quinta-feira, maio 10, 2018

30 anos

A longevidade do labor é significativa e demonstrativa do contributo deste jornal para a expressão da comunidade de S. João da Madeira. O seu valor editorial, impresso ao longo destas três décadas, não se resumiu ao debate político, ou meramente a uma simples visão partidária.

Fundado na década de 1980, com o país a viver em estado democrático bem assimilado, com S. João da Madeira a transformar-se em cidade (a elevação tinha sido decretada apenas 4 anos antes), o labor afirmou-se pela sua forma, pela vontade em acolher conteúdos alternativos, mas também em promover o pluralismo em detrimento do populismo.

O labor foi o terceiro jornal a ser editado em S. João da Madeira depois de 1974. Da história dos outros dois títulos (Abril e Tribuna Sanjoanense) ficaram breves memórias, embora sejam recordados um pela referência ideológica e outro conectado com uma determinada força política, ou seja, como expressão do descontentamento de determinada faixa da população, sobre os destinos da vida autárquica. Talvez por isso, por aprender com os erros dos outros, o labor perdurou no tempo. É certo que recuperou muitos dos colaboradores do primeiro dos títulos atrás mencionados (infelizmente alguns já falecidos) mas, em simultâneo, não se fixou numa perspetiva partidária, conforme mencionei no final do primeiro parágrafo. Ao longo destas décadas, o jornal foi sendo identificado como apoiante de várias correntes políticas. Mais do que fazer e contrariar essa resenha histórica, incluindo as eleições autárquicas mais recentes, é preferível voltar à frase final do parágrafo anterior e compreender o que norteou o jornal ao longo dos anos.

É igualmente importante enquadrar o labor na história social de S. João da Madeira. Tendo a cidade perdido os seus títulos surgidos depois do 25 de Abril de 1974, a edição jornalística traduzia-se apenas no semanário O Regional. Ressalvo que este jornal sempre demonstrou abertura democrática, só que era precisamente o jornal onde escreviam os cronistas consagrados da cidade, que já o faziam há imensos anos. Por tudo isto, este semanário tinha uma carga conservadora e até moralista. As transformações sociais da década de 1960, com a divulgação da música pop, o movimento hippie e o Maio 68, mais a revolução nacional democrática de 1974, culminando com o movimento punk, fizeram explodir, durante a década de 1980, uma nova classe, a juventude. Não a classificada oficialmente pelos Censos, mas toda uma massa humana que de forma alguma se sentia envelhecida e estava sempre disposta a divertir-se e prevaricar. Manifestando continuamente essa vontade de transgredir, em quebrar as convenções. Um exemplo, de entre outros, pode ser dado através das rádios piratas, que surgiram precisamente da década de 1980 como uma forma de liberdade de expressão, não controlada, mais vocacionada para a partilha de música e de informação. Com a mercantilização do conceito, muitas dessas rádios encerraram e os interesses dos seus colaboradores dispersaram-se.

E é por aqui que o jornal labor se vai afirmar. Não apenas pelos despojos do processo da extinta rádio pirata “Serra Mar” mas, por assegurar um projeto editorial atrevido, mais progressista, com outra informação, com capacidade de envolver quem quisesse partilhar ideias de forma desassombrada. Havia uma frase escrita num placard, ainda a redação do jornal estava na Rua da Liberdade, que era significativa: “Não nos interessa quem faz melhor, interessa-nos quem faz”. Este acolhimento perdurou no tempo e a aceitação nas páginas do labor de toda uma corrente de inquietude, de irreverência, com algumas pinceladas de subversão, fazem deste jornal um projeto eternamente jovem.

E faço votos para que o labor assim perdure nos anos futuros, não se acomodando, procurando sempre editar a modernidade que vive na cidade. É neste capítulo, de potenciar e noticiar a expressão artística dos habitantes da cidade, com edições de artigos e mesmo imagens dos mais díspares autores que o labor ficará na História de S. João da Madeira.

Não posso terminar, sem mencionar a cooperação entre a direção do jornal e os mais diversos colaboradores. Além de ser espaço laboratorial, em que cada colaborador expande a sua imaginação pela escrita, o labor tem servido para a publicação das mais diversificadas opiniões políticas, garantia da pluralidade e democracia que têm orientado este jornal.

Por tudo isto, os meus parabéns ao labor, ao seu diretor Pedro Silva, aos vários elementos da redação, aos demais colaboradores e claro, aos leitores, pois o seu interesse é que tem mantido vivo o jornal.

 

quarta-feira, janeiro 03, 2018

O apoio da comunidade

O reconhecimento, pelo jornal labor, de Ana Rodrigues, como uma das figuras do ano, reforça o mérito desportivo da atleta e enaltece todo o esforço de vários agentes desportivos, em formar a secção de Natação na Associação Desportiva Sanjoanense (ADS).

Desde Agosto do ano passado, os jornais da cidade tem publicado relatos e resultados de torneios ou campeonatos de Natação em dose dupla. Na mesma edição, a mesma prova, dois relatos. Um com os resultados da Associação Estamos Juntos (AEJ) e outro com os da ADS, incluindo neste, os resultados mais relevantes e perspetiva global da prova.

Esta situação recorde-se surgiu após o despedimento do técnico Luís Ferreira por parte da AEJ, no final da época passada, uma semana após um campeonato em que Ana Rodrigues havia conquistado 7 títulos.

