exclusivamente cultural, ficou para a posterioridade a Tuna dos Voluntários. Abro aqui um parêntesis, para fazer uma referência ao Rancho Regional Laborânea, presumindo ter sido fundado nesta época, no entanto, não consigo precisar. De qualquer forma, apesar da alusão, julgo não estar enganado quanto à inatividade do referido Rancho. 

É importante ainda referir a Banda de Música de S. João da Madeira, anterior à fundação do concelho, o que prova o interesse da população por questões culturais, ao longo dos demais anos. Hoje com instalações novas, esta Banda foi sinónimo de aproximação da população à música, quando a oferta era reduzida e mesmo quando esta aumentou, a Banda de Música continuou a ensinar jovens e a permitir que tivessem contacto com as Orquestras Filarmónicas.

Neste espectro, convém referir algumas associações que difundem atividades culturais, quer com ensino e prática de dança, quer com a promoção de eventos, embora na sua atividade sejam igualmente desportivas, ou mesmo, instituições de solidariedade social. Não querendo ser exaustivo, fica a referência a grupos informais de teatro ainda ativos, a grupos musicais de vários géneros e ao clube de leitura da Biblioteca Municipal.

Feita a apresentação da participação em atividades culturais da população, empregada durante o dia, completando os interesses pelas artes em regime pós-laboral, observe-se com maior detalhe o Coro de Câmara de S. João da Madeira. Primeiro referindo a qualidade do trabalho efetuado nestas duas décadas, sempre elogiado por todos. Há, no entanto, outro aspeto que importa destacar. A afinidade dos elementos ao canto, pois além de serem membros do Coro, alguns são igualmente diretores. Esta especificidade, este associativismo pela arte, torna este coral como um exemplo a seguir pelas diversas manifestações artísticas existentes na cidade.

Julgo que seria a melhor opção para algumas das atividades culturais da cidade. O fomento do associativismo só poderia beneficiar a encenação do teatro, ou ajudar na criação de uma orquestra, ou a sustentar a poesia ao longo do ano, só para dar alguns exemplos. Com associações culturais específicas, suportadas nas atividades de captação de talentos, exercidas pelos grupos escolares de teatro, pelo ensino da Academia de Música, estaria assegurada a participação da população e claro, a sua vocação artística.

Não posso deixar de terminar, sem deixar um desafio, uma qualquer associação cultural de fomento de teatro em S. João da Madeira, deveria ter como referência o malogrado Doutor Josias Gil, que sempre procurou tanto como vereador, ou como professor, dinamizar o teatro amador na cidade.   

 

(a publicar no dia 17/03/2016)

quarta-feira, março 09, 2016

Inquietações poéticas

                Nos próximos quinze dias, a cidade respirará poesia.

                Como os demais anos, a Câmara Municipal promove uma nova edição da iniciativa “Poesia à mesa”. A programação continua a ser diversificada e este ano é um pouco mais ambiciosa.

Existe uma clara aposta da autarquia em Poesia, que não se limita à actividade programada para os próximos dias. O concurso literário “João da Silva Correia” é um bom exemplo dessa promoção.

É bom recordar que, durante anos, a Câmara Municipal de S. João da Madeira procurou investir no património. Identificados os edifícios com interesse municipal, houve dinheiro para a sua aquisição, reabilitação ou restauro e abertura ao público. Praticamente, ano após ano, sucederam-se os investimentos: ampliação da biblioteca municipal; transformação de edifícios a precisar de regeneração, finalizando-os, como os Paços da Cultura, o Museu da Chapelaria, a Casa da Criatividade e mais recentemente com a entrega à cidade da Oliva Creative Factory. Pelo meio, é importante não esquecer a reabilitação das instalações da Academia de Música. Nem, muito menos, as novas instalações da Banda de Música no espaço onde em tempos funcionou o Auditório Municipal. Nesta enumeração, temos que incluir dois edifícios que apesar de restaurados, não conheceram o mesmo fim que os restantes. Refiro-me à Quinta do Rei da Farinha e ao Palacete dos Condes (este praticamente reconstruído), ambos desocupados desde há anos, estando a sua futura ocupação a ser finalmente planeada.

Este cuidar do património, exigente em termos financeiros, foi completado durante todos estes anos com os diversos apoios às associações e iniciativas culturais, algumas destas avulsas. Neste sentido, pela sua longevidade e singularidade, a “Poesia à Mesa” ganhou o seu espaço. Primeiro por ser uma iniciativa organizada pela Câmara Municipal, quando o normal é haver um proponente e a autarquia subsidiar. Segundo pela sua afirmação no calendário municipal de eventos. Finalmente, por este evento ter sido assimilado pela população.

A compreensão dos habitantes da cidade não se limita à participação no programa, quer como assistentes, ou pendurando poemas, ou declamando os seus trabalhos. Existe mais actividade, que extravasa a “Poesia à mesa”.

Logo no início do texto, terceiro parágrafo, referi o Concurso Literário João da Silva Correia. Como é do conhecimento geral, nos últimos anos, este concurso inicialmente previsto para trabalhos de prosa e poesia, apenas tem premiado poemas. Essencialmente pelo número de trabalhos apresentados nas primeiras edições do Concurso. Este sinal de vitalidade da população, ainda hoje se mantém e teve uma maior visibilidade com as informais tertúlias de poesia. As “Fugas poéticas”, idealizadas e concebidas por um grupo de cidadãos, tem sessões regulares ao longo de todo o ano. Curiosamente, em diversos locais da cidade. Chegando a haver por parte de estabelecimentos comerciais o expressar de vontade em albergar as ditas “Fugas”, o que traduz a capacidade da poesia em ser cartaz cultural e ter público para a ouvir.

A expressão artística fica registada, para a posteridade, nas publicações nas páginas dos jornais locais de poemas avulsos de diversos autores. É igualmente importante referir a edição de poemas compilados em livros, que alguns poetas ousam propor aos restantes cidadãos. 

Se houvesse dúvidas sobre o efeito da iniciativa “Poesia à mesa”, por parte da Câmara Municipal, o facto de ter despontado toda esta energia na população (e sua desinibição) é um sinal de uma política cultural bem conseguida.

