quarta-feira, maio 17, 2017

Finalmente tetra

Finalmente tetra

                O sábado passado foi intenso. Um sábado resumido em três “F”, pelo centenário das aparições de Fátima, pelo futebol e pelo Festival Eurovisão.

                Como podem ler no título da crónica, apenas vou referir o futebol, mais concretamente a conquista do tetra campeonato pelo Benfica. 

                O primeiro tetra campeonato foi conquistado em Portugal pelo Sporting. Corria o ano de 1954 e a mítica equipa deste clube ficou conhecida pelos “cinco violinos”, pela qualidade do futebol praticado, por igual número dos seus jogadores. Nas décadas anteriores, o Benfica tinha conquistado um tricampeonato, nas primeiras edições do Campeonato Nacional, feito igualado anos depois pelo Sporting. Conhecendo-se a rivalidade dos clubes lisboetas, percebe-se perfeitamente que alcançar um tetra campeonato foi uma obsessão para o Benfica. Depois de 1954, por quatro vezes, os encarnados conquistaram três campeonatos seguidos. O quarto escapou sempre. Umas vezes por poucos pontos, outras por mais e na última delas, em 1977/1978, o campeonato foi perdido pela diferença de golos marcados e sofridos.

Foi preciso esperar 39 anos, em rigor quase este número, pois faltaria um mês para se completar o aniversário, para os adeptos do Benfica conseguirem concretizar um sonho antigo: de igualar o feito da equipa de Jesus Correia, Travassos, Vasques, Albano e Peyroteo. É sabido que durante estas quase quatro décadas, aquele feito foi superado pelo Futebol Clube do Porto, pelo que, como se percebe, para os adeptos do Benfica um novo ciclo se inicia.

Os jogos decisivos são vividos por mim de forma especial. Transformo-me em adolescente, salto (quando não permaneço os 90 minutos sempre de pé), grito, enfim, vibro a ver os jogos. Este ano, optei por ver estes jogos acompanhado, em espaços públicos, como referi na crónica a propósito do Oliva Beer Mind, outros em espaços privados, quer em ambiente amigável, quer em ambiente hostil, ou em casa de amigos em ambiente de fraternidade e completo acordo na devoção ao clube. Adotando sempre a mesma postura de adepto, crítico nos maus momentos, incentivando quando as coisas correm mal e feliz por o jogo ter terminado. Há muito, optei por digerir rapidamente qualquer resultado.

Ver a festa de Lisboa, via BTV, apenas até à entrega da Taça ao capitão Luisão e depois repetir o ritual do banho de multidão na Rua João de Deus.

Quatro anos consecutivos, cada vez mais gente a encher as ruas.

A longa fila de automóveis, as perícias dos automobilistas, os fogachos, as tochas, os petardos a ecoar são as atrações da festa espontânea. Um manto vermelho, saltitante, repetindo os cânticos de incentivo à equipa são o motivo de união e os afetos trocados entre aqueles que se encontram por ali, tornaram as imediações do Largo do Souto, até à metade superior da Rua João de Deus, o principal destino do adepto do Benfica, residente na região envolvente de S. João da Madeira.

Apesar de toda a desordem observada, da ocupação da rua, do incumprimento do código da estrada, não foi preciso um contingente policial para serenar ânimos. A espontaneidade levou à desmobilização, contrastando com receções a equipas de futebol nos aeroportos, em que uma dezena de adeptos irritados, obriga à presença de três dezenas de polícias. Provavelmente terão razão as forças de segurança, em propor que os clubes de futebol passem a pagar diretamente o policiamento, nos estádios e não só, pois assim, os seus dirigentes, após a apresentação da fatura, seriam mais comedidos e deixariam de incentivar o ódio, retomando o desporto a sua vertente mais lúdica.

Feito o intervalo, nas próximas semanas retomo a análise política.

 

(a publicar no dia 18/05/17)

 

quarta-feira, maio 03, 2017

Dias de sossego

Em Abril ficaram a conhecer-se os primeiros candidatos às eleições autárquicas de 1 de Outubro. Apesar de ser prematuro fazer qualquer análise, por não serem conhecidas todas as candidaturas, é possível esboçar um pequeno comentário, face às decisões das últimas semanas.

Quem abriu as hostilidades eleitorais foi a CDU, com a apresentação dos três cabeças de lista. Tal facto comprova a eficiência desta coligação partidária, apostando na continuidade de alguns dos seus mais conhecidos militantes, o que é uma garantia para os eleitores que preferem votar em candidatos com provas dadas na comunidade, do que em políticos aventureiros e inconsequentes, com tendências demagógicas.

O anúncio da candidatura de Jorge Sequeira causou maior surpresa. Em primeiro lugar, por ser dado adquirido que o presidente da concelhia do PS seria o candidato do partido a presidente da Câmara Municipal. Esteve bem Rodolfo Andrade. Não seguiu as apostas dos comentadores políticos e provou que o PS pode ter outras soluções, que demonstram que o partido é democrático e não autocrático. Rodolfo demonstrou que é possível haver candidatos que não sejam simultaneamente líderes da concelhia, provando ser líder para servir o partido e não para se impor ao partido.

A reação do PS ao anúncio da candidatura de Jorge Sequeira foi curiosa.

Na primeira semana, quando o jornal O Regional anunciou em primeira mão o candidato, surgiram nas caixas de comentários na página da internet, sob um cobarde anonimato, uma série de críticas tanto ao presidente da concelhia, como ao visado. Na semana seguinte, já com certezas e informando o calendário da Comissão Política Concelhia, continuaram os comentários depreciativos. Ao ler tudo isto, esperava-se uma divisão do partido e que o nome proposto fosse aceite com uma diferença de votos muito baixa. Assim não aconteceu. Conforme foi notícia a semana passada, o nome de Jorge Sequeira foi aceite e bem, tendo recebido apenas um voto contra e dezasseis favoráveis.

Rodolfo Andrade e Jorge Sequeira ganharam o partido e isso verificou-se no dia 25 de Abril, com militantes e independentes afetos ao PS a acompanhar o candidato pelas ruas da cidade. Não se pense que são tudo rosas, os espinhos continuam a abundar nos comentários online no outro semanário local, obviamente anónimos e no mesmo tom de despeito e de falta de respeito, como se verificou nestes primeiros dias de Maio.

Independentemente de tudo isto, o regresso de Jorge Sequeira foi uma lufada de ar fresco para a política local. Ele é um militante indefetível do PS, com muita experiência política. O seu currículo demonstra-o. A garantia de serviço à comunidade é uma mais-valia do candidato do PS, em especial, pela sua ligação desinteressada ao associativismo, como se pode comprovar pela diversidade de instituições em que desempenhou funções, bem como pelos diferentes cargos ocupados.

Por ora, é isto que importa realçar. Permitindo que os democratas de S. João da Madeira fiquem descansados, pois sabem que seja qual for o resultado das eleições de 1 de Outubro, o progresso da cidade não será posto em causa, atendendo à sensatez que Jorge Sequeira demonstrou ao longo dos últimos 30 anos de vida pública. 

Duas notas finais: a primeira para dar os parabéns a ADS e à sua secção de basquetebol pela capacidade de mobilização demonstrada ao longo do último fim-de-semana, ao encher a sala de fornos da Oliva, na exposição levada a público. A segunda para as eleições presidenciais francesas, deste Domingo, fazendo votos para que os próximos tempos na Europa, não se tornem em dias de desassossego.      

 

(a publicar no dia 04/05/17)

 

quarta-feira, abril 05, 2017

Os dias no Oliva Beer Mind

À chegada ao festival de cerveja artesanal foram-me propostas duas opções: beber limonada e ginger ale, ou em contrapartida, beber o líquido em promoção na Sala dos Fornos da Oliva. O espaço estava composto de pessoas, ainda se conseguia circular facilmente, pelo que optei por circular pelos cervejeiros, cumprimentar os que estavam atrás do balcão que eu conhecia e fazer uma refeição, escolhendo uma primeira cerveja para degustação.

À partida sabia que não provaria os 120 sabores presentes no certame, nem muito menos conseguiria percorrer os 20 expositores. A minha estratégia para a primeira noite foi consumir as marcas mais conhecidas, dando preferência aos vizinhos regionais: Ossela, Santa Maria de Lamas, Aveiro e Porto. Deixar-me levar pelos sabores, aceder ao chamamento de alguns cervejeiros mais hábeis a contactar os visitantes do festival. E enquanto percorria as zonas iam observando a evolução das marcas, a melhoria da oferta, a forma como os produtos estavam expostos, ou mesmo, os seus nomes escritos a giz em ardósias pretas, como em tabernas antigas. Sorri com as charadas com o nome de estrela da música rocK, quer de artistas, quer de bandas, ou de títulos de álbuns associados a sabores, lembrando-me a minha ousadia na crónica da semana anterior.

Pelo meio ia revendo amigos de sempre (alguns 30 anos depois), ia vendo famílias a chegar. Pais acompanhados pelos filhos e avós acompanhados de filhos e netos e senti que o evento tinha atingido nessa primeira noite o seu objetivo: dar a conhecer aos sanjoanenses a cerveja artesanal portuguesa (e alguma espanhola) e em contrapartida, proporcionar-lhes um local de encontro, de reencontro, em espaço animado e com bom ambiente. Retive dessa noite, sinal claro do convívio proporcionado pelo festival, as crianças “invadindo” o palco e dançando ao som do ritmo jamaicano, produzido pela banda a atuar.

