quarta-feira, setembro 25, 2019

Umas perguntas aos futuros deputados

No boletim de voto das eleições legislativas do próximo dia 6 de outubro, para o distrito de Aveiro, constarão vinte partidos / coligações ou movimentos políticos.

Face a esta oferta é difícil conhecer o programa eleitoral da totalidade das forças partidárias. Muito menos, ficar com a noção se é apresentada em concreto alguma medida específica para o distrito. Do mesmo modo, saber quem são elementos que constituem cada lista é uma tarefa penosa e de pouca utilidade. Consegue-se obter facilmente o nome dos cabeça de lista de cada um dos partidos candidatos, só que ainda assim, há vários nomes perfeitamente desconhecidos para a maioria dos eleitores do distrito.

Neste capítulo, o concelho de S. João da Madeira está bem representado nos partidos / coligações atualmente com assento parlamentar. Particular destaque para os cabeças de listas do PS, BE e CDS-PP, respetivamente Pedro Nuno Santos, Moisés Ferreira e João Almeida, que têm fortes ligações à cidade.

Uma relação próxima com os futuros deputados permite solicitar-se ações. O mais frequente é os eleitores pedirem: ajustamentos da carga fiscal (nomeadamente do IVA na conta da eletricidade para 6%); melhor saúde pública (redução do tempo de espera para consultas); melhor ensino, melhorias na habitação, entre outras questões mais genéricas, que procuram promover um bem-estar da população.

Sem especificar o visado, nem tendo como alvo qualquer um dos futuros deputados, existe uma série de assuntos divergentes relacionados com a cidade que gostaria de colocar. Obviamente que não espero resposta, faço apenas este exercício para exemplificar ao leitor para que serve a proximidade de um deputado, ou se quisermos para ensaiar o que seriam os círculos uninominais e como poderia o eleitor exigir uma resposta a determinadas questões, sabendo que mais cedo ou mais tarde teria oportunidade de as cobrar ao eleito deputado.

A minha primeira questão está relacionada precisamente como círculo eleitoral. Apesar da proximidade geográfica à cidade do Porto, da inserção de S. João da Madeira na Grande Área Metropolitana do Porto, os eleitores de S. João da Madeira continuam a ter que eleger deputados por Aveiro. A pergunta que fica para a posterioridade é saber se na próxima legislatura este anacronismo será retificado?    

A segunda questão diz respeito ao património do Estado existente na cidade. Sabendo-se que a descentralização de alguns Ministérios tem sido uma realidade nos últimos anos, com a consequente passagem de competências para a autarquia, o que gostaria de questionar é se nos próximos tempos, essa descentralização vai abranger as Escolas Secundárias? Preocupando-me a condição devoluta do edificado na antiga João da Silva Correia, além do número excessivo de estabelecimentos de ensino face à demografia atual.

Ainda nesta questão, atendendo à condição de arrendatário do Estado sobre o Hospital da Santa Casa da Misericórdia, uma incisiva questão, haverá um plano de conservação ou reconstrução para os próximos quatro anos de todas as estruturas, permitindo uma melhoria do serviço ao público e em simultâneo que o património desta instituição sanjoanense não se degrade por falta de cuidado do inquilino?

Neste ponto, numa perspetiva diferente, poderão as valências do Estado de atendimento ao público, nomeadamente o Centro de Emprego e a Segurança Social, serem transferidas, para permitirem a revitalização de espaços da cidade necessitados de aumentarem a sua atratividade, como, por exemplo, a Praça Luís Ribeiro?

Nas infraestruturas nacionais, duas questões: o que fazer para tornar a A32 uma autoestrada alternativa em preço à A29 e A1? E a segunda questão, já enquadrando a preocupação ambiental e a faculdade de movimentação no espaço da área metropolitana do Porto, através do passe social acessível, quando ficará ligada a linha do Vouga, em bitola apropriada, à estação de S. Bento?

Uma última questão, mais direcionado ao Programa de Arrendamento Acessível (PAA). Atendendo à proximidade da secretária de Estado da Habitação, Ana Pinho e do Ministro da tutela ser precisamente Pedro Nuno Santos, seria bom para a dinâmica do mercado das rendas, para garantir boas condições para inquilinos e senhorios que os contratos antigos ficassem enquadrados no programa atrás mencionado, para evitar processos de despejo, ou de outras situações melindrosas para ambas as partes. Neste sentido, não ficando apenas a pergunta para um determinado partido, apresento a questão genericamente, o que fazer para enquadrar legalmente contratos antigos e cumpridores parcialmente do PAA?

Mais haveria para perguntar, ficará para outra oportunidade.

 

(a publicar no dia 26/09/19)

quinta-feira, setembro 19, 2019

Rigor, competência e honestidade

             Discute-se por estes dias, se os portugueses receiam ou não as maiorias absolutas de um só partido no Parlamento.
O facto de, nos últimos quarenta e três anos, terem sido eleitos três governos nessas condições (dois do PSD e outro do PS) confere estatisticamente a perceção. Os acordos pós-eleitorais, com a criação de maiorias parlamentares de partidos com ideologia próximas, através das quais se formaram Governos, têm sido mais frequentes. Governos minoritários, ou seja, com apoio parlamentar expressamente de um único partido é também uma solução a que se recorreu algumas vezes, obrigando a negociações com outras forças políticas, ou com um deputado como aconteceu entre 1999 a 2001, com a aprovação de Orçamentos de Estado dos Governos PS pelo deputado Daniel Campelo.
A arte de negociar, tão carateristicamente portuguesa, só não prevaleceu no hemiciclo legislativo em 28% do período democrático. Ainda assim, o PSD repetiu uma maioria (à inicial de 1987-1991, seguiu-se a de 1991-1995) e o PS (de 2005 a 2009) não o conseguiu. Pelos resultados eleitorais, comprova-se que as maiorias absolutas só agradaram aos eleitores portugueses apenas uma vez, em 1991.
Neste ponto, havendo sondagens que perspetivam uma possível maioria para o PS como resultado das eleições do próximo dia 6 de outubro, a questão pode-se colocar de outra forma, o que leva este partido antes da campanha eleitoral a recusar esta responsabilidade? Ou equacionando a dúvida na ótica dos eleitores, os portugueses poderão confiar nas maiorias absolutas do PS?
A primeira pergunta tem resposta imediata, António Costa é um politico com gosto pela negociação. Uma carreira comprovada por essa capacidade, não lhe permitirá encarar um futuro de maioria absoluta. O risco de tédio parlamentar, pretende-se evitar. Contudo, poderá não ser assim. Adio o resto do raciocínio para o último parágrafo deste texto.
A segunda questão não tem uma resposta tão linear.
Ao verificarmos as transições dos anteriores Governos PS: o primeiro período correspondente ao liderado por António Guterres de 1995-2001 com eleições em 1999 e o período de 2005 a 2011, liderados por José Sócrates, com eleições em 2009 verifica-se uma reação diferente do eleitorado. Em 1999, o PS saiu beneficiado das urnas, passou de 112 deputados para 115. Já em 2009, verificou-se o contrário, dos 121 de 2005, o PS reduziu o seu grupo parlamentar para 97 deputados, ficando em minoria e completamente isolado no parlamento, sem qualquer hipótese de coligação.
Resultados diferentes que poderão ser analisados pelo princípio da causalidade. Em 1999, o contributo como Ministro tanto de Sousa Franco, como de Marçal Grilo, António Vitorino e Elisa Ferreira terão ajudado a manter o eleitorado e até a reforçar o grupo parlamentar. A máxima “no job for the boys”, anunciada nessa legislatura, embora pouco verificada na prática, ficou como chavão para a posteridade e finalmente, havia poucos escândalos associados a corrupção. Em 2009, em plena crise, com uma sucessão de pactos de estabilidade, tudo foi diferente. As finanças públicas estavam prestes a colapsar, as nomeações para cargos públicos pouco respeitavam a competência, dando-se preferência a dirigentes partidários, alguns envolvidos em processos complicados em anos anteriores, como por exemplo Armando Vara, que tinha sido forçado a sair do Governo em 2001, por sugestão do Presidente da República Jorge Sampaio.
Em 2019, para seduzir o seu eleitorado, o PS precisa de garantir que continuará com a mesma política de rigor nas contas públicas. A continuidade de Mário Centeno terá que ser certa e obviamente que Portugal precisará de manter défice orçamental nulo, ou de preferência, com saldo positivo e com alguma capacidade de investimento público. Neste capítulo terá que ser garantido que apenas gestores competentes assumirão o controlo de cargos de nomeação, à semelhança de Paulo Macedo na Caixa Geral de Depósitos. Por fim, a honestidade dos seus militantes. O eleitorado que vota frequentemente no PS está cansado dos esquemas de favorecimento de familiares em negócios com o Estado, ou de outros casos de corrupção de menor ou maior gravidade. O princípio colocado em prática por António Vitorino (autodemitir-se quando recaiu sobre ele uma suspeita) deve ser orientador para os membros de um futuro Governo.
A campanha eleitoral vai arrancar no próximo dia 22, os candidatos têm muitas oportunidades para esclarecer estas e outras dúvidas do seu eleitorado.
Para terminar de responder à questão que ficou em aberto, sobre a hipótese de tédio parlamentar, é importante verificar as listas propostas nos vários círculos eleitorais pelo PS. Existem várias fações políticas dentro do partido, o que permite antever muita negociação no grupo parlamentar, entre a área mais à esquerda do partido e os seus membros mais moderados. Não faltará animação, mesmo havendo maioria absoluta.         
 