 

(a publicar no dia 10/03/16)

quarta-feira, março 02, 2016

Manifestações Urbanas

                O arranque da X edição do Festival de Teatro de S. João da Madeira está previsto para o próximo dia 8 de Abril.

Ao longo dos últimos anos, este festival tem recebido várias e justificadas apreciações positivas.

Recompilando alguns desses elogios:

a)      Destaque para a programação, pela mistura dos grupos escolares com grupos amadores locais e dos concelhos vizinhos, acrescentando-se grupos profissionais de âmbito nacional;

b)      Enaltecer a iniciativa da organização, da Escola Secundária Dr. Serafim Leite e pela liderança do processo consecutivamente desde a primeira edição;

c)       O interesse em inovar em cada edição, envolvendo novos parceiros e aproveitando os recursos físicos da cidade;

d)      A metamorfose operada nos elementos dos grupos escolares e dos amadores, em especial, pelo surgimento de dramaturgos, encenadores, construtores de cenários e de guarda-roupa;

e)      A transfiguração no palco dos atores, com óbvia referência para os estudantes, sem desprestígio para os restantes escalões etários.

Este último ponto merece um maior desenvolvimento.

As artes cénicas desenvolvem competências como memória, capacidade de enfrentar plateias, oratória, dicção e expressão corporal, entre outras. Ver alunos, adolescentes a ter as primeiras experiências de representação dramática, de aptidão para a interpretação de personagens é congratulador. Nos palcos do Festival de Teatro verifica-se que a Escola é capaz de transmitir algo mais do que os conhecimentos existentes nos manuais escolares. Qualquer das competências atrás descritas são extremamente importantes no desempenho do jovem enquanto estudante e depois entrando no mundo profissional, ainda mais valorizadas serão.

Numa época em que começa a ser questionado o ensino para a nota, ou seja, reduzindo-se essencialmente à aferição por testes, a participação de alunos em atividades extracurriculares são um bom argumento para os defensores de outro modelo de avaliação. Neste capítulo, o Festival de Teatro e os grupos escolares demonstram assertivamente que existem outras formas de adquirir conhecimentos e competências.

A expressão artística dos jovens alunos de S. João da Madeira não se limita às atividades extracurriculares. É sobejamente conhecido o ensino articulado de música. Mais publicitado por os piores motivos: falta de verbas para pagamento aos professores, atraso nesses pagamentos e mesmo, no inicio do presente ano letivo, redução do número de turmas a criar no ensino de música. Apesar destas dificuldades, os jovens vão progredindo os seus estudos e começam a surgir atuações diferenciadas. O calendário de apresentações ao público vai sendo incrementado, sob a égide da Academia de Música de S. João da Madeira, agendando-se mais espetáculos, como o organizado na semana passada na Casa da Criatividade.     

No contexto do ensino articulado, um parágrafo final para a dança. S. João da Madeira é destino de muitas jovens dos concelhos vizinhos que optam por esta arte, inscrevendo-se na Escola EB 2/3. Esta forma de expressão, manifestada em cultura urbana, tem um enorme potencial de apresentação ao público, que em meu entender ainda não saiu dos muros da referida Escola. Há um potencial enorme, sem esquecer a centralidade, proporcionada pela opção de se estudar na adolescência na cidade, em promover a dança em espaços municipais para a divulgação ao público. Se quiserem ter uma ideia da dimensão destas manifestações urbanas, podem assistir no próximo sábado à noite, no Pavilhão das Travessas, ao Campeonato de Hip Hop e tirar as devidas ilações.     

 

(a publicar no dia 04/02/16)

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

Café sem açúcar

                Cebaldo Smith esteve na génese da secção de xadrez da Associação Estamos Juntos. Corria o ano de 1990 e eu caloiro na Universidade do Porto, não pude dar o meu contributo no Campo de Férias de Julho. Quase no final do mês, fui informado que haveria uma simultânea de xadrez conduzida por um cidadão oriundo do Panamá. Prontifiquei-me a estar presente, repetindo a experiência, já que na década anterior, na Escola Primária do Parque, Flávio Pinho, jogador de xadrez de S. João da Madeira tinha efetuado a primeira simultânea em Campos de Férias da AEJ. A participação de Cebaldo não se limitou apenas ao jogo contra vários adversários em simultâneo, foi transmitindo conhecimentos teóricos e fomentou a prática, ao longo das primeiras semanas do mês. Como era costume nos Campos de Férias, promoveu-se um torneio de xadrez, cuja final decorreu na piscina interior, ao mesmo tempo que decorriam as provas de Natação.

                Ao verificar toda esta atividade em torno do xadrez, idealizei criar uma secção na AEJ. Não havia nenhum clube a praticá-lo em S. João da Madeira, desde a década anterior, condição importante para evitar concorrência na mesma localidade. Havia um potencial desse Campo de Férias que era importante agarrar, só que não se sabia qual seria a aceitação da cidade a uma nova modalidade desportiva. O primeiro passo foi realizar um torneio de xadrez, no Clube Labor Sanjoanense. Divulgação feita através dos jornais locais. Surgiram rapidamente inscrições e pessoas interessadas em praticar xadrez a nível federado.

                Escusado será dizer, que nos anos seguintes convivi de perto com Cebaldo Smith. Torneios, Campeonatos, viagens para uns e para outros, mais todo o apoio que ele me deu a nível de secretariado e não só. Um dia a caminho de Vila Nova de Foz Côa, ainda sem gravuras rupestres sinalizadas, parámos para beber café. Por essa época, a atividade xadrezista desenvolvia-se com muita frequência no interior do País. Os torneios começavam às 10 horas da manhã e tínhamos que viajar pelo IP5, conhecida como a estrada da morte, tal era o número de acidentes com vítimas mortais que ocorriam naquele traçado. Para chegar a tempo aos torneios, saía-se de madrugada e com todos os estabelecimentos comerciais fechados, era portanto, normal fazer-se uma paragem para beber um café, quando o dia clareava. Nessa manhã, servidos os cafés, eu como habitualmente abri o pacote de açúcar e virei-o todo para dentro da chávena. Cebaldo bebeu o seu e perguntou-me se eu gostava de doce de café. Só então reparei que bebia o café sem açúcar. Explicou-me o prazer de sentir o gosto amargo do café e das vantagens em reduzir o açúcar no sangue. A partir desse dia comecei lentamente a reduzir a doçura do café. Primeiro para três quartos do pacote e depois para metade. Lembro-me de comentar o meu feito com uma colega da Faculdade, que transmitiu-me outra perspetiva vantajosa em reduzir o açúcar, o controlo do peso.

