quarta-feira, setembro 28, 2016

"Setubro" ou "Outembro"?

A disputa partidária, em torno da reabertura da urgência no hospital de S. João da Madeira, não permitiu o melhor esclarecimento à população local.

               Compreende-se o regozijo de quem defende o Serviço Nacional de Saúde, por se ter obtido uma valência que imprime um carater de maior proximidade à população, após meses de luta, incluindo a organização de petição, que poderá ter culminado com a reversão do anterior acordo entre o Estado e a Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira (SCM).

Sendo certo que existe uma data prevista para o Hospital albergar de novo o serviço de urgência, aberto 24 horas por dia, será necessário perguntar se este desfecho é suficiente para melhorar a oferta de cuidados de saúde da população de S. João da Madeira?

               Há um exercício imediato que devia ser feito, comparar o que está previsto ficar disponível em Janeiro de 2017, com o acordo revertido com a SCM, que deveria ter entrado em vigor no princípio deste ano. O jornal labor, por ocasião da divulgação das intenções Ministeriais, publicou a comparação do atual estado do Hospital com os ganhos associados, tendo-o efetuado de forma factual.

Atendendo à recente divulgação do decreto de lei no mês de Agosto, seria um trabalho jornalístico consequente fazer a publicação da referida comparação, para permitir aos leitores tirar as devidas conclusões. A sugestão não pretende ser uma interferência na linha editorial do labor. Sendo estes artigos, apenas de opinião, ser eu próprio a divulgar esse estudo, seria maior a ingerência. Além disso, já manifestei anteriormente a defesa da entrega da gestão do hospital de S. João da Madeira à SCM, pela sua história na criação do mesmo e pela competência que tem demonstrado ao longo dos vários anos na gestão das suas valências, muitas delas em parceria com o Estado Português. Por isso, ser eu a dinamizar a comparação, ficaria sempre a ideia de que não seria isento, independentemente do resultado obtido.

Antes de avançar, recordo que o acordo com a SCM, mantinha o Hospital no Serviço Nacional de Saúde, com a gestão a ser assegurada pela entidade sanjoanense, à semelhança de outros acordos que o Estado fez com a União das Misericórdias.

Dentro do princípio da incerteza da data para abertura das urgências, surgiu o anúncio de obras no Hospital para acolher a nova valência. Mesmo os mais otimistas ficaram receosos, prevendo um adiamento para data dúbia – o título deste texto pretende exemplificar isso mesmo.

Espera-se um cumprimento do prazo e que a população da cidade e dos arredores possa rapidamente ver melhorada o seu acesso aos cuidados hospitalares.

Os acontecimentos do último ano na maioria dos Hospitais nacionais, com tempos de espera híper elevados e sem camas para internar doentes, terão pesado de que maneira para a reabilitação da rede de urgência nacional.

É importante, contudo, deixar um alerta.

Mais do que motivos partidários, o que levou no passado ao encerramento das urgências em S. João da Madeira, foram as estatísticas da adesão de utentes aos serviços. A reduzida frequência da população durante o período noturno, culminou com o seu fecho. Para evitar um desfecho idêntico no futuro é imprescindível informar a população da abertura da urgência, evitando-se a procura do Hospital S. Sebastião como primeiro acesso ao atendimento público. Do mesmo modo, dispersar durante o dia, a urgência por Centros de Saúde, dará um mau resultado estatístico, com consequências imprevisíveis dentro da dinâmica do Centro Hospitalar do Entre Douro e Vouga.

Estou convicto que o verdadeiro balanço sobre o estado do Hospital será feito em Janeiro de 2018. Confiando que à época, a vida hospitalar não se resumirá a um ou dois pisos ocupados e a uma urgência com pouca frequência. Se assim acontecer, de pouco serviu a reversão.

 

(a publicar no dia 29/10/16)

quarta-feira, setembro 21, 2016

O fim do verão

                A época estival, marcadamente quente e seca, está a terminar.

O bom clima e os fogos florestais, relativamente distantes, permitiram à piscina municipal de S. João da Madeira acolher um número considerável de visitantes, durante os últimos três meses. O novo mini parque aquático, consequência de investimento autárquico, incrementou a condição de espaço de lazer da piscina pública, todavia continuando a diferencia-la dos equipamentos semelhantes da região.

Por outro lado, as condições climatéricas permitiram uma boa adesão de público aos eventos organizados no centro da cidade - com a Câmara Municipal a assumir um maior protagonismo.

A animação em Junho, com a ocupação do Jardim, obedeceu à lógica partilhada de organização conjunta entre a autarquia e as várias associações locais. Uma prática comum, durante os meses mais frios em inúmeros acontecimentos, que tem o seu apogeu na instalação das barraquinhas associativas, pelo jardim fora, nos derradeiros dias da Primavera.

Para os meses de verão, a Câmara Municipal arriscou regressar sozinha à animação da Praça. Com festas temáticas, trazendo para o efeito grupos musicais, com boa capacidade de puxar o público para a dança, tal o ritmo rápido que imprimem aos seus concertos.  

De realçar o risco, ao promover eventos no último fim-de-semana de Julho e mesmo durante o mês de Agosto, em plena época de debandada dos habitantes locais para zonas balneares. Pelos relatos da imprensa, acompanhados de fotografias demonstrativas, permitiu verificar-se a boa participação da população.

Pode-se fazer a analogia com a conclusão do segundo parágrafo deste texto, ajudando o leitor a perceber melhor a referência à piscina municipal: com produtos diferenciadores há público, logo a população permanece em S. João da Madeira, recebendo alguns forasteiros e em alguns espaços municipais pode-se ter enchentes, beneficiando com isso a cidade, os seus moradores e os agentes económicos das zonas envolvidas.

Não posso deixar de abrir um parêntesis para referir a capacidade de mobilização que a Festa Salsices Antigas imprimiu ao contexto local. Sendo certo que tenho que salvaguardar a minha declaração de interesses, por ter sido membro da organização da mesma, apenas para prestar homenagem a um malogrado amigo, não tendo qualquer interesse comercial com o evento. Independentemente de toda e qualquer interpretação que possa ser atribuída ao que vou de seguida escrever, o facto de o bar “Pé de Salsa” e a rua terem ficado repletos, inclusivamente beneficiando o negócio dos vizinhos, prova que é possível aos empresários captaram clientes.

Perante estes factos, existem quatro possibilidades para a autarquia promover a animação para as próximas estações, caraterizadas por eventos em locais protegidos do frio e sobretudo, da chuva. Ou continua a suportar-se nas Associações locais, esperando que o voluntariado seja capaz de agregar público em torno dos eventos. Ou permite que as Associações assumam a sua capacidade organizativa e demonstradora de magnetismo social, como é o caso do evento “Party Sleep Repeat”, promovido pela Associação Cultural Luís Lima. Ou assume o mesmo risco, como no verão e especialmente, na Poesia à Mesa, de continuar sozinha a promover os eventos. Ou, finalmente, permite a entrada em cena de agentes privados, numa parceria alargada visando o benefício da população da cidade.

Explicando melhor este último ponto. A parceria não deve resultar unicamente no aluguer de instalações, pode e deve ser inovadora e diferenciadora, pela introdução de novos conceitos, de novas dinâmicas, que poderiam dar bons resultados para o futuro, despertando essencialmente o interesse de outros agentes, em particular, culturais e com isto trazer mais-valias para o concelho, aproveitando as infra-estruturas que existem na cidade, criando-se uma forte agenda cultural, sem estar dependente do orçamento da autarquia.     

O Outono começa hoje.

 

(a publicar no dia 22/09/16)