(publicado a 19/09/19)
 

quarta-feira, junho 19, 2019

Os sete ofícios

Com entusiasmo li o livro “Carlos Alberto da Costa – Um Olhar de São João da Madeira”, da autoria de Daniel Neto e José Duarte da Costa. 
A obra é um retrato do evoluir da localidade ao longo do século XX, aproveitando a perspetiva do trabalho fotográfico de Carlos Alberto Costa, o biografado. 
Sem complexos os autores retratam muito bem, a importância do lugar das Vendas no dia-a-dia da outrora aldeia de São João da Madeira. De tal forma, que a leitura do capítulo indicia que a perda da designação do nome do lugar em detrimento da Praça, surge não com o batismo toponímico atual, mas pela instalação naquele espaço do carro para aluguer de Francisco Luís da Costa, pai do homenageado. Aliás, aparece na página 30 do referido livro, um recorte de imprensa com a publicidade aos seus ofícios e num está um claro “Automóveis de Aluguer – Francisco Luiz Costa”, completando na linha de baixo “Praça – S. João da Madeira”. Um automóvel de aluguer era um carro de praça. Ainda hoje, em épocas de Uber e outras companhias, persiste esta designação provinciana para referir os táxis. A associação entre o carro de Francisco Luís e a Praça era tão grande que nas suas memórias, João da Silva Correia refere “o nosso Chico da Praça”, recordando a compra por este de um novo automóvel, numa passagem transcrita neste livro. Para completar este raciocínio, recorde-se que Luís Ribeiro faleceu em 1913 e que a atribuição do seu nome à Praça não deve ter sido imediata, por isso, a terminologia popular imperou, substituindo as Vendas pela nova função do automóvel de aluguer e vingou com a toponímia, impondo-se a verbalização de apenas a curta designação, sem referência ao benemérito sanjoanense.
A perspetiva de evolução da povoação é narrada no livro de um modo peculiar. Há as referências aos empreendimentos que envolveram a população e que imprimiram grande dinâmica urbanística a S. João da Madeira, incluindo a sua faceta industrial e empresarial, suportada pelas fotografias de Carlos Alberto Costa, mas há um cuidado em focar os momentos de lazer da população. Neste capítulo a referência às casas de espetáculo são obrigatórias: o teatro da Vista Alegre e anos depois as salas de teatro do Chico Folheteiro, o Cinema Central, culminando no Teatro Avenida. No livro de José António de Araújo Pais Vieira, “Manoel Vieira Araújo – a sua vida, a sua obra, a sua terra” havia referência às exibições de peças de teatro, encenadas e interpretadas pelos habitantes locais. O livro de Daniel Neto e José Duarte da Costa dá um enquadramento físico a essas apresentações, sendo um importante contributo para se perceber a história cultural da povoação. Mas, os autores não se ficam pelas primeiras décadas do século passado. Ao longo da cronologia que escreveram vão fazendo referências aos vários grupos amadores que foram surgindo no teatro, indicando as suas exibições e intenções de angariação de fundos.
Outro destaque do livro é a referência às eleições presidenciais de 1949. Não a perspetiva habitual de mencionar os apoiantes de Norton de Matos, ou a publicação dos documentos fotográficos dos comícios realizados no Teatro Avenida, cuja exploração estava a cargo de Carlos Alberto Costa. A curiosidade da referência é ter sido uma mulher a liderar a sessão. Conceição Silva Duarte teve coragem e determinação para assumir tão importante papel na reunião progressista. A referência de um dos autores do livro à sua avó materna, é completada por igual referência à sua avó paterna, Olívia da Costa Amorim e mesmo a sua mãe, Zulmira Duarte. Estas homenagens não se limitam à perspetiva da simples vida doméstica, antes pelo contrário, há a demonstração da participação ativa na vida empresarial, na sociedade local e com o exemplo atrás referido, um grande envolvimento de cidadania, com manifestações de preocupação de cariz social, nunca descorando a devoção cristã.
Estão de parabéns os autores por conseguirem imprimir tão importante documento para a interpretação da história de S. João da Madeira. Eu esperava encontrar os dados biográficos de Carlos Alberto Costa, os seus sete ofícios, as suas fotografias - tão importantes retratos da evolução da povoação (sem elas não havia boa memória), a menção aos seus filmes, com a exibição de alguns diapositivos e claro, a expressão da sua sensibilidade artística, pelas fotografias da ria a preto e branco e também pela construção dos seus trabalhos em pedaços de madeira. É certo que encontrei tudo o que esperava, mas as expectativas superaram-se quando vi outros aspetos em relevo, os quais atrás mencionei. 
No livro, há uma recolha de vários e importantes depoimentos acerca da vida e da obra de Carlos Alberto Costa. Há uma questão implícita que propositadamente fica por abordar, será que já se fez tudo para homenagear o fotografo de S. João da Madeira? Será o livro do seu filho em coautoria com Daniel Neto o último capítulo?
Em novembro de 2017, no rescaldo das promessas da campanha eleitoral para a autarquia, nas páginas deste jornal lancei o assunto de forma indireta. Ao compromisso do eleito presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, em desenvolver a “Casa da Memória”, relembrei o espólio de Carlos Costa, os seus filmes, suas fotografias, acrescentando agora, os seus trabalhos em raízes secas, além de acervos de outros privados que se encontram dispersos pela cidade. Este livro pode ser a “primeira pedra” para apetrechar a “Casa da Memória”, porque o património humano da população deveria ter um espaço próprio e condigno, para preservar a memória coletiva.
 
(publicado a 19/06/19)

quinta-feira, junho 06, 2019

A última aula.

Armando Margalho chegou a S. João da Madeira para jogar basquetebol na Associação Desportiva Sanjoanense. Quase em simultâneo, ficou indexado pela antiga Direção Geral dos Desportos, como técnico de Natação, no Tanque Piscina construído nas traseiras da Escola Primária do Parque. Durante a década de 70 e princípio da seguinte, várias crianças, jovens e alguns adultos tiverem Margalho como professor, monitor, ou técnico de natação. A longevidade neste ensino permitiu-lhe ensinar a nadar a pelo menos duas gerações de sanjoanenses. Aproximando-se nalguns casos, a três gerações.
Amante da atividade física, do desporto, Margalho - como o próprio gostava de ser conhecido e tratado, sem o titulo de professor, procurando o relacionamento próximo – procurou envolver-se na comunidade local. Apesar de atleta da ADS, foi um grande impulsionador do associativismo, estando no grupo dos dinamizadores d’os Kagados, quando a atividade desta coletividade era em torno do Parque da Nossa Senhora dos Milagres. Nos anos 80, foi um dos fundadores da Associação Estamos Juntos e seu primeiro presidente. No final do século, foi um dos grandes incentivadores para ser criada a Associação É Bom Viver.
 Ainda neste capítulo, recordar a alegria que emanava nas suas de aulas de adaptação ao meio aquático, junto das crianças do infantário e a criatividade ao idealizar os exercícios, em que à falta de equipamento adequado, surgiam soluções incríveis, para as crianças fazerem os mergulhos e habituarem-se a ter a cabeça debaixo de água. Assim também era nas aulas de “ginástica“ no infantário (IOS), onde era incentivada a flexibilidade e agilidade de movimentos. Abro umas linhas, para recordar umas aulas no antigo Jardim do Sol, numa cave e com uns colchões, onde se aprendia a dar umas cambalhotas e outras piruetas e às vezes, o Margalho levava-nos em grupo a passear pela Vila. Fui assim que conheci os caminhos do açude até ao Parrinho, o monte das Travessas, um belo pinhal no Espadanal, os moinhos dos Fundões e os da encosta de Casaldelo, quem desce para o Roupal. 
No desporto, tudo mudava. Margalho era um técnico exigente fisicamente. A doçura que transmitia às crianças, transformava-se em dureza. A responsabilidade era diferente. Assim treinou os jovens basquetebolistas da ADS e também os nadadores do mesmo clube, ainda no Tanque Piscina. Anos mais tarde, quando abriu a piscina municipal das corgas, liderou uma equipa da AEJ. Nessa época, 1988, atendendo à melhoria das condições de treino, preconizou que S. João da Madeira haveria de ter um atleta Olímpico. 24 anos depois, Ana Rodrigues conseguiria esse feito. Apesar de se ter afastado dos treinos de Natação, Margalho manteve-se como treinador de basquetebol e enveredou pelo hóquei em patins, durante umas épocas. É no basquetebol, antes da viragem do século que recupera a mística da ADS, organizando um torneio de homenagem ao malogrado Cassiano Inácio e aproximando antigos jogadores ao clube, condição em que tem funcionado a direção da modalidade, desde essa época.
Margalho é claramente recordado como atleta de basquetebol. Na ADS foi capitão de uma equipa que em 3 épocas subiu da 3ª à 1ª Divisão. Ainda foi jogador da AEJ e voltou a jogar como Master na ADS, já nesta década.
Pelo exposto, há várias formas de perceber a importância que Armando Margalho teve no Desporto e na atividade física em S. João da Madeira. 
Há ainda duas vertentes que importa referir para perceber a sua total participação na comunidade. A ocupação de tempos livres no período de férias escolares, sendo um dos  primeiros dinamizadores do Campo de Férias Estamos Juntos, atividade pioneira na região surgida em 1982. A outra menos conhecida, é a de divulgação cultural. Além de um programa de rádio, Margalho foi um dos organizadores do festival de artes Adeus ao Verão, realizado em 1989, na Praça Luís Ribeiro, onde se exibiram durante um dia vários artistas da cidade, das mais variadas expressões musicais, além de dança, teatro e pintura.
Na passada sexta-feira, dia 31 de Maio, pelas 17 horas, realizou-se a última aula de Natação de Armando Margalho. Milhares de pessoas foram seus alunos. Mais de 40 anos a trabalhar no desporto local, não deixam ninguém indiferente. 
Felizmente, escrevo esta homenagem sabendo que Margalho irá continuar ligado à comunidade. 
Haverá, no futuro, outros assuntos para serem descritos.
Se não for pela sua dinâmica desportiva, será certamente pelo acompanhamento familiar aos seus três filhos, ou então, aos netos e netas.
 
(publicado  a 06/06/19)

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

O Ministro

A notícia já era esperada mas, é sempre agradável ver um conterrâneo a tomar posse como Ministro. Pedro Nuno Santos é um dos muitos da diáspora sanjoanense, que encontrou, fora da sua terra natal, a oportunidade para exercer a sua atividade profissional. No seu caso a opção foi a carreira política.