                Muitos anos mais tarde, com as máquinas expresso caseiras, passei a beber o café sem açúcar. Fora de casa, faço o mesmo para algumas marcas e descobri que noutras, só com alguns lotes é que é possível não acrescentar o conteúdo do pacote, que vem sempre pousado no pires. Nos casos extremos de sabor amargo, junto apenas um quarto do pacote. Esta minha experiência poderia ser útil para a Direção Geral de Saúde, que espera reduzir o consumo de açúcar, através de saquetas com metade da capacidade das atuais. Um bom café, bem tirado, com a espuma na dose certa, não necessita de açúcar. Ainda existe outra vantagem, a educação do paladar ao sabor natural. Chás e outras infusões, por exemplo, também passei à mesma prática de redução da sacarose, estando quase no limite zero.

                Voltemos a Cebaldo Smith… Muitos leitores devem recordar-se dos seus textos, publicados nas páginas do jornal labor. Na década de 90, ou seja, no final do século passado, Cebaldo partilhou a perspetiva indígena, escrevendo sobre a chegada ao continente americano de Cristóvão Colombo, entre outros temas relacionados com as tribos Índias da América Central. Neste particular, lembro-me de dois textos seus: um sobre como o casamento estava a prejudicar os costumes indígenas, pois se os membros do casal provinham de diferentes idiomas nativos, a opção para a educação dos filhos recaía na língua oficial do país, o castelhano, em detrimento de qualquer um dos idiomas envolvidos; o outro texto partia da sonoridade das línguas nativas e como juntando “neg” - traduzido por lar - e “ócio” – por sua vez traduzido por amor, obtinha-se para o casamento precisamente a palavra negócio. Embaraços da antropologia.

                Cebaldo de Léon Smith sobe ao palco amanhã nos Paços da Cultura. É ele o orador convidado para o “Palcos e Cenas”, iniciativa englobada na X Edição do Festival de Teatro de S. João da Madeira. Pelo cosmopolitismo introduzido na cidade há 25 anos, não tenho dúvidas de ser a escolha certa.

 

(a publicar no dia 25/02/16)

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

Votar no Porto

                Esperava-se que a partir de 24 de Janeiro, a atividade política abrandasse. Duas eleições, intercalares em S. João da Madeira e Presidenciais, em simultâneo e com o calendário eleitoral para o presente ano vazio, sem nada agendado, presumia-se uma diminuição de notícias e de notoriedade dos agentes da política local.

                Os jornais locais nas últimas semanas prolongaram as questões partidárias. Primeiro o mal-estar no PS local e logo na semana seguinte, as eleições para a concelhia do PSD. Uma leitura mais alargada e verifica-se que os dois partidos vão também a votos para eleger as respetivas distritais. A movimentação partidária estende-se no PSD até à eleição da comissão política nacional.

Tanta atividade deve ocupar bastante a militância.

É evidente que deve-se separar as águas: acompanhar as eleições que envolvem a sociedade civil e apenas estar atento às dos partidos políticos. No entanto, é sempre curioso verificar-se as movimentações partidárias. Avaliar a capacidade democrática das estruturas partidárias, sobretudo, nos momentos em que existem críticos. Muitas vezes é necessário conciliar as opiniões divergentes, para transmitir uma mensagem de unidade à sociedade civil. Outras vezes, é importante assumir uma rotura, devido a um passado recente pouco recomendável em termos democráticos, levando a críticas contundentes e ao afastamento de militantes históricos, o que influência negativamente os eleitores e só mesmo um recomeçar de novo, reabilita um partido perante a sociedade civil.

Esta agitação política tem desviado a atenção dos meios de comunicação, de uma proposta do atual governo, sobre a eleição do presidente da Área Metropolitana (AM). Segundo está previsto, este cargo estará sujeito a sufrágio já em 2017, aquando das eleições autárquicas. Ou seja, para além dos três boletins de voto, normais em eleições municipais, um para a Câmara Municipal, outro para a Assembleia Municipal e outro para a Assembleia / Junta de Freguesia, o eleitor receberá um quarto impresso, para votar nos candidatos a presidente da Área Metropolitana, o que no caso de S. João da Madeira, será a respetiva AM do Porto.

Parece ser consensual a criação deste cargo, pois alguns militantes do PSD já encontraram um candidato a apoiar por esse partido. Nada mais, nada menos do que, Rui Rio. Uma candidatura dentro da lógica “da conciliação de opiniões divergentes” e que vai obrigar as outras forças políticas a elevar a qualidade dos seus candidatos, para não perder esta corrida.  

Chegados a este ponto, com os eleitores de S. João da Madeira e dos restantes concelhos vizinhos, inseridos na sub-região Entre Douro e Vouga (EDV), a votar para a AM do Porto, é bom reivindicar, novamente, que os círculos eleitorais distritais sejam ajustados à nova realidade, ou seja, que os eleitores do EDV passem a eleger deputados do distrito do Porto e deixem de votar no distrito de Aveiro. Não fará sentido continuar tudo na mesma. Confirmando-se a possibilidade de eleição para o Presidente da AM do Porto, é o momento oportuno para os partidos políticos repensarem-se, modificando a lei eleitoral e ajustando a realidade política, destes concelhos do EDV, à área geográfica onde estão inseridos.

Continuo a pensar que o maior obstáculo a esta inevitável alteração, é a resistência de algumas estruturas partidárias. O mapa eleitoral só será revisto, ajustando-se concelhos periféricos a outros distritos, se as respetivas estruturas partidárias alterarem o seu perfilamento. Isso só acontecerá, ou por imposição nacional, caso se queira impor um novo mapa, ou por reivindicação da população. Esta última, objetivamente, por uma questão de proximidade, coesão e identidade geográfica a uma nova afinidade regional.

Enquanto tal não acontece, sugiro aos leitores, seguirem outras eleições: as primárias dos Estados Unidos da América. Uma das dúvidas, também por lá, é saber se os Republicanos se chegam mais à direita e se os Democratas tendem mais para a esquerda. A acompanhar atentamente nos próximos meses. 

