quinta-feira, abril 30, 2020

As lições de Abril

No inicio do mês de abril, a Câmara Municipal de São João da Madeira anunciou o seu apoio à imprensa local, através da colocação de publicidade institucional. Com esta medida, uma ajuda preciosa para o equilíbrio financeiro dos jornais, o município possibilitou o acesso à informação da população, leitores de jornais, quer sejam assinantes ou compradores avulsos através de quiosques.
A edição de jornais, neste momento de confinamento generalizado, é a principal demonstração de comunidade, superando as redes socias, pela compilação de factos verosímeis e pelo esforço das redações em procurar diversificar as notícias, apesar do monotonia temática ao percorrer as mais variadas páginas de cada edição.
Ao apoiar a imprensa, o executivo municipal demostrou uma grande capacidade democrática, conferindo oportunidade para todas as forças políticas divulgarem os seus comunicados, ou expressarem o seu programa, colocando-se no papel de oposição, divergindo do executivo naquilo que entendem e anunciando medidas que consideram mais pertinentes.
Do mesmo modo, ao permitir a publicação de artigos de opinião, expressando os pontos de vista de cada articulista, ou colaborador, existe a demonstração de uma outra forma de abertura democrática, o pluralismo da sociedade. A divulgação de perspetivas não propriamente partidárias é um contributo democrático. A quebra de unanimidade também, por que permite ao leitor apreciar diferentes opiniões e muitas vezes recebe informação inédita, o que enriquece o conteúdo do jornal publicado, permitindo um debate, que poderá ser esclarecedor e benéfico para o leitor.
É de enaltecer uma medida indireta de apoio à liberdade de expressão e ao pluralismo, numa semana em que se comemorou o 25 de Abril. Esta é, por ventura, a melhor consumação do "espírito de Abril", que muitos não querem entender e procuram minimizar o conceito de Liberdade, agarrando-se à perspetiva partidária, com a qual mais se identificam.
Não só de palavras, de ideias e de canções vive uma democracia. 
Neste vasto conceito, há ações que permitem e ajudam a definir quem as pratica. 
Concretizando, o que acabo de escrever, numa conjetura adversa, com os vereadores da oposição a pedirem a diminuição da taxa de disponibilidade, com pelo menos um membro do Partido Socialista a integrar uma plataforma que reivindica a revisão dos preço da água, com vários articulistas – alguns simpatizantes do Partido Socialista - a insistirem no tema, juntando-se aos demais, o Presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira apresentou os resultados do exercício da empresa municipal Águas de São João. 
Esta medida de transparência, enobrecedora da gestão do autarca, acarreta um problema. O lucro apresentado em 2019, mesmo sem divisão pelos acionistas, dá razão a quem defende a redução da taxa de disponibilidade. Com a empresa de capitais mistos sem problemas de tesouraria, para não se repetir um obsceno exercício em 2020, é imperativo salvaguardar o interesse público, ou seja, dos munícipes e cobrar menos valor durante o presente ano. 
Redução ou eliminação?
Atendendo a que quem redigiu o contrato para a constituição da empresa Águas de São João, a gestão autarquica do PSD, é hoje defensor da revisão do mesmo, não tendo qualquer dificuldade em entrar em contradição com o seu passado, é um momento para aproveitar para eliminar a taxa de disponibilidade. 
Existem elementos geográficos, como a dimensão do concelho de São João da Madeira, quando comparados com outros de muito maior área, que cobram praticamente o mesmo valor, que sustentam o principio da proporcionalidade, o que neste caso equivaleria a cobrar praticamente zero euros.    
Estão reunidas as condições para reverter o preço da água.
Existe capital político associado a esta medida. 
Estou convencido será aproveitado. 
     
(a publicar no dia 29/04/20)

quinta-feira, abril 23, 2020

Uma real ajuda aos afetados pela covid-19



A covid-19, pelo números de casos surgidos nos concelhos vizinhos, alavancou as respostas das autarquias, conferindo-lhes um mediatismo nacional. 
Durante o último mês, aproveitando essas atenções, muitos autarcas encetaram planos de comunicação, diários, ou desencadearam ações de contingência, muitas vezes avulsas, de forma a minimizar o impacto da propagação da covid-19, ou para oferecer soluções para o Ministério de Saúde.
Obviamente que quem fala todos os dias, numa situação inédita e de difícil controlo, muito rapidamente entra em contradição, ou expõe-se ao sensacionalismo (ver comunicação de óbito de jovem 14 anos no concelho de Ovar, por parte de autarca, quando a autópsia não tinha sido efetuada) ou ao erro, como demonstrou o jornal labor, na edição da semana passada, com a capacidade real de testes instalada no Europarque, bem distante da anunciada.
Sendo certo que houve boa fé nas ações dos autarcas, parece ter existido algum excesso de boa vontade, dando como exemplo, a multiplicação de hospitais de campanha, em concelhos próximos, que felizmente até ao momento não têm sido necessários, por a capacidade de internamento dos hospitais ainda estar longe de ser preenchida. É certo que este trabalho efetuado é preventivo, no entanto, surgem notícias de outra soluções, como por exemplo no concelho da Maia, com a requisição de unidade hoteleira, que confere uma maior dignidade à população afetada.         
Penso que o esforço efetuado até ao momento deve ser continuado nos próximos meses. Com ações concretas de sensibilização da população para o uso de máscara, ou viseira. Com apoio domiciliário a quem ficar infetado ou a quem estiver impedido de sair à rua, por pertencer a grupo de risco ou estiver de quarentena (devendo esse apoio dimensionar a possibilidade de entregar refeições ou de compras) e claro com apoios concretos à totalidade da população, traduzindo-se isto na redução de taxas cobradas pelas autarquias, no fornecimento de água aos seus clientes.
Não querendo escalpelizar a totalidade de autarquias que já anunciou tal medida, é importante seguir com o exemplo de autarquias próximas, ou mesmo vizinhas, como é o caso de Oliveira de Azeméis. Esta semana, esta autarquia anunciou a redução da taxa de saneamento na fatura da água fornecida aos seus munícipes. Uma medida simples, para fazer face às dificuldades que a população daquele concelho vai viver nos próximos meses e que permitirá que um bem essencial seja consumido com menor custo. 
Quem, como eu, tem defendido igual medida em São João da Madeira, com a redução da taxa de disponibilidade, não pode deixar de aplaudir, a medida tomada pelo autarca socialista do concelho vizinho. 
Com os comerciantes com as suas lojas fechadas, sem faturação, muitos deles sem consumo de água, fará sentido pagar taxa de disponibilidade e de saneamento?
Com o aumento do desemprego, segundo os dados anunciados na imprensa, 500 temporários foram dispensados e com o transversal layoff haverá muito munícipe com perdas de rendimento no final do mês de Abril, como tal, repito a pergunta anterior, fará sentido pagar taxa de disponibilidade e de saneamento?
Com várias empresas com dificuldade em conseguir encomendas, algumas a produzir parcialmente, outras encerradas por layoff, fará sentido pagar a taxa de disponibilidade e de saneamento?
Cabe ao Presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira ponderar a decisão e como acionista maioritário da empresa Águas de São João, executar a medida que considerar mais correta: ou apoia efetivamente a população local ou prefere distribuir os lucros, no final do ano, com o parceiro privado?     
Se este exercício é válido para a distribuição de água, que ficaria apenas com cobrança do consumo e com a taxa de resíduos sólidos, o que dizer do fornecimento de eletricidade e do pagamento de potência contratada (mais relevante do que o valor cobrado de IVA)?
Haja coragem para reverter estes excessos.
Nota: das 5 questões formuladas, apenas 4 têm resposta local. A quinta terá outro palco.      

(publicando em 23/04/20)

segunda-feira, abril 20, 2020

Números na pandemia

No passado fim de semana ficou visível, por todo o país, a diferença entre os valores apresentados do número de casos de infeção de covid-19. Por um lado, os valores registados pelos Delegados de Saúde locais e por outro o boletim epidemiológico da Direção Geral de Saúde, ambos com atualização diária. Salvaguardando-se estes últimos com a referência que apenas reportam 78 a 79% dos casos.
Caso semelhante havia acontecido há umas semanas atrás, no concelho do Porto, com a Direção Geral da Saúde a duplicar o número de infetados para este concelho, justificando o erro com contagem dupla, tendo prontamente identificado o problema e retificado o método de contagem.
Desta vez, o diferendo numérico deveu-se à supressão do número de casos apresentados pelas autarquias, que reportavam os dados indicados pelos delegados de saúde concelhios e por indicação da Direção Geral de Saúde passaram a estar indexados ao boletim epidemiológico, atrás referido. Ou seja, ao número de casos apresentados para cada concelho, deve-se fazer um acréscimo de 22%, para termos a noção da realidade.
Esta medida centralizadora permite desconfiança da população, que ao seguir os dados relativos ao seu concelho, verifica de um dia para o outro, a redução do valor e obviamente, passa a duvidar dos dados apresentados. Não me parece que com esta medida, haja vontade em penalizar os Delegados de Saúde Locais, nem colocar em causa a sua competência. 
Há sempre várias formas de apresentar números.
Apesar do lamentável número de óbitos provocados pela pandemia, em Março de 2020 morreu menos gente que em igual período de 2018. Quando foi publicada esta taxa, os jornais sensacionalistas do país não tinham manchete. Os mesmos que às primeiras mortes, não respeitaram privacidade e lutos dos familiares, noticiavam que afinal, apenas 2% dos falecidos de Março tinham sido vítimas da covid-19. O confinamento nacional estava a resultar e esta prática poucas manchetes poderia trazer.
O número de casos suspeitos, no dia em que escrevo, praticamente 140.000 habitantes, nunca pode ser relacionado com o total da população portuguesa. Caso fosse, jamais seria respeitado o confinamento e dificilmente evitar-se-ia a propagação.
É esta lógica, de apresentação de indicadores para condicionar a população, que se enquadra a amputação de valores por parte da Direção Geral de Saúde. O número de casos confirmados em todo o país deverá ser praticamente 21.000 habitantes. Em alguns concelhos com esse diferencial, a percentagem de população infetada será de 1% (por exemplo, Ovar), no entanto, a maioria não se aproxima desse valor. 
É para o quociente entre o número de óbitos e o número de infetados – taxa de letalidade – que devemos atentar. Com o valor do número de infetados amputado, esta taxa situa-se um pouco acima dos 3,1%, um indicador bastante alto, segundo os dados da Organização Mundial de Saúde. Seguindo o somatório do número de casos indicados pelos  delegados de saúde concelhios, a taxa de letalidade diminuía para 2,5%, o que poderia não provocar qualquer reação de quarentena na demais população.
Os testes posteriores a quem acusou positivo ainda estão demorados. Muitas pessoas ainda estão à espera de fazer o primeiro dos dois testes, que caso acusem ambos negativos, lhes confere alta hospitalar. Só assim se explica que o número de recuperados seja tão baixo. Importa relembrar que em Portugal, o primeiro recuperado foi anunciado antes do primeiro óbito, o que provocou alguma irrelevância à pandemia. 
Não é irrelevante a apresentação de dados. Pode-se é escolher vários indicadores e trabalhar os números conforme se pretende, como aqui demonstrei.
Há no entanto dois que por serem reais, merecem toda a atenção: o número de óbitos e o número de doentes com covid-19 em cuidados intensivos (este permite aferir a capacidade de tratamento do Serviço Nacional de Saúde).
Se em Março faleceram 187 pessoas com ou de covid-19, em Abril, ao fim de doze dias, o número de óbitos é de 348 pessoas. Número significativo com grande incidência no distrito de Aveiro e de Braga, o que implicou uma subida de 25%, em comparação com o mesmo período do ano passado, da taxa de mortalidade destes distritos.
Apesar de ser aborrecido, quem tiver possibilidade, deve manter-se em confinamento, evitando as saídas à rua. Para quem continua a ter que trabalhar, não basta desejar boa sorte, é importante saber que vai estar protegido e a respeitar os cuidados de higienização. 