No segundo dia, já foi difícil estacionar. A rua interior da Oliva Creative Factory, de acesso ao evento, tinha imensas pessoas a circular. Seria bom para o espaço que todos os sábados à tarde fossem assim. Na Sala dos Fornos estava já uma multidão. Alegria no palco e junto aos expositores. Prometia ser mais uma noite de muita animação. É claro que havia o jogo de futebol, que poderia desmobilizar adeptos, ou criar atritos entre ambas as fações. E havia sempre a debandada sanjoanense de sábado à noite, com destinos vários, o que transmitia incerteza à adesão noturna ao festival.

Antes desses momentos, deu para saber que os forasteiros, cervejeiros, estavam encantados com a cidade e as suas gentes. A senhora da venda de copos e fichas à entrada estava surpreendida pela compreensão e simpatia do público visitante.

Para este segundo dia, depois do jogo, tinha definido visitar os restantes cervejeiros, menos procurados pelo público, por isso, menos afortunados. Lá fui conhecendo outros sabores, uns aceitáveis, mesmo que doces, outros intragáveis, pelo menos ao meu paladar. Enquanto isso, o espaço encheu, literalmente. Fiquei um pouco no exterior, vendo a chegar mais gente, muito nova, um público diferente do dia anterior. Ainda assim, em grande quantidade e igualmente um número razoável de famílias completas. 

Com o avançar da hora, o público disse presente. Os visitantes iam desarmando devagarinho, sempre com cara de satisfeito pelo momento vivido. Ainda assim, deu para ver jovens a dançar no palco e ouvir o som de Iggy Pop, proposto pelo DJ de serviço.

Ao terceiro dia, mais curto, sem prolongamento noturno, com menos público e igualmente diferente dos dois anteriores, ao som de música de inspiração balcânica, o festival continuava acolhedor. Visitei o espaço de culinária, repleto de crianças, que até esse dia não tinha tido oportunidade. Por ali circulei, perguntando pelos negócios, confirmando com ou outro fabricante como estava o volume de vendas. Nalguns casos nem precisava de perguntar, nas ardósias demonstrava-se a indisponibilidade de alguns paladares.

Momento de fim de festa e um pouco antes do final, dirigi-me à venda de limonada e ginger ale e comprei um copo de cada. Um último e surpreendente paladar.

 

(a publicar no dia 06/04/17)

 

quarta-feira, março 29, 2017

Beber uma "dijssel-bock"

No rescaldo das eleições holandesas, realizadas no passado dia 15 de Março, importa relembrar dois factos:

a)      o empolamento do resultado eleitoral partido nacionalista;

b)      o apagamento do partido social democrata.

Analisemos o primeiro facto.

Já tinha acontecido nas eleições presidenciais Austríacas, nas quais a comunicação social praticamente só destacou o resultado do candidato do partido perdedor, relegando para segundo plano, o vencedor – Alexander Van der Bellen, afeto ao partido ecologista. De tal forma que passado três meses, mesmo depois das eleições Austríacas terem sido repetidas, tendo o resultado final confirmado o primeiro escrutínio, ainda surgem referências aos 44% dos votos do partido de extrema-direita, como se tivesse sido uma vitória eleitoral.

O mesmo aconteceu na Holanda.

Apesar de várias sondagens preverem um resultado favorável ao partido nacionalista (PVV liderado por Geert Wilders), mesmo com a interferência exacerbada da Turquia na campanha eleitoral, o vencedor foi o partido conservador (VVD), liderado pelo primeiro-ministro Mark Rutte. Na divulgação dos resultados na imprensa Portuguesa, em muitos casos, a imagem que acompanhava o texto era a fotografia de Geert Wilders. Estranho no mínimo, não é?

E apesar do PVV ter conseguido apenas 13% dos votos, tal como mais outros dois partidos, elegendo exatamente o mesmo número de deputados, foi-se analisar o resultado à décima, para divulgar que afinal este partido tinha ficado em segundo. A coligação governamental ainda não está formada, havendo apenas uma certeza, o PVV não será governo, pois todos os outros partidos declararam-se indisponíveis para fazer acordos com o partido nacionalista.

O efeito prático do empolamento dos resultados eleitorais na Europa central não é claro. Não se percebe se o objetivo é minimizar o populismo para eleições em países como a França ou a Alemanha, ou se pelo contrário, a intenção é enaltecer o crescimento destes partidos. Contudo, como verificado nas urnas, os resultados demonstram que a vontade popular europeia não se modificou assim tanto.

Relativamente ao PvdA (partido de inspiração social democracia), inscrito na Internacional Socialista como o PS Português, foi o maior derrotado das eleições Holandesas. A coligação governamental, nos últimos anos, com o partido conservador, promovendo políticas de austeridade foi extremamente penalizadora para o PvdA, desmobilizando os seus eleitores habituais. Apesar desta evidência, tentou abafar-se o mais possível o resultado Holandês, sobretudo, entre os detratores do Governo de António Costa, que colocou o seu partido noutro caminho da social-democracia.

Acontece que o líder do PvdA, Jeroen Dijsselbloem, resolveu mostrar o seu caráter. Nem uma semana tinha passado do escrutínio eleitoral e soltou uma série de insultos aos povos do Sul da Europa.

Muito se escreveu a este propósito.

Retirando toda a carga sexista associada ao discurso do Holandês, temos a oportunidade provar que os portugueses são iguais aos restantes povos europeus. Sabem distinguir momentos de trabalho, de momentos de confraternização e diversão.

        Este fim-de-semana, aproveitando o Oliva Beer Mind, festival de cervejeiros que reúne 20 produtores nacionais e 5 espanhóis, S. João da Madeira tem a hipótese de provar uma variedade de sabores, com nomes com os quais não estamos familiarizados. Com um pouco de sorte, haverá algum com a designação semelhante ao do futuro ex-ministro Holandês. Ou a certo momento da noite, no calor da animação, a articulação verbal daqueles paladares poderá soar a qualquer coisa parecido.  

De qualquer modo, brindemos a quem demonstrou conhecer-nos tal mal.

                              

(a publicar no dia 30/03/17)

quarta-feira, março 15, 2017

Portas e janelas

                Na década de 40 do século XX, em período da 2ª Guerra Mundial, a professora da Escola Primária deu como trabalho de casa, aos seus alunos, contarem as portas e as janelas de casa. Entusiasmado, o meu tio Joaquim chegou a sua casa e pôs mão à obra. Primeiro nas traseiras, no piso térreo e no primeiro andar, depois na frente da casa. Tirou o apontamento e no dia seguinte mostrou o resultado: 10 portas exteriores e 15 janelas. Ao ouvir isto a professora não acreditou. Considerou ser fantasia infantil e para demonstrar ao meu tio o seu erro, pediu aos outros miúdos que apresentassem os seus resultados. Escusado será dizer que não havia valores que se aproximassem, pelo que o meu tio foi corrigido pela professora, com a explicação que cada casa tinha duas portas exteriores no máximo e igual número de janelas, ou quanto muito, mais uma ou outra janela. 
                A indignação, por não acreditarem nele, fez com que o meu tio Joaquim adquirisse sensibilidade social desde muito cedo, pois para perceber a diferença na contagem, passou a observar a casa dos colegas com outros olhos. E dentro dos princípios cristãos, que o orientaram ao longo de toda a sua vida, este ensinamento acompanhou-o sempre e manteve-o simples.
O meu tio Joaquim contava o seu episódio sem mencionar as portas interiores. A este propósito, é bom recordar um ritual curioso, diário, de à noite, fechar todas as portas exteriores e portadas das janelas, com trincos e trancas. O mesmo acontecendo à sucessão de portas de compartimentos inferiores de modo a impedir o acesso pelo interior ao piso de cima. De tal forma, que a minha falecida avó Florinda dizia, com a sua graça, que qualquer ladrão noturno teria que abrir tanta porta, que só chegaria junto a ela de manhã, com toda a casa acordada.
Cada fechadura tinha um segredo. O meu tio António conhecia todos os truques daquelas portas. Foi com ele que aprendi a ser persistente para vencer uma fechadura. Um encosto, para folgar o mecanismo, noutros casos puxava-se a porta para cima, ou então para junto de nós. Ainda há, por lá, vestígios da sua numeração das portas e respetivas chaves. Embora haja outros motivos para recordar o meu tio António: a sua persistência em ensinar-me o hino do Futebol Clube do Porto, mesmo sendo eu já em tenra idade adepto do Benfica, ou até, pela sua disponibilidade em assumir os defeitos dos sobrinhos, ou mesmo, pela sua faceta mais liberal nos costumes.
A este propósito foi o meu tio Henrique, bastante mais velho que os restantes irmãos, que me ensinou como conquistar a liberdade noturna. Contou-me ele um dia como em jovem esticava a hora marcada, embora soubesse que à porta de casa o pai estaria à espera. Se foi assim, pelos anos 30 do século passado, haveria de resultar comigo, cinquenta anos depois. Este meu tio era mais aventureiro. Aos 75 anos, já viúvo, anunciou uma ida a França, sozinho num Fiat 127. Chegado a Lourdes, apontou para Berlim para ver o muro acabado de cair e ali chegado, ainda prosseguiu no seu pequeno automóvel até à Polónia para conhecer a terra do Papa – João Paulo II. Escusado será dizer que não sabia falar Alemão, nem muito menos Polaco. Regressou com pedras do muro e com uma grande aventura para contar. Quando, em 2016, anunciaram o centenário de Kirk Douglas, um dos atores preferidos do meu tio Henrique, adepto das fantasias de Hollywood, emocionei-me, pela carga familiar associada.
Só me apercebi da importância que aquela casa teve para os meus tios, quando há alguns anos, uma das irmãs do meu pai, a minha tia Josefina, já idosa e com graves problemas de memória, em que não reconhecia os seus familiares, ao passar em frente à fachada da casa, ao avistar aquela sequência de portas e janelas, exclamou “Olha a minha casa!”, isto depois de ter construído casa própria, onde habitou durante muitos anos.
As outras duas irmãs do meu pai, Rosa e Mariíta, felizmente ainda estão vivas e partilham certamente o mesmo sentimento dos seus irmãos.
O meu pai herdou a casa. Conservou-lhe a fachada, manteve as janelas e basicamente existe o mesmo número de portas, com pequenas alterações relativamente à contagem mencionada no primeiro parágrafo.
Como Domingo é dia do Pai, decidi partilhar com os leitores esta pequena homenagem familiar.
 