quarta-feira, setembro 07, 2016

Salsices Antigas nos 30 anos do Pé de Salsa

                A penúltima transformação urbanística de S. João da Madeira ocorreu em 1986, com a criação da Zona Pedonal, na Praça Luís Ribeiro e ruas adjacentes.
                (a última está a decorrer na recuperação das instalações da antiga EIC e Oliva)
                Numa dessas ruas, mais precisamente na Padre Oliveira, surgiu um estabelecimento comercial que viria a alterar o conceito de diversão no centro da cidade, concretamente o Pé de Salsa bar, inaugurado a 9 de Setembro do ano atrás mencionado.
                Num espaço inicialmente destinado à instalação de uma casa de máquinas, o bar introduziu novidades no quotidiano local: as cadeiras de lona tipo cineasta, a pouca luz amarelada, a cerveja servida em canecas de cerâmica branca, as bases em cortiça para suportar os copos de vidro, o serviço de chá e as fatias de bolo caseiro a acompanhar, o tabuleiro de xadrez e música, a dar ambiente sonoro às conversas dos clientes. Pela época, eu ia entrando timidamente por lá e foram estas as recordações que ficaram. Lembro-me da lista telefónica registada num armário e de um horário mais noturno e só menciono isto, por ter ali passado um sábado à tarde, a ajudar um amigo a pendurar os seus quadros, com a grade, que funcionava como portão de acesso, fechada e sem mais ninguém dentro no bar.
Havia naquele ambiente de novidade um transportar para outras paisagens: atrás do balcão eram pendurados os bilhetes de concertos, visionados por algum dos clientes, ou mesmo pelos sócios do espaço, Pedro Marreiros e Hélder Cardoso. Prática comum em bares existentes no Algarve, geridos por estrangeiros residentes em Portugal. No meio daqueles ingressos estavam colocados os de acesso ao futebol, não havendo por ali espaço para desconsiderações intelectuais.
Quando a minha timidez foi vencida, no que fui ajudado pelas afinidades musicais com os outros clientes, mais assíduos, do Pé de Salsa, passei a frequentar mais o espaço, tornando-me igualmente habitual. Assisti a mudanças da sociedade comercial, ao alargamento do horário, à montagem de esplanada, à instalação da máquina de cerveja à pressão, à venda de gelados, à ampliação das instalações, com a aplicação de uns panos pretos provisórios a tapar as partes inacabadas, que foram retirados alguns anos depois, já coçados pelo fumo de cigarros, quando finalmente as obras terminaram. Vi a parte superior da Rua Padre Oliveira completamente cheia, o bar a abarrotar e também ali estive em noites desoladoras. Todos recordamos o primeiro Carnaval, em que não foi necessário ir para a diversão na vizinha Ovar, tal foi a folia vivida no bar sanjoanense, o que se repetiria nos anos seguintes.
O que tornou icónico o Pé de Salsa, fazendo do bar um símbolo dos anos 80 da década passada, foi a interação com os clientes, especialmente promovida pelo Joaquim Carvalho, falecido este ano. Várias eram as noites, em que clientes a certo momento passavam a estar a trabalhar atrás do balcão, ou no serviço de bar, ou a colocar música, ou mesmo a lavar copos à mão, antes de haver máquina apropriada. E o contrário também acontecia: assistir a concertos, a filmes, a jogos de futebol, participar em jantares, passeios, férias, além de outras atividades de grupo, incluía muitas vezes os donos do Pé de Salsa.
Nestes últimos meses assisti ao desfilar das memórias, expressa em homenagem ao Quim, por testemunhos individuais escritos no facebook. Dada a componente multimédia das redes sociais a indexação de músicas foi o fio condutor. Presentes estavam as palavras de gratidão e de reconhecimento da amizade, sobre o grande ser humano que foi o Joaquim Carvalho. Descobri, entretanto, que existem fiéis depositários da receita do molho de cachorro, por ele introduzida nos cardápios sanjoanenses. E lembrei-me que cheguei a exportar para a Bélgica, a ideia de fazer palavras cruzadas, ou atualmente o sudoku, utilizando o fino guardanapo de papel, possibilitando a posterior realização dos passatempos a outros interessados – uma prática de partilha das páginas do jornal, que caraterizava o Pé de Salsa.
Em Janeiro deste ano, no momento solene do funeral do Quim, o reencontro com o Pedro Marreiros deixou-me uma tarefa, de participar na organização dos 30 anos do bar por ele fundado, que serviria também para a respetiva homenagem póstuma. De nada serviria informar o Pedro que já não moro, nem trabalho, em S. João da Madeira. Fiquei com o encargo. Só depois de agendar a data com o bar, logo em Fevereiro, é que me apercebi que não tinha o contacto de nenhum dos restantes organizadores, todos eles residentes fora de S. João da Madeira. Os meses foram passando e em Junho era chegado o momento de arregaçar as mangas. Primeiro procurei os números de telefone dos restantes organizadores. Transmiti o meu plano a quem me tinha encomendado a tarefa, limaram-se arestas, batizou-se o evento e sem esforço e muitas vezes por acaso, encontrei quem tinha delineado envolver nesta organização. Curiosamente, a receção de todos foi fantástica o que facilitou a tarefa.
É pois neste misto de recordação, homenagem, encontro geracional, que se espera uma noite de comemoração, muito divertida, como outrora. Para isso, recriando o ambiente sonoro estarão 5 Djs e serão projetadas imagens com alguns anos.
Haveria mais para fazer?
Talvez haja oportunidade daqui a uns anos.
 
(a publicar no dia 08(09/16)

quarta-feira, agosto 31, 2016

Dias de Agosto

A 1 de Agosto sou informado do falecimento de Moniz Pereira. Com ele, aprendi a simpatizar com o adversário. Dele sorvi o conceito de desporto olímpico e claro, vibrei com os atletas treinados por ele e os seus feitos heróicos. Simpatizava bastante com o “senhor atletismo” e não tenho pejo em afirmar, que terá sido o melhor dirigente do seu clube.

De férias rumo a Santiago de Compostela. Com a família – esposa e filhos – arranco de Valença e pé ante pé, desço ao rio Minho no início de uma jornada que terminará 120 quilómetros depois. 5 dias com tempo ameno, chuva e calor abrasador. Paisagens deslumbrantes, a ouvir o som dos melros e dos corvos a acordar, encontrando os mais curiosos peregrinos e outros personagens bizarros à face do caminho. Trajetos vencidos. Descanso merecido ao cair do dia. Sem chamadas telefónicas constantes, sem jornais para ler, sem televisão para ver, despreocupado com a ocupação laboral, apenas o Caminho Português e a contagem decrescente de quilómetros para o final da etapa diária e claro, tendo como horizonte o chegar à Catedral. Jamais tinha efetuado várias jornadas seguidas a caminhar. No meu historial contavam-se os episódios isolados nas serras de Arouca e umas horas nos Pirenéus. Hei-de voltar. Olho para mapa de Espanha e os 30 dias do Caminho Francês ficam projetados para o futuro.

Regresso a casa com o país a arder. Três dias rodeado de fumo. A Norte, a Sul e a Este, nos nossos concelhos vizinhos, as notícias são preocupantes.

Em casa, concentro-me nos Jogos Olímpicos. 12 anos a acompanhar a performance de Telma Monteiro e no dia dos seus combates, estou a descansar em frente ao televisor, sofrendo e vibrando com o desenrolar dos acontecimentos. Grito a cada vitória, resigno-me com a derrota, acredito na repescagem e na conquista da medalha de bronze. Vejo o último combate de pé em frente ao televisor a incentivar a nossa atleta. Extravaso a emoção com a vantagem conquistada no tapete. Olho para o relógio, começo a pedir calma, concentração e defesa. Volto a olhar para o cronómetro e aqueles segundos demoram a passar. O meu monólogo está quase a acabar, emociono-me com a vitória e saio a correr da sala, berrando pelo bronze conquistado. Só mais tarde é que vi a euforia de Telma Monteiro no pavilhão. Percebi-a perfeitamente.

No dia seguinte, influenciado pela medalha portuguesa, deixo-me contagiar pela comunicação social e vejo em cada atleta a competir a possibilidade de conquistar medalhas. Paro para refletir. Ao atleta desconhecido de slalom da canoagem, repescado no apuramento para os Jogos, com performance mediana, com o 9º tempo na meia-final, fica o país à espera de um milagre e de mais uma medalha. A resposta de José Carvalho, no final da sua prestação foi lapidar, “a única coisa que peço é uma pista para poder treinar”. Não há nenhuma no país e recordo-me sempre da minha sugestão ao presidente de uma junta de freguesia do concelho vareiro, para criar equipamentos desportivos diferenciadores e não cair na tentação de repetir as soluções dos outros, deixando-lhe precisamente a sugestão de adaptação de um ribeiro para uma pista deste desporto aquático, aproveitando a mais-valia para atrair praticantes da modalidade de toda a Europa. Penso que até hoje ainda não percebeu a minha sugestão.

Ao dia 10, fujo outra vez do país.

À chegada ao país vizinho, recebemos um comentário jocoso do recepcionista hoteleiro sobre os fogos em Portugal: “Arde todos os anos”. Ao longe assim parece, para quem cá vive, percebe a diferença geográfica. Num ano arde mais num distrito, noutro ano é um pouco mais ao norte a incidência, no ano seguinte é mais ao centro, ou ao sul e por aí fora. Ano após ano, há décadas que é assim. Ao longo dos dias de descanso e de mergulhos em águas frias, leio os relatos, os comentários, a apresentação de soluções, o pedido de aumento da pena penal e de outras considerações. Reconheço em alguns pontos de vista o aproximar da racionalização dos meios de combate através da Força Aérea, que há anos defendo. Começa-se a escrever que o trabalho de sapadores deve ser efectuado pelas Forças Armadas, o que também é importante na defesa do património nacional. Só lamento que ninguém tenha escrito que a vigilância deva ser exercida precisamente pelas Forças Armadas. Não apenas como vigilantes passivos, instalados em torres altaneiras com binóculos, mas tendo como missão fazer o patrulhamento dos acessos às matas nos concelhos com maior área florestal. Com os meios ao dispor no Exército, muito dificilmente haveria corajosos para entrar numa escura mata da aldeia de Janarde, concelho de Arouca e incendiá-la numa frente de cinco quilómetros. Enquanto assim não for, vamos continuar a discutir o mesmo todos os anos. A verificar quanto custa apagar incêndios. Qual o desperdício do Estado ao entregar o dinheiro a autarquias para o trabalho de sapadores não ser efetuado. A constatar que uma das várias taxas sobre os combustíveis é precisamente para assegurar essa mesma verba e até que nos questionamos se não estamos perante uma situação de dolo e não deveria haver uma intenção por parte do Ministério Público para apurar responsabilidades.

Ainda nas férias, sigo à distância os dias dos Jogos Olímpicos. A perspetiva Espanhola é muito nacionalista. Qualquer jogo ou prova de qualquer competição na qual participem atletas Espanhóis tem preferência de transmissão televisiva, não se inibindo de interromper a emissão, remetendo o telespectador para a internet, se pretende continuar a visualizar uma prova, incluindo uma final. O ideal olímpico fica alterado.

Num dia de chuva, tréguas nos banhos, regresso a Bilbao 16 anos depois. Escrevi há dias neste jornal sobre o efeito Guggenheim na política portuguesa e a sua consequência na regeneração de várias cidades portuguesas, incluindo S. João da Madeira. Na cidade da Biscaia tudo se transformou. Não houve equívocos. Na continuidade do Museu, as margens da ria foram entregues à população. Grandes passeios a ladear o efluente, com pistas para a prática de actividade física. Equipamentos desportivos como tabelas de basquetebol, 15 num recinto de street basket, pista de patinagem inseridas sob um vão de uma ponte. Parques infantis com inúmeros aparelhos e boas áreas de piso apropriado, rodeados de bancos para os familiares vigiarem os mais novos e poderem conversar uns com os outros. As inevitáveis esplanadas para turistas e para os próprios habitantes da cidade. Se tudo isto já era bom, devo continuar a descrição, indicando que nas áreas onde havia contentores, há agora edifícios emblemáticos de grandes empresas, mais outros edifícios culturais e até centros comerciais. A regeneração de Bilbao impressionou-me pela positiva. Havia gente por todo o lado. Muitos turistas. E tudo começou pela aposta num edifício emblemático. 