                Na década passada, o agora ministro das Infraestruturas e da Habitação, ainda alternou entre S. João da Madeira e a capital, tendo exercido funções como Presidente da Assembleia de Freguesia local, seguindo-se a liderança nacional na Juventude Socialista, culminando com a sua candidatura a presidente da Câmara Municipal em 2009. Apesar de ter exercido o mandato de vereador, a partir de 2011, Pedro Nuno Santos optou pela política nacional, tendo sido esta escolha bem certeira. O seu percurso nos últimos cinco anos assim o demonstra: em 2014 apoiou a candidatura de António Costa à liderança do Partido Socialista; em 2015 toma posse como secretário de Estado do XXI Governo Constitucional, assumindo a pasta dos Assuntos Parlamentares; a sua capacidade de negociação com os partidos da coligação parlamentar fazem emergir o seu nome nos primeiros anos do Governo minoritário; em 2018 apresenta uma moção sectorial no congresso do PS, tendo defendido um posicionamento partidário mais à esquerda; em 2019, a oito meses das eleições legislativas, Pedro Nuno Santos chega a Ministro.

A expectativa em torno do futuro da sua governação é enorme.

O anterior ministro das Infraestruturas, Pedro Marques, apresentou um plano de obras ambicioso, sobretudo na ferrovia, embora alguma da sua execução, prevista para terminar ainda este ano, esteja muito atrasada. Se Pedro Nuno Santos seguir a cartilha deixada pelo seu antecessor, poderá, nos próximos meses e em futuro Governo, se for convidado para continuar na mesma pasta governamental, exercer um mandato tranquilo, já que existe um plano a médio prazo de várias e necessárias empreitadas até ao ano 2030. A acumulação da Habitação no mesmo ministério, área onde a igualmente conterrânea Ana Pinho tem vindo a promover alterações ao sector, tem também uma política a ser definida e traçada, podendo ser o complemento para exercer funções de Ministro de modo calmo e ambicioso.

Este Governo tem o mérito de lançar vários jovens como Secretários de Estado e Ministros, permitindo ao PS ficar com vários quadros com experiência governativa e com visibilidade na opinião pública, o que poderá ser importante para futuros confrontos políticos.

A entrada de políticos com pensamento ideológico bem vincado em determinadas áreas de governação, não tem propriamente significado continuidade com a política do anterior responsável. Há exemplos, não sendo importante personalizar, embora a título justificativo se possa analisar o mérito na capacidade de estudar e ponderar a política energética do novo Secretário de Estado com essa pasta, João Galamba.

                Atendendo ao perfil de Pedro Nuno Santos, ao seu passado partidário, à sua experiência governativa e parlamentar, não esquecendo a sua ambição política, não me parece que a cartilha de Pedro Marques vá ser seguida. O novo ministro deverá aproveitar esta oportunidade para ganhar um novo estatuto político, por isso, terá que ser capaz de criar uma política de investimento público mais dinâmica, precisando para isso de grande capacidade de reivindicação junto do Ministro das Finanças, sabendo que neste e nos próximos anos, a ideia será manter o défice perto de zero e de preferência diminuir a dívida pública de Portugal.

                Será neste exigente contexto, de rigor orçamental, com vontade de investir com poucos recursos financeiros, que Pedro Nuno Santos irá afirmar-se politicamente. Se for bem-sucedido, daqui a alguns anos, outros desafios políticos lhe serão lançados.  

               

 

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Desarticulação rodoviária

 

Na edição do dia 24 de janeiro do presente ano do jornal labor, ficou explicado o atraso para a finalização das obras da EN223. Apesar do prazo para a execução ainda não ter expirado, a suspensão da empreitada por várias semanas causou estranheza a quem percorre aquela estrada regularmente. Se as cativações governamentais foram a justificação para adiarem o início do melhoramento na EN223, já o impasse atual não sofreu de tal desígnio orçamental. Pura e simplesmente, o tempo frio e chuvoso foi o responsável pela paragem das obras.

Para quem viveu em S. João da Madeira nos anos 90, em que desde a idealização, até à construção de rotundas, tudo era executado a grande velocidade, verificar duas décadas depois que para instalar três rotundas em seis quilómetros numa estrada nacional serão necessários 400 dias, torna-se inconcebível.

Todo este processo, de uma ligação rápida de S. João da Madeira ao Nó da Autoestrada situado em Santa Maria da Feira, que sensivelmente há um quarto de século entrou nas promessas eleitorais, merece um pequeno comentário.

O que está projetado, evitar constrangimentos no fluxo de trânsito na EN223, era o que o comum do cidadão pensaria ser a solução desde que foi instalado um semáforo em Sanfins. As longas filas em ambos os sentidos, devendo-se acrescentar os engarrafamentos do entroncamento desta estrada com Arrifana e mesmo as restrições para atravessar esta vila, eram dificuldades para quem tinha que movimentar-se entre S. João da Madeira e o Nó atrás referido e o pretendia fazer de uma foram rápida.

A sucessão de melhoramentos nas infraestruturas rodoviárias reduziu o tempo de viagem, até aos dias de hoje. Só que este período, com a construção de duas rotundas, uma na vila de Arrifana e outro no entroncamento atrás citado, teve um incremento paralelo: a construção da autoestrada A32. Um investimento de 380 milhões de euros que devido ao preço praticado nas portagens não teve adesão necessária, não se tornando alternativa para desviar o maior fluxo de trânsito da A1, nem da A29.

Nesta última autoestrada (uma antiga scut), uma viagem de S. João da Madeira para o Porto tem um custo de portagem de 0,50 euros, para um veículo de classe 1, sendo possível fugir ao pórtico e nada pagar. Perante isto, não é de admirar que a empresa concessionária da A32 esteja em dificuldades, conforme a imprensa nacional noticiou na semana passada. Para explicar melhor, atente-se no preço das suas portagens: para o mesmo trajeto e o mesmo tipo de veículo custa 2,05 euros. Para o leitor menos familiarizado com os preços das portagens é importante referir que a taxa na A1, entre Santa Maria da Feira e o Porto, é de 1,5 euros. Três opções em viagem de autoestrada, com diferenças acentuadas de preço, somando-se uma quarta escolha, viajar pelo IC2 sem portagens. Percebe-se e considera-se natural que a via mais cara tenha menos movimento.

Chegamos ao ponto fulcral, o país gastou os milhões atrás referidos a construir uma autoestrada com pouco movimento, que não serve a maioria da população desta região, nem o trânsito de longo curso. Passado uma década e por pouco mais de dois milhões irá ser resolvido o problema de engarrafamento diário da EN223, com uma solução simples, há muito tempo idealizada, permitindo o acesso a duas autoestradas com preços mais reduzidos.

Imagine o leitor o hipotético cenário, para aumentar a competitividade da A32, os seus acionistas decidem promover um preço de portagem concorrente à A1, fixando a taxa por quilómetro em valor mais baixo. Suponhamos que praticam um preço em que o percurso entre o Nó de Milheirós / Pigeiros e o Olival (Gaia) fica por 1,5 euros, ou seja, com valor idêntico à A1 (na prática basta suprimir a portagem mais a norte da A32, que tem uma taxa de 0,55 euros). Muito provavelmente, num cenário destes, a A32 tornar-se-ia mais apelativa e o trânsito na EN223 entre S. João da Madeira e Santa Maria da Feira diminuiria.

Neste panorama, percebe-se que a falta de articulação entre o projetar de estruturas rodoviárias tornou-se dispendiosa para Erário Público e que as soluções que foram sendo construídas, muitas vezes não resolveram os problemas dos cidadãos. Referi estradas mas, haverá outros exemplos de investimentos desnecessários que obrigaram o país a endividar-se.

 

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Porque voltei

                No ano de 2001, a poucos meses do final do meu mandato como presidente do Conselho de Coordenação (Direção) da Associação Estamos Juntos (AEJ), publiquei na impressa local um manifesto vaticinando que o futuro deste clube passaria, forçosamente, por ter a sua sede social nas Corgas.

                Para trás ficavam quinze anos de história da AEJ, com as suas secções a trabalharem de forma isolada e sem sede comum. Nos primeiros anos, a associação teve apenas duas secções desportivas, natação e basquetebol. Após três épocas desportivas, esta última encerrou e passado uns tempos surgiu a secção de xadrez. É com base no trabalho destas duas secções que a AEJ atravessa a última década do século passado. Com o xadrez a viver em salas emprestadas e a natação a utilizar a piscina para treinos (cada secção reunia os documentos em casa do seu diretor), ressaltavam os resultados desportivos alcançados, que permitiam ter uma máxima incomum “fazer-se muito, com nada”.

Durante estes anos o tronco comum da AEJ era a organização do Campo de Férias Estamos Juntos, que tivera início nas traseiras da Escola Primária do Parque, no ano de 1982. No final dessa década, aproveitando-se o facto do Complexo Desportivo das Corgas ter sido finalizado, este Campo de Férias passou a realizar-se nestas novéis instalações municipais. Pelo meio, para o leitor ter uma ideia da complexidade do clube, surgiu uma secção de automóvel, dando apoio ao piloto local, Pedro Correia. Ou seja, mais uma atividade competitiva que não precisava de partilhar instalações com as restantes secções.

Em 1999 assumi a presidência da AEJ, conforme referi no primeiro parágrafo. O clube passou a ter uma reduzida sede social, alteraram-se os estatutos, criou-se o ficheiro de sócios, realizaram-se Assembleias Gerais duas vezes por ano, mantiveram-se as duas secções desportivas (natação e xadrez), o campo de férias alargou o seu horário para a tarde, diversificando a oferta aos participantes e ainda houve oportunidade para a inscrição da AEJ como associação juvenil, no então denominado, Instituto Português da Juventude.

Aqui chegado, surgiu o manifesto “AEJ clube das Corgas”. Obviamente que para crescer, a associação deveria ter outras instalações, para oferecer outros serviços aos seus sócios e à comunidade local, nomeadamente na criação de secções desportivas. Ao pensar nas Corgas, o objetivo era concentrar nesse espaço a totalidade da atividade da AEJ e aproveitar para lançar sementes para a criação da secção de Ténis, já que existiam courts na cidade e estavam subaproveitados.