(a publicar no dia 16/03/17)

quarta-feira, março 08, 2017

Evolução do poder local

Nas comemorações dos 40 anos do poder local democrático, o atual Governo anunciou a sua intenção de transferir mais competências para as autarquias. Uma reforma descentralizadora, dotando os municípios de outra capacidade de gestão em áreas da educação, saúde e ambiente. Uma alteração que implicará um maior Orçamento Municipal, como prontamente reclamaram os Autarcas, exigindo uma maior cativação de verbas provenientes do Estado.

Uma reforma a ser desenhada em ano de eleições autárquicas e que nos remete para o ano de 2013, quando em véspera das eleições desse ano, foi apresentada a lei “Relvas”, com a fusão de freguesias, em união das mesmas e a possibilidade de transferência de mais competências para as mesmas freguesias, por parte das autarquias. Deixando o decreto de lei uma zona sombria, pois as competências das autarquias e das freguesias eram, em algumas áreas, as mesmas, o que permitiu que algumas Câmaras Municipais não delegassem.

Se as competências motivaram uma disputa entre autarcas, já a união de várias freguesias foi ficando assimilada ao longo dos últimos quatro anos. Em 2013, nas eleições ainda havia promessas de repor o mapa autárquico. Nos anos anteriores à união, aquando do estudo prévio e na iminência de perder a junta de freguesia, pelo processo de fusão ser desfavorável a determinado partido, houve vários presidentes de freguesia que anunciaram a hipótese de mudança de concelho.

Hoje está tudo mais estável.

A reversão, que caraterizou o ano de 2016, passou ao lado da lei “Relvas”, o que se compreende, pois esta inspirou-se no processo de redução de freguesias do concelho de Lisboa, implementado em 2012 por António Costa, atual Primeiro-ministro, enquanto autarca da capital. A racionalização do poder local, reduzindo o número de freguesias, embora com várias lacunas, foi conseguida e quatro anos depois, nas próximas eleições, soará a retrocesso ouvir-se falar em alteração do mapa das freguesias, especialmente porque a descentralização em curso implicará uma maior atenção dos autarcas e de todos os candidatos. E a descentralização passará pela municipalização e não pela regionalização, o que é uma novidade política.

Houve outro fator a condicionar o poder local e em particular, as eleições de 2013, o limite de mandatos para autarcas há vários anos no poder. A proibição de se candidatarem permitiu uma renovação em várias autarquias. Só que em 2017, feito o “reset” a muitos Presidentes de Câmara, começam a ser anunciados vários regressos e ainda estamos a 6 meses das eleições. Portanto, poderá haver ainda muitas surpresas. Ficará em jogo a capacidade democrática da inovação partidária, em contrapartida ao apego ao poder de alguns autarcas, contrariada pela limitação de mandatos.

Tudo dependerá dos próximos resultados eleitorais.

A este propósito, um parágrafo final, para a importância das eleições no concelho do Porto. Se em 2013, Rui Moreira, candidato independente, foi eleito com apoio claro do CDS/PP e camuflado por uma boa parte do PPD/PSD, em 2017, o carisma do candidato aumentou e aos anteriores, acrescenta-se o apoio claro do PS. Ora, neste período de quatro anos, houve um recrutamento para o atual governo na vereação da Câmara Municipal do Porto, por isso, não é estranho o apoio declarado. Ficando a dúvida, atendendo à previsível vitória de Rui Moreira, se esta coligação representa o futuro do PS, contrariando a tendência obtida na Assembleia da República, que se converteu na maioria parlamentar conhecida como “geringonça”. Teremos assim, no concelho do Porto, um laboratório político ou, pelo contrário, apenas o reconhecimento do trabalho autárquico realizado por Rui Moreira? O futuro dará a resposta.        

 

(a publicar no dia 9/3/17)

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Volatilidade

                Com o aproximar do final de Fevereiro, era suposto haver alguma divulgação acerca dos candidatos à Câmara Municipal de S. João da Madeira. A pouco mais de seis meses das eleições, se descontarmos o mês de Agosto, habitual período de férias, o tempo começa a ficar apertado para os novos candidatos. Para adquirirem credibilidade eleitoral, aquelas etapas iniciais, de apresentação pública, visita prévia às instituições locais, contacto com a população nas ruas e espaços públicos da cidade, terão que ser planeadas de forma acelerada, com prejuízo para os candidatos pouco conhecidos, relativamente a quem já está instalado na política local, sendo por isso, perfeitamente assimilados pelos eleitores.

                Surpreendeu por isso, por ser em contraciclo, a divulgação, em período pré-eleitoral, do auto afastamento, por renúncia de mandato, de dois vereadores do partido da oposição ao executivo municipal. Podendo tal facto significar a impossibilidade de se tornarem candidatos em Setembro deste ano, o que resultaria no abandono da vida política local ao fim de quatro anos. Ora, tal facto, para quem em tempos foi assessor do executivo de Castro Almeida, índicia uma prática de relação com a vida comunitária apenas na ótica partidária.

                A dicotomia política não se resume à separação ideológica entre esquerda e direita, ou vice-versa. O centro encontrou uma fórmula nova: a distinção entre progressistas e conservadores. O candidato independente às eleições presidenciais francesas, Emmanuel Macron, encontrou aqui a sua tábua de salvação para contrariar os extremismos que a velha dicotomia originou, com as respetivas derivas populistas e que estão a lançar o pânico no mundo Ocidental.

Na política local, as diferenças são outras e a maioria das vezes podem-se resumir à volatilidade versus cristalização. Nada melhor do que um exemplo para ajudar a perceber esta classificação. O falecido professor Josias Gil foi candidato autárquico em 1997 e em 2001. Quando terminou o seu mandato, continuou a participar na vida comunitária, quer lecionando, quer participando no grupo de teatro, ou através da vida associativa – foi presidente da delegação local dos Rotários (opto pela designação abreviada, para poupança de carateres), ou escrevendo nos jornais e editando livros. Poderia prosseguir, recordando o seu regresso à política ativa e o reconhecimento pela maioria dos agentes da política local, do seu desempenho enquanto Presidente da Assembleia Municipal. Um exemplo de uma longevidade política e um grande envolvimento na comunidade.

Existem mais casos e vários exemplos de membros de vários partidos com uma longa carreira política, associada à sua vida profissional e à participação em várias associações locais. São, portanto, os políticos enraizados na sociedade, que dão garantias de continuidade aos partidos em que militam e promovem uma política de proximidade para com a população, por participarem ativamente na sua vida comunitária.

A tal vertente de cristalização, em contraste com a volatilização. Esta última definida, de modo simples, pela ação dos políticos que à primeira oportunidade desaparecem da participação na comunidade. Há aqueles que prosseguem a sua carreira política com outras ambições e desempenhos, quer em cargos nacionais ou internacionais, que não podem ser confundidos com outros que desaparecem ou fim de alguns anos, não deixando rasto, nem se envolvendo nas Associações de Pais, ou nas desportivas, ou culturais, ou de solidariedade social. Ou mesmo criando outras formas de intervenção, pondo em prática muito daquilo que defenderam durante os anos precedentes, só que desta vez com ação.

As comunidades têm sempre lugares para todos. Haja vontade em permanecer e contrariar o julgamento popular, que se pode reduzir pela frase repetida exaustivamente ”eles o que querem é um tacho”.

(a publicar no dia 23/02/17)

 

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

O Comboio Urbano

A expansão do cartão “andante” para outros transportes da Área Metropolitana do Porto, incluindo o Vouguinha, poderá ser o primeiro passo para a hipotética reabilitação da antiga linha do Vouga.

O Vouguinha carateriza-se atualmente pelos dois ramais dos seus extremos: Espinho – Oliveira de Azeméis a norte e Aveiro – Sernada do Vouga. Longe vão os tempos da ligação da cidade vizinha ao sul e ainda mais longínqua é a memória da viagem até Viseu, serpenteando o rio que batizou a linha. Do passado permanece a bitola de via estreita, de largura métrica, praticamente a única do país, que tem como enraizada a distância entre carris de 166 centímetros, a chamada bitola ibérica. Outra caraterística desta linha são as suas composições, agora grafitadas, com as imagens suburbanas em movimento, como bem o expressou a pintora Maria João Gabriel.

