A interiorização de conceitos na fase de aprendizagem, em idades pré-escolares, confrontada com as informações obtidas em casa, leva por vezes à confusão dos miúdos.
Na pré-escola a professora ensinou aos pequenos “aquele que escreve nos jornais é um jornalista”, entre outras profissões de carácter lógico, com ligação do sujeito ao objecto.
Conhecendo a faceta do pai, enquanto colaborador nas páginas deste jornal, o meu filho ficou confuso. Duvidou dos ensinamentos caseiros. O meu pai é jornalista – pensou. À noite, em casa, esperou a minha chegada e mal me viu, disparou:
- Pai, tu és jornalista!
Atónito, perguntei-lhe quem lhe tinha dito tal coisa, pensando ser a confusão motivada pela informação de algum colega, cujos progenitores pudessem ser leitores ou assinantes das páginas deste jornal.
- A Fernanda (educadora)!
Ainda lhe perguntei se por acaso era leitora do jornal.
- Não, apenas me ensinou as profissões e como tu escreves no jornal, és jornalista!
Pois!
A face visível da minha vida provoca destas confusões. Lá expliquei ao Manel que num jornal não escreviam apenas e só jornalistas. Existem outras pessoas que escrevem sobre vários assuntos, sendo designados como cronistas, analistas, comentadores (deixei de fora articulistas e colunistas, para não o confundir ainda mais), não sendo propriamente jornalistas.
Não sei se ficou muito satisfeito com a explicação, se calhar, tinha gostado mais que eu lhe tivesse dito que sim.
Optei por não tentar a forma oficial, colaborador, sobretudo pela dificuldade em associar o termo com o objecto, em substituição da correcta associação, a acção.
Terminei a relembrar-lhe a profissão do pai e as várias vezes em que lhe mostrei, em determinadas lojas, o produto comercializado e produzido na empresa em que o pai exerce o seu real ofício.
Se o meu filho na inocência dos seus seis anos tem dúvidas, embora a conversa as tenha parcialmente dissipado, imaginem o que se passará na cabeça da irmã de apenas quatro anos? Para ela, sou essencialmente “arranjador”, definido por aquele que arranja - em geral, brinquedos. É claro que as minhas qualificações vão-se alterando com a tarefa a executar e a ocupação conhece outros nomes, seguindo a lógica da ligação do sujeito ao verbo. Por vezes, fico com o rótulo de cozinheiro, quando me dedico a aquecer no microondas, algum prato pré confeccionado. Pouco mais sei, reconheço.
Sendo o bricolage doméstico uma função com um grau de ocupação elevado, tarefeiro seria o título supremo que poderia obter em casa. Curiosamente, rima com o grau académico da minha licenciatura e como defendeu o nosso primeiro, é socialmente assim aceite e utilizado.
Títulos à parte, voltando às dúvidas do meu filho, segundo o Tomo IV do Dicionário Hoauiss da Língua Portuguesa, jornalista é aquele “que trabalha como redactor, repórter, colunista ou director em órgão de imprensa ou programa jornalístico na rádio ou na televisão”. Portanto, para que não fiquem dúvidas, não sou.
Caso pensasse que o meu contributo ocasional pudesse ser considerado jornalismo, estava enganado. A palavra anterior a jornalista no mesmo dicionário é precisamente jornalismo e está definido “por actividade profissional que visa colectar, investigar, analisar e transmitir periodicamente ao grande público, ou a segmentos dele, informações da actualidade, utilizando veículos de comunicação(...)”. Como podem ver tenho dificuldades em integrar-me nesta definição, logo na terceira palavra.
Resta-me continuar a escrever como amador, sem carreira, nem carteira profissional. De nada me servirá colectar, investigar, analisar e transmitir dados, porque serei sempre colaborador no jornal.
Já agora, segundo o referido dicionário, no Tomo II, colaborador é “aquele que escreve artigos para uma publicação periódica sem pertencer ao corpo permanente dos seus redactores”. Colaborar é, no mesmo contexto, definido como “escrever artigos”.
Simples, não é?
Fico perplexo quando os leitores vêem outras intenções na minha escrita.
(a publicar no dia 26/04/07)
compilação dos textos publicados no jornal labor (www.labor.pt), de 2004 a 2020.
terça-feira, abril 24, 2007
quarta-feira, abril 18, 2007
ALLGARVE
Desiluda-se quem pense encontrar neste texto alguma abordagem à recente campanha turística preparada pelo Ministro da Economia, para promoção da região do Turismo do Algarve.
Tão pouco alguma alusão ao conceito turístico desta cidade.
Daquela região surge um bom exemplo de divulgação das principais actividades culturais, um cartaz: anunciando os eventos, os concelhos, as datas associadas e o local de realização. É usual aparecer nos jornais nacionais, diários ou semanários, em jeito de publicidade e obviamente são espalhados vários painéis por toda a região.
Esta forma de promoção cultural colectiva dos vários municípios da região Algarvia é a forma adequada de como deve ser feita a programação cultural. Em actividades calendarizadas em concelhos próximos, deve existir a preocupação de não sobrepor actividades no mesmo dia, por vezes fim de semana e nalguns casos, semanas.
Trata-se apenas e só de programação integrada entre vários concelhos, uma vertente que infelizmente a sub-região Entre Douro e Vouga nunca abordou. É corrente nesta região surgirem coincidências fantásticas, com justaposição de datas de eventos, festivais, concertos, entre outros, que infelizmente só prejudica o promotor, o espectáculo ou a actividade, além do público e dos artistas, obviamente.
A concepção cultural merecia nova atenção à programação do auditório dos Paços da Cultura. Na semana em que se realiza uma louvável iniciativa – Festival de Teatro - nunca é demais lembrar que a inércia na programação deste espaço, continua a ser a legenda da política cultural da cidade. Dois anos depois da sua abertura, os hábitos culturais da cidade não se alteraram substancialmente. A propagada “grande actividade” continua com um ritmo lento. Depois de um prometedor arranque, o número de espectadores por mês, bem como o número de espectáculos promovidos em igual período não são muito encantadores. Sobretudo, servindo-nos desses números para justificar o grande investimento que será a recuperação do antigo Cinema Imperador transformando-o em Casa das Artes do Espectáculo (CAE).
Procurando por outra via essa justificação, tendo como base uma série de antigas salas de cinema, ou de teatro restauradas nos últimos anos em vários pontos do país, mais uma série de equipamentos construídos de raiz para o efeito, os dados da capacidade dessas Salas de Espectáculos e o número de habitantes desses concelhos (segundo a Wikipédia) são os seguintes:
Guarda : 44.084 habitantes - Teatro Municipal 626 lugares;
Vila Real: 49.957 habitantes – Teatro de Vila Real 500 lugares;
Faro: 57.151 habitantes - Teatro Municipal 794 lugares;
Figueira Foz: 62.601 habitantes – Centro de Artes 800 lugares;
Aveiro: 73.335 habitantes – Teatro Aveirense 632 lugares;
Viseu: 96.810 habitantes – Teatro Viriato 300 lugares;
Famalicão: 127.567 habitantes – Casa das Artes 500 lugares;
Coimbra: 168.105 habitantes - Teatro Gil Vicente 773 lugares;
Braga: 170.000 habitantes – Theatro Circo 1500 lugares;
Guimarães: 188.178 habitantes – Centro Cultural Vila Flor 794 lugares;
Se fizéssemos uma relação (regra de três simples) com todas as cidades, teríamos a necessidade da capacidade ideal do CAE entre 65 a 300 lugares, sendo os extremos as cidades de Viseu e Guarda, respectivamente. Este dado é curioso porque são cidades em que o equipamento similar mais próximo dista mais de 70 quilómetros. Se considerarmos a relação entre as médias (do número de habitantes de cada concelho e de lugares por Teatro) chegávamos ao seguinte valor, 147 lugares, o que seria o ideal para o CAE.
O auditório dos Paços da Cultura tem uma capacidade de 200 lugares. Pelas minhas contas, sem nenhum rigor científico, seria suficiente para o número de habitantes de S. João da Madeira (21.102 segundo o Censos 2001).
Não apresentarei qualquer conclusão, lembro apenas a existência do auditório do Europarque, em Santa Maria da Feira, com capacidade de 1.500 lugares e claro está, a distância de S. João da Madeira a este equipamento e às cidades de Aveiro e Porto.
Pode-se contrariar tudo isto, argumentando com as capacidades únicas do CAE e a possibilidade de com este investimento aumentar significativamente o número de espectadores por evento, atraindo novos públicos. Sobre isto, remeto os interessados ao artigo publicado no Jornal Público de 11 de Novembro de 2006, intitulado “Descentralização da Cultura” da autoria de Joana Gorjão Henriques, no qual outros dados são indicados e que servirão para cada qual tirar as suas conclusões.
Para terminar, relembro que o Theatro Circo de Braga, demorou 17 anos a ser restaurado. Sensato.
(a publicar no dia 19/04/07)
Tão pouco alguma alusão ao conceito turístico desta cidade.
Daquela região surge um bom exemplo de divulgação das principais actividades culturais, um cartaz: anunciando os eventos, os concelhos, as datas associadas e o local de realização. É usual aparecer nos jornais nacionais, diários ou semanários, em jeito de publicidade e obviamente são espalhados vários painéis por toda a região.
Esta forma de promoção cultural colectiva dos vários municípios da região Algarvia é a forma adequada de como deve ser feita a programação cultural. Em actividades calendarizadas em concelhos próximos, deve existir a preocupação de não sobrepor actividades no mesmo dia, por vezes fim de semana e nalguns casos, semanas.
Trata-se apenas e só de programação integrada entre vários concelhos, uma vertente que infelizmente a sub-região Entre Douro e Vouga nunca abordou. É corrente nesta região surgirem coincidências fantásticas, com justaposição de datas de eventos, festivais, concertos, entre outros, que infelizmente só prejudica o promotor, o espectáculo ou a actividade, além do público e dos artistas, obviamente.
A concepção cultural merecia nova atenção à programação do auditório dos Paços da Cultura. Na semana em que se realiza uma louvável iniciativa – Festival de Teatro - nunca é demais lembrar que a inércia na programação deste espaço, continua a ser a legenda da política cultural da cidade. Dois anos depois da sua abertura, os hábitos culturais da cidade não se alteraram substancialmente. A propagada “grande actividade” continua com um ritmo lento. Depois de um prometedor arranque, o número de espectadores por mês, bem como o número de espectáculos promovidos em igual período não são muito encantadores. Sobretudo, servindo-nos desses números para justificar o grande investimento que será a recuperação do antigo Cinema Imperador transformando-o em Casa das Artes do Espectáculo (CAE).
Procurando por outra via essa justificação, tendo como base uma série de antigas salas de cinema, ou de teatro restauradas nos últimos anos em vários pontos do país, mais uma série de equipamentos construídos de raiz para o efeito, os dados da capacidade dessas Salas de Espectáculos e o número de habitantes desses concelhos (segundo a Wikipédia) são os seguintes:
Guarda : 44.084 habitantes - Teatro Municipal 626 lugares;
Vila Real: 49.957 habitantes – Teatro de Vila Real 500 lugares;
Faro: 57.151 habitantes - Teatro Municipal 794 lugares;
Figueira Foz: 62.601 habitantes – Centro de Artes 800 lugares;
Aveiro: 73.335 habitantes – Teatro Aveirense 632 lugares;
Viseu: 96.810 habitantes – Teatro Viriato 300 lugares;
Famalicão: 127.567 habitantes – Casa das Artes 500 lugares;
Coimbra: 168.105 habitantes - Teatro Gil Vicente 773 lugares;
Braga: 170.000 habitantes – Theatro Circo 1500 lugares;
Guimarães: 188.178 habitantes – Centro Cultural Vila Flor 794 lugares;
Se fizéssemos uma relação (regra de três simples) com todas as cidades, teríamos a necessidade da capacidade ideal do CAE entre 65 a 300 lugares, sendo os extremos as cidades de Viseu e Guarda, respectivamente. Este dado é curioso porque são cidades em que o equipamento similar mais próximo dista mais de 70 quilómetros. Se considerarmos a relação entre as médias (do número de habitantes de cada concelho e de lugares por Teatro) chegávamos ao seguinte valor, 147 lugares, o que seria o ideal para o CAE.
O auditório dos Paços da Cultura tem uma capacidade de 200 lugares. Pelas minhas contas, sem nenhum rigor científico, seria suficiente para o número de habitantes de S. João da Madeira (21.102 segundo o Censos 2001).
Não apresentarei qualquer conclusão, lembro apenas a existência do auditório do Europarque, em Santa Maria da Feira, com capacidade de 1.500 lugares e claro está, a distância de S. João da Madeira a este equipamento e às cidades de Aveiro e Porto.
Pode-se contrariar tudo isto, argumentando com as capacidades únicas do CAE e a possibilidade de com este investimento aumentar significativamente o número de espectadores por evento, atraindo novos públicos. Sobre isto, remeto os interessados ao artigo publicado no Jornal Público de 11 de Novembro de 2006, intitulado “Descentralização da Cultura” da autoria de Joana Gorjão Henriques, no qual outros dados são indicados e que servirão para cada qual tirar as suas conclusões.
Para terminar, relembro que o Theatro Circo de Braga, demorou 17 anos a ser restaurado. Sensato.
(a publicar no dia 19/04/07)
quarta-feira, abril 04, 2007
Perguntar não ofende
A publicação de qualquer estudo de reestruturação do Estado, encomendado pelo actual Governo, deve ser um sufoco para os autarcas do país. A incerteza no fornecimento de serviços mínimos de Estado à população do seu concelho, deixou-os “à beira de um ataque de nervos”. Um pouco por todo o lado, assiste-se à reestruturação proposta pelo Ministério da Saúde e surgem as primeiras propostas dos Ministérios da Justiça e da Administração Interna.
O conceito de Estado altera-se.
As autarquias contrapõem com estudos próprios, ou inclusivé com manifestações. Todos os políticos, enquanto presidentes de Câmaras Municipais são defensores da reorganização do Estado, desde que não afectem o seu concelho.
O próprio financiamento das autarquias tem sofrido bastantes restrições, deixando os autarcas entre duas situações: ou reduzem o investimento municipal, ou reduzem na despesa corrente. Normalmente a segunda opção é a escolha. A forma de o fazer é que não parece criteriosa.
Em S. João da Madeira, a Câmara Municipal optou por reduzir o financiamento às aulas de Inglês promovidas, há muitos bons anos, pelo Instituto de Línguas. Ao financiar apenas aulas para carenciados e desempregados, a decisão do Executivo Camarário embora válida é pouco sustentada, em primeiro lugar por penalizar a restante população, que passará a ter aulas mais caras do que actualmente e ao basear-se na concorrência a efectuar a promotores privados. Além do contra-senso, a Câmara Municipal cria um precedente, que poderá no futuro voltar-se contra si própria.
Várias questões podem ser levantadas acerca do financiamento municipal que colide com alguns negócios privados:
1) A nível de ensino, os proprietários de escolas privadas terão legitimidade de questionar porque é que as Escolas Públicas são financiadas pela Autarquia?
2) Os promotores imobiliários não sentirão a concorrência da empresa Municipal de Habitação?
3) Os ginásios podem questionar a existência de uma Escola de Natação Municipal, que lhes retira alunos?
4) Os agentes de saúde privada podem insurgir-se contra os esforços da Autarquia para assegurar a continuidade de serviços de saúde pública à população?
5) Uma empresa a instalar-se na cidade, promovendo aulas de futebol para crianças, pode insurgir-se contra o subsídio atribuído aos clubes da cidade?
6) Um proprietário de uma Lan-house pode reclamar pela gratuitidade no acesso à web, no espaço Internet?
Com um pouco de bom senso a prevalecer, assertivamente respondia NÃO a todas estas questões. Não, porque o que se espera da Autarquia é a defesa dos interesses da população, mesmo que isso signifique a concorrência directa ou indirecta a negócios privados. Até porque estes ao instalarem-se na cidade sabem quais são as áreas de actuação da Autarquia, os financiamentos atribuídos e devem equacionar isso na ponderação da rentabilidade do negócio a criar. Ou pelo menos, deveriam...
Não acredito, sinceramente, que só ao fim destes anos de co-existência do Instituto de Línguas com os seus concorrentes, estes tenham-no finalmente “descoberto”.
Esta decisão do Executivo Municipal, inclusivamente, é contrária à tendência nacional e europeia de promover a formação e a qualificação pessoal ao longo da vida activa. Sabendo-se que o Inglês é um dos pilares da sociedade moderna e tecnológica, não facilitar o seu ensino a toda a população é impedir-lhes o futuro.
Estas contradições na actuação da Câmara Municipal são surpreendentes.
Aproveito a oportunidade para desejar uma Boa Páscoa a todos os leitores.
(a publicar no dia 05/04/07)
O conceito de Estado altera-se.
As autarquias contrapõem com estudos próprios, ou inclusivé com manifestações. Todos os políticos, enquanto presidentes de Câmaras Municipais são defensores da reorganização do Estado, desde que não afectem o seu concelho.
O próprio financiamento das autarquias tem sofrido bastantes restrições, deixando os autarcas entre duas situações: ou reduzem o investimento municipal, ou reduzem na despesa corrente. Normalmente a segunda opção é a escolha. A forma de o fazer é que não parece criteriosa.
Em S. João da Madeira, a Câmara Municipal optou por reduzir o financiamento às aulas de Inglês promovidas, há muitos bons anos, pelo Instituto de Línguas. Ao financiar apenas aulas para carenciados e desempregados, a decisão do Executivo Camarário embora válida é pouco sustentada, em primeiro lugar por penalizar a restante população, que passará a ter aulas mais caras do que actualmente e ao basear-se na concorrência a efectuar a promotores privados. Além do contra-senso, a Câmara Municipal cria um precedente, que poderá no futuro voltar-se contra si própria.
Várias questões podem ser levantadas acerca do financiamento municipal que colide com alguns negócios privados:
1) A nível de ensino, os proprietários de escolas privadas terão legitimidade de questionar porque é que as Escolas Públicas são financiadas pela Autarquia?
2) Os promotores imobiliários não sentirão a concorrência da empresa Municipal de Habitação?
3) Os ginásios podem questionar a existência de uma Escola de Natação Municipal, que lhes retira alunos?
4) Os agentes de saúde privada podem insurgir-se contra os esforços da Autarquia para assegurar a continuidade de serviços de saúde pública à população?
5) Uma empresa a instalar-se na cidade, promovendo aulas de futebol para crianças, pode insurgir-se contra o subsídio atribuído aos clubes da cidade?
6) Um proprietário de uma Lan-house pode reclamar pela gratuitidade no acesso à web, no espaço Internet?
Com um pouco de bom senso a prevalecer, assertivamente respondia NÃO a todas estas questões. Não, porque o que se espera da Autarquia é a defesa dos interesses da população, mesmo que isso signifique a concorrência directa ou indirecta a negócios privados. Até porque estes ao instalarem-se na cidade sabem quais são as áreas de actuação da Autarquia, os financiamentos atribuídos e devem equacionar isso na ponderação da rentabilidade do negócio a criar. Ou pelo menos, deveriam...
Não acredito, sinceramente, que só ao fim destes anos de co-existência do Instituto de Línguas com os seus concorrentes, estes tenham-no finalmente “descoberto”.
Esta decisão do Executivo Municipal, inclusivamente, é contrária à tendência nacional e europeia de promover a formação e a qualificação pessoal ao longo da vida activa. Sabendo-se que o Inglês é um dos pilares da sociedade moderna e tecnológica, não facilitar o seu ensino a toda a população é impedir-lhes o futuro.
Estas contradições na actuação da Câmara Municipal são surpreendentes.
Aproveito a oportunidade para desejar uma Boa Páscoa a todos os leitores.
(a publicar no dia 05/04/07)
terça-feira, março 06, 2007
Ontem não te vi no 8ª Avenida
Conforme tem sido noticiado na imprensa local e não só, no próximo Outono está programada a abertura do centro comercial 8ª Avenida. Pelos valores de investimento anunciados, verifica-se que S. João da Madeira se prepara para um novo momento da sua economia, apostando claramente no sector terciário, em detrimento das indústrias de transformação que a caracterizaram ao longo das últimas décadas.
A opção, pelo que pude ler recentemente, será acompanhada por outros investimentos em superfícies comerciais, o que permitirá aumentar a oferta de emprego, modificando a sua caracterização, obrigando a uma maior formação e consequente qualificação da população activa.
O conceito urbano será novamente questionado. Apesar das principais indústrias estarem remetidas a zonas apropriadas, as áreas comerciais tendem a alargar-se pelo território concelhio, salvaguardando-se a Reserva Agrícola que S. João da Madeira ainda consegue manter, de forma absurda, desde a definição do PDM em vigor.
O número de empregos a criar é o principal argumento a favor, para a construção destes “shoppings”. A oferta de outro tipo de comércio e de zonas de lazer, complementam o rol de benefícios.
O outro lado do 8ª avenida será a concorrência ao comércio tradicional. Em primeiro lugar precisamente pelo estacionamento – durante anos os comerciantes exigiram parques subterrâneos e agora que estão construídos, a abertura do shopping com centenas de lugares gratuitos à disposição, retirará os carros de novo do centro; em segundo lugar pela essência do centro comercial em si mesmo - climatizado tanto no Inverno como no verão. Com tudo isto e para agravar, assiste-se à abertura, em Ovar, do novo centro comercial e em Santa Maria da Feira anuncia-se outro, para abrir em 2009.
A própria zona pedonal da cidade não terá muitos argumentos para atrair a população. As cinco salas de cinema anunciadas, mais a inevitável praça de alimentação serão apostas suficientes para atrair pessoas ao 8ª Avenida. Mesmo outras áreas de lazer da cidade em fase de ampliação ou remodelação, terão dificuldade em ser atractivas e ficarão desertas em alguns momentos do ano.
A tudo isto se assistiu noutras cidades do nosso País.
Para contrariar esta tendência, as associações de comerciantes devem programar atempadamente, iniciativas para fidelizar a população ao comércio tradicional. Não apenas no Natal mas sim, permanentes.
O apoio da Autarquia é indispensável.
A partir do próximo Outono, obviamente, a oferta proposta alterará os interesses da população local e de terras vizinhas, modificando por isso, os hábitos diários de cada um.
A sociabilização local passará pelo espaço a inaugurar.
A expressão do título do presente artigo passará a ser usual na comunidade local.
O momento do desencontro associado a um ponto de referencia. Normalmente, como local de encontro de um grupo, de interesses vários, de uma rotina do quotidiano, nos momentos de lazer.
Não te vi no cinema, no pavilhão, no futebol, na praça, num determinado café, ou num bar, na avenida, na igreja, nas piscinas, no jardim, no parque, ou em outros locais foram expressões que acompanharam a cidade ao longo de épocas. Indicadores de um forte espírito comunitário.
Mais do que adornar o léxico local, o novo centro comercial desenvolverá um diferente conceito comercial na cidade, redefinindo a sua centralidade. A aridez que provocará à sua volta não está bem definida. Mas, nada ficará igual. A menos que a população residente aumente consideravelmente, o que só poderá ser conseguido alterando-se a “política de ocupação dos solos”, construindo-se habitações destinadas para jovens, atraindo e fixando desta forma esta faixa da população na cidade.