 

(a publicar no dia 18/02/16)

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Geração do Independente

                No pretérito mês, enquanto decorriam as campanhas eleitorais, dediquei-me à leitura do livro “O Independente – A máquina de triturar políticos”.

                Oportunidade para revisitar a política contemporânea, em especial, a segunda metade dos anos oitenta e a primeira metade da década seguinte, do pretérito século, assinalados pelas maiorias conquistadas nas urnas pelo PSD, sendo o mérito do Professor Cavaco Silva, como ficou registado na História.

Para recordar, o jornal “O Independente” surgiu em 1988, tendo como intenção “ressuscitar” a direita conservadora e liberal. Liderado por Miguel Esteves Cardoso, por sua vez secundado por Paulo Portas e Manuel Falcão, “O Independente” marcou uma geração, que passou a seguir semanalmente os escândalos da política nacional e sobretudo, a ter uma noção do que era o Estado e como a “coisa” era administrada.

Ao longo do primeiro capítulo, os autores, dois antigos jornalistas desse jornal, Filipe Santos Costa e Liliana Valente, percorrem as vicissitudes dos Governos do PSD, enquadrando os temas nas vontades do jornal. Os massacres a Cavaco Silva, a Miguel Cadilhe, a Leonor Beleza, a Fernando Nogueira, a João de Deus Pinheiro, além de Duarte Lima, de Dias Loureiro e de Braga de Macedo, são enquadrados pela vontade do jornal em modificar o paradigma da direita portuguesa. O mote era atacar a social-democracia, o centro direita defendido por Cavaco Silva, contrapondo com uma ideia mais liberal, mais direita e menos centro. Poucos dirigentes socais democratas escaparam às manchetes corrosivas do Independente.

A segunda maioria obtida por Cavaco Silva, em 1991, modificou o jornal, que a partir dessa data, como demonstram os autores do livro ao longo do segundo capítulo, passa a suportar um novo projeto político da direita portuguesa, o CDS – PP. Os protagonistas do PSD são os mesmos, o ataque mantém-se cerrado e estende-se à Presidência da República de então, através dos casos de Macau. Paulo Portas assume a direção do jornal e Miguel Esteves Cardoso passa a diretor adjunto, acumulando o cargo com a direção da revista K, um dos projetos editorais mais engraçados daquela época e provavelmente um dos melhores de sempre da imprensa portuguesa.

A mudança editorial do Independente fez-se na promoção de Manuel Monteiro a líder do CDS. Os autores recolheram testemunhos que indicam que o CDS fazia conferências à quinta-feira e o jornal desenvolvia os mesmos assuntos à sexta-feira. O mal-estar vivido pela redação, era apaziguado por Paulo Portas, até que este começou a preparar o seu ingresso na política ativa, deixando o jornal entregue a uma terceira pessoa.

O resto da história é conhecido. Havendo sempre alusões a isso mesmo ao longo do livro. Em 1995, Paulo Portas é candidato pelo CDS – PP pelo distrito de Aveiro. Em 1997, lançou-se na corrida autárquica de Oliveira de Azeméis e em 1998 chega à liderança do partido. Nesse posto, apanha primeiro com as suspeitas do caso Moderna, depois ficou com o orçamento limiano. Aguentou tudo e nas eleições legislativas, de 2002, consegue ser o suporte de uma maioria de direita. Ainda viu o PSD mudar de líder. Fez má cara na tomada de posse de Pedro Santana Lopes e quando perdeu as legislativas, em 2005, saiu de cena, recolhendo-se com várias suspeitas na compra dos submarinos. Nada foi provado e em 2011, nova maioria da direita suportada pelo CDS-PP e de novo Paulo Portas é indigitado ministro. Em meados de 2013, ficou conhecido o episódio irrevogável e chegamos aos dias de hoje.

                O livro “O independente – a máquina de triturar políticos” é uma boa compilação de uma época da história do jornalismo português e das suas ligações com a política. Ajuda a perceber como se chegou ao atual estado da direita portuguesa e daí, é possível, extrapolar para a totalidade do espectro. Existe outro aspeto curioso da leitura do livro, a demonstração de como o jornalismo pode ser o quarto poder e, neste caso concreto, como esse poder pode ser usado para influenciar uma determinada facção da sociedade civil, ou mesmo partidária.

Quando saiu a primeira edição do livro, em Novembro de 2015, Paulo Portas ainda não tinha anunciado a saída da política. Pelo demonstrado no livro, pelos anos de jornalista e mais tarde, como governante, parece ser mais uma decisão revogável. Pela biografia do visado, são 40 anos à volta da política e não se fecha um capítulo sem acabar a totalidade da obra. O facto de ter subtilmente conduzido, nestes últimos quatro anos, o PSD para a direita, tal como pretendia como candidato não aceite à liderança da estrutura jovem do partido, em 1979, e como vice-diretor do jornal da JSD, que tinha um sugestivo título “Pelo Socialismo”, provam a sua mais que reconhecida habilidade política.

Ao encerrarmos o livro, ficamos com a ideia de que esta história não acabou, que haverá outras vontades ainda não assumidas, que poderão passar por liderar um mega partido de direita liberal (uma espécie de fusão dos dois partidos da PàF), ou por tornar-se comentador de fim-de-semana de um canal televisivo, sem direito a contraditório, durante a próxima década, ou mesmo resguardar-se durante esse período, para finalmente se apresentar em 2026 como candidato a Presidente da República.

                Suposições pessoais que terão confirmação nos próximos anos. Ou não…

 

(a publicar no dia 11/02/16)

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Os quatro pilares da vitória

                Os resultados das intercalares do último domingo podem ser explicados através da estratégia, do candidato, da equipa e da campanha eleitoral.