Para os passageiros do Vouguinha, a expansão do “andante” só terá significado se houver ligação direta à cidade do Porto. As particularidades da linha, como vimos, são limitações para a sua integração na rede de transportes da Área Metropolitana do Porto. O terminar a Norte em Espinho é um contratempo, obrigando a um primeiro transbordo de transporte, que não é muito prático, para quem quer deslocar-se para o Porto, com o tempo contado.

Durante anos, o deslumbramento da região Entre Douro e Vouga foi transformar a linha do Vouga num metro de superfície. A hipótese de expansão do Metro do Porto para sul e o aproveitamento do corredor Espinho – Oliveira de Azeméis, tal como se fez com a linha da Póvoa (e chegou a projetar-se para a linha da Lousã, nas imediações de Coimbra) era a hipótese mais ventilada. Só que o Metro do Porto estacionou em Santo Ovídeo e o seu avanço para sul não é certo que seja para o litoral – o próximo passo será muito provavelmente chegar a Vila D’Este, com 17.000 potenciais clientes. 

Descartada a aproximação do Metro, é importante dar outra dimensão ao que resta da linha do Vouga, ou se quisermos ser mais precisos, ao seu ramal Norte. Enquadrar esta linha dentro dos comboios urbanos que servem a cidade do Porto é a solução mais lógica. Atualmente temos 4 linhas urbanas: a de Aveiro (coincidente com o troço da linha do Norte), a de Braga, a de Guimarães e a de Marco Canaveses. Acrescentar uma linha Porto – Oliveira de Azeméis é a opção mais fácil de entender e provavelmente a com menor custo de execução.

A existência de um traçado e de estações definidas permite enquadrar a futura procura desta ligação ao centro do Porto, com base na população residente nos concelhos ao longo do percurso e chega-se com facilidade a uma população alvo de aproximadamente 200.000 habitantes.

A distância entre a Linha do Norte e o Vouguinha, em Espinho, é menos de 100 metros. O início do túnel ferroviário, que carateriza Espinho, a sul, é precisamente encostado à estação da linha que une os concelhos do Entre Douro e Vouga. Significa isto que a ligação entre as duas linhas não será onerosa e não tem habitações entre elas. Existindo traçado, não é necessário expropriar. Além disso, já estão definidas as pontes, as passagens de nível e outras particularidades ferroviárias e como o alargamento entre bitolas é de 66 centímetros, não é de todo impossível incorporar composições mais rápidas, devendo para isso eliminar-se algumas anormalidades como a passagem de automóveis sem cancela e sem guarda, em curvas de baixa visibilidade.

Mesmo o aumento de composições na Linha de Norte, entre Espinho e Porto não deve constituir problema para a CP, sempre solícita a responder aos pedidos dos adeptos dos clubes de futebol, no frete para deslocação a jogos. É importante referir que a Norte da cidade do Porto os comboios urbanos, das três linhas mencionadas, seguem pela mesma via, até Ermesinde, desviando-se nesta localidade a linha do Marco. E mais a norte, em Lousado dá-se a bifurcação para Guimarães. Mesmo a linha que segue para Braga, surge de uma bifurcação em Nine, situada na Linha do Minho (Porto-Vigo).

Ora, se a norte do Porto foi possível conciliar várias linhas, também a sul não haverá problemas em acrescentar alguns horários ao tráfego ferroviário da Linha do Norte, fazendo uma bifurcação em Espinho.

Uma rede de transportes ferroviária, a sul do Porto, é vital para a integração na Área Metropolitana do Porto da população residente nestes concelhos mais periféricos. A facilidade de movimentação da população, com transportes mais rápidos, sem necessidade de utilizar o automóvel, ou uma sucessão de transportes coletivos, permitirá fixar mais residentes nestes concelhos da região do Entre Douro e Vouga.   

A evolução da linha do Vouga para comboio urbano, será o fim do suburbano Vouguinha no norte do distrito de Aveiro. Ficará consignado às ligações de Águeda à capital de distrito. Contudo, pela sua importância, terá um lugar na memória coletiva da população sanjoanense. 

 

(a publicar no dia 02/02/17)

quarta-feira, janeiro 18, 2017

A demolição (em jeito pimba)

O labor, o Jornal Notícias e o Porto Canal utilizaram o mesmo título, para noticiarem a demolição do Elemento Arquitetónico da Praça Luís Ribeiro. A utilização da expressão popular “pirilau” associada à sua queda, remete-nos para um registo de malícia, ajudando a focalizar o interesse dos leitores na notícia.

                Poder-se-ia continuar com a mesma linguagem, perguntando se o “pirilau” cumpriu a sua função?

                A sua construção não foi pacífica, por jamais ser entendida pela população. O batismo popular prejudicou a sua aceitação. Os pareceres técnicos para a sua demolição, mesmo durante a edificação, reforçaram a ideia.

A Praça Luís Ribeiro divide os pontos cardeais da cidade. É local de confluência de ruas. A edificação no lado nascente, dos anos 60 até aos anos 80 do século passado, formou uma meia-lua, não tendo sido possível a construção do círculo completo, com o mesmo tipo de edifício. A implantação do “pirilau” veio ocupar o centro, preenchendo em demasia um espaço que deveria ter ficado amplo, para se procurar encontrar o equilíbrio no complemento geométrico da zona central da cidade.

Os 25 anos de abertura ao público deram várias funções ao Elemento Arquitetónico. Sala de exposições, camarins para os músicos a atuar na Praça e sede de uma associação de jovens. Provavelmente, esta última foi a sua melhor ocupação. Sendo a Praça, no final do século passado, o local de encontro de jovens, dinamizar uma associação para os mesmos nesse local, foi uma excelente ideia. Muito apropriada e reforçada pelo trabalho desenvolvido e pela forte afluência à sede. 

Em 2001, tudo mudou.

A Associação de Jovens “Ecos Urbanos” foi desalojada, em Agosto desse ano. Houve posteriormente uma mudança do executivo municipal, no final de Dezembro, só que o regresso aos moldes antigos de ocupação do espaço e mantendo a proximidade aos jovens, fazendo da Praça o seu ponto de encontro, nunca foi recuperado.

Nestes últimos 16 anos, tenho dificuldade em recordar-me da utilidade do interior do “Pirilau”. Já o seu exterior serviu para a decoração de Natal, tendo num dos anos da década passada, sido aplicadas uma sucessão de lâmpadas, dando à Praça uma iluminação festiva (e não só), extramente atraente.

Ora, isto é manifestamente pouco, para um edifício municipal localizado no centro da cidade.

A hipótese de demolição ganha efetivamente sentido. A Praça ganhará amplitude. E as outras medidas anunciadas, como a reposição do trânsito, podem efetivamente ter sentido, para aproximar os automobilistas do centro da cidade e como alternativa ao fluxo existente na Avenida Renato Araújo. Ainda assim, o equilíbrio geométrico da Praça não será alcançado, ficando a meia-lua separada do resto, já que a estética de construção assim o impôs. 

Perante isto, havendo uma certa consensualidade sobre a demolição, verificando-se que a estratégia para esvaziar e retirar sentido ao edifício, começou há alguns anos, faltava vontade em promover a demolição.

Parece que será agora. Dando azo a que se termine com mais uma brejeirice: espera-se que, no futuro, não se ergam “pirilaus” de forma inútil.

 

(a publicar no dia 19/01/17)

 

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Eternamente Bochechas

                Era eu pequeno, bem pequeno e o mundo da política pouco, ou nada, me interessava. Os políticos apareciam em imagens a preto e branco, quer nos jornais, quer na televisão e vestiam-se todos de forma igual, muito formal, de fato, com gravata sobre uma camisa branca. As discussões à volta da política eram bastante crispadas. Observava os adultos com os ânimos exaltados e ouvia-se imenso barulho, mesmo nos programas de televisão.

                Por essa época, num regresso a casa, num final de tarde de Domingo, vindo de carro pela estrada nacional número 1, que era praticamente a única oferta, para quem queria voltar das imediações do Porto para S. João da Madeira, ao passar em Lourosa, presenciei os meus pais a ficarem surpreendidos ao verem Mário Soares em campanha eleitoral, numa carrinha Peugeot 504 beje, com apenas uma bandeira do Partido Socialista, sem comitiva atrás dele e com uma dezena de pessoas à sua espera. No fluxo intermitente dos semáforos da localidade, que ainda hoje subsistem, deu-me tempo para olhar e observar a felicidade daquelas dez pessoas a abraçarem Mário Soares e ele a retribuir. Para mim, era a primeira vez que via um político. Em carne e osso, a cores, sem roupa cinza-escura. Enquanto isso, apercebi-me que os meus pais trocavam os apropriados comentários, perante a desoladora cena presenciada, a pouca afluência de pessoas, à espera do antigo primeiro-ministro. Estávamos nos finais da década de 70, do século passado.

                O político ainda voltaria a vencer no partido, ainda voltaria a ser Primeiro-Ministro, resgatando o país da bancarrota, provocada por um governo da antiga AD, impondo uma segunda vinda do FMI. Na época, habitual, já que no seu primeiro governo, Mário Soares também teve que chamar o Fundo Internacional.