É prematuro fazer um balanço da época, com apenas o primeiro terço decorrido, embora os resultados alcançados pela ADS sejam favoráveis. Contudo, existem outros fatores que importa realçar, sobretudo relacionados com o reconhecimento do clube e mesmo o comunitário.

                O envolvimento da natação na ADS teve direito a vários destaques na imprensa local, logo no início da época. O apoio do clube à novel secção traduziu-se pela presença do Presidente, Luís Vargas Cruz, no dia de apresentação e no decorrer da época foram várias as referências nas páginas oficiais do clube, ficando neste capítulo a Natação em igualdade com as secções mais antigas do clube. Durante o Campeonato Nacional decorrido no mês de Dezembro, nas Piscinas do Fluvial do Porto, segundo o relato de Fernando Moreira, publicado no jornal “O Regional” comparecerem vários conterrâneos a apoiar a atleta Ana Rodrigues, ouvindo no final de cada prova o som da sua satisfação. Além disso, o próprio Luis Vargas Cruz apresentou-se no Campeonato, deixando mais uma vez expresso o apoio do clube à secção, ao treinador e seus atletas. Se dúvidas houvesse sobre a satisfação do clube em apadrinhar a Natação, no final de Dezembro, a ADS escolheu cinco feitos desportivos alcançados pelas suas equipas, ao longo do ano e entre eles, estavam os cinco títulos conquistados, incluindo dois records nacionais alcançados no mesmo dia nos 50 metros bruços, por Ana Rodrigues.

                Se a atitude do clube em acarinhar a Natação ficou demonstrada no parágrafo anterior, não serão necessárias tantas linhas para explicar o envolvimento da comunidade com o novo projeto desportivo da ADS. Em primeiro lugar destaque para o patrocinador – Fepsa -, com a publicação constante de artigos mencionando esse mecenato. Depois a ênfase da imprensa local, em especial, após os tais títulos conquistados em Dezembro, com manchetes alusivas ao feito na primeira página. (Longe vão os tempos em que eu próprio tinha que divulgar os resultados de Ana Rodrigues por omissão na imprensa local.) Por último, na cronologia do ano editada por este jornal na edição da semana passada, não aparecem os tais sete títulos conquistados em Julho pela nadadora sanjoanense, preferindo o jornal referir os últimos, conquistados nas cores da ADS.

                A sociedade sanjoanense demonstrou a sua preferência. Há ainda muito trabalho a fazer para consolidar a natação em S. João da Madeira. A ideia de Ana Rodrigues voltar às Olimpíadas, desta vez, em Tóquio 2020, parece ser concretizável, atendendo à boa forma física da atleta. No entanto, é necessário articular, no futuro imediato, a Escola Municipal de Natação com a Natação de competição, para que despontem talentos na piscina municipal e sejam encaminhados para os clubes.

                Como estamos no início do ano, aproveito para desejar Bom Ano de 2018 a todos os leitores, informando que a minha atividade neste jornal será interrompida por um longo período. Até lá.

 

(a publicar no dia 4/1/17)

quarta-feira, dezembro 27, 2017

2017 - o ano de mudança

A eleição de Jorge Sequeira, com a vitória autárquica do Partido Socialista foi, sem sombra de dúvidas, o grande acontecimento neste concelho, no ano que por estes dias termina.

Uma alteração da cor maioritária do executivo camarário é sempre um facto a democrático a realçar. Assim foi em S. João da Madeira, em 1979, quando o PS perdeu as eleições para a extinta AD. Repetiu-se em 1984, com a vitória do CDS. Voltou a acontecer em 2001, com a vitória maioritária do PSD. E agora em 2017, quase quatro décadas depois de ter sido o partido mais votado em eleições autárquicas, o PS volta a vencer na cidade.

A vitória inesperada, pelos votos alcançados e mandatos conquistados, teve o seu fundamento na estratégia de ataque ao seu opositor. Baseando-se nas ruturas partidárias e na descontinuidade do anterior executivo camarário, o PS passou a mensagem da sua própria competência. Enquanto, do lado do PSD/CDS nem a descontinuidade, nem as desavenças com alguns militantes foram minimamente desconstruídas, nem foi esclarecido todo o processo de convites, o que implicou a desconfiança dos eleitores na lista proposta.    

Por não ser caso inédito, em que uma força partidária no poder não consegue eleger um novo candidato, é necessário analisar as especificidades dos antecedentes da eleição autárquica. Depois dumas eleições intercalares em 2016, o ano e meio que se seguiu permitiu ao novo executivo pôr em prática vários dos seus propósitos, ou promessas eleitorais. Com destaque para a inauguração do museu do calçado, a requalificação da zona central, incluindo  a demolição do elemento arquitetónico da Praça Luís Ribeiro e claro está, a promoção de eventos na cidade, por forma a fixar por cá a população nas suas horas de lazer. É evidente, neste capítulo, que a recusa de Ricardo Figueiredo em se candidatar nos moldes propostos, equilibraram os pratos da balança. Não querendo repetir os argumentos escritos em outubro, em que referi que havia mérito de Jorge Sequeira na vitória, é importante comparar estratégias para entender melhor a mudança de voto dos eleitores. Se por um lado, o PS teve uma tática eleitoral bem definida e passou bem a sua mensagem, por outro, a coligação PSD / CDS esqueceu-se de contra-atacar, mantendo-se na sua estratégia, sem verificar a desconfiança do eleitorado. E o eleitorado respondeu dessa forma: não confiando num candidato e votando maciçamente noutro.