Isso é assunto para outra oportunidade.
Nota: É incompreensível que a construção destes centro comerciais, da responsabilidade de empresas enquadradas em sistemas de higiene e segurança, mesmo até em sistemas de gestão ambiental continuem a incomodar os vizinhos imediatos, retirando-lhes qualidade de vida, durante todo o processo de execução da obra. Tudo ficará bem quando a obra estiver concluída, no entanto, poderia ser evitado este transtorno a terceiros, não aceitável nos dias de hoje.
(a publicar no dia 08/03/07)
A opção, pelo que pude ler recentemente, será acompanhada por outros investimentos em superfícies comerciais, o que permitirá aumentar a oferta de emprego, modificando a sua caracterização, obrigando a uma maior formação e consequente qualificação da população activa.
O conceito urbano será novamente questionado. Apesar das principais indústrias estarem remetidas a zonas apropriadas, as áreas comerciais tendem a alargar-se pelo território concelhio, salvaguardando-se a Reserva Agrícola que S. João da Madeira ainda consegue manter, de forma absurda, desde a definição do PDM em vigor.
O número de empregos a criar é o principal argumento a favor, para a construção destes “shoppings”. A oferta de outro tipo de comércio e de zonas de lazer, complementam o rol de benefícios.
O outro lado do 8ª avenida será a concorrência ao comércio tradicional. Em primeiro lugar precisamente pelo estacionamento – durante anos os comerciantes exigiram parques subterrâneos e agora que estão construídos, a abertura do shopping com centenas de lugares gratuitos à disposição, retirará os carros de novo do centro; em segundo lugar pela essência do centro comercial em si mesmo - climatizado tanto no Inverno como no verão. Com tudo isto e para agravar, assiste-se à abertura, em Ovar, do novo centro comercial e em Santa Maria da Feira anuncia-se outro, para abrir em 2009.
A própria zona pedonal da cidade não terá muitos argumentos para atrair a população. As cinco salas de cinema anunciadas, mais a inevitável praça de alimentação serão apostas suficientes para atrair pessoas ao 8ª Avenida. Mesmo outras áreas de lazer da cidade em fase de ampliação ou remodelação, terão dificuldade em ser atractivas e ficarão desertas em alguns momentos do ano.
A tudo isto se assistiu noutras cidades do nosso País.
Para contrariar esta tendência, as associações de comerciantes devem programar atempadamente, iniciativas para fidelizar a população ao comércio tradicional. Não apenas no Natal mas sim, permanentes.
O apoio da Autarquia é indispensável.
A partir do próximo Outono, obviamente, a oferta proposta alterará os interesses da população local e de terras vizinhas, modificando por isso, os hábitos diários de cada um.
A sociabilização local passará pelo espaço a inaugurar.
A expressão do título do presente artigo passará a ser usual na comunidade local.
O momento do desencontro associado a um ponto de referencia. Normalmente, como local de encontro de um grupo, de interesses vários, de uma rotina do quotidiano, nos momentos de lazer.
Não te vi no cinema, no pavilhão, no futebol, na praça, num determinado café, ou num bar, na avenida, na igreja, nas piscinas, no jardim, no parque, ou em outros locais foram expressões que acompanharam a cidade ao longo de épocas. Indicadores de um forte espírito comunitário.
Mais do que adornar o léxico local, o novo centro comercial desenvolverá um diferente conceito comercial na cidade, redefinindo a sua centralidade. A aridez que provocará à sua volta não está bem definida. Mas, nada ficará igual. A menos que a população residente aumente consideravelmente, o que só poderá ser conseguido alterando-se a “política de ocupação dos solos”, construindo-se habitações destinadas para jovens, atraindo e fixando desta forma esta faixa da população na cidade.
Isso é assunto para outra oportunidade.
Nota: É incompreensível que a construção destes centro comerciais, da responsabilidade de empresas enquadradas em sistemas de higiene e segurança, mesmo até em sistemas de gestão ambiental continuem a incomodar os vizinhos imediatos, retirando-lhes qualidade de vida, durante todo o processo de execução da obra. Tudo ficará bem quando a obra estiver concluída, no entanto, poderia ser evitado este transtorno a terceiros, não aceitável nos dias de hoje.
(a publicar no dia 08/03/07)
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Escrita Regular
Aprecio cronistas de periodicidade regular. Normalmente ocupam páginas de uma ou mais publicações, escrevendo semanalmente. Alguns mais raros, escrevem diariamente. Como é difícil a leitura de todos os escritos, mesmo para o mais atento leitor, a compilação em livros é uma forma simpática de, com um ritmo mais apropriado a cada um, podermos dedicar o nosso tempo ao autor, enquanto cronista.
Nos últimos dias, dediquei-me a ler a compilação de textos publicados por Miguel Esteves Cardoso, “A minha Andorinha”, editado em 2006.
Para mim tudo começou com ele: a leitura dos textos de Escrítica Pop, de 1982; os textos semanais no Expresso; a aventura do Independente; a Kapa... depois perdi-o, na Má Língua. Eu sei que já “ninguém” o lê. Ou melhor, passam os olhos pela sua coluna no semanário Expresso, vêem a sua figura obesa e seguem para outra página. Como desapareceu das luzes da ribalta, sem aparecer na televisão, ficou esquecido. No entanto, ainda mexe.
A particularidade da sua prosa é a apreciação do cidadão nacional. Analisa grupos, comportamentos. Fala do ócio, da preguiça, dos prazeres da vida, sem malícia, com o respeito pelos outros.
Esta forma interessante de escrever mantêm-no activo – actualmente, em duas publicações nacionais - há vinte e muitos anos.
A publicação dos seus textos é uma garantia para o director do jornal. A publicação nos jornais é a sua garantia.
Um jornal vive da capacidade de trabalho da sua redacção mas também, dos textos dos seus colaboradores, ao abrigo de artigos de opinião ou de crónicas.
Os jornais locais têm uma outra singularidade, são meios de divulgação das actividades das várias colectividades locais. Páginas e páginas de informação desportiva são frequentes em qualquer edição do Jornal Labor. Uma relação simbiótica e profícua entre ambas as partes. Várias são as associações e diferentes secções que se divulgam, com esforço dos seus responsáveis, ou por quem assina os textos.
É importante não esquecer que o associativismo ainda é uma prestação de serviço à comunidade, à qual os seus dirigentes se dedicam sem fins lucrativos. Estão obviamente sujeitos a críticas, primeiro em sede própria, nas Assembleias Gerais, por exemplo. Como a sua actividade não se restringe à sede social, ou demais instalações desportivas, as críticas podem extravasar e surgirem artigos de opinião nos jornais locais.
Cabe aqui ao Director do Jornal, para defesa da sua publicação, dar oportunidade de defesa ao clube visado, moderando as críticas, caso estas se tornem insultuosas ou com juízo de valor, alertando para o conteúdo do texto, conseguindo assim que os seus leitores, assinantes e até anunciantes não sejam melindrados por problemas, que por vezes, não devem sair da sede dos clubes.
A elevação dos textos escritos para um jornal, incute-lhe uma qualidade superior e permite-lhe diferenciar-se dos restantes.
Uma nota final, fico contente por ter motivado o regresso do Sr. Albino Costa à escrita.
(publicado a 15/02/07)
Nos últimos dias, dediquei-me a ler a compilação de textos publicados por Miguel Esteves Cardoso, “A minha Andorinha”, editado em 2006.
Para mim tudo começou com ele: a leitura dos textos de Escrítica Pop, de 1982; os textos semanais no Expresso; a aventura do Independente; a Kapa... depois perdi-o, na Má Língua. Eu sei que já “ninguém” o lê. Ou melhor, passam os olhos pela sua coluna no semanário Expresso, vêem a sua figura obesa e seguem para outra página. Como desapareceu das luzes da ribalta, sem aparecer na televisão, ficou esquecido. No entanto, ainda mexe.
A particularidade da sua prosa é a apreciação do cidadão nacional. Analisa grupos, comportamentos. Fala do ócio, da preguiça, dos prazeres da vida, sem malícia, com o respeito pelos outros.
Esta forma interessante de escrever mantêm-no activo – actualmente, em duas publicações nacionais - há vinte e muitos anos.
A publicação dos seus textos é uma garantia para o director do jornal. A publicação nos jornais é a sua garantia.
Um jornal vive da capacidade de trabalho da sua redacção mas também, dos textos dos seus colaboradores, ao abrigo de artigos de opinião ou de crónicas.
Os jornais locais têm uma outra singularidade, são meios de divulgação das actividades das várias colectividades locais. Páginas e páginas de informação desportiva são frequentes em qualquer edição do Jornal Labor. Uma relação simbiótica e profícua entre ambas as partes. Várias são as associações e diferentes secções que se divulgam, com esforço dos seus responsáveis, ou por quem assina os textos.
É importante não esquecer que o associativismo ainda é uma prestação de serviço à comunidade, à qual os seus dirigentes se dedicam sem fins lucrativos. Estão obviamente sujeitos a críticas, primeiro em sede própria, nas Assembleias Gerais, por exemplo. Como a sua actividade não se restringe à sede social, ou demais instalações desportivas, as críticas podem extravasar e surgirem artigos de opinião nos jornais locais.
Cabe aqui ao Director do Jornal, para defesa da sua publicação, dar oportunidade de defesa ao clube visado, moderando as críticas, caso estas se tornem insultuosas ou com juízo de valor, alertando para o conteúdo do texto, conseguindo assim que os seus leitores, assinantes e até anunciantes não sejam melindrados por problemas, que por vezes, não devem sair da sede dos clubes.
A elevação dos textos escritos para um jornal, incute-lhe uma qualidade superior e permite-lhe diferenciar-se dos restantes.
Uma nota final, fico contente por ter motivado o regresso do Sr. Albino Costa à escrita.
(publicado a 15/02/07)
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Bairrismo e oposição
“A História não nos dá nenhum exemplo, nem um, de unanimidade ou mesmo de maioria absoluta onde essa maioria se tenha mostrado com a força de quem tem razão, segura, justa, generosa e com a vocação de quem está ao serviço dos outros.(...)”, cito Carlos Quevedo, num excerto de um dos seus textos publicados no livro “Já não me lembrava”.
A unanimidade foi o principal facto da política concelhia no ano de 2006, o primeiro do segundo mandato do executivo liderado pelo Dr. Castro Almeida.
O PSD aproveitou três assuntos nacionais para envolver a oposição e de seguida esvaziou-a na Assembleia Municipal: primeiro com a aprovação do documento contestatário à pretensa intenção do Secretário de Estado da Administração Interna em extinguir Juntas de Freguesia, em concelhos de uma freguesia única; no caso do possível financiamento à renovação da linha do Vouga, para introdução de um transporte tipo vai-vém; finalmente, no emotivo e (im)previsível fecho da Urgência do Hospital.
Para cada um destes assuntos, o argumento principal rondou sempre o “bairrismo”: “não se pode extinguir uma Junta de Freguesia como a de S. João da Madeira”; “um voto unânime é importante para negociar com o governo a possibilidade de requalificação da linha do Vouga, infra-estrutura que permitirá dotar a cidade com um moderno e único transporte”; e no Hospital, após meses (se calhar anos) em que o Director foi anunciando a importância de se preparar a defesa da Urgência, quando o Ministério da Saúde anunciou o estudo, a situação ficou colocada da seguinte forma, “quem não está contra o fecho das Urgências, está contra a cidade e os seus munícipes”.
Desta forma, o executivo camarário deu outra dimensão à sua nova maioria. Conseguiu criar a imagem de que até a oposição local “está do seu lado”.
Perante este ardil a oposição desapareceu. As recentes entrevistas dos líderes das concelhias locais, apesar das divergências apresentadas, demonstraram isso mesmo.
Dos actuais partidos de oposição com representação camarária, um manteve a convicção que os bons projectos em curso são os do executivo anterior e outro, por seu lado, manteve uma excelente retórica num discurso de oposição, com argumentos adequados, virados para o passado e não para o futuro.
Em todo o espectro político permanece a convicção que o futuro da política local passa forçosamente pelo actual Presidente. É evidente de que nada serve opinar sobre a sua eventual carreira política, a nível nacional, como eu próprio já o fiz, ou querer encaminhá-lo para a Feira, como vi escrito na imprensa local na semana anterior. Nos próximos dois anos e meio, o calendário político terá a agenda do Dr. Castro Almeida, que como político profissional e experiente, saberá qual o seu tempo de saída e certamente quer deixar o seu cunho na cidade, finalizando alguns seus projectos antigos, mais os que apresentou no seu programa eleitoral e pelos quais tem lutado. Aliás, apesar de alguns contratempos que vão sempre aparecendo ao longo da gestão política, a imagem dinâmica e sobretudo, renovadora com que o Presidente da Câmara se apresentou ao eleitorado em 2001, ainda resiste.
Obviamente, o PSD está refém da sua continuidade e os outros partidos anseiam a sua saída.
É por aqui que poderá começar a diferença entre os vários partidos.
Da oposição espera-se a apresentação de propostas alternativas e inovadoras. A sua capacidade de argumentação não deve apenas servir para criticar o facto consumado, ou em vias de o ser mas também, para marcar a agenda política da cidade.
A oposição deverá iniciar assertiva e tranquilamente o seu projecto político com um discurso de ruptura, com ideias próprias - novas de preferência, com um projecto integrado para a cidade e claro, com um conceito urbano esclarecido, onde sejam enquadrados os parceiros regionais envolventes, até por referência ao novo QREN que assim o exige.
Numa cidade em renovação, com fluxos permanentes de pessoas, tendo por ideia ser o centro da região onde está inserida, o argumento “bairrismo” não pode continuar a ser uma bandeira. Corre-se vários riscos como a dificuldade de integração de novos munícipes e o afastamento das populações vizinhas.
Termino com um forte conceito escondido por detrás da globalização, “uma pessoa é de onde se sente bem”.
(publicado em 01/02/07)
A unanimidade foi o principal facto da política concelhia no ano de 2006, o primeiro do segundo mandato do executivo liderado pelo Dr. Castro Almeida.
O PSD aproveitou três assuntos nacionais para envolver a oposição e de seguida esvaziou-a na Assembleia Municipal: primeiro com a aprovação do documento contestatário à pretensa intenção do Secretário de Estado da Administração Interna em extinguir Juntas de Freguesia, em concelhos de uma freguesia única; no caso do possível financiamento à renovação da linha do Vouga, para introdução de um transporte tipo vai-vém; finalmente, no emotivo e (im)previsível fecho da Urgência do Hospital.
Para cada um destes assuntos, o argumento principal rondou sempre o “bairrismo”: “não se pode extinguir uma Junta de Freguesia como a de S. João da Madeira”; “um voto unânime é importante para negociar com o governo a possibilidade de requalificação da linha do Vouga, infra-estrutura que permitirá dotar a cidade com um moderno e único transporte”; e no Hospital, após meses (se calhar anos) em que o Director foi anunciando a importância de se preparar a defesa da Urgência, quando o Ministério da Saúde anunciou o estudo, a situação ficou colocada da seguinte forma, “quem não está contra o fecho das Urgências, está contra a cidade e os seus munícipes”.
Desta forma, o executivo camarário deu outra dimensão à sua nova maioria. Conseguiu criar a imagem de que até a oposição local “está do seu lado”.
Perante este ardil a oposição desapareceu. As recentes entrevistas dos líderes das concelhias locais, apesar das divergências apresentadas, demonstraram isso mesmo.
Dos actuais partidos de oposição com representação camarária, um manteve a convicção que os bons projectos em curso são os do executivo anterior e outro, por seu lado, manteve uma excelente retórica num discurso de oposição, com argumentos adequados, virados para o passado e não para o futuro.
Em todo o espectro político permanece a convicção que o futuro da política local passa forçosamente pelo actual Presidente. É evidente de que nada serve opinar sobre a sua eventual carreira política, a nível nacional, como eu próprio já o fiz, ou querer encaminhá-lo para a Feira, como vi escrito na imprensa local na semana anterior. Nos próximos dois anos e meio, o calendário político terá a agenda do Dr. Castro Almeida, que como político profissional e experiente, saberá qual o seu tempo de saída e certamente quer deixar o seu cunho na cidade, finalizando alguns seus projectos antigos, mais os que apresentou no seu programa eleitoral e pelos quais tem lutado. Aliás, apesar de alguns contratempos que vão sempre aparecendo ao longo da gestão política, a imagem dinâmica e sobretudo, renovadora com que o Presidente da Câmara se apresentou ao eleitorado em 2001, ainda resiste.
Obviamente, o PSD está refém da sua continuidade e os outros partidos anseiam a sua saída.
É por aqui que poderá começar a diferença entre os vários partidos.
Da oposição espera-se a apresentação de propostas alternativas e inovadoras. A sua capacidade de argumentação não deve apenas servir para criticar o facto consumado, ou em vias de o ser mas também, para marcar a agenda política da cidade.
A oposição deverá iniciar assertiva e tranquilamente o seu projecto político com um discurso de ruptura, com ideias próprias - novas de preferência, com um projecto integrado para a cidade e claro, com um conceito urbano esclarecido, onde sejam enquadrados os parceiros regionais envolventes, até por referência ao novo QREN que assim o exige.
Numa cidade em renovação, com fluxos permanentes de pessoas, tendo por ideia ser o centro da região onde está inserida, o argumento “bairrismo” não pode continuar a ser uma bandeira. Corre-se vários riscos como a dificuldade de integração de novos munícipes e o afastamento das populações vizinhas.
Termino com um forte conceito escondido por detrás da globalização, “uma pessoa é de onde se sente bem”.
(publicado em 01/02/07)
quinta-feira, janeiro 25, 2007
Quartzo
A conversa começou mais ou menos assim: Pai, hoje na escola um colega levou pedras de quartzo!
A atenção redobrou: Quartzo ?
- Sim, batíamos uma contra a outra e dava faísca.
- E de que cor eram? – perguntei para verificar se o nome tinha sido bem entendido.
- Brancas. Foi com o pai à Serra da Freita e trouxe hoje para o ATL. Também gostava de ter. Podemos ir à Serra da Freita? Nunca lá vamos!
Mais do que um desejo, para mim foi uma vontade: Claro, vamos lá no fim de semana, no Domingo.
- Sabes onde há?
- Sei, não te preocupes.
Claro que sabia. Veios de quartzo, escombreiras com quartzo, hexagonal ou em qualquer outro sistema que cristalizou a minha geologia, a Serra da Freita no que se refere a pedras ou a rochas tem poucos segredos.
A dúvida era saber que tipo de pedra tinha visto o Manel.
O carro foi até ao local de sempre. O local de vários acampamentos da AEJ, agora transformado em parque de merendas, com grelhas e tudo.
No acesso surgem as primeiras amostras: eram assim as do teu colega?
“Isso mesmo”, respondeu feliz ao reconhecer e recolheu uma, duas, três e mais pedrinhas brancas. Mal pode, começou logo a bater uma conta a outra.
Atravessámos o riacho na nova ponte e no relvado perguntou-me “Passam carros aqui?”. Como a resposta foi negativa, sentiu-se livre e explorou as pedras, a relva, o riacho que se forma no inverno, os restos de fogueiras e claro, recolheu mais pedras de quartzo. Um saco cheio de pedras brancas e mais uma em tons de cinzento, que o pai ao recolher disse: “Uma pedra parideira aqui!? Que engraçado!”
De nada valeu explicar ao Manel, que aquela pedra tinha sido transportada por conhecidos do pai e posteriormente abandonada, alguns anos antes. Numa época em que se palmilhava a Serra a pé, com o objectivo de visitar as “Pedras Parideiras” ou à procura de itinerários esquecidos para as abandonadas minas de Volfrâmio.
O silêncio da Serra é interrompido por turistas radicais, distantes nas suas BTT . A Freita tornou-se um local aprazível e procurado nestes Invernos moderados.
Uma visita rápida ao Miradouro da Mizarela, para ver os 60 metros da Frecha. Manel não tinha ideia desta imagem, desta paisagem, desta queda de água. Adorou, associando com qualquer aventura televisionada, perguntou logo se havia grutas por detrás da água. “Não, nada disso, apenas pequenos lagos que são refrescantes no Verão”, ou pelo menos assim eram, quando desci o carreiro pela última vez.
Por detrás de Albergaria, as hélices da energia eólica rodavam, numa paisagem transformada, que acompanha a família há três gerações.
Em casa da avó, oportunidade para ver um cristal de quartzo, este sim hexagonal. “Lá na Freita, um bocado mais longe, podemos encontrar deste género de quartzo.”
- Temos que lá ir também, ok?
Até esse regresso, no escuro da garagem, ouve-se o bater de pedras e a exclamação: Vi uma faísca!
(publicado a 25/01/07)
A atenção redobrou: Quartzo ?
- Sim, batíamos uma contra a outra e dava faísca.
- E de que cor eram? – perguntei para verificar se o nome tinha sido bem entendido.
- Brancas. Foi com o pai à Serra da Freita e trouxe hoje para o ATL. Também gostava de ter. Podemos ir à Serra da Freita? Nunca lá vamos!
Mais do que um desejo, para mim foi uma vontade: Claro, vamos lá no fim de semana, no Domingo.
- Sabes onde há?
- Sei, não te preocupes.
Claro que sabia. Veios de quartzo, escombreiras com quartzo, hexagonal ou em qualquer outro sistema que cristalizou a minha geologia, a Serra da Freita no que se refere a pedras ou a rochas tem poucos segredos.
A dúvida era saber que tipo de pedra tinha visto o Manel.
O carro foi até ao local de sempre. O local de vários acampamentos da AEJ, agora transformado em parque de merendas, com grelhas e tudo.
No acesso surgem as primeiras amostras: eram assim as do teu colega?
“Isso mesmo”, respondeu feliz ao reconhecer e recolheu uma, duas, três e mais pedrinhas brancas. Mal pode, começou logo a bater uma conta a outra.
Atravessámos o riacho na nova ponte e no relvado perguntou-me “Passam carros aqui?”. Como a resposta foi negativa, sentiu-se livre e explorou as pedras, a relva, o riacho que se forma no inverno, os restos de fogueiras e claro, recolheu mais pedras de quartzo. Um saco cheio de pedras brancas e mais uma em tons de cinzento, que o pai ao recolher disse: “Uma pedra parideira aqui!? Que engraçado!”
De nada valeu explicar ao Manel, que aquela pedra tinha sido transportada por conhecidos do pai e posteriormente abandonada, alguns anos antes. Numa época em que se palmilhava a Serra a pé, com o objectivo de visitar as “Pedras Parideiras” ou à procura de itinerários esquecidos para as abandonadas minas de Volfrâmio.
O silêncio da Serra é interrompido por turistas radicais, distantes nas suas BTT . A Freita tornou-se um local aprazível e procurado nestes Invernos moderados.