                Em 1986, apesar de eu ter apenas 15 anos, a eleição presidencial não deixou ninguém indiferente. Depois da primeira volta, o mundo político partia-se em dois. A maioria dos jovens tinham dísticos do “Prá Frente Portugal”, eu optei pelo “Soares é fixe”, no que foi a minha primeira participação em campanhas eleitorais. Cheguei a envolver-me na campanha, passando música na sede, que ficava situada na esquina da Praça Luís Ribeiro com a Rua da Liberdade. Aí senti a hostilidade entre a militância e a independência política, algo que infelizmente me acompanhou durante as décadas seguintes e que tantos dissabores me causaram.

                Se a vitória de Soares, a 16 de Fevereiro daquele ano, foi um marco político importante, os seus dois mandatos foram extremamente importantes na definição da condição de social-democrata.

Pelo meio surgiu a sua vinda a S. João da Madeira, que proporcionou uma lufada de modernidade à cidade, convertendo-se o centro em zona pedonal. Nessa visita, que segui com entusiasmo, tive a oportunidade de ser cumprimentado pelo Presidente da República, que vendo alguém a ladear as ruas, acenava sem qualquer despudor. Magricelas, cabeludos, vestido de preto, com botas de tropa nos pés, a todos, o Presidente cumprimentava, sorrindo com simpatia. Ato espontâneo, que tive oportunidade de verificar, anos mais tarde, nas ruas de Lagos enquanto se dirigia para o jantar, ou noutro registo, nas ruas do Porto, nos banhos de multidão das Presidências Abertas.

Recordo a campanha eleitoral de 1991, quando a Praça Luís Ribeiro encheu num Domingo à tarde, com a multidão à espera da passagem de Mário Soares pela cidade. O contraste com a campanha do final da década de 70, fizeram-me perceber como é importante não desistir, quando temos convicções ideológicas e políticas.

O seu segundo mandato presidencial foi, para mim, o seu melhor período político. De combate permanente à maioria de direita, demonstrando que nem tudo era sucesso em Portugal. Foi neste período que aprofundei a minha consciência política e este mandato vincou as minhas opções durante os vinte anos seguintes.

Mário Soares foi político toda a vida. Antes do 25 de Abril, durante o processo da revolução, nos anos da democracia, não conseguindo parar de se envolver nos atos eleitorais. Terá dito basta e arrependeu-se de o dizer. Esticou em demasia a corda, só que estava-lhe no sangue e jamais pararia, enquanto tivesse energia para participar em campanhas eleitorais.

Soares foi fixe.

Soares será recordado como um dos homens da liberdade e da democracia Portuguesa. É necessário acrescentar a tolerância e o pluralismo, que ele tão bem compreendia e incentivava.

                Soares é do Povo.

O eterno bochechas, sempre disponível para receber um abraço, ou um beijo das peixeiras nas suas faces.

Até ao Presidente da República atual, nunca houve outro, que compreendesse o simples Português, como Mário Soares o fez.

(a publicar no dia 12/01/17)

quarta-feira, janeiro 04, 2017

O que esperar de 2017?

                As eleições autárquicas, a realizarem-se em finais de Setembro, ou em princípios de Outubro, condicionarão o novo ano, no quotidiano da cidade.

                Enquanto não se queimam as etapas iniciais, com a definição de candidatos, importa verificar qual será a estratégia partidária para o ato eleitoral.

                Do lado dos partidos que suportam o executivo municipal, o cumprimento das promessas eleitorais das intercalares de 2016, sobretudo, a finalização dos 22 projetos de investimento serão o grande trunfo político deste ano. Conjugar a capacidade de investimento, mantendo o nível de endividamento da Câmara Municipal baixo, serão argumentos difíceis de contrariar. Acrescente-se a possibilidade de captar investimento privado, com o consequente aumento de emprego na cidade e o prato da balança ficará extremamente inclinado para a coligação.

Não esquecer, neste capítulo, a piscina municipal não construída. Obviamente que, rejeitar o investimento assegurado de três milhões de euros, será sempre penalizador para os partidos que assumiram essa posição. 

                Para contrapor esta argumentação, a oposição terá que encontrar trunfos para ter uma candidatura credível. Pouco mais lhe resta, para agradar a um eleitorado específico, senão suportar-se nas iniciativas legislativas da maioria parlamentar, que vai suportando o Governo PS.

                O próprio Governo deu o mote esta semana, ao anunciar uma choruda transferência de verbas para as autarquias, que possibilitará um desafogo financeiro em ano eleitoral.

No caso específico de S. João da Madeira, a reabertura da Urgência Básica no Hospital será sempre o principal argumento político, para todos os partidos que defenderam esta posição, aquando o atual Governo revogou o acordo com a Santa Casa de Misericórdia da cidade.

                Haverá outras medidas políticas vindas da Assembleia da República, que poderão influenciar as eleições autárquicas?

                Há sempre a tentação de associar Milheirós de Poiares a S. João da Madeira. Além do reconhecimento pela mudança, os votos da nova freguesia poderão afetar o atual desequilíbrio eleitoral existente, baralhando a contagem de votos.

                Por outro lado, a petição, acerca dos maus cheiros da fábrica de Arrifana, se conseguir alterar o modo operatório daquela indústria, através de regulamentação aprovada em Assembleia da República pode servir para demonstrar alguma capacidade política para resolver problemas ambientais, antigos, na região.

                Finalmente, não se deve descurar a hipótese de descentralização, na área da educação, em estudo pelo atual Governo, que além de trazer competências na matéria à autarquia, poderá devolver, por exemplo, equipamentos desportivos à cidade, como o pavilhão encerrado na antiga Escola João da Silva Correia. Outra hipótese poderá passar por recolocar os alunos pelos estabelecimentos de ensino dos vários agrupamentos e desmantelar, atendendo à existência de placas de amianto, a atual EB 2/3, transformando-a num complexo desportivo, em zona central da cidade, ficando por isso, mais próxima da zona habitacional.

                Poderá haver outras iniciativas legislativas que tenham repercussão para a cidade. No entanto, as atrás descritas poderão não ser publicadas até Setembro e a sua influência  ser nula nas eleições locais.

Para já vamos aguardar pelos próximos tempos, que como se sabe, serão de divulgação dos candidatos a presidente da Câmara.        

 

(a publicar no dia 05/01/17)

quarta-feira, dezembro 28, 2016

Para acabar o ano

A vontade dos habitantes de Milheirós de Poiares, em pertencer ao concelho de S. João da Madeira, conheceu novos episódios.

                A contra argumentação do Presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, Emídio Sousa, compôs-se em termos fortes, com acusações de traição, além de outras deslealdades entendidas por aquele autarca, por parte da edilidade sanjoanense.

                Há alguma trapalhada nestas acusações, que convém evidenciar. Em primeiro lugar, não existiu uma palavra simpática para com os munícipes da atual freguesia do concelho vizinho. A petição já entregue na Assembleia da República é desvalorizada, pois apesar do elevado número de signatários, aparecem alguns nomes de eleitores de S. João da Madeira. Mesmo que seja verdade e até poderá ser, a grande maioria é moradora em Milheirós de Poiares e expressou a sua vontade, tal como anteriormente, já o tinham feito em referendo. É claro que este mecanismo de participação da população na democracia foi igualmente ridiculizado, pois tentou-se evidenciar que a adesão foi baixa, isto é, houve uma elevada abstenção da população, por isso, os autarcas do concelho da Feira consideraram o referendo não vinculativo.

                Um parêntesis sobre este assunto, num país em que os atos eleitorais têm participação inferior a 50%, mesmo em eleições locais, significando com isto, que a maioria dos eleitos consegue a sua vitória, em condições idênticas ao do referendo de 2012 do Milheirós de Poiares, seria interessante a qualquer população rejeitar os resultados eleitorais, quando a abstenção fosse superior a 50%, impondo nova eleição até a participação eleitoral ser satisfatória.

                Voltando ao tema do momento, ficando evidenciada a forma pouco simpática como a população de Milheirós de Poiares tem sido tratada, veja-se o resto do discurso do Presidente da Câmara de Santa Maria da Feira.

Pela reportagem dos jornais locais, verificamos que os diferentes partidos estão divididos. Em S. João da Madeira, houve unanimidade na aceitação da pretensão de mudança da freguesia vizinha, pelo menos, no executivo municipal. Em Santa Maria da Feira, há duas posições opostas. De um lado, o PSD e o CDS-PP contra a vontade expressa pela população de Milheirós de Poiares e apoiando esta pretensão o PS e o BE. Nos grupos parlamentares, há igualmente deputados, eleitos pelo distrito de Aveiro, que apoiam a mudança. E mesmo não tendo sido referenciados na reportagem, haverá certamente deputados, com origem em determinados concelhos, que são contra qualquer mudança.

                Não sendo um choque de partidos políticos, nem de blocos ideológicos, temos então uma divisão nos partidos de direita. Perante esta desavença partidária, surgiu a acusação de traição.

Estamos perante uma?

Pode-se colocar a questão como sendo um ataque de militantes do PSD a independentes eleitos pelo partido, só que o Presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira fez questão de frisar que separa a população da nossa cidade dos seus eleitos, referindo-se ao coletivo da Câmara Municipal e não ao seu Presidente e portanto, homólogo.           

                Este vincar de posição de Emídio Sousa, toda a sua acusação, poderia demonstrar que haveria manobras partidárias, à primeira vista impercetíveis. A presença de Hermínio Loureiro na apresentação da petição, serviu para atenuar a ideia conspirativa, já que nas eleições partidárias do início do ano, a concelhia da Feira apoiou outro candidato. Perante isto, qualquer teoria de intriga, de desavenças das várias correntes partidárias, em torno de uma candidatura para renovação do PSD e que Emídio Sousa estaria a atacar alguém indiretamente, através da Câmara Municipal de S. João da Madeira, parece não fazer sentido.