Já em Portugal, numa chuvosa manhã tão carateristica do clima Nortenho de Agosto, sou surpreendido por uma notícia de última hora do jornal Público, o hospital de S. João da Madeira voltará a ter urgência aberta 24 horas. Adivinho as manchetes da primeira edição de Setembro dos Jornais locais.

É tempo de rumar ao sul. Ao sol, ao sal em águas quentes, ainda por cima com ondulação. Regresso aos dias de praia com mergulhos repetidos e com a vontade de sempre em fazer carreirinhas, em baixa-mar, tentando sempre alcançar o areal transportado pela onda, o que na minha idade seria um feito notável. 

O Senhor Palomar acompanha-me nos últimos dias de Agosto. O livro de Italo Calvino, simples, atira-me para a desconstrução da realidade.

A 30 de Agosto volto a escrever. O poder de síntese parece ter desaparecido.

 

 

terça-feira, julho 26, 2016

O ano ficou resolvido

                Em Dezembro, no último dia do mês, vaticinei que 2015 não tinha ficado resolvido. Havia alguns assuntos que tinham sido adiados para o presente ano.

As eleições intercalares locais, logo em Janeiro, trouxeram mais tranquilidade política à cidade, com a saída de cena de alguns instigadores de politiquice, tendo como lema opor-se a projetos municipais, apenas numa lógica partidária e pouco progressista.

Sensivelmente no mesmo mês, dentro da mesma desarmonia partidária - apesar do parecer, solicitado ao Tribunal de Contas, considerar no mínimo inócuo para o Estado, a devolução da gestão do Hospital à Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira (SCM) – anunciou-se a reversão da restituição, sem se estudar a fundo as vantagens, ou desvantagens, de outros acordos de gestão hospitalar com outras Misericórdias do País.

De âmbito diferente, de carater mais desportivo, no mesmo texto, fazia votos para que em 2016, a ADS subisse de divisão em Basquetebol, o que veio a verificar-se.

Por fim, o outro assunto abordado, estava relacionado com a natação e com a hipótese de Ana Pinho Rodrigues voltar a ser atleta Olímpica, nos Jogos do Rio de Janeiro.  

A semana passada, no dia 20, ao anunciar os atletas participantes neste grande evento desportivo, que se inicia no próximo dia 5 de Agosto, no Brasil, a Federação Internacional de Natação deixou de fora a atleta sanjoanense, apesar de esta ter alcançado mínimos B. Refira-se que o tempo de prova alcançado abaixo de um determinado valor predefinido são considerados tempos de admissão às competições, designando-se na gíria deste desporto como, mínimos A, correspondendo à entrada imediata nas eliminatórias das provas de Natação dos Jogos Olímpicos. Para os atletas que ultrapassem aquele valor, existe uma segunda barreira de admissão, os mínimos B. Nestes casos, o número de vagas vai depender do número de atletas que tiverem obtido os mínimos A, ou de outros critérios da Federação Internacional, como, por exemplo, os convites para atletas de países emergentes na modalidade.

Sendo certo que Ana Rodrigues ficou de fora dos Jogos do Rio de 2016, é importante enaltecer que a sua performance no último fim-de-semana no Campeonato Nacional Absoluto / Open de Portugal não ficou minimamente afetada por tão má notícia. A atleta da AEJ conquistou três medalhas de ouro e duas de bronze. Subiu cinco vezes ao pódio nas cinco provas que disputou. Numa delas, 50 metros livres, bateu o recorde nacional e nos 100 metros livres obteve um tempo, 55 segundos, que lhe permitiria estar presente no Rio de Janeiro, caso este Campeonato ainda fosse considerado para o apuramento. Um final de época fantástico, com 3 títulos de Campeã Nacional, que não retiram a amargura por não se repetir a façanha de estar presente nos Jogos Olímpicos.  

Desta forma, ao encerrar o período de escrita para as merecidas férias, verifica-se que os assuntos do passado estão praticamente encerrados.

O pouco que se pode esperar deste ano de 2016, já terá um cheirinho a 2017.

Na política local o desenlace das eleições locais, legitimou o executivo a proceder aos investimentos necessários para a execução de obras e outras melhorias, algo que está já a decorrer e assim permanecerá, até ao próximo ano, que como se sabe, terá eleições autárquicas. Este processo ganhará a partir de Outubro uma enorme atenção, com a definição e apresentação dos candidatos e condicionará o quotidiano da imprensa local.

Relativamente ao hospital, nada está concluído. A transferência da sua gestão para a SCM recebe cada vez mais apelos, mesmo escritos, por os cidadãos não se reverem no modelo criado pelo Estado.

O investimento de um grupo económico numa clínica, acrescentando mais interesse privado na área da saúde em S. João da Madeira, retira argumentos aos detratores do acordo da SCM. Aliás contínua a ser redutor para esta instituição, que tem vários protocolos com o Estado, através dos seus Ministérios, julga-la apenas pelo serviço de assistencialismo, ou mesmo de Misericórdia. Relembre-se que a SCM iria fazer a gestão hospitalar de acordo com as exigências do Ministério da Saúde e com uma verba menor.

Convém recordar que o Estado, na assistência de saúde que garante aos seus funcionários, através da ADSE, tem acordos com vários hospitais privados e segundo vários especialistas na matéria, caso não existissem esses protocolos, muitos desses estabelecimentos não estariam a funcionar. O desmascarar desta hipocrisia poderá ser o caminho para inverter a reversão. Só que isso, já não será para este ano.

Para o regresso em Setembro, a cidade estará concentrada nas comemorações do nonagésimo aniversário da elevação a Concelho.

Até lá, votos de boas férias.

 

quarta-feira, julho 20, 2016

Do léxico da política

                Ao escrever o comentário político, dou por mim a utilizar várias vezes as palavras regeneração, requalificação, reabilitação e também, revitalização.

                Pensei tratar-se de alguma deformação pessoal, aplicada à escrita. Passei a estar mais atento aos textos dos outros. Verifiquei que ao ler a imprensa local, vejo várias vezes os agentes da política a pronunciarem aquelas palavras. O mesmo acontecendo com outros articulistas. Nas peças de jornalistas é também frequente a referência aos vocábulos.

Mesmo nas notícias da imprensa nacional sobre as mais variadas autarquias é usual aparecem aquelas quatro palavras, que pressupõem ação.

Ainda julguei tratar-se de um fenómeno da política local, no entanto, com maior atenção, verifiquei que a generalidade dos políticos utiliza verbos começados por “re”. Exemplo, o termo mais usado em 2016, na política nacional, tem sido “reverter”. Outro exemplo, a constante alusão à necessidade de “reformar” o Estado. Além destes exemplos mais comuns, utiliza-se circunstanciado os verbos repensar e recriar. Em matéria ambiental são usualmente referidos ações para reduzir, reutilizar e reciclar.

Existe, portanto, na generalidade da política nacional a propensão para a utilização de verbos com prefixo “re”. Há um léxico político, com o tal prefixo de origem latina. Ora, investigando o seu significado, chega-se ao seguinte resultado: “para trás”, ou seja, repetição. Esta evidência provaria que a linguagem política é tudo menos progressista, ou seja, está imbuída de uma tendência para a regressão.

Neste sentido ao analisar-se o vocábulo “revolução”, cuja origem está relacionada com a Astronomia, ou seja, com o tempo que um astro demora a percorrer a sua órbita, voltando, portanto, ao ponto de origem, verifica-se que o seu uso em ciências como a Geometria e a Física é semelhante, no entanto, em matéria política e social, tudo se altera. Neste último contexto, a revolução pressupõe uma mudança radical dentro de uma sociedade e em termos políticos é uma alteração violenta das instituições de um país.

A evolução do termo revolução, ou os seus diferentes significados, poderia traduzir-se em igual desenvolvimento nos usuais vocábulos da política. O prefixo latino “re” serviria como indutor de mudança. Não bastando qualificar, nem habilitar, nem vitalizar uma área, uma praça, uma rua. Ao introduzir-se o prefixo, está a transmitir-se a ideia de que algo de novo vai surgir, que tudo vai começar do zero – o tal inicio da órbita.

Em contrapartida, analise-se outro termo de origem latina: redundância. Repetições de ondas, no original. Nos dias de hoje pode ter vários significados: pleonasmo; repetição inútil, repetição desnecessária de termos para expressar a mesma ideia; vício de linguagem que consiste em dizer, por formas diversas, sempre a mesma coisa; insistência desnecessária nas mesmas ideias.

Neste sentido, muitas vezes uma reconstrução ou restauro, seja de um espaço ou de um edifício público não se traduz em mais do que isso. Admitir tal pressuposto é redutor, daí que qualquer anúncio de projeto de intervenção política, implica sempre a utilização de uma das quatro palavras mencionadas no primeiro parágrafo, para a ação a desencadear, quando na prática nada disso acontecerá. A redundância será evidente anos depois, pela inutilidade da intervenção.

O léxico da política anda em torno da repetição. A repetição pode estar associada ao começar de novo, ainda assim com tendência para manter trajetórias ou, por outro lado, ao insistir desnecessariamente nas mesmas ideias.

A melhor conclusão é que a política precisa de um dicionário novo.

 

(a publicar no dia 21/07/16)

quarta-feira, julho 13, 2016

O cisne negro

                Resisti durante um mês a escrever sobre o Campeonato Europeu de futebol. Semana após semana, desde 10 de Junho, fui adiando qualquer texto, sobre o desempenho das várias seleções, incluindo a de Portugal. Tento sempre escrever um artigo coincidente com estas provas desportivas de maior visibilidade. Falhei o Mundial de 2014, sobretudo, devido ao prematuro naufrágio Português mas, em compensação, a 10 Setembro de 2015, a propósito de um jogo França – Portugal, ainda que amigável, não tive problemas em evocar o direito de desforra, por todas as derrotas sofridas desde 1984, passando pelo ano 2000 e por 2006.