Uma visita rápida ao Miradouro da Mizarela, para ver os 60 metros da Frecha. Manel não tinha ideia desta imagem, desta paisagem, desta queda de água. Adorou, associando com qualquer aventura televisionada, perguntou logo se havia grutas por detrás da água. “Não, nada disso, apenas pequenos lagos que são refrescantes no Verão”, ou pelo menos assim eram, quando desci o carreiro pela última vez.
Por detrás de Albergaria, as hélices da energia eólica rodavam, numa paisagem transformada, que acompanha a família há três gerações.
Em casa da avó, oportunidade para ver um cristal de quartzo, este sim hexagonal. “Lá na Freita, um bocado mais longe, podemos encontrar deste género de quartzo.”
- Temos que lá ir também, ok?
Até esse regresso, no escuro da garagem, ouve-se o bater de pedras e a exclamação: Vi uma faísca!
(publicado a 25/01/07)
quinta-feira, janeiro 18, 2007
clandestinos
Chegavam ao balcão sozinhas. Era o primeiro acto social depois de revelar o sucedido. A opção tinha sido tomada em desespero, contrariando crenças e convicções pessoais. Ponderados os prós e os contras, a decisão estava feita. Quem as acompanhava até à clínica, familiares, ou os próprios namorados, ou só amigas, penalizavam-nas neste momento. Tinham que enfrentar terceiros, expondo a sua mágoa.
A cara não escondia o receio, ou a vergonha do julgamento por terceiros.
Uma consulta especial para o Doutor..., ou só uma consulta, sem nada de especialidades, era o código de abertura para as mãos do médico. As palavras saíam da boca a medo e quem as atendia, já experientes, colocavam-nas à vontade.
Formalismos consumados e pagava-se. Muito. Economias várias, dinheiro emprestado. Em notas, sem rasto, sem direito a recibo ou a comprovativo.
As adolescentes - ou um pouco mais velhinhas - seguiam para uma sala de espera. Em principio não veriam ninguém, além do pessoal auxiliar. Por vezes, o tempo de espera era longo e lá entrava mais uma rapariga, acompanhada ou não, tornando o silêncio comprometedor. Ali a espera era diferente de uma normal sala de hospital, ninguém ousava perguntar nada às outras, não por falta de simpatia mas, porque era arriscado e aborrecido falar-se do assunto. Bem, no fundo não havia nada a falar. O que interessava era terminar aquilo e sobretudo, fugir dali o mais depressa possível.
Quando se era chamada, as pernas tremiam; havia casos encaminhados para as urgências no hospital distrital, muitas vezes devido a semanas mal contadas, outras por circunstâncias várias e lá se ia o segredo, além dos graves problemas físicos associados.
Não veriam a cara do médico, escondida sob uma discreta máscara. Só escutariam a sua voz.
No final, as incertezas, dúvidas e receios desapareciam, tudo correra bem. Um regresso à dura realidade. Os conselhos apropriados: relações só daqui a um mês, atenção à utilização de contraceptivos e o discurso ajustado da obtenção e frequência das consultas de planeamento familiar para adolescentes.
Um lugar democrata a troco de umas dezenas de “contos”.
De volta à sala de espera, onde o silêncio imperava. Umas lágrimas finais, o nervoso miudinho explodia após o sucedido.
O reencontro e a reconciliação com os entes queridos, entre fortes e sentidos abraços.
Um recomeçar de vida, com a mágoa pessoal e um silêncio eterno sobre o assunto, porque a sociedade recrimina estes actos.
Até um dia.
(publicado em 18/01/07)
A cara não escondia o receio, ou a vergonha do julgamento por terceiros.
Uma consulta especial para o Doutor..., ou só uma consulta, sem nada de especialidades, era o código de abertura para as mãos do médico. As palavras saíam da boca a medo e quem as atendia, já experientes, colocavam-nas à vontade.
Formalismos consumados e pagava-se. Muito. Economias várias, dinheiro emprestado. Em notas, sem rasto, sem direito a recibo ou a comprovativo.
As adolescentes - ou um pouco mais velhinhas - seguiam para uma sala de espera. Em principio não veriam ninguém, além do pessoal auxiliar. Por vezes, o tempo de espera era longo e lá entrava mais uma rapariga, acompanhada ou não, tornando o silêncio comprometedor. Ali a espera era diferente de uma normal sala de hospital, ninguém ousava perguntar nada às outras, não por falta de simpatia mas, porque era arriscado e aborrecido falar-se do assunto. Bem, no fundo não havia nada a falar. O que interessava era terminar aquilo e sobretudo, fugir dali o mais depressa possível.
Quando se era chamada, as pernas tremiam; havia casos encaminhados para as urgências no hospital distrital, muitas vezes devido a semanas mal contadas, outras por circunstâncias várias e lá se ia o segredo, além dos graves problemas físicos associados.
Não veriam a cara do médico, escondida sob uma discreta máscara. Só escutariam a sua voz.
No final, as incertezas, dúvidas e receios desapareciam, tudo correra bem. Um regresso à dura realidade. Os conselhos apropriados: relações só daqui a um mês, atenção à utilização de contraceptivos e o discurso ajustado da obtenção e frequência das consultas de planeamento familiar para adolescentes.
Um lugar democrata a troco de umas dezenas de “contos”.
De volta à sala de espera, onde o silêncio imperava. Umas lágrimas finais, o nervoso miudinho explodia após o sucedido.
O reencontro e a reconciliação com os entes queridos, entre fortes e sentidos abraços.
Um recomeçar de vida, com a mágoa pessoal e um silêncio eterno sobre o assunto, porque a sociedade recrimina estes actos.
Até um dia.
(publicado em 18/01/07)
quinta-feira, janeiro 11, 2007
graça ou desgraça
Antuérpia e Bruges têm histórias contrastantes. Bruges foi capital da Flandres durante vários anos e até ao século XV. Era nesta cidade, servida pelo estuário do rio Zwin, que se faziam as principais trocas comerciais dos produtos produzidos no Norte da Europa e também com as sedas e especiarias do Oriente, comercializadas por Italianos. Bruges prosperou e desenvolveu novas indústrias, como a lapidação de diamantes e no século referido tinha o dobro da população de Londres.
No século seguinte, o assoreamento do rio afastou os grandes navios das docas de Bruges e devido a este facto, os grandes comerciantes transferiram-se para a costa de Antuérpia. Nessa época, esta cidade transformou-se numa das maiores potências económicas da Europa. Apesar do aparecimento de transportes rodoviários, ferroviários e aéreos, o porto de Antuérpia ainda é um dos principais da Europa e os negócios de diamantes passam infalivelmente por esta cidade Belga. Bruges, em contrapartida, é uma cidade museu virada essencialmente para o turismo.
A partir desta descrição sobre a evolução destas duas cidades da Bélgica, Tim Harford, no seu livro “O Economista Disfarçado”, chegou ao seguinte postulado: “se quiser ser rico, é boa ideia forjar ligações estreitas com o resto do mundo(...)”.
Os economistas adoram fornecer exemplos de pequenos países prósperos. A Europa tem vários que assim souberam manter-se ao longo de anos, até ao presente.
Pretender alavancar a economia de um concelho, sabendo da importância das acessibilidades e esperando que a prosperidade surja de acordo com a evidência de Tim Harford, tem sido a intenção dos últimos anos da Autarquia local.
A verificar-se a opção pelo traçado B na construção da A32 entre Gaia e Oliveira de Azeméis, S. João da Madeira volta à estaca zero. Terá que reivindicar acessos rápidos ao nó mais próximo, construídos por concelhos vizinhos. Como se viu em todo este processo, as vontades dos autarcas dos concelhos vizinhos são oficiosamente diferentes.
Mesmo que seja esta a solução política a encontrar, a promessa eleitoral do candidato Castro Almeida, de ligação por auto-estrada de SJM ao Porto, dificilmente será cumprida.
Este é um importante ponto para ponderar sobre o “estado de graça” do Presidente da Câmara.
Apesar de ecos na imprensa local, em especial no Jornal “O Regional”, os eleitores estão expectantes.
O ano de 2007 será decisivo para a relação dos munícipes com o Presidente da Câmara. Nos próximos meses, a decisão sobre o futuro do serviço de Urgências do Hospital de S. João da Madeira poderá implicar algumas mudanças.
Caso se altere a vontade do estudo prévio do Ministério da Saúde, tudo continuará bem, ou melhor, ficará bem melhor para um eventual terceiro mandato do actual Presidente da Câmara. Os argumentos apresentados para a manutenção da Urgência do Hospital revelar-se-ão fundamentais e obviamente o ”estado de graça” permanecerá.
Tudo muda de figura, caso se verifique o anunciado fecho. Penso que muitos eleitores encararão mal o facto e com desconfiança questionarão as várias acções e obras em curso na cidade. A unanimidade desaparecerá e a contestação subirá de tom. A oposição terá oportunidade para dizer “Nós bem avisámos”.
Este cenário dois anos antes das eleições autárquicas, pode levar o actual Presidente a repensar a sua opção política, já que o calendário eleitoral prevê eleições Legislativas e Europeias antes das Autárquicas de 2009.
(publicado em 11/01/07)
No século seguinte, o assoreamento do rio afastou os grandes navios das docas de Bruges e devido a este facto, os grandes comerciantes transferiram-se para a costa de Antuérpia. Nessa época, esta cidade transformou-se numa das maiores potências económicas da Europa. Apesar do aparecimento de transportes rodoviários, ferroviários e aéreos, o porto de Antuérpia ainda é um dos principais da Europa e os negócios de diamantes passam infalivelmente por esta cidade Belga. Bruges, em contrapartida, é uma cidade museu virada essencialmente para o turismo.
A partir desta descrição sobre a evolução destas duas cidades da Bélgica, Tim Harford, no seu livro “O Economista Disfarçado”, chegou ao seguinte postulado: “se quiser ser rico, é boa ideia forjar ligações estreitas com o resto do mundo(...)”.
Os economistas adoram fornecer exemplos de pequenos países prósperos. A Europa tem vários que assim souberam manter-se ao longo de anos, até ao presente.
Pretender alavancar a economia de um concelho, sabendo da importância das acessibilidades e esperando que a prosperidade surja de acordo com a evidência de Tim Harford, tem sido a intenção dos últimos anos da Autarquia local.
A verificar-se a opção pelo traçado B na construção da A32 entre Gaia e Oliveira de Azeméis, S. João da Madeira volta à estaca zero. Terá que reivindicar acessos rápidos ao nó mais próximo, construídos por concelhos vizinhos. Como se viu em todo este processo, as vontades dos autarcas dos concelhos vizinhos são oficiosamente diferentes.
Mesmo que seja esta a solução política a encontrar, a promessa eleitoral do candidato Castro Almeida, de ligação por auto-estrada de SJM ao Porto, dificilmente será cumprida.
Este é um importante ponto para ponderar sobre o “estado de graça” do Presidente da Câmara.
Apesar de ecos na imprensa local, em especial no Jornal “O Regional”, os eleitores estão expectantes.
O ano de 2007 será decisivo para a relação dos munícipes com o Presidente da Câmara. Nos próximos meses, a decisão sobre o futuro do serviço de Urgências do Hospital de S. João da Madeira poderá implicar algumas mudanças.
Caso se altere a vontade do estudo prévio do Ministério da Saúde, tudo continuará bem, ou melhor, ficará bem melhor para um eventual terceiro mandato do actual Presidente da Câmara. Os argumentos apresentados para a manutenção da Urgência do Hospital revelar-se-ão fundamentais e obviamente o ”estado de graça” permanecerá.
Tudo muda de figura, caso se verifique o anunciado fecho. Penso que muitos eleitores encararão mal o facto e com desconfiança questionarão as várias acções e obras em curso na cidade. A unanimidade desaparecerá e a contestação subirá de tom. A oposição terá oportunidade para dizer “Nós bem avisámos”.
Este cenário dois anos antes das eleições autárquicas, pode levar o actual Presidente a repensar a sua opção política, já que o calendário eleitoral prevê eleições Legislativas e Europeias antes das Autárquicas de 2009.
(publicado em 11/01/07)
quarta-feira, novembro 29, 2006
Longo silêncio
Cruzo-me com pessoas, sem nome conhecido. Trocamos olhares, pequenos cumprimentos em forma de tímidos sorrisos, de iguais acenos de cabeça ou com um pequeno erguer das mãos, em dias mais alegres.
Muitos, não sei quem são, qual o nome próprio, alcunha, apelido ou sequer a morada, apenas um rosto circulante nas ruas da cidade, que com o aumento populacional tornou-se impessoal. Ironicamente são apelidados de “ilustres desconhecidos”, ou “povo anónimo”.
Sinto a passagem do tempo, ao ver os seus corpos transformarem-se: as caras a envelhecerem, os troncos a encolherem e a arquearem. Os cumprimentos trocam-se por silêncios, que não ouso interromper.
Depois... desaparecem.
Por uma longa temporada não os vejo, até um dia.
Nesse dia, as suas fotografias são expostas num poste, numa qualquer parede ou página de necrologia, com os dados que não conhecíamos e jamais perguntámos.
Com vergonha verificamos a sua morte e pensativos, soletramos o nome que ignorávamos.
Lentamente a cidade, apesar de todo o ruído inerente, fica mais silenciosa.
Tendo a afastar-me dela. As incursões são diárias, por necessidade, ou esporádicas, em resposta a algum convite de amigos ou para compromissos associativos.
A escrita, em colaboração com o Jornal, repousa à espera de vez. O blog ocupa-me os tempos livres e mesmo a divagação pelos temas da cidade, não são particularmente motivadores.
Percorro as ruas do centro da cidade, a minha memória colectiva.
A preparação para o Natal não esconde o estado decrépito a que estas ruas chegaram.
Cumprimentam-me os comerciantes de sempre, amáveis quando me reconhecem.
Outras lojas da minha infância fecharam. Em seu lugar surgiu o vazio, com um letreiro, propondo uma solução comercial.
A cidade vive num impasse. Político é certo. As pessoas esperam respostas aos assuntos que foram manchete dos jornais, nos últimos meses. Dúvidas para serem resolvidas por Ministérios.
A cidade já não se resolve, aguenta.
Espera a sua vez, paciente, como estando numa qualquer fila.
Entretanto, na idealizada nova “urbe”, com os seus novos pontos de interesse, edifícios ou serviços, a cidade projecta-se sobretudo para o exterior.
Nesse novo contexto, o “espaço” destinado para as suas gentes, para a sua expressão, para a sua susceptibilidade é curto e a memória tenderá a apagar-se.
Esta inquietação ocupa-me.
Isso é bom.
Muitos, não sei quem são, qual o nome próprio, alcunha, apelido ou sequer a morada, apenas um rosto circulante nas ruas da cidade, que com o aumento populacional tornou-se impessoal. Ironicamente são apelidados de “ilustres desconhecidos”, ou “povo anónimo”.
Sinto a passagem do tempo, ao ver os seus corpos transformarem-se: as caras a envelhecerem, os troncos a encolherem e a arquearem. Os cumprimentos trocam-se por silêncios, que não ouso interromper.
Depois... desaparecem.
Por uma longa temporada não os vejo, até um dia.
Nesse dia, as suas fotografias são expostas num poste, numa qualquer parede ou página de necrologia, com os dados que não conhecíamos e jamais perguntámos.
Com vergonha verificamos a sua morte e pensativos, soletramos o nome que ignorávamos.
Lentamente a cidade, apesar de todo o ruído inerente, fica mais silenciosa.
Tendo a afastar-me dela. As incursões são diárias, por necessidade, ou esporádicas, em resposta a algum convite de amigos ou para compromissos associativos.
A escrita, em colaboração com o Jornal, repousa à espera de vez. O blog ocupa-me os tempos livres e mesmo a divagação pelos temas da cidade, não são particularmente motivadores.
Percorro as ruas do centro da cidade, a minha memória colectiva.
A preparação para o Natal não esconde o estado decrépito a que estas ruas chegaram.
Cumprimentam-me os comerciantes de sempre, amáveis quando me reconhecem.
Outras lojas da minha infância fecharam. Em seu lugar surgiu o vazio, com um letreiro, propondo uma solução comercial.
A cidade vive num impasse. Político é certo. As pessoas esperam respostas aos assuntos que foram manchete dos jornais, nos últimos meses. Dúvidas para serem resolvidas por Ministérios.
A cidade já não se resolve, aguenta.
Espera a sua vez, paciente, como estando numa qualquer fila.
Entretanto, na idealizada nova “urbe”, com os seus novos pontos de interesse, edifícios ou serviços, a cidade projecta-se sobretudo para o exterior.
Nesse novo contexto, o “espaço” destinado para as suas gentes, para a sua expressão, para a sua susceptibilidade é curto e a memória tenderá a apagar-se.
Esta inquietação ocupa-me.
Isso é bom.
terça-feira, outubro 31, 2006
Deslizes e Mergulhos
Os estabelecimentos de ensino da cidade foram notícia, em semanas anteriores, por bons motivos.
A aposta do executivo municipal em dotar o concelho com escolas “entre as melhores do país” tem sido executada perseverantemente.
A recente inauguração da nova biblioteca na Escola EB1 do Espadanal, complementando a reestruturação global de que as escolas municipais foram alvo, terá continuidade com a expansão da Rede de Bibliotecas a mais 2 escolas, nos próximos anos.
Mesmo sem apoio para a construção da quarta Escola secundária, a atribuição de verbas do PIDDAC à Escola Secundária Dr. Serafim Leite, para ampliação de instalações, permite prosseguir a remodelação do parque escolar, procurando-se com este pressuposto que a ambicionada qualidade no ensino seja alcançada e reconhecida.
Para isto contribuem as posições no ranking nacional das Escolas Secundárias, seja qual for o critério de avaliação. A colocação da Escola João da Silva Correia entre as melhores do distrito e do país, enaltece o trabalho de todos os envolvidos no processo de ensino, em particular da própria Escola, claro está.
Tendo o vértice da estrutura piramidal reconhecido, estando o parque escolar recuperado, não havendo graves problemas, nem mesmo inclusão em listas negras de análises da DECO, poder-se-ia pensar no “dossier” ensino como pronto e a entrar em “velocidade cruzeiro”.
O próprio Presidente da Câmara reconheceu que os próximos investimentos serão “menores”, a nível de “software educativo e equipamentos desportivos”.
Na minha opinião existe aqui uma possibilidade de melhoria de instalações que não se deveria desperdiçar.
As escolas primárias foram recuperadas, é certo. Foram dotadas com espaços culturais, com equipamentos de diversão no recreio, com melhorias ao nível do conforto dos alunos e do serviço de refeições. Apesar de considerar tudo isto extremamente importante e suficiente para o bom funcionamento do ano escolar, não posso deixar de ser um pouco mais ambicioso para as escolas do concelho.
Das verbas a atribuir pelo PIDDAC, 78.838 euros provêm do projecto Conservação e Remodelação do Parque Escolar da Região Norte. Através deste montante não seria possível, atribuir uma verba para a recuperação do Tanque – Piscina da Escola do Parque?
Este equipamento desportivo está abandonado, enquanto piscina destinada a crianças em idade escolar, desde o final da década de 80. A sua recuperação permitiria aos alunos desta escola frequentarem aulas de natação em horário diurno, sem saírem das instalações da escola. Além destes, a piscina poderia ser utilizada por crianças do pré-escolar. Os horários complementares poderiam ser rentabilizados com aulas para este público específico, em especial, finais de tarde e fins de semana, os períodos mais procurados e por isso mais saturados na actual piscina municipal.
É evidente que uma piscina de 12,5 metros não se esquece, existe na memória colectiva de muitos que ali aprenderam a nadar. Mais do que o valor afectivo, é justo alertar para o desperdício de um equipamento municipal, que dotaria uma escola EB1, com umas instalações excelentes de nível europeu.
A aposta do executivo municipal em dotar o concelho com escolas “entre as melhores do país” tem sido executada perseverantemente.
A recente inauguração da nova biblioteca na Escola EB1 do Espadanal, complementando a reestruturação global de que as escolas municipais foram alvo, terá continuidade com a expansão da Rede de Bibliotecas a mais 2 escolas, nos próximos anos.
Mesmo sem apoio para a construção da quarta Escola secundária, a atribuição de verbas do PIDDAC à Escola Secundária Dr. Serafim Leite, para ampliação de instalações, permite prosseguir a remodelação do parque escolar, procurando-se com este pressuposto que a ambicionada qualidade no ensino seja alcançada e reconhecida.
Para isto contribuem as posições no ranking nacional das Escolas Secundárias, seja qual for o critério de avaliação. A colocação da Escola João da Silva Correia entre as melhores do distrito e do país, enaltece o trabalho de todos os envolvidos no processo de ensino, em particular da própria Escola, claro está.
Tendo o vértice da estrutura piramidal reconhecido, estando o parque escolar recuperado, não havendo graves problemas, nem mesmo inclusão em listas negras de análises da DECO, poder-se-ia pensar no “dossier” ensino como pronto e a entrar em “velocidade cruzeiro”.
O próprio Presidente da Câmara reconheceu que os próximos investimentos serão “menores”, a nível de “software educativo e equipamentos desportivos”.
Na minha opinião existe aqui uma possibilidade de melhoria de instalações que não se deveria desperdiçar.
As escolas primárias foram recuperadas, é certo. Foram dotadas com espaços culturais, com equipamentos de diversão no recreio, com melhorias ao nível do conforto dos alunos e do serviço de refeições. Apesar de considerar tudo isto extremamente importante e suficiente para o bom funcionamento do ano escolar, não posso deixar de ser um pouco mais ambicioso para as escolas do concelho.
Das verbas a atribuir pelo PIDDAC, 78.838 euros provêm do projecto Conservação e Remodelação do Parque Escolar da Região Norte. Através deste montante não seria possível, atribuir uma verba para a recuperação do Tanque – Piscina da Escola do Parque?
Este equipamento desportivo está abandonado, enquanto piscina destinada a crianças em idade escolar, desde o final da década de 80. A sua recuperação permitiria aos alunos desta escola frequentarem aulas de natação em horário diurno, sem saírem das instalações da escola. Além destes, a piscina poderia ser utilizada por crianças do pré-escolar. Os horários complementares poderiam ser rentabilizados com aulas para este público específico, em especial, finais de tarde e fins de semana, os períodos mais procurados e por isso mais saturados na actual piscina municipal.
É evidente que uma piscina de 12,5 metros não se esquece, existe na memória colectiva de muitos que ali aprenderam a nadar. Mais do que o valor afectivo, é justo alertar para o desperdício de um equipamento municipal, que dotaria uma escola EB1, com umas instalações excelentes de nível europeu.
terça-feira, outubro 24, 2006
Iluminação Nocturna
Em tempos fui deputado Municipal na respectiva Assembleia de S. João da Madeira.
É verdade.
O meu mandato, de substituição a terceiro, durou 6 meses, interrompido pelo regresso do membro efectivamente eleito. Durante esse período, tive a oportunidade de perceber a dinâmica da Assembleia Municipal, o seu regimento, as tácticas e as inscrições sobre um assunto a debater. Não tive propriamente uma participação activa, preferi mais escutar e assimilar do que proferir qualquer palavra sobre determinado assunto. Penso que o facto de estar a prazo e a iniciação política me inibiram um pouco.