                Não havendo justificação para a acusação do Presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, parece-me que o edil, não tendo percebido o interesse popular de Milheirós de Poiares, não valorizando a opinião da sua população, nem muito menos, a sua vontade expressa na petição e já anteriormente em referendo no ano de 2012, quis sacudir a “água do capote”, retirando sobre si a responsabilidade por ter mediado mal este processo, parecendo-me por isso, extremamente preocupado com o desfecho de uma hipotética mudança de concelho de uma das suas freguesias.

                Espero, por tudo isto, que em breve seja debatido o assunto em Assembleia da República e que a vontade popular seja atendida.   

                Votos de um bom ano de 2017.

 

(a publicar no dia 29/12/16)

terça-feira, novembro 29, 2016

As primeiras linhas sobre as eleições autárquicas 2017

                As eleições autárquicas para 2017 já mexem. Há dias, Jerónimo de Sousa informou que a CDU concorrerá sozinha, às mencionadas eleições. Por seu lado, numa entrevista concedida ao jornal labor no mês de Outubro, Moisés Ferreira já tinha avançando que o Bloco de Esquerda iria apresentar-se com listas próprias em S. João da Madeira.

Perante este cenário, com a esquerda fragmentada no período pré-eleitoral, começam-se a definir os concorrentes para as próximas eleições. Haverá alguma semelhança com as intercalares de 24 de Janeiro de 2016, caso haja coligação entre o PSD e o CDS-PP. Desconhecendo-se ainda se o movimento de cidadãos “SJM Sempre” continuará a apresentar-se a sufrágio, necessitando para isso de voltar a reunir as assinaturas para ser aceite a sua candidatura.

É bom recordar que, das eleições autárquicas de 2013 para as eleições do início do presente ano, o voto concentrou-se em duas forças concorrentes. A bipolarização PSD / CDS-PP versus PS foi retomada, pois tal não acontecia desde 1982. Embora haja registo de período de 4 anos (1985 a 1989), com os mesmos partidos com vereadores eleitos, contudo a coligação foi entre PS e PSD, tendo ficado o CDS, vencedor, isolado. Nos 20 anos seguintes, os executivos municipais foram formados por, pelo menos, três partidos políticos, que se apresentaram a eleições municipais não coligados. Até que em 2009, pela primeira vez, o executivo se reduziu a apenas dois partidos.

Em números de votos, a coligação de direita obteve em 2016, mais de 5.200 votos, ou seja, um acréscimo de 1.100 face aos resultados individuais dos dois partidos em 2013. Por seu turno, o PS também teve um acréscimo de votos, entre as duas eleições, 800 votos, que foram insuficientes para vencer as eleições.

Se analisarmos o número de dias entre estas duas eleições, que tenho vindo a reportar, chegamos a 840 dias. Significando com isto que o PS conquistou em média um apoiante por dia. Este aproximar de eleitores num período conturbado, de permanente campanha eleitoral, criou a ilusão ao PS local de não temer umas eleições intercalares. Só que em igual período, foi maior o número de eleitores que não se reviram nesta política de oposição do PS e preferiram reconduzir Ricardo Figueiredo à presidência da Câmara Municipal de S. João da Madeira, com maioria absoluta.

     Para 2017, na entrevista publicada na semana passada neste jornal, Pedro Nuno Santos defendeu que o projeto do PSD está terminado e por isso, atendendo à evolução das maiorias autárquicas neste concelho, será tempo do PS vencer. Para isso, conta com as políticas do Governo (reversão do acordo do Hospital com a Santa Casa de Misericórdia de S. João da Madeira) e com a apresentação de um “candidato forte”. 

Obviamente que a questão das políticas de Estado para benefício da cidade não é nova. No passado houve a apresentação de argumentos de melhorias introduzidas na cidade por Governos do PS. Os leitores devem estar recordados da comparação da construção da Escola João da Silva Correia com a remodelação da Escola Oliveira Júnior, entre outras polémicas, que teve o ponto alto na racionalização dos serviços de urgência dos Hospitais.

Esta argumentação, meramente partidária, é distante da população, por não haver proximidade entre os agentes políticos ao serviço do Estado e a campanha eleitoral para as autarquias. Sobretudo, em localidades com um forte conceito bairrista e um espírito comunitário enraizado.

Perante estes factos, só mesmo com a apresentação de um “candidato forte” - ou seja, de alguém inserido na comunidade local, com boas relações com os movimentos associativos, com reconhecimento profissional, conhecedor da vida partidária, com experiência autárquica e dos meandros da política - é que levará o PS a poder ambicionar, inverter o ciclo político iniciado em 2001. 

 

(a publicar no dia 01/12/2016)

quarta-feira, novembro 23, 2016

Algumas linhas sobre sons estranhos, recusa, esquecimento, ideologias perdidas e feitos históricos.

                A periocidade da escrita tem sido irregular e os temas a desenvolver sobrepõem-se, por isso, para não adiar por mais tempo a minha opinião, apresento um resumo de vários assuntos, que deveriam ter merecido outro fôlego.

                Sem cronograma, aqui fica um resumo dos apontamentos, que me acompanharam nas últimas cinco semanas, equivalente ao período em que não consegui o desenvolvimento ideal dos temas e por isso, optei por não publicar os assuntos em texto longo e apropriado.

1)      Leonard Cohen era um dos meus músicos favoritos. Herdei-o dos anos 60, por ser referência de vários artistas que eu apreciava e quando optou pela eletrização das suas músicas, durante a minha adolescência, todo o som pareceu estranho, quanto mais não seja, por o último dos bardos aderir ao som elétrico. Os longos poemas, a forma de os cantar, alongando ou entrecortando sílabas, promovendo arranjos musicais simples, com coros femininos, alguns com registos demasiadamente agudos foram a sua imagem de marca durante 20 anos. Anteriormente ao início de carreira de músico, Leonard Cohen escreveu poesia e prosa. Um dos seus livros acompanhou-me numas férias. Depois de ler o Ulisses de James Joyce, o livro “Belos Vencidos” era similar na provocação e experimentação sexual. Valia pelo significado da publicação na década de 60, reconhecida pelo seu carater de libertação. No entanto, a contínua comparação com a obra mencionada, retirou encanto à leitura. A edição de discos recentemente retirou aos seus primeiros trabalhos o estatuto de melhores da sua discografia. É curioso isto ter acontecido a um músico quando tinha perto de 80 anos, provando que a longevidade não é sinónimo de decrepitude. Nos últimos 30 anos, o músico recentemente falecido publicou imensos discos e fez vários concertos, em virtude da sua falência, após ter sido lesado por um contrato ruinoso promovido pela sua agente. Bob Dylan indicou como melhor álbum de Leonard Cohen, o editado em 2012 “Old Ideas”, o que consagrou a segunda etapa da sua vida artística, como divinal. Por mim, ouvirei eternamente “Dance me to the end of love” como se fosse a primeira vez, ou mesmo “The Stranger Song”, que continuarei a idolatrar como reconhecimento da tenacidade criadora de um artista que sempre soou como estranho.

2)      Aproveitando a deixa do ponto anterior, uma menção a Bob Dylan e ao seu Nobel. Se a Academia Sueca surpreendeu, por premiar formas diferentes de expressão literária, consagrando as letras das músicas do cantor norte-americano, como exemplo da sua influência na música popular, já Bob Dylan manteve-se fiel a si próprio, pela indiferença com que reagiu à notícia da nomeação e não desiludiu os seus fãs, ao recusar estar presente na cerimónia de entrega no Nobel. Não retirando mérito ao Nobel da literatura e apesar do prémio ser também o reconhecimento para outros escritores de canções, a atitude de Bob Dylan mostra que ele continua igual a si próprio, indiferente aos holofotes e recusando a exposição da sua vida pessoal.

3)      Umas pequenas linhas para mencionar o falecimento de António Manuel Relva, conhecido como Relvas. Era conhecida a sua ideia de viver à margem. Contou-me várias das suas histórias, uma passada em Lisboa, era representativa da sua opção de vida: estando ele no metro, verificou estar apenas na companhia de mais outro sujeito, de ar suspeito. Este começou a aproximar-se e Relvas pressentiu que ia ser assaltado, pelo que teve uma ideia salvadora, dirigiu-se ao desconhecido e pediu-lhe 100 escudos. Perante tal pedido, o outro não teve coragem de exigir nada. Relvas morreu esquecido, ficam as suas aventuras para o recordar.

4)      Há entrevistas que projetam o futuro. Pedro Nuno Santos concedeu uma ao jornal Público sintomática. Primeiro pela sua projeção pessoal, não será difícil adivinhar o seu futuro, como Ministro num próximo Governo do Partido Socialista. Mas, da entrevista ressaltou um facto ideológico: Pedro Nuno defende que esta solução governativa é o garante da social-democracia. Acredito mais depressa nele do que nas intenções do atual Presidente do PSD, em colocar este partido de novo nesta ideologia, com a sua liderança. A social-democracia à portuguesa é um caso curioso da política: dois partidos pretendem ser os seus defensores, um pelo nome que ostenta, com práticas liberais e outro pela prática política e com nome de esquerda democrática. O que fica demonstrado na entrevista de Pedro Nuno Santos, é que a corrida ao centro político já começou e a sua afirmação não foi gratuita, tem um significado político importante, pois definirá muita estratégia para os próximos meses.