                Neste Euro fui-me segurando. Apesar das primeiras imagens de França serem semelhantes a episódios que antecederam a Primeira Guerra Mundial, com europeus orientais a atacarem europeus ocidentais e vice-versa, resisti a fazer qualquer analogia histórica, criticando os excessos nacionalistas, associados às claques de futebol. Apesar de a UEFA ter abandalhado o Campeonato, dando entrada a 24 seleções, quando há 20 anos, disputado por 8, era sem dúvida, o Campeonato mais competitivo do planeta, abstive-me de fazer comentário, até porque Portugal beneficiou com este sistema, devido ao apuramento com o 3º lugar na fase grupos. Ainda nesta fase, embora seja agora mais fácil escrevê-lo, tive o pressentimento que poderia haver um “outsider” a vencer o Campeonato, saindo esse hipotético vencedor de um lote de seleções em que incluía Croácia, Bélgica, Portugal e País de Gales - estes apenas pelo equipamento, claro… enfim, nem as cores galesas me convenceram a quebrar o silêncio.

                Com o apuramento garantido à Italiana, com um naipe de jogadores experientes, esqueci o desalento dos primeiros empates da seleção Portuguesa e passei a sentar-me em frente à televisão com outro espírito. Habituei-me a ver o cinismo transalpino, germânico (e mesmo o argentino) e fui defendendo em tertúlias de amigos, que só a defender bem é que Portugal teria hipóteses de vitória. Depois foi dada a oportunidade ao miúdo da Musgueira e a emoção superou a racionalidade, dando comigo a terminar os jogos de pé colado ao televisor, quer fosse em casa ou em estabelecimentos abertos ao público, recebendo conselhos de desconhecidos, para me acalmar.

                No dia da Final, durante o jogo, recebi um sms às 20h 52m, portanto, no intervalo do jogo, com o teor que me surpreendeu, “o Éder vai entrar nos últimos quinze minutos e vai marcar o golo da vitória. É a história do patinho feio”. Eu ainda estava preocupado com o meio-campo sem velocidade a defender, com as grandes defesas do Rui Patrício, sabia que ainda faltava uma bola no ferro e já tínhamos o Cristiano Ronaldo lesionado, contudo, achei que sim e partilhei a informação com quem assistia ao jogo comigo. Ouve quem se risse, quem não acreditasse e muitos disseram, “se calhar”. A fezada era igual à de muitos, sobretudo daqueles que, como eu, tinham defendido o rapaz da Adémia, de ataques tardios sobre a sua capacidade de ser selecionável, contra-argumentando com a boa época por si efetuada no campeonato nacional de França, com seis golos marcados, além de ter sido considerado a melhor aquisição no mercado de inverno pelo seu desempenho naquele campeonato.

                Tudo isto terá pesado a Fernando Santos. A partir da última substituição, o jogo de Portugal ficou mais estendido. A emoção redobrou e a querença, sempre que Ederzito tocava na bola, passou a dominar o momento. Todos queriam ver a sua metamorfose no belo cisne negro.

                Podemos argumentar sempre que o fado lusitano se repetiu: infortúnio – com a lesão de Ronaldo; sorte – com a bola no ferro no último minuto; e audácia – um remate inesperado a surpreender o adversário.

Com outra visão, podemos verificar outras qualidades nas nossas vitórias: excelente rigor táctico – 4-4-2, com dois avançados móveis, bem executado, não dando espaço ao adversário, evitando a aproximação à nossa baliza; grande união entre os jogadores – nunca se viu uma discussão em campo e qualquer golo era festejado efusivamente por toda a equipa; boa preparação física – 3 prolongamentos em quatro jogos, jogados em quinze dias; excelente liderança em campo – e até fora dele, como se viu no prolongamento da Final – pelo capitão; magnifica leitura do jogo do selecionador – substituições arriscadas e conseguidas, operando-se mudanças tácticas eficazes, confiando-se nas capacidades dos jogadores lançados.

                Portugal vingou o passado. Ao tornar-se Campeão Europeu de futebol, virou uma página do desporto nacional e a forma como foi conquistado o título, permite encarar as próximas competições com outra motivação e com expetativa elevada.

 

(a publicar no dia 14/07/16)

quarta-feira, junho 08, 2016

O Efeito da Rua das Flores

                No virar do século, após a EXPO 98 e o Porto Capital da Cultura 2001, surgiram pelo país, os programas Polis, tendo em vista a reabilitação de algumas cidades do país, mormente zonas ribeirinhas e frentes marítimas.

                Por essa época, a arquitetura andava fascinada com o efeito Guggenheim exercido sobre a cidade de Bilbau, no país basco, na vizinha Espanha.

                Neste contexto temporal, não podendo os concelhos candidatar-se aos fundos do programa Polis, foi perfeitamente natural, pensar-se em obras emblemáticas e muitos autarcas passaram a conceber reabilitações para instalações de Museus de Arte Moderna, ou em alternativa, a sua construção de raiz, tudo com projetos assinados por Arquitetos de renome internacional.

                O emblemático Museu de Bilbau provoca uma ofuscação no resto da paisagem. Nas margens do rio, todos os olhares se centram naquele edifício. Ninguém repara na linha de comboio na margem oposta, nem nos prédios em volta do Museu, nem nos contentores a ser movimentados para cargueiros, parados nas suas aproximações. O efeito do edifício é mesmo reabilitador. Eu próprio estive duas vezes no mesmo ano na cidade e só no terceiro dia é que me interessei por mais algum edifício, praça ou mesmo rua.

Expondo isto, percebe-se que enquanto autarca de Lisboa, Pedro Santana Lopes tenha convidado Frank Gehry, autor do projeto de Bilbau, para conceber um edifício para a capital. Não se pense que foi caso único, várias cidades na Europa e mesmo nos vários Estados do continente Norte-Americano, trataram de copiar a ideia da cidade Espanhola.

Em 2001, na preparação da campanha eleitoral, para as eleições autárquicas, Josias Gil exprimiu a sua vontade em prometer a construção de um espaço cultural em S. João da Madeira. Nessa sala onde se debatia as futuras promessas, além do autor destas linhas, estava José Lima, colecionador de arte. Entusiasmado com a vontade do político, José Lima, divulgou em primeira mão, a possibilidade de fazer uma parceria com a Câmara Municipal de S. João da Madeira, colocando o seu espólio à disposição da cidade para futuras exposições.

Nascia ali o futuro Núcleo de Arte de S. João da Madeira. Os passos seguintes são conhecidos. Enquanto vereador minoritário, Josias Gil conseguiu convencer os restantes elementos do executivo municipal das vantagens da reabilitação da Oliva e Castro Almeida liderou o processo de reconstrução e dotação do espaço como sala de exposições.

Criou-se uma simbiose entre o casal colecionador e a autarquia. Não sendo caso único em Portugal, já que Elvas criou o seu Museu de Arte Moderna, com a coleção de António Cachola. Citado apenas como exemplo, não pretendendo fazer qualquer comparação de qualquer espécie.

Não querendo alimentar polémicas, nem entrar nelas, não tecerei aqui qualquer consideração sobre arte moderna, nem sobre a sua notoriedade, nem visibilidade em regiões periféricas. Tudo leva o seu tempo e faz-se o caminho, corrigindo-se o que está menos bem, ou mesmo, mal. Só assim, poderá ser consolidada a coleção Norlinda e José Lima, como um importante fator diferenciador do município, sendo uma mais-valia para a futura regeneração a que o centro da cidade vai ser sujeito.

E aqui chegamos ao título do texto. No tempo atual o desenvolvimento turístico da cidade do Porto tem sido amplamente debatido. A revitalização de algumas zonas da baixa da cidade tem permitido um movimento económico alavancado, concretizando-se na abertura de novos e diversificados estabelecimentos comerciais, completando-se na reabilitação de vários edifícios. A Rua das Flores é um exemplo desse paradigma. A tudo isto, acrescente-se a arte urbana, visível na intervenção nas várias caixas de eletricidade, nas quais ficaram estampadas as frases típicas da cidade. Outros exemplos de arte urbana estão espalhados na mesma cidade. São famosos os murais do quarteirão da Rua Miguel Bombarda.

Se tomarmos o Porto como referência para a regeneração do centro da cidade, é importante enquadrar a arte urbana neste contexto. Não podemos esquecer o que já existe: a intervenção do artista Vhils nas paredes da fundição Oliva, em frente à entrada da Oliva Creative Factory; alguns murais na zona da praça Luís Ribeiro e mesmo uma caixa elétrica no acesso da Rua da Liberdade à Praceta Júlio Dinis, em que os avisos sobre os perigos do tabaco, ficaram retratados por um “Pensar Mata”, enquadrados pelas cores de uma conhecida marca de cigarros.

Como se pode constatar existe algo mais de arte urbana, em S. João da Madeira, do que uns sempre criticados graffitis, sobretudo, quando são executados por atos de pouca clareza artística, resumindo-se muitas vezes a atitudes de baixo esclarecimento público.

Apesar disso, considero que a manifestação pela arte, em contexto urbano, deve ser contemplada em qualquer intervenção de regeneração dos degradados centros urbanos e só assim se consegue evitar a praga das pinturas por spray.

 

(a publicar no dia 9/6/16)

quarta-feira, junho 01, 2016

Epopeia Industrial

               O livro “Manoel Vieira Araújo, a sua vida, a sua obra, a sua terra” não me deixou indiferente.

                Ao receber um exemplar, enviado pelo autor José António Araújo Pais Vieira, depois de ter lido as reportagens sobre o seu lançamento na imprensa local, saciei a minha curiosidade percorrendo, naquele modo idêntico ao de folhear, a totalidade do livro. Retive-me nas primeiras páginas, avancei observando as fotografias e respetivas legendas e fui lendo um ou outro excerto, para entender melhor o enquadramento de algum dos tópicos.