Lembro-me que o período antes da ordem do dia me surpreendeu bastante. Reparos, simples reparos eram abordados pelos vários deputados municipais. Estado de conservação de ruas, sinalização de obras e outros assuntos similares eram motivo de intervenções sumárias. Os mais experientes adiantaram-me que essa prática era comum a vários concelhos, pelo que passei a visitar os locais com problemas levantados, para melhor perceber o assunto. Numa sessão, nesse referido período, um determinado deputado alertou para o facto de uma das ruas da cidade, em período nocturno, se encontrar completamente às escuras. Como o assunto me pareceu grave, desloquei-me a essa artéria de noite, para verificar a escuridão. A rua não era muito grande e dois simples candeeiros tinham as lâmpadas fundidas. Com a simples troca, o problema da iluminação ficava resolvido, no entanto, em noites sem luar, de facto, não se via nada. Passado uns dias a iluminação foi reposta, para sossego dos moradores dessa rua.
Recordo este curto episódio, sem importância, para introduzir uma novidade nestes artigos de opinião, precisamente, o reparo. Não por uma qualquer rua mal iluminada mas, porque na principal Avenida da cidade a iluminação nocturna é diminuta. Associada à pequena queixa está um tema importante, a segurança rodoviária da cidade.
Existem na cidade várias passadeiras bem iluminadas, devidamente pintadas, com sinalização vertical eficaz e até com um moderno sistema de sinalização horizontal, através de pequenas lâmpadas intermitentes implantadas no chão. Penso que nessas, as pessoas não têm medo de atravessar porque sabem que o farão em segurança e serão vistas pelos automobilistas. Pelo que tenho lido, ultimamente os atropelamentos rodoviários ocorrem de dia, alguns precisamente em passadeiras e outros na zona pedonal. Infelizmente alguns são mortais, o que levanta sérias reservas sobre a eficácia do patrulhamento policial. Aliás, o principal motivo de insegurança da circulação de peões na cidade é precisamente o atravessar na passadeira. Os transeuntes apesar de já estarem na passadeira, quando um carro se aproxima nunca sabem se este pára ou não.
Na Avenida Renato Araújo entre as bombas de gasolina e a rotunda do Orreiro, devido à construção do novo centro comercial, a iluminação nocturna desta artéria é bastante reduzida. Sinceramente, as passadeiras estão apagadas, a sinalização vertical mal se vê e os modernos sistemas de lâmpadas intermitentes não existem. Como as obras estão para durar, tendo ainda a agravante da construção aérea, a visibilidade nesta avenida será cada vez menor. A probabilidade de surgirem atropelamentos aumentará. Antes que isso aconteça, é urgente intervir, garantindo que o avanço das obras não retirará a visibilidade aos automobilistas e permitirá a todos os que circulam a pé e têm necessidade de atravessar a Avenida Renato Araújo o possam fazer em absoluta segurança, sem receios de atropelamento.
Não tomem este reparo, como qualquer tentativa de oposição à construção do centro comercial. É importante que a sua construção seja efectuada com segurança para todos, prevenindo-se, ou melhor, evitando-se a ocorrência de acidentes rodoviários graves. A PSP como controladora de trânsito tem uma importante tarefa neste sentido, no entanto, a autarquia como “entidade reguladora”, deve manter e projectar os meios necessários para que a circulação de peões na cidade se faça sem receio, por parte dos munícipes.
É verdade.
O meu mandato, de substituição a terceiro, durou 6 meses, interrompido pelo regresso do membro efectivamente eleito. Durante esse período, tive a oportunidade de perceber a dinâmica da Assembleia Municipal, o seu regimento, as tácticas e as inscrições sobre um assunto a debater. Não tive propriamente uma participação activa, preferi mais escutar e assimilar do que proferir qualquer palavra sobre determinado assunto. Penso que o facto de estar a prazo e a iniciação política me inibiram um pouco.
Lembro-me que o período antes da ordem do dia me surpreendeu bastante. Reparos, simples reparos eram abordados pelos vários deputados municipais. Estado de conservação de ruas, sinalização de obras e outros assuntos similares eram motivo de intervenções sumárias. Os mais experientes adiantaram-me que essa prática era comum a vários concelhos, pelo que passei a visitar os locais com problemas levantados, para melhor perceber o assunto. Numa sessão, nesse referido período, um determinado deputado alertou para o facto de uma das ruas da cidade, em período nocturno, se encontrar completamente às escuras. Como o assunto me pareceu grave, desloquei-me a essa artéria de noite, para verificar a escuridão. A rua não era muito grande e dois simples candeeiros tinham as lâmpadas fundidas. Com a simples troca, o problema da iluminação ficava resolvido, no entanto, em noites sem luar, de facto, não se via nada. Passado uns dias a iluminação foi reposta, para sossego dos moradores dessa rua.
Recordo este curto episódio, sem importância, para introduzir uma novidade nestes artigos de opinião, precisamente, o reparo. Não por uma qualquer rua mal iluminada mas, porque na principal Avenida da cidade a iluminação nocturna é diminuta. Associada à pequena queixa está um tema importante, a segurança rodoviária da cidade.
Existem na cidade várias passadeiras bem iluminadas, devidamente pintadas, com sinalização vertical eficaz e até com um moderno sistema de sinalização horizontal, através de pequenas lâmpadas intermitentes implantadas no chão. Penso que nessas, as pessoas não têm medo de atravessar porque sabem que o farão em segurança e serão vistas pelos automobilistas. Pelo que tenho lido, ultimamente os atropelamentos rodoviários ocorrem de dia, alguns precisamente em passadeiras e outros na zona pedonal. Infelizmente alguns são mortais, o que levanta sérias reservas sobre a eficácia do patrulhamento policial. Aliás, o principal motivo de insegurança da circulação de peões na cidade é precisamente o atravessar na passadeira. Os transeuntes apesar de já estarem na passadeira, quando um carro se aproxima nunca sabem se este pára ou não.
Na Avenida Renato Araújo entre as bombas de gasolina e a rotunda do Orreiro, devido à construção do novo centro comercial, a iluminação nocturna desta artéria é bastante reduzida. Sinceramente, as passadeiras estão apagadas, a sinalização vertical mal se vê e os modernos sistemas de lâmpadas intermitentes não existem. Como as obras estão para durar, tendo ainda a agravante da construção aérea, a visibilidade nesta avenida será cada vez menor. A probabilidade de surgirem atropelamentos aumentará. Antes que isso aconteça, é urgente intervir, garantindo que o avanço das obras não retirará a visibilidade aos automobilistas e permitirá a todos os que circulam a pé e têm necessidade de atravessar a Avenida Renato Araújo o possam fazer em absoluta segurança, sem receios de atropelamento.
Não tomem este reparo, como qualquer tentativa de oposição à construção do centro comercial. É importante que a sua construção seja efectuada com segurança para todos, prevenindo-se, ou melhor, evitando-se a ocorrência de acidentes rodoviários graves. A PSP como controladora de trânsito tem uma importante tarefa neste sentido, no entanto, a autarquia como “entidade reguladora”, deve manter e projectar os meios necessários para que a circulação de peões na cidade se faça sem receio, por parte dos munícipes.
terça-feira, outubro 10, 2006
Reentré política sinuosa
Decididamente os tempos estão difíceis para o edil local.
Uma sucessão de acontecimentos nestes últimos meses, podem ter alterado a sua imagem perante os munícipes.
Tudo começou com a implosão da vereação. A saída da Dr. Fátima Roldão, foi um momento crítico para a proclamada coesão da “equipa vencedora”. Ainda por cima, no mesmo momento, na Assembleia de Freguesia, um dos elementos afectos ao PSD optou por abdicar. No caso da ex-vereadora ficou a ideia, com fundamento ou não, de que terá acontecido algo diferente do motivo apresentado para a demissão. Na verdade, na política por mais razões pessoais que se apresentem, espera-se sempre ouvir histórias diferentes. Como as razões apresentadas não satisfizeram, conjectura-se sobre as relações entre vereadores e destes com o Presidente.
Tudo estaria bem com a remodelação efectuada. No entanto, apesar de ser defendido o contrário, o suposto traçado da A32, mais favorável a S. João da Madeira mas, com impacte ambiental negativo, revelou que houve outros concelhos mais habilidosos na arte de negociação. Uma auto-estrada que durante anos foi apresentada como sendo até S. João da Madeira, inclusivamente foi uma das principais promessas eleitorais, afinal e na melhor das hipóteses fica afastada uns 500 metros. Se o traçado A for o escolhido (o que sinceramente espero que aconteça), inaugura-se um período novo na política, promessas eleitorais com tolerâncias, tal como as cotas nos desenhos técnicos.
A capacidade de negociação de Oliveira de Azeméis ficou mais evidente ao manter as Urgências no Hospital do concelho, depois de perder o Serviço de Maternidade. Apesar do próprio Ministro da Saúde, segundo o DN de 10 de Outubro de 2006, sossegar os autarcas dizendo que o estudo não é definitivo. É certo que a Autarquia de SJM reagiu veemente, tendo inclusivamente divulgados números demonstrativos de que a equipa que efectuou o estudo para o Ministério da Saúde não é conhecedora da realidade local. Segundo os dados revelados, em SJM são assistidos mais residentes do concelho vizinho, do que do próprio. O argumento apresentado pelo Administrador do Hospital Distrital de S. João da Madeira sobre as condições da Urgência, comparados com o Hospital S. Miguel é bastante válido. Quem teve a oportunidade de ser atendido nos dois hospitais, facilmente constata as condições de um e de outro. Todos estes argumentos, obrigam a um desgaste extra dos autarcas locais. Defesa de um serviço de saúde que pode alterar a qualidade de vida dos munícipes, é obrigatória. Todavia, o Ministério da Saúde não costuma ser flexível. A ver vamos.
Apesar do endividamento público do concelho não estar entre os setenta mais elevados, o Governo anunciou que SJM iria perder verbas canalizadas do próximo orçamento de Estado. Menos 2,5%, revelava o jornal Público, o que significa que o próximo orçamento municipal será mais apertado, situação que poderá manter-se até 2009. Como se pode ver, tempos difíceis para a gestão autárquica. Nos próximos anos, a capacidade de investimento municipal será menor e a possibilidade de endividamento será muito condicionada, segundo a nova Lei de Finanças Locais. Muitas das promessas eleitorais de 2001 não serão cumpridas.
Veja-se a reabilitação da linha do Vouga, assunto sobre o qual a autarquia ainda não conseguiu enquadrar-se com os seus parceiros geográficos. O Engenheiro Ludgero Marques, presidente da AEP, voltou a referir-se à inevitável extensão do Metro do Porto a sul, até à futura Exponor, que será transferida para o Europarque em Santa Maria da Feira, mais concretamente freguesia de Espargo. Segundo as suas palavras, será uma mais valia importante para o centro de exposições, uma ligação ao centro do Porto por Metro. Em tempos, o trajecto sugerido foi uma ligação paralela à linha do Norte e com uma perpendicular a esta, sensivelmente em Maceda, ligando ao Europarque. A concretizar-se esta ideia o “progresso” volta a ficar aqui ao lado, outra vez a 7 ou 8 quilómetros. Sem querer entrar em discussões de pormenores técnicos como bitolas e distância entre carris, parece-me que a ideia da AEP se poderia conjugar com a vontade de requalificação da linha do Vouga, integrando-a no Metro do Porto. Afinal, o actual traçado do “Vouguinha” dista apenas 2,5 quilómetros do Europarque.
Para culminar, na semana passada, uma coluna do Jornal “O Regional” colocava o Presidente da Câmara de S. João da Madeira em baixa, por não ter comparecido, nem se fazer representar no lançamento de um livro, promovido pela própria autarquia, em convite assinado pelo próprio Presidente. Esta falha, num momento conturbado como este, não foi perdoada nem pelo incógnito “José” ou “Zé”, sempre defensor do trabalho do Presidente da Câmara.
Melhores dias virão.
Uma sucessão de acontecimentos nestes últimos meses, podem ter alterado a sua imagem perante os munícipes.
Tudo começou com a implosão da vereação. A saída da Dr. Fátima Roldão, foi um momento crítico para a proclamada coesão da “equipa vencedora”. Ainda por cima, no mesmo momento, na Assembleia de Freguesia, um dos elementos afectos ao PSD optou por abdicar. No caso da ex-vereadora ficou a ideia, com fundamento ou não, de que terá acontecido algo diferente do motivo apresentado para a demissão. Na verdade, na política por mais razões pessoais que se apresentem, espera-se sempre ouvir histórias diferentes. Como as razões apresentadas não satisfizeram, conjectura-se sobre as relações entre vereadores e destes com o Presidente.
Tudo estaria bem com a remodelação efectuada. No entanto, apesar de ser defendido o contrário, o suposto traçado da A32, mais favorável a S. João da Madeira mas, com impacte ambiental negativo, revelou que houve outros concelhos mais habilidosos na arte de negociação. Uma auto-estrada que durante anos foi apresentada como sendo até S. João da Madeira, inclusivamente foi uma das principais promessas eleitorais, afinal e na melhor das hipóteses fica afastada uns 500 metros. Se o traçado A for o escolhido (o que sinceramente espero que aconteça), inaugura-se um período novo na política, promessas eleitorais com tolerâncias, tal como as cotas nos desenhos técnicos.
A capacidade de negociação de Oliveira de Azeméis ficou mais evidente ao manter as Urgências no Hospital do concelho, depois de perder o Serviço de Maternidade. Apesar do próprio Ministro da Saúde, segundo o DN de 10 de Outubro de 2006, sossegar os autarcas dizendo que o estudo não é definitivo. É certo que a Autarquia de SJM reagiu veemente, tendo inclusivamente divulgados números demonstrativos de que a equipa que efectuou o estudo para o Ministério da Saúde não é conhecedora da realidade local. Segundo os dados revelados, em SJM são assistidos mais residentes do concelho vizinho, do que do próprio. O argumento apresentado pelo Administrador do Hospital Distrital de S. João da Madeira sobre as condições da Urgência, comparados com o Hospital S. Miguel é bastante válido. Quem teve a oportunidade de ser atendido nos dois hospitais, facilmente constata as condições de um e de outro. Todos estes argumentos, obrigam a um desgaste extra dos autarcas locais. Defesa de um serviço de saúde que pode alterar a qualidade de vida dos munícipes, é obrigatória. Todavia, o Ministério da Saúde não costuma ser flexível. A ver vamos.
Apesar do endividamento público do concelho não estar entre os setenta mais elevados, o Governo anunciou que SJM iria perder verbas canalizadas do próximo orçamento de Estado. Menos 2,5%, revelava o jornal Público, o que significa que o próximo orçamento municipal será mais apertado, situação que poderá manter-se até 2009. Como se pode ver, tempos difíceis para a gestão autárquica. Nos próximos anos, a capacidade de investimento municipal será menor e a possibilidade de endividamento será muito condicionada, segundo a nova Lei de Finanças Locais. Muitas das promessas eleitorais de 2001 não serão cumpridas.
Veja-se a reabilitação da linha do Vouga, assunto sobre o qual a autarquia ainda não conseguiu enquadrar-se com os seus parceiros geográficos. O Engenheiro Ludgero Marques, presidente da AEP, voltou a referir-se à inevitável extensão do Metro do Porto a sul, até à futura Exponor, que será transferida para o Europarque em Santa Maria da Feira, mais concretamente freguesia de Espargo. Segundo as suas palavras, será uma mais valia importante para o centro de exposições, uma ligação ao centro do Porto por Metro. Em tempos, o trajecto sugerido foi uma ligação paralela à linha do Norte e com uma perpendicular a esta, sensivelmente em Maceda, ligando ao Europarque. A concretizar-se esta ideia o “progresso” volta a ficar aqui ao lado, outra vez a 7 ou 8 quilómetros. Sem querer entrar em discussões de pormenores técnicos como bitolas e distância entre carris, parece-me que a ideia da AEP se poderia conjugar com a vontade de requalificação da linha do Vouga, integrando-a no Metro do Porto. Afinal, o actual traçado do “Vouguinha” dista apenas 2,5 quilómetros do Europarque.
Para culminar, na semana passada, uma coluna do Jornal “O Regional” colocava o Presidente da Câmara de S. João da Madeira em baixa, por não ter comparecido, nem se fazer representar no lançamento de um livro, promovido pela própria autarquia, em convite assinado pelo próprio Presidente. Esta falha, num momento conturbado como este, não foi perdoada nem pelo incógnito “José” ou “Zé”, sempre defensor do trabalho do Presidente da Câmara.
Melhores dias virão.
segunda-feira, outubro 02, 2006
Quando o Outono começa...
O equinócio de Setembro não deixou dúvidas, dia de chuva, para recordar a todos que o Outono tinha chegado.
Adeus dias escaldantes.
Na viagem matinal e apressada rumo à escola dos filhos, recordo as férias grandes. Meses e meses, sem aulas. Houve um ano com quatro, de 15 de Junho a 15 de Outubro. Quando chegavam os dias de chuva, sabíamos que as férias estavam a terminar. A hora recuava em final de Setembro, o que tornava as tardes mais curtas. Era o último sinal para o fim de férias. O ano lectivo era o nosso principal calendário.
A escola para quem é pai, é hoje sobretudo uma recordação. É certo que existem as várias preocupações. Analisar, avaliar e comentar as escolas e os professores. Escolher um sem número de actividades extra escolares: desportos, formação física, musical, linguistica, etc., que julgamos serem as adequadas para os nossos descendentes. Contudo, este tempo de regresso à escola, encaminha-nos para o reino da nostalgia.
Percebemos a alegria dos nossos filhos, pois recordamos a alegria do que era voltar a ver amigos, colegas, professores e demais pessoal envolvido, caras que perdemos o contacto visual, com o tempo. Nomes que são hoje apenas uma memória, que sabemos vivos, embora sem saber o seu paradeiro. Nada sabemos deles, o que julgávamos impossível nesse tempo.
É verdade que os primeiros anos escolares são os mais apreciados. O novo mundo que nos é ensinado e o fascínio proposto, não tem comparação com os demais anos. A partir da adolescência, a escola fica para segundo plano, pois o tempo livre é mais apreciado e aproveitado para outros interesses.
No período após as aulas, ou no intervalo das mesmas, enquadramo-nos com pessoas com afinidades comuns. O grupo de amigos, que nos irá acompanhar pelos anos seguintes, até sairmos para outras cidades, para seguirmos os estudos e optarmos por uma actividade profissional.
Os primeiros dias de Outono, logo chuvosos.
Afinidades com uma música de Tim e Zé Pedro. Entre a “chuva dissolvente”, verificamos que de todas as artes, a música é das mais nostálgicas. Acompanhamos novidades da sétima e de outras artes. Não conseguimos seguir, descobrir a música do momento e as tendências actuais. Invariavelmente, voltamos ao passado. Enquanto adolescentes, convivemos com gerações que tinham feito todas as revoluções, políticas, culturais e outras. Não entendíamos a constante referência a grupos musicais surgidos em décadas anteriores. Agora, recordamos e assinalamos as duas décadas da edição de alguns LPs do nosso tempo. Músicas sem videoclip obrigatório, porque a rádio era o principal meio de divulgação. Ouvir novamente a fantástica sonoridade de “How soon is now?”, dos The Smiths vocalizado por Morrissey, ao fim destes anos todos, é um puro acto de desespero. Passar alguns minutos a olhar para prateleiras de discos de vinil com capas em tamanho grande, é sobretudo uma recordação de uma actividade de juventude. O entrar da agulha em cena, com aquele barulho característico, tipo fritar de batatas, por mais escovada que aquela estivesse , ou limpo o vinil. O ouvir uma sequência 5 ou 6 faixas e repetir novamente aquele gesto, que no fundo era um ritual, para o lado B.
Esperamos os dias secos e quentinhos de Outono. A vontade de regressar aos espaços naturais. As praias próximas serão de novo itinerário, já desprovidas de domingueiros. Mais as subidas à serra, que já se deve ter “limpo” das atrocidades do verão.
A grande cidade ganha nesta época uma atracção maior. Os seus jardins e parques, envolvidos pela paisagem urbana. Pelas folhas caídas das grandes árvores, pela oferta que nos proporciona. Percebemos porque é que alguns dos nossos amigos, colegas de escola jamais voltaram à terra natal. Felizes, apesar dos contratempos do trânsito confuso. De longe, prefiro a vida recata da província.
Outono, cobertores de volta. Edredões para os mais friorentos. As primeiras constipações que degeneram em gripes. Iniciamos a preparação para o aquecimento caseiro pelo fogo envidraçado. Até haver essa necessidade, ainda escrevo mais umas linhas. Certamente.
Adeus dias escaldantes.
Na viagem matinal e apressada rumo à escola dos filhos, recordo as férias grandes. Meses e meses, sem aulas. Houve um ano com quatro, de 15 de Junho a 15 de Outubro. Quando chegavam os dias de chuva, sabíamos que as férias estavam a terminar. A hora recuava em final de Setembro, o que tornava as tardes mais curtas. Era o último sinal para o fim de férias. O ano lectivo era o nosso principal calendário.
A escola para quem é pai, é hoje sobretudo uma recordação. É certo que existem as várias preocupações. Analisar, avaliar e comentar as escolas e os professores. Escolher um sem número de actividades extra escolares: desportos, formação física, musical, linguistica, etc., que julgamos serem as adequadas para os nossos descendentes. Contudo, este tempo de regresso à escola, encaminha-nos para o reino da nostalgia.
Percebemos a alegria dos nossos filhos, pois recordamos a alegria do que era voltar a ver amigos, colegas, professores e demais pessoal envolvido, caras que perdemos o contacto visual, com o tempo. Nomes que são hoje apenas uma memória, que sabemos vivos, embora sem saber o seu paradeiro. Nada sabemos deles, o que julgávamos impossível nesse tempo.
É verdade que os primeiros anos escolares são os mais apreciados. O novo mundo que nos é ensinado e o fascínio proposto, não tem comparação com os demais anos. A partir da adolescência, a escola fica para segundo plano, pois o tempo livre é mais apreciado e aproveitado para outros interesses.
No período após as aulas, ou no intervalo das mesmas, enquadramo-nos com pessoas com afinidades comuns. O grupo de amigos, que nos irá acompanhar pelos anos seguintes, até sairmos para outras cidades, para seguirmos os estudos e optarmos por uma actividade profissional.
Os primeiros dias de Outono, logo chuvosos.
Afinidades com uma música de Tim e Zé Pedro. Entre a “chuva dissolvente”, verificamos que de todas as artes, a música é das mais nostálgicas. Acompanhamos novidades da sétima e de outras artes. Não conseguimos seguir, descobrir a música do momento e as tendências actuais. Invariavelmente, voltamos ao passado. Enquanto adolescentes, convivemos com gerações que tinham feito todas as revoluções, políticas, culturais e outras. Não entendíamos a constante referência a grupos musicais surgidos em décadas anteriores. Agora, recordamos e assinalamos as duas décadas da edição de alguns LPs do nosso tempo. Músicas sem videoclip obrigatório, porque a rádio era o principal meio de divulgação. Ouvir novamente a fantástica sonoridade de “How soon is now?”, dos The Smiths vocalizado por Morrissey, ao fim destes anos todos, é um puro acto de desespero. Passar alguns minutos a olhar para prateleiras de discos de vinil com capas em tamanho grande, é sobretudo uma recordação de uma actividade de juventude. O entrar da agulha em cena, com aquele barulho característico, tipo fritar de batatas, por mais escovada que aquela estivesse , ou limpo o vinil. O ouvir uma sequência 5 ou 6 faixas e repetir novamente aquele gesto, que no fundo era um ritual, para o lado B.