(a publicar no dia 16/04/20)

quarta-feira, abril 08, 2020

Tempo no confinamento


A falta de noção de tempo no confinamento causa desconforto. Não o dia-a-dia, pois o ritmo diário é mantido de acordo com a luz solar e horário das refeições, mesmo com tolerância, obriga a manter uma certa ordem.
A desordem começa quando não se sabe qual o dia da semana, ou o dia do mês. Apesar do esquema diário ser semelhante, é na sucessão de dias idênticos que se sente o tal mal estar. Dias sem sair de casa, dias com a mesma rotina, dias monotemáticos, sempre com a mesma conversa com o mais diverso interlocutor.
Para contrariar a incerteza, recorro à paginação semanal dos colunistas do jornal diário, que avidamente leio. Ao ver cada coluna, sei qual é o dia da semana e assim, tranquilizo-me. 
A alvorada é feita precisamente com o jornal a acompanhar o café matinal e o pão fresco, recolhido minutos antes ao portão (uma das vantagens do confinamento, entregas diárias pela madrugada). Sem pressa, sem preocupações de cumprir horários, sem calcular tempos de transporte, metade do jornal fica lido.
Sem atividade profissional, opto pelo exercício físico, dedicando tempo à malhação. O que começou por ser um concerto de expetoração, oferecido por uns brônquios carregados e uma caixa de ar pouco estimulada, ao fim de uma semana transforma-se numa tosse suave, ou mesmo, apenas e só numa respiração com inspirações e expirações breves. A forma física, sem adjetivo, permite-me intervalar os medicamentos da asma, suavizando a posologia, feito apenas alcançado em dias de verão, em climas claramente quentes e pouco húmidos.
A acompanhar o exercício, para manter a cadência, opto por ouvir música. Oportunidade para escutar vários dos pequenos concertos, oferecidos por uma rádio norte-americana (NPR). Escolho o primeiro, muitas vezes sugerido pela plataforma de partilha e a partir daí fico a aguardar pela escolha seguinte, em modo automático selecionada pelo algoritmo. Desta forma, passei a conhecer uma série de bandas, que não fazia a mínima ideia que existiam e muitas delas, a partilhar com os meus conhecidos, familiares ou amigos.
Entretanto, dou o lugar a outro membro da família: a partilha é um dos segredos do confinamento. Outro, é estar cada um ocupado com as suas tarefas, independentemente das horas despendidas, em diferentes divisões da casa. A reunião familiar, os quatro elementos, faz-se à hora das refeições. As tarefas para esse momento estão previamente definidas, para não haver discussões sobre inércias individuais, ou evidências de preguiça. Momento para falar dos mais variados assuntos, para trocar impressões sobre o evoluir da infeção na região, no país e abordar o quotidiano de cada um: inscrições para exames, trabalhos enviados para professores para os mais novos, tarefas profissionais da cara metade, tarefas domésticas já realizadas ou a programar, ou mesmo, para partilhar as conversas com outros confinados, espalhados pelo país. Tempo até para os inevitáveis conselhos paternais, que surgem sempre nestes momentos.
Depois de almoço, oportunidade para executar aqueles "trabalhos" há muito adiados. Se necessito de mão-de-obra para ajudar tenho que requisitar com antecedência. Terminada a tarefa, oportunidade para colocar a leitura em dia. Se a meteorologia ajudar, umas horas passadas no exterior a fixar vitamina D, é a melhor opção. Caso contrário, a partilha de compartimento, sem incomodar os outros.  
Nesta fase do dia surge a necessidade, por defeito profissional, de controlar indicadores. Escolho um diferente cada dia, para evitar sistematizações e repetições na quinzena: fluxos financeiros, fluídos de abastecimento à casa, tráfego de internet no telemóvel, entre outras verificações. Também é uma boa hora para utilizar os telefones e colocar a conversa em dia com os demais destinatários.
Pelas 18h30m, liga-se a televisão. Procura-se um filme, um episódio de uma série, em site especializado e até ao jantar, com os óculos na cara, atenta-se no programa escolhido. Depois de jantar, um pequeno zapping, até à hora da série do canal 2. Terminada a visualização, escolhe-se outro programa aleatoriamente e por mais meia hora, ou coisa e tal, pois o sono começa a apertar.
A rotina criada é interrompida com a chegada do jornal labor, entregue pelo carteiro, à quinta-feira. Um facto diferente, que ajuda a colocar ordem no dia da semana. 
Curiosamente no domingo passado, o corpo pediu mais descanso e a alvorada foi já tardia. A confirmação humana, mesmo em tempo de confinamento, dos textos sagrados.

terça-feira, março 31, 2020

Até ao confinamento

No inicio de março, optei por enviar para o jornal labor um longo texto, dividido em três partes, cada correspondendo a uma edição semanal, por prever que o mês seria difícil e pouco tempo me restaria para o exercício de escrita. 
Assim foi.  
Apesar de na primeira semana de março estar convalescente, devido a um bloqueio no esófago, obrigando-me a fazer uma endoscopia baixa, que não resolveu o problema e uma alta, definitiva, no bloco de pequenas cirurgias do Hospital de Santo António do Porto, tudo na madrugada de 29 de Fevereiro, consegui ter discernimento para decidir o que publicar nessa semana. Como senti que a aproximação do vírus covid-19 era inevitável, naquele mesmo dia surgiu o primeiro caso em Portugal, com internamento no mesmo hospital, onde horas antes eu tinha feito os tratamentos, fiquei apreensivo, decidindo editar uma breve história da AEJ, nos moldes atrás descritos.
Nos catorze dias seguintes fiquei de alerta aos possíveis sintomas físicos. Recorrendo a uma tabela sintomática ilustrativa, publicada pela Organização Mundial de Saúde, fui avaliando o meu estado, esperando que rapidamente ultrapassasse o período de incubação, sem qualquer complicação. Entretanto, surgiam noticias de testes ao vírus covid-19 positivos nos concelhos de Ovar e de Santa Maria da Feira, com uma grande proximidade ao meu perímetro de residência e de trabalho. Na segunda semana de março, a aproximação foi cada vez maior. A freguesia onde habito passou a ser notícia nacional e a freguesia onde trabalho, faz fronteira com outra freguesia, que se tornou mundialmente famosa, por ser dali oriunda a mãe infetada a fazer o primeiro parto nessa condição. No final dessa semana, estando eu a perfazer a quinzena pós noite no Hospital Santo António, mais confiante portanto, sou informado que a esposa de um colega de trabalho tinha acusado positivo. Apesar do colega ter ficado em isolamento uns dias antes, desde que havia suspeitas de contaminação, o perigo de contágio era agora muito superior. 
A terceira semana de Março foi terrível. Cada dia, mais casos em Portugal, piores notícias vindas de Espanha e de Itália, enfim, do mundo inteiro. Trabalhei a semana toda de máscara, sempre a limpar as mãos, a desinfetar objetos, impondo regras sanitárias aos restantes elementos da equipa de trabalho, evitando o aproximar, o aglomerar, o falar sem máscara. Enquanto isso, no município de Ovar pedia-se uma cerca sanitária e o Estado ficava em emergência. A dupla condição e a confusão gerada, ainda me permitiram atravessar a calamidade, com um certificado da empresa durante dois dias.  Entretanto, apesar dos seus esforços, junto do SNS24, para realizar o teste ao vírus covid-19, apenas ao fim de uma semana, o meu colega conseguiu fazer o exame. Ainda assim, apenas dois dias depois, o resultado foi divulgado – positivo. Ao chegar a casa, no final de sexta-feira à tarde, respondo ao inquérito telefónico do SNS24, apesar de eu não ter sintomas, só tinham passado nove dias desde o último contacto com o infetado, sendo que a partilha de espaço fechado, por mais de quinze minutos, foi condição determinante. Passei a estar referenciado, ficando em isolamento profilático durante cinco dias.
O fim de semana foi penoso. Mantive-me de máscara. Aprendi finalmente a respirar com este equipamento de proteção individual. Lembrei-me da respiração de Carlos Lopes, campeão olímpico, enquanto fazia a maratona: pelo nariz. Deste modo, a boca não seca tanto e não é preciso beber tanta água. Aproveitei o isolamento para a leitura, colocando em dia a leitura diária do Público e dedicando-me à releitura do livro "Os Irmãos Karamazóv" de Fyodor Dostoevsky.
Os restantes dias estive em teletrabalho, sempre confinado ao quarto. Uma experiência curiosa, sem tempos de deslocação: acabar de lavar os dentes, em seguida ligar o portátil e entrar em contacto com os restantes elementos da empresa; o regresso "a casa", em sentido contrário, fechar o portátil e começar a ler, ou fazer outra atividade (aproveitei para visualizar uma série britânica, sobre os adeptos de futebol do Surderland). Sintomas, não tive. Passei a medir a temperatura duas vezes por dia (obtendo valores disparatados como 34,9º ou 35,2º); não tive dores de cabeça, nem de garganta, nem outras complicações (comi com apetite e não perdi o olfato). Apesar de tudo, perdi peso. Teste não fiz. Prioritários por estes dias eram os profissionais de saúde e os doentes com sintomas. Entre estes contavam-se alguns colegas da empresa,  que apesar de terem pequenos sintomas, o teste efetuado revelou estarem limpos do covid-19.
Ao quinto dia tive alta. Apesar disso, como a cerca sanitária de Ovar tinha-se tornado mais seletiva, não pude sair do concelho. Passei do isolamento profilático para o estado de quarentena comunitária. Deixei o quarto, para começar a trabalhar em teletrabalho em qualquer compartimento da casa, podendo fazer as refeições com a restante família.
No final dessa tarde, outro caso do vírus covid-19, provocado por outro foco, colocou a totalidade da empresa em quarentena. Voltei a ficar em isolamento. Desta vez, não me confinei ao quarto. Nem em teletrabalho.
O meu segundo isolamento profilático já terminou. 
Continuo sem sintomas. 
Aprendo a viver em confinamento.
O relato desta experiência ficará para uma próxima edição.