O que esperar de 2018? Esta é a pergunta que se coloca neste momento.

Em primeiro lugar, há eleições partidárias. O PSD aparentemente só com eleições para líder nacional. O PS com eleições para a concelhia. Umas e outras dizem respeito aos seus militantes. No entanto, ambas podem desencadear processos inesperados para futuras eleições autárquicas.

O PSD pode entrar num processo novo, com a preparação imediata das eleições de 2021, como é propósito do candidato Rui Rio. Neste sentido, haverá necessidade de reabrir o dossier  autárquico e pensar num candidato a longo prazo e claro, como está bem presente o desaire eleitoral deste ano, a concelhia em funções terá que ter perspicácia para escolher um candidato com perfil vencedor.

Do lado do PS, as hipotéticas duas candidaturas para a concelhia poderão provocar um ajuste de contas inesperado, com desfecho imprevisível a longo prazo.

Tudo isto acontecerá no mês de Janeiro, depois disto e mais importante, será verificar como o novo executivo municipal põe em prática o seu plano de atividades. Existe uma grande expectativa, por parte dos parceiros associativos, entre outros, para verem agendadas as várias iniciativas, que nos últimos anos fizeram o calendário de eventos da cidade. Para já, com um orçamento para 2018 mais composto, tudo fica em aberto e com possibilidade de ser concretizado.

 

(a publicar no dia 28/12/17)

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Um fino

Uma reportagem publicada na imprensa económica, sobre uma cervejeira artesanal, sediada em Coimbra, trazia a história do nome com que habitualmente se designa o copo de cerveja, na região norte e centro de Portugal. O fino, como vulgarmente é utilizado, deve a sua origem à cidade de Coimbra. Conta-se que um cliente especial, pedia a cerveja em copo alto e fino, com o tempo adotou o singelo “copo fino” e daí até ficar apenas “fino”, foi uma pequena simplificação temporal. Esta é uma história antiga, que os mais velhos conhecem, por ter sido editada no livro “Boémia Coimbrã“ da autoria de António Nicolau da Costa. A edição faz referência aos anos quarenta do século passado e compila esta e outras histórias da cidade, com especial relevo as dos seus estudantes.

Convém recordar, que o autor era natural de S. João da Madeira e exerceu a sua atividade nesta localidade, sendo conhecido como Doutor Nicolau. O livro está registado no espólio da Biblioteca Municipal desta cidade. Para aquisição, é difícil de encontrar à venda, mesmo em alfarrabistas. O livro é um precioso documento, guardou memórias de Coimbra e o esforço do seu autor permitiu às gerações futuras ter um conhecimento mais aprofundado sobre a tradição daquela cidade. Quando pesquisei um pouco mais sobre o assunto na internet, apareceram referências à forma singular como o Doutor Nicolau transpôs a vivência Coimbrã para S. João da Madeira. À sua maneira, pelo seu modo de atuar, as histórias do nosso conterrâneo perpetuaram-se pelos anos e é um desperdício não ficarem, também elas, documentadas para memória futura. 

Fiz alusão, em texto publicado no mês passado, há necessidade de incrementar o acervo municipal com o património humano que se encontra fragmentado, dando como exemplo as coleções de fotografias que tardam em estar à disposição da população da cidade. Podemos acrescentar a compilação das histórias do Doutor Nicolau, como as famosas consultas em tascas, ou outras igualmente conhecidas. Do mesmo modo, a compilação e recolha de outras histórias de outros conterrâneos podem e devem merecer a devida atenção. Até porque isso possibilitaria entender-se melhor a história da localidade, as suas transformações e o seu desenvolvimento.

Não é só de passado que se deve encher o acervo municipal. A atividade dos agentes culturais deve igualmente ser merecedora do reconhecimento da autarquia. Numa fase imediata, a parceria poderia passar por expor algumas dessas obras nas instalações municipais, promovendo os artistas de maior nomeada, dando visibilidade aos seus trabalhos. Neste contexto, a expansão do acervo municipal, com a aquisição dos seus trabalhos mais significativos, será a consequência da divulgação e reconhecimento dos principais vultos da cultura local.

Por outro lado, pensando no futuro e na totalidade dos artistas emergentes, seria importante equacionar uma mostra anual de novos talentos criativos. Juntar num evento anual, a produção artística local, desde pintores, músicos, escritores, desenhadores, artistas de rua e também bandas, grupos de dança ou de teatro, entre outros, que não me ocorrem de momento. Promovendo exibições e atuações individuais, mas também sinergias entre as várias artes, ou estilos.

É com esta proposta, com o objetivo promover o espirito comunitário, que é chego ao fim do texto idealizado para esta edição. Por ser nos últimos dias do advento natalício, aproveito para desejar Boas Festas a todos os leitores.