Esperamos os dias secos e quentinhos de Outono. A vontade de regressar aos espaços naturais. As praias próximas serão de novo itinerário, já desprovidas de domingueiros. Mais as subidas à serra, que já se deve ter “limpo” das atrocidades do verão.
A grande cidade ganha nesta época uma atracção maior. Os seus jardins e parques, envolvidos pela paisagem urbana. Pelas folhas caídas das grandes árvores, pela oferta que nos proporciona. Percebemos porque é que alguns dos nossos amigos, colegas de escola jamais voltaram à terra natal. Felizes, apesar dos contratempos do trânsito confuso. De longe, prefiro a vida recata da província.
Outono, cobertores de volta. Edredões para os mais friorentos. As primeiras constipações que degeneram em gripes. Iniciamos a preparação para o aquecimento caseiro pelo fogo envidraçado. Até haver essa necessidade, ainda escrevo mais umas linhas. Certamente.
domingo, setembro 17, 2006
Kit Patriótico
Após a leitura da última página de um livro, existe um momento que antecede a sua arrumação. Quando o livro nos interessou fica exposto algum tempo, em cima de uma mesa, ou na mesinha de cabeceira, ou noutro sítio de uso pessoal. Esse tempo é o momento de reflexão sobre a leitura terminada. Propositadamente não o colocamos na prateleira, na estante. Ao vê-lo desarrumado, sabemos que o livro ainda tem algo que nos encanta. Uma dúvida, um assunto por resolver, uma série de referências que precisamos de decifrar. Pesquisamos, ora suave ora intensamente, sobretudo quando nos é permitido, usando os meios de que dispomos.
Googlear é actualmente o acto mais eficaz.
“Suspiros en España”, um pasodoble do final do século XIX, serviu ao escritor Javier Cercas como ligação do relato da vida do falangista Rafael Sánchez-Mazas para a continuação da sua narrativa e concretização do seu livro “Soldados de Salamina”. A narrativa encaminha-nos para a coincidência da dança ao som do tal pasodoble, em tempos diferentes, contado por distintas pessoas, tendo como elo simultâneo, um soldado republicano, que o escritor acredita ser o mesmo que salvou a vida ao nacionalista atrás citado. O autor, certamente premeditadamente, persegue através desta música o propósito de reconciliação entre os opositores da guerra civil.
Consegui ouvi-la através do motor de busca mais utilizado na actualidade. Apercebi-me ainda que muitos dos nossos vizinhos vibram ao ouvi-la. Uma música que os faz comover, sobretudo, quando estão no estrangeiro.
Uma ideia de identificação com o seu próprio país, com a língua comum. Tentei a analogia com o nosso país. O patriotismo em Portugal é hoje em dia um conceito banalizado, resume-se a um kit, composto por uma bandeira - hasteada de qualquer forma em casa - e por cantar o hino no início e durante os jogos da selecção de futebol.
“Um fado” – responderam-me quando questionei qual seria a música dos Portugueses. Aceitei prontamente interrogando, mas qual? “Um qualquer” – asseguraram-me.
“Fado” era uma faixa do disco "Sex and Death", editado em 1994, pelos Durutti Column - banda britânica do guitarrista Vini Reilly. Recordo-me da primeira vez que ouvi essa faixa, pensei que algum erro tinha o leitor de CD. Como era possível ouvir-se a voz de Amália no meio da melodia de Vini Reilly? A dúvida ficou desfeita na contracapa do CD. Essa faixa tinha um "sampler" com a voz "à capella" de Amália Rodrigues, interpretando o poema “Povo que lavas no rio”. Esta referência do britânico a Portugal é, sem dúvida, curiosa, não se tratando de uma versão como a de António Variações ou a de Dulce Pontes, apenas o reconhecimento ao nosso país, que durante anos o apreciou.
Lendo o poema na integra de Pedro Homem de Melo, verificamos a monumental homenagem, com mais de 50 anos, do poeta dedicado a conhecer o seu povo, interagindo com ele, apesar de toda a sua ascendência aristocrática. Não distante nem solitário, como António Nobre, que apesar de escrever belos versos referindo-se a quem bem o acolhia e tratava, não conseguia ligar-se abertamente ao povo, refugiando-se e preferindo retirar-se para outros lados.
Com este forte suporte étnico, que na íntegra retrata um certo conceito do povo Português, o fado “Povo que lavas no rio” na voz de Amália Rodrigues, é resposta à minha pergunta.
Procurei ouvi-la novamente. Com os auscultadores no devido lugar, seleccionei a faixa...
Agora o livro de Javier Cercas poderá ir para a prateleira, juntando-se a outro do mesmo autor. Por ali ficará, amarelecendo ao tempo.
Googlear é actualmente o acto mais eficaz.
“Suspiros en España”, um pasodoble do final do século XIX, serviu ao escritor Javier Cercas como ligação do relato da vida do falangista Rafael Sánchez-Mazas para a continuação da sua narrativa e concretização do seu livro “Soldados de Salamina”. A narrativa encaminha-nos para a coincidência da dança ao som do tal pasodoble, em tempos diferentes, contado por distintas pessoas, tendo como elo simultâneo, um soldado republicano, que o escritor acredita ser o mesmo que salvou a vida ao nacionalista atrás citado. O autor, certamente premeditadamente, persegue através desta música o propósito de reconciliação entre os opositores da guerra civil.
Consegui ouvi-la através do motor de busca mais utilizado na actualidade. Apercebi-me ainda que muitos dos nossos vizinhos vibram ao ouvi-la. Uma música que os faz comover, sobretudo, quando estão no estrangeiro.
Uma ideia de identificação com o seu próprio país, com a língua comum. Tentei a analogia com o nosso país. O patriotismo em Portugal é hoje em dia um conceito banalizado, resume-se a um kit, composto por uma bandeira - hasteada de qualquer forma em casa - e por cantar o hino no início e durante os jogos da selecção de futebol.
“Um fado” – responderam-me quando questionei qual seria a música dos Portugueses. Aceitei prontamente interrogando, mas qual? “Um qualquer” – asseguraram-me.
“Fado” era uma faixa do disco "Sex and Death", editado em 1994, pelos Durutti Column - banda britânica do guitarrista Vini Reilly. Recordo-me da primeira vez que ouvi essa faixa, pensei que algum erro tinha o leitor de CD. Como era possível ouvir-se a voz de Amália no meio da melodia de Vini Reilly? A dúvida ficou desfeita na contracapa do CD. Essa faixa tinha um "sampler" com a voz "à capella" de Amália Rodrigues, interpretando o poema “Povo que lavas no rio”. Esta referência do britânico a Portugal é, sem dúvida, curiosa, não se tratando de uma versão como a de António Variações ou a de Dulce Pontes, apenas o reconhecimento ao nosso país, que durante anos o apreciou.
Lendo o poema na integra de Pedro Homem de Melo, verificamos a monumental homenagem, com mais de 50 anos, do poeta dedicado a conhecer o seu povo, interagindo com ele, apesar de toda a sua ascendência aristocrática. Não distante nem solitário, como António Nobre, que apesar de escrever belos versos referindo-se a quem bem o acolhia e tratava, não conseguia ligar-se abertamente ao povo, refugiando-se e preferindo retirar-se para outros lados.
Com este forte suporte étnico, que na íntegra retrata um certo conceito do povo Português, o fado “Povo que lavas no rio” na voz de Amália Rodrigues, é resposta à minha pergunta.
Procurei ouvi-la novamente. Com os auscultadores no devido lugar, seleccionei a faixa...
Agora o livro de Javier Cercas poderá ir para a prateleira, juntando-se a outro do mesmo autor. Por ali ficará, amarelecendo ao tempo.
segunda-feira, setembro 04, 2006
No Rivoli ou aqui?
No final do mês de Julho a Câmara Municipal do Porto (CMP) anunciou a intenção de alterar o modelo de gestão do Teatro Municipal Rivoli. Pretende com esta medida, o executivo liderado por Rui Rio, concessionar a uma entidade privada a gestão do Teatro, garantindo desta forma uma diminuição dos custos de programação cultural, cingindo-se os gastos apenas à gestão corrente com o teatro, como manutenção, limpeza, pagamento de água e de electricidade. A CMP receberá como contrapartida 5% das receitas de bilheteira. A entidade que assumir a gestão do Teatro Rivoli terá de garantir 300 dias de espectáculos por ano, duas grandes produções anuais, espectáculos para crianças, peças experimentais com actores do Porto e garantir a formação teatral aos jovens da cidade.
É evidente que a apresentação deste modelo de gestão causou polémica e foram várias as formas de protesto, incluindo a contestação dos números da autarquia, no que se refere à média diária de espectadores no ano de 2005 - 388, à receita efectivamente gerada – 6%, entre outros.
Curiosamente, o Rivoli, nome pelo qual é usual referir-se o Teatro Municipal da cidade do Porto, nunca foi encarado pela autarquia de S. João da Madeira como o exemplo a seguir na reabilitação do antigo Cinema Imperador, transformando-o na Casa das Artes do Espectáculo. Inexplicavelmente, o Presidente da autarquia local preferiu inspirar-se em modelos externos ao País, segundo o próprio Teatros de Berlim e Paris.
O estudo prévio de arquitectura apresentado há largos meses pelo Arquitecto Filipe Oliveira Dias transformará o antigo cinema num moderno Teatro Municipal, versátil, com boas condições técnicas, capaz de albergar vários tipos de produções. Serão certamente encontradas boas e óptimas soluções do ponto de vista técnico para tornar o edifício num moderno e único equipamento. E depois? Como será depois de concluídas as obras e inaugurado o espaço?
Já em Janeiro do presente ano abordei este assunto, incentivando a uma melhoria na programação cultural de forma a atrair público à cidade e lançar assim os alicerces da Casa de Artes e Espectáculo. Sabendo-se hoje que a capacidade financeira do Município melhorou consideravelmente e antes que surja a tentação de novo endividamento - para por exemplo arrancar com as obras no antigo cinema, seria importante analisar-se qual será a capacidade financeira para promover vários espectáculos por ano para 400 pessoas ou para promover “importantes espectáculos teatrais”, como finaliza o estudo prévio atrás citado e “entrar assim na alta roda cultural”?
A resposta está no Rivoli...
A CMP chegou à conclusão que precisa de um parceiro privado. A grande cidade tem vários equipamentos públicos, que aqui não é importante descriminar. Não tem público para todos, por vários erros e um que é apontado é precisamente programação deficiente.
Mais do que encarar o projecto de reabilitação e inauguração da Casa das Artes e Espectáculo, é necessário pensar-se nos meses seguintes. Será o Teatro Municipal capaz de gerar receita própria para fazer face aos custos inerentes de exploração ou terá necessidade de recorrer ao orçamento municipal?
Acreditando que a resposta será o recurso ao orçamento municipal, em que rubrica se vai enquadrar? Pensando-se na lógica macro orçamental, será na reduzida verba para actividades culturais ou na verba distribuída pelas associações desportivas e afins, significando com isto uma redução das verbas actualmente distribuídas? Ou muito pelo contrário, gerando receitas extraordinárias com a venda de património municipal?
Pode-se responder de várias formas mas, seria importante equacionar-se qual o modelo adequado à gestão do Teatro Municipal. Mais do que copiar modelos externos, com realidades culturais próprias, importa estudar os vários casos nacionais de recuperação e consequente exploração de antigos teatros. A realidade de outros concelhos poderá ajudar a definir o modelo a seguir. Desta forma, as linhas orientadoras do estudo prévio de arquitectura farão mais sentido, tornando a centralidade do reabilitado espaço cultural uma mais valia para todos.
É evidente que a apresentação deste modelo de gestão causou polémica e foram várias as formas de protesto, incluindo a contestação dos números da autarquia, no que se refere à média diária de espectadores no ano de 2005 - 388, à receita efectivamente gerada – 6%, entre outros.
Curiosamente, o Rivoli, nome pelo qual é usual referir-se o Teatro Municipal da cidade do Porto, nunca foi encarado pela autarquia de S. João da Madeira como o exemplo a seguir na reabilitação do antigo Cinema Imperador, transformando-o na Casa das Artes do Espectáculo. Inexplicavelmente, o Presidente da autarquia local preferiu inspirar-se em modelos externos ao País, segundo o próprio Teatros de Berlim e Paris.
O estudo prévio de arquitectura apresentado há largos meses pelo Arquitecto Filipe Oliveira Dias transformará o antigo cinema num moderno Teatro Municipal, versátil, com boas condições técnicas, capaz de albergar vários tipos de produções. Serão certamente encontradas boas e óptimas soluções do ponto de vista técnico para tornar o edifício num moderno e único equipamento. E depois? Como será depois de concluídas as obras e inaugurado o espaço?
Já em Janeiro do presente ano abordei este assunto, incentivando a uma melhoria na programação cultural de forma a atrair público à cidade e lançar assim os alicerces da Casa de Artes e Espectáculo. Sabendo-se hoje que a capacidade financeira do Município melhorou consideravelmente e antes que surja a tentação de novo endividamento - para por exemplo arrancar com as obras no antigo cinema, seria importante analisar-se qual será a capacidade financeira para promover vários espectáculos por ano para 400 pessoas ou para promover “importantes espectáculos teatrais”, como finaliza o estudo prévio atrás citado e “entrar assim na alta roda cultural”?
A resposta está no Rivoli...
A CMP chegou à conclusão que precisa de um parceiro privado. A grande cidade tem vários equipamentos públicos, que aqui não é importante descriminar. Não tem público para todos, por vários erros e um que é apontado é precisamente programação deficiente.
Mais do que encarar o projecto de reabilitação e inauguração da Casa das Artes e Espectáculo, é necessário pensar-se nos meses seguintes. Será o Teatro Municipal capaz de gerar receita própria para fazer face aos custos inerentes de exploração ou terá necessidade de recorrer ao orçamento municipal?
Acreditando que a resposta será o recurso ao orçamento municipal, em que rubrica se vai enquadrar? Pensando-se na lógica macro orçamental, será na reduzida verba para actividades culturais ou na verba distribuída pelas associações desportivas e afins, significando com isto uma redução das verbas actualmente distribuídas? Ou muito pelo contrário, gerando receitas extraordinárias com a venda de património municipal?
Pode-se responder de várias formas mas, seria importante equacionar-se qual o modelo adequado à gestão do Teatro Municipal. Mais do que copiar modelos externos, com realidades culturais próprias, importa estudar os vários casos nacionais de recuperação e consequente exploração de antigos teatros. A realidade de outros concelhos poderá ajudar a definir o modelo a seguir. Desta forma, as linhas orientadoras do estudo prévio de arquitectura farão mais sentido, tornando a centralidade do reabilitado espaço cultural uma mais valia para todos.
terça-feira, julho 25, 2006
Chapéus na Praça
A vida na povoação circulava à volta do centro. A estrada nacional cortava-o em dois. No seu eixo, um polícia sinaleiro ordenava efusivamente o trânsito. Mandava parar os automóveis e demais trânsito da via principal, dava sinal aos das restantes ruas para avançar e pelo meio, tinha tempo para permitir o atravessamento pelos peões. Se fossem crianças em tempo escolar, colocava um sorriso simpático e tinha até uma palavra amiga. Depois, os carros forasteiros retomavam de novo a marcha e seguiam a caminho do Norte ou do Sul. Nesta vila, os táxis paravam no centro, numa meia-lua adequadamente utilizada para o efeito. Atrás, paravam os autocarros, junto a uma confeitaria. As carreiras que seguiam para as freguesias vizinhas, ou para o Porto. À frente, do outro lado da rua, um edifício já degradado albergava no rés de chão um par de cafés, um salão de jogos com um nome vanguardista e por cima tinha as inscrições de “Pensão”.
O progresso trouxe os semáforos, uma sequência deles. Retirou os autocarros um pouco mais para baixo, para junto do Cinema. O trânsito continuava imenso. Por detrás da decadente construção, anunciava-se um novo e moderno edifício, enorme, como resultado da evolução que a povoação tinha sofrido. Um centro comercial, bem no centro, com uma série de equipamentos que nunca viriam a funcionar. Entretanto, a necessidade de reduzir o tempo de viagem entre as principais cidades do país, obrigava a rasgar novas estradas, variantes às localidades mais problemáticas em termos de tráfego.
Da Praça saía o principal trânsito. Para longe, parecia. O centro ficava apenas com o trânsito local. Ainda ali estavam os táxis, os semáforos, os demais edifícios e começava a aparecer o gigante edifício. A vila entretanto passara a cidade. O edil local de então optou por transformar o centro numa zona pedonal. Seguiram-se obras na Praça e nalgumas ruas adjacentes, retirando-se os velhos paralelos de granito e o alcatrão das vias principais. Em seu lugar surgiram pedras de calçada, canteiros com flores e a própria iluminação era substituída por uns bizarros candeeiros de duas esferas. Os automóveis e os táxis foram retirados da zona pedonal, que agora se pretendia livre de trânsito. A meia lua e o seu arvoredo foram preservados.
O centro passava a ter no Verão uma intensidade de actividades culturais fora do normal para a região. Concertos e mais concertos para todos os gostos, atraíam centenas de pessoas. As esplanadas inicialmente montadas e lotadas apenas no Verão, permaneciam ao longo de todo o ano, como as folhas perenes.
Rapidamente, o novo estado da Praça era bem assimilado por todos. Não só a Praça como as artérias adjacentes passaram, ao longo destes últimos vinte anos, a ser um local de encontro dos habitantes da cidade. Antes dos telemóveis, dos pc’s portáteis com wi-fi, as pessoas deslocavam-se à Praça, sem encontro marcado com alguém em particular, sabendo que iriam encontrar pessoas das suas relações.
Com o passar do tempo a programação de Verão deixou de ser novidade, perdeu qualidade, as esplanadas foram ficando vazias e as noites no centro perderam interesse. O mesmo aconteceu de dia, devido ao encerramento de lojas de comércio, cafés e restaurantes, balcões de instituições bancárias e seguradoras, entre outras. O parque habitacional envelhecia, não se renovando face a novas e apelativas habitações que se iam construindo em outras zonas da cidade.
Para agravar a situação, uma remodelação da zona central mal concebida, com a incompreensível transformação de mais ruas em zona pedonal, a colocação de umas coberturas de vidro no centro das vias, que além do duvidoso aspecto estético, não serviam para o efeito pretendido, retirando-se arvores e demais vegetação do centro, permitiu chegar-se ao estado a que hoje se encontra a Praça Luís Ribeiro.
Longe da ribalta, como o demonstram os comerciantes ouvidos a propósito da anunciada nova remodelação. Os problemas por eles levantados como a insegurança, o tráfico de droga, o novo centro comercial, etc. não serão resolvidos pelas anunciadas obras, de retirada de chapéus e abertura ao trânsito de algumas artérias.
É urgente atrair de novo as pessoas ao centro. Sem carros, de preferência. Sem se cair no exagero de abrir muitas ruas ao trânsito, cometendo-se um erro igual ao efectuado no passado quando se fecharam ruas em demasia. Um meio termo.
Como está não pode ficar. Ao ler os depoimentos de vários munícipes verifico que a questão está bem analisada, é preciso mudar. As sugestões parecem-me exactas: com regulamentos de carga e descarga adequados e bem divulgados, para os comerciantes informarem os seus fornecedores; sem chapéus de ferro que não permitem vislumbrar a totalidade de uma rua; com garantia de segurança. Ao que acrescento: com vontade de atrair novos comerciantes para o centro, incentivando-os a procurar as áreas disponíveis; promovendo actividades atractivas em horários complementares aos do comércio e serviços; criando espaços públicos para usufruto das famílias; com mais iluminação nocturna, de preferência, de cima para baixo.
Este é o momento para recordar que a última remodelação da zona pedonal, foi o ponto da viragem política do município. Se no final, se verificar que as obras programadas e efectuadas serviram apenas para aproximar carros de algumas artérias, continuando-se com a anarquia generalizada, na qual se inclui o estacionamento desordenado, os munícipes ficarão de novo desiludidos. O desafio é grande.
O progresso trouxe os semáforos, uma sequência deles. Retirou os autocarros um pouco mais para baixo, para junto do Cinema. O trânsito continuava imenso. Por detrás da decadente construção, anunciava-se um novo e moderno edifício, enorme, como resultado da evolução que a povoação tinha sofrido. Um centro comercial, bem no centro, com uma série de equipamentos que nunca viriam a funcionar. Entretanto, a necessidade de reduzir o tempo de viagem entre as principais cidades do país, obrigava a rasgar novas estradas, variantes às localidades mais problemáticas em termos de tráfego.
Da Praça saía o principal trânsito. Para longe, parecia. O centro ficava apenas com o trânsito local. Ainda ali estavam os táxis, os semáforos, os demais edifícios e começava a aparecer o gigante edifício. A vila entretanto passara a cidade. O edil local de então optou por transformar o centro numa zona pedonal. Seguiram-se obras na Praça e nalgumas ruas adjacentes, retirando-se os velhos paralelos de granito e o alcatrão das vias principais. Em seu lugar surgiram pedras de calçada, canteiros com flores e a própria iluminação era substituída por uns bizarros candeeiros de duas esferas. Os automóveis e os táxis foram retirados da zona pedonal, que agora se pretendia livre de trânsito. A meia lua e o seu arvoredo foram preservados.
O centro passava a ter no Verão uma intensidade de actividades culturais fora do normal para a região. Concertos e mais concertos para todos os gostos, atraíam centenas de pessoas. As esplanadas inicialmente montadas e lotadas apenas no Verão, permaneciam ao longo de todo o ano, como as folhas perenes.
Rapidamente, o novo estado da Praça era bem assimilado por todos. Não só a Praça como as artérias adjacentes passaram, ao longo destes últimos vinte anos, a ser um local de encontro dos habitantes da cidade. Antes dos telemóveis, dos pc’s portáteis com wi-fi, as pessoas deslocavam-se à Praça, sem encontro marcado com alguém em particular, sabendo que iriam encontrar pessoas das suas relações.
Com o passar do tempo a programação de Verão deixou de ser novidade, perdeu qualidade, as esplanadas foram ficando vazias e as noites no centro perderam interesse. O mesmo aconteceu de dia, devido ao encerramento de lojas de comércio, cafés e restaurantes, balcões de instituições bancárias e seguradoras, entre outras. O parque habitacional envelhecia, não se renovando face a novas e apelativas habitações que se iam construindo em outras zonas da cidade.