(a publicar no dia 02/04/20)

terça-feira, março 10, 2020

Breve história da AEJ - 3ª parte - nas Corgas

Apresento hoje o último texto sobre a história da AEJ. Se o leitor se recorda, no texto anterior descrevi a dedicada ação da nova direção, com as alterações desencadeadas no clube, demonstrando como esta associação estava dispersa pela cidade.

Apesar da nova dinâmica, a AEJ precisava de concentrar toda a sua atividade nas Corgas. A Câmara Municipal de S. João da Madeira em outubro de 2001 cedeu umas salas disponíveis no complexo desportivo das Corgas, mais a gestão dos courts de ténis. Apesar de realizado o desejo, as eleições autárquicas em dezembro de 2001 elegeram um novo Presidente da Câmara Municipal, o que significou que o processo de mudança para a nova sede demorou um pouco mais.

É neste clima de negociação que se inicia o mandato de Nuno Fernandes. Após vários meses de negociações, a AEJ conseguiu a cedência das instalações atuais, concentrando a sede social, a organização do campo de férias, a secção de xadrez, a de capoeira e a de natação, tudo nas Corgas. Na nova sede, nasceram novas secções – ténis e parapente e estendeu-se o apoio a outras atividades – karting e motociclismo. Com tudo isto, a AEJ passou a ser um clube eclético e reconhecidamente ganhou o estatuto de segunda associação desportiva da cidade.

Os resultados desportivos continuaram a aparecer, sobretudo, nas secções desportivas mais antigas. Com destaque para a natação e o título de Campeão Nacional de Gustavo Costa, treinado por Augusto Macedo. 

Em outubro de 2005, é eleito presidente da AEJ, Artur Barbosa. Pela primeira vez, um sócio não fundador passa a liderar os destinos do clube. Do seu curto mandato, destaque para a aproximação à juventude, com um conceito de animação envolvendo os jovens monitores dos Campo de Férias Estamos Juntos (CFEJ). É neste ano que surge um novo projeto na Natação, com Luís Ferreira a treinar um novo lote de nadadores e onde prontificavam entre outros, Diogo Moreira e Ana Rodrigues.

A mudança de presidente, com a eleição de Pedro Neto, em 2007, permitiu à AEJ ser liderada por um jovem, oriundo dos monitores dos CFEJ. Pedro Neto liderou o clube até 2010. No seu mandato fecharam as atividades de parapente, motociclismo e karting e em contrapartida, o judo esteve em atividade durante o ano de 2008. Um regresso às origens do CFEJ. O judo infelizmente não teve continuidade, essencialmente, porque a atividade estava localizada fora do Complexo Desportivo das Corgas, o que contrariava a essência da AEJ dos últimos anos.

É por estes anos, que o trabalho individual de Ana Rodrigues na Natação começa a sobressair. A Federação Portuguesa de Natação aponta-a para o projeto Olímpico de Londres, para o ano de 2012.

Em 2010, surge um novo capítulo na história da AEJ. António Deville é eleito presidente. Depois de dezanove anos de sucessivas lideranças de sócios fundadores e de mais cinco com direções de antigos participantes em Campos de Férias, surge um sócio, sem aqueles predicados, a comandar os destinos do clube. Condição que se manteve ao longo dos últimos 9 anos.

Os resultados desportivos são igualmente melhorados. Antes de fechar portas, o xadrez chegou a competir durante uma época no Campeonato Nacional da 1ª Divisão, ou seja, entre as 10 melhores equipas do país. Em 2013, demonstrando a longevidade desta secção, Rodrigo Ribeiro, filho de um dos primeiros xadrezistas do clube sagra-se vice-campeão Nacional de sub-08.

               Embora nem só de destacados resultados desportivos viva um clube, a atividade da secção de ténis, nunca chegou a sobressair no contexto distrital ou nacional da modalidade. Para isso, pode ter contribuído o sucessivo mau estado do piso dos courts municipais e o adiar da resolução e modernização daquelas instalações desportivas.

Relativamente à Natação, destaque para o trabalho de Ana Rodrigues. Em 2010, consegue a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos da Juventude, realizados em Singapura. Dois anos mais tarde, Ana Rodrigues sempre conseguiu o apuramento para os Jogos Olímpicos de Londres – a página dourada do desporto desta Associação. Aliás, da cidade de S. João da Madeira.

Era o culminar do sonho desportivo da AEJ, premeditado nos anos 80 do século passado, ainda no Tanque-piscina da Escola Primária do Parque, por Armando Margalho, enquanto monitor de natação, que traçou um desafio para o desporto de S. João da Madeira: “com o complexo desportivo das Corgas, estavam reunidas condições para um sanjoanense participar nos Jogos Olímpicos”.

Em 2020, esta associação, sob a liderança de Joaquim Fial, procura consolidar o seu projeto desportivo, contando com cinco secções: Natação, Ténis, Triatlo, Surf e Fitness, envolvendo mais de 100 atletas. O CFEJ continua a ser organizado, tendo-se adaptado aos novos tempos, aumentando a sua duração, com maior diversificação de atividades, procurando ser uma solução de confiança, para os pais que pretendem ocupar os seus filhos nas férias escolares.

Novos talentos desportivos, entretanto, despontaram. Um novo nadador, Henrique Silva, está referenciado pela Federação Portuguesa de Natação, treinando regularmente no Centro de Alto Rendimento de Rio Maior, conseguindo obter títulos nacionais.

Novos objetivos serão traçados, novos sonhos se concretizarão.

 

(a publicar no dia 26/03/20)

 

 

Breve história da AEJ - 2ª parte - pela cidade

Na semana passada abordei a história da AEJ no período circunscrito às traseiras da escola do Parque. O artigo terminava com a oficialização do conceito “Estamos Juntos” e pela vontade da AEJ em participar em provas oficiais de basquetebol e de natação.

A inscrição em Campeonatos Nacionais na Federação Portuguesa de Basquetebol não foi realizada atempadamente. Só em 1987 é que a AEJ competiu em termos federados. Nesse ano, além de promover a internacionalização Campo Férias Estamos Juntos (CFEJ), recebendo em S. João da Madeira, um grupo de jovens ingleses, é inaugurado o Complexo Desportivo Municipal das Corgas, com pavilhão e piscina interior de 25 metros. Durante as três épocas seguintes, a AEJ competiria no Campeonato Nacional da 3ª Divisão em Basquetebol e estaria inscrita na Associação de Natação de Aveiro. Durante esse período, já no ano 1988, após um interregno na organização do CFEJ, José Miguel Guerra assume a presidência da AEJ, sendo na sua presidência que é organizado em 1989 o espetáculo “Adeus ao Verão”, com a subida ao palco, montado na Praça Luís Ribeiro, de vários artistas locais.

Em 1990 é extinta a secção de basquetebol. A secção de Natação vê os seus atletas saírem para a Associação Desportiva Sanjoanense e António Pinho, após demissão de José Miguel Guerra, assumindo o cargo de presidente interinamente, procura consolidar o seu trabalho desenvolvido na organização do CFEJ, já no complexo das Corgas, lançando um novo técnico, Luís Ferreira e consequentemente um novo projeto para a secção de Natação e apoia a criação da secção de xadrez.  

É com base no trabalho destas duas secções que a AEJ atravessa a última década do século passado. Com o xadrez a viver em salas emprestadas e a natação a utilizar a piscina para treinos (cada secção reunia os documentos em casa do seu diretor), ressaltavam os resultados desportivos alcançados. Durante estes anos o tronco comum da AEJ era a organização do CFEJ, que abandonou o modelo simplesmente desportivo e passou a proporcionar aos participantes momentos de diversão, adequados aos tempos de férias escolares, tendo sempre como ponto alto, a sua festa final, preparada para ser exibida na Praça Luís Ribeiro, no meio da programação das noites de verão da cidade.

O xadrez arrancou com bons resultados a nível Nacional, como o 2º lugar no Campeonato Nacional feminino de Alzira Silva, logo em 1991, organizado em S. João da Madeira, pela AEJ, que valeu à jogadora a internacionalização, tendo participado nas Olimpíadas da modalidade em Novi Sad (ex-Jugoslávia). Apesar deste resultado, a grande aposta da AEJ passou a ser a partir de 1992, os escalões de formação, com a conquista de vários títulos distritais e tendo-se atingido bons resultados no Campeonato Nacional de Sub-20 por Stephane Silva e Ricardo Pinho. Com base nesses jovens, criou-se uma equipa forte que atingiu o seu máximo ao subir à 2ª Divisão, em 1999, colocando-se entre as 20 melhores equipas do país.

Os resultados da Natação nesta década são essencialmente individuais, com uma sucessão de atletas a conseguirem atingir a marca de campeão nacional, em escalões de tenra idade. Títulos em campeonatos e ótimos resultados nacionais conseguidos por Inês Aleixo, João Bastos, André Bastos, Daniela Azevedo acompanhados por outros atletas fizeram a AEJ aparecer no contexto distrital como um clube de referência e projetar o clube para patamares episódicos de disputa da 3ª Divisão Nacional. A partir de 1992, a AEJ voltou a ser o único clube com secção de Natação em S. João da Madeira, com o regresso ao clube de Augusto Macedo.