                Antes de terminar o meu mandato, a Câmara Municipal de S. João da Madeira acedia ao nosso pedido e cedia umas salas disponíveis no complexo desportivo das Corgas, mais a gestão dos courts de ténis. Apesar de realizado o desejo, já não seria comigo que a AEJ se mudaria para lá. O meu mandato terminava, não me candidataria a novo e entretanto, em Dezembro desse ano houve eleições autárquicas e novo Presidente da Câmara Municipal, o que significou que o processo de mudança para a nova sede demorou um pouco mais. Ainda assim foi bem conduzido pelo meu sucessor, Nuno Fernandes, que após meses de negociações, conseguiu a cedência das instalações atuais, com o alargamento das secções / atividades do clube a estenderem-se ao ténis, capoeira, karting, motociclismo.

                Este enquadramento histórico servirá para o leitor perceber o meu estado de espírito ao longo dos últimos seis anos. Quem me acompanha, na sua leitura semanal, certamente se recordará que a AEJ foi tema recorrente destes artigos. Aqui, fui traduzindo as minhas preocupações sobre a forma como o clube estava a ser conduzido, desde 2012.

Por ser sócio fundador, o que por inerência me permite ser membro do Conselho de Fundadores – que é um dos órgãos sociais do clube, nunca estive totalmente desligado da atividade da AEJ. Confesso que me preocuparam todas as picardias envolvendo as anteriores direções, que levaram ao afastamento de vários elementos: primeiro da secção de ténis, depois da secção de natação, mais tarde do Conselho de Fundadores e finalmente do que sobrava da secção de Natação. De igual modo, também me entristeceu que a AEJ não tivesse honrado os seus compromissos com a Junta de Freguesia de São João da Madeira, falhando na gestão do espaço de fisioterapia e não assumindo os seus erros, preferindo seguir a via litigiosa, em lugar de procurar dignificar o seu nome.

Foi nestas circunstâncias, em que fui convidado para assumir outro cargo nos órgãos sociais do clube, nas eleições decorridas no passado mês de Outubro. Ofereci alguma resistência, impondo algumas condições, uma delas era essencial: não haver conflitos de interesse dos novos diretores, promovendo o seu trabalho em regime de voluntariado em prol da Associação. Nas reuniões de preparação da candidatura, apercebi-me que a AEJ ia mudar. Deixaria de ser gerida por um homem só e passaria a ter uma equipa a tomar decisões. Ponderando tudo, decidi regressar ao associativismo mais ativo, embora limitado pela pouca disponibilidade pessoal.

Para terminar, aproveitando a gentileza do jornal labor, passo a usar o meu novo estatuto de Presidente da Assembleia Geral da AEJ, fazendo um apelo aos sócios que estão afastados do clube, para reconsiderarem e que a sua ligação afetiva à AEJ seja suficientemente forte para voltarem a aproximar-se e envolverem-se no dia-a-dia deste clube de S. João da Madeira. Uma nova dinâmica associativa, aumentará o número de associados e tornará a AEJ mais forte no futuro.

 

(a publicar no dia 17/01/19)

quarta-feira, janeiro 09, 2019

Duas saídas, novas oportunidades

No período de um mês a autarquia teve duas baixas importantes.

Anunciada pela imprensa na semana transata, a renúncia do Vereador Pedro Silva, causou admiração pela sua passagem fugaz pela atividade política. Eleito como quinto elemento na lista vencedora às eleições autárquicas, este Vereador passou como um meteoro pela política local. Sendo um profissional da Educação Física, esperava-se que o seu contributo para o desenvolvimento desportivo da Câmara Municipal de S. João da Madeira, alavancasse a Carta Desportiva do Município e se traduzisse numa significativa melhoria dos níveis de atividade física e desportiva dos cidadãos, em especial, os jovens. Infelizmente, a sua prematura saída, não permitiu perceber qual o seu legado para a cidade.

Aliás, a política desportiva da autarquia continua a basear-se - e bem - no apoio às associações locais, acrescentando-se a necessidade de aumentar (e melhorar) as infraestruturas desportivas, continuando a faltar o vetor de fomento quer desportivo, quer da atividade física da população.

A entrada em funções de Rosário Gestosa, à partida para assumir o Pelouro do Desporto, poderá ser uma lufada de ar fresco, pois à sua experiência como profissional no setor, deve-se acrescentar o seu passado como atleta e mesmo o seu interesse como adepta, o que poderá ser impulsionador de algumas melhorias na política desportiva da autarquia.        

Em contrapartida, a saída em dezembro da Chefe da Divisão Cultural da Câmara Municipal de S. João da Madeira, Suzana Menezes, para uma Direção Regional da Cultura, não é uma boa notícia para a cidade. É certo que o seu vínculo à autarquia, coincidiu com um forte investimento municipal em reabilitação de edifícios históricos da cidade e sua reconversão em espaços culturais. Tudo isto permitiu a recuperação de património industrial, da constituição de núcleos museológicos em torno de produtos icónicos da indústria local, devendo-se listar igualmente a abertura de salas para acolher espetáculos. Suzana Menezes não se limitou a gerir as novas oportunidades, procurou impor programação, com conteúdos diversificados (destaque para a Poesia à Mesa). A longevidade na sua ligação com a Câmara Municipal permitiu-lhe trabalhar com quatro presidentes da autarquia. Ambos os fatores deram um estatuto inédito na autarquia à antiga Chefe de Divisão e a cidade reconheceu o seu trabalho.

Pelo exposto, pode-se perceber que estas duas saídas têm um valor diferente para o funcionamento da autarquia, o que acaba por ser curioso, porque num dos pratos da balança está a definição de políticas municipais e noutro a sua execução (ou um plano bem delineado sem qualquer ligação partidária). Parece claro que a execução tem neste caso um peso mais elevado no quotidiano do município.

É tempo agora de cimentar o trabalho desenvolvido pela Câmara Municipal na área da cultura, nas últimas duas décadas. Devendo-se aproveitar a oportunidade de mudança de agente para apostar: na revisitação do património humano da cidade, incluindo uma pesquisa à arqueologia de ofícios e primitivas formas industriais; no fomento do associativismo exclusivamente cultural; na fidelização de público, para estar presente nos vários palcos dos eventos a promover; na produção sistemática de eventos culturais, tendo como base a população local (tendência nacional, com consequência visibilidade na imprensa especializada); finalizando as hipóteses de melhorias, pela criação de sinergias de programação com os concelhos vizinhos, de forma a atingir uma massa crítica mais numerosa.

      

(a publicar no dia 10/01/19)

quinta-feira, janeiro 03, 2019

Um quarto com vista para a Praça

                A programada intervenção autárquica na Praça Luís Ribeiro tem merecido um debate interessante na imprensa local. Vários conterrâneos expressaram a sua opinião, de acordo com a sua sensibilidade pessoal, muitos recordando a sua vivência em torno do espaço referido e outros tantos, idealizando-lhe um futuro de acordo com conhecimento adquirido ao longo de visitas a outras cidades, quer nacionais ou do estrangeiro.

Sempre olhei para a Praça, desde o lado nascente. A varanda do meu quarto era um bom observatório e dali fui assistindo às transformações da Praça e também da Rua da Liberdade, onde morei.

Cresci com a Praça confinada à meia-lua do lado nascente e atravessada a poente pela estrada nacional número 1 (EN1). Carros a circular, carros estacionados, paragem de autocarros, praça de táxis, comércio variado incluindo pensões, 5 cafés, farmácias, máquinas de diversão, barbearias, garrafeiras, tabacarias, loja de colchões e mobiliário fico-me por aqui para não ser exaustivo, nem omitir alguma memória.

A transformação a que primeiro assisti, foi ao início da construção do edifício Parque América. Até à sua finalização, ficou concluído o fecho a nascente da Praça, de prédios com fachada e altura iguais. No mesmo período, foi demolida a poente, primeiro o andar correspondente à Pensão Sanjoanense e mais tarde o piso térreo, no qual estavam instalados o Café Império e o Café S. João, que ainda funcionaram com as traseiras derrocadas devido às obras do futuro “arranha-céus”.

A abertura do atual IC2, na época o novo troço da EN1 era designado por variante a S. João da Madeira, condicionou o futuro da Praça. Também contribuiu para o seu desfecho, a receção ao Presidente da República de então, Mário Soares, com uma Praça fechada ao trânsito, o que era inédito na cidade.

                O encerramento definitivo à circulação automóvel foi a consequência imediata, juntando-se à nova zona pedonal, uma série de arruamentos adjacentes à Praça. Para o futuro ficariam os problemas de trânsito que ainda hoje perduram, como o condicionamento na circulação nascente – poente, na zona central da cidade, assim como, a transposição norte-sul que é tudo menos linear.

                Através do meu quarto assisti à construção do elemento arquitetónico, à inauguração do Parque América, à transformação da Praça em zona comercial, com animação nas noites de verão, até que um dia, deixei de ali viver. À distância, tomei conhecimento das obras enlameadas, do nascer dos chapéus de vidro, ao aumentar a zona pedonal para ruas sem comércio e o transtorno causado a todos, comerciantes, prestadores de serviços e moradores, teve o desfecho de desinvestimento e de mudança de residência.

                A descentralização, com toda uma política centrifuga promovida pela Câmara Municipal
durante a primeira década do presente século, transformaram a Praça num local decrépito. Vazio de dia e também de noite. Houve uma tentativa mal conseguida, por ser pouco ambiciosa em cortar com o passado, de revitalização, com a criação de estacionamento e a reposição de trânsito mas, uma má escolha de materiais, obrigou a nova intervenção e não houve oportunidade para pensar melhor na zona central.

                No ano que passou, voltei a acordar na Rua da Liberdade. Já sem “pirilau”, voltei a espreitar a Praça, como na minha infância. Ao ver o raiar do sol, a iluminar a rua até ao centro e a aquecer a calçada, ganhava alento para enfrentar o frio do Inverno e o pesadelo familiar. Em noites mal dormidas, voltei a ouvir aquele silêncio matinal, entrecortado pelos barulhos do abrir de persianas, das portas e portões de segurança dos comerciantes e com tudo isto, escutei o cumprimentar e o falar dos madrugadores.