 

(a publicar no dia 21/12)

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Nem governo nem Estado

Na primeira música que ouvi dos Xutos e Pontapés, corria o ano de 1985, à segunda frase cantada fiquei perplexo e maravilhado. O disco era uma coletânea de bandas nacionais dos estilos marginais da época: punk-rock, pós-punk, gótico, urbano-depressivo e outros géneros urbanos. As duas primeiras faixas estavam entregues aos Xutos: Esquadrão da Morte e 1º de Agosto. Ao vivo, cheio de energia, com ritmo intenso proveniente de uma bateria tocada de forma rápida, uma linha de baixo com presença e uma guitarra a produzir riffs intensos. O som assemelhava-se ao de uma banda britânica, os The Clash, cujo álbum “Combat Rock” tocava com frequência lá em casa. Ao paradoxo ouvido inicialmente, “Por não querer aquilo que me é dado”, seguiu-se a tal frase ”Por não querer nem governo, nem Estado”, assim mesmo, toda a crueldade anarquista explícita era cantada de forma seca pela voz do vocalista. Seguiam-se mais dois versos, repetia duas vezes. Um refrão a começar, um simplismo da escrita punk. A meio ouviam-se os coros, com interjeições, repetidas pelo público. E claro havia um solo de guitarra. Estavam-me apresentados os Xutos e Pontapés.

Leitor do jornal Blitz, desde a primeira hora, todo aquele envolvimento urbano me fascinou. Aderi à roupa preta, um sóbrio sobretudo, uma gabardine, o casaco de cabedal, as t-shirt alusivas a bandas (que ainda conservo), mais uma botas da tropa resgatadas do sótão de casa dos meus pais e passei a ser consumidor de música regular, vendo concertos ou adquirindo discos, variando entre estéticas, conforme as mencionadas no parágrafo anterior. De tal modo que de tenra idade, fui para Lisboa assistir a dois concertos, faltando às aulas, com a devida autorização parental.     

Voltando aos Xutos e Pontapés. Encontrar os discos deles, naquela época era difícil, só tinham editado um álbum (1978/82), sem muita difusão. Era difícil chegar a esse som. Tudo funcionava na base da gravação em cassetes – fita magnética com disponibilidade entre 60 a 90 minutos. Ouvir aquele som era irreverente e provocador: toda a família entendia as letras, nas quais os valores aceites pela sociedade eram criticados. Era uma música de intervenção, de combate, sem claras referências partidárias.

Entretanto, é editado o disco “Cerco”, com a introdução de um novo instrumento musical, o saxofone. As letras eram menos rudes. Apesar das dificuldades em editar o disco, por desinteresse das editoras, ainda agarradas às músicas de estreia do grupo, a assimilação do conceito pelo meio musical, é bem conseguida. Os Xutos definem-se como um grupo rock, nas aparições em programas de televisão. Os concertos em espaços urbanos sucedem-se, aproveitando a banda para produzir um novo disco ao vivo. O visual também é aligeirado, retiram-se as correntes, as roupas rasgadas como nos primórdios do movimento punk de 1977 e os músicos passam a vestir o preto integral, com o lenço vermelho ao pescoço, apenas com a única transgressão a ficar pendurada na orelha de Zé Pedro – um brinco em forma de cruz. É preciso mencionar o fenómeno das rádios piratas, então emergentes com a possibilidade de divulgar música maldita, distante dos tops de vendas, para explicar a difusão de grupos como este.

Em 1987, os Xutos e Pontapés lançam um novo disco. A sonoridade fica mais acessível ao grande público. As letras passam a ser mais domésticas. É incluída uma versão de “Minha Alegre Casinha”, uma música em voga na juventude dos nossos progenitores. A acessibilidade fomenta a divulgação. As rádios e as televisões apadrinham a Casinha. A banda consegue fazer uma digressão nacional e até surgem numa campanha publicitária a uma determinada marca de refrigerantes. A cópia da indumentária dos músicos, em especial o lenço vermelho, passa a fazer parte das vestes dos jovens, que nos concertos cruzam os braços por cima da cabeça. Gestos que se repetiram por muitos anos e por várias cidades, vilas e aldeias do país.

Talvez seja este o momento em que os Xutos e Pontapés conseguem a eternização no panorama musical português. Para muitos jovens por esse país fora, este foi o primeiro concerto a que assistiram. O primeiro contacto com uma música rock, com influências do simplismo do punk-rock, expressos em princípios musicais enérgicos e com ritmos acelerados, de refrões simples. Uma fórmula que permitiu a alguns conhecerem outras sonoridades, a outros passarem a tolerar outros sons e outros a passarem a fazer da música a sua profissão.

É com este estigma que a banda entra na sua primeira década de vida. No entanto, a sua sonoridade e imagem estavam esgotadas. Perante isto, recorrem de novo à música de combate, com letras mais intervencionistas, com enfoque na luta de classes, criticando o governo de então. Os concertos voltam a ser negros, bem puxados, com um punhado de músicas mais fortes, um cenário cuidado, em que focos vermelhos passam a rasgar a escuridão do palco. Curioso facto é, nesta fase, os êxitos radiofónicos da década anterior serem tocados constantemente, demonstrando a banda estar preparada para agradar a todos os públicos. Entretanto, os elementos do grupo passam a pertencer a outros projetos e aqui sobressaem as qualidades pessoais dos elementos dos Xutos e Pontapés, mais carismáticos. O pavilhão Atlântico em 1999 demonstrou que os Xutos e Pontapés eram a primeira super banda portuguesa. Tinham vinte anos de carreira e preparavam-se para prolongar o seu estatuto por mais anos.