5)      O último apontamento para o feito do futebol da ADS. A história vai-se escrevendo. Foi reconfortante ler as capas dos jornais no Domingo e ver as notícias da secção de desporto. É importante inverter a tendência das últimas cinco décadas: desempenhos individuais com maior projeção do que os feitos do clube. É bom saber do atual sucesso desportivo de antigos atletas da ADS, ou de outro clube local. Do mesmo modo, outros agentes desportivos também me despertam a mesma satisfação. Mas, quando recentemente li, superficialmente, que havia polémica entre um antigo treinador e os atuais dirigentes do clube, percebi que era bom que, nos próximos anos, a história fosse diferente. Pois apesar de desejar a maior sorte a todos os antigos jogadores, treinadores e até dirigentes, penso que é tempo de a ADS voltar a obter feitos históricos. Sem pressas, com ponderação, com o objetivo do reconhecimento coletivo. Para que, daqui a uns anos, ao comemorar o centenário do clube, a projeção do clube e seus agentes esteja em alta e se procure não noticiar o percurso de outros que por cá passaram.

 

(a publicar no dia 24/11/16)

 

quarta-feira, novembro 09, 2016

Assim vai o mundo

                A pacatez à beira mar foi interrompida, durante o pretérito mês, pela passagem da frota naval Russa. Nada de assinalável a registar, julgando que o itinerário previamente definido, foi cumprido na integra. Contudo, o invulgar movimento marítimo, fez acionar os mecanismos de vigilância da NATO. Durante uns dias, na base aérea de Maceda a movimentação provocou uma inquietação na área envolvente, com a constante descolagem e aterragem de várias aviões.

                Não é a primeira vez que naquela base houve um movimento inusual. Há alguns anos o a sucessão de revoluções nos países mediterrâneos, que ficariam na História como a Primavera Árabe, implicou um procedimento de prevenção militar da NATO, obrigando a uma certa alteração do quotidiano da base aérea.

                As precauções causadas por manobras da NATO são antigas. A primeira recordação que tenho está relacionada com uns elementos, a cumprir serviço militar obrigatório, de um grupo musical, dos anos 1980, Radar Kadhafi, que devia o seu nome precisamente a umas escaramuças na Líbia, quando o ditador ainda não tinha sido deposto e era ameaça pública para o mundo ocidental. Ora, alguns dos músicos ficaram retidos umas noites, no respetivo quartel, por prevenção militar, enquanto as manobras militares decorriam perto de Tripoli. Por essa razão, foram os concertos anulados e a banda adotou um novo nome.

                Apesar desta longevidade de ações militares, a diferença para contemporaneidade destaca-se pela aproximação da frota naval Russa à nossa costa. A anunciada deslocação de uma armada do mar Báltico para o mar Mediterrâneo, com o propósito de reforçar e intensificar os ataques no processo de paz da Síria, colocaram a Europa em alerta.

                Todos estão recordados da recente invasão da Crimeia na Ucrânia e na incapacidade Europeia de contrariar as tropas Russas. A pressão crescente na fronteira Russa com a Europa, desde o Norte até ao Sul, atemoriza os Europeus Orientais. Apesar dos boicotes económicos de retaliação, a ameaça bélica é intimidante para os povos transfronteiriços.

                Numa época que o conceito de Europa se desintegra – posições diferenciadas a leste e no ocidente, o Brexit e a incógnita das próximas eleições presidenciais francesas, é importante percebermos como funcionará a segurança Europeia nos tempos futuros.

                Neste capítulo é importante perceber que sempre houve diferenças históricas entre os povos europeus. O império romano conseguiu “impor” a paz na fronteira germânica, através de acordos com os Visigodos, que mantinham afastados de Roma os povos bárbaros. Até um dia… Mais tarde, o Sacro Império Romano Germânico impôs-se e acentuou a diferença entre as partes extremas da Europa. A modernização da Rússia, por Pedro o Grande, pressupôs a europeização do povo Russo. Os anos de invasões, guerra mundiais e revoluções colocaram em choque as diferenças entre os povos europeus. Na segunda metade do século XX, na “guerra fria”, a cortina de ferro foi a linha de fronteira entre as diferentes civilizações. A queda do muro de Berlim e o desagregar da União Soviética deveriam atenuar essas diferenças.

Seria bom que a História terminasse assim.

Os últimos meses inspiram cuidados.

A segurança Europeia baseia-se na força bélica transatlântica. A colocação de tropas da NATO na Polónia e nos países bálticos são sinais para o lado Russo, ou se quisermos, a transposição para Este da cortina de ferro.

Por estes dias, as eleições nos Estados Unidos na América evidenciaram alguma falta de solidariedade para com os povos Europeus. Os elogios a Putin e a suposta a interferência de piratas internautas russos podem ser interpretados de várias formas mas, no fundo, aproxima Europeus ao projeto do Partido Democrata.

Escrevo este texto, na noite das eleições Norte Americanas. Não sabendo, por isso, quem será o vencedor das eleições.

Espero que o bom senso prevaleça e que nos próximos anos não venha a dormir sobressaltado, pelas manobras noturnas das forças militares da NATO.

 

(a publicar no dia 10/11/16)

 

quarta-feira, outubro 26, 2016

O som do silêncio

                Uma homenagem requer as palavras certas. Fugir dos lugares comuns, dos elogios póstumos e dos padrões da solenidade é o propósito destas linhas, que serão o meu tributo à minha amiga Paula Pinto, recentemente falecida.

                Encontrar as palavras certas foi difícil, surgiram a custo e inicialmente sem sequência. O silêncio das condolências não era suficiente para o momento cerimonioso. Perante este dilema, pesaroso, sem muita inspiração, recebi o alento necessário para a escrita, ao escutar uma singela música. Uma versão de Nina Simone, ao piano e sem qualquer palavra, do êxito The Sound of Silence, permitiu-me recordar os momentos que se seguem.

Paula foi minha colega de turma, no equivalente ao atual sexto ano, na Escola EB 2/3, na época chamada Escola Preparatória Alão de Morais. Não me recordo se a conheci nesse momento. Isto porque nas férias anteriores ao ano letivo, participei no primeiro Campo de Férias Estamos Juntos, que se realizava na Escola do Parque, ou seja, nas imediações da casa da sua família e é natural que o conhecimento tivesse sido travado por ali.

                O início do sexto ano foi para mim traumático. A minha turma do ano anterior tinha sido dividida. Dos vinte e muitos elementos daquele quinto ano, decidiu a escola, colocar quatro ou cinco alunos por outras turmas que transitavam unidas do ano anterior. O choque foi grande. Para abreviar, lembro-me de passar as tardes livres pela escola, assistindo às aulas dos meus colegas do ano anterior, para assim, me manter ligado aos amigos de infância. Pela minha nova turma, a integração dos novos colegas foi assegurada pela Paula Pinto. Ela fez a ponte, atenuou as desconfianças e permitiu que os receios de quatro indefesos alunos, não se transformasse em algo mais complicado.

                Por aqui, tenho que acrescentar que a simpatia da Paula, sempre de sorriso na cara, modificou o meu conceito de beleza. A minha infantil imagem, narcísica – olhos claros e cabelos aloirados – esbatia-se e comecei a olhar com outro interesse para outras cores de olhos e mesmo para tonalidades de cabelos mais escuros. Embora, o tom claro de pele, que também a caraterizava, se tivesse mantido nas preferências.

                Depois desse ano, como colegas, nunca mais estudamos juntos. Eu continuei a dirigir-me para a piscina da Escola do Parque durante muitos anos, sobretudo, no mês de Julho e lembro-me de a ver, junto com os seus irmãos, alguns bem mais novos, em alegres brincadeiras, na varanda do apartamento, ou mesmo no final de tarde na estrada pouco movimentada, quando passávamos em grupo junto à oficina de pneus, que ficava no rés-do-chão do edifício. Também recordo, jogos de futebol nas traseiras da referida Escola, em que seu irmão Miguel nos deixava de olhos torcidos, devido à sua técnica e lembro-me de ter a Paula, em parceria familiar, como adversária nesses encontros. Acompanhei, pelo passar dos anos, o crescimento de suas irmãs e irmãos. Penso que ficou daí a cordialidade no trato com todos e a aproximação à sua irmã Lígia.

Os anos foram passando e os encontros alternavam entre o pontual e o frequente, pelos espaços de lazer da cidade. Mais pelas imediações da Praça. Ambos adolescentes à procura de algo novo e diferente, embora por caminhos alternativos. 

Mais tarde, ambos jovens adultos procurando um rumo para a vida. Neste capítulo, surgiu o reencontro, como colegas de trabalho. Lembro-me de entrar cheio de receio, numa área da fábrica onde iria começar a trabalhar, num final de tarde do dia 2 de Janeiro de 1996 e quando julgava que todos os olhares seriam duvidosos ou críticos, apareceu à minha frente a Paula, colocando-me à vontade no ambiente fabril, tal como catorze anos antes o tinha feito na escola.