Esta perspetiva pessoal é a forma como eu vejo a Praça, a meia-lua fechada ao trânsito, estendendo-se a interdição à parte superior da Rua da Liberdade, à Rua Padre Oliveira e ao largo Santo António. Para o seu lado poente, sou a favor da reposição automóvel, isolando o Parque América, permitindo os carros circularem em sentido único. No fundo, sou a favor do projeto aprovado pelo executivo municipal anterior, por entender, que os seus autores perceberam a essência da história da Praça e em certo ponto, da cidade. Ajustar a zona pedonal, atendendo à realidade económica da cidade e de certo modo, repor o princípio geométrico da Praça seria algo a atingir.

A reversão do conceito pelo atual executivo é uma outra forma de ver o problema. É querer esticar para o futuro uma conceção que infelizmente a cidade não conseguiu abraçar, em que a dinâmica económica retirou protagonismo comercial à zona central da cidade, transferindo-o para o eixo da Avenida Renato Araújo.

O dia-a-dia da Praça é com os seus poucos moradores, um comércio de proximidade e despojada de serviços. Esta realidade vai sendo invertida pontualmente com animação promovida pela Câmara Municipal. A projetada intervenção, pouca atratividade trará, perdendo-se com isso a possibilidade de revitalização do espaço, que dependerá sempre da complementar iniciativa privada.

Gostaria de viver anos suficientes para ver um final de tarde de Inverno, com os raios solares a bater na janela no meu quarto de infância. Sei que mesmo que isso aconteça, em consequência do processo de desocupação do prédio monstruoso da Praça, o acesso a esse lar já não me será permitido. Quando voltar haver invernos solarengos na Praça, será o momento para pensar-se em fechar a meia-lua e promover-se uma Praça circular.

         

(a publicar no dia 04/01/2019)

terça-feira, outubro 30, 2018

"pedronunismo"

Quando apresentou a moção política ao XXIII congresso do Partido Socialista, Pedro Nuno Santos, pela sua ousadia, ficou referenciado como futuro ministro do XXI Governo Constitucional. Embora, a remodelação governamental do pretérito mês, não o tenha promovido a tal cargo, é certo que o desempenho de funções de Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares tem sido desempenhada com grande capacidade e muita negociação, pelo que a expectativa permanece. Se não acontecer nos próximos meses, em futuro Governo liderado pelo Partido Socialista, Pedro Nuno Santos será certamente ministro, um dia.

O mediatismo conseguido pela moção apresentada em Maio deste, na qual em traços gerais se definia um novo rumo para a social-democracia, permite que se faça uma análise com o foco a incidir na ideologia política - diferenciada dos bastidores dos cargos políticos, ou de jogadas partidárias, tão ao gosto dos comentadores.

Nas semanas anteriores ao congresso de Maio, o jornal Público editou dois textos de opinião de Pedro Nuno Santos: “Os desafios da social-democracia” e “A social-democracia para além da “terceira via” “. Com base nestes textos foi redigida a já referida proposta política. Podendo ser resumida à seguinte fórmula: Repensar a visão do Estado como catalisador de desenvolvimento, através da aposta em “missões coletivas”. Em traços gerais, à visão atual de um Estado protetor dos mais desfavorecidos, deve-se juntar uma outra função para o mesmo Estado: ser promotor do desenvolvimento e de inovação socioeconómica. Ou seja, pretende-se um Estado mobilizador de vontades, envolvendo recursos privados e públicos, para conseguir obter um objetivo concreto, de âmbito económico, social ou ambiental.

Partindo do campo ideológico para a concretização e em jeito de súmula, a moção subscrita por Pedro Nuno Santos apontava as energias renováveis, como a tal “missão coletiva”, para acabar com défice energético de Portugal e também da dependência dos combustíveis fósseis.

É certo que o resultado das eleições legislativas do próximo ano vai condicionar o futuro político de Pedro Nuno Santos. No entanto, independentemente desses resultados, da formação ou não de Governo pelo Partido Socialista, em coligação, ou com apoio parlamentar, entre outras hipóteses que se podem equacionar, esta redefinição ideológica da social-democracia, será sempre o futuro cartão-de-visita do nosso conterrâneo. A ambição demonstrada aponta-lhe outros e maiores voos, após a liderança de António Costa. Até lá, será necessário passar da ideologia à prática.

No último artigo que enviei para o jornal labor, terminava afirmando que o executivo municipal de S. João da Madeira, além dos desafios do programa eleitoral, haveria de congregar esforços com o XXI Governo Constitucional para promover a descentralização e rematava o texto, focando precisamente que o “pedronunismo” teria que passar forçosamente pela cidade.

Pelo exposto, compreenderá o leitor que não imagino Pedro Nuno Santos autarca. Concebo mais facilmente que as suas ideias de social-democracia sejam postas em prática na cidade, procurando-se concretizar uma “missão coletiva”, para dotar o seu futuro partidário com provas dadas e factos consumados.

As energias renováveis não podem ficar reféns de rendas e taxas. Seria de todo conveniente que o setor ficasse mais claro e subsidiado apenas se necessário. A lógica da simplificação também deveria ser aplicada às taxas energéticas que qualquer consumidor tem dificuldade em entender. Mas, neste meu artigo pretendia ir um pouco mais longe na análise e não ficar preso a questões orçamentais, que estão na ordem do dia. Nem muito menos, a questões municipais de distribuição de energia elétrica, assunto paralelo e pertinente para outra abordagem.

Uma “missão coletiva” energética poderá passar por a cidade ser capaz de gerar energia elétrica, através de energias renováveis. Pode-se ambicionar iluminar as vias públicas, ou conseguir o abastecimento dos equipamentos municipais, ou ainda ser mais ambicioso e pretender alimentar todo o consumo doméstico. Tudo isto poderão ser efetivamente etapas para um grande objetivo coletivo, de geração de energia elétrica, que poderá condicionar a futura política energética nacional.

Caberá ao executivo municipal tomar uma decisão. Cumprir e executar o seu programa eleitoral, cuidando dos bens públicos, absorver a descentralização do Estado e perspetivar o futuro da social-democracia são desígnios para um mandato ambicioso, que podem culminar na melhoria do bem-estar dos habitantes de S. João da Madeira.

 

(a publicar no dia 01/11/18)

terça-feira, outubro 09, 2018

Um outro balanço

A opinião publicada, por estes dias, apresentando o balanço do primeiro ano de exercício da vereação eleita em 2017, pautou-se por apenas duas perspetivas. Por um lado, os opositores – que apontaram a inércia, a inoperância e o desleixo no cuidado dos bens públicos para classificarem a atuação do primeiro ano de mandato do executivo municipal. Por outro lado, tivemos a perspetiva partidária, do próprio partido que venceu as eleições, mais favorável, enaltecendo a qualidade das medidas postas em prática.

Qualquer balanço fica incompleto sem apresentação das contas do exercício. Saber qual a situação financeira da autarquia, se a dívida municipal diminuiu ou, pelo contrário, aumentou, e relacionar com o investimento municipal do último ano, permitirá perceber e aclarar o balanço. Enquanto estes dados não são publicados, teremos que esperar mais uns meses, pode-se apresentar alguns factos, que estando relacionados, ajudarão a conceber outro balanço.

À primeira fase, de atribuição de pelouros e formação de equipa de assessores, com toda uma fase de adaptação, de conhecimento dos processos e de entendimento do funcionamento da autarquia, seguiu-se um período de promoção das capacidades dos funcionários municipais. Provavelmente, o feito mais apreciado, terá sido a reestruturação do site municipal, com recursos próprios. Dentro deste registo, foi evidente o esforço para a promoção cultural em período estival. O maior falhanço, ou pelo menos, assim entendido por muitos, terá ocorrido pela incapacidade dos serviços de jardinagem para executar a totalidade das suas tarefas, a partir do mês de Julho. A solução encontrada, de contratação de serviço a empresa privada, apesar de honesta, desvirtuou a intenção original do executivo e deixa dúvidas para o futuro.

É sempre bom recordar os assuntos que ficaram pendentes e por resolver, do anterior executivo, deixando de fora o contrato para limpeza de ruas e remoção dos resíduos sólidos, devido à formalização de novo acordo, com outra empresa, assinado no presente ano. Para este mandato, sobrou a revisão do contrato para distribuição domiciliária de energia elétrica, prevendo-se ganhos significativos para o município. Como não é só de acordos comerciais que a vida de uma autarquia é feita, convém não esquecer e resolver como se irá ocupar os dois Palacetes - devolutos, apesar de restaurados - obviamente do Rei da Farinha e dos Condes. Além da resolução da requalificação da Praça e o enquadramento do mercado municipal, deverá ficar decidido o que fazer com o projeto do arquiteto Souto Moura para a nova Piscina Municipal.

Resolução que deveriam ficar a cargo dos demais serviços municipais, procurando-se dentro de portas a capacidade técnica e criativa para concluir esse legado. Em especial, a questão da piscina municipal. Já que a perda do anterior financiamento, por oposição do Partido Socialista, só será esquecida, se encontrada no presente mandato uma solução de ampliação da capacidade da piscina, para albergar os demais escalões etários de alunos, as equipas de competição e todos os interessados em fazer exercício em meio aquático. Claro está, que uma solução mais económica, transformando a sazonalidade da piscina exterior, adaptando-a à utilização durante todo o ano, seria o ideal para reabilitar o passado recente das opções do partido politico que agora é poder municipal.

A capacidade de resolução destes e de outros assuntos vai ser avaliada pela população nos próximos tempos. Bem pode Jorge Sequeira querer prolongar o prazo de execução das promessas eleitorais, para fazê-lo da melhor forma, só que há variáveis que não dependem dele, sobretudo, quando o Governo da nação pretende proceder, durante o próximo ano, à primeira etapa do processo de descentralização, em áreas como a Saúde e Educação. Obrigando autarquias como a de S. João da Madeira, devido à vontade em colaborar com o Governo em ano eleitoral, a um esforço redobrado, para conseguir que a descentralização seja bem assimilada e uma mais-valia para a população e assim, ultrapassar as opiniões céticas de vários agentes políticos.

O ano que passou foi de arranque. 2019 será mais complexo, obrigando a um cuidado extremo nas opções a tomar, implicando uma maior velocidade na escolha das políticas municipais e a sua implementação sem hesitações.