                Fiquei com vontade de ler o livro, para conhecer melhor o biografado, a sua família, a sua faceta industrial e mesmo o seu envolvimento comunitário.

                São precisamente sobre estas três perspetivas em que me irei debruçar.

                Conheço desde tenra idade alguns dos descendentes de Manoel Vieira Araújo. Netos e bisnetos, estes mais próximos da minha idade e portanto, da minha geração. Lidei de perto com alguns deles e ao ver as fotografias do livro, reconheci em algumas dessas imagens sorrisos, posições corporais, tipo e corte de cabelo, ou seja, os trejeitos familiares, que perduraram por gerações. Tendo a possibilidade de ainda contactar com trinetos, jovens estudantes em Santa Maria da Feira, identifico-lhes essas mesmas características físicas, o que é uma inconveniência de relatar, pondo-me em xeque perante todas as senhoras das sucessivas gerações.

                No livro, o autor define o comportamento dos filhos de Manoel Vieira Araújo, seus tios e tias portanto, sendo um mais recatado, tímido é a palavra utilizada. Isto ajudou-me a perceber o acanhamento de alguns dos seus descendentes e o contraste que a extroversão que a outros caracterizada e pelo que li, ao biografado também.   

                Neste capítulo, o livro foi importante para conhecer melhor esta família sanjoanense: o patriarca Manoel Vieira Araújo, os seus seis filhos, quinze netos, havendo ainda referência a dois bisnetos. Teria sido um bom complemento ao trabalho do autor, a elaboração de uma árvore genealógica, com a ascendência do casal e com todos os seus descendentes, acrescentando-se os demais bisnetos e trinetos, se for esta a última geração.

               A faceta industrial de Vieira Araújo é sem desassombro a sua grande obra. De moço, aprendiz de ofício a pequeno industrial de chapelaria, é uma história comum em S. João da Madeira. A esta, devemos acrescentar a diversificação de investimentos: o calçado, a camisaria - que podiam entroncar numa perspetiva de aproveitamento da rede de distribuição comercial - e os lápis. Algo simples, esta apresentação, se não referirmos a marca dos lápis, Viarco, que perdura nos dias de hoje como referência nacional. A toda esta capacidade de empreendedor, Vieira Araújo teve visão suficiente para perceber o futuro da indústria de chapelaria. Primeiro como exportador, em anos de guerra na Europa. Depois como concentrador de recursos, apesar de não ter sido ouvido pelos responsáveis dos Ministérios tutelares, no entanto, ainda liderou, em 1969, o nascimento da FEPSA, cuja singular existência no nosso país, nos dias de hoje, provam que Manoel Vieira Araújo esteve muitos anos à frente do seu tempo. O episódio relatado por José António Pais Vieira, sobre o vencimento pago a um trabalhador incapacitado durante dezenas de anos, justificam a admiração pela grandeza da sua obra e também pela forma como reconhecia, nas dificuldades dos outros, as suas origens.

A capacidade de envolvimento de Manoel Vieira Araújo na comunidade, retratada no livro pelo autor, surpreende. O complemento à jornada de trabalho, com a promoção de teatro na ainda aldeia de S. João da Madeira; a presença assídua e descomprometida na primeira comunhão dos seus conterrâneos; as ligações, amizade e o respeito mútuo com João da Silva Correia e Durbalino Laranjeira, nomes referenciados da história local, associado à participação ativa na vida política, primeiro como liberal até ao golpe militar de 28 de Maio e depois como político do regime, incluindo a sua nomeação para Presidente da Câmara, fazem do biografado um dos grandes sanjoanenses.

Apesar das divergências com o vizinho, António Henriques, bastante mencionadas na biografia publicada, Manoel Vieira Araújo soube ultrapassá-las, homenageando o seu conterrâneo na toponímia da localidade e finalizou a reconciliação erguendo-lhe um busto em espaço público.

É aqui que se verifica a importância do minucioso trabalho de José António Araújo Pais Vieira. A recordação do seu avô, da sua vida, da sua obra, do seu contributo para o crescimento da sua terra e no final, fica a sensação que a homenagem de S. João da Madeira a este grande homem, ainda não foi feita.  

 

(a publicar no dia 02/06/16)

quarta-feira, maio 18, 2016

Da Musgueira ao Marquês

                Estes dias de festa, no futebol, fizeram-me reencontrar a minha história. Ao ser recordado da conquista do último tricampeonato conquistado pelo Benfica na temporada de 1976/77, verifiquei que apesar de o ter vivido, não me lembrava de nada. É certo que na anterior conquista de feito idêntico, em 1972/73, tinha dois anos de idade e não podia ter qualquer memória. No episódio seguinte, nos meus seis anos, recordava-me apenas de antigos posters alusivos ao feito dessa equipa, colado nas paredes de casa dos meus pais, mais uma caderneta de cromos dessa época desportiva, guardada numa gaveta, além de me recordar desses jogadores, que continuariam muitos mais anos no clube. Memórias avulsas, provavelmente reconstruídas pelos anos seguintes.

No fundo, tenho que reconhecer, a minha aproximação ao futebol nasceu nesse ano de 1977. A devoção por essa época desportiva, tão especial, acompanhou-me durante alguns anos, já que houve um hiato, até o Benfica voltar a ser campeão, ou qualquer outro clube tricampeão. Esse saudosismo fez-me conhecedor das épocas mais remotas e reconhecer em Eusébio, o símbolo da história do clube.

Essa imagem, de um africano equipado de vermelho, a que eu só tinha acesso através de cromos ou posters mais antigos, já que os jornais apenas publicavam fotografias a preto e branco e as lembranças da televisão eram todas monocromáticas, foi a melhor forma de eu entender o clube e o seu lema, “E Pluribus Unum”, que surge no latim através de uma frase de Virgílio, adaptada para a nossa língua como, “De muitos, um”.

Ao fim destes anos todos, entusiasmo-me sempre que um jogador, de pele mais morena, equipa de vermelho, seja qual for a nacionalidade. Assim foi com Renato Sanches. Reparei nele pelas imagens televisivas de um final dum atribulado jogo, quando enfrentou sozinho o banco do adversário, de um campeonato nacional de juvenis. Anos mais tarde, viu-o em campo em Santa Maria da Feira e apreciei a sua entrega ao jogo. Após o último dia 25 de Outubro, como solução para contrariar o apocalipse, vestindo a pele de “treinador de bancada”, protagonizei a sua entrada para a equipa principal do Benfica. Quando tal aconteceu, o futebol passou a ter outra atenção. E magia.

O resto é conhecido de todos: uma sucessão de vitórias para o campeonato nacional, interrompidas num jogo em atraso e nova sucessão de resultados positivos, interrompidas à 22ª jornada e daí até ao final, sempre a ganhar. Resumindo-se numa 2ª volta com apenas 3 pontos perdidos, o que em termos de estatística dá um valor engraçado, 94,1% de pontos conquistados.

Renato Sanches é um jovem da Musgueira, bairro de Lisboa, catalogado de problemático e normalmente notícia pelas piores razões. Renato é um símbolo da inclusão social, que é possível fazer-se pelo desporto. Um bom exemplo a seguir para todos aqueles jovens, que vivendo em bairros sociais e que muitas vezes são confrontados com o vazio de oportunidades, preferem fazer a sua escolha de vida, longe da hipótese de obter dinheiro de forma fácil e por meios ilícitos.

Na noite de comemoração do título, depois de ter vindo ao aperto da Rua João Deus, um momento nos festejos que já merecia ter passado imagens para órgãos de informação nacional, tamanha é a grandiosidade, retirei-me para casa para assistir, pela televisão, à festa na Rotunda do Marquês de Pombal. Da festa retive a imagem de Renato Sanches a correr o palco todo, a animar a vasta plateia de microfone na mão e a certa altura, destacado do resto da equipa, a empunhar uma grande bandeira alusiva ao Benfica, com a indicação precisamente da Musgueira. O envolvimento da Alta na Baixa da capital, o reconhecimento da transversalidade social do futebol, passando essa imagem para o país inteiro.

O rapaz das tranças está de saída. É um miúdo, só assim se compreende a entrada da mãe no relvado na tarde de domingo a agradecer ao treinador a oportunidade que deu ao seu filho. Fazendo lembrar as despretensiosas histórias de tantos, incluindo as de Eusébio.

Espera-se que o seu exemplo faça despontar novos valores, que se orgulhem do equipamento vermelho e branco e que sejam igualmente desinibidos e efusivos nos festejos, não esquecendo as suas humildes origens.

 

(a publicar no dia 19/05/16)

quarta-feira, abril 27, 2016

De Ulisses ao Botox

Se em 1986 me perguntassem se eu queria assistir a concertos de bandas como Gang of four, Buzzcocks, Joy Division, ou The Clash, a resposta ponderada seria negativa. Algumas dessas bandas estavam terminadas, ou em final de carreira, já não fazendo digressões e por isso, por muito que eu quisesse, não havia qualquer hipótese de as ver. Acrescente-se que nesses anos, eram raras as aparições de bandas desse género musical (pós-punk) em Portugal.

Se no mesmo ano, me perguntassem se eu queria assistir a concertos de músicos como Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso ou Chico Buarque, a resposta seria igualmente negativa. As razões para a resposta seriam de motivo diferente, mais relacionados com o gosto musical, numa época em que encetei um processo de “revolução cultural”, optando por caminhos diferentes, mais próximos de bandas como as atrás mencionadas, desligando-me de todo um percurso auditivo, em que passei a excluir música popular brasileira, música jazz, a maioria das bandas da década de 60 e de 70.

