quarta-feira, julho 19, 2017

Vizinhos

A 1 de Outubro, seja qual for o resultado eleitoral, São João da Madeira vai conhecer um novo presidente da câmara. 

Depois de 18 anos da presidência de Manuel Cambra e de 12 de Castro Almeida, não haverá recandidatura de Ricardo Figueiredo, pelo que um novo ciclo começará no concelho.

Os 30 anos de estabilidade presidencial permitiram uma melhoria significativa da estrutura da cidade e das condições de vida da sua população. Embora alguns dos períodos de Manuel Cambra tenham sido de alguma turbulência, nada comparados com os primeiros anos da década de 80 do século passado, que antecederam o seu mandato, a verdade é que o então presidente, além da dinâmica implementada na autarquia, conseguiu unir esforços com os concelhos vizinhos, implementando uma série de serviços intermunicipais, ao abrigo da Associação de Municípios das Terras de Santa Maria. O próprio Castro Almeida continuou a aposta com os vizinhos e conseguiu fazer progredir a intermunicipalidade, lançando vários projetos comuns, tanto na área digital, como na gestão de energia, de resíduos, entre outros.

Ambos tinham ascendente sobre os presidentes da câmara da terra vizinhas. Um pela experiência de vida e pela capacidade de concretizar obra, outro pelo percurso político e pela capacidade de captar fundos comunitários. Tanto um como o outro foram os verdadeiros líderes da sub-região, designada por Entre Douro e Vouga.

É certo que a integração desta sub-região na área metropolitana do Porto retirou força às parcerias de vizinhança.

Dos projetos em comum subsistem poucos. No entanto, nos últimos 4 anos, o Conselho Metropolitano do Porto foi liderado pelo autarca eleito de Oliveira de Azeméis e mais recentemente pelo de Santa Maria da Feira. Embora não tenha retido nenhuma medida agregadora durante o exercício de Hermínio Loureiro para os concelhos do Entre o Douro e Vouga, já nos últimos meses, voltaram a surgir notícias em que o interesse comum da sub-região passou à ordem do dia. Nomeadamente, na questão dos transportes, com a intenção da transformação do troço do Vouguinha entre Espinho e Oliveira de Azeméis a ser servido por comboio urbano, o que permitirá uma maior coesão territorial e rápida acessibilidade à cidade do Porto. Outro facto a realçar, prende-se com a renovação do coletor intermunicipal das águas residuais. Dois exemplos que permitem verificar que é necessário continuar a apostar nas boas relações com os vizinhos, apesar da inserção em espaço Metropolitano mais alargado.

As questões ambientais seriam porventura as mais fáceis de convergir e reivindicar em conjunto, como por exemplo, no processo de limitação dos odores do “casqueira”. A soma das partes afetadas ascenderia a quase 50.000 habitantes, considerando freguesias ou união delas, em redor da sede da empresa.

Haverá outros casos em termos ambientais, como por exemplo, a despoluição de rios com percursos a atravessar mais do que um concelho, em que o princípio deveria ser o mesmo, o bem-estar e a qualidade de vida da população.

Há, contudo, outras matérias em que S. João da Madeira pode voltar a liderar, o turismo é uma delas. Atendendo ao produto diferenciador implementado na cidade, com os roteiros de turismo industrial, seria importante pensar-se na sub-região quer no complemento na oferta, ou como integração no mesmo conceito, aumentando os processos e produtos industriais a incluir em roteiros. De qualquer forma, a ideia será avançar para captar a atenção dos operadores turísticos, diversificando a oferta dos milhões de estrangeiros que aterram no aeroporto Sá Carneiro e que podem ter uma experiência nova, num conceito novo intitulado de Porto industrial.

 

(a publicar no dia 20/07/17)

terça-feira, junho 27, 2017

da Madeira

                José Mattoso, prestigiado historiador português, desenvolveu a tese que alguns nomes das localidades derivam da sua principal atividade económica. Porto é o mais significativo e serve como exemplo. Do mesmo modo, a concentração de artesãos em determinada rua, ou mesmo, localidade, serviu como designação das mesmas. Neste sentido, tal como já o escrevi anteriormente neste jornal, S. Paio de Oleiros, S. Félix da Marinha e S. João da Madeira, seriam nas terras medievais de Santa Maria a localização de artífices da olaria, da pesca e do trabalho em madeira.

                Esta tese fundamenta a apetência histórica da indústria de S. João da Madeira.

Em época anterior ao aproveitamento do vapor como fonte de energia, a transformação de madeira servia essencialmente para a construção civil, mobiliário e armazenamento de alimentos. Ficou na toponímia da cidade o lugar do Orreiro, vocábulo associado à trave que entra na cavidade das lajes de certos moinhos, ou seja, um termo de edificação. É certo que em épocas tão remotas, o trabalho em madeira cingia-se à serração para tábuas e ao debaste através da enxó. Pode-se ainda pressupor que dessa madeira, cortada nas oficinas da povoação, conseguia-se produzir tamancos, socas e chancas, no que terá sido a génese da indústria do calçado. A toponímia, também aqui, tem um papel importante, pois identifica-se, precisamente, uma Rua dos Tamanqueiros, no norte da cidade, numa artéria perpendicular à Rua do Condestável.