O texto vai longo e haverá outra oportunidade para expor, aos leitores, um outro desafio que o atual executivo enfrentará: a moção política apresentada em Maio por Pedro Nuno Santos, no congresso do PS. Ou como o futuro do “pedronunismo” passará obrigatoriamente por S. João da Madeira.                           

 

 

 

(a publicar no dia 10/10/18)

quinta-feira, maio 10, 2018

30 anos

A longevidade do labor é significativa e demonstrativa do contributo deste jornal para a expressão da comunidade de S. João da Madeira. O seu valor editorial, impresso ao longo destas três décadas, não se resumiu ao debate político, ou meramente a uma simples visão partidária.

Fundado na década de 1980, com o país a viver em estado democrático bem assimilado, com S. João da Madeira a transformar-se em cidade (a elevação tinha sido decretada apenas 4 anos antes), o labor afirmou-se pela sua forma, pela vontade em acolher conteúdos alternativos, mas também em promover o pluralismo em detrimento do populismo.

O labor foi o terceiro jornal a ser editado em S. João da Madeira depois de 1974. Da história dos outros dois títulos (Abril e Tribuna Sanjoanense) ficaram breves memórias, embora sejam recordados um pela referência ideológica e outro conectado com uma determinada força política, ou seja, como expressão do descontentamento de determinada faixa da população, sobre os destinos da vida autárquica. Talvez por isso, por aprender com os erros dos outros, o labor perdurou no tempo. É certo que recuperou muitos dos colaboradores do primeiro dos títulos atrás mencionados (infelizmente alguns já falecidos) mas, em simultâneo, não se fixou numa perspetiva partidária, conforme mencionei no final do primeiro parágrafo. Ao longo destas décadas, o jornal foi sendo identificado como apoiante de várias correntes políticas. Mais do que fazer e contrariar essa resenha histórica, incluindo as eleições autárquicas mais recentes, é preferível voltar à frase final do parágrafo anterior e compreender o que norteou o jornal ao longo dos anos.

É igualmente importante enquadrar o labor na história social de S. João da Madeira. Tendo a cidade perdido os seus títulos surgidos depois do 25 de Abril de 1974, a edição jornalística traduzia-se apenas no semanário O Regional. Ressalvo que este jornal sempre demonstrou abertura democrática, só que era precisamente o jornal onde escreviam os cronistas consagrados da cidade, que já o faziam há imensos anos. Por tudo isto, este semanário tinha uma carga conservadora e até moralista. As transformações sociais da década de 1960, com a divulgação da música pop, o movimento hippie e o Maio 68, mais a revolução nacional democrática de 1974, culminando com o movimento punk, fizeram explodir, durante a década de 1980, uma nova classe, a juventude. Não a classificada oficialmente pelos Censos, mas toda uma massa humana que de forma alguma se sentia envelhecida e estava sempre disposta a divertir-se e prevaricar. Manifestando continuamente essa vontade de transgredir, em quebrar as convenções. Um exemplo, de entre outros, pode ser dado através das rádios piratas, que surgiram precisamente da década de 1980 como uma forma de liberdade de expressão, não controlada, mais vocacionada para a partilha de música e de informação. Com a mercantilização do conceito, muitas dessas rádios encerraram e os interesses dos seus colaboradores dispersaram-se.

E é por aqui que o jornal labor se vai afirmar. Não apenas pelos despojos do processo da extinta rádio pirata “Serra Mar” mas, por assegurar um projeto editorial atrevido, mais progressista, com outra informação, com capacidade de envolver quem quisesse partilhar ideias de forma desassombrada. Havia uma frase escrita num placard, ainda a redação do jornal estava na Rua da Liberdade, que era significativa: “Não nos interessa quem faz melhor, interessa-nos quem faz”. Este acolhimento perdurou no tempo e a aceitação nas páginas do labor de toda uma corrente de inquietude, de irreverência, com algumas pinceladas de subversão, fazem deste jornal um projeto eternamente jovem.

E faço votos para que o labor assim perdure nos anos futuros, não se acomodando, procurando sempre editar a modernidade que vive na cidade. É neste capítulo, de potenciar e noticiar a expressão artística dos habitantes da cidade, com edições de artigos e mesmo imagens dos mais díspares autores que o labor ficará na História de S. João da Madeira.

Não posso terminar, sem mencionar a cooperação entre a direção do jornal e os mais diversos colaboradores. Além de ser espaço laboratorial, em que cada colaborador expande a sua imaginação pela escrita, o labor tem servido para a publicação das mais diversificadas opiniões políticas, garantia da pluralidade e democracia que têm orientado este jornal.

Por tudo isto, os meus parabéns ao labor, ao seu diretor Pedro Silva, aos vários elementos da redação, aos demais colaboradores e claro, aos leitores, pois o seu interesse é que tem mantido vivo o jornal.

 

quarta-feira, janeiro 03, 2018

O apoio da comunidade

O reconhecimento, pelo jornal labor, de Ana Rodrigues, como uma das figuras do ano, reforça o mérito desportivo da atleta e enaltece todo o esforço de vários agentes desportivos, em formar a secção de Natação na Associação Desportiva Sanjoanense (ADS).

Desde Agosto do ano passado, os jornais da cidade tem publicado relatos e resultados de torneios ou campeonatos de Natação em dose dupla. Na mesma edição, a mesma prova, dois relatos. Um com os resultados da Associação Estamos Juntos (AEJ) e outro com os da ADS, incluindo neste, os resultados mais relevantes e perspetiva global da prova.

Esta situação recorde-se surgiu após o despedimento do técnico Luís Ferreira por parte da AEJ, no final da época passada, uma semana após um campeonato em que Ana Rodrigues havia conquistado 7 títulos.

É prematuro fazer um balanço da época, com apenas o primeiro terço decorrido, embora os resultados alcançados pela ADS sejam favoráveis. Contudo, existem outros fatores que importa realçar, sobretudo relacionados com o reconhecimento do clube e mesmo o comunitário.

                O envolvimento da natação na ADS teve direito a vários destaques na imprensa local, logo no início da época. O apoio do clube à novel secção traduziu-se pela presença do Presidente, Luís Vargas Cruz, no dia de apresentação e no decorrer da época foram várias as referências nas páginas oficiais do clube, ficando neste capítulo a Natação em igualdade com as secções mais antigas do clube. Durante o Campeonato Nacional decorrido no mês de Dezembro, nas Piscinas do Fluvial do Porto, segundo o relato de Fernando Moreira, publicado no jornal “O Regional” comparecerem vários conterrâneos a apoiar a atleta Ana Rodrigues, ouvindo no final de cada prova o som da sua satisfação. Além disso, o próprio Luis Vargas Cruz apresentou-se no Campeonato, deixando mais uma vez expresso o apoio do clube à secção, ao treinador e seus atletas. Se dúvidas houvesse sobre a satisfação do clube em apadrinhar a Natação, no final de Dezembro, a ADS escolheu cinco feitos desportivos alcançados pelas suas equipas, ao longo do ano e entre eles, estavam os cinco títulos conquistados, incluindo dois records nacionais alcançados no mesmo dia nos 50 metros bruços, por Ana Rodrigues.

                Se a atitude do clube em acarinhar a Natação ficou demonstrada no parágrafo anterior, não serão necessárias tantas linhas para explicar o envolvimento da comunidade com o novo projeto desportivo da ADS. Em primeiro lugar destaque para o patrocinador – Fepsa -, com a publicação constante de artigos mencionando esse mecenato. Depois a ênfase da imprensa local, em especial, após os tais títulos conquistados em Dezembro, com manchetes alusivas ao feito na primeira página. (Longe vão os tempos em que eu próprio tinha que divulgar os resultados de Ana Rodrigues por omissão na imprensa local.) Por último, na cronologia do ano editada por este jornal na edição da semana passada, não aparecem os tais sete títulos conquistados em Julho pela nadadora sanjoanense, preferindo o jornal referir os últimos, conquistados nas cores da ADS.

                A sociedade sanjoanense demonstrou a sua preferência. Há ainda muito trabalho a fazer para consolidar a natação em S. João da Madeira. A ideia de Ana Rodrigues voltar às Olimpíadas, desta vez, em Tóquio 2020, parece ser concretizável, atendendo à boa forma física da atleta. No entanto, é necessário articular, no futuro imediato, a Escola Municipal de Natação com a Natação de competição, para que despontem talentos na piscina municipal e sejam encaminhados para os clubes.

                Como estamos no início do ano, aproveito para desejar Bom Ano de 2018 a todos os leitores, informando que a minha atividade neste jornal será interrompida por um longo período. Até lá.

 

(a publicar no dia 4/1/17)

quarta-feira, dezembro 27, 2017

2017 - o ano de mudança

A eleição de Jorge Sequeira, com a vitória autárquica do Partido Socialista foi, sem sombra de dúvidas, o grande acontecimento neste concelho, no ano que por estes dias termina.

Uma alteração da cor maioritária do executivo camarário é sempre um facto a democrático a realçar. Assim foi em S. João da Madeira, em 1979, quando o PS perdeu as eleições para a extinta AD. Repetiu-se em 1984, com a vitória do CDS. Voltou a acontecer em 2001, com a vitória maioritária do PSD. E agora em 2017, quase quatro décadas depois de ter sido o partido mais votado em eleições autárquicas, o PS volta a vencer na cidade.

A vitória inesperada, pelos votos alcançados e mandatos conquistados, teve o seu fundamento na estratégia de ataque ao seu opositor. Baseando-se nas ruturas partidárias e na descontinuidade do anterior executivo camarário, o PS passou a mensagem da sua própria competência. Enquanto, do lado do PSD/CDS nem a descontinuidade, nem as desavenças com alguns militantes foram minimamente desconstruídas, nem foi esclarecido todo o processo de convites, o que implicou a desconfiança dos eleitores na lista proposta.    