Conforme escrevi em agosto deste ano, tive oportunidade de os ver ao vivo durante o verão. Pela enésima vez, é certo. Em família, sem esperar nada em concreto, além do concerto. O entusiasmo levou-me a cantar, saltar e a ficar arrepiado ao ouvir o tema “remar, remar”. Antes do final, Zé Pedro ficou no palco a interagir com o público. Atirava palhetas, umas dezenas à esquerda, ao centro e à direita. O baterista, o multifacetado e carismático Kalu, ficou ali com ele, minuto após minuto, enquanto o público pedia o segundo encore. A música foi retomada e Zé Pedro ficou na mesma, em contacto com a assistência, retribuindo toda a simpatia, com aquela pose de rocker.       

Provavelmente fiquei com a melhor das imagens de Zé Pedro: o palco, a relação de proximidade com os fãs e os gestos simpáticos.

Com ele, enquanto difusor de música na rádio, aprendi a ouvir as bandas mais novas, percebendo que a música rock, não teve décadas, nem se compartimenta em anos. E que podemos estar sempre preparados para ouvir dentro dos géneros musicais, umas alterações e novidades sonoras que nos deixam surpreendidos. Mesmo depois de passar trinta e muitos anos a ouvir rock.

 

(a publicar no dia 07/12/17)

quarta-feira, novembro 29, 2017

Aguardar pela descentralização

                As infraestruturas municipais desportivas vão conhecer melhorias.

                As últimas ações do anterior presidente da Câmara permitiram perceber que a finalização do novo campo de futebol deve estar por dias. Do mesmo modo, fui anunciado em tempo oportuno, um plano para a construção de novos courts de ténis.

Mais recentemente, o novo Presidente da Câmara demonstrou estar empenhado em dotar a cidade de uma pista de atletismo.

E claro continua nos planos da população ver uma nova piscina construída, fazendo-se cumprir as promessas eleitorais.    

Todos estes investimentos deviam ter duas análises prévias: em primeiro lugar a localização – equacionando a proximidade das novas infraestruturas desportivas às áreas habitacionais da cidade; em segundo lugar, o investimento municipal - a capacidade financeira da autarquia para assegurar os empréstimos e verificar quantos anos demoram a ser pagos.

Apesar destas duas discussões serem importantes, existe um terceiro fator que não deve ser desprezado: a ideia repetida durante estes dois últimos anos, pelo atual Governo, de descentralizar, nomeadamente a totalidade da gestão das escolas. Ou seja, pretende-se que à semelhança das escolas do ensino básico, as autarquias assumam a responsabilidade de gerir os estabelecimentos de ensino dos anos seguintes.

Essa intenção, mesmo ser ter recebido atenção na discussão do orçamento do Estado para 2018, tem sido estudada por este Governo, através do atual Ministro da Administração Interna, que ao assumir esta pasta manteve na sua alçada a reforma da descentralização.

É com expetativa que autarquias aguardam pelo desbloquear do programa, para terem uma noção das verbas indexadas à descentralização e também quais as competências que devem receber.

Atendendo ao mandato do atual Governo e à necessidade de cumprir com o programa de reformas administrativas, tudo terá que ser resolvido até 2019.

Até lá, é oportuno que os novos autarcas aguardem pelos resultados dessa descentralização. A possibilidade de passar a gerir a totalidade das escolas públicas, permitirá equacionar uma série de soluções, dentro das instalações daqueles espaços. Veja-se o potencial desportivo de S. João da Madeira: 4 escolas – 4 pavilhões, mais um court de ténis, espaços exteriores com ringue para a prática desportiva; não esquecendo o pavilhão devoluto do antigo liceu, ou antigas instalações da Escola João da Silva Correia.

Este parque desportivo, mesmo tendo que remodelar-se dois pavilhões, permitirá à autarquia, em horário pós-escolar, responder a todas as solicitações das associações e de grupos informais de cidadãos que procuram a prática desportiva nas suas horas de lazer.

A excelente localização das escolas, em contexto de proximidade ao centro e encostadas aos núcleos habitacionais permitirá equacionar-se a dotação de novas infraestruturas desportivas de que a cidade está carente, em alguns destes espaços. Existe uma grande vantagem de aproximação do desporto às escolas, precisamente a possibilidade de proporcionar aos alunos uma prática diferenciada de atividades desportivas, além de promover a captação de talentos em determinados desportos.

Criar uma pista de atletismo na escola EB 2/3, não será muito difícil. Ficaria central, próximo de alguns dos equipamentos desportivos da cidade. Do mesmo modo, construir court de ténis na escola Dr. Serafim Leite, também não será difícil.

É uma mudança de paradigma, com a valorização das instalações escolares e permitirá aplicar-se o investimento de uma forma mais racional, evitando-se expropriações, com custos desnecessários.

Quanto à piscina municipal, as considerações ficarão para futura oportunidade.

 

(a publicar no dia 30/11/17)

 

quarta-feira, novembro 22, 2017

Memórias fragmentadas

No texto publicado a semana passada, intitulado “A fachada”, por necessidade de não transgredir o espaço que gentilmente me é disponibilizado, não me alonguei em demasia com menções à evolução da povoação.

Visitar os espaços onde vivemos a infância, ajuda-nos a preservar a memória. Percorrer a casa dos pais, ou mesmo dos avós, permite manter intactas certas recordações, sobretudo quando o espaço físico permanece semelhante ao longo de anos. As memórias individuais, ou familiares, transformam-se em coletivas, quando as vivências foram partilhadas em espaço público. Tudo é mais fácil se o espaço continua semelhante. O pior é se tudo é modificado, ou destruído, não ficando vestígios desse passado.