Para agravar a situação, uma remodelação da zona central mal concebida, com a incompreensível transformação de mais ruas em zona pedonal, a colocação de umas coberturas de vidro no centro das vias, que além do duvidoso aspecto estético, não serviam para o efeito pretendido, retirando-se arvores e demais vegetação do centro, permitiu chegar-se ao estado a que hoje se encontra a Praça Luís Ribeiro.
Longe da ribalta, como o demonstram os comerciantes ouvidos a propósito da anunciada nova remodelação. Os problemas por eles levantados como a insegurança, o tráfico de droga, o novo centro comercial, etc. não serão resolvidos pelas anunciadas obras, de retirada de chapéus e abertura ao trânsito de algumas artérias.
É urgente atrair de novo as pessoas ao centro. Sem carros, de preferência. Sem se cair no exagero de abrir muitas ruas ao trânsito, cometendo-se um erro igual ao efectuado no passado quando se fecharam ruas em demasia. Um meio termo.
Como está não pode ficar. Ao ler os depoimentos de vários munícipes verifico que a questão está bem analisada, é preciso mudar. As sugestões parecem-me exactas: com regulamentos de carga e descarga adequados e bem divulgados, para os comerciantes informarem os seus fornecedores; sem chapéus de ferro que não permitem vislumbrar a totalidade de uma rua; com garantia de segurança. Ao que acrescento: com vontade de atrair novos comerciantes para o centro, incentivando-os a procurar as áreas disponíveis; promovendo actividades atractivas em horários complementares aos do comércio e serviços; criando espaços públicos para usufruto das famílias; com mais iluminação nocturna, de preferência, de cima para baixo.
Este é o momento para recordar que a última remodelação da zona pedonal, foi o ponto da viragem política do município. Se no final, se verificar que as obras programadas e efectuadas serviram apenas para aproximar carros de algumas artérias, continuando-se com a anarquia generalizada, na qual se inclui o estacionamento desordenado, os munícipes ficarão de novo desiludidos. O desafio é grande.
terça-feira, julho 18, 2006
Escrita Irregular
1. Os dedos carregam nas teclas, decididos a formar palavras. No écran surgem frases, de linguagem simples e objectiva, sem grande valor literário. Temas diversos, títulos ousados, textos englobados nas páginas editadas pelo jornal. A escrita como acto social é preparada e executada na solidão. Pode não ser totalmente mas, os avanços, os recuos, os bloqueios ao longo da realização de um texto, mesmo a auto correcção, são momentos passados em isolamento, aguardando-se com a devida expectativa qual será a recepção.
A opinião, irregular e ocasionalmente. Um exercício de escrita a que me propus voluntariamente e sem encomenda, não colocando grande esperança na sua continuidade. Alguma aceitação e um forte incentivo caseiro, fizeram-me discorrer por vários assuntos, visando é certo algumas das opções estratégicas da política local. Ideias próprias expostas, que, por certo, coincidem e sintetizam a opinião de muitos outros.
Crónicas, cujo resultado físico - após a sua primeira leitura - atinge um novo estatuto, reutilizando-se como rascunho para novos textos, apontamentos futuros. As mais resistentes, nem sempre as mais antigas, por outro lado, são cortadas em rectângulos de papel, formando-se pequenos blocos, onde agora se escrevem os recados domésticos, pendurados no frigorífico. Palavras soltas, com as ideias partilhadas e expostas aos leitores.
Ao verificar que na última Ficha Técnica deste jornal, o meu nome surgia como colaborador, senti o peso da responsabilidade. Ao fim praticamente de um ano de escrita, com mais de duas dezenas textos de publicados, o Jornal Labor entendeu considerar-me seu colaborador. Um reconhecimento que muito prezo e que espero não defraudar.
Independentemente do tratamento futuro em termos de paginação, continuarei por estas páginas com a escrita conciliadora ou mordaz, conforme a circunstância. Por princípio, sem entrar em ofensas pessoais e distante das pequenas questões do quotidiano.
2. Cowpyright é o nome de uma das vacas concorrente ao Cowparade Lisboa 2006. Teve o seu momento de fama por ter sido roubada, no inicio da exposição ao público, no Campo Pequeno. Apesar dessa projecção a Cowpyright não tem obtido votos suficientes para se destacar da restante manada. No dia em que escrevi estas linhas, tinha apenas dois votos, sendo um meu.
O autor do projecto, o conterrâneo Paulo Marcelo, nem deve sonhar que estou a apelar ao voto na sua vaca. Parece-me a atitude mais sensata, num claro apoio ao trabalho deste multi-facetado artista local. Basta aceder ao site, via portal Sapo e enviar um SMS, com o código da Cowpyright (024), para o número 4040.
Mais do que esperar uma votação maciça, apelo a que no final, a vaca contabilize votos suficientes para deixar o artista contente com a sua participação.
A opinião, irregular e ocasionalmente. Um exercício de escrita a que me propus voluntariamente e sem encomenda, não colocando grande esperança na sua continuidade. Alguma aceitação e um forte incentivo caseiro, fizeram-me discorrer por vários assuntos, visando é certo algumas das opções estratégicas da política local. Ideias próprias expostas, que, por certo, coincidem e sintetizam a opinião de muitos outros.
Crónicas, cujo resultado físico - após a sua primeira leitura - atinge um novo estatuto, reutilizando-se como rascunho para novos textos, apontamentos futuros. As mais resistentes, nem sempre as mais antigas, por outro lado, são cortadas em rectângulos de papel, formando-se pequenos blocos, onde agora se escrevem os recados domésticos, pendurados no frigorífico. Palavras soltas, com as ideias partilhadas e expostas aos leitores.
Ao verificar que na última Ficha Técnica deste jornal, o meu nome surgia como colaborador, senti o peso da responsabilidade. Ao fim praticamente de um ano de escrita, com mais de duas dezenas textos de publicados, o Jornal Labor entendeu considerar-me seu colaborador. Um reconhecimento que muito prezo e que espero não defraudar.
Independentemente do tratamento futuro em termos de paginação, continuarei por estas páginas com a escrita conciliadora ou mordaz, conforme a circunstância. Por princípio, sem entrar em ofensas pessoais e distante das pequenas questões do quotidiano.
2. Cowpyright é o nome de uma das vacas concorrente ao Cowparade Lisboa 2006. Teve o seu momento de fama por ter sido roubada, no inicio da exposição ao público, no Campo Pequeno. Apesar dessa projecção a Cowpyright não tem obtido votos suficientes para se destacar da restante manada. No dia em que escrevi estas linhas, tinha apenas dois votos, sendo um meu.
O autor do projecto, o conterrâneo Paulo Marcelo, nem deve sonhar que estou a apelar ao voto na sua vaca. Parece-me a atitude mais sensata, num claro apoio ao trabalho deste multi-facetado artista local. Basta aceder ao site, via portal Sapo e enviar um SMS, com o código da Cowpyright (024), para o número 4040.
Mais do que esperar uma votação maciça, apelo a que no final, a vaca contabilize votos suficientes para deixar o artista contente com a sua participação.
terça-feira, julho 11, 2006
Dizer não
Raimundo Silva ficou conhecido na literatura portuguesa pela introdução de um erro nas provas de um livro, negando a ajuda dos cruzados aos portugueses na conquista de Lisboa. O “não” voluntário do revisor de livros, alterou a frase, mudando a história com a simples força de uma negação. Assim o escreveu José Saramago, na sua “História do Cerco de Lisboa”.
Muitas vezes os revisores de texto num jornal, ao lerem algumas notícias ficam com um sentimento de ambiguidade. Devem verificar apenas o relato de acontecimentos, exercendo o seu o papel de revisor ou pelo contrário alterar o texto e o sucedido, de modo a que os factos fiquem com outra lógica e mais de acordo com a sua opinião pessoal.
Raimundo Silva caso fosse o revisor das páginas deste Jornal, ao ler o texto do jornalista a propósito da posição de abandono de um dos partidos da Assembleia Municipal, aquando da votação da moção final sobre a requalificação da linha do Vouga ficaria pensativo. Tornaria a ler. Exclamaria: “Isto não faz sentido”. Pegaria no texto e teria coragem para escrever que esse partido “Votou contra a moção, apesar dos apelos feitos pelo Presidente da Câmara Municipal”. O revisor de texto alteraria novamente a história. Na sua perspectiva fictícia, adiantaria que tal partido havia referido que apenas votaria favoravelmente a moção apresentada, caso o actual executivo retirasse o projecto do transporte tipo vai-e-vém. Como o Presidente quis fazer prevalecer a sua maioria, aos deputados municipais desse partido não restava outra solução, justificar-se-ia. Apesar de não lhe competir essa tarefa, Raimundo não estava descansado, o corpo da notícia não correspondia ao sub-título da primeira página do jornal. Recatadamente e sem alguém da redacção dar por isso, o revisor alterou-o para: “PS votou contra”.
Com a sensação de dever cumprido, Raimundo iria descansar e preparar-se para o dia seguinte, o da edição do Jornal. As justificações perante o Director do Jornal e o jornalista, autor do texto, iriam começar cedo. A contradição com a edição do outro semanário local, daria logo alarme e uma valente confusão.
No silêncio nocturno de uma cidade movimentada, pensou que o acto de rebeldia seria apreciado pelos leitores, poucos ou muitos, não interessava. A cidade ficaria dividida e talvez assim a tão desejada participação cívica fosse de novo uma realidade.
Estaria preparado, para enfrentar tudo e todos: os elementos do partido em causa, os dos restantes partidos, o Presidente da Assembleia e até os membros do Executivo, se fosse caso disso.
O problema era dele mas, Raimundo sabia como responder. Começaria por afirmar que há muito tempo tinha aprendido a dizer não. Enquanto adolescente soube muito cedo como era importante saber dizer não, até por necessidade de afirmação. Tinha lido que, hoje em dia, textos de gestão de empresas ensinam como é importante saber dizer não. Com fundamento, é certo. Nunca aprofundou a matéria, de tão envolvido nos textos dos outros.
As notícias que tinha corrigido sobre política local, davam-lhe preparação suficiente para argumentar politicamente com qualquer um. Um partido político pode colocar-se numa oposição construtiva, sem unanimidade em torno do programa eleitoral do vencedor de eleições. Indignava-o como tinha sido colocado o argumento da apresentação do projecto à Secretária de Estado dos Transportes. Para concluir, puxaria do “trunfo” sempre usado pelos políticos, da desilusão do eleitorado afecto à cor do partido em causa.
Antes de adormecer o telefone tocou. Era do Jornal. Engoliu em seco e logo se tranquilizou... um vírus tinha eliminado alguns ficheiros no computador da gráfica, seria necessário enviar novamente “provas”. O director estava a comandar as operações, pediam a sua ajuda para recompor toda a edição. Acedeu.
Pelo caminho, resignou-se. Não valia a pena tentar novamente. “Afinal”, pensou, “será preciso ajuda dos cruzados”.
Muitas vezes os revisores de texto num jornal, ao lerem algumas notícias ficam com um sentimento de ambiguidade. Devem verificar apenas o relato de acontecimentos, exercendo o seu o papel de revisor ou pelo contrário alterar o texto e o sucedido, de modo a que os factos fiquem com outra lógica e mais de acordo com a sua opinião pessoal.
Raimundo Silva caso fosse o revisor das páginas deste Jornal, ao ler o texto do jornalista a propósito da posição de abandono de um dos partidos da Assembleia Municipal, aquando da votação da moção final sobre a requalificação da linha do Vouga ficaria pensativo. Tornaria a ler. Exclamaria: “Isto não faz sentido”. Pegaria no texto e teria coragem para escrever que esse partido “Votou contra a moção, apesar dos apelos feitos pelo Presidente da Câmara Municipal”. O revisor de texto alteraria novamente a história. Na sua perspectiva fictícia, adiantaria que tal partido havia referido que apenas votaria favoravelmente a moção apresentada, caso o actual executivo retirasse o projecto do transporte tipo vai-e-vém. Como o Presidente quis fazer prevalecer a sua maioria, aos deputados municipais desse partido não restava outra solução, justificar-se-ia. Apesar de não lhe competir essa tarefa, Raimundo não estava descansado, o corpo da notícia não correspondia ao sub-título da primeira página do jornal. Recatadamente e sem alguém da redacção dar por isso, o revisor alterou-o para: “PS votou contra”.
Com a sensação de dever cumprido, Raimundo iria descansar e preparar-se para o dia seguinte, o da edição do Jornal. As justificações perante o Director do Jornal e o jornalista, autor do texto, iriam começar cedo. A contradição com a edição do outro semanário local, daria logo alarme e uma valente confusão.
No silêncio nocturno de uma cidade movimentada, pensou que o acto de rebeldia seria apreciado pelos leitores, poucos ou muitos, não interessava. A cidade ficaria dividida e talvez assim a tão desejada participação cívica fosse de novo uma realidade.
Estaria preparado, para enfrentar tudo e todos: os elementos do partido em causa, os dos restantes partidos, o Presidente da Assembleia e até os membros do Executivo, se fosse caso disso.
O problema era dele mas, Raimundo sabia como responder. Começaria por afirmar que há muito tempo tinha aprendido a dizer não. Enquanto adolescente soube muito cedo como era importante saber dizer não, até por necessidade de afirmação. Tinha lido que, hoje em dia, textos de gestão de empresas ensinam como é importante saber dizer não. Com fundamento, é certo. Nunca aprofundou a matéria, de tão envolvido nos textos dos outros.
As notícias que tinha corrigido sobre política local, davam-lhe preparação suficiente para argumentar politicamente com qualquer um. Um partido político pode colocar-se numa oposição construtiva, sem unanimidade em torno do programa eleitoral do vencedor de eleições. Indignava-o como tinha sido colocado o argumento da apresentação do projecto à Secretária de Estado dos Transportes. Para concluir, puxaria do “trunfo” sempre usado pelos políticos, da desilusão do eleitorado afecto à cor do partido em causa.
Antes de adormecer o telefone tocou. Era do Jornal. Engoliu em seco e logo se tranquilizou... um vírus tinha eliminado alguns ficheiros no computador da gráfica, seria necessário enviar novamente “provas”. O director estava a comandar as operações, pediam a sua ajuda para recompor toda a edição. Acedeu.
Pelo caminho, resignou-se. Não valia a pena tentar novamente. “Afinal”, pensou, “será preciso ajuda dos cruzados”.
quarta-feira, julho 05, 2006
Fases do Projecto
A ligação por auto – estrada entre S. João da Madeira e o Porto suscitou-me alguma curiosidade sobre a sua data de conclusão. As informações sucessivas sobre o seu estado aparentavam algo de errado. Primeiro o estudo do traçado e agora o de impacto ambiental, foram até hoje as fases anunciadas do projecto. Pelo meio ficou o silêncio sobre a divulgação das propostas do traçado final.
Desde sempre fiquei com a ideia de que esta auto – estrada terminaria em S. João da Madeira e tal como eu, a maioria dos seus habitantes, por certo pensam o mesmo. Com a ajuda de um motor de busca, procurei mais informação na internet, esperando encontrar o que por certo me tem escapado ao longo destes meses.
Em primeiro lugar apurei que a auto – estrada a construir dos Carvalhos para Sul terá a designação de A32. Inicialmente o seu traçado estava apenas previsto até Argoncilhe, no norte do concelho de Santa Maria da Feira. Em 2002, uma petição propondo a sua extensão até Arrifana foi entregue na Assembleia da República por cidadãos do concelho da Feira e elogiada por vários deputados do circulo de Aveiro. A ideia era criar uma variante à EN1 e desta forma descongestionar o trânsito que passa no centro de várias localidades, evitando a ocorrência de alguns acidentes com os seus cidadãos.
De S. João da Madeira veio a reclamação de alargar um pouco mais a extensão do traçado e dotar esta cidade com o nó de saída da A32. Factos do conhecimento da generalidade das pessoas, devido à informação até hoje recebida e assimilada.
Entretanto em 2005, apesar de ser anunciado que seria o ano de lançamento a concurso da A32, é iniciado o estudo do traçado. No presente ano, no dia 29 de Abril – um sábado, é anunciado num noticiário televisivo que o traçado da futura auto-estrada A32, será a ligação entre Coimbra e Porto. Onde encontrei esta informação, não especificava se apareceu em reportagem, se em rodapé informativo. Ao ler isto as minhas certezas transformaram-se em dúvidas. Porto – Coimbra, em traçado paralelo ao actual da A1, em parte como a A29 (Porto – Angeja), devia ser engano, certamente.
Mais umas horas de busca e a auto-estrada fica reduzida a Porto – Oliveira de Azeméis, com o anúncio do estudo de impacto ambiental, que está previsto terminar em Outubro do presente ano. No dia 11 de Maio, o Secretário de Estado Adjunto das Obras Públicas, Paulo Campos, anunciou em Arouca a propósito do lançamento a concurso da construção do troço Feira – Mansores da variante da EN 326, que seria construído um nó precisamente em Milheirós de Poiares, na confluência desta estrada com a A32, que segundo o governante seria entre Oliveira de Azeméis e Carvalhos.
Contudo, com o anúncio do traçado surgem as primeiras reclamações. No relato do JN de 12 de Junho, a A32 ligará Porto a Coimbra ou mais concretamente, Carvalhos a Souselas. Com as dúvidas desfeitas, li que a população de Milheirós de Poiares “manifestou publicamente o seu descontentamento em relação a um dos traçados previstos, que implicará a demolição de algumas habitações” e em Argoncilhe “alerta-se para a necessidade de se procederem a alguns reajustamentos, para evitar que o centro daquela freguesia fique prejudicado”, pois a A32 "vai passar mesmo no centro da freguesia", segundo o JN. Um túnel com 100 metros não é suficiente para “minimizar os impactos negativos que possam ser causados”, exigindo-se pelo menos uma extensão de 500 metros para o projectado túnel. Mais segundo o JN, “o presidente da Junta diz que tudo fará para que esta pretensão possa vir a ser uma realidade e aconselha os responsáveis pela construção da via a ouvirem as reivindicações das populações para que o processo decorra de forma serena".
Segundo mais um “resultado”, a população de Pindelo e Nogueira de Cravo, ambas do concelho de Oliveira de Azeméis também se pronunciou contra o traçado previsto da A32, no dia 23 de Junho.
Caso não haja mais contratempos, será desenvolvido o projecto da totalidade da obra e só então, será posta a concurso a empreitada, certamente por fases de sucessivos troços. No entanto, pelo exposto passados três meses do anúncio do traçado a contestação é já elevada, pelo que, a construção desta via rodoviária não será fácil: a Norte haverá problemas, logo no início do traçado; a sul de S. João da Madeira haverá complicações bem perto; e a nascente, no nó que, deduzo, servirá esta cidade, em Milheirós de Poiares, o processo não está à feição de se resolver.
A variante da EN326, Feira – Arouca, começou a ser pensada há mais de 16 anos. Está concluída entre Mansores e Arouca, faltando o troço do concelho da Feira. Segundo o autarca de Argoncilhe “nos últimos 20 anos ninguém podia construir nestas zonas", à espera do traçado final da A32. Sem desesperar é caso para perguntar, existe vontade de todos políticos locais para construir a A32? Valerá a pena esperar ou será melhor procurar o desenvolvimento da outra ligação à auto - estrada, via Ovar?
Desde sempre fiquei com a ideia de que esta auto – estrada terminaria em S. João da Madeira e tal como eu, a maioria dos seus habitantes, por certo pensam o mesmo. Com a ajuda de um motor de busca, procurei mais informação na internet, esperando encontrar o que por certo me tem escapado ao longo destes meses.
Em primeiro lugar apurei que a auto – estrada a construir dos Carvalhos para Sul terá a designação de A32. Inicialmente o seu traçado estava apenas previsto até Argoncilhe, no norte do concelho de Santa Maria da Feira. Em 2002, uma petição propondo a sua extensão até Arrifana foi entregue na Assembleia da República por cidadãos do concelho da Feira e elogiada por vários deputados do circulo de Aveiro. A ideia era criar uma variante à EN1 e desta forma descongestionar o trânsito que passa no centro de várias localidades, evitando a ocorrência de alguns acidentes com os seus cidadãos.
De S. João da Madeira veio a reclamação de alargar um pouco mais a extensão do traçado e dotar esta cidade com o nó de saída da A32. Factos do conhecimento da generalidade das pessoas, devido à informação até hoje recebida e assimilada.
Entretanto em 2005, apesar de ser anunciado que seria o ano de lançamento a concurso da A32, é iniciado o estudo do traçado. No presente ano, no dia 29 de Abril – um sábado, é anunciado num noticiário televisivo que o traçado da futura auto-estrada A32, será a ligação entre Coimbra e Porto. Onde encontrei esta informação, não especificava se apareceu em reportagem, se em rodapé informativo. Ao ler isto as minhas certezas transformaram-se em dúvidas. Porto – Coimbra, em traçado paralelo ao actual da A1, em parte como a A29 (Porto – Angeja), devia ser engano, certamente.
Mais umas horas de busca e a auto-estrada fica reduzida a Porto – Oliveira de Azeméis, com o anúncio do estudo de impacto ambiental, que está previsto terminar em Outubro do presente ano. No dia 11 de Maio, o Secretário de Estado Adjunto das Obras Públicas, Paulo Campos, anunciou em Arouca a propósito do lançamento a concurso da construção do troço Feira – Mansores da variante da EN 326, que seria construído um nó precisamente em Milheirós de Poiares, na confluência desta estrada com a A32, que segundo o governante seria entre Oliveira de Azeméis e Carvalhos.
Contudo, com o anúncio do traçado surgem as primeiras reclamações. No relato do JN de 12 de Junho, a A32 ligará Porto a Coimbra ou mais concretamente, Carvalhos a Souselas. Com as dúvidas desfeitas, li que a população de Milheirós de Poiares “manifestou publicamente o seu descontentamento em relação a um dos traçados previstos, que implicará a demolição de algumas habitações” e em Argoncilhe “alerta-se para a necessidade de se procederem a alguns reajustamentos, para evitar que o centro daquela freguesia fique prejudicado”, pois a A32 "vai passar mesmo no centro da freguesia", segundo o JN. Um túnel com 100 metros não é suficiente para “minimizar os impactos negativos que possam ser causados”, exigindo-se pelo menos uma extensão de 500 metros para o projectado túnel. Mais segundo o JN, “o presidente da Junta diz que tudo fará para que esta pretensão possa vir a ser uma realidade e aconselha os responsáveis pela construção da via a ouvirem as reivindicações das populações para que o processo decorra de forma serena".
Segundo mais um “resultado”, a população de Pindelo e Nogueira de Cravo, ambas do concelho de Oliveira de Azeméis também se pronunciou contra o traçado previsto da A32, no dia 23 de Junho.
Caso não haja mais contratempos, será desenvolvido o projecto da totalidade da obra e só então, será posta a concurso a empreitada, certamente por fases de sucessivos troços. No entanto, pelo exposto passados três meses do anúncio do traçado a contestação é já elevada, pelo que, a construção desta via rodoviária não será fácil: a Norte haverá problemas, logo no início do traçado; a sul de S. João da Madeira haverá complicações bem perto; e a nascente, no nó que, deduzo, servirá esta cidade, em Milheirós de Poiares, o processo não está à feição de se resolver.