Por não ser caso inédito, em que uma força partidária no poder não consegue eleger um novo candidato, é necessário analisar as especificidades dos antecedentes da eleição autárquica. Depois dumas eleições intercalares em 2016, o ano e meio que se seguiu permitiu ao novo executivo pôr em prática vários dos seus propósitos, ou promessas eleitorais. Com destaque para a inauguração do museu do calçado, a requalificação da zona central, incluindo  a demolição do elemento arquitetónico da Praça Luís Ribeiro e claro está, a promoção de eventos na cidade, por forma a fixar por cá a população nas suas horas de lazer. É evidente, neste capítulo, que a recusa de Ricardo Figueiredo em se candidatar nos moldes propostos, equilibraram os pratos da balança. Não querendo repetir os argumentos escritos em outubro, em que referi que havia mérito de Jorge Sequeira na vitória, é importante comparar estratégias para entender melhor a mudança de voto dos eleitores. Se por um lado, o PS teve uma tática eleitoral bem definida e passou bem a sua mensagem, por outro, a coligação PSD / CDS esqueceu-se de contra-atacar, mantendo-se na sua estratégia, sem verificar a desconfiança do eleitorado. E o eleitorado respondeu dessa forma: não confiando num candidato e votando maciçamente noutro.

O que esperar de 2018? Esta é a pergunta que se coloca neste momento.

Em primeiro lugar, há eleições partidárias. O PSD aparentemente só com eleições para líder nacional. O PS com eleições para a concelhia. Umas e outras dizem respeito aos seus militantes. No entanto, ambas podem desencadear processos inesperados para futuras eleições autárquicas.

O PSD pode entrar num processo novo, com a preparação imediata das eleições de 2021, como é propósito do candidato Rui Rio. Neste sentido, haverá necessidade de reabrir o dossier  autárquico e pensar num candidato a longo prazo e claro, como está bem presente o desaire eleitoral deste ano, a concelhia em funções terá que ter perspicácia para escolher um candidato com perfil vencedor.

Do lado do PS, as hipotéticas duas candidaturas para a concelhia poderão provocar um ajuste de contas inesperado, com desfecho imprevisível a longo prazo.

Tudo isto acontecerá no mês de Janeiro, depois disto e mais importante, será verificar como o novo executivo municipal põe em prática o seu plano de atividades. Existe uma grande expectativa, por parte dos parceiros associativos, entre outros, para verem agendadas as várias iniciativas, que nos últimos anos fizeram o calendário de eventos da cidade. Para já, com um orçamento para 2018 mais composto, tudo fica em aberto e com possibilidade de ser concretizado.

 

(a publicar no dia 28/12/17)

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Um fino

Uma reportagem publicada na imprensa económica, sobre uma cervejeira artesanal, sediada em Coimbra, trazia a história do nome com que habitualmente se designa o copo de cerveja, na região norte e centro de Portugal. O fino, como vulgarmente é utilizado, deve a sua origem à cidade de Coimbra. Conta-se que um cliente especial, pedia a cerveja em copo alto e fino, com o tempo adotou o singelo “copo fino” e daí até ficar apenas “fino”, foi uma pequena simplificação temporal. Esta é uma história antiga, que os mais velhos conhecem, por ter sido editada no livro “Boémia Coimbrã“ da autoria de António Nicolau da Costa. A edição faz referência aos anos quarenta do século passado e compila esta e outras histórias da cidade, com especial relevo as dos seus estudantes.

Convém recordar, que o autor era natural de S. João da Madeira e exerceu a sua atividade nesta localidade, sendo conhecido como Doutor Nicolau. O livro está registado no espólio da Biblioteca Municipal desta cidade. Para aquisição, é difícil de encontrar à venda, mesmo em alfarrabistas. O livro é um precioso documento, guardou memórias de Coimbra e o esforço do seu autor permitiu às gerações futuras ter um conhecimento mais aprofundado sobre a tradição daquela cidade. Quando pesquisei um pouco mais sobre o assunto na internet, apareceram referências à forma singular como o Doutor Nicolau transpôs a vivência Coimbrã para S. João da Madeira. À sua maneira, pelo seu modo de atuar, as histórias do nosso conterrâneo perpetuaram-se pelos anos e é um desperdício não ficarem, também elas, documentadas para memória futura. 

Fiz alusão, em texto publicado no mês passado, há necessidade de incrementar o acervo municipal com o património humano que se encontra fragmentado, dando como exemplo as coleções de fotografias que tardam em estar à disposição da população da cidade. Podemos acrescentar a compilação das histórias do Doutor Nicolau, como as famosas consultas em tascas, ou outras igualmente conhecidas. Do mesmo modo, a compilação e recolha de outras histórias de outros conterrâneos podem e devem merecer a devida atenção. Até porque isso possibilitaria entender-se melhor a história da localidade, as suas transformações e o seu desenvolvimento.

Não é só de passado que se deve encher o acervo municipal. A atividade dos agentes culturais deve igualmente ser merecedora do reconhecimento da autarquia. Numa fase imediata, a parceria poderia passar por expor algumas dessas obras nas instalações municipais, promovendo os artistas de maior nomeada, dando visibilidade aos seus trabalhos. Neste contexto, a expansão do acervo municipal, com a aquisição dos seus trabalhos mais significativos, será a consequência da divulgação e reconhecimento dos principais vultos da cultura local.

Por outro lado, pensando no futuro e na totalidade dos artistas emergentes, seria importante equacionar uma mostra anual de novos talentos criativos. Juntar num evento anual, a produção artística local, desde pintores, músicos, escritores, desenhadores, artistas de rua e também bandas, grupos de dança ou de teatro, entre outros, que não me ocorrem de momento. Promovendo exibições e atuações individuais, mas também sinergias entre as várias artes, ou estilos.

É com esta proposta, com o objetivo promover o espirito comunitário, que é chego ao fim do texto idealizado para esta edição. Por ser nos últimos dias do advento natalício, aproveito para desejar Boas Festas a todos os leitores.

 

(a publicar no dia 21/12)

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Nem governo nem Estado

Na primeira música que ouvi dos Xutos e Pontapés, corria o ano de 1985, à segunda frase cantada fiquei perplexo e maravilhado. O disco era uma coletânea de bandas nacionais dos estilos marginais da época: punk-rock, pós-punk, gótico, urbano-depressivo e outros géneros urbanos. As duas primeiras faixas estavam entregues aos Xutos: Esquadrão da Morte e 1º de Agosto. Ao vivo, cheio de energia, com ritmo intenso proveniente de uma bateria tocada de forma rápida, uma linha de baixo com presença e uma guitarra a produzir riffs intensos. O som assemelhava-se ao de uma banda britânica, os The Clash, cujo álbum “Combat Rock” tocava com frequência lá em casa. Ao paradoxo ouvido inicialmente, “Por não querer aquilo que me é dado”, seguiu-se a tal frase ”Por não querer nem governo, nem Estado”, assim mesmo, toda a crueldade anarquista explícita era cantada de forma seca pela voz do vocalista. Seguiam-se mais dois versos, repetia duas vezes. Um refrão a começar, um simplismo da escrita punk. A meio ouviam-se os coros, com interjeições, repetidas pelo público. E claro havia um solo de guitarra. Estavam-me apresentados os Xutos e Pontapés.

Leitor do jornal Blitz, desde a primeira hora, todo aquele envolvimento urbano me fascinou. Aderi à roupa preta, um sóbrio sobretudo, uma gabardine, o casaco de cabedal, as t-shirt alusivas a bandas (que ainda conservo), mais uma botas da tropa resgatadas do sótão de casa dos meus pais e passei a ser consumidor de música regular, vendo concertos ou adquirindo discos, variando entre estéticas, conforme as mencionadas no parágrafo anterior. De tal modo que de tenra idade, fui para Lisboa assistir a dois concertos, faltando às aulas, com a devida autorização parental.     

Voltando aos Xutos e Pontapés. Encontrar os discos deles, naquela época era difícil, só tinham editado um álbum (1978/82), sem muita difusão. Era difícil chegar a esse som. Tudo funcionava na base da gravação em cassetes – fita magnética com disponibilidade entre 60 a 90 minutos. Ouvir aquele som era irreverente e provocador: toda a família entendia as letras, nas quais os valores aceites pela sociedade eram criticados. Era uma música de intervenção, de combate, sem claras referências partidárias.

Entretanto, é editado o disco “Cerco”, com a introdução de um novo instrumento musical, o saxofone. As letras eram menos rudes. Apesar das dificuldades em editar o disco, por desinteresse das editoras, ainda agarradas às músicas de estreia do grupo, a assimilação do conceito pelo meio musical, é bem conseguida. Os Xutos definem-se como um grupo rock, nas aparições em programas de televisão. Os concertos em espaços urbanos sucedem-se, aproveitando a banda para produzir um novo disco ao vivo. O visual também é aligeirado, retiram-se as correntes, as roupas rasgadas como nos primórdios do movimento punk de 1977 e os músicos passam a vestir o preto integral, com o lenço vermelho ao pescoço, apenas com a única transgressão a ficar pendurada na orelha de Zé Pedro – um brinco em forma de cruz. É preciso mencionar o fenómeno das rádios piratas, então emergentes com a possibilidade de divulgar música maldita, distante dos tops de vendas, para explicar a difusão de grupos como este.

Em 1987, os Xutos e Pontapés lançam um novo disco. A sonoridade fica mais acessível ao grande público. As letras passam a ser mais domésticas. É incluída uma versão de “Minha Alegre Casinha”, uma música em voga na juventude dos nossos progenitores. A acessibilidade fomenta a divulgação. As rádios e as televisões apadrinham a Casinha. A banda consegue fazer uma digressão nacional e até surgem numa campanha publicitária a uma determinada marca de refrigerantes. A cópia da indumentária dos músicos, em especial o lenço vermelho, passa a fazer parte das vestes dos jovens, que nos concertos cruzam os braços por cima da cabeça. Gestos que se repetiram por muitos anos e por várias cidades, vilas e aldeias do país.

Talvez seja este o momento em que os Xutos e Pontapés conseguem a eternização no panorama musical português. Para muitos jovens por esse país fora, este foi o primeiro concerto a que assistiram. O primeiro contacto com uma música rock, com influências do simplismo do punk-rock, expressos em princípios musicais enérgicos e com ritmos acelerados, de refrões simples. Uma fórmula que permitiu a alguns conhecerem outras sonoridades, a outros passarem a tolerar outros sons e outros a passarem a fazer da música a sua profissão.