Neste capítulo, as transmissões orais funcionaram, durante anos, como a base da memória de uma povoação. Esta tendência humana, de partilha de lembranças, teve a necessidade de ser documentada para o futuro. Primeiro, através da pintura paisagística, ou pela descrição literária, que ajudavam a documentar as recordações. Pode-se incluir neste âmbito, os documentos oficiais, caso o escriba tivesse obrigação de fazer algum enquadramento do local.

Tudo mudou com a introdução das fotografias. E da captação de imagens com movimento, os filmes. A divulgação, dos primeiros destes documentos, permitiu à imprensa desempenhar um papel preponderante na perpetuação da memória coletiva ao longo do século XX. As redes sociais, já no presente século, permitiram a partilha de fotos e vídeos pessoais, o que pode ser considerado como o lado mais positivo desta novas formas de sociabilização.

A recolha dos mais variados documentos possibilita entender-se melhor a história de cada povoação. Infelizmente, em S. João da Madeira, a maioria desses documentos e mesmo a memória coletiva, concentra-se no desenvolvimento ocorrido ao longo do último século.

Existem menções históricas em documentos medievais, anteriores à independência de Portugal. Mas, a partir daí, ao longo dos vários séculos, todo o evoluir da região de Terras de Santa Maria – do feudalismo até à criação do concelho da Feira no século XVI – permanece nebuloso. Perceber como a estrada real atravessava a paróquia de S. João da Madeira, como se desenvolvia o casario, com os seus ofícios relacionados com madeira e sapatos, são exercícios imaginativos. É certo que a partir da Monarquia liberal, portanto, no século XIX, com a agregação ao novel concelho de Oliveira de Azeméis começa a haver mais informação. Ainda assim, os vestígios que permaneceram para o século XX, foram as vastas propriedades agrícolas, entretanto fragmentadas e alguns agrupamentos de casas, em torno de alguns lugares, incluindo igrejas.

Poder-se-ia esperar um espólio mais alargado, comas fotografias e os filmes, para melhor retratar o século passado. No entanto, apesar de existirem várias fotografias e mesmo coleções, a maioria continua no foro privado. Mais concretamente, as várias imagens captadas por Carlos Costa continuam a não estar no acervo municipal. Para os mais novos (em idade ou com menos de tempo de habitação na cidade), é necessário fazer um enquadramento, pois o nome poderá não significar nada. Carlos Costa foi um fotógrafo amador que captou várias cenas do quotidiano sanjoanense, ao longo de várias décadas do século XX. A sua coleção está dispersa pelos seus herdeiros. Como representa um valor inquestionável para a comunidade local, seria de todo o interesse que a Câmara Municipal o adquirisse para o seu acervo, podendo a partir daqui desenvolver e apetrechar a tal “Casa da Memória”, por exemplo.

No mesmo sentido, existem documentos interessantes associados às casas comerciais que se dedicavam à venda de material fotográfico. Seria um desperdício para a memória coletiva, que todo esse espólio se perdesse, com o encerramento desses estabelecimentos.

Para finalizar a ideia dos exemplos fragmentados, seria igualmente interessante que os documentos, alguns seculares, da paróquia fossem cuidadosamente digitalizados e colocados ao dispor da comunidade.

A autarquia tem um papel preponderante para promover a centralização das memórias dispersas. Nos últimos anos, conseguiu abrir ao público dois museus de cariz industrial. Foi consensual, ao longo da última campanha eleitoral, as propostas para se aproveitar a singularidade nacional da indústria do lápis e associá-la ao espólio dos Encontros Internacionais de ilustração. Parece-me ser igualmente importante que o património humano da população tenha agora o seu lugar, num espaço próprio e condigno, para preservação da memória coletiva.

 

(a publicar no dia 23/11/17)

quarta-feira, novembro 15, 2017

A fachada

O modo de ser lusitano persistiu durante anos na maneira de viver dos Portugueses. Castrejos, encerrados sobre o seu povoado, assim se justifica a variedade musical do seu povo, pelas demais regiões, ou ainda pela peculiaridade da sua secular cozinha, que vai variando de tipicismo em poucas léguas.

As aldeias são o que restam dessa forma de vida. Sem plano urbanístico, com arruamentos estreitos e sinuosos, com casas a entrar pelas ruas, sem qualquer harmonia na construção. Nem é em vão que sistemas radiais permaneceram durante anos nas principais cidades portuguesas, ou que é usual existir uma Rua Direita nas mais diversas toponímias, por ser diferente das outras artérias da povoação. Outra caraterística é o horror ao vazio. Os largos, que eram pequenos, eram sempre preenchidos com qualquer elemento no centro. Isto é usual na paisagem humana Portuguesa. São comuns praças com o centro preenchido com árvores, ou pequenos lagos, ou chafarizes, além de pelourinhos, cruzeiros e as merecidas estátuas de homenagem

Tudo mudou com o terramoto de 1755. Em Lisboa, a necessidade de reconstrução, implicou a adoção de um sistema ortogonal, com ruas mais largas, paralelas e com outras a cruzar-se perpendicularmente. Sistema que vigorou na construção nas avenidas novas, anos mais tarde. A harmonia da construção foi outra caraterística adaptada.