Trinta anos depois, dos músicos das bandas mencionadas no primeiro parágrafo, apenas tive oportunidade de assistir à performance de um deles, Peter Hook, enquanto baixista de acompanhamento da The Durutti Column. Em contrapartida, dos brasileiros referidos, já assisti a concertos de três desses quatro nomes, ficando apenas de fora “seu” Chico. Enquanto não surge essa oportunidade (na sua última aparição em Portugal não consegui assistir ao seu espetáculo), não posso deixar de o nomear como um dos romancistas que mais prazer me deu a leitura de sua obra. “Budapeste”, “Leite Derramado” e “Benjamim” foi empreitada fácil, enriquecedora e gratificante. O livro “O meu irmão alemão” é igualmente uma narrativa enriquecedora e compensadora, só que a versão foi editada ao celebrar-se o Acordo Ortográfico de 90. Difícil ler aquele português tropical. Não o português europeu saído desse acordo, sem as consoantes mudas, que só estorvam quem quer escrever. Um português, que nos entra em casa, nas telenovelas, nos filmes, na música e a que estamos auditivamente muito habituados. Quando se trata de leitura, o caso muda de figura.

Ouvir “Cadê”, é facilmente interiorizado. Sabemos que significa “onde é que está”. Ler a mesma palavra é estranho. Mas, aproveitando o final da frase anterior, primeiro estranha-se, depois entranha-se.

O Português é composto por vários sotaques. No continente europeu, uma mudança geográfica de 50 quilómetros pode significar uma fonética diferente da língua e o uso de expressões próprias. De Norte ao Sul, do interior ao litoral, em Portugal, ouvem-se pronúncias características, que nos permitem catalogar a origem dos faladores. O mesmo acontece nos arquipélagos do atlântico norte. Como o povo português andou pelos quatro cantos do mundo, a língua fala-se na América, Africa e Ásia, ou às portas da Oceânia. Em cada um desses países de expressão lusófona, existe um sotaque diferente para a língua portuguesa.

Outra particularidade da língua é a sua origem. Popular. Escrita por Camões em 1572, passou a ser utilizada por reis, nobres e clero muito mais tarde do que a falavam burgueses e o povo.

A erudição é de salutar.

Não deve ser renegada a sua origem, nem a sua difusão pelo mundo e a sua adaptação aos sons vindos de fora.

Parece ter tudo começado com Ulisses. O nome da povoação, fundada pelo navegador grego, foi latinizado com o sufixo “ipo” para Olissiipo e daqui nasceu a Lisboa, bem portuguesa.

Ao longo dos séculos, os estrangeirismos foram adaptados pelos nacionais (como em todas as línguas). Veja-se, por exemplo, o que os Portugueses fizeram à Banana. Em contrapartida, os sons franceses, germânicos, africanos e ingleses foram assimilados pelo nosso povo e nasceram novas palavras. A mais curiosa que encontrei é a origem de armadores, proveniente do termo popular “armãos”, a deriva escrita do plural do nome “Herman”, como se designava popularmente os marinheiros que navegavam do centro da Europa até cá, para trocas comerciais.

E quando vieram as marcas de produtos, toca a usar esses nomes. Jeep derivou em Jipe mas, cotonete ficou sempre cotonete, velcro sempre velcro, lycra igualmente. Chiclete passou mais tarde a pastilha elástica, gilete virou lâmina de barbear, jet-sky passou a moto de água. No entanto, ainda há produtos que não perdem a designação da primeira marca a chegar ao mercado, em especial, os produtos farmacêuticos. Aspirina será sempre aspirina, por muito que se diga comprimidos de acido acetilsalicílico e Botox até hoje é Botox, por mais operações estéticas que se façam.

   Não posso deixar de citar os regionalismos com origem em marcas. Precisamente o tão característico e nortenho, “cimbalino”. Designação na cidade do Porto para café, precisamente por ter origem na marca italiana de máquinas de café expresso “La cimbali”.

Se a língua é a vontade de todo um povo, é ótimo que se retirem algumas consoantes mudas. Dá ação à língua, no entanto, é um facto, que se cortou de mais. Um egípcio será um habitante do Egipto e não é subtileza dizê-lo, é uma verdade incontornável, pois apesar dos 26 anos de Acordo Ortográfico, não existe consenso dos dois lados do atlântico.

Entre o regredir ou corrigir lapsos iniciais existe uma diferença. Pode-se perfeitamente discordar do acordo, pode-se denegri-lo, só que não me convencem das vantagens em escrever mais um “P” em ótimo, ou mais um “C” em ação. Enquanto em facto, lemos o “C” de facto, existem outros factoides (termo utilizado no Brasil, após acordo ortográfico) que nos unem aos outros povos que se expressam em Português.

A lusofonia é uma realidade Atlântica, que estende ao Indico e ao Pacífico. Não se resume às diferentes sonoridades ou de grafia das palavras, significa a possibilidade de entendimento de milhões de habitantes.

Não podemos permanecer agarrados à dicotomia café – bica, fino – imperial, ao pé – à beira, que durante anos identificou o norte e o sul do país. É preciso saber viver com as diferenças e entranhar o novo acordo ortográfico.      

 

(a publicar no dia 28/04/16)

quarta-feira, abril 20, 2016

Tempos novos, conversas antigas

Há duas formas de conduzir uma entrevista na imprensa local. Uma delas é enviar as perguntas ao entrevistado, para este responder igualmente por escrito. A outra é em direto, dando ao jornalista a oportunidade de fazer as perguntas, ao longo da conversa, com o entrevistado. O método da resposta por escrito é o preferido da maioria dos agentes da política e a entrevista é, por sua vez, o favorito dos jornalistas. Pode parecer um contrassenso, pois a resposta escrita dá mais trabalho ao entrevistado, ficando o jornalista passivo. Por outro lado, a entrevista oral, implica a transposição para texto, por parte do jornalista. Contudo, a condução da entrevista, o momento da pergunta, a imprevisibilidade da mesma, confere ao jornalista um ascendente sobre o entrevistado e este é o fator decisivo para a preferência.

                Anabela Carvalho, enquanto colaborou no jornal labor, não desarmou. Pretendia ouvir o entrevistado e com isso, não agradava à totalidade dos agentes da política local. Nos últimos anos deve ter efetuado seguramente dezenas de entrevistas, utilizando o seu método, entre trabalhos de reportagem e outras peças jornalísticas. A mudança profissional de Anabela é uma perda para a imprensa local, no entanto, não pensem os leitores que os agentes da política ficam mais descansados.

                  A aproximação ao quotidiano local de Sara Dias Oliveira, jornalista com vasta experiência profissional, escrevendo inclusivamente para um jornal diário nacional de referência, precisamente sobre a sub-região Entre Douro e Vouga, é um sinal inequívoco da aposta do jornal labor num patamar de qualidade elevada.

                (abro um parêntesis, para declarar a minha grande estima pela Sara, que já conheço pessoalmente há vários anos, sendo obviamente seu leitor assíduo e reconhecendo-lhe muito mérito nos seus textos, conferindo às pessoas destes concelhos um sentido verdadeiramente cosmopolita, que ela expressa de forma criativa nas suas mais diversas reportagens.)

                Se Sara Dias Oliveira tivesse seguido de perto a campanha eleitoral das intercalares para a Câmara Municipal, repararia que o PS visitou praticamente a totalidade das instituições e associações locais, por isso não deixaria de confrontar o seu entrevistado na edição do jornal labor da semana passada, Rodolfo Andrade, com esta redundância.

                Embora se entenda a intenção deste dirigente em reabilitar a imagem do PS, promovendo esses contactos, é importante levar mais do que um discurso bonito para junto dessas instituições ou associações e sobretudo, doravante, adequar as ações políticas dos seus militantes, a esse propósito. Em três anos a bota não bateu com a perdigota. 

                O facto mais relevante da entrevista conduzida por Sara Dias Oliveira é a afirmação do novo líder da concelhia do PS em aproximar-se dos empresários. Esta reflexão, correta, retira o partido de uma bolorenta luta de classes, em que se viu envolvido com a anterior liderança. Contudo, cria um dilema para as próximas eleições.

                Depois de umas eleições intercalares, em que o PS ficou sozinho, é necessário compreender os novos tempos de política de coligações. A direita coligada em S. João da Madeira foi impensável durante 34 anos. Esta possibilidade, oferecida pela complexidade da oposição, vinculou-se num regresso de uma maioria coligada no executivo camarário. A bipolarização, que durante anos, permitia a um só partido político obter maiorias, é nos dias de hoje diferente. Existem frentes democráticas com semelhantes ideologias, que podem fazer acordos pós-eleitorais, ou mesmo pré-eleitorais. A praticamente um ano das eleições autárquicas este é o grande desafio do PS, consegue ou não entender-se com as outras forças políticas do seu espectro político? Ou pelo contrário, tentará engolir o movimento independente S. João da Madeira Sempre, situando-se ao centro?

                Qualquer uma das soluções implicará negociação política e cedência de lugares elegíveis em futuras listas conjuntas. Um processo nada fácil, que poderá ser agravado com a aproximação às entidades empresariais, que requer muita tenacidade e capacidade de autocrítica de todas as forças políticas envolvidas.

 

Nota: Há pessoas que pela sua simplicidade e dedicação ao desporto são exemplares. Ao senhor Gabriel Silva Dias, do basquetebol da ADS, aprendi a respeitá-lo, por o encontrar sempre ocupado junto às 4 linhas de um pavilhão. Neste momento de luto para a sua família, não posso deixar de escrever estas singelas linhas, relembrando a sua simpatia e sabendo que não será fácil substitui-lo, muito menos superá-lo.

 

quarta-feira, abril 06, 2016

Ana Rodrigues - eterna campeã nacional

                É suposto um jornalista abster-se de escrever comentários. Ou de tecer comentários, caso não esteja indexado à imprensa escrita. A nível nacional, a análise política por parte de jornalistas, deixa sempre confusos os leitores e sobretudo, os agentes políticos, mesmo quando os ditos jornalistas escrevem em coluna própria, em espaço visivelmente de opinião, no qual relacionam os factos com a convicção pessoal.

