quarta-feira, outubro 18, 2017

Coincidências

Nota prévia: Os feriados de Outubro anteciparam a publicação semanal do jornal labor, nas edições das duas últimas semanas. Como habitualmente escrevo à terça-feira à noite, ou seja, depois do fecho editorial, não coincidi, por isso, no envio de artigos.

1700: A nota prévia fará mais sentido para os leitores, atendendo a que só nesta edição, passado quinze dias das eleições autárquicas, é que irei fazer um comentário sobre o assunto. A passagem deste período de tempo permite analisar de forma mais racional e menos emotiva (ver nota final), o resultado eleitoral.

A vitória do PS foi esmagadora.

A comparação de resultados tem que ser feita com os das eleições de 2016. As intercalares, portanto. Nestas circunstâncias há um dado curioso: o PS conseguiu uma melhoria de cerca de 1.700 votos, passando dos 4.400 para 6.100. Este ganho correspondeu a um decréscimo de igual valor da coligação PSD / CDS, ou seja, dos 5.200, do escrutínio das intercalares, a “maioria por S. João” desceu para 3.500 votos. Os valores apresentados não são rigorosos, não entrando na minúcia dos números, na ordem das dezenas e unidades, o que será facilmente entendível. No fundo, o que importa realçar é grandeza da movimentação dos votos e não a singularidade dos mesmos.

Convém igualmente evidenciar, antes de prosseguir com qualquer tipo de análise à alteração do sentido do voto dos eleitores, com outros dados: o aumento da abstenção em 400 eleitores, coincidindo este número com a votação do Movimento Independente “S. João da Madeira Sempre”, nas intercalares de 2016. Outra coincidência é o número de votos obtidos pelo PAN ser idêntico à perda relativa da CDU, do BE e do outro partido concorrente nas eleições do ano passado.

Não é linear que os votos tenham migrado conforme as coincidências numéricas, no entanto, esta evidência ajudaria mais facilmente a explicar os resultados das eleições autárquicas de 2017.

Existem várias explicações para a vitória do PS. Muitos procuraram atenuar o feito de Jorge Sequeira, tentando encontrar explicações nas desavenças do PSD ou na rotura de Ricardo Figueiredo com a concelhia do mesmo partido. Com o devido respeito pelos visados, julgo que a vitória é conseguida por mérito do próprio Jorge Sequeira.

Quais as razões para defender esta tese?

Reveja-se o processo eleitoral.

Em Abril, depois de meses de muita pressão da opinião pública, a concelhia do PS anunciou o seu candidato. Jorge Sequeira foi bem aceite e começou a trabalhar numa nova imagem do partido – menos populista, mais conciliador, mais próximo das associações locais. No mês de Junho ficava a saber-se que Ricardo Figueiredo não seria candidato pela coligação PSD / CDS. A menos de quatro meses das eleições, Paulo Cavaleiro, como líder da concelhia, assume a sua candidatura, arriscando o seu futuro político. O parceiro da coligação aceitou tal facto.

Em Julho são conhecidos a totalidade dos candidatos do PS. Só em Agosto é que são conhecidos os candidatos da coligação. Antes disso, o executivo municipal derruba o elemento arquitetónico da Praça (com contestação) e o jornal “O Regional” publica uma primeira sondagem, com um elevado número de indecisos, apontando para uma diferença de 10% de intenções de votos, favorecendo o candidato Paulo Cavaleiro.

Em Setembro a menos de um mês das eleições, ambas as forças partidárias apostaram forte, com a vinda de políticos nacionais a S. João da Madeira. O PS apresentou o seu secretário-geral, António Costa e ainda traria mais tarde o atual ministro da Cultura. Pelo lado da coligação, houve uma aposta clara numa ala política do PSD, com a vinda de Paulo Rangel, Rui Rio e Luís Montenegro, todos figuras de referência para a sucessão do ex-presidente do partido Passos Coelho. A balança pendeu para o lado do PS, apesar do apoio do CDS, através de João Almeida, ele próprio candidato e da presença de Pedro Mota Soares.

Entretanto, o programa eleitoral de ambos era divulgado e curiosamente, poucas, ou quase nenhumas, diferenças eram apresentadas. O PS prometia construir uma Piscina Municipal, fazendo “mea culpa” sobre o seu passado recente, o que não deixava de surpreender, ou mesmo de tranquilizar, alguns dos eleitores. Além disso corrigia alguns erros de campanha, deixando de atacar pessoalmente o adversário, passando a explorar as desavenças partidárias, surgidas na elaboração das listas eleitorais.

Chegava-se à última semana. Depois da mobilização de jantares e almoços ter evidenciado um empate de comensais, a rua haveria de clarificar a diferença. Uma arruada, impressionante para domingo à tarde, ficou na retina de quem viu passar a comitiva do PS pela Rua Oliveira Júnior em direção à Praça Luís Ribeiro. Dias depois, a arruada da coligação trazia pouca gente, não entusiasmando quem observava.

Até que surgiu o confronto direto. Numa semana, dois debates. Com poucos dias de diferença (o que não dá hipótese de corrigir algo que tivesse corrido mal no primeiro, a qualquer dos candidatos), a capacidade oratória de Jorge Sequeira sobressaiu. Tranquilo, expôs o seu programa e transmitiu uma imagem de confiança e de preparação política. Os indecisos, que seguiram o debate, devem ter retirado as suas conclusões, podendo depois ao ler as últimas entrevistas publicadas na imprensa local, ter decidido o seu voto.

A poucos dias das eleições, assistiu-se à habitual publicação de sondagens. O jornal “O Regional” publicava a sua terceira projeção, sempre com vitória para Paulo Cavaleiro, embora na última, a diferença fosse menor e indicava claramente o número de indecisos. O jornal labor, por seu lado, publicava uma sondagem apresentando empate técnico, embora com ligeira vantagem para Jorge Sequeira. Ambas as sondagens falharam claramente. 

No final do dia 1 de Outubro, já vencedor, Jorge Sequeira foi extremamente sensato nas suas declarações de vitória. Nos dias