A cidade do Porto, depois das desavenças absolutistas, já no século XIX, iniciou a sua expansão com o mesmo sistema ortogonal, abrindo-se ruas e avenidas, para norte, para o mar, dentro do mesmo princípio moderno.

Ainda assim, é visível nestas cidades, a ideia de preencher o centro das praças. Permaneceu como fator histórico do povo que somos. As grandes praças de Lisboa têm estátuas no centro. No Porto também. E no resto do país são raras as exceções de praças espaçosas.

Esta apetência arquitetónica vinca a diferenciação no Iberismo dos dois povos peninsulares. Os portugueses com as suas praças preenchidas e os espanhóis com espaços amplos. Uma exceção, curiosa, é a cidade do país vizinho, Mérida, outrora a capital romana da província Lusitânia. Ali tudo está preenchido, na praça central, parece que estamos em Portugal, o templo a Diana, mais intacto que o de Évora, está rodeado de alçados de prédios e nas principais ruínas romanas avistam-se as varandas dos prédios circundantes.

Toda esta introdução, histórica, permitirá entender-se o desenvolvimento urbano do século XX. Por um lado, a abertura de ruas e praças com amplitude e largas, por outro, a necessidade de ocupar o vazio, sobretudo, nos terreiros. Não esquecendo a harmonia arquitetónica, nos edifícios a construir, com fachadas semelhantes e idêntico número de andares.

Neste capítulo e centrando a atenção do leitor para a Praça Luís Ribeiro, pode-se verificar que a desocupação da zona central permitiu uma extensão pouco comum à nossa cultura. Ainda assim, pelo projeto divulgado na imprensa local, está programada a plantação de árvores, num anel interior, o que irá preencher mais um pouco o “miolo” da praça, retirando-lhe novamente versatilidade. Mais relevante e sem solução imediata no projeto de reabilitação urbana em curso, é o enquadramento do edifício Parque América. Com moradores, com comércio e serviços ali instalados a sua demolição não faz qualquer sentido. Contudo, uma alteração na fachada, com pintura de branco e a colocação de aros de granito, em torno dos pilares da arcada e das janelas, tornava o edifício mais encaixado. A réplica da fachada dos edifícios em meia-lua construídos à sua frente, com a simulação do avermelhado telhado à cota dos oponentes, pode ser equacionado em projeto futuro.

Apenas uma minimização do impacto visual do prédio, que poderia proporcionar-lhe uma maior ocupação, caso se converta em espaço contemporâneo de serviços, trazendo com essa uma maior dinâmica ao centro da cidade.

 

(a publicar no dia 16/11/17)

quarta-feira, novembro 08, 2017

Caras

As reportagens sobre os conterrâneos espalhados pelo mundo, leva ao esquecimento dos que vivem perto e assumem posições de relevo no quotidiano nacional.               

Na passagem de António Costa por S. João da Madeira, no pretérito mês de Setembro, surgiu uma informação que despertou interesse: “há três Secretários de Estado oriundos desta cidade”.

               Um deles despensa apresentações, Pedro Nuno Santos, político local, está em funções desde a primeira hora deste XXI Governo constitucional, exercendo as funções de Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares.

Ana Lehmann, Secretária de Estado da Indústria, teve destaque na imprensa local, logo na tomada de posse, tendo sido explicado as suas ligações à cidade e indicado o nome dos seus familiares.

Entretanto, ficou-se a saber que desde essa tomada de posse, há uma terceira Secretária de Estado, desta feita da Habitação, de seu nome Ana Pinho, que se apresenta como sendo de S. João da Madeira.

À semelhança das notícias associadas a Ana Teresa Lehmann, fiquei à espera que a imprensa local nos informasse quem era Ana Pinho.

Esperei uma semana, mais outra e nada vi escrito. Era tempo assumido da campanha eleitoral e as atenções da imprensa estavam depositadas em outros protagonistas.

É sempre bom verificar que aos nossos conterrâneos é reconhecido mérito social, profissional e político para exercerem cargos importantes no nosso país.

A curiosidade em saber-se quem é quem e se por acaso nos cruzamos no passado, na infância, ou na adolescência, ou mesmo em adulto, sobressalta-nos a memória.

Antes de avançar com os dados de Ana Pinho e a propósito de recordações da adolescência, como fui contemporâneo de Ana Teresa Lehmann na Escola Secundária Dr. Serafim Leite, recordava-me das suas capacidades académicas. Lembrava-me de anos mais tarde, a ter visto em alguns debates da televisão e de a ter reconhecido, apesar do nome de casada. Como Ana Lehmann vivia no Porto e estava a exercer atividade profissional na CCDR-N, propus o seu nome para participar no Fórum Repensar S. João da Madeira, no ano de 2012. Por dificuldades várias o seu contributo não veio a ser conseguido. Em 2013, vi o seu nome a ficar relacionado com a Assembleia Municipal do Porto e atendendo à sangria que o executivo municipal daquela cidade sofreu, durante os últimos 4 anos, cheguei a comentar com uma sua antiga colega de turma que a Ana Teresa estaria bem posicionada para ser Vereadora da Câmara Municipal do Porto, pela lista de Rui Moreira. Apesar do meu palpite, errei no prognóstico. Ainda bem.

Voltemos a Ana Pinho.

Depois da espera, passei eu próprio à pesquisa. Por isso, aproveito as próximas linhas para vestir a pele de jornalista e transmitir os dados que recolhi.

Vi as suas habilitações académicas e o currículo profissional, continuei sem saber quem era. Revi a fotografia da tomada de posse dos vários Secretários de Estado perfilados e não reconheci aquele perfil. Até que aprofundei mais um pouco. Pesquisei o nome e ao ver Ana Cláudia da Costa Pinho a memória começou a processar alguma informação. Ainda assim, só quando acedi a uma fotografia individual, é que reconheci aquele rosto. Em primeiro lugar, associei-a com uma sua irmã, que foi minha colega no secundário em pelo menos 3 anos.  Confirmando esta informação, recordei-me que a conhecia como Cláudia e que tinha jogado xadrez na AEJ, nos primeiros anos da década de 90, ou seja, na sua adolescência, tendo participado no Campeonato Nacional Feminino organizado em S. João da Madeira. Lembrei-me então que o seu pai foi proprietário de um próspero comercio de motas, situado das galerias comerciais Santo António. Julgo que o stand tinha o nome de “Big Rela”, se a memória não me falha.

O pior é se falhou e tudo o que eu escrevi, acerca da ligação da Secretária de Estado da Habitação a S. João da Madeira, não se confirmar.

 

(a publicar no dia 09/11/17)

terça-feira, outubro 31, 2017

E a Carta Educativa?

A dois meses do fim do ano, o Orçamento de Estado de 2018 (OE18) passou a ser o tema dominante da política nacional. Será certamente um ano histórico, com a possibilidade da diferença entre as despesas e as receitas do Estado ser menor a 1%, o que poderá significar que durante uns trimestres, essa diferença seja nula.

A “receita” será a mesma, controlo da despesa, com as cativações por Ministério a terem direito a indicador e controlo mensal pela Assembleia da República. Por outro lado, o investimento público continuará reduzido, não provocando alterações no crescimento do Produto Interno Bruto, antes pelo contrário.

Uma das certezas do próximo ano é que os manuais escolares para os alunos do 1º ciclo, continuarão a ser gratuitos. O sistema de reutilização desses manuais será melhorado, aperfeiçoando-se uma medida, que não é apenas simbólica, já utilizada em muitos países europeus. A incerteza que perdura, relativamente aos manuais escolares, prende-se com o alargamento da gratuitidade até ao 9º ano.

Enquanto isto não fica decidido é importante verificarmos como deve ficar o apoio autárquico ao ensino.

Durante anos, várias autarquias consagraram a oferta de manuais escolares aos alunos do 1º ciclo do ensino básico. Algumas optavam também por oferecer material escolar. Os destinatários dessa medida alteravam conforme o concelho e a sua disponibilidade financeira. Por cá, em S. João da Madeira, os mais necessitados eram os visados, recebendo apenas manuais. Houve um ano de interregno nesta política de apoio familiar, consagrando-se todas as famílias, independentemente do seu rendimento. A experiência autárquica do atual Primeiro – Ministro permitiu prever um programa nacional de oferta de manuais e atendendo às restrições orçamentais, implementou-se o tal sistema de reutilização, para alunos de anos futuros.

Com esta medida do Estado central, as autarquias ficaram órfãs da sua generosidade. Ficou patente nas últimas eleições para o poder local, em alguns programas eleitorais, a oferta de manuais escolares. Uma duplicação ou um complemento é a dúvida que subsiste. A confusão nas propostas poderia ser entre manuais escolares e livros de atividades, o que permitirá sustentar a tese de suplemento, caso o objetivo fosse a oferta destes últimos.

A questão que importa aprofundar é se é necessário tanto altruísmo para com a generalidade das famílias dos alunos do 1º ciclo.

Os indicadores educativos do concelho estão desatualizados. A Carta Educativa limitou-se a consagrar os agrupamentos escolares. Estes reportando ao Ministério de Educação estão preocupados com os rankings impostos por Lisboa. Os indicadores que demonstram a realidade educativa do concelho, como o abandono escolar, não são aprofundados, nem publicados anualmente.

Os dados nacionais recentemente divulgados demonstram duas situações. Em primeiro lugar, o tradicional abandono escolar precoce, foi diminuindo ao longo dos últimos dez anos, no entanto, em 2016 teve um pequeno aumento, fixando-se nos 14% de jovens que não completam o 9º ano. Em segundo lugar, atendendo às novas metas da escolaridade obrigatória até ao 12º ano, os números são demolidores. Pelo estudo divulgado em Setembro passado, 36% dos jovens portugueses abandonam os seus estudos no ensino secundário. Esta realidade coloca Portugal na cauda dos países desenvolvidos.

A situação de S. João da Madeira não deve diferir muito da realidade nacional. Neste sentido, caso os indicadores concelhios assim o demonstrem, é importante traçar políticas municipais de apoio aos jovens e suas famílias, para contrariar o abandono escolar.

Mais do que “chover no molhado” e estar a apoiar quem já é contemplado pela gratuitidade (sem necessidade real), importa definir novas metas no Orçamento Municipal e lançar um programa que permita aumentar a qualificação da população jovem do concelho, extrapolando apoios quer ao nível de manuais, quer de livros de atividades, ou mesmo de material escolar, adequado aos alunos do ensino secundário, seguindo o princípio nacional da reutilização, atendendo às restrições orçamentais.

Um desafio para os novos autarcas.

 

(a publicar no dia 02/11/17)