                Não há transformação de madeira sem árvores e continuando pela designação de nomes de ruas ou lugares de S. João da Madeira, é possível identificar espécies como castanheiros (através do topónimo Largo do Souto, sendo este o nome coletivo para um conjunto destas árvores, o que é uma evidência histórica do arvoredo existente outrora na localidade), carvalhos (a existência de um lugar nas imediações chamado Carvalhosa, prova a presença antiga destas árvores, embora, tenha apreciado umas fotografias antigas de um belo carvalhal na zona de Fundões), além da Devesa-Velha, cujo significado indica lugar cercado por árvores, ou noutra versão, alameda ladeada por árvores. 

Tudo mudou com a revolução industrial.

Primeiro com o consumo de lenha para alimentar as caldeiras. Aumentado a procura nas imediações dos novos centros industriais.

O que acredito ter tido repercussões no negócio dos artesões da madeira foi a construção do caminho-de-ferro, com o fabrico de traves para as linhas e o facto das próprias locomotivas serem alimentadas a lenha. As serrações passaram ter outra capacidade de produção e como o produto tinha muita procura, a maior parte destas pequenas indústrias começaram a formar-se na proximidade da principal linha ferroviária do país, a linha do Norte.

                As serrações mais distantes da ferrovia foram-se especializando em outros produtos. É certo que a construção e o mobiliário continuavam a absorver muita madeira, no entanto, a especialização e por outro lado, a reconversão dos artesãos locais, fizeram com durante o século XX, ainda assim, vigorassem em S. João da Madeira algumas serrações, a produção de urnas, associadas à indústria de outros artigos funerários, como a cera, a produção de tábuas de passar a ferro e noutra perspetiva, os lápis de madeira, que ainda hoje são produzidos. 

A história da indústria da madeira muda com a chegada da eletricidade e mais tarde das locomotivas movidas a diesel e claro, com a introdução do betão na construção civil. Aqui, a transformação de madeira teve que descobrir outras soluções: caixas para acondicionar frutas ou legumes foi uma delas e após à utilização de polímeros naquelas embalagens, a produção de paletes tornou-se a solução ideal para quem trabalha no sector da madeira. Outra solução passou por painéis em platex, mdf, ou outros aglomerados.

                A produção florestal está associada à procura da indústria transformadora. Das espécies autóctones evoluiu-se para pinheiros, por insistência do Estado Novo (desenvolvendo-se a industria resineira e o aproveitamento do pinho para os mais variados fins) e mais tarde para as manchas de eucaliptos, alimentando-se as celuloses, que são hoje os principais clientes da floresta.

O desenvolvimento urbano da cidade, com a inerente industrialização, confinou a pequenas manchas as espécies florestais. Não é por isso que S. João da Madeira fica indiferente aos trágicos acontecimentos vividos na pretérita semana nos concelhos do interior do país.

                Sendo a produção de eucaliptos a principal fonte de riqueza da florestal nacional, pelo seu rápido crescimento até ao abate, parece-me importante, que não esteja sujeito a ações de vilipendiação, como fogos. Todas as ações de prevenção são importantes, assim como, recuperar os ensinamentos do passado: limpeza, acumulação de águas pluviais, evitar as monoculturas, introduzir pelo meio do pinhal ou do eucaliptal várias espécies autóctones, com maior resistência ao fogo e desta forma evitar a sua propagação por extensões tão elevadas. No fundo, é necessário reverter os erros dos últimos cinquenta anos e procurar encontrar um desenvolvimento sustentável na floresta.

 

(a publicar no dia 29/06/17)

terça-feira, junho 13, 2017

Os estáveis e os instáveis

Na passada semana prosseguiram as entusiasmantes eleições em alguns países europeus.

Em Março, na Holanda começou a esboçar-se o desmoronamento do populismo da extrema-direita nacionalista. Seguiram-se as eleições presidenciais franceses. Uma primeira volta, com grande incerteza sobre quem seriam os dois candidatos mais votados, que permitiu fazer-se toda e qualquer especulação sobre a política francesa. Mesmo após a vitória de Emmanuel Macron, na eleição definitiva, surgiram vários reparos: o fim da dicotomia “jacobinos” e “girondinos”; o voto “útil” republicano contra a Frente Nacional (FN) da família Le Pen, empolando-se o resultado desta força política, afirmando-se precipitadamente ser o maior partido de França; a impossibilidade do presidente eleito poder governar, pois o parlamento a eleger em Junho ser-lhe-ia hostil.

Chegados ao dia 11 de Junho, os resultados eleitorais de França permitem chegar a conclusões diferentes das premissas ventiladas após as eleições presidenciais. Em primeiro lugar, o novo partido “social-liberal” fundado em torno das convicções do novo Presidente passou a ser a maior força do parlamento, garantindo assim, a governabilidade da França. Em segundo lugar, a dispersão de votos pelos restantes partidos, fazendo com que a FN seja apenas a quarta força eleitoral, à frente do Partido Socialista (PSF), mas atrás do Partido Republicano e da esquerda insubmissa de Mélenchon. Por último, como se pode ver pelas linhas anteriores, o PSF perdeu completamente o seu eleitorado.