Ao longo destes anos desta década de 90, sempre com Lisete Costa a liderar o clube, ainda surgiu uma nova secção de desporto automóvel, para apoio a pilotos locais como Paulo Lima e Pedro Correia.

Na viragem para o novo milénio, Rui Guerra assumiu a presidência da AEJ. O clube passou a ter uma sede social, embora reduzida, alteraram-se os estatutos, criou-se o ficheiro de sócios, realizaram-se Assembleias Gerais duas vezes por ano, mantiveram-se as duas secções desportivas (natação e xadrez), o campo de férias alargou o seu horário para a tarde, diversificando a oferta aos participantes e ainda houve oportunidade para a inscrição da AEJ como associação juvenil, no então denominado, Instituto Português da Juventude. A reorganização do clube, fez a cidade aproximar-se da AEJ, passando esta a ser vista como uma solução para a concretização de projetos desportivos e é assim que surge a secção de capoeira, que passava a treinar na Escola Secundária Dr. Serafim Leite.

 

(a publicar no dia 19/03/20)

 

 

Breve história da AEJ - 1ª parte - à volta do Parque

No dia 27 deste mês será realizada a Assembleia Geral Extraordinária da Associação Estamos Juntos para revisão da totalidade dos seus Estatutos. Oportunidade para dar relembrar aos leitores do jornal labor a história, em modo breve, desta associação.

Dividi os quase quarenta anos, em três textos. Hoje publico a primeira parte, intitulada à volta do Parque. Nas próximas duas semanas serão publicados os textos com as etapas posteriores.

Apesar do ano de fundação da Associação Estamos Juntos ser 1986, a atividade sob designação “Estamos Juntos” começou em julho de 1982. As traseiras da Escola Primária do Parque acolhiam o 1º Campo de Férias, que contou com 65 participantes, de idades compreendidas entre os 4 e os 12 anos. As atividades realizavam-se durante as manhãs dos dias de semana, propondo-se aos participantes o contacto com diversas modalidades desportivas: Natação - aproveitando-se o tanque piscina de 12,5 metros, construído à época naquele espaço; Futebol – atendendo à existência de um ringue em terra batida, com duas balizas no recreio da referida Escola; Voleibol – por existir uma rede da modalidade num outro ringue, igualmente em terra batida; Judo – colocando-se os colchões apropriados no refeitório da referida Escola; Xadrez – com tabuleiros a partilhar o espaço do Judo. Estas atividades tinham como complemento os passeios em grupo pelo Parque Nossa Senhora dos Milagres, no qual o circuito de manutenção era desafiador para as crianças verificarem a sua apetência para exercitar os seus dotes físicos. Esta atividade foi inovadora na ocupação de tempos livres de crianças, em período de férias escolares.

Todas as manhãs, pelas 9 horas, os participantes eram recebidos sempre do mesmo modo. Crianças e monitores davam as mãos fazendo uma grande roda, ouviam de Armando Margalho as novidades do dia, ou as recomendações, conselhos e no final da palestra todos gritavam “Estamos Juntos”, precedida da contagem “1, 2, 3”. Este ritual manteve-se durante os anos que o Campo de Férias Estamos Juntos (CFEJ) se realizou nas traseiras daquela Escola. Cada nova edição trazia uma novidade: uma faixa do CFEJ à passagem para as traseiras da Escola do Parque; os cartazes promocionais distribuídos por S. João da Madeira; uma bandeira do CFEJ, hasteada todas as manhãs, antes da receção na roda; a festa final, noturna, inicialmente com o encerramento dos torneios desportivos e passado uns anos com a atuação dos demais grupos etários, exibindo em palco as suas competências artísticas; o acampamento na Serra da Freita e houve um ano que nos quinze dias de preparação do CFEJ, além de limpar as ervas dos ringues, houve tempo para roçar e montar um campo de basquetebol, com duas tabelas chumbadas, aproveitando-se a experiência acumulada na construção de um pequeno lado, que iniciado em 1982, apenas terminaria em 1987. Um ponto mais para explicar a simbologia dos CFEJ, inicialmente para melhor identificar os participantes, solicitava-se aos pais das crianças uma t-shirt, estampando-se monocromaticamente o logótipo da edição do Campo de Férias. Ainda nesta fase da história do CFEJ, surgiu a oferta dessa t-shirt, primeiro como o símbolo em bicolor e mais tarde com várias cores estampadas e com desenhos mais imaginativos.

A envolvente desportiva do CFEJ iria marcar o inicio de atividade da Associação Estamos Juntos. O aproveitamento do campo de basquetebol, promovendo jogos ao fim de tarde, entre um grupo de antigos atletas federados e a vontade de jogar semanalmente vestindo um equipamento de um clube, fizeram nascer a Associação Estamos Juntos (AEJ). Em agosto de 1986, oficializava-se o conceito Estamos Juntos. O seu primeiro presidente foi Armando Margalho. O grupo informal que organizava o CFEJ, que durante anos se autointitulou de Cooperativa, passava a associação, abrindo-se assim, uma nova etapa no desporto de S. João da Madeira. Ao basquetebol, juntava-se a secção de natação, procurando-se potenciar os melhores alunos da escola de natação municipal, que funcionava até então, claro está, no tanque piscina da Escola do Parque.

 

(a publicar no dia 12/03/20)

 

quarta-feira, março 04, 2020

18 meses

Sensivelmente daqui a ano e meio serão agendadas as eleições autárquicas de 2021. Em final de setembro ou princípio de outubro do próximo ano, conforme o calendário a afixar pelo Governo. Pode parecer uma data distante, mesmo havendo umas eleições Presidenciais no inicio do ano, contudo, já há movimentações partidárias que permitem tecer algumas considerações.

O Partido Socialista tem como objetivo consolidar o resultado obtido em 2017, mantendo o maior número de Câmaras Municipais conquistadas nessas eleições. Por seu lado, o Partido Social Democrata pretende recuperar o que perdeu, meta definida antes das eleições legislativas de 2019. Os restantes partidos, atendendo à expressividade de cada um, ainda não se focaram totalmente no processo.

Na prática, o PS tem um programa já a decorrer – Diálogo Olhos nos Olhos – que consiste na promoção de debate entre elementos do grupo parlamentar, eleitos por cada ciclo eleitoral, com habitantes dessa região. Um itinerário distrital, com periodicidade mensal, que deverá percorrer a totalidade do país, permitindo assim, acertar ideias e slogans para a campanha eleitoral.

Do lado do PSD, a técnica é diferente. Primeiro sugerem-se candidatos, com as concelhias a convidarem, para encabeçar a lista, os seus militantes melhor posicionados para vencerem as eleições. Os convites podem ser endereçados a militantes de outras concelhias, ou recorrer-se a independentes perfeitamente identificados com o partido. A título de exemplo, observe-se a sugestão do nome de Paulo Rangel, atualmente eurodeputado, como candidato à Câmara Municipal do Porto.

Em São João da Madeira o processo não será diferente.

O cenário é novo.

Após 16 anos de executivos de maioria PSD, em 2021 tudo se altera, com o PS a chegar na confortável posição de ter maioria na autarquia. Este conforto proporciona a possibilidade de apropriação da execução do plano de atividades municipal. Ou escrito de outra forma, a procura da execução do programa eleitoral. Ora, nesta matéria, os dezoito meses que faltam para as eleições parecem ser pouco para o atual executivo.   

Tarda o lançamento de obras na Praça Luís Ribeiro, com consequência imediata de causar desconforto aos habitantes, comerciantes e seus clientes (pó e lama durante a execução). Quanto mais tarde terminar, ou mais próximo do ato eleitoral, a assimilação do novo conceito por parte da população poderá não ter o efeito esperado (em 2017, nos meses anteriores às eleições, a retirada do Elemento Arquitetónico da Praça não foi nada pacífica). Por outro lado, não fazer nada é prejudicial, sobretudo, depois de três anos à espera e de tal empreitada ter sido amplamente propagandeada. Para não fazer, já existe o tema da Piscina, o adiamento da gestão elétrica de baixa tensão, entre outras promessas que não serão cumpridas, como a instalação da Casa da Memória.

Ainda há outros temas que podem gerar desconforto, como a política de continuidade na gestão da água, em que a mudança de executivo nada alterou, nem trouxe benefício direto para a população, ou seja, não houve reversão simbólica, nem devolução de rendimentos à população, com a respetiva redução das taxas cobradas na fatura da água.

É neste desequilíbrio que o PSD poderá apostar. Fazendo analogia com a sua história, este partido terá que convidar um candidato com perfil dinâmico, conhecido no concelho, com uma visão clara para a cidade. Atributos que poderão agradar aos eleitores e alterar o sentido de voto daqueles 1700 que em 2017 votaram no PS e que nas intercalares de 2016, tinham votado na coligação PSD/CDS.

Por tudo isto, em 2021, as eleições autárquicas de São João da Madeira deverão ser extremamente interessantes, se se proporcionarem escolhas partidárias adequadas. No limite poderão desencadear um processo eleitoral sem vencedor anunciado.

 

(a publicar no dia 05/03/20)

quarta-feira, fevereiro 19, 2020

A porta não se fechou

Ao chegar ao número 49 da Rua da Liberdade, deparo-me com a porta, de acesso ao prédio, fechada. Durante vários meses a passagem esteve franqueada, pelo que não era necessário utilizar chave para transpor a entrada do edifício. Enquanto me certifico se ainda tenho a correta, percorre-me uma estranha sensação que um dia o meu acesso por aquela porta ficará condicionado. Coloco a que julgo ser certa na ranhura e sem resistência a fechadura cede. Ao subir a escada até ao segundo andar, continuo a pensar no desconforto sentido e no que será, um dia circular por ali, sem o mesmo objetivo dos últimos anos, aceder à residência dos meus pais.

Nos primeiros anos da década de 1960, o meu pai foi colocado em São João da Madeira, para exercer funções de notário. Inicialmente, instalou-se numa pensão que existiu no lado poente da Rua 11 de Outubro. Anos depois, já com a minha mãe a viver e a lecionar por cá, montaram casa na Rua Dr. Maciel, junto à estação. Por ali, os meus irmãos viveram os seus primeiros anos, até que no final dessa década, a família transferia-se para a morada descrita no paragrafo anterior, na qual a minha mãe ainda hoje reside na sua condição de viúva.

