terça-feira, janeiro 17, 2012

Ascarigo

                A História baseia-se em documentos. Complementa-se com monumentos e achados arqueológicos. Sem isto, apenas existem deduções hipotéticas, ou “fantasias”, acrescentavam os historiadores antigos.

                A equipa de José Mattoso, auxiliado por Luís Krus e Amélia Andrade, tem estudado a época medieval, procurando evidenciar a existência de sociedade civil, além dos senhores feudais e da poderosa igreja católica. Neste sentido, o papel desempenhado pelos vários Monarcas, em especial, D. Afonso Henriques, no desenvolvimento de centros populacionais tem sido objeto de variadas interpretações, encontrando-se nos documentos da época justificativas para esta arrojada tese.

                Este trabalho científico de partir da observação, para apurar, ordenar e aproximar factos, procurando tirar daí um nexo explicativo e construir um relato coerente, tem sido colocado em livro. Em vários.

                Ao descrever a “Terra de Santa Maria entre os séculos XI e XIII”, José Mattoso serve-se da toponímia local para sustentar as suas ideias. Desta forma exemplifica a expansão demográfica, com a existência de artesãos agrupados em aldeias e surge assim a justificação de nomes, aqui apresentados ainda sem orago: Marinha, Oleiros e Madeira. Este último é o que interessa expandir.

                As palavras do historiador são: “Contudo, a exploração do bosque não se esgotava no fornecimento de pastagens e matos. A madeira era, sem dúvida, o principal produto que deles se extraía, chegando a referenciar toponimicamente uma das freguesias da Terra de Santa Maria, a de S. João da Madeira. Para além da lenha utilizada na produção de energia, construíam-se com ela as habitações e um sem número de utensílios domésticos e rurais, dos quais os inquéritos régios do século XIII enfatizam as cubas destinadas ao armazenamento do vinho nos lagares régios (…)”. Esta ideia contraria a proveniência toponímica devido à forte existência de mato ou bosque, antecipando em vários séculos a instalação de indústrias em S. João da Madeira. Estará mais perto dessa arcaica ideia, ventilada durante anos, S. Miguel do Mato freguesia do concelho de Arouca.

                A origem de S. João da Madeira é anterior à nacionalidade. Em 1088 aparece mencionada num documento, segundo Arlindo de Sousa em “Toponímia Arqueológica de Entre Douro e Vouga” de 1961.

Em mais documentos dos séculos seguintes, é mencionada esta freguesia de Terras de Santa Maria. Um dos quais, Inquirições de 1251, no reinado de D. Afonso III, refere a existência de uma ponte terrenha em Ascarigo, aqui em S. João da Madeira. Um lugar cujo nome se perdeu com o tempo. “Asks” refere José Mattoso, remetendo para um estudo etimológico, é um prefixo bélico – heroico de origem germânica, significando lança de freixo. Uma possível forma de evolução de Ascarigo, seria Escarigo e ainda existem duas freguesias em Portugal com esse nome. Uma delas igualmente habitada no século XIII.

Por cá, o nome do lugar pode ter evoluído para qualquer um dos atuais, ou ter-se abreviado. A sua origem remete-nos para o século V a VIII, só que não existe qualquer documento a comprová-lo e afirmar isto, é uma hipotética fantasia.    

 

(a publicar dia 19/01/2012)