               Tudo começou em Outubro de 2015, com o resultado das eleições legislativas. PSD e CDS concorriam juntos e os votos obtidos pela PàF em S. João da Madeira, permitiam traçar um cenário de vitória numas eventuais eleições intercalares. O voto de direita era superior ao voto do PS. Em época de “tempos novos”, a coligação à direita significava um confronto ideológico e nesse sentido, o movimento independente poderia ser esvaziado. A contrastar esta estratégia, à esquerda não houve coligações. Nem poderia haver. Por um lado, devido às duras trocas de ideias na Assembleia Municipal. Por outro, devido à teimosia de alguns partidos em concorrer sozinhos, não ponderando os ganhos ou as perdas ao assumir tal posição. Haveria uma terceira via, mais pragmática de o PS e o movimento independente concorrerem coligados. Tal cenário, sem ideologia a suportá-lo, seria de confronto eleitoral, só que os riscos para o PS seriam muitos, sobretudo na negociação dos lugares na lista.

                Se a estratégia eleitoral do PSD / CDS era a melhor, o seu candidato era igualmente o que dava mais confiança ao eleitorado. Depois de andar dois anos a ser ridicularizado e mal tratado nas reuniões de Câmara e nas páginas da imprensa local, Ricardo Figueiredo aguentou tudo até a um determinado limite. Durante esse período ganhou experiência política, conheceu melhor a dinâmica da autarquia, estudou dossiers e viu a oposição a ser aquilo a que a sua essência de políticos de ambição local lhes permitia ser, opositores. Perderam-se milhões de investimento garantido e passaram-se dois anos a fazer encenações cínicas ou a apresentar requerimentos, não com o objetivo de ler a resposta, mas com a intenção de obrigar o presidente a responder. Em Outubro, Ricardo Figueiredo jogou a sua última cartada, permitindo aos eleitores acabarem com estado a que a Câmara Municipal de S. João da Madeira tinha chegado.

                Acrescente-se outro factor extremamente importante, ao liderar como independente a coligação do PSD / CDS, Ricardo Figueiredo deu outra indicação à cidade: a preferência pela comunidade e não o partidarismo. Um sinal de reconhecimento dessa opção apareceu na sua Comissão de Honra. Vários dirigentes associativos declararam o seu apoio ao candidato da coligação, não precisando de o justificar.            

                Das listas apresentadas a esta eleição intercalar, considerando apenas as das forças políticas que elegeram vereadores em 2016, só a da coligação é que trazia novidades. A lista do PS não entusiasmou o próprio partido. Em contrapartida, o PSD recuperou dois dos seus antigos vereadores, com a ambição de os eleger, embora o 5º elemento fosse desde sempre considerado inelegível, como veio a acontecer. Esta diferença na constituição das listas marcou o processo eleitoral e permitiu à coligação encarar a campanha de forma mais positiva.

                As maiores diferenças revelaram-se na campanha. Aparentemente não se viu nada de muito diferente. Cartazes, páginas na internet, artigos de opinião, ações de rua, comícios em espaços cobertos, visitas a empresas e a associações foram em tudo semelhantes.

Observando melhor, houve opções que diferenciaram os candidatos. Em primeiro lugar a mensagem política. A coligação pedia uma maioria, o PS insistia num tema já explicado e mal compreendido e apostava tudo no seu cabeça de lista ou candidato. Na internet, a coligação recolheu mais apoios do que o PS, embora neste campo, o Movimento independente tenha aparentemente vencido. No desenrolar da campanha, o PSD e CDS trouxeram figuras locais para a campanha. A título de exemplo, João Almeida, candidato pelo CDS em 2009 e em 2013 à Assembleia Municipal, passou mais dias em S. João da Madeira nestes últimos meses, do que naqueles dois anos. Além disso, outras figuras mediáticas vieram a S. João da Madeira, como Marques Mendes. O próprio futuro Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa fez referência às eleições locais, classificando-as como cruciais para a ambição política do partido. E claro, um presidente do partido estar presente num comício, não é o mesmo do que um presidente de câmara, ou um secretário de Estado.

Outro aspecto que importa focar é o calendário das ações. O PS abriu com um comício e a partir daí a campanha decorreu em ritmo lento, terminando sem chama. Em contrapartida, a sequência de ações de campanha, por parte da coligação, foi sempre criando novas expetativas e conseguindo maior mobilização, o que se refletiu nos resultados eleitorais.

Se a nível de cartazes, a coligação explicou bem porque é que havia eleições intercalares, apostando em divulgar o chumbo dos 22 projetos por parte da oposição, já o PS entrou em contradição com o discurso repetitivo das “más contas”, pois apresentou como compromisso eleitoral, candidatar a cidade ou a região a capital europeia da cultura, algo que em Guimarães custou cem milhões de euros em 2012. Relembrando que recentemente, o PS recusou um empréstimo de dois milhões euros, para a construção das novas piscinas.

                Ricardo Figueiredo é de novo presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira. Está de parabéns. Terá pela frente um desafio imediato: reverter a posição do Ministério da Saúde relativamente ao Hospital. Neste capítulo, as eleições também lhe foram favoráveis, 54% dos eleitores, reais da cidade, votaram em forças políticas que defendem a devolução do Hospital à Santa Casa da Misericórdia. Um número inequívoco, que não deixa dúvidas sobre a real vontade da população. 

 

(a publicar no dia 28/01/15)

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Um homem simples

                Há imagens que nos ficam na memória, a que não queremos sobrepor outras.

De Joaquim Carvalho, gostamos de o recordar como o Quim do Pé de Salsa. Evocamos o animador da nossa juventude, sempre disponível para nos servir, sempre dinâmico atrás do balcão, sempre feliz pela nossa presença, sempre acessível para ouvir novas correntes musicais, ou mesmo para voltar a músicas antigas.

Recordar o Quim, é um exercício de saudosismo. Dos anos despreocupados de adolescente e de jovem adulto. Das horas de folia, das noites com hora marcada para terminarem e que inexplicavelmente se prolongavam madrugada fora. Dos fins-de-semana com diversão em S. João da Madeira, ou em tempos anteriores, em Cortegaça.

Tinha a ideia de conhecê-lo desde a minha infância, ou seja, desde sempre. Mas, afinal, não foi assim. Conheci-o apenas nos primeiros anos da minha adolescência, na casa comercial que vendia discos, a Charlui. Eu era frequentador assíduo, após as minhas aulas e um dia apareceu por lá o Quim, sempre apressado, a conversar com o Fernando e logo a seguir a sair. Episódio que se repetiu algumas vezes. Meses mais tarde, descobri-o no Neptúlia, onde trabalhava, e fui cumprimentado de forma calorosa. Algo que ficaria para sempre.