A vida dos meus pais na comunidade sanjoanense manifestou-se pelas mais diversas formas: nas associações (em especial em Associações de Pais, na Santa Casa da Misericórdia, na Associação Cultural Alão de Morais, na Creche Albino Dias Fontes Garcia, na delegação local da Cruz Vermelha); na política (não partidária) – tendo o meu pai exercido mandato como vereador, antes e depois do 25 de Abril de 1974; no discreto apoio à paróquia (com destaque para o serviço gratuito prestado pelo meu pai, que lhe valeu uma forte amizade do Padre Aguiar) e claro (e sobretudo) pelas suas atividades profissionais, com o meu pai como advogado, com escritório próprio e a minha mãe como professora efetiva na Escola Secundária Dr. Serafim Leite e ajudando os alunos que precisavam de apoio no estudo de matemática.

Ainda hoje, a família procura estar inserida na comunidade.

24 anos depois de se ter reformado, a minha mãe continua a apoiar alunos em sua casa. À disciplina de matemática, acrescentou outras matérias, o que lhe permite continuar a adquirir novos conceitos ou a reciclar conhecimentos antigos. Além do ensino, a componente paroquiana também ficou em exclusivo para ela.

Sem os descendentes diretos a trabalhar em São João da Madeira, a tarefa de continuar no escritório de advogados Guerra e Vilela (sociedade entretanto constituída pelo meu pai e sua sócia) está entregue ao neto mais velho.

É no associativismo que existe grande afinidade com a cidade. Em especial, na troca de informação entre irmãos divulgando os resultados da Associação Desportiva Sanjoanense – ao domingo, como sócio, assumo essa transmissão, sobretudo do futebol, não escondendo regozijo com as equipas das outras três modalidades praticadas e também dos feitos da natação. Em comum, entre os três irmãos, o estatuto de sócio fundador da Associação Estamos Juntos, o que implica uma relação por vezes emotiva, outras vezes racional com esta associação. A última destas ponderações, levou-me a mim e ao meu irmão Miguel de volta ao ativo nos órgãos sociais. Os interesses pela vida associativa tornaram-me sócio da Santa Casa da Misericórdia e da Associação Cultural Alão de Morais, uma continuidade curiosa do passado dos meus pais.

A anterior menção ao meu irmão Miguel, permite fazer a ligação à sua residência em São João da Madeira, há quase nove anos, facultando-lhe a possibilidade de ter vida social na cidade.

Por fim a vertente política, ressalvando as aventuras do Partido Humanista que em tempos envolveu o meu irmão Luís, a independência tem sido apanágio familiar. Neste particular, já houve uma aproximação minha ao Partido Socialista em 1997, tendo exercido o mandato de deputado municipal como independente. Apesar de ter participado, desde 2012, em fóruns preparativos das eleições autárquicas, a minha rebeldia (e se calhar algum mau feitio), mantiveram-me longe das listas eleitorais, apesar dos convites endereçados por alguns candidatos.

É certo que esta exposição, através da publicação de artigos de opinião no jornal labor, contraria a discrição familiar. Uma contradição sem prejuízo para a intimidade de cada membro.

A porta ainda não se fechou.

Afinal, são agora várias.

Enquanto estiverem abertas, a retidão pela qual o meu pai era reconhecido terá que ter continuidade.  

 

(a publicar no dia 20/02/20)

 

quarta-feira, fevereiro 12, 2020

Pedro e Nuno

O troço sul da Linha do Vouga está a receber programas turísticos com locomotivas movidas a vapor. Recentemente a CP organizou um comboio entre Aveiro e Macinhata do Vouga, onde está localizado o Museu Ferroviário, estando agendado para breve mais passeios, com composições que são peças desse Museu, ou que estavam abandonadas pelo país e que, entretanto, passaram a ser reparadas e colocadas à disposição destes programas para os apaixonados dos comboios antigos.

As sucessivas reportagens na comunicação social sobre esta atração turística permitem verificar o seu sucesso e possibilitam ao promotor alargar os programas de oferta. Naturalmente, a Câmara Municipal de Águeda já dimensionou a oportunidade em termos de turismo e pretende ser parceiro ativo da CP, esperando receber mais visitantes no concelho.

Se o destino do troço Sul do Vouguinha está traçado e o seu futuro por agora parece estar assegurado, o que poderá acontecer ao troço Norte, entre Espinho e Oliveira de Azeméis?

Antes de avançar, recordo aos leitores menos familiarizados com esta Linha, que o troço a sul do concelho vizinho está encerrado, devido ao seu estado degradado. Ou seja, de Oliveira de Azeméis até Sernada do Vouga não circulam comboios. Recordo, igualmente, que o traçado original seguia desta última estação até Viseu, estando este troço fechado desde o final do século XX. Refira-se o pormenor geográfico, deste traçado ser paralelo ao rio que dá o nome à linha, ora circulando o comboio pela sua margem esquerda, transpondo o rio por belas pontes, para circular na margem direita, incutindo ao projeto original um enquadramento natural digno de visita e registo.

Ao longo dos anos muitas foram as hipóteses de transformação do troço Norte da linha do Vouga. Corredor para ligação ao metro do Porto (à semelhança da linha da Póvoa); alargamento da bitola para circularem outras composições mais modernas e mais rápidas; introdução de um sistema de vai e vem apenas na cidade de São João da Madeira. Tudo pressupostos de acordo com o momento vivido pelo país, no desenvolvimento de soluções de transportes públicos, ou pensando-se apenas numa localidade.

Nos últimos anos prevaleceu uma nova solução, provavelmente a melhor, ligar a Linha do Vouga à Linha do Norte em Espinho. Ou seja, permitir que as cidades de Oliveira de Azeméis, São João da Madeira e Santa Maria da Feira passem a estar ligadas ao Porto por ferrovia direta. Neste sentido, surgiu a ideia de as ligar a S. Bento, à semelhança do que existe com os comboios que saem da estação portuense e seguem para Braga, Guimarães e Marco de Canaveses.

Um novo itinerário na Grande Área Metropolitana do Porto, criando soluções ferroviárias para os concelhos a sul do Douro, completando a larga oferta rodoviária e promovendo a coesão territorial. Em termos de transportes coletivos, atendendo ao novo modelo de passes, incentivado pelo Governo do Partido Socialista, surge uma oportunidade para deslocações de esta zona para a cidade do Porto e vice-versa. Recordo que os 40 euros de custo mensal de passe / andante permitem circular através dos transportadores aderentes por toda a Área Metropolitana do Porto, incluindo o Metro do Porto, a CP, os SCTP e alguns privados, onde se inclui a Transdev. Neste sentido, um comboio, mesmo com velocidade média (80KM/h) permitirá percorrer os quilómetros que separam estes concelhos da cidade do Porto, num tempo razoável, evitando-se as filas de automóveis na entrada e saída da grande cidade, além das despesas inerente de combustível, portagens e estacionamento para quem não o tiver gratuito. Mesmo para quem já opta pelo autocarro, o comboio pode ser mais vantajoso: em tempo, de São João da Madeira a Santa Maria da Feira o autocarro tem que parar nove vezes, caso haja passageiros interessados em entrar ou sair do autocarro nos locais apropriados; em lugares para passageiros, o autocarro normal tem capacidade para 50 lugares, havendo horários em que seguem dois autocarros seguidos para fazer face à procura, ficando ambos lotados à entrada para a autoestrada A1. Como se pode ver, as vantagens não se limitam à descarbonização da área metropolitana, embora não se deva descurar essa vertente.

No Plano de Investimentos Ferroviários 2016-2020, a Linha do Vouga não foi contemplada. Apesar da sua baixa execução (11%), está a ser preparado um novo plano para a próxima década. O Programa Nacional de Investimentos 2030 está em discussão pública. As primeiras referências na comunicação social nada adiantavam se a Linha do Vouga estava envolvida nessa discussão.

Por curiosidade fui espreitar o Programa e os seus projetos.

117 páginas no total.

Nos projetos da Ferrovia, que importa aqui focar, estão contemplados 75 milhões de Euros para a requalificação do troço Espinho – Oliveira de Azeméis da Linha do Vouga, a realizar-se entre 2021 e 2025. Analisando melhor a ficha de investimento, afinal a requalificação é mais ambiciosa, já que inclui a construção de ponto de amarração à linha do Norte. O objetivo deste investimento será “aumentar a quota de mercado da via-férrea, permitindo serviços suburbanos diretamente à cidade de Oliveira de Azeméis”.

Caso este investimento público seja concretizado nos próximos anos, Pedro Nuno Santos ficará na história como o ministro que permitiu a requalificação da Linha do Vouga, depois de décadas ao abandono. Neste processo não pode ficar esquecido Nuno Freitas, presidente da CP, que com pouco tempo de mandato tem alterado a forma de gestão da empresa pública, com sinais muito positivos, sobretudo na reabilitação de recursos, na qual se insere perfeitamente a linha do Vouga.

          

 

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

Assim vão os nossos vizinhos.

                1) Um ex-vereador de um concelho vizinho, a propósito da gestão da sua agenda, contava que por vezes tinha cinco compromissos na mesma noite. Normalmente jantares em freguesias diferentes, separadas umas das outras por alguns quilómetros. Ele comprometia-se com todos e com a sua graça relatava como em todos os jantares a ementa era igual, utilizava um método para garantir a sua presença sem prejudicar a sua refeição. Iniciava a ronda, com as entradas, num dos jantares, discursava e saía. Em seguida comia a sopa na freguesia vizinha e utilizava o mesmo procedimento, discurso e abalo. Uns quilómetros adiante degustava o prato principal, seguindo-se a oratória e a mudança de instalações. O mesmo com a sobremesa no quarto jantar e por fim, no quinto repasto, bebia café e o digestivo. Aqui com mais calma permanecia mais um pouco, para além do discurso apropriado. Uma habilidade que lhe permitia agradar a quem o convidava, ao mesmo tempo que representava a Câmara Municipal em todos os eventos, permitindo igualmente uma gestão de recursos.

                A marcação de eventos para o mesmo dia e a mesma hora requer soluções. A atrás descrita foi concebida por alguém conhecedor das expetativas da população envolvida nas coletividades. Há outras formas, sendo a mais usual a delegação. Aliás, o jornal labor retificou a semana passada uma notícia com quinze dias, informando que a Junta de Freguesia de São João da Madeira tinha estado representada no Jantar de Reis da Associação Estamos Juntos (AEJ) por Marisa Brandão. Uma informação tardia que só evidenciou a ausência de representante da Câmara Municipal deste concelho nesse mesmo jantar.