Ainda falta apurar os resultados definitivos das eleições legislativas, a segunda volta, a decorrer no próximo Domingo, no entanto, dá para perceber que o PSF está a ser penalizado pela péssima atuação do anterior Presidente da República Francesa e o seu indeciso governo. O PSF, mesmo com a sua deriva ideológica à esquerda, solução encontrada para evitar processos eleitorais semelhantes aos socialistas gregos, ou mesmo, holandeses, não cativou. Desta vez, o seu eleitorado preferiu o discurso claro, integrador e pró-europeu de Emmanuel Macron, optando por apoiar um partido central.

Um partido “social-liberal”, como se definiu o “A República em Marcha”, pode ser novo em França, no entanto, em Portugal já existe há alguns anos, precisamente o PPD / PSD, que alterna entre a ideologia liberal e a social-democracia de inspiração cristã. Curiosamente nos gráficos dos resultados eleitorais do passado Domingo, nos órgãos de comunicação social franceses, os resultados do partido de Macron apareciam a laranja.

A estabilidade eleitoral francesa, a sua opção europeia, contrasta com a instabilidade inglesa. Ambos os países tinham resultados nas eleições europeias semelhantes – uma clara vitória de partidos que pretendiam uma saída da União Europeia (em França, a FN e no Reino Unido, o UKIP). Para agravar a posição dos britânicos, no referendo sobre a permanência na Europa, o voto foi dividido, com ascendente para o “Não”. Com o “Brexit” na agenda, a primeira-ministra britânica forçou eleições antecipadas, para garantir maior capacidade negocial, baseando-se em sondagens que eram favorável ao seu partido, o Conservador. Uma campanha eleitoral com várias contradições, um discurso pouco claro, com pouco apoio dos jovens, não permitiu a Theresa May alcançar a maioria absoluta e corre o risco de governar com uma oposição maioritária no parlamento, caso não consiga fazer uma coligação séria com algum partido.

Por seu lado, o Partido Trabalhista conseguiu o melhor dos resultados dos últimos anos. Com um discurso, apelidado de retrógrado, do seu líder, Jeremy Corbyn, que agradou sobretudo ao eleitorado mais novo, o que não deixa de ser uma curiosidade. No meio da instabilidade inglesa, parece plausível afirmar que a convicção do líder Trabalhista foi o único argumento estável das eleições britânicas.

Pela diferença de posições dos partidos da esquerda moderada, em França e no Reino Unido, podemos verificar que as derivas ideológicas não correspondem exatamente aos mesmos resultados eleitorais. Cada país é diferente de outro, havendo sempre voto penalizador para discursos e atos pouco claros. Acontecendo o contrário, quando a convicção é grande, quer seja ideológica, quer seja inclusivamente pragmática, ou pró-Europeia, o eleitor prontifica-se a premiar a coerência.

A terminar, umas palavras para as eleições autárquicas em S. João da Madeira. Após a recusa de Ricardo Figueiredo em ser candidato pela coligação PSD/CDS-PP, recordo a ideia democrática portuguesa baseada nos partidos políticos. Cada vez mais me convenço, que o caminho dos independentes é seguir o exemplo de Rui Moreira: pela cidade, sozinho e quem quiser apoiar… não fica com os “louros” políticos.

 

(a publicar no dia 14/06/17)

quarta-feira, junho 07, 2017

O convite

                A aproximação temporal às eleições autárquicas e o desconhecimento dos candidatos de alguns partidos contrasta com o período que antecedeu o sufrágio de 2013.

                Sendo certo que em 2016,ano de eleições intercalares, a agitação partidária culminou com a vitória com maioria absoluta da coligação PSD / CDS-PP, no presente ano, o processo eleitoral ainda permanece em “banho-maria”.

                Durante os quatro anos alguma coisa mudou.

                Um balanço autárquico pode ser efetuado por três indicadores financeiros: despesas com o pessoal; endividamento e investimento efetuado. Na apresentação do relatório de contas referente ao ano de 2016, a autarquia de S. João da Madeira anunciou a redução da dívida municipal, para quase metade do valor de 2013, informando simultaneamente que em igual período o investimento tinha sido de 20 milhões. Sobre as despesas com o pessoal, confesso não ter retido nenhum número no último ano e recordo que em tempos houve a tentativa de empolar os números dos funcionários municipais, por parte de um antigo vereador, posição contrariada e demonstrada pelo executivo liderado por Ricardo Figueiredo.

                Aos três indicadores tradicionais, deve-se acrescentar um quarto: capacidade de atrair investimento para o município. Neste ponto, a reabilitação urbana financiada através de fundos comunitários (PEDU), com o consequente investimento privado em torno da Rua Oliveira Júnior ajudam a quantificar o montante global de euros a investir, que transformarão a entrada norte da cidade. No presente ano, a existência de uma grua naquela zona da cidade, é um sinal que os tempos são de mudança.