Só me apercebi da sua capacidade de envolvência com os clientes, quando numa festa da AEJ, era necessário mais um voluntário, numa das coreografias, para representar um árabe, sendo sugerido o nome do Quim, pelos restantes elementos do elenco, todos eles clientes do Neptúlia. A sua interatividade e mobilização ficaram patentes quando passou a trabalhar no referido “Pé de Salsa”.

As noites nas imediações da Praça nunca mais foram as mesmas. Transmitia uma dinâmica extraordinária. Vi noites de casa cheia, com o caos instalado e o Quim aparecia após terminar uma outra tarefa e passava a servir cerveja após cerveja, até saciar a sede dos clientes e acalmar os seus ajudantes menos experientes. Era uma época de festas de casa cheia, umas programadas pelo calendário e outras espontâneas. Houve noites de bebidas a serem pagas apenas com uma moeda de dois escudos e cinquenta centavos, que já eram raras nos bolsos dos clientes. Houve noites com aulas de ginástica aeróbica. Houve muitos minutos a ouvir-se Fausto Bordalo Pinheiro, no meio de outras músicas de artistas de expressão anglo-saxónica.

E havia mais do que isso.

Muitas vezes, jantámos à mesma mesa, com mais companheiros e amigos. Fizemos noitadas fora do seu bar. Fomos ao futebol, para aplaudir a ADS. Em matéria futebolística era a única ponte em comum.

Quando a sua sociedade comercial encerrou, o Quim foi trabalhar para outro bar. Continuei seu cliente no Fora d’Horas. Só que tudo estava a mudar. Eu estava a deixar a vida de estudante e passava a ter que cumprir horários. O Joaquim deixava o serviço por detrás do balcão e partia para uma nova aventura. Os encontros passaram a ser ocasionais. No entanto, nos reencontros, recebia sempre o mesmo caloroso abraço. Vim a saber que estava empregado na FEPSA, como responsável de um setor da produção. Fiquei contente por ambas as partes, pois sendo conhecedor do processo produtivo, apercebi-me que a sua dinâmica seria extremamente importante para a empresa. Além disso, vim a constatar que a sua sinceridade e frontalidade, foram importantes para a sua integração e que muito contribuíram para fomentar o espírito de equipa na firma.

A última vez que estive com ele, disse-lhe que ainda me lembrava do seu tique, quando tinha que memorizar as tarefas a executar. Um gesto simples, colocava o dedo na testa e depois apontava uma determinada direção e indicava onde tinha que ir. Uma gesticulação que ajuda ao planeamento instantâneo e a que eu também recorro, naqueles momentos de aperto em que tenho de acompanhar de perto a produção, existindo várias tarefas urgentes a executar, para solucionar o imbróglio criado. Ficou surpreendido e reconhecido.

Não posso deixar de referir um episódio que demonstra a sua honestidade. Na aula de entrega de testes de matemática, o Quim tinha conseguido um bom resultado. A professora estava a enaltecer o seu esforço, o seu estudo por ter conseguido esse resultado. Elogio atrás de elogio e ao ouvir tamanho louvor, o Quim não se conteve e anunciou que tinha copiado o teste todo.

Para a posteridade, ficam estas imagens do Joaquim Carvalho: trabalhador, dinâmico, honesto e simples. Um grande homem.

    

(a publicar no dia 21/01/16)

 

 

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Dias Cinzentos

                Um inicio de ano chuvoso, com dias e dias pardos e sem chama. Seguem-se registos avulsos, deixando pistas pelo meio, para o leitor perceber a desestruturação do texto:

1)      David Bowie foi um grande artista musical, com uma noção de performance fora de série. Criou personagens, recriou-se, lançou vários êxitos musicais. Descobri-o cedo. Não fui indiferente ao “Let’s Dance” de 1983. Um ou dois anos depois tinha acesso, por empréstimo, à sua vasta discografia. De uma assentada 10 LPS e o deslumbramento pela vasta obra ao meu alcance. Compilei algumas músicas em cassete de 90 minutos e ouvi-a anos a fio. Naquela época, importava-me mais a sonoridade e a estética. Havia muito de poses e colocação de braços em palco, que eram absorvidos. David Bowie era diversão. Quando numa discoteca, o dj entoava os acordes de alguma das suas músicas a solo, ou em dueto com MicK Jagger, ou os Queen, seguia-se uma noite memorável de dança. Um registo que se perpetuou no tempo, em especial, nas noites revivalistas. Aliás, confesso que fiquei mais descansado, quando verifiquei que os meus filhos, no seu percurso de descoberta musical, ficaram seguidores de David Bowie. Lá por casa ecoam as ligações de Major Tom para a torre de controlo. A referência a “Space Oddity” é deixada propositadamente para o final, pois durante algum tempo o misterioso lugar onde ficou Major Tom foi uma tentação a atingir. Em “Ashes to Ashes” do LP Scary Monsters, David Bowie redime-se, define o seu astronauta e essa mensagem, singela, é importante para toda uma geração que conviveu com a toxicodependência de perto e no entanto, preferiu viver sóbrio.

2)      6 dias em estado febril, sem hipótese de encostar à cama, para curar uma maldita gripe. Finalmente, o fim-de-semana trouxe o merecido descanso e a respetiva melhora. Em estado de cama, aproveitei para terminar a leitura da viagem de Naipaul (Prémio Nobel da Literatura em 2001) a quatro países que se converteram ao islamismo. Um regresso do escritor à Indonésia, Irão, Paquistão e Malásia, 16 anos após uma primeira vista. O evoluir das várias sociedades, as relações com o passado religioso de cada país, além da situação pessoal de alguns conhecidos do autor depois de 1979, ano da primeira visita. Sem me alongar muito, uma interessante leitura da tensa relação entre as várias fações do islamismo e que ajuda a perceber o conflito Arábia Saudita e Irão. 

3)      Marcelo Rebelo de Sousa impôs a presença de Pedro Passos Coelho em S. João da Madeira. Ao mencionar as eleições intercalares, como partidárias, o candidato eleitoral marcou a agenda. Além da visibilidade nacional transmitida às eleições municipais, todos os agentes políticos ficaram a saber porque é que o professor Marcelo dispensava a presença do líder do PSD na sua campanha eleitoral.