                Por outro lado, um comentador não deve dar notícias. Embora, em espaço televisivo, os comentadores apreciem trazer novidades em primeira mão para o grande público e assim, criar espectativas sobre as informações a divulgar. É frequente isto acontecer ao Domingo à noite, com um ex-presidente de partido político, que já foi ministro.

                Perante estes dois cenários, eu que habitualmente escrevo artigos de opinião, não deveria trazer informação nova para os artigos publicados. Embora, como a minha colaboração está também indexada a crónicas, haja nesta perspetiva de texto, uma oportunidade para relatar alguns factos novos, sobretudo, por verificar que mais ninguém o fez.

                Tudo isto vem a propósito do Campeonato Nacional Absoluto de Natação, que decorreu em Oeiras de 11 a 13 de Março passado.

                Nas últimas edições da imprensa local, fiquei à espera da divulgação de resultados da prestação de Ana Rodrigues, atleta da Associação Estamos Juntos. Edição de dia 17, nada. Edição de dia 24, nada e edição de 31 de Março, igualmente nada.

                Eu, na noite de 13 de Março, aos resultados desportivos que coleciono do fim-de-semana, acrescentei à navegação o tal Campeonato Nacional e registei logo os resultados da atleta e também do clube. Rejubilei com os resultados conseguidos e procurei logo comparar com os de 2012, para verificar se havia melhorias nas marcas pessoais e consequentemente a obtenção de tempos mínimos para a participação nos Jogos Olímpicos de 2016.

                Esta última parte ainda não ficou garantida, contudo a própria Federação Portuguesa de Natação está esperançada que pelo rateio da Federação Internacional (FINA), o tempo obtido em Coimbra em 2015, possa ser suficiente para a Ana Rodrigues voltar às Olimpíadas de Verão.

                Chego à parte do texto que tenho que apresentar os resultados desportivos da atleta da AEJ, despindo o papel de comentador.

                A Ana Rodrigues, agora conhecida no mundo da natação como Ana Pinho Rodrigues, conquistou 7 medalhas nos referidos Campeonatos Nacionais. Em 5 provas conquistou o ouro, correspondente ao 1º lugar e em outras duas ficou em 2º lugar. Vitórias nas provas:

 

1)      50 metros livres, a ficar a somente 19 décimos de segundo do record nacional;

2)      100 metros livres;

3)      50 metros bruços, duplamente, devido às caraterísticas destes campeonatos;

4)      100 metros bruços, prova em que logrou participar nos Jogos Olímpicos de 2012;

 

Os segundos lugares foram obtidos nos 200 metros bruços e nos 50 metros livres, prova atrás já mencionada, o que se explica pelas caraterísticas destes campeonatos.

As medalhas obtidas, unicamente por Ana Rodrigues, permitiram à AEJ colocar-se na estatística de medalhas na 3ª posição. Somente atrás de Escola S. João de Brito e Sporting Clube de Portugal e à frente de Clube Galitos de Aveiro e Futebol Clube do Porto, para destacar os imediatamente classificados, duma lista de 26 clubes. Refira-se que a AEJ esteve representada com mais 4 atletas e estes clubes citados tiveram participações entre 20 a 40 atletas.

Volto ao comentário.

Feito o registo para a posteridade, deve estar o leitor a perguntar porquê é que esta notícia não foi divulgada mais cedo?

Desconheço a resposta. No entanto, é usual na cidade os clubes divulgarem os seus próprios resultados desportivos. Isto iliba em parte os jornais locais, ficando a maior quota de responsabilidade no clube. Por aqui, pouco se pode esperar, atendendo a que Ana Rodrigues, quando regressou à AEJ em 2014, foi extremamente hostilizada pela direção, que seria reeleita nesse mesmo ano, em mandato que ainda vigora. Pelos vistos os principais feitos dos seus atletas, ainda hoje não são compreendidos pelos diretores deste clube, nem merecem a devida atenção, para procederem à sua divulgação.

Estou em crer que a Ana e o seu treinador, Luís, mereciam mais. 

 

(a publicar no dia 07/04/16)

quarta-feira, março 30, 2016

Fidelização de público

                Na curta série de artigos publicados, durante este mês de Março, sobre as práticas culturais dos habitantes da cidade, vou acrescentar na edição desta semana, a questão do público, consumidor de cultura.

                À melhoria das condições de realização de eventos, com a renovação das salas na última década, conseguiu-se um melhor conforto para os espetadores. A melhor oferta traduziu-se num aumento da organização de espetáculos implicando, por sua vez, a progressiva oferta com qualidade.

                Quem olha de fora para o cartaz cultural de S. João da Madeira, concebe uma ideia elitista de consumo de cultura. As exposições permanentes de arte contemporânea e de arte bruta na Oliva Creative Factory, mais o evento da Poesia à Mesa e mesmo o concurso para jovens pianistas “Florinda Santos”, ajudam a montar tal preconceito.

                Se analisarmos os eventos culturais produzidos na cidade, verificamos que não é bem assim.

                Tal como exposto no primeiro destes artigos, o Festival de Teatro, com os seus grupos escolares, atrai à plateia familiares dos jovens protagonistas, desejosos de assistir às suas performances. O mesmo acontecendo nos concertos organizados pela Academia de Música, como fica evidente pela divulgação efetuada pela sua Associação de Pais.

                Se é assim com estas artes, o mesmo acontece com outras em que os intervenientes são crianças ou jovens. Por exemplo, em demonstrações de dança ou de bailado. Ou mesmo, noutros escalões etários, nas atuações de grupos ou associações, uma grande parte da assistência é composta por familiares ou amigos dos artistas. Tal como sucede nas apresentações de obras de artistas individuais.

                Além desta componente, o cartaz urbano do “Party Sleep Repeat” confere outra dinâmica ao consumo de cultura na cidade.

                E a acrescentar a estes, temos as presenças nos dias da Poesia à Mesa e as visitas às exposições no espaço acima mencionado.

                Ponderando tudo, familiar, urbano e o dito elitista, empiricamente acredito que o maior número de público, de bilhete pago, está presente nas atuações dos jovens ou crianças da cidade.

                Perante tal facto, acredito que a melhor opção para fidelizar o público às plateias dos espaços culturais, é aumentar o número de atuações destes jovens. Lançar desafios de atuações, com temáticas diferenciadas, em eventos disseminados ao longo do calendário, sabendo-se que público estará sempre acautelado. Mesmo não sendo o espetáculo gratuito. Além de proporcionar uma maior envolvência comunitária, este tipo de eventos dão outra motivação aos intervenientes, podendo-os ajudar em questões de orientação escolar, por exemplo, permitindo-lhes enquadrar o mundo das artes de forma mais positiva.

                A superação desta fase cultural ajudará a programar outro tipo de eventos na cidade. A massa crítica será maior e pode-se então, partir para a programação de espetáculos autossustentáveis, ou procurar parceiros para promover esses mesmos eventos culturais, ou seja, só aí terá cabimento planear cultura para um público elitista.

Este texto finaliza a minha análise ao estado da cultura de S. João da Madeira. Na observação que fiz, fui-me abstraindo de entrevistas com actuantes e de recolha de dados. Fui deixando propostas nos vários textos: aproveitar a componente escolar no ensino de artes para fazer captação de talentos; fomentar o espírito associativo cultural na comunidade local; promover um evento anual de mostra dos trabalhos dos artistas locais, englobando grupos, incluindo os informais; lançar desafios de programação aos grupos, escolas, academias e outros artistas para envolvimento social da cultura; não esquecendo a aposta da autarquia (Câmara e Junta) na promoção de algumas artes, refletindo-se essa prática pela desinibição da população.

Espero ter sido claro, evidenciando as boas práticas locais. Inibi-me de criticar abertamente as propostas eleitorais de Janeiro passado, como criar companhias municipais de artes ou até ser capital de cultura. Pelo exposto, durante todo o mês de Março, penso que os leitores compreenderam como a realidade está distante das campanhas eleitorais.

               

Nota: Com mais pompa que os demais anos, o labor festeja o seu 28º aniversário. Os meus parabéns a todos: diretor, redação e demais colaboradores, não esquecendo aqueles que no passado contribuíram para o jornal alcançar esta longevidade.

 

(a publicar no dia 31/03/16)

quarta-feira, março 23, 2016

Produtores de arte

                Nas últimas três semanas salientei algumas das práticas culturais da cidade. Ao longo desses três artigos, comecei por focar a relação do Estado, através das Escolas e do ensino articulado, não esquecendo as atividades extracurriculares, como o teatro. Na semana seguinte, evidenciei como uma boa prática da Autarquia, a “Poesia à Mesa”, tinha sido bem assimilada pela população, que formou um grupo informal de declamadores de poemas. No texto da semana passada, debrucei-me sobre as associações e sua dedicação à promoção da cultura, quer como organizadores de eventos, quer como praticantes das mais variadas artes, ou mesmo, como formadores.

                Para esta semana reservei um outro tema, ainda cultural, sobre o produtor de arte. Onde se enquadra o produtor individual de arte, nestes conceitos coletivos (turmas, grupos e associações) existentes na cidade?

                Escritores, músicos, pintores, fotógrafos, escultores, poetas, ilustradores, cineastas, atores, bailarinas, desenhadores, entre outros, sem mencionar algum em particular, foram sendo referenciados ao longo dos anos pela imprensa local. Alguns fazem parte da comunidade local. Outros vivem fora da cidade, dedicando-se à arte como profissionais. Vários foram galardoados nas suas áreas de atuação. Um sinal de mérito na opção de uma forma de vida.

                A cidade em algumas áreas oferece formação: a preferência no secundário pela área de artes é possível na cidade; a Academia de Música ensina vários instrumentos, com uma componente teórica associada; o próprio Centro de Arte tem cursos para vários escalões etários, em áreas como pintura, fotografia, banda desenhada, desenho e serigrafia. Não esquecendo as aulas de dança nas Academias Liliana Leite e Luísa Mendonça, assim como, o ensino da Banda de Música de S. João da Madeira.