2) Atendendo aos problemas que a AEJ tem vivido, as presenças nesse jantar são a menor das suas preocupações. Por um lado, em menos de um mês e meio, a ocorrência de dois incêndios no quadro elétrico da sede social, provocados por infiltrações, devido à permeabilização do telhado e às fortes chuvadas. A infiltração bem por cima do quadro elétrico foi comunicada antes do primeiro incêndio, ainda em dezembro. No último fim de semana, após mais um dia de forte pluviosidade, novo incêndio. Por outro lado, o estado calamitoso do piso dos courts de ténis, que levou à tomada de posição da Associação de Ténis de Aveiro aconselhando a não realização de provas distritais naqueles courts, para evitar que a integridade física dos atletas não seja posta em causa. Assuntos relatados diversas vezes ao executivo municipal e que não têm encontrado resposta concreta. A inexperiência e inércia deste executivo tem justificado a sua pouca capacidade em resolver problemas.

Olhando para os concelhos vizinhos, houve outros executivos igualmente eleitos pela primeira vez em 2017. A diferença é que a equipa eleita fez o seu caminho durante muitos anos, passou pela oposição, rodeou-se de independentes bastante simpatizantes do Partido Socialista, alguns tinham participado nas primárias que elegeram António Costa em 2014 e quando todos assumiram funções executivas, tornou-se mais simples passar à ação e cuidar dos bens públicos de forma eficiente.

3) O encerramento da Helsar e a deslocalização da Molaflex mais do que alterar os roteiros do Turismo Industrial, interferem com o emprego liquido do concelho. A ideia que fica de 2019, é que a industria reduziu postos de trabalho em São João da Madeira e que o comércio tradicional continua a definhar e a ser substituído por grandes superfícies. Mais do que perceções, é importante criar um indicador que demonstre a evolução do emprego no concelho e monitorizá-lo, procurando captar investimento no imediato, para não haver acusações de inação em 2021.

Em Santa Maria da Feira, o executivo municipal tem como meta o pleno emprego, com consequência imediata a redução do nível de desemprego e numa fase seguinte a possibilidade de melhoria da remuneração salarial da população. Desde 2017, o Presidente dessa Câmara Municipal visita regularmente os agentes económicos e quando acolhe algum novo investidor, enaltece a chegada do novo empregador.

4) As deslocalizações para os concelhos vizinhos não se limitam às empresas históricas da cidade. Também no desporto, uma modalidade, o xadrez, deixou de estar sediada no concelho e optou pela Vila de Arrifana para organizar os seus torneios e efetuar os seus jogos. O Clube Académico Tesserá lá terá as suas razões.      

 

 

quarta-feira, janeiro 29, 2020

Festival de Cerveja é para acabar?

As mudanças na liderança de executivos autárquicos, por troca de partido vencedor, ou coligação, nas eleições respetivas, trazem muitas vezes ruturas com o passado do concelho ou de uma freguesia.  Se esses atos colidirem com os interesses da população, cria-se desconforto e é necessária alguma coragem política para o fazer.  O normal é o novo poder eleito dar continuidade a iniciativas, empreitadas ou projetos herdados, procurando melhora-los, dando um cunho de acordo com a sensibilidade do partido vencedor.

Nos últimos anos assistiu-se a duas mudanças no poder autárquico: primeiro na Junta de Freguesia em 2013 e quatro anos mais tarde na Câmara Municipal de S. João da Madeira. Assumindo o poder há sete anos, Helena Couto assegurou a continuidade dos Encontros de Ilustração, transformando o conceito ao longo das várias edições, engrandecendo o evento herdado e catapultando-o para um patamar de elevada qualidade. A Ilustração entrou na ideia cultural da cidade e tal feito deve-se a todo o esforço meritório desencadeado pela Junta de Freguesia.

Em 2017, com a mudança de liderança na Câmara Municipal, observou-se um fenómeno idêntico. O novo executivo deu continuidade a várias iniciativas culturais, desportivas e de lazer, procurando adaptá-las ao seu programa eleitoral, ou imprimindo um novo sinal às mesmas. A nível de projetos, com financiamento garantido, aconteceu precisamente o mesmo, como prova a remodelação da zona central da cidade, à espera da decisão para começarem as obras.

Atente-se em dois eventos que tiverem continuidade, passando por processos distintos. Por um lado, o Gin & Street Food, com ampliação de espaço e reforço de divulgação (suportado na boa vontade das associações locais e na tolerância da população residente na área envolvida, que durante o fim-de-semana em que decorre o evento, tem que ajustar o seu sono aos horários praticados). Por outro lado, o Festival de Cerveja Oliva Beer Mind (OBM), com manutenção de espaço e redução na divulgação (a bem dizer, os produtores de cerveja convidam os seus conhecidos, moradores na região e com isso, conseguem público).

A primeira edição, em 2017, do OBM teve um bom suporte de divulgação. As consequências foram visíveis. Um fim de semana de Oliva Creative Factory com casa cheia, três tardes e duas noites. Um fenómeno invulgar em S. João da Madeira, nas noites frias ou frescas dos últimos anos. Uma oportunidade para divulgar a cidade, não só pelos cervejeiros de todo o país, como também pelo elenco internacional associado, fossem empresários do setor de bebidas, ou animadores contratados. Nas duas edições seguintes, a divulgação foi menor e a adesão da população foi reduzida. Ainda assim, assistiu-se a uma boa casa em 2018, só que em 2019, apenas se salvou a noite de sábado. 

O OBM é uma oportunidade de desenvolver novos negócios para os nossos empresários, pois sendo a cerveja artesanal um nicho emergente, existe necessidade de rótulos, embalagens, máquinas específicas, ou outras variantes associadas ao produto (logotipos, por exemplo), para as quais existem várias empresas na cidade, sempre interessadas em diversificar os seus negócios. Pode igualmente ser uma oportunidade para conhecer novos produtores e com isto, os empresários da restauração e similares podem passar a comercializar um produto diferenciador (como alguns já o fazem, refira-se). 

Existe um lado comum entre o Gin & Street Food e o OBM, a capacidade de atrair a comunidade, promovendo o fortalecimento de laços de urbanidade. Se o primeiro dos eventos, apesar do excessivo horário noturno, convoca a população para a Praça Luís Ribeiro, envolvendo-a na nostalgia de outras noites, já o OBM é uma ocasião para chamar a população para a Oliva Creative Factory e com isto conseguir divulgar o que lá existe: a coleção de Norlinda e José Lima, a coleção de arte bruta, o núcleo de arte, a incubadora de empresas, entre outras. Não apenas a população forasteira associada aos produtores, mas, também os residentes, que podem com este festival, desinibir-se e visitar as exposições atrás referidas. Tal como o conceito dos Encontros de Ilustração evoluiu, também o Festival de Cerveja OBM se continuar em São João da Madeira pode ter uma evolução, tornando-se mais envolvente e alavancador das idiossincrasias dos habitantes da cidade. 

 

(a publicar no dia 30/01/20)

quarta-feira, janeiro 22, 2020

Associações locais são parceiros ou não?

O associativismo em São João da Madeira é mais antigo que o município. Ainda esta localidade era aldeia e já a população estava organizada em torno da Banda de Música. Anos mais tarde aconteceu o mesmo com a Santa Casa da Misericórdia, cuja data de fundação é 1921. A ascensão a Vila surge em 1924. É com esse estatuto que a população se organiza para criar e desenvolver a Associação Desportiva Sanjoanense. Em 1926 é alcançada a emancipação concelhia. Em 1928 surge a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira.

Este longo parágrafo devia fazer parte da cartilha dos aspirantes a políticos locais. A introdução à história do associativismo da localidade permitiria perceber que antes de existirem políticas públicas já a população definia objetivos comuns, procurando entre os demais conterrâneos e pelos espalhados na diáspora, apoio monetário e outro, para concretizar os seus objetivos. É desta forma que são criadas infraestruturas tão importantes para o desenvolvimento social da população como o Lar de idosos São Manuel, o Hospital de São João da Madeira, o Quartel de Bombeiros, o Estádio Conde Dias Garcia e o Pavilhão de Desportos.

Dos atrás mencionados, o Lar de Idosos e o Hospital foram grandes obras da Santa Casa da Misericórdia, erguidas entre a sua fundação até ao final da década de 1960. A primeira Misericórdia foi fundada em Lisboa, no ano de 1498, pela Rainha D. Leonor. As Misericórdias foram sucedendo-se em todo o país. Resistiram às mudanças dos séculos e da História de Portugal. Os sucessivos regimes encontraram sempre nas Misericórdias um parceiro para o tecido social. Em 1974, após o derrube do Estado Novo, uma nova política nacional de Saúde foi lançada e nesse sentido, o Estado assumiu a gestão do Hospital de S. João da Madeira. Nestes anos democráticos, a Santa Casa da Misericórdia nunca perdeu a esperança de recuperar a gestão do seu Hospital, à semelhança do que aconteceu com algumas suas congéneres espalhadas pelo país e que oferecem serviços de Saúde à população ao abrigo de protocolos com o Estado Português.

Se em 2015, o Hospital de São João da Madeira tivesse sido devolvido à Santa Casa da Misericórdia, apenas se estava a corrigir uma opção política que lesou uma associação de São João da Madeira. De forma alguma estava a ser entregues a privados. Não compreender isto, é insultar a memória da cidade e em particular daqueles que são associados da Santa Casa da Misericórdia, que se rege por estatutos próprios, dentro dos princípios da União das Misericórdias Portuguesas.

O desenvolvimento desportivo teve um percurso semelhante ao da saúde e do apoio social. Os equipamentos desportivos construídos em São João da Madeira até 1960 (Estádio Conde Dias Garcia e Pavilhão dos Desportos) foram conseguidos por dinamismo da sua população e eram pertencentes à gestão da Associação Desportiva Sanjoanense (ADS). O Estado central investiu em Escola Industrial com Pavilhão, Escola do Ciclo Preparatório Alão Morais igualmente com pavilhão e em um tanque Piscina, situado nas traseiras da Escola Primária do Parque. Em contrapartida, a autarquia oferecia à população um campo pelado (utilizado pelas camadas jovens do futebol da ADS) e um ou outro ringue, de acesso condicionado. Neste contexto as associações com fins desportivos eram poucas e praticavam desportos sem grande necessidade de infraestruturas desportivas (atletismo e xadrez). No Parque da Nossa Senhora dos Milagres, além dos treinos de atletismo do Clube de Campismo de São João da Madeira, surgiriam mais duas associações: Os Kágados - que utilizavam as traseiras da Escola do Parque para atividade física – e a Associação Estamos Juntos (AEJ) – com a organização do Campo de Férias, durante o mês de Julho.