A variante da EN326, Feira – Arouca, começou a ser pensada há mais de 16 anos. Está concluída entre Mansores e Arouca, faltando o troço do concelho da Feira. Segundo o autarca de Argoncilhe “nos últimos 20 anos ninguém podia construir nestas zonas", à espera do traçado final da A32. Sem desesperar é caso para perguntar, existe vontade de todos políticos locais para construir a A32? Valerá a pena esperar ou será melhor procurar o desenvolvimento da outra ligação à auto - estrada, via Ovar?
terça-feira, junho 27, 2006
Festejos de Iuri
O pouco dinheiro na carteira obrigou Iuri a ir a casa. Saiu do café, decidido a voltar para festejar o feito da selecção do seu país, a passagem aos quartos de final do Campeonato do Mundo.
Entrou em casa e por hábito fechou a porta. Não estava ninguém, os outros Ucranianos que dividiam a casa com ele, trabalhavam em turnos e só chegariam tarde.
Abastecido de economias, engoliu um copo de aguardente poderosa e preparava-se para voltar ao café. A noite ia ser longa. Iuri estava feliz, muito feliz. O seu pobre país estava na elite do futebol mundial, vitória por pénaltis sobre a rica Suíça.
Antes de sair Iuri precisa de ir à casa de banho. Nesse momento tocam à campainha. Iuri tenta despachar-se. Novo toque à campainha. Iuri sai da casa de banho e dirige-se para a porta. Batem à porta com força. Três toques, tipo murros. Começam a gritar no patamar. Iuri não percebe quem é e pensa tratar-se de outros compatriotas mais bebidos do que ele. Só pensa no barulho que deve incomodar os vizinhos, em especial o do lado, que é nem mais nem menos do que o senhorio.
Corre para abrir e depara-se com um polícia. Tenta explicar-lhe o atraso mas, o polícia não lhe permite. Só percebe as palavras: documentos, bandeira, Ucrânia e multa. Iuri tem dificuldade em perceber o que o polícia está a dizer-lhe, quase a berrar-lhe. Começa a ficar preocupado. Pede desculpa ao polícia e tenta falar. Nisto o senhorio abre a porta. Vê o polícia alvoroçado e Iuri em dificuldades e intervêm: Sr. Guarda que modos são esses, a esta hora da noite?
O Polícia irritado atira, “O senhor não se meta. Isto é entre mim e aqui o Shevchenco”. Iuri percebeu. O senhorio não gostou, “Vamos lá ver, este prédio é meu. Esse homem chama-se Iuri é meu inclino, vive com mais três ucranianos, pagam-me a renda mensalmente, no dia combinado. Além disso, sei que são bons trabalhadores, porque conheço bem os seus empregadores, todos eles meus amigos. Afinal o que esse homem fez, para o deixar tão irritado?”, perguntou. O homem da farda, ouvindo um tom calmo, serenou: “Segundo a lei a bandeira nacional, quando desfraldada simultaneamente com outras bandeiras de outros países, não poderá ter dimensões inferiores às destas”. O senhorio não conseguia acreditar, perguntou logo, que raio de lei é essa? Com um ar triunfal o polícia respondeu “Decreto - Lei n.º 150-87, de 30 de Março, aprovada em Conselho de Ministros liderado por Cavaco Silva e promulgada pelo Presidente da República, Mário Soares”. O inquilino não percebia muito bem a conversa, mas o tom era mais sereno e esperava que o senhorio resolvesse a questão.
Ao senhorio, por seu lado, a questão continuava sem ser entendida: - Ó senhor Polícia diga-me então como é que o Iuri não está a cumprir esse decreto?
- Com muito gosto, lá fora estão exposta duas bandeiras, a de Portugal e a do país aqui do Iuri.
- Certo. E isso viola o seu decreto de lei?
- Claro. A bandeira de Portugal é mais pequena do que a outra.
Aparvalhado, o pobre senhorio não queria acreditar. “Ó homem, a bandeira Nacional é minha, com muito gosto e a da Ucrânia é destes desgraçados. Estão lado a lado, sim senhor e digo-lhe mais, a de Portugal está em minha casa e a deles na casa alugada e garanto-lhe que eles pediram-me autorização.”
- Estou a ver mas, pelo que diz o decreto, não se pode hastear uma bandeira estrangeira em território nacional sem colocar a bandeira de Portugal.
O senhorio não queria acreditar no excesso de zelo do polícia. Tentou uma abordagem nova: O senhor deve ter familiares no estrangeiro, talvez em França ou na Suíça, não é? Se falou com eles ontem ou hoje certamente que lhe contaram maravilhas sobre os festejos da vitória da nossa selecção. Todos nós vimos como os Campos Elísios se encheram de Portugueses. Não houve problemas com os Franceses, não foi?
O polícia estava na expectativa, tinha o bloco e a caneta na mão e lá acabou por dizer que tinha tios e primos em França.
O senhorio continuou: “O senhor já ouviu falar da Lei do Ruído? É de 2001, penso eu. Garanto-lhe que foi aprovada em Conselho de Ministros liderado por António Guterres e promulgada pelo Presidente da República, Jorge Sampaio. Ontem os festejos foram mais ruidosos. Ninguém se incomodou, porque a alegria era imensa.” Sem parar continuou: “aqui o Iuri festeja de forma diferente, não tem carro, não pode andar às voltas a buzinar. Vai até ao café, beber umas bebidas fortes, conversar e recordar o seu país com os compatriotas dele. Esperar pelos colegas que estão a trabalhar e quando o café fechar, voltam para casa ordeiramente e se calhar, a cambalear.”
Disfarçadamente o polícia guardou o bloco. O senhorio vendo o gesto, enalteceu a atitude do polícia “pois fique sabendo, que conheço o seu comandante e quando estiver com ele vou dar-lhe os meus parabéns pelo seu excelente gesto patriótico”.
Entrou em casa e a esposa perguntou-lhe o que se tinha passado com os Ucranianos. “Nada. Coitados. Excesso de autoridade, sabes? Esta gente esquece-se o que os nossos emigrantes passaram lá fora”. E ficou a pensar como seriam os festejos face a um apuramento de Angola.
O Iuri ainda atordoado, lá foi. Fartou-se de beber, o café fechou bem mais tarde nesse dia, porque o stock de bagaço e aguardente terminou. A tempo, para descanso do dono.
Na manhã seguinte, Iuri levantou-se e foi trabalhar.
Entrou em casa e por hábito fechou a porta. Não estava ninguém, os outros Ucranianos que dividiam a casa com ele, trabalhavam em turnos e só chegariam tarde.
Abastecido de economias, engoliu um copo de aguardente poderosa e preparava-se para voltar ao café. A noite ia ser longa. Iuri estava feliz, muito feliz. O seu pobre país estava na elite do futebol mundial, vitória por pénaltis sobre a rica Suíça.
Antes de sair Iuri precisa de ir à casa de banho. Nesse momento tocam à campainha. Iuri tenta despachar-se. Novo toque à campainha. Iuri sai da casa de banho e dirige-se para a porta. Batem à porta com força. Três toques, tipo murros. Começam a gritar no patamar. Iuri não percebe quem é e pensa tratar-se de outros compatriotas mais bebidos do que ele. Só pensa no barulho que deve incomodar os vizinhos, em especial o do lado, que é nem mais nem menos do que o senhorio.
Corre para abrir e depara-se com um polícia. Tenta explicar-lhe o atraso mas, o polícia não lhe permite. Só percebe as palavras: documentos, bandeira, Ucrânia e multa. Iuri tem dificuldade em perceber o que o polícia está a dizer-lhe, quase a berrar-lhe. Começa a ficar preocupado. Pede desculpa ao polícia e tenta falar. Nisto o senhorio abre a porta. Vê o polícia alvoroçado e Iuri em dificuldades e intervêm: Sr. Guarda que modos são esses, a esta hora da noite?
O Polícia irritado atira, “O senhor não se meta. Isto é entre mim e aqui o Shevchenco”. Iuri percebeu. O senhorio não gostou, “Vamos lá ver, este prédio é meu. Esse homem chama-se Iuri é meu inclino, vive com mais três ucranianos, pagam-me a renda mensalmente, no dia combinado. Além disso, sei que são bons trabalhadores, porque conheço bem os seus empregadores, todos eles meus amigos. Afinal o que esse homem fez, para o deixar tão irritado?”, perguntou. O homem da farda, ouvindo um tom calmo, serenou: “Segundo a lei a bandeira nacional, quando desfraldada simultaneamente com outras bandeiras de outros países, não poderá ter dimensões inferiores às destas”. O senhorio não conseguia acreditar, perguntou logo, que raio de lei é essa? Com um ar triunfal o polícia respondeu “Decreto - Lei n.º 150-87, de 30 de Março, aprovada em Conselho de Ministros liderado por Cavaco Silva e promulgada pelo Presidente da República, Mário Soares”. O inquilino não percebia muito bem a conversa, mas o tom era mais sereno e esperava que o senhorio resolvesse a questão.
Ao senhorio, por seu lado, a questão continuava sem ser entendida: - Ó senhor Polícia diga-me então como é que o Iuri não está a cumprir esse decreto?
- Com muito gosto, lá fora estão exposta duas bandeiras, a de Portugal e a do país aqui do Iuri.
- Certo. E isso viola o seu decreto de lei?
- Claro. A bandeira de Portugal é mais pequena do que a outra.
Aparvalhado, o pobre senhorio não queria acreditar. “Ó homem, a bandeira Nacional é minha, com muito gosto e a da Ucrânia é destes desgraçados. Estão lado a lado, sim senhor e digo-lhe mais, a de Portugal está em minha casa e a deles na casa alugada e garanto-lhe que eles pediram-me autorização.”
- Estou a ver mas, pelo que diz o decreto, não se pode hastear uma bandeira estrangeira em território nacional sem colocar a bandeira de Portugal.
O senhorio não queria acreditar no excesso de zelo do polícia. Tentou uma abordagem nova: O senhor deve ter familiares no estrangeiro, talvez em França ou na Suíça, não é? Se falou com eles ontem ou hoje certamente que lhe contaram maravilhas sobre os festejos da vitória da nossa selecção. Todos nós vimos como os Campos Elísios se encheram de Portugueses. Não houve problemas com os Franceses, não foi?
O polícia estava na expectativa, tinha o bloco e a caneta na mão e lá acabou por dizer que tinha tios e primos em França.
O senhorio continuou: “O senhor já ouviu falar da Lei do Ruído? É de 2001, penso eu. Garanto-lhe que foi aprovada em Conselho de Ministros liderado por António Guterres e promulgada pelo Presidente da República, Jorge Sampaio. Ontem os festejos foram mais ruidosos. Ninguém se incomodou, porque a alegria era imensa.” Sem parar continuou: “aqui o Iuri festeja de forma diferente, não tem carro, não pode andar às voltas a buzinar. Vai até ao café, beber umas bebidas fortes, conversar e recordar o seu país com os compatriotas dele. Esperar pelos colegas que estão a trabalhar e quando o café fechar, voltam para casa ordeiramente e se calhar, a cambalear.”
Disfarçadamente o polícia guardou o bloco. O senhorio vendo o gesto, enalteceu a atitude do polícia “pois fique sabendo, que conheço o seu comandante e quando estiver com ele vou dar-lhe os meus parabéns pelo seu excelente gesto patriótico”.
Entrou em casa e a esposa perguntou-lhe o que se tinha passado com os Ucranianos. “Nada. Coitados. Excesso de autoridade, sabes? Esta gente esquece-se o que os nossos emigrantes passaram lá fora”. E ficou a pensar como seriam os festejos face a um apuramento de Angola.
O Iuri ainda atordoado, lá foi. Fartou-se de beber, o café fechou bem mais tarde nesse dia, porque o stock de bagaço e aguardente terminou. A tempo, para descanso do dono.
Na manhã seguinte, Iuri levantou-se e foi trabalhar.
terça-feira, junho 20, 2006
Bandeiras Azuis
Nesta fase do ano, em que a época balnear já abriu e os infantários, as pré - escolas, ou os ATLs, preparam as semanas de praia dos seus alunos, as atenções viram-se para a segurança dos transportes e para a Praia eleita, em especial, a qualidade que esta deverá ter. As praias dos concelhos mais próximos são o destino mais lógico e por isso, inevitável.
De alguns anos para cá, o indicador de qualidade das Praias Portuguesas é a atribuição do galardão, Bandeira Azul.
Em geral os concelhos marítimos – e não só – têm procurado assegurar que as suas principais praias sejam reconhecidas, tendo melhorado e dotado as zonas costeiras com os indispensáveis equipamentos de apoio aos banhistas, incluindo a limpeza da praia e claro está, da qualidade da água.
O concelho de Gaia não perdeu tempo. Aproveitou quinze quilómetros da sua costa, designou-a por Orla Marítima e lançou-se ao desafio ambiental de a qualificar. Resultado: dezassete praias têm Bandeira Azul em 2006, nesses 15 quilómetros. Em contraste, na Zona Centro, que é definida em termos costeiros pela sequência entre o norte do concelho de Ovar até ao sul da Figueira da Foz, finalizando concretamente na Praia do Osso da Baleia do concelho de Pombal, o número de praias com Bandeira Azul é inacreditável... Dezasseis, sim dezasseis praias, em 125 quilómetros de costa. Que desperdício! Se virmos no mapa, apenas Ovar com a atribuição a 3 praias, Ílhavo com 2 e a Figueira da Foz com 5 é que aproveitam um pouco melhor a costa. O resto é um concelho, uma praia com Bandeira Azul: Murtosa, Aveiro, Vagos, Mira, Cantanhede e a já referida de Pombal.
Num país que se pretende turístico, não aproveitar a totalidade da costa e deixar dezenas de quilómetros de praias, sem acesso rápido, não faz muito sentido. Tendo em comum dunas na retaguarda, escondem-se largos ou estreitos areais, sem barracas, sem jogos de futebol maçadores, sem nadadores salvadores, nem cafés e muito menos cerveja gelada. Os concelhos a que fazem parte esquecem-se delas, desperdiçando assim a costa. Praias sem acesso por estrada, apenas sendo alcançadas atravessando a mata a pé. Porquê?
Mesmo com vias de comunicação, temos outros exemplos de boas praias sem o investimento necessário pelas autarquias para possuírem o desejado certificado. Acessos entregues à anarquia generalizada que, durante anos, caracterizaram as praias de Portugal. Salvo raras excepções; só que essas não as divulgo.
Voltando ao caso de Gaia, praias como Valadares, Canide e Madalena têm dois galardões atribuídos. Metodicamente associou-se qualidade e quantidade, conseguindo-se aquele rácio de número de Bandeiras Azuis por quilómetro. Mais do que atrair turistas, Gaia voltou-se para dentro, garantiu e melhorou a qualidade de vida dos seus habitantes.
Infelizmente na Zona Centro do nosso país, constatamos que nem a vocação turística dos concelhos marítimos está a ser devidamente trabalhada. De nada serve verificar que não é só nesta zona. Só piora.
Termino com um sinal de esperança que nos chega de Ovar. Mais ano menos ano, a Praia do Areínho na Ria de Aveiro conquistará a Bandeira Azul, pelo menos essa é a intenção da Câmara local. Apenas não foi distinguida este ano, porque um dos parâmetros não cumpria o exigido. Algo começa a alterar-se nas praias fluviais, mas aí a situação global é bem mais catastrófica.
De alguns anos para cá, o indicador de qualidade das Praias Portuguesas é a atribuição do galardão, Bandeira Azul.
Em geral os concelhos marítimos – e não só – têm procurado assegurar que as suas principais praias sejam reconhecidas, tendo melhorado e dotado as zonas costeiras com os indispensáveis equipamentos de apoio aos banhistas, incluindo a limpeza da praia e claro está, da qualidade da água.
O concelho de Gaia não perdeu tempo. Aproveitou quinze quilómetros da sua costa, designou-a por Orla Marítima e lançou-se ao desafio ambiental de a qualificar. Resultado: dezassete praias têm Bandeira Azul em 2006, nesses 15 quilómetros. Em contraste, na Zona Centro, que é definida em termos costeiros pela sequência entre o norte do concelho de Ovar até ao sul da Figueira da Foz, finalizando concretamente na Praia do Osso da Baleia do concelho de Pombal, o número de praias com Bandeira Azul é inacreditável... Dezasseis, sim dezasseis praias, em 125 quilómetros de costa. Que desperdício! Se virmos no mapa, apenas Ovar com a atribuição a 3 praias, Ílhavo com 2 e a Figueira da Foz com 5 é que aproveitam um pouco melhor a costa. O resto é um concelho, uma praia com Bandeira Azul: Murtosa, Aveiro, Vagos, Mira, Cantanhede e a já referida de Pombal.
Num país que se pretende turístico, não aproveitar a totalidade da costa e deixar dezenas de quilómetros de praias, sem acesso rápido, não faz muito sentido. Tendo em comum dunas na retaguarda, escondem-se largos ou estreitos areais, sem barracas, sem jogos de futebol maçadores, sem nadadores salvadores, nem cafés e muito menos cerveja gelada. Os concelhos a que fazem parte esquecem-se delas, desperdiçando assim a costa. Praias sem acesso por estrada, apenas sendo alcançadas atravessando a mata a pé. Porquê?
Mesmo com vias de comunicação, temos outros exemplos de boas praias sem o investimento necessário pelas autarquias para possuírem o desejado certificado. Acessos entregues à anarquia generalizada que, durante anos, caracterizaram as praias de Portugal. Salvo raras excepções; só que essas não as divulgo.
Voltando ao caso de Gaia, praias como Valadares, Canide e Madalena têm dois galardões atribuídos. Metodicamente associou-se qualidade e quantidade, conseguindo-se aquele rácio de número de Bandeiras Azuis por quilómetro. Mais do que atrair turistas, Gaia voltou-se para dentro, garantiu e melhorou a qualidade de vida dos seus habitantes.
Infelizmente na Zona Centro do nosso país, constatamos que nem a vocação turística dos concelhos marítimos está a ser devidamente trabalhada. De nada serve verificar que não é só nesta zona. Só piora.
Termino com um sinal de esperança que nos chega de Ovar. Mais ano menos ano, a Praia do Areínho na Ria de Aveiro conquistará a Bandeira Azul, pelo menos essa é a intenção da Câmara local. Apenas não foi distinguida este ano, porque um dos parâmetros não cumpria o exigido. Algo começa a alterar-se nas praias fluviais, mas aí a situação global é bem mais catastrófica.
terça-feira, junho 13, 2006
Plano de Transportes
Uma pergunta preparada pelas professoras dos alunos do 5ºD da escola EB 2/3, para a reunião de Câmara ficou sem resposta, segundo o relato do Jornal Labor, do dia 8 de Junho. A pergunta referia-se aos Transportes Urbanos de S. João da Madeira - TUS e à possibilidade de se praticarem preços diferenciados para estudantes.
O TUS (vou tratá-los na forma singular) tem circulado praticamente vazio pela cidade. Passado o período experimental e gratuito, a adesão registada a este meio de transporte foi muito reduzida. Verificando isso, o Executivo Camarário já promoveu a alteração dos percursos, de forma a atrair mais clientes.
Ainda é cedo para analisar o efeito desta alteração, no entanto, a sugestão da Escola EB 2/3 permite repensar-se este meio de transporte e articula-lo com as necessidades de um público específico, que são os estudantes. Nunca é demais lembrar que devido às reduzidas dimensões de SJM, não é permitido o transporte escolar oficial. Por essa razão, devia-se adaptar este transporte urbano aos horários escolares, com itinerários e preços adequados, como muito bem propuseram os alunos do 5º D. Passes ou bilhetes com um valor simbólico, à semelhança dos preços anunciados para os idosos possuidores do cartão sénior, ou então, de acordo com uma percentagem do rendimento do agregado familiar do estudante.
Não sendo certo qual o tipo de adesão que se iria obter, uma forte campanha de sensibilização e divulgação poderia, no inicio do próximo ano escolar, catapultar este meio de transporte para níveis de frequência aceitáveis e desejáveis. O TUS não pode cair no ridículo de ficar conhecido como o “Transporte de Utilizador Solitário”.
Um forte incentivo à utilização do TUS é o que se espera. O seu grande trunfo é a flexibilidade, comparado com a ideia de dotar a Linha do Vouga com um “vai-vém” local, conforme o programa eleitoral do partido vencedor das eleições autárquicas. As dúvidas subsistem e mesmo do Fórum Municipal já surgem mais opções a nível de plano de transportes, como a sugestão de “articulação com a expansão das linhas do Metro do Porto”. Uma ideia muito mais acertada, como tive oportunidade de defender em Novembro passado nas páginas deste jornal.
Acreditar que é possível rentabilizar o investimento da criação de uma plataforma bi-modal, com a construção de uma passadeira entre a actual estação e o Centro Coordenador de Transportes, acrescido do custo de adaptação da Linha do Vouga, para o transporte local entre o Orreiro e a antiga Oliva, parece algo exagerado para o senso comum.
A correlação de vários dados económicos é que permitirá equacionar-se a melhor solução para o ano 2015. Indicadores como o rendimento médio dos habitantes do concelho e a disponibilidade financeira para transportes; as flutuações diárias da população: saídas e entradas para trabalhar; a ocupação dos transportes colectivos: destacando-se o número de passageiros de SJM para as cidades de Oliveira de Azeméis, Santa Maria da Feira, Aveiro, Porto e vice-versa, não esquecendo quem atravessa SJM, vindo de Arouca ou Vale de Cambra, são importantes para se proceder a um estudo correcto.
É bom sinal verificar que o Executivo Camarário ponderou a questão dos transportes. Estou certo que praticamente deixou “cair” uma promessa de campanha eleitoral. A expansão para Sul do Metro do Porto será o projecto que maior interesse terá para a população desta região. Com este investimento, a articulação com o transporte rodoviário será uma necessidade maior e a ideia da plataforma terá maior cabimento.
O TUS (vou tratá-los na forma singular) tem circulado praticamente vazio pela cidade. Passado o período experimental e gratuito, a adesão registada a este meio de transporte foi muito reduzida. Verificando isso, o Executivo Camarário já promoveu a alteração dos percursos, de forma a atrair mais clientes.
Ainda é cedo para analisar o efeito desta alteração, no entanto, a sugestão da Escola EB 2/3 permite repensar-se este meio de transporte e articula-lo com as necessidades de um público específico, que são os estudantes. Nunca é demais lembrar que devido às reduzidas dimensões de SJM, não é permitido o transporte escolar oficial. Por essa razão, devia-se adaptar este transporte urbano aos horários escolares, com itinerários e preços adequados, como muito bem propuseram os alunos do 5º D. Passes ou bilhetes com um valor simbólico, à semelhança dos preços anunciados para os idosos possuidores do cartão sénior, ou então, de acordo com uma percentagem do rendimento do agregado familiar do estudante.
Não sendo certo qual o tipo de adesão que se iria obter, uma forte campanha de sensibilização e divulgação poderia, no inicio do próximo ano escolar, catapultar este meio de transporte para níveis de frequência aceitáveis e desejáveis. O TUS não pode cair no ridículo de ficar conhecido como o “Transporte de Utilizador Solitário”.