Durante três anos, partilhamos gabinetes, reuniões, chefias, problemas a resolver, imprevistos surgidos, formações, etc.. Nesse tempo ficamos mais próximos. Dava-lhe boleia à hora de almoço, interrompendo esse bom hábito, durante uns meses em que laborei em regime de turno. Antes de ambos sairmos da empresa, procurando outros desafios profissionais, consegui retribuir as atenções que teve comigo ao longo da sua vida.

Cada um seguiu o seu destino. Paula encontrou o seu porto seguro. O meu afastou-me da cidade. Por isso, não acompanhei a sua chegada à maternidade. Só conheci os seus filhos alguns anos depois, encontrando-os acompanhados pelo Sebastião, o seu companheiro.

Nina Simone termina. No silêncio que permanece, as minhas memórias fixam-se na imagem de um final de tarde a regressar do tanque piscina do Parque e cruzar-me com a Paula, o Miguel, a Lígia, a Rita, a Ana, o Pedro e muito provavelmente acompanhados pelo Sérgio, seguiam juntos, irradiando alegria, prevendo-se uma grande noite de brincadeira familiar.

 

(a publicar no dia 27/10/2016)

 

quarta-feira, outubro 12, 2016

Depois da emancipação

Na continuação do artigo publicado na semana passada, sobre o significado da emancipação concelhia e a evolução comunitária nos 90 anos da sua história, importa, na presente edição, referir outros dados que permitirão entender a transformação operada na povoação ao longo das nove décadas.

Pode-se identificar três fases distintas nesta transfiguração quase secular.

A enorme vontade de afirmação perante os seus vizinhos, nos primeiros anos do concelho, fez de S. João da Madeira uma comunidade percussora.

Exemplo disso foram as  angariações de fundos, enquadradas pelo envio de remessas de grandes empresários brasileiros que marcariam as primeiras décadas do século passado. Só assim, se compreende a construção do hospital, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia, entre outros equipamentos. Sintomático, por ser ilustrativo, é a construção do pavilhão da ADS, antes de qualquer um das Escolas Secundárias, ou mesmo de iniciativa municipal.

Existe uma segunda fase de desenvolvimento, com a continuidade do forte investimento industrial, com a construção de imensas fábricas e instalação de lojas comerciais, a que se sobrepõe temporalmente o conceito de estrutura urbana do concelho, com a definição de zonas industriais, a abertura de arruamentos, o saneamento básico, entre outra infraestruturas essenciais, para a povoação adquirir níveis de qualidade de vida de primeiro plano.

                Em complemento deste desenvolvimento surgem as políticas do Estado de investimento em habitação social, entre outras ténues melhorias de descentralização implementadas.

Numa terceira fase, a atual, em que a economia local quebrou, não colapsando, mantendo empregos mas, sem a vitalidade e sobretudo, sem a visibilidade de outrora, a que não será estranho a aquisição de algumas empresas por capital estrangeiro, a autarquia adquiriu um papel preponderante no desenvolvimento da cidade.

Para retratar melhor a última fase, a contemporânea, verifique-se o grande investimento da Sonae no Centro Comercial, canalizado pela venda de terrenos da autarquia. Veja-se a ideia da incubadora de empresas, condicionando a opção empresarial a indústrias tecnológicas, quando no passado uma unidade industrial devoluta, permitia a instalação de micro empresas em fase embrionária, com o mais diversificado ramo de atividade.

                Três fases, não indexadas a anos certos, nem a regimes políticos distintos como os que o País viveu. Sendo certo, que a partir de meados dos anos 80, com as verbas atribuídas pelo Estado às autarquias locais, houve um desenvolvimento descentralizado, ainda assim em velocidade menor, quando comparado com a capital do País. Logicamente, que os fundos comunitários permitiram acelerar o progresso dos concelhos e S. João da Madeira não foi exceção. Assim, como as políticas de evolução dos vários Governos que permitiram a construção da rede escolar, de valências da Justiça, da Saúde, da Segurança Pública, incrementando a habitação social, entre outros investimentos públicos, a que não se pode esquecer a rede de estradas e autoestradas nacionais.

O perigo desta exposição ao serviço público ficou patente na última década, quando a necessidade de racionalizar os meios de Estado, colocou em xeque as repartições abertas pelo País e S. João da Madeira não tem uma história diferente, neste capítulo, dos restantes concelhos fustigados.

O ADN da população local é a conjugação das duas vertentes: a iniciativa privada e o investimento autárquico. Ponderado em doses apropriadas. Pensar que só com a última componente é que se promove o espírito comunitário é um grande erro.

Por aqui, pode-se explicar os resultados eleitorais dos anos da democracia, com o escrutínio das eleições autárquicas a ser, a mais das vezes, diferente da tendência das eleições nacionais.

A História por vezes é muito elucidativa.

 

(a publicar no dia 13/10/16)

terça-feira, outubro 04, 2016

A emancipação

A proximidade, da presente edição do jornal labor, ao dia 11 de Outubro, obriga à referência deste texto à emancipação concelhia de S. João da Madeira.

A sequência cronológica, frenética, de elevação a vila em 1924 e posterior passagem a concelho de freguesia única em 1926, não deixa muito fôlego para olhar para os anos anteriores.

É sabido que desde 1514, concedido foral por D. Manuel, foi constituído o concelho da Feira. Desaparecia o domínio feudal, iniciando-se uma regular aproximação do povo com o seu Rei. S. João da Madeira era uma das suas inúmeras freguesias. A maioria, ou a mesmo a totalidade, começavam o seu nome pelo devotado orago, fazendo-se a analogia das paróquias existentes, para se estabelecer a subdivisão territorial do concelho.

Em 1799, ainda em regime absolutista, surge o concelho de Oliveira de Azeméis. Das várias freguesias que o compunham duas delas, Arrifana e S. João da Madeira, viriam a desempenhar, nos anos seguintes, histórias diferentes e muito provavelmente interligadas. Com a redefinição liberal dos concelhos, por Mouzinho da Silveira, Oliveira de Azeméis agregou o extinto concelho do Pinheiro da Bemposta e, em contrapartida, perdeu Arrifana para a Vila da Feira. Ou seja, em pouco mais de 30 anos. É muito provável que este seja o momento decisivo para a futura emancipação de S. João da Madeira. O mal-estar da população de Arrifana - e do próprio concelho Feirense, pela sua amputação a Sul -, devia ser idêntico à da população de S. João da Madeira, que não devia ver com bons olhos a sua indexação a um novo concelho, que durante anos foi uma freguesia de igual calibre. Uma justificação para a latente animosidade entre populações.

É curiosa a relação das populações com as festas ancestrais. A venda de fogaças por toda a cidade de S. João da Madeira, no dia 20 de Janeiro, sempre me surpreendeu. Com o avançar da idade, apercebi-me de uma simpatia da população local e das freguesias vizinhas, algumas do concelho de Oliveira de Azeméis, com a festa das fogaceiras e o seu cortejo etnográfico. Para cimentar a minha posição, testemunhei a presença de um antigo Presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, integrando o referido cortejo, e a forma como os populares se relacionavam com ele, permitia verificar a forte inclusão da população desta cidade na assistência. 

A emancipação de Espinho, saindo do concelho da Feira, no final do século XIX, permitiu entrar-se no século anterior com a ambição de tornar S. João da Madeira concelho. As pretensões dos sanjoanenses intensificam-se com a construção de edifícios icónicos e a constituição de associações. O progresso industrial, a melhoria económica da população, as boas acessibilidades, por estar inserida na estrada nacional Porto – Lisboa e servida de linha de caminho-de-ferro, incentivou a emancipação. Historicamente, tal facto devia ter acontecido na Primeira República, ou seja, na mudança de um regime para outro, ficando a criação do concelho como uma marca dessa alteração regimentar. Tal não aconteceu. Só com a revolução de 28 de Maio e pela mão do Almirante Jaime Afreixo, é que S. João da Madeira atingiu o seu objetivo.

Existe outra curiosidade associada à emancipação. Precisamente a sua comemoração como feriado municipal. Apesar da referência ao orago no seu topónimo e da identificação da população,  precisamente com o nome do santo, não foi escolhido o dia 24 de Junho para feriado local. Uma exceção regional, com laivos da moderna laicidade.

Esta segunda curiosidade permite refletir sobre a relação da população com a povoação. É conhecida e tem sido estudada, a ligação do homem com a terra. O sentimento de posse, tão útil na economia de subsistência, é transferido, com a mudança para a economia de produção, para outros valores. O conceito de comunidade modifica-se por conseguinte e a ligação ao território passa a ter outra importância. O bairrismo é a consequência desta modificação económica e social. E neste sentido, festejar o território como feriado municipal em detrimento de valores religiosos, acentuou a componente moderna da povoação, durante o século XX.

É certo que no século XXI, a agora cidade, já não pode viver isolada sobre ela mesma. Os tempos alteram-se de novo, as fronteiras territoriais “desapareceram” e a relação com as povoações vizinhas passaram a ser de parceria, sem prejuízo para qualquer das partes. A circulação dos habitantes desta região pelos vários concelhos, em função da oferta económica, residencial, social, cultural e mesmo turística, não esquecendo a prática desportiva, é, nos dias de hoje, o principal factor a caraterizar este vasto território, inserido no extremo sul da área metropolitana do Porto.

A diferenciação nos equipamentos poderá ajudar a fomentar a atratividade da cidade, mas tudo só estará completo se houver ajustamento social e recetividade à mudança, tal como foi evidenciado durante o século passado.   

         

(a publicar no dia 06/10/16)