Só no final da década de 1980 é que surgiram os primeiros equipamentos municipais desportivos: as piscinas municipais, court de ténis e o Pavilhão das Corgas, posteriormente batizado com o nome do malogrado jogador de Basquetebol, Paulo Pinto. É importante mencionar o ringue de Fundo de Vila e o Pavilhão das Travessas que estão no desenvolvimento de outras duas Associações locais: CCDR de Fundo de Vila e Dínamo da Ponte.

Posteriormente, novos investimentos pelo Estado foram realizados em Escolas Secundárias, apetrechando-as com 3 novos pavilhões, cujo acesso pós horário escolar fica condicionado pelo aluguer do espaço a preços um pouco proibitivos para a realidade local.

Se a ADS gere o seu parque desportivo e ainda assim é insuficiente para fazer face às centenas de praticantes das suas modalidades e se o Clube de Campismo conseguiu autofinanciar-se e construir infraestruturas desportivas próprias, todos os demais clubes precisam dos espaços municipais para desenvolver a sua atividade desportiva, envolvendo população das demais idades que os procura e neles encontra soluções, que por vezes não encontram em outros clubes da região, tornando o desporto de São João da Madeira extremamente eclético, acrescentando-se a concentração em uma única freguesia.

É assim confrangedor que equipamentos municipais necessários para a prática desportiva estejam em completo estado de degradação. Refiro-me concretamente aos courts de ténis, cujas imagens o jornal “O Regional” publicou na semana passada, a propósito da reportagem do jantar de Reis da AEJ. Sendo certo que o passado deste equipamento esteve relacionado com a indecisão sobre a construção da nova Piscina, é melhor decidir o seu futuro, no imediato. A AEJ sente-se penalizada e tem razão. Não há alternativa em São João da Madeira, ou se existe, está condicionada ao preço de aluguer do parque escolar. Os courts de ténis estão estragados, com o piso em péssimo estado (uma das fotografias divulgadas no semanário referido apresentava uma bola de ténis encaixada num buraco) e devido à indecisão municipal sobre a construção da piscina, ou dos courts de ténis alternativos, nada ficou projetado e além do atual estado de degradação, não é possível utilizar-se o espaço durante os dias de chuva. Situação já possível em concelhos vizinhos que souberam atempadamente apetrechar-se ou apoiar os seus clubes, no desenvolvimento da modalidade, tendo-se atingido bons resultados no panorama do ténis nacional, como prova a melhoria técnica de João Domingues, de Oliveira de Azeméis.

As associações locais são alvo dos demais elogios públicos. No século XXI, os seus diretores devem ser tratados como gestores. Como pessoas que de forma voluntária procuram encontrar soluções para a gestão da sua associação e que pensam no seu futuro. Continuar a tratar os seus diretores, como alguém à procura do subsídio e não a tratá-los como parceiros da autarquia é algo completamente errado.

O reconhecimento tarda, como prova o discurso contraditório entre agentes políticos: por um lado, o Presidente da Câmara enaltece o esforço da Santa Casa da Misericórdia em gerir valências supramunicipais, por outro temos o discurso político da privatização do Hospital. Se há esforço em agradar à Santa Casa da Misericórdia, no caso da AEJ promove-se pouca empatia com esta associação: além da agonia em praticar ténis em instalações degradadas, a sede social continua cheia de infiltrações, o atleta Luís Lima foi criteriosamente excluído da Gala dos Campeões e para terminar a lista, apesar da Câmara Municipal de S. João da Madeira ter recebido três convites para o Jantar de Reis não conseguiu estar representada.    

 

(a publicar no dia 23/01/20)

quarta-feira, novembro 06, 2019

Taxas da água

A Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC) divulgou, na semana passada, o Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses. Através deste estudo pode-se verificar uma série de indicadores financeiros de um total de 135 municípios. Os resultados operacionais, a capacidade de obtenção de receitas, as despesas e o endividamento de cada uma das Autarquias estudadas são escalpelizados. Neste item, as dívidas indicadas não se resumem apenas às do município, alargando o estudo ao endividamento das participações, ou seja, em empresas municipais.

S. João da Madeira foi um dos concelhos analisados. A dívida acumulada (município e empresas municipais) correspondia a 35% das receitas obtidas em 2018. Numa análise aos últimos anos, verifica-se que a partir de 2016 as receitas angariadas foram aumentando. A dívida que tinha descido bastante até esse ano, passou a ser tratada de outro modo, reduzindo-se de modo mais suave, ou seja, não acompanhou o aumento de receita. Em contrapartida, os resultados operacionais, tiverem um ligeiro acréscimo.

Uma situação financeira estável, conforme tem sido apresentado. No entanto, novos dados surgiram e tudo pode ser alterado.

Pedro Silva, diretor do jornal labor, na sua coluna editada na última edição alertou para a possível resolução de alguns processos judiciais, que poderão provocar uma penalização da Câmara Municipal de S. João da Madeira, tendo como consequência o pagamento de indemnizações, que caso não tenham provisões asseguradas, provocará o aumento da dívida municipal. 

Apesar de não quantificada, já não é a primeira vez que o assunto é comentado, em tempos o Presidente da autarquia, Jorge Sequeira, já tinha indicado a necessidade de haver precaução, melhorando a capacidade do gabinete jurídico, para responder de forma eficiente ao contencioso e aos imbróglios criados.

Enquanto não são conhecidos mais pormenores, existe uma interrogação que fica deste processo, deve a autarquia continuar com o nível de impostos e taxas sobre os seus munícipes ou pelo contrário, pode de alguma forma aliviar a coleta municipal?

Recordo que no mês passado, defendi nestas páginas, que era importante um sinal de mudança ideológico do executivo e que essa vontade deveria ser expressa através da fatura da água, pela redução de uma das taxas cobradas aos munícipes.

Nem de propósito. Na mesma semana em que o jornal labor publicou o meu artigo, o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia anunciou uma redução das taxas associadas à fatura da água. A justificação de Eduardo Vítor Rodrigues, autarca eleito pelo PS, prende-se pelo esforço que os seus munícipes tiveram com a cobrança de impostos, para reduzir o passivo da autarquia, sendo agora necessário compensá-los, com esta redução. Segundo a OCC o município de Gaia reduziu nos últimos 10 anos 150 milhões de euros à sua dívida, permanecendo ainda assim, como o terceiro concelho mais endividado de Portugal. Para quem não está familiarizado com o município Gaiense, informo que a água nesse concelho é distribuída por uma empresa municipal, com o total do capital pertencente ao município.

Bom exemplo vindo de um concelho parceiro na Grande Área Metropolitana do Porto.

Por algum motivo, Eduardo Vítor Rodrigues é reconhecido no seu Partido como autarca modelo. Em tempos Manuel Castro Almeida recebeu o mesmo elogio dentro do PSD.

A afinidade partidária entre S. João da Madeira e Vila Nova de Gaia abre esperança para que o processo de cobranças de taxas (disponibilidade, resíduos sólidos) pela empresa Águas de S. João seja alterado, permitindo aos seus munícipes ficarem com a carteira um pouco mais aliviada.

                Para rematar este assunto, uma apropriada questão, atendendo à redução dominical na recolha de lixo, esta alteração não deveria ser refletida no imediato na taxa de resíduos sólidos urbanos cobrada?

 

 

(a publicar dia 07/11/19)

quarta-feira, outubro 30, 2019

Estatutos da AEJ - revisão 2020

A semana passada terminei o artigo, gentilmente publicado pelo jornal labor, informando que a Associação Estamos Juntos (AEJ) estava a preparar uma revisão aos seus Estatutos.

Ao longo da sua história, a AEJ procedeu uma vez à alteração dos estatutos, no ano 2000. Nesse ano a revisão, aos originais de 1986, surgiu como imperiosa. Isto porque até aquela data a AEJ tinha desenvolvido a sua atividade, liderada pelos seus sócios fundadores. A organização de Campo de Férias e as secções desportivas eram lideradas por fundadores, salvo raras e pontuais exceções. 

A revisão de 2000 permitiu a abertura do clube a sócios. A obrigação da realização de Assembleias Gerais Ordinárias, pelo menos, duas vezes por ano, tornou a gestão da AEJ mais clara e dotou-a de uma maior capacidade atrativa, que lhe possibilitou acompanhar os primeiros anos do novo milénio, de um modo mais eficiente, elevando o seu patamar de qualidade desportiva e organizacional.

Desde esse ano, houve várias tentativas de proceder à revisão dos estatutos da AEJ, mas houve sempre alguma lacuna que não permitiu a sua concretização.

Em 2018, ao assumir a Presidência da Mesa da Assembleia Geral, tracei dois objetivos para o mandato:  o primeiro, precisamente, proceder à revisão dos estatutos da AEJ e o segundo de atualização do ficheiro de sócios – o que virá a seu tempo.

Na proposta de revisão, que os sócios podem consultar na sede da AEJ, apresenta-se duas estruturas de ideias, por um lado manter a tradição da orgânica nos órgãos sociais e por outro, redefinir as competências de cada órgão.

Os órgãos sociais sofrem alteração de nomes. A antiga Comissão Coordenadora passará a designar-se por Direção, tendo por competências a gestão do clube, incluindo a formação e regulamentação das secções desportivas e outras atividades, assim manter atualizada a lista de património do clube; o Conselho Fiscal permanecerá intacto e surgirá a Mesa da Assembleia Geral, com algumas alterações. A principal diz respeito à sua Presidência, até hoje só poderia ser eleito um sócio fundador, no início de cada Assembleia Geral. No futuro qualquer sócio elegível poderá assumir um mandato de dois anos. A tradição do clube permanecerá com a continuidade do Conselho de Fundadores, formado pelos sócios fundadores, só que será um órgão auxiliar ou coadjuvante, que servirá para fazer vigilância à atividade do clube, dando pareceres sobre a mesma, ou podendo ser chamado a intervir caso seja chamado por algum órgão social.