4)      Segui um debate entre dois candidatos presidenciais. Apenas um. A convição inicial não se alterou. A candidata Maria de Belém está a mais nestas eleições. Desde Agosto.

5)      O jornal “O Regional” publicou uma de três sondagens encomendadas para as eleições intercalares de S. João da Madeira. Certamente, outros jornais publicarão outras até ao dia 22 de Janeiro. Os resultados apresentados agradam a uns e logo os desagradados desdenham do estudo, da amostra, do método, etc. É assim a nível nacional, logo a nível local não haveria de ser diferente. Com tanto estudo de opinião a ser publicado até às eleições, todas as candidaturas conseguirão rever-se em algum e com isso acreditar na validade das sondagens.

6)      O parecer do Tribunal de Contas, sobre a passagem do Hospital para a Misericórdia de S. João da Madeira, era dispensável. A decisão em contrário já estava tomada pelo Ministério da Saúde, como se percebe. Serão meses de incerteza os próximos. Pela amostra dos últimos seis, serão meses de agonia para o Hospital.

7)      Mais um dado a acrescentar, para ajudar a captar os votos de militância e de protesto.      

 

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Pelo Estado de Direito

                No jornal Público de sábado, dia 2 de Janeiro, apareceu uma reportagem sobre a importância das Santas Casas de Misericórdia no assistencialismo. Ao virar a página, refletindo sobre os dados apresentados, apercebi-me da importância da União das Misericórdias no Estado Social e também no Estado da Saúde.

                Exercício idêntico tinha feito durante o ano transato, ao apreciar a história e atualidade da Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira.

                Os números nacionais são outros e uma quebra de confiança entre o Estado e a União de Misericórdias, com um hipotético desinteresse destes da função desempenhada no assistencialismo social e mesmo da área da saúde, mergulhava o país numa crise social profunda e irreparável durante anos.

                A notícia não surge em vão.

                O momento é crítico e o texto do jornal nacional foca a importância das Misericórdias. Referindo a passagem nos últimos anos para a esfera da Misericórdia, de vários hospitais, alguns há alguns anos, outros mais recentes e claro, é focado na peça o caso do Hospital de Santo Tirso e de S. João da Madeira, em suspenso à espera da apreciação do Tribunal de Contas.

                O Hospital local será o grande tema de debate destas eleições. São conhecidos todos os factos e as posições dos agentes políticos locais.

                Houve um processo de contestação, com ações concretas como a recolha de mais de 9000 assinaturas e a entrega das mesmas no parlamento.

                Só que um ou dois meses depois, houve um facto novo: um acordo de cedência assinado entre o Estado e a Santa Casa local, em final de Julho do ano passado.

                Ao abordar-se o assunto posteriormente a essa data, não é sério omitir um dos dois outorgantes do contrato.

                É necessário perceber que o contrato não foi assinado entre o Governo demissionário e um qualquer privado de saúde. Não. O contrato foi assinado, por um Governo de valor duvidoso, é certo. Só que o receptor é um parceiro local, precisamente a Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira, que excelente prova tem dado no assistencialismo aos mais desfavorecidos da cidade, ao longo de várias décadas. 

                Na reportagem do labor, percebeu-se o embaraço de Manuel Pizarro, quando confrontada pela jornalista deste jornal, ao desconhecer o teor do acordo, disparando com uma resposta enigmática, que não satisfez os presentes, como num artigo paralelo, ficou expresso através do testemunho de Helena Bastos.

                É precisamente nesse testemunho, duma pessoa conhecedora do processo, sobre as valências transferidas para o Hospital de S. João da Madeira, aquando da constituição do Centro Hospitalar do Hospitalar de Entre Douro e Vouga e as reduzidas atuais, que recai a desconfiança sobre o futuro.

                Mesmo ali, percebeu-se que se fosse claramente conhecida a intenção do anterior Governo, alguns dos assinantes da petição teriam dúvidas em assiná-la e preferiam a certeza do hospital ficar em gestão de uma Instituição local, como a Santa Casa da Misericórdia, do que o incerto futuro no Serviço Nacional de Saúde.

                    Tal como referi, no artigo acima mencionado, houve vários Hospitais a serem transferidos ao longo dos últimos anos para a gestão da União das Misericórdias. Seria interessante avaliar o estado da saúde em cada concelho abrangido e verificar se houve ganhos concretos para a população. Não ponderar isto é entrar na omissão demagógica.

                A Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira só ficará completa quando recuperar o seu Hospital, para colocá-lo ao serviço da população local, tal como acordado com o Estado. Uma reivindicação de 40 anos, que não foi entendida pelos novos agentes políticos locais.

                Esperemos que os próximos tempos sejam esclarecedores e que os erros, anteriormente cometidos, sejam mais uma vez corrigidos.

                A Bem da Cidade e da cordialidade da sua população. Extremismos só levam a radicalismos e a Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira provou ser uma instituição bem-intencionada, ao longo dos seus quase 100 anos de existência.

 

(a publicar no dia 07/01/16)

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Um ano não resolvido

                No balanço do ano de 2015 é importante destacar os acontecimentos que marcaram a vida local.

A devolução, pelo Estado, do Hospital à Santa Casa da Misericórdia em Julho e meses mais tarde, a marcação de eleições municipais intercalares, foram os acontecimentos políticos do ano.

Um ano que arrancou com a ressaca de três milhões desperdiçados pela maioria da vereação, que não soube aproveitar o financiamento garantido, para obrigar a construir-se uma piscina coberta, tão necessária para a população local e dos arredores.

Esta amputação do bem estar dos cidadãos, privados de receber um moderno equipamento necessário para atividades físicas, treinos desportivos, que permitiria oferecer uma melhoria das condições de saúde da população, estava ao alcance dos vereadores eleitos.

No processo do Hospital, onde se procurou um consenso generalizado ignorando a proprietária do espaço, precisamente a Santa Casa da Misericórdia, havia outros pressupostos: uma governação com uma reforma do sistema nacional de saúde, liderada pelo então ministro Correia de Campos, em que se impôs uma racionalização dos meios hospitalares, atendendo às pretensões das autarquias, logo das populações, isto a partir de 2005 e um segundo pressuposto, iniciado numa fase posterior, da devolução às Santa Casas dos Hospitais nacionalizados em 1974. Segundo a imprensa local, o processo terá sido iniciado pelo então secretário de Estado, Manuel Pizarro, alguém que com frequência visita a cidade.