Outra forma de se fazer um balanço autárquico, é verificarmos a capacidade de resolução de assuntos herdados do executivo anterior. Se Castro Almeida, em oito anos, conseguiu resolver problemas antigos: pontão no Orreiro, túnel na Rua 5 de Outubro, restauro no Palacete dos Condes, finalização do arranjo da rua dos “jeitos”, acrescentando-se ainda o Jardim na Avenida da Liberdade, o Parque Urbano no Rio Ul, o Museu da Chapelaria, os Paços da Cultura, rematando a lista com a diminuição da dívida municipal, muito suportada pela venda de terreno para centro comercial.

Para o futuro presidente subsistiriam as inaugurações da Casa da Criatividade e da Oliva Creative Factory. Restauros com financiamento garantido, ficando Ricardo Figueiredo com a tarefa facilitada. O mesmo não aconteceu com a Piscina projetada por Souto Moura, com o desfecho conhecido de todos, que não vou relembrar.

Pelo caminho, neste mandato com intervalo eleitoral, concretizou-se o Museu do Calçado, enriquecendo o núcleo museológico da cidade, apoiou-se o empreendedorismo com a diversificação de incubadoras de empresas, lançaram-se obras para inaugurar antes do final do mandato, tendo em vista a melhoria geral da cidade e da sua população.

É certo que estes anos ficarão lembrados pela reabertura da Urgência do Hospital de S. João da Madeira. Desfecho que conheceu vários episódios, com duas resoluções diferentes, uma revertendo a outra. 

A partir do próximo ato eleitoral, haverá a necessidade de intervir de novo na Praça Luís Ribeiro, para emendar erros do passado. Há a necessidade de dar ocupação aos edifícios municipais devolutos (Palacete dos Condes e Casa do Rei da Farinha). Será imperioso resolver o problema da sobrelotação da piscina municipal. E para finalizar, haverá necessidade de se continuar a apostar na animação da cidade.

Neste sentido, o convite endereçado a Ricardo Figueiredo para se recandidatar, pela capacidade política demonstrada, pela resolução de problemas, pelo lançamento de projetos para a cidade, faz todo o sentido.

 

(a publicar no dia 08/06/17)

quarta-feira, maio 17, 2017

Finalmente tetra

Finalmente tetra

                O sábado passado foi intenso. Um sábado resumido em três “F”, pelo centenário das aparições de Fátima, pelo futebol e pelo Festival Eurovisão.

                Como podem ler no título da crónica, apenas vou referir o futebol, mais concretamente a conquista do tetra campeonato pelo Benfica. 

                O primeiro tetra campeonato foi conquistado em Portugal pelo Sporting. Corria o ano de 1954 e a mítica equipa deste clube ficou conhecida pelos “cinco violinos”, pela qualidade do futebol praticado, por igual número dos seus jogadores. Nas décadas anteriores, o Benfica tinha conquistado um tricampeonato, nas primeiras edições do Campeonato Nacional, feito igualado anos depois pelo Sporting. Conhecendo-se a rivalidade dos clubes lisboetas, percebe-se perfeitamente que alcançar um tetra campeonato foi uma obsessão para o Benfica. Depois de 1954, por quatro vezes, os encarnados conquistaram três campeonatos seguidos. O quarto escapou sempre. Umas vezes por poucos pontos, outras por mais e na última delas, em 1977/1978, o campeonato foi perdido pela diferença de golos marcados e sofridos.

Foi preciso esperar 39 anos, em rigor quase este número, pois faltaria um mês para se completar o aniversário, para os adeptos do Benfica conseguirem concretizar um sonho antigo: de igualar o feito da equipa de Jesus Correia, Travassos, Vasques, Albano e Peyroteo. É sabido que durante estas quase quatro décadas, aquele feito foi superado pelo Futebol Clube do Porto, pelo que, como se percebe, para os adeptos do Benfica um novo ciclo se inicia.

Os jogos decisivos são vividos por mim de forma especial. Transformo-me em adolescente, salto (quando não permaneço os 90 minutos sempre de pé), grito, enfim, vibro a ver os jogos. Este ano, optei por ver estes jogos acompanhado, em espaços públicos, como referi na crónica a propósito do Oliva Beer Mind, outros em espaços privados, quer em ambiente amigável, quer em ambiente hostil, ou em casa de amigos em ambiente de fraternidade e completo acordo na devoção ao clube. Adotando sempre a mesma postura de adepto, crítico nos maus momentos, incentivando quando as coisas correm mal e feliz por o jogo ter terminado. Há muito, optei por digerir rapidamente qualquer resultado.

Ver a festa de Lisboa, via BTV, apenas até à entrega da Taça ao capitão Luisão e depois repetir o ritual do banho de multidão na Rua João de Deus.

Quatro anos consecutivos, cada vez mais gente a encher as ruas.

A longa fila de automóveis, as perícias dos automobilistas, os fogachos, as tochas, os petardos a ecoar são as atrações da festa espontânea. Um manto vermelho, saltitante, repetindo os cânticos de incentivo à equipa são o motivo de união e os afetos trocados entre aqueles que se encontram por ali, tornaram as imediações do Largo do Souto, até à metade superior da Rua João de Deus, o principal destino do adepto do Benfica, residente na região envolvente de S. João da Madeira.