                Se aqueles que recorrem a estas instituições têm oportunidade de fazer apresentações ao público dos seus trabalhos, ou do seu desempenho enquanto instrumentista, o cenário é um pouco mais dificultado para os outros.

                É certo que sempre existiram espaços comerciais com vertente de galeria, exibindo nas suas paredes quadros com pinturas, desenhos, fotografias, tapeçarias ou azulejos de artistas locais ainda sem nome no mercado da arte. O mesmo acontecendo nas exibições de grupos musicais, que atuam por vezes em espaços comerciais de horário noturno.

                A Biblioteca Municipal neste capítulo tem sido sempre uma boa montra para os novatos artistas locais.

                Nos últimos anos, com a difusão da animação de rua, vários artistas passaram a dedicar-se às artes circenses. Obviamente, que a rua é o melhor local para a sua exibição. Espontâneo, ou organizado por associações, ou mesmo pela Autarquia vão surgindo episódios destas manifestações.

                A criatividade ganhou espaço próprio na cidade. A vertente empresarial ocupa um grande espaço na antiga Oliva. A exposição dos vários negócios foi uma preocupação bem conseguida, com a abertura das portas para divulgação ao grande público.

São estas sinergias que são importantes conciliar. Aproveitar a atividade das empresas criativas, da animação de rua, dos artistas individuais, dos grupos informais, dos alunos das várias instituições de formação e mesmo das escolas privadas e organizar um evento no espaço da Oliva Creative Factory. Aberto ao público, com o objetivo de exibir a capacidade artística dos nossos conterrâneos.

No fundo, não é nada de novo. É recuperar a ideia que esteve na génese do espetáculo “Raízes”, que infelizmente se perdeu. Conferindo-lhe na atualidade um grau de transversalidade às várias artes, como teve o evento organizado pela Associação Estamos Juntos, em 1989, intitulado “Adeus ao Verão”. 

Como prefiro o modelo deste último, nada melhor para finalizar, do que propor a adaptação dum evento desta natureza ao calendário de festejos da emancipação da concelhia.

Votos de boa Páscoa.

 

(a publicar no dia 24/03/16)

quarta-feira, março 16, 2016

Associações Culturais

                Um prémio é sempre um sinal de reconhecimento do trabalho efetuado. Ao ser premiado o Festival “Party Sleep Repeat”, a Associação Cultural Luís Lima foi recompensada pela audácia em promover eventos culturais. Para quem começou há pouco tempo, nada melhor do quer ser laureado, imprimindo um caráter motivacional importante para os próximos tempos.

                Esta Associação assimilou o investimento autárquico em equipamentos culturais. Com mais auditórios, de capacidades diversas, com melhores salas para acolher espetáculos de lotações distintas, S. João da Madeira dispõe de infraestruturas suficientes para albergar iniciativas culturais de média dimensão, ou seja, adequadas para a realidade geográfica em que está envolvida.

                Tendo-se formado a Associação Cultural Luís Lima nos tempos atuais, pode-se utilizar uma linguagem informática, para a intitular como uma associação 3.0, relacionando-a com a mais recente reabilitação do património cultural da Cidade. Seguindo o mesmo princípio, recuando mais de duas décadas, arrolando a criação do Centro de Arte e a ocupação da antiga escola primária da Quintã, para instalação da Academia de Música, permite ligar-se estes dados com a fundação da Associação Cultural Alão de Morais e ainda com o Coro de Câmara de S. João da Madeira.

Para trás, no período de início da democracia, a grande época de incremento do associativismo, com génese cultural, desportivo e recreativo, envolvendo as três componentes no objetivo de cada associação, também a cidade viu nascer alguns clubes do género. Utilizavam-se os poucos espaços municipais disponíveis, como o Auditório construído na antiga Escola Industrial ou mesmo o antigo e devoluto hospital. Desse período, como associação exclusivamente cultural, ficou para a posterioridade a Tuna dos Voluntários. Abro aqui um parêntesis, para fazer uma referência ao Rancho Regional Laborânea, presumindo ter sido fundado nesta época, no entanto, não consigo precisar. De qualquer forma, apesar da alusão, julgo não estar enganado quanto à inatividade do referido Rancho. 

É importante ainda referir a Banda de Música de S. João da Madeira, anterior à fundação do concelho, o que prova o interesse da população por questões culturais, ao longo dos demais anos. Hoje com instalações novas, esta Banda foi sinónimo de aproximação da população à música, quando a oferta era reduzida e mesmo quando esta aumentou, a Banda de Música continuou a ensinar jovens e a permitir que tivessem contacto com as Orquestras Filarmónicas.

Neste espectro, convém referir algumas associações que difundem atividades culturais, quer com ensino e prática de dança, quer com a promoção de eventos, embora na sua atividade sejam igualmente desportivas, ou mesmo, instituições de solidariedade social. Não querendo ser exaustivo, fica a referência a grupos informais de teatro ainda ativos, a grupos musicais de vários géneros e ao clube de leitura da Biblioteca Municipal.

Feita a apresentação da participação em atividades culturais da população, empregada durante o dia, completando os interesses pelas artes em regime pós-laboral, observe-se com maior detalhe o Coro de Câmara de S. João da Madeira. Primeiro referindo a qualidade do trabalho efetuado nestas duas décadas, sempre elogiado por todos. Há, no entanto, outro aspeto que importa destacar. A afinidade dos elementos ao canto, pois além de serem membros do Coro, alguns são igualmente diretores. Esta especificidade, este associativismo pela arte, torna este coral como um exemplo a seguir pelas diversas manifestações artísticas existentes na cidade.

Julgo que seria a melhor opção para algumas das atividades culturais da cidade. O fomento do associativismo só poderia beneficiar a encenação do teatro, ou ajudar na criação de uma orquestra, ou a sustentar a poesia ao longo do ano, só para dar alguns exemplos. Com associações culturais específicas, suportadas nas atividades de captação de talentos, exercidas pelos grupos escolares de teatro, pelo ensino da Academia de Música, estaria assegurada a participação da população e claro, a sua vocação artística.

Não posso deixar de terminar, sem deixar um desafio, uma qualquer associação cultural de fomento de teatro em S. João da Madeira, deveria ter como referência o malogrado Doutor Josias Gil, que sempre procurou tanto como vereador, ou como professor, dinamizar o teatro amador na cidade.   

 

(a publicar no dia 17/03/2016)

quarta-feira, março 09, 2016

Inquietações poéticas

                Nos próximos quinze dias, a cidade respirará poesia.

                Como os demais anos, a Câmara Municipal promove uma nova edição da iniciativa “Poesia à mesa”. A programação continua a ser diversificada e este ano é um pouco mais ambiciosa.

Existe uma clara aposta da autarquia em Poesia, que não se limita à actividade programada para os próximos dias. O concurso literário “João da Silva Correia” é um bom exemplo dessa promoção.

É bom recordar que, durante anos, a Câmara Municipal de S. João da Madeira procurou investir no património. Identificados os edifícios com interesse municipal, houve dinheiro para a sua aquisição, reabilitação ou restauro e abertura ao público. Praticamente, ano após ano, sucederam-se os investimentos: ampliação da biblioteca municipal; transformação de edifícios a precisar de regeneração, finalizando-os, como os Paços da Cultura, o Museu da Chapelaria, a Casa da Criatividade e mais recentemente com a entrega à cidade da Oliva Creative Factory. Pelo meio, é importante não esquecer a reabilitação das instalações da Academia de Música. Nem, muito menos, as novas instalações da Banda de Música no espaço onde em tempos funcionou o Auditório Municipal. Nesta enumeração, temos que incluir dois edifícios que apesar de restaurados, não conheceram o mesmo fim que os restantes. Refiro-me à Quinta do Rei da Farinha e ao Palacete dos Condes (este praticamente reconstruído), ambos desocupados desde há anos, estando a sua futura ocupação a ser finalmente planeada.

Este cuidar do património, exigente em termos financeiros, foi completado durante todos estes anos com os diversos apoios às associações e iniciativas culturais, algumas destas avulsas. Neste sentido, pela sua longevidade e singularidade, a “Poesia à Mesa” ganhou o seu espaço. Primeiro por ser uma iniciativa organizada pela Câmara Municipal, quando o normal é haver um proponente e a autarquia subsidiar. Segundo pela sua afirmação no calendário municipal de eventos. Finalmente, por este evento ter sido assimilado pela população.

A compreensão dos habitantes da cidade não se limita à participação no programa, quer como assistentes, ou pendurando poemas, ou declamando os seus trabalhos. Existe mais actividade, que extravasa a “Poesia à mesa”.

Logo no início do texto, terceiro parágrafo, referi o Concurso Literário João da Silva Correia. Como é do conhecimento geral, nos últimos anos, este concurso inicialmente previsto para trabalhos de prosa e poesia, apenas tem premiado poemas. Essencialmente pelo número de trabalhos apresentados nas primeiras edições do Concurso. Este sinal de vitalidade da população, ainda hoje se mantém e teve uma maior visibilidade com as informais tertúlias de poesia. As “Fugas poéticas”, idealizadas e concebidas por um grupo de cidadãos, tem sessões regulares ao longo de todo o ano. Curiosamente, em diversos locais da cidade. Chegando a haver por parte de estabelecimentos comerciais o expressar de vontade em albergar as ditas “Fugas”, o que traduz a capacidade da poesia em ser cartaz cultural e ter público para a ouvir.

A expressão artística fica registada, para a posteridade, nas publicações nas páginas dos jornais locais de poemas avulsos de diversos autores. É igualmente importante referir a edição de poemas compilados em livros, que alguns poetas ousam propor aos restantes cidadãos. 

Se houvesse dúvidas sobre o efeito da iniciativa “Poesia à mesa”, por parte da Câmara Municipal, o facto de ter despontado toda esta energia na população (e sua desinibição) é um sinal de uma política cultural bem conseguida.

 

(a publicar no dia 10/03/16)