Toda a contestação, verificada ao longo de 2015, peca por tardia e chega fora do contexto partidário do PS, quando exerce responsabilidade de Governo e sobretudo, do seu sentido de Estado.

                Apesar da intenção desse mesmo Estado, em devolver à Santa Casa da Misericórdia a gestão do hospital, existem dúvidas que serão esclarecidas, nos primeiros dias de Janeiro, pelo Tribunal de Contas.

                É também em Janeiro que ficará resolvida, democraticamente, a questão da composição da vereação. A 24 de Janeiro, os eleitores serão chamados às urnas para votarem nas eleições intercalares. Todos os cenários estão em aberto. É a grande certeza de um processo eleitoral.

                Para a memória futura fica o registo dos últimos dias da anterior vereação e a pretensa confusão, por desconhecimento da lei, da constituição da comissão administrativa. De tal forma, que ainda hoje, apesar de a referida comissão ser composta por apenas 5 elementos, alguns dos ex-vereadores ainda são referidos como titulares do cargo.

                Outro registo curioso, verificado em vários textos de opinião e não só, é a interpretação do conceito de democracia. Pedir aos eleitores que decidam o futuro da presidência e da vereação municipal foi apelidado de tudo. Um pouco de humildade ficava melhor a quem escreve, reconhecendo o próximo ato eleitoral, como a verdadeira prova de esclarecimento sobre o que se passou na cidade, desde 2013.

O número de concorrentes às eleições intercalares é um sinal dos tempos atuais, pós bipartidarismo. A dispersão de voto fica garantida, apesar de haver fortes indícios de apenas duas forças políticas conseguirem mais de 2.000 votos.

Se 2015 é um ano não resolvido politicamente, também noutras áreas há vários assuntos que ficam para 2016. Vou destacar apenas dois de âmbito desportivo. Por um lado, o regresso aos Jogos Olímpicos da Ana Rodrigues. Os tempos obtidos na época de retorno à AEJ, permitem ter esperanças, que tal como, em Londres - 2012, em 2016 esta atleta estará no Rio de Janeiro. Nos próximos meses os tempos mínimos de acesso aos Jogos serão certamente obtidos e reconhecidos. O outro apontamento desportivo, do balanço do ano, que hoje termina, está relacionado com a equipa sénior masculina de basquetebol da ADS. Pela segunda época consecutiva, os últimos segundos dos jogos decisivos têm sido terríveis para a formação sanjoanense. Espera-se uma inversão na presente época e que os últimos jogos da presente época tenham um desfecho favorável às cores alvinegras e a tão desejada subida de divisão seja atingida.

Um último parágrafo para desejar um excelente ano novo aos leitores.

 

(a publicar no dia 31/12/15)

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Que a Força esteja convosco

 

                Pela proximidade da quadra festiva, nos últimos dias andei arredado da pré-campanha eleitoral. Não visitei páginas de facebook dos candidatos, não vi as fotografias do porta-a-porta, nem quem aparece a apoiar os candidatos. Não li promessas eleitorais e soube que tinha sido publicada uma entrevista de um dos candidatos mas, nem perdi o meu tempo. Poderia apelar a uma campanha diferenciadora, recolhendo as semelhanças encontradas nas várias organizações, só que decidi concentrar-me em outros assuntos e essa análise ficará para uma próxima oportunidade.

                O fim-de-semana passado foi rico em acontecimentos distintos. Aqui fica um resumo de alguns dos temas que despertaram o meu interesse:

1)      As eleições em Espanha colaram-me ao televisor no Domingo à noite. O sul da Europa contínua a repudiar as maiorias de direita. Ainda é cedo para tecer considerações, contudo, salta à vista que a bipolarização assente em duas ideologias terminou. Como em muitos países do norte da Europa, o espectro político alarga-se e os acordos parlamentares para formação de governo passam a ser comuns, formando-se coligações de programas diferentes, assumindo-se desta forma uma maioria relativa. A Espanha, pela sua importância económica, é fundamental para a reivindicação dos países do sul. Essencialmente para a Europa repensar-se, reestruturando dívidas, questionando, entre outros pontos, o facto de esses países terem uma moeda forte, com uma economia débil, o que lhes impossibilita de serem competitivos fora do espaço europeu.    

2)      A intervenção no banco Banif mostrou a agilidade do novo governo. Depois do BCP no primeiro governo de José Sócrates, do BPN no seu segundo governo, do BES no governo de Passos Coelho, temos um quarto banco a ser intervencionado pelo Estado em menos de seis anos. Ou em menos de um menos mês do novo governo. É certo que no primeiro caso, a intervenção foi camuflada. No mais recente, ficou evidente a debilidade da economia portuguesa: a banca ou está nacionalizada ou em mãos de estrangeiros. As dívidas ficam na mão dos contribuintes portugueses.

3)      O sétimo episódio da Guerra das Estrelas fez-me regressar a uma sessão de início da tarde de cinema. Sou seguidor da saga desde os anos oitenta. Os episódios 4, 5 e 6, os primeiros a serem publicados, vi-os vezes sem conta, em casa, através do sistema de leitor de vídeo. Confesso que a sequência relativa aos três primeiros episódios, tive alguma dificuldade em assimilar. Um deles nem vi. Por isso, fui assistir a este episódio com alguma reserva. Com o desenrolar da ação, voltei a viver o mesmo prazer que tinha sentido no episódio quatro. E ao identificar as imagens da sucata de todas as máquinas das várias Guerras, percebi que estava a ver um remake desse episódio, sem no entanto, estar assim classificado. Os princípios da saga estão consagrados ao longo de todo o filme: a dualidade do mal e do bem, o vencer aproveitando um facto inesperado, o sentir da Força e o descobrir de um novo Jedi.       

Mais haveria a mencionar, só que não é o momento certo.

Como a edição deste jornal é publicada, precisamente na véspera do dia de Natal, cumpro a tradição de desejar a todos os leitores Votos de Festas Felizes.