É com este estigma que a banda entra na sua primeira década de vida. No entanto, a sua sonoridade e imagem estavam esgotadas. Perante isto, recorrem de novo à música de combate, com letras mais intervencionistas, com enfoque na luta de classes, criticando o governo de então. Os concertos voltam a ser negros, bem puxados, com um punhado de músicas mais fortes, um cenário cuidado, em que focos vermelhos passam a rasgar a escuridão do palco. Curioso facto é, nesta fase, os êxitos radiofónicos da década anterior serem tocados constantemente, demonstrando a banda estar preparada para agradar a todos os públicos. Entretanto, os elementos do grupo passam a pertencer a outros projetos e aqui sobressaem as qualidades pessoais dos elementos dos Xutos e Pontapés, mais carismáticos. O pavilhão Atlântico em 1999 demonstrou que os Xutos e Pontapés eram a primeira super banda portuguesa. Tinham vinte anos de carreira e preparavam-se para prolongar o seu estatuto por mais anos.

Conforme escrevi em agosto deste ano, tive oportunidade de os ver ao vivo durante o verão. Pela enésima vez, é certo. Em família, sem esperar nada em concreto, além do concerto. O entusiasmo levou-me a cantar, saltar e a ficar arrepiado ao ouvir o tema “remar, remar”. Antes do final, Zé Pedro ficou no palco a interagir com o público. Atirava palhetas, umas dezenas à esquerda, ao centro e à direita. O baterista, o multifacetado e carismático Kalu, ficou ali com ele, minuto após minuto, enquanto o público pedia o segundo encore. A música foi retomada e Zé Pedro ficou na mesma, em contacto com a assistência, retribuindo toda a simpatia, com aquela pose de rocker.       

Provavelmente fiquei com a melhor das imagens de Zé Pedro: o palco, a relação de proximidade com os fãs e os gestos simpáticos.

Com ele, enquanto difusor de música na rádio, aprendi a ouvir as bandas mais novas, percebendo que a música rock, não teve décadas, nem se compartimenta em anos. E que podemos estar sempre preparados para ouvir dentro dos géneros musicais, umas alterações e novidades sonoras que nos deixam surpreendidos. Mesmo depois de passar trinta e muitos anos a ouvir rock.

 

(a publicar no dia 07/12/17)

quarta-feira, novembro 29, 2017

Aguardar pela descentralização

                As infraestruturas municipais desportivas vão conhecer melhorias.

                As últimas ações do anterior presidente da Câmara permitiram perceber que a finalização do novo campo de futebol deve estar por dias. Do mesmo modo, fui anunciado em tempo oportuno, um plano para a construção de novos courts de ténis.

Mais recentemente, o novo Presidente da Câmara demonstrou estar empenhado em dotar a cidade de uma pista de atletismo.

E claro continua nos planos da população ver uma nova piscina construída, fazendo-se cumprir as promessas eleitorais.    

Todos estes investimentos deviam ter duas análises prévias: em primeiro lugar a localização – equacionando a proximidade das novas infraestruturas desportivas às áreas habitacionais da cidade; em segundo lugar, o investimento municipal - a capacidade financeira da autarquia para assegurar os empréstimos e verificar quantos anos demoram a ser pagos.

Apesar destas duas discussões serem importantes, existe um terceiro fator que não deve ser desprezado: a ideia repetida durante estes dois últimos anos, pelo atual Governo, de descentralizar, nomeadamente a totalidade da gestão das escolas. Ou seja, pretende-se que à semelhança das escolas do ensino básico, as autarquias assumam a responsabilidade de gerir os estabelecimentos de ensino dos anos seguintes.

Essa intenção, mesmo ser ter recebido atenção na discussão do orçamento do Estado para 2018, tem sido estudada por este Governo, através do atual Ministro da Administração Interna, que ao assumir esta pasta manteve na sua alçada a reforma da descentralização.

É com expetativa que autarquias aguardam pelo desbloquear do programa, para terem uma noção das verbas indexadas à descentralização e também quais as competências que devem receber.

Atendendo ao mandato do atual Governo e à necessidade de cumprir com o programa de reformas administrativas, tudo terá que ser resolvido até 2019.

Até lá, é oportuno que os novos autarcas aguardem pelos resultados dessa descentralização. A possibilidade de passar a gerir a totalidade das escolas públicas, permitirá equacionar uma série de soluções, dentro das instalações daqueles espaços. Veja-se o potencial desportivo de S. João da Madeira: 4 escolas – 4 pavilhões, mais um court de ténis, espaços exteriores com ringue para a prática desportiva; não esquecendo o pavilhão devoluto do antigo liceu, ou antigas instalações da Escola João da Silva Correia.

Este parque desportivo, mesmo tendo que remodelar-se dois pavilhões, permitirá à autarquia, em horário pós-escolar, responder a todas as solicitações das associações e de grupos informais de cidadãos que procuram a prática desportiva nas suas horas de lazer.

A excelente localização das escolas, em contexto de proximidade ao centro e encostadas aos núcleos habitacionais permitirá equacionar-se a dotação de novas infraestruturas desportivas de que a cidade está carente, em alguns destes espaços. Existe uma grande vantagem de aproximação do desporto às escolas, precisamente a possibilidade de proporcionar aos alunos uma prática diferenciada de atividades desportivas, além de promover a captação de talentos em determinados desportos.

Criar uma pista de atletismo na escola EB 2/3, não será muito difícil. Ficaria central, próximo de alguns dos equipamentos desportivos da cidade. Do mesmo modo, construir court de ténis na escola Dr. Serafim Leite, também não será difícil.

É uma mudança de paradigma, com a valorização das instalações escolares e permitirá aplicar-se o investimento de uma forma mais racional, evitando-se expropriações, com custos desnecessários.

Quanto à piscina municipal, as considerações ficarão para futura oportunidade.

 

(a publicar no dia 30/11/17)

 

quarta-feira, novembro 22, 2017

Memórias fragmentadas

No texto publicado a semana passada, intitulado “A fachada”, por necessidade de não transgredir o espaço que gentilmente me é disponibilizado, não me alonguei em demasia com menções à evolução da povoação.

Visitar os espaços onde vivemos a infância, ajuda-nos a preservar a memória. Percorrer a casa dos pais, ou mesmo dos avós, permite manter intactas certas recordações, sobretudo quando o espaço físico permanece semelhante ao longo de anos. As memórias individuais, ou familiares, transformam-se em coletivas, quando as vivências foram partilhadas em espaço público. Tudo é mais fácil se o espaço continua semelhante. O pior é se tudo é modificado, ou destruído, não ficando vestígios desse passado.

Neste capítulo, as transmissões orais funcionaram, durante anos, como a base da memória de uma povoação. Esta tendência humana, de partilha de lembranças, teve a necessidade de ser documentada para o futuro. Primeiro, através da pintura paisagística, ou pela descrição literária, que ajudavam a documentar as recordações. Pode-se incluir neste âmbito, os documentos oficiais, caso o escriba tivesse obrigação de fazer algum enquadramento do local.

Tudo mudou com a introdução das fotografias. E da captação de imagens com movimento, os filmes. A divulgação, dos primeiros destes documentos, permitiu à imprensa desempenhar um papel preponderante na perpetuação da memória coletiva ao longo do século XX. As redes sociais, já no presente século, permitiram a partilha de fotos e vídeos pessoais, o que pode ser considerado como o lado mais positivo desta novas formas de sociabilização.

A recolha dos mais variados documentos possibilita entender-se melhor a história de cada povoação. Infelizmente, em S. João da Madeira, a maioria desses documentos e mesmo a memória coletiva, concentra-se no desenvolvimento ocorrido ao longo do último século.

Existem menções históricas em documentos medievais, anteriores à independência de Portugal. Mas, a partir daí, ao longo dos vários séculos, todo o evoluir da região de Terras de Santa Maria – do feudalismo até à criação do concelho da Feira no século XVI – permanece nebuloso. Perceber como a estrada real atravessava a paróquia de S. João da Madeira, como se desenvolvia o casario, com os seus ofícios relacionados com madeira e sapatos, são exercícios imaginativos. É certo que a partir da Monarquia liberal, portanto, no século XIX, com a agregação ao novel concelho de Oliveira de Azeméis começa a haver mais informação. Ainda assim, os vestígios que permaneceram para o século XX, foram as vastas propriedades agrícolas, entretanto fragmentadas e alguns agrupamentos de casas, em torno de alguns lugares, incluindo igrejas.

Poder-se-ia esperar um espólio mais alargado, comas fotografias e os filmes, para melhor retratar o século passado. No entanto, apesar de existirem várias fotografias e mesmo coleções, a maioria continua no foro privado. Mais concretamente, as várias imagens captadas por Carlos Costa continuam a não estar no acervo municipal. Para os mais novos (em idade ou com menos de tempo de habitação na cidade), é necessário fazer um enquadramento, pois o nome poderá não significar nada. Carlos Costa foi um fotógrafo amador que captou várias cenas do quotidiano sanjoanense, ao longo de várias décadas do século XX. A sua coleção está dispersa pelos seus herdeiros. Como representa um valor inquestionável para a comunidade local, seria de todo o interesse que a Câmara Municipal o adquirisse para o seu acervo, podendo a partir daqui desenvolver e apetrechar a tal “Casa da Memória”, por exemplo.

No mesmo sentido, existem documentos interessantes associados às casas comerciais que se dedicavam à venda de material fotográfico. Seria um desperdício para a memória coletiva, que todo esse espólio se perdesse, com o encerramento desses estabelecimentos.

Para finalizar a ideia dos exemplos fragmentados, seria igualmente interessante que os documentos, alguns seculares, da paróquia fossem cuidadosamente digitalizados e colocados ao dispor da comunidade.

A autarquia tem um papel preponderante para promover a centralização das memórias dispersas. Nos últimos anos, conseguiu abrir ao público dois museus de cariz industrial. Foi consensual, ao longo da última campanha eleitoral, as propostas para se aproveitar a singularidade nacional da indústria do lápis e associá-la ao espólio dos Encontros Internacionais de ilustração. Parece-me ser igualmente importante que o património humano da população tenha agora o seu lugar, num espaço próprio e condigno, para preservação da memória coletiva.

 

(a publicar no dia 23/11/17)