Apesar de toda a desordem observada, da ocupação da rua, do incumprimento do código da estrada, não foi preciso um contingente policial para serenar ânimos. A espontaneidade levou à desmobilização, contrastando com receções a equipas de futebol nos aeroportos, em que uma dezena de adeptos irritados, obriga à presença de três dezenas de polícias. Provavelmente terão razão as forças de segurança, em propor que os clubes de futebol passem a pagar diretamente o policiamento, nos estádios e não só, pois assim, os seus dirigentes, após a apresentação da fatura, seriam mais comedidos e deixariam de incentivar o ódio, retomando o desporto a sua vertente mais lúdica.

Feito o intervalo, nas próximas semanas retomo a análise política.

 

(a publicar no dia 18/05/17)

 

quarta-feira, maio 03, 2017

Dias de sossego

Em Abril ficaram a conhecer-se os primeiros candidatos às eleições autárquicas de 1 de Outubro. Apesar de ser prematuro fazer qualquer análise, por não serem conhecidas todas as candidaturas, é possível esboçar um pequeno comentário, face às decisões das últimas semanas.

Quem abriu as hostilidades eleitorais foi a CDU, com a apresentação dos três cabeças de lista. Tal facto comprova a eficiência desta coligação partidária, apostando na continuidade de alguns dos seus mais conhecidos militantes, o que é uma garantia para os eleitores que preferem votar em candidatos com provas dadas na comunidade, do que em políticos aventureiros e inconsequentes, com tendências demagógicas.

O anúncio da candidatura de Jorge Sequeira causou maior surpresa. Em primeiro lugar, por ser dado adquirido que o presidente da concelhia do PS seria o candidato do partido a presidente da Câmara Municipal. Esteve bem Rodolfo Andrade. Não seguiu as apostas dos comentadores políticos e provou que o PS pode ter outras soluções, que demonstram que o partido é democrático e não autocrático. Rodolfo demonstrou que é possível haver candidatos que não sejam simultaneamente líderes da concelhia, provando ser líder para servir o partido e não para se impor ao partido.

A reação do PS ao anúncio da candidatura de Jorge Sequeira foi curiosa.

Na primeira semana, quando o jornal O Regional anunciou em primeira mão o candidato, surgiram nas caixas de comentários na página da internet, sob um cobarde anonimato, uma série de críticas tanto ao presidente da concelhia, como ao visado. Na semana seguinte, já com certezas e informando o calendário da Comissão Política Concelhia, continuaram os comentários depreciativos. Ao ler tudo isto, esperava-se uma divisão do partido e que o nome proposto fosse aceite com uma diferença de votos muito baixa. Assim não aconteceu. Conforme foi notícia a semana passada, o nome de Jorge Sequeira foi aceite e bem, tendo recebido apenas um voto contra e dezasseis favoráveis.

Rodolfo Andrade e Jorge Sequeira ganharam o partido e isso verificou-se no dia 25 de Abril, com militantes e independentes afetos ao PS a acompanhar o candidato pelas ruas da cidade. Não se pense que são tudo rosas, os espinhos continuam a abundar nos comentários online no outro semanário local, obviamente anónimos e no mesmo tom de despeito e de falta de respeito, como se verificou nestes primeiros dias de Maio.

Independentemente de tudo isto, o regresso de Jorge Sequeira foi uma lufada de ar fresco para a política local. Ele é um militante indefetível do PS, com muita experiência política. O seu currículo demonstra-o. A garantia de serviço à comunidade é uma mais-valia do candidato do PS, em especial, pela sua ligação desinteressada ao associativismo, como se pode comprovar pela diversidade de instituições em que desempenhou funções, bem como pelos diferentes cargos ocupados.

Por ora, é isto que importa realçar. Permitindo que os democratas de S. João da Madeira fiquem descansados, pois sabem que seja qual for o resultado das eleições de 1 de Outubro, o progresso da cidade não será posto em causa, atendendo à sensatez que Jorge Sequeira demonstrou ao longo dos últimos 30 anos de vida pública. 

Duas notas finais: a primeira para dar os parabéns a ADS e à sua secção de basquetebol pela capacidade de mobilização demonstrada ao longo do último fim-de-semana, ao encher a sala de fornos da Oliva, na exposição levada a público. A segunda para as eleições presidenciais francesas, deste Domingo, fazendo votos para que os próximos tempos na Europa, não se tornem em dias de desassossego.      

 

(a publicar no dia 04/05/17)

 

quarta-feira, abril 05, 2017

Os dias no Oliva Beer Mind

À chegada ao festival de cerveja artesanal foram-me propostas duas opções: beber limonada e ginger ale, ou em contrapartida, beber o líquido em promoção na Sala dos Fornos da Oliva. O espaço estava composto de pessoas, ainda se conseguia circular facilmente, pelo que optei por circular pelos cervejeiros, cumprimentar os que estavam atrás do balcão que eu conhecia e fazer uma refeição, escolhendo uma primeira cerveja para degustação.