Um forte incentivo à utilização do TUS é o que se espera. O seu grande trunfo é a flexibilidade, comparado com a ideia de dotar a Linha do Vouga com um “vai-vém” local, conforme o programa eleitoral do partido vencedor das eleições autárquicas. As dúvidas subsistem e mesmo do Fórum Municipal já surgem mais opções a nível de plano de transportes, como a sugestão de “articulação com a expansão das linhas do Metro do Porto”. Uma ideia muito mais acertada, como tive oportunidade de defender em Novembro passado nas páginas deste jornal.
Acreditar que é possível rentabilizar o investimento da criação de uma plataforma bi-modal, com a construção de uma passadeira entre a actual estação e o Centro Coordenador de Transportes, acrescido do custo de adaptação da Linha do Vouga, para o transporte local entre o Orreiro e a antiga Oliva, parece algo exagerado para o senso comum.
A correlação de vários dados económicos é que permitirá equacionar-se a melhor solução para o ano 2015. Indicadores como o rendimento médio dos habitantes do concelho e a disponibilidade financeira para transportes; as flutuações diárias da população: saídas e entradas para trabalhar; a ocupação dos transportes colectivos: destacando-se o número de passageiros de SJM para as cidades de Oliveira de Azeméis, Santa Maria da Feira, Aveiro, Porto e vice-versa, não esquecendo quem atravessa SJM, vindo de Arouca ou Vale de Cambra, são importantes para se proceder a um estudo correcto.
É bom sinal verificar que o Executivo Camarário ponderou a questão dos transportes. Estou certo que praticamente deixou “cair” uma promessa de campanha eleitoral. A expansão para Sul do Metro do Porto será o projecto que maior interesse terá para a população desta região. Com este investimento, a articulação com o transporte rodoviário será uma necessidade maior e a ideia da plataforma terá maior cabimento.
quarta-feira, maio 24, 2006
Poborsky!
O Campeonato de Mundo ou o Mundial é um momento único para o apreciador de futebol. O efeito deste Campeonato sobre as pessoas é inexplicável. Assisti em 2002 à transmissão do jogo de atribuição do 3º lugar, na companhia de dois fulanos de aspecto curioso. Um sem cabelo algum, todo rapado e com um sem número de tatuagens pelo corpo, mais uns brincos e os inevitáveis piercings. O outro tinha o cabelo grisalho, não muito comprido e encaracolado e usava um casaco largo, tipo boémio. Formavam um par curioso. Sentaram-se rapidamente, pediram umas coisas para pequeno – almoço e ali ficaram a vibrar com o jogo. Falavam uma estranha língua entre eles e festejavam os golos da Turquia exuberantemente. Nessa noite, ao assistir nos Jardins do Palácio de Cristal ao concerto de Goran Bregovic e a sua banda (Wedding and Funeral Band), fiquei aparvalhado quando reconheci os meus companheiros de jornada, nem mais nem menos do que o próprio Goran Bregovic (o grisalho) e o vocalista, Sacha (o tatuado), oriundos da ex-Jugoslávia. Para quem não sabe, aquele músico foi o autor da bandas sonoras dos filmes de Emir Kusturica e em parte, deve-se a ele a divulgação da música cigana oriunda dos balcãs.
Não se pense que para os aficcionados apenas os jogos interessam. Desde a fase inicial, a das convocatórias, até ao rescaldo final, tudo é absorvido. A loucura começa com a pressão sobre os seleccionadores para influenciar a convocatória. Na web, durante três meses circulou uma petição, sobre a inclusão de Maradona nos convocados da Argentina, com o objectivo do antigo “astro” jogar apenas 5 minutos. Não teve o efeito esperado mas, conseguiu reavivar a memória dos adeptos, em especial, aqueles que deliraram com os seus golos no Mundial de 86 e que nunca o esqueceram.
A divulgação das convocatórias tem como primeira reacção a contestação, o que é comum nos quatro cantos do mundo. As opções dos vários seleccionadores são contestadas por jogadores não eleitos e também por adeptos, que nesta fase ainda estão presos à cor do seu clube, considerando a não convocação deste ou daquele jogador como uma provocação. Com o desenrolar da prova, tudo se altera...
À contestação segue-se a surpresa. Uma série de nomes há muito esquecidos do nosso dia – a – dia, são convocados para a grande competição desportiva. Jogadores que alinharam em Portugal, nos mais variados clubes, outros que fizeram jogos fantásticos em Mundiais precedentes e que desapareceram sem mais nem menos.
Da República Checa chega-nos a notícia da convocação de Karel Poborsky. O ex-benfiquista, que actua na segunda divisão do seu país, no Ceske Budejovice, é uma das “surpresas” do seu seleccionador, juntamente com o avançado Jan Koller, o gigante do Borussia de Dortmund, que vem depois de sete meses de paragem devido a uma lesão no joelho esquerdo.
Poborsky surgiu no léxico português com um golo que retirou Portugal do Euro 96. Este nome soava a uma saudação eslava, um cumprimento fraterno de amigos e a isso mesmo foi adaptado. Uma forte exclamação: Poborsky, obtinha como resposta uma igual saudação.
A sua transferência para o Benfica foi uma novela do “está pago, não pagou, continua sem pagar” que caracterizaram os anos de presidência de Vale e Azevedo. A saudação de amigos passou a cântico monótono das claques de futebol. Esperava-se tudo da magia de Poborsky, no entanto, os anos passaram e o checo saiu sem grandes alegrias para recordar. Anos sem glória. Talvez por isso, a sua loja de artigos desportivos em Praga, segundo me contaram, não expõe nenhuma camisola do Benfica.
Poborsky depois do Mundial, será assim uma recôndita recordação. Um nome gravado numa camisola, guardada algures numa gaveta, até que a necessidade de espaço e o consequente arrumo, a colocarão de novo nas costas de alguém que ao ler esse nome, jamais perceberá o que significa.
Não se pense que para os aficcionados apenas os jogos interessam. Desde a fase inicial, a das convocatórias, até ao rescaldo final, tudo é absorvido. A loucura começa com a pressão sobre os seleccionadores para influenciar a convocatória. Na web, durante três meses circulou uma petição, sobre a inclusão de Maradona nos convocados da Argentina, com o objectivo do antigo “astro” jogar apenas 5 minutos. Não teve o efeito esperado mas, conseguiu reavivar a memória dos adeptos, em especial, aqueles que deliraram com os seus golos no Mundial de 86 e que nunca o esqueceram.
A divulgação das convocatórias tem como primeira reacção a contestação, o que é comum nos quatro cantos do mundo. As opções dos vários seleccionadores são contestadas por jogadores não eleitos e também por adeptos, que nesta fase ainda estão presos à cor do seu clube, considerando a não convocação deste ou daquele jogador como uma provocação. Com o desenrolar da prova, tudo se altera...
À contestação segue-se a surpresa. Uma série de nomes há muito esquecidos do nosso dia – a – dia, são convocados para a grande competição desportiva. Jogadores que alinharam em Portugal, nos mais variados clubes, outros que fizeram jogos fantásticos em Mundiais precedentes e que desapareceram sem mais nem menos.
Da República Checa chega-nos a notícia da convocação de Karel Poborsky. O ex-benfiquista, que actua na segunda divisão do seu país, no Ceske Budejovice, é uma das “surpresas” do seu seleccionador, juntamente com o avançado Jan Koller, o gigante do Borussia de Dortmund, que vem depois de sete meses de paragem devido a uma lesão no joelho esquerdo.
Poborsky surgiu no léxico português com um golo que retirou Portugal do Euro 96. Este nome soava a uma saudação eslava, um cumprimento fraterno de amigos e a isso mesmo foi adaptado. Uma forte exclamação: Poborsky, obtinha como resposta uma igual saudação.
A sua transferência para o Benfica foi uma novela do “está pago, não pagou, continua sem pagar” que caracterizaram os anos de presidência de Vale e Azevedo. A saudação de amigos passou a cântico monótono das claques de futebol. Esperava-se tudo da magia de Poborsky, no entanto, os anos passaram e o checo saiu sem grandes alegrias para recordar. Anos sem glória. Talvez por isso, a sua loja de artigos desportivos em Praga, segundo me contaram, não expõe nenhuma camisola do Benfica.
Poborsky depois do Mundial, será assim uma recôndita recordação. Um nome gravado numa camisola, guardada algures numa gaveta, até que a necessidade de espaço e o consequente arrumo, a colocarão de novo nas costas de alguém que ao ler esse nome, jamais perceberá o que significa.
terça-feira, maio 16, 2006
Hobbies
Em tempos tive a oportunidade de conhecer um Espanhol de Pamplona, engenheiro e director de uma unidade de produção que tinha um hobbie curioso: percorrer os caminhos de Santiago. Segundo ele, todos os anos fazia o percurso entre a sua cidade e Compostela, conhecido como o percurso Francês. Estava organizado em grupo e percorria, em várias etapas e durante vários fins de semana, os 730 quilómetros de distância.
Nessa época, eu estava dedicado a palmilhar a Serra da Freita. Ligava, caminhando, aldeias ou testemunhos arqueológicos, com o propósito de chegar via pedestre a S. Macário. Não por qualquer devoção ao eremita, apenas por considerar o morro como o fim lógico do caminho. A meta. O final dessa cadeia montanhosa encantadora, que me seduz desde pequeno. A curiosidade desse percurso foi-me despertado em tempos remotos ao cruzar-me em plena Serra da Freita com 2 peregrinas, que em finais de Julho, deslocavam-se sob um sol abrasador para a festa em honra do dito “santo”, cumprindo assim uma promessa delas.
A minha ideia era delinear o caminho ou os vários caminhos evitando ao máximo o alcatrão. Apenas pequenos trilhos, alguns sem utilização há muitos bons anos. Com as várias etapas, apercebi-me da existência de várias alternativas o que me deixou deliciado. Confidencio que nunca percorri nenhuma das variantes na totalidade, nem terminei o levantamento das sucessivas etapas, ficando por calcorrear 2 desses percursos, entre Côvelo e Regoufe e no final entre Drave e S. Macário. O resto do percurso foi anotado num pequeno bloco, com indicações de distâncias, tempo demorado, pontos de interesse, grau de dificuldade por mim encontrado e outras considerações pessoais. Duas mudanças de casa devem-no ter colocado no fundo de algum caixote, ainda por desarmar.
Ironicamente o hobbie do Espanhol lembrava-me o filme de Luís Buñuel “Via Láctea”. No entanto, era grandioso. Existe sempre aquela admiração nacional pelo que os estrangeiros fazem. Muitas vezes esquecemo-nos dos sacrifícios dos nossos compatriotas e tentamos sempre desvalorizar o que é nosso. Atiramos desculpas para a tipologia da estrada, para o alcatrão e para a sucessão de pequenas vilas e aldeias sem interesse cultural, do nosso principal roteiro de peregrinação.
As autarquias do Norte que são atravessadas pelos Caminhos de Fátima não deslumbram a quantidade de peregrinos que percorrem o mesmo. O Centro Nacional de Cultura em tempos reconstituiu os caminhos de Fátima a partir de Lisboa e mais tarde também do Porto, o caminho do Norte que em parte é o sentido oposto ao Caminho Português de Santiago. Curiosamente, essa pesquisa faz a referência a S. João da Madeira, que é para muitos, uma das paragens desta longa marcha.
Estima-se 25 mil peregrinos nas estradas portuguesas, nos primeiros dias de Maio. Durante uma sucessão de dias, terras como esta cidade são atravessadas por caminheiros, agora de colete fluorescente vestido, com um objectivo comum. Alguns dormem em tendas montadas para o efeito, outros refugiam-se em pequenas pensões ou hospedarias de clientela duvidosa porque a oferta é reduzida ou no oposto, demasiado onerosa.
Existe um potencial de promoção da cidade que poderá valer mais do que qualquer suplemento de jornal. Faltam 345 dias para a próxima grande peregrinação, algo será feito até lá?
Nessa época, eu estava dedicado a palmilhar a Serra da Freita. Ligava, caminhando, aldeias ou testemunhos arqueológicos, com o propósito de chegar via pedestre a S. Macário. Não por qualquer devoção ao eremita, apenas por considerar o morro como o fim lógico do caminho. A meta. O final dessa cadeia montanhosa encantadora, que me seduz desde pequeno. A curiosidade desse percurso foi-me despertado em tempos remotos ao cruzar-me em plena Serra da Freita com 2 peregrinas, que em finais de Julho, deslocavam-se sob um sol abrasador para a festa em honra do dito “santo”, cumprindo assim uma promessa delas.
A minha ideia era delinear o caminho ou os vários caminhos evitando ao máximo o alcatrão. Apenas pequenos trilhos, alguns sem utilização há muitos bons anos. Com as várias etapas, apercebi-me da existência de várias alternativas o que me deixou deliciado. Confidencio que nunca percorri nenhuma das variantes na totalidade, nem terminei o levantamento das sucessivas etapas, ficando por calcorrear 2 desses percursos, entre Côvelo e Regoufe e no final entre Drave e S. Macário. O resto do percurso foi anotado num pequeno bloco, com indicações de distâncias, tempo demorado, pontos de interesse, grau de dificuldade por mim encontrado e outras considerações pessoais. Duas mudanças de casa devem-no ter colocado no fundo de algum caixote, ainda por desarmar.
Ironicamente o hobbie do Espanhol lembrava-me o filme de Luís Buñuel “Via Láctea”. No entanto, era grandioso. Existe sempre aquela admiração nacional pelo que os estrangeiros fazem. Muitas vezes esquecemo-nos dos sacrifícios dos nossos compatriotas e tentamos sempre desvalorizar o que é nosso. Atiramos desculpas para a tipologia da estrada, para o alcatrão e para a sucessão de pequenas vilas e aldeias sem interesse cultural, do nosso principal roteiro de peregrinação.
As autarquias do Norte que são atravessadas pelos Caminhos de Fátima não deslumbram a quantidade de peregrinos que percorrem o mesmo. O Centro Nacional de Cultura em tempos reconstituiu os caminhos de Fátima a partir de Lisboa e mais tarde também do Porto, o caminho do Norte que em parte é o sentido oposto ao Caminho Português de Santiago. Curiosamente, essa pesquisa faz a referência a S. João da Madeira, que é para muitos, uma das paragens desta longa marcha.
Estima-se 25 mil peregrinos nas estradas portuguesas, nos primeiros dias de Maio. Durante uma sucessão de dias, terras como esta cidade são atravessadas por caminheiros, agora de colete fluorescente vestido, com um objectivo comum. Alguns dormem em tendas montadas para o efeito, outros refugiam-se em pequenas pensões ou hospedarias de clientela duvidosa porque a oferta é reduzida ou no oposto, demasiado onerosa.
Existe um potencial de promoção da cidade que poderá valer mais do que qualquer suplemento de jornal. Faltam 345 dias para a próxima grande peregrinação, algo será feito até lá?
segunda-feira, maio 08, 2006
Vícios perdidos
Na adolescência elegemos ídolos. Precisamos e identificamo-nos com eles. Procuramos novas referências através de um texto, uma frase, um filme, um quadro ou até uma música. Pelo meio, uma imagem, uma mensagem ou uma atitude têm a particularidade de nos fascinar e por vezes, de nos fazer sonhar, numa idade em que acreditamos que vamos ser fabulosos e que a nossa vida será única.
Praticamos o culto de ícones, sem o saber. Fixamos o olhar nos nossos ídolos. Das poses com estilo, reparamos nos pormenores, nos acessórios de vestuário, nos metais cravados no corpo, no cigarro na boca, etc.
Procurei nas minhas memórias quem seria o meu ícone do cigarro.
Ao visionar um DVD de Nick Cave ao vivo, apercebi-me que guardo dele essa imagem. Ao vê-lo ali de cigarro em punho, envolvido em fumo, cantando as suas músicas, recuei no tempo. Lembrei-me do episódio da invasão do palco na sua actuação no Teatro Rivoli, quando um cigarro na boca do australiano foi aceso por um solicito espectador.
O fenómeno Nick Cave surgiu na minha adolescência. Na época ainda estava distante das baladas. Um músico associado a canções depressivas, de sofrimento e de loucura, de narrativas macabras, etc. Como era meu costume pesquisei os seus primeiros trabalhos a solo, extremamente sombrios e “suportei” os Birthday Party, sua banda anterior. Mas, o primeiro grande momento do compositor australiano seria a edição do seu disco “Tender Prey”. Presenteava-nos com um humor ácido e pouco usual, alternando ideias musicais sempre dentro de um formato semi-acústico que não permitia o seu encaixe em termos de catálogo musical como "gótico", "pós-punk" ou outros clichés afins. Consequentemente, a sua apresentação na Cidade do Porto no final do ano de 1988, no tal concerto atrás referido, foi um momento inesquecível.
O seu trabalho seguinte, “The Good Son”, marca uma nova fase da sua carreira, um disco de baladas, cheio de referências bíblicas. Por aqui fico, pensei. Cansado com desilusões musicais: apreciar bons músicos transformados em mega estrelas pop, assistir à decadência dos ídolos da cena musical da década de 80; por tudo isto, a blasfémia de Nick Cave em lançar um álbum de baladas foi mal interpretada.
Os anos seguintes foram engraçados, as pessoas “reconheciam” no meu caminhar o estilo Nick Cave, comentavam comigo que o tinham visto num filme, que tinham adquirido o seu disco. Pediam-me antigos discos emprestados. Entretanto, uma sequência de edições de novos discos, reabilitaram o músico. A ligação com a fenomenal Kylie Minogue, em “Murder Ballads”, ao jeito de a Bela e o Monstro, fizeram-me apreciar as suas baladas. Pelo meio, a leitura do seu livro, “And the Ass saw the Angel” ajudou-me a compreendê-lo melhor.
O seu estilo reconhecido de “songwriter” perdurou, o trabalho seguinte “The Boatman’s Call” é um álbum fantástico e tive uma agradável surpresa quando em pleno “Shrek 2”, na primeira incursão ao cinema no papel de Pai, ouço a sua voz cantando “People Ain’t no Good”, com o Gato das Botas inconformado, afirmando “Detesto baladas!”.
Recordar tudo isto a propósito da proposta da nova lei que proíbe de fumar em locais públicos, surge na sequência da indignação de uma série de colunistas de jornais e da blogsfera. Nessa semana, passei horas a ler manifestos de fumadores. O cigarro de Humphrey Bogart, de James Dean e de outros mais, eram os ícones associadas aos textos postados.
Nunca fumei.
Sendo não fumador aprecio o cheiro a tabaco, o que é curioso. Não penso algum dia começar a fumar. Aprecio a boa história de quem conseguiu atempadamente largar o vício, como a da longevidade do mesmo.
Até ter filhos sempre permiti que fumassem em minha casa, mesmo sendo asmático crónico, porque sempre acreditei naquele princípio que a nossa liberdade termina quando estamos a incomodar os outros.
Ao ver Nick Cave cantando “New Morning” no tal DVD, pedindo um cigarro ao público e sendo brindado com dezenas, numa cena algo humorística, imagino o que seria proibir um concerto sem tabaco. Onde ficava esta representação, que pelo vistos perdura desde o espectáculo do Rivoli?
Praticamos o culto de ícones, sem o saber. Fixamos o olhar nos nossos ídolos. Das poses com estilo, reparamos nos pormenores, nos acessórios de vestuário, nos metais cravados no corpo, no cigarro na boca, etc.
Procurei nas minhas memórias quem seria o meu ícone do cigarro.
Ao visionar um DVD de Nick Cave ao vivo, apercebi-me que guardo dele essa imagem. Ao vê-lo ali de cigarro em punho, envolvido em fumo, cantando as suas músicas, recuei no tempo. Lembrei-me do episódio da invasão do palco na sua actuação no Teatro Rivoli, quando um cigarro na boca do australiano foi aceso por um solicito espectador.
O fenómeno Nick Cave surgiu na minha adolescência. Na época ainda estava distante das baladas. Um músico associado a canções depressivas, de sofrimento e de loucura, de narrativas macabras, etc. Como era meu costume pesquisei os seus primeiros trabalhos a solo, extremamente sombrios e “suportei” os Birthday Party, sua banda anterior. Mas, o primeiro grande momento do compositor australiano seria a edição do seu disco “Tender Prey”. Presenteava-nos com um humor ácido e pouco usual, alternando ideias musicais sempre dentro de um formato semi-acústico que não permitia o seu encaixe em termos de catálogo musical como "gótico", "pós-punk" ou outros clichés afins. Consequentemente, a sua apresentação na Cidade do Porto no final do ano de 1988, no tal concerto atrás referido, foi um momento inesquecível.
O seu trabalho seguinte, “The Good Son”, marca uma nova fase da sua carreira, um disco de baladas, cheio de referências bíblicas. Por aqui fico, pensei. Cansado com desilusões musicais: apreciar bons músicos transformados em mega estrelas pop, assistir à decadência dos ídolos da cena musical da década de 80; por tudo isto, a blasfémia de Nick Cave em lançar um álbum de baladas foi mal interpretada.
Os anos seguintes foram engraçados, as pessoas “reconheciam” no meu caminhar o estilo Nick Cave, comentavam comigo que o tinham visto num filme, que tinham adquirido o seu disco. Pediam-me antigos discos emprestados. Entretanto, uma sequência de edições de novos discos, reabilitaram o músico. A ligação com a fenomenal Kylie Minogue, em “Murder Ballads”, ao jeito de a Bela e o Monstro, fizeram-me apreciar as suas baladas. Pelo meio, a leitura do seu livro, “And the Ass saw the Angel” ajudou-me a compreendê-lo melhor.
O seu estilo reconhecido de “songwriter” perdurou, o trabalho seguinte “The Boatman’s Call” é um álbum fantástico e tive uma agradável surpresa quando em pleno “Shrek 2”, na primeira incursão ao cinema no papel de Pai, ouço a sua voz cantando “People Ain’t no Good”, com o Gato das Botas inconformado, afirmando “Detesto baladas!”.
Recordar tudo isto a propósito da proposta da nova lei que proíbe de fumar em locais públicos, surge na sequência da indignação de uma série de colunistas de jornais e da blogsfera. Nessa semana, passei horas a ler manifestos de fumadores. O cigarro de Humphrey Bogart, de James Dean e de outros mais, eram os ícones associadas aos textos postados.
Nunca fumei.
Sendo não fumador aprecio o cheiro a tabaco, o que é curioso. Não penso algum dia começar a fumar. Aprecio a boa história de quem conseguiu atempadamente largar o vício, como a da longevidade do mesmo.
Até ter filhos sempre permiti que fumassem em minha casa, mesmo sendo asmático crónico, porque sempre acreditei naquele princípio que a nossa liberdade termina quando estamos a incomodar os outros.
Ao ver Nick Cave cantando “New Morning” no tal DVD, pedindo um cigarro ao público e sendo brindado com dezenas, numa cena algo humorística, imagino o que seria proibir um concerto sem tabaco. Onde ficava esta representação, que pelo vistos perdura desde o espectáculo do Rivoli?
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