Na sugestão de alteração ficarão definidos critérios de elegibilidade e de incompatibilidades para os órgãos sociais (destacando-se neste capitulo a impossibilidade de prestadores de serviços, incluindo treinadores, serem diretores do clube). Haverá limite no número de mandatos que os diretores poderão assumir.

Poderá ser sócio, quem for aceite pela Direção, mantendo o estatuto se cumprir os regulamentos e pagar as quotas. A perda da qualidade de sócio, poderá ser por autoexclusão, ou por decisão da Assembleia Geral.

Para os leitores que acompanham estes meus textos, em particular para os que nos últimos anos foram lendo os meus desabafos pela situação vivida na AEJ, encontrarão coerência nesta proposta de revisão dos estatutos, que procurará inverter os anos de menor fôlego deste clube.

É com esta mensagem de esperança que pretendo rematar este artigo. Se em 2000, a mudança estatutária foi uma das ferramentas fundamentais para catapultar a AEJ para os resultados desportivos conhecidos, espero que à entrada na segunda década deste século a próxima revisão consolide de vez o projeto associativo que é a Associação Estamos Juntos.

Se o leitor for sócio e pretender inteirar-se dos futuros estatutos da AEJ, encontrará a sua redação afixada na sua sede social, na Rua de Ribes, Complexo Desportivo Paulo Pinto. A proposta terá que ser aprovada em Assembleia Geral Extraordinária, até lá, a consulta é pública e permitirá aos sócios ficarem com a consciência de quais serão as alterações.

 

(a publicar dia 31/10/19)

terça-feira, outubro 22, 2019

AEJ - um ano depois

Por estes dias faz um ano que os atuais órgãos sociais da Associação Estamos Juntos foram eleitos.

Uns dias antes dessa eleição, o jornal labor fez uma reportagem sobre o estado em que se encontrava a AEJ, devido ao encerramento compulsivo e prematuro da sua secretaria e à dificuldade inerente em muitos sócios pagarem as suas quotas e outros inscreverem-se pela primeira vez. Nessa notícia fui citado. Às perguntas do jornalista Nuno Santos Ferreira respondi que enquadrava as atitudes do anterior presidente, como uma tentativa de encerrar o clube. Exemplificava com as cisões dois anos antes na secção de ténis –revertida com dificuldade - e no ano anterior, com o afastamento de Luís Ferreira como técnico de Natação, implicando a saída de uma série de nadadores, incluindo a multicampeã nacional, Ana Rodrigues. Culminando na finalizada pré-época, na qual um conflito com o técnico de Natação havia posto em causa o resto da secção.

Depois da tomada de posse ficou mais claro qual o propósito dos anteriores diretores do clube.

Previamente, antes do ato eleitoral, ao pedido do anterior presidente do Conselho Fiscal para elaboração de relatório de contas para encerramento do mandato, nunca foi enviada resposta.

À necessidade de transmitir informação de gestão e de património aos diretores eleitos, apenas foi entregue a chave da sede, sem qualquer comunicação. Neste ponto, atendendo ao meu passado como sócio, em que várias vezes frequentei a sede, nomeadamente para dar apoio à equipa de xadrez em jogos importantes, ao regressar à sala da secção no dia das eleições, constatei a falta de alguns tabuleiros, jogos de peças e relógios - com que se pratica a modalidade - e que durante anos, tão faustosamente eram exibidos na sede e nas reportagens fotográficas na imprensa local.

À intenção em encerrar a secção de Xadrez, promovendo a debandada de todos os jogadores, apesar de estarem no seu direito associativo, não se deu oportunidade aos novos diretores de fazerem a sua apresentação e explicassem o seu projeto para o clube, dialogando com jogadores ou com os seus pais (no caso de jogadores menores), para se encontrar uma solução de gestão para a secção. Quando a nova direção da AEJ agendou uma reunião com todos os interessados, um novo clube de xadrez já estava formado, curiosamente com os antigos diretores da AEJ.

A isto, acrescente-se o cenário ruinoso encontrado pela nova direção: contratos sem termo com três técnicos do clube, realizados uns dias antes das eleições, assinados pelos diretores que passado quinze dias se propuseram a fundar um novo clube na cidade. Só para exemplificar e para os leitores perceberem melhor qual a dimensão dos contratos, se não tivesse havido bom senso por parte dos técnicos, a AEJ teria ficado insolvente no inicio do presente ano.

Este foi em traços gerais o panorama encontrado. Para dar um rumo à AEJ e contrariar as surpresas descobertas, ou o campo minado, houve um enorme esforço da nova direção, liderada por Joaquim Fial, para dignificar o nome do clube e criar uma nova forma de gestão, baseada em pilares de rigor e transparência.

Um ano depois, a AEJ está diferente. Há alterações nas suas secções: desapareceu o Xadrez, iniciou-se o Triatlo; a Natação tem novos técnicos: Luís Monteiro e Mariana Marques; o ténis continua igual, porque as instalações municipais estão num impasse e por isso mesmo, em muito mau estado, não sendo atrativas para os praticantes e não se podendo desenvolver nenhum projeto desportivo ambicioso. Em contrapartida, houve obras na sede, permitindo torná-la mais airosa, com melhor capacidade para albergar as atividades como fitness ou outras semelhantes. Ainda antes do final do primeiro ano de mandato, após o balanço da atividade, houve tempo para convidar uma nova coordenadora para o futuro Campo de Férias, substituindo a anterior por Dulce Lima.

Soluções que demonstram a preocupação da nova direção e restantes órgãos sociais da AEJ em agradar à comunidade em que está inserida, tornando-se um parceiro credível no concelho. Reconhecimento já demonstrado pela Junta de Freguesia de S. João da Madeira, que no passado teve uma parceria com a anterior direção da AEJ, com o desfecho conhecido de má gestão do espaço público pelo clube, com o caso a transitar para o contencioso. Revolvido o conflito no mandato atual, a Junta de Freguesia tem novamente a AEJ como parceiro  verosímil.

Nestes próximos meses, as mudanças associativas vão continuar. Com base na experiência dos últimos sete anos, de má memória, há uma proposta de alteração de Estatutos, para ser analisada e aprovada, para entrar em vigor no próximo mandato. A sua redação estará patente na sede da AEJ para consulta pelos sócios interessados, até à Assembleia Geral Extraordinária a agendar para breve. 

 

(a publicar no dia 24/10/19)

terça-feira, outubro 15, 2019

Por uma questão de ideologia

As obras na Praça vão reiniciar-se, segundo o anúncio do executivo municipal, no primeiro trimestre de 2020.

Ao assumir o projeto sem trânsito na Praça, o Partido Socialista rompe com o anterior executivo e opta por uma situação mais conservadora, mantendo a ideia do final dos anos 80 do século passado.  A grande diferença relativamente à transformação operada inicialmente, será a altura da água. No passado descia pela “chaminé” e molhava tudo e todos, no futuro sairá do chão. As molhadelas para quem circula, ou por quem por ali permaneça, só serão descortinadas quando a obra estiver terminada.

A rotura com o anterior executivo deve ser salientada. Pela diferenciação pretendida.

Ao analisar-se os dois anos de mandato, cumpridos neste mês de outubro, constata-se uma continuidade de conceitos e iniciativas. Deve-se salientar uma melhoria geral na comunicação, com mais transparência. Realçando-se igualmente o cuidado na divulgação de eventos e um importante foco na visibilidade do trabalho dos técnicos municipais. Estas foram as principais alterações deste biénio, que importa destacar num balanço apropriado. Contudo, a tudo isto faltou a componente política. Uma marca de partido de esquerda é pouco visível nestes dois anos.

Mesmo na futura intervenção da Praça, não há nenhum assumo de ideologia. A história da localidade não é reposta, antes pelo contrário. Fizeram-se imensos remendos, nas últimas duas décadas, à zona pedonal e nem assim, esta se revitalizou. O regresso ao original formato, da meia lua (agora pedonal) e a outra metade com circulação automóvel, seria recuperar o património humano da antiga vila e ajudaria a reanimar o centro da cidade, em dias em que não haja festas, ou outras romarias.

A falha ideológica é mais visível na relação com privados. Em primeiro lugar no negócio da água. Mesmo não havendo vontade de reverter o acordo com o parceiro privado da empresa municipal, não é lógico apresentar os resultados do exercício (lucrativo) e nada fazer para dar folga aos sanjoanenses. A posição maioritária na sociedade, permite à Câmara Municipal rever as taxas que cobra através do serviço de distribuição de água e deste modo repor os rendimentos dos seus munícipes. Até porque além do lucro deste serviço, a Câmara Municipal terminou o exercício anual, com verbas a transitar para o ano seguinte, permitindo-lhe não recorrer a empréstimos bancários para o curto prazo. Atendendo a esta situação financeira favorável, a alteração no preçário das taxas seria um sinal claro, por parte do executivo municipal, de uma mudança política e de aproximação à sua base ideológica.

A segunda questão está relacionada com os bens municipais. A hipotética futura ocupação do Palacete do Conde Dias Garcia, ao abrigo do programa REVIVE - programa nacional de abertura do património ao investimento privado para o desenvolvimento de projetos turísticos -, seria uma boa solução se não houvesse outra hipótese para aquele edifício e área envolvente. Recordo algumas das promessas eleitorais das eleições de 2017, nomeadamente, da criação da Casa da Memória. Existe uma ligação afetiva dos sanjoanenses com o denominado Palacete dos Condes. Além de ali ter estado instalado, durante décadas, entre outras valências, o Registo Civil - que permitia a toda a população aceder ao Palacete para renovar o documento de identificação -, este espaço albergou as urnas nas primeiras eleições democráticas em S. João da Madeira. Colocar esta memória coletiva na mão de privados é a amputar a cidadania dos habitantes locais. O que fica em causa, no futuro do Palacete do Conde Dias Garcia, é o acesso garantido pela instalação de uma Casa da Memória, ou a sua restrição através de um negócio privado.  

Estes são os apontamentos registados do último ano. Caberá ao executivo fazer a sua reflexão ideológica e verificar se pretende ficar na história da autarquia de S. João da Madeira, como um partido de esquerda democrática, ou pelo contrário, como um partido hibrido, que deu continuidade aos 38 anos de liderança de direita.

 

(a publicar no dia 17/10/19)