À partida sabia que não provaria os 120 sabores presentes no certame, nem muito menos conseguiria percorrer os 20 expositores. A minha estratégia para a primeira noite foi consumir as marcas mais conhecidas, dando preferência aos vizinhos regionais: Ossela, Santa Maria de Lamas, Aveiro e Porto. Deixar-me levar pelos sabores, aceder ao chamamento de alguns cervejeiros mais hábeis a contactar os visitantes do festival. E enquanto percorria as zonas iam observando a evolução das marcas, a melhoria da oferta, a forma como os produtos estavam expostos, ou mesmo, os seus nomes escritos a giz em ardósias pretas, como em tabernas antigas. Sorri com as charadas com o nome de estrela da música rocK, quer de artistas, quer de bandas, ou de títulos de álbuns associados a sabores, lembrando-me a minha ousadia na crónica da semana anterior.

Pelo meio ia revendo amigos de sempre (alguns 30 anos depois), ia vendo famílias a chegar. Pais acompanhados pelos filhos e avós acompanhados de filhos e netos e senti que o evento tinha atingido nessa primeira noite o seu objetivo: dar a conhecer aos sanjoanenses a cerveja artesanal portuguesa (e alguma espanhola) e em contrapartida, proporcionar-lhes um local de encontro, de reencontro, em espaço animado e com bom ambiente. Retive dessa noite, sinal claro do convívio proporcionado pelo festival, as crianças “invadindo” o palco e dançando ao som do ritmo jamaicano, produzido pela banda a atuar.

No segundo dia, já foi difícil estacionar. A rua interior da Oliva Creative Factory, de acesso ao evento, tinha imensas pessoas a circular. Seria bom para o espaço que todos os sábados à tarde fossem assim. Na Sala dos Fornos estava já uma multidão. Alegria no palco e junto aos expositores. Prometia ser mais uma noite de muita animação. É claro que havia o jogo de futebol, que poderia desmobilizar adeptos, ou criar atritos entre ambas as fações. E havia sempre a debandada sanjoanense de sábado à noite, com destinos vários, o que transmitia incerteza à adesão noturna ao festival.

Antes desses momentos, deu para saber que os forasteiros, cervejeiros, estavam encantados com a cidade e as suas gentes. A senhora da venda de copos e fichas à entrada estava surpreendida pela compreensão e simpatia do público visitante.

Para este segundo dia, depois do jogo, tinha definido visitar os restantes cervejeiros, menos procurados pelo público, por isso, menos afortunados. Lá fui conhecendo outros sabores, uns aceitáveis, mesmo que doces, outros intragáveis, pelo menos ao meu paladar. Enquanto isso, o espaço encheu, literalmente. Fiquei um pouco no exterior, vendo a chegar mais gente, muito nova, um público diferente do dia anterior. Ainda assim, em grande quantidade e igualmente um número razoável de famílias completas. 

Com o avançar da hora, o público disse presente. Os visitantes iam desarmando devagarinho, sempre com cara de satisfeito pelo momento vivido. Ainda assim, deu para ver jovens a dançar no palco e ouvir o som de Iggy Pop, proposto pelo DJ de serviço.

Ao terceiro dia, mais curto, sem prolongamento noturno, com menos público e igualmente diferente dos dois anteriores, ao som de música de inspiração balcânica, o festival continuava acolhedor. Visitei o espaço de culinária, repleto de crianças, que até esse dia não tinha tido oportunidade. Por ali circulei, perguntando pelos negócios, confirmando com ou outro fabricante como estava o volume de vendas. Nalguns casos nem precisava de perguntar, nas ardósias demonstrava-se a indisponibilidade de alguns paladares.

Momento de fim de festa e um pouco antes do final, dirigi-me à venda de limonada e ginger ale e comprei um copo de cada. Um último e surpreendente paladar.

 

(a publicar no dia 06/04/17)

 

quarta-feira, março 29, 2017

Beber uma "dijssel-bock"

No rescaldo das eleições holandesas, realizadas no passado dia 15 de Março, importa relembrar dois factos:

a)      o empolamento do resultado eleitoral partido nacionalista;

b)      o apagamento do partido social democrata.

Analisemos o primeiro facto.

Já tinha acontecido nas eleições presidenciais Austríacas, nas quais a comunicação social praticamente só destacou o resultado do candidato do partido perdedor, relegando para segundo plano, o vencedor – Alexander Van der Bellen, afeto ao partido ecologista. De tal forma que passado três meses, mesmo depois das eleições Austríacas terem sido repetidas, tendo o resultado final confirmado o primeiro escrutínio, ainda surgem referências aos 44% dos votos do partido de extrema-direita, como se tivesse sido uma vitória eleitoral.

O mesmo aconteceu na Holanda.

Apesar de várias sondagens preverem um resultado favorável ao partido nacionalista (PVV liderado por Geert Wilders), mesmo com a interferência exacerbada da Turquia na campanha eleitoral, o vencedor foi o partido conservador (VVD), liderado pelo primeiro-ministro Mark Rutte. Na divulgação dos resultados na imprensa Portuguesa, em muitos casos, a imagem que acompanhava o texto era a fotografia de Geert Wilders. Estranho no mínimo, não é?

E apesar do PVV ter conseguido apenas 13% dos votos, tal como mais outros dois partidos, elegendo exatamente o mesmo número de deputados, foi-se analisar o resultado à décima, para divulgar que afinal este partido tinha ficado em segundo. A coligação governamental ainda não está formada, havendo apenas uma certeza, o PVV não será governo, pois todos os outros partidos declararam-se indisponíveis para fazer acordos com o partido nacionalista.

O efeito prático do empolamento dos resultados eleitorais na Europa central não é claro. Não se percebe se o objetivo é minimizar o populismo para eleições em países como a França ou a Alemanha, ou se pelo contrário, a intenção é enaltecer o crescimento destes partidos. Contudo, como verificado nas urnas, os resultados demonstram que a vontade popular europeia não se modificou assim tanto.

Relativamente ao PvdA (partido de inspiração social democracia), inscrito na Internacional Socialista como o PS Português, foi o maior derrotado das eleições Holandesas. A coligação governamental, nos últimos anos, com o partido conservador, promovendo políticas de austeridade foi extremamente penalizadora para o PvdA, desmobilizando os seus eleitores habituais. Apesar desta evidência, tentou abafar-se o mais possível o resultado Holandês, sobretudo, entre os detratores do Governo de António Costa, que colocou o seu partido noutro caminho da social-democracia.

Acontece que o líder do PvdA, Jeroen Dijsselbloem, resolveu mostrar o seu caráter. Nem uma semana tinha passado do escrutínio eleitoral e soltou uma série de insultos aos povos do Sul da Europa.

Muito se escreveu a este propósito.

Retirando toda a carga sexista associada ao discurso do Holandês, temos a oportunidade provar que os portugueses são iguais aos restantes povos europeus. Sabem distinguir momentos de trabalho, de momentos de confraternização e diversão.

        Este fim-de-semana, aproveitando o Oliva Beer Mind, festival de cervejeiros que reúne 20 produtores nacionais e 5 espanhóis, S. João da Madeira tem a hipótese de provar uma variedade de sabores, com nomes com os quais não estamos familiarizados. Com um pouco de sorte, haverá algum com a designação semelhante ao do futuro ex-ministro Holandês. Ou a certo momento da noite, no calor da animação, a articulação verbal daqueles paladares poderá soar a qualquer coisa parecido.  

De qualquer modo, brindemos a quem demonstrou conhecer-nos tal mal.

                              

(a publicar no dia 30/03/17)

quarta-feira, março 15, 2017

Portas e janelas

                Na década de 40 do século XX, em período da 2ª Guerra Mundial, a professora da Escola Primária deu como trabalho de casa, aos seus alunos, contarem as portas e as janelas de casa. Entusiasmado, o meu tio Joaquim chegou a sua casa e pôs mão à obra. Primeiro nas traseiras, no piso térreo e no primeiro andar, depois na frente da casa. Tirou o apontamento e no dia seguinte mostrou o resultado: 10 portas exteriores e 15 janelas. Ao ouvir isto a professora não acreditou. Considerou ser fantasia infantil e para demonstrar ao meu tio o seu erro, pediu aos outros miúdos que apresentassem os seus resultados. Escusado será dizer que não havia valores que se aproximassem, pelo que o meu tio foi corrigido pela professora, com a explicação que cada casa tinha duas portas exteriores no máximo e igual número de janelas, ou quanto muito, mais uma ou outra janela. 
                A indignação, por não acreditarem nele, fez com que o meu tio Joaquim adquirisse sensibilidade social desde muito cedo, pois para perceber a diferença na contagem, passou a observar a casa dos colegas com outros olhos. E dentro dos princípios cristãos, que o orientaram ao longo de toda a sua vida, este ensinamento acompanhou-o sempre e manteve-o simples.
O meu tio Joaquim contava o seu episódio sem mencionar as portas interiores. A este propósito, é bom recordar um ritual curioso, diário, de à noite, fechar todas as portas exteriores e portadas das janelas, com trincos e trancas. O mesmo acontecendo à sucessão de portas de compartimentos inferiores de modo a impedir o acesso pelo interior ao piso de cima. De tal forma, que a minha falecida avó Florinda dizia, com a sua graça, que qualquer ladrão noturno teria que abrir tanta porta, que só chegaria junto a ela de manhã, com toda a casa acordada.
Cada fechadura tinha um segredo. O meu tio António conhecia todos os truques daquelas portas. Foi com ele que aprendi a ser persistente para vencer uma fechadura. Um encosto, para folgar o mecanismo, noutros casos puxava-se a porta para cima, ou então para junto de nós. Ainda há, por lá, vestígios da sua numeração das portas e respetivas chaves. Embora haja outros motivos para recordar o meu tio António: a sua persistência em ensinar-me o hino do Futebol Clube do Porto, mesmo sendo eu já em tenra idade adepto do Benfica, ou até, pela sua disponibilidade em assumir os defeitos dos sobrinhos, ou mesmo, pela sua faceta mais liberal nos costumes.
A este propósito foi o meu tio Henrique, bastante mais velho que os restantes irmãos, que me ensinou como conquistar a liberdade noturna. Contou-me ele um dia como em jovem esticava a hora marcada, embora soubesse que à porta de casa o pai estaria à espera. Se foi assim, pelos anos 30 do século passado, haveria de resultar comigo, cinquenta anos depois. Este meu tio era mais aventureiro. Aos 75 anos, já viúvo, anunciou uma ida a França, sozinho num Fiat 127. Chegado a Lourdes, apontou para Berlim para ver o muro acabado de cair e ali chegado, ainda prosseguiu no seu pequeno automóvel até à Polónia para conhecer a terra do Papa – João Paulo II. Escusado será dizer que não sabia falar Alemão, nem muito menos Polaco. Regressou com pedras do muro e com uma grande aventura para contar. Quando, em 2016, anunciaram o centenário de Kirk Douglas, um dos atores preferidos do meu tio Henrique, adepto das fantasias de Hollywood, emocionei-me, pela carga familiar associada.
Só me apercebi da importância que aquela casa teve para os meus tios, quando há alguns anos, uma das irmãs do meu pai, a minha tia Josefina, já idosa e com graves problemas de memória, em que não reconhecia os seus familiares, ao passar em frente à fachada da casa, ao avistar aquela sequência de portas e janelas, exclamou “Olha a minha casa!”, isto depois de ter construído casa própria, onde habitou durante muitos anos.
As outras duas irmãs do meu pai, Rosa e Mariíta, felizmente ainda estão vivas e partilham certamente o mesmo sentimento dos seus irmãos.
O meu pai herdou a casa. Conservou-lhe a fachada, manteve as janelas e basicamente existe o mesmo número de portas, com pequenas alterações relativamente à contagem mencionada no primeiro parágrafo.
Como Domingo é dia do Pai, decidi partilhar com os leitores esta pequena homenagem familiar.
 
(a publicar no dia 16/03/17)

quarta-feira, março 08, 2017

Evolução do poder local

Nas comemorações dos 40 anos do poder local democrático, o atual Governo anunciou a sua intenção de transferir mais competências para as autarquias. Uma reforma descentralizadora, dotando os municípios de outra capacidade de gestão em áreas da educação, saúde e ambiente. Uma alteração que implicará um maior Orçamento Municipal, como prontamente reclamaram os Autarcas, exigindo uma maior cativação de verbas provenientes do Estado.

Uma reforma a ser desenhada em ano de eleições autárquicas e que nos remete para o ano de 2013, quando em véspera das eleições desse ano, foi apresentada a lei “Relvas”, com a fusão de freguesias, em união das mesmas e a possibilidade de transferência de mais competências para as mesmas freguesias, por parte das autarquias. Deixando o decreto de lei uma zona sombria, pois as competências das autarquias e das freguesias eram, em algumas áreas, as mesmas, o que permitiu que algumas Câmaras Municipais não delegassem.

Se as competências motivaram uma disputa entre autarcas, já a união de várias freguesias foi ficando assimilada ao longo dos últimos quatro anos. Em 2013, nas eleições ainda havia promessas de repor o mapa autárquico. Nos anos anteriores à união, aquando do estudo prévio e na iminência de perder a junta de freguesia, pelo processo de fusão ser desfavorável a determinado partido, houve vários presidentes de freguesia que anunciaram a hipótese de mudança de concelho.

Hoje está tudo mais estável.

A reversão, que caraterizou o ano de 2016, passou ao lado da lei “Relvas”, o que se compreende, pois esta inspirou-se no processo de redução de freguesias do concelho de Lisboa, implementado em 2012 por António Costa, atual Primeiro-ministro, enquanto autarca da capital. A racionalização do poder local, reduzindo o número de freguesias, embora com várias lacunas, foi conseguida e quatro anos depois, nas próximas eleições, soará a retrocesso ouvir-se falar em alteração do mapa das freguesias, especialmente porque a descentralização em curso implicará uma maior atenção dos autarcas e de todos os candidatos. E a descentralização passará pela municipalização e não pela regionalização, o que é uma novidade política.

Houve outro fator a condicionar o poder local e em particular, as eleições de 2013, o limite de mandatos para autarcas há vários anos no poder. A proibição de se candidatarem permitiu uma renovação em várias autarquias. Só que em 2017, feito o “reset” a muitos Presidentes de Câmara, começam a ser anunciados vários regressos e ainda estamos a 6 meses das eleições. Portanto, poderá haver ainda muitas surpresas. Ficará em jogo a capacidade democrática da inovação partidária, em contrapartida ao apego ao poder de alguns autarcas, contrariada pela limitação de mandatos.

Tudo dependerá dos próximos resultados eleitorais.

A este propósito, um parágrafo final, para a importância das eleições no concelho do Porto. Se em 2013, Rui Moreira, candidato independente, foi eleito com apoio claro do CDS/PP e camuflado por uma boa parte do PPD/PSD, em 2017, o carisma do candidato aumentou e aos anteriores, acrescenta-se o apoio claro do PS. Ora, neste período de quatro anos, houve um recrutamento para o atual governo na vereação da Câmara Municipal do Porto, por isso, não é estranho o apoio declarado. Ficando a dúvida, atendendo à previsível vitória de Rui Moreira, se esta coligação representa o futuro do PS, contrariando a tendência obtida na Assembleia da República, que se converteu na maioria parlamentar conhecida como “geringonça”. Teremos assim, no concelho do Porto, um laboratório político ou, pelo contrário, apenas o reconhecimento do trabalho autárquico realizado por Rui Moreira? O futuro dará a resposta.        

 

(a publicar no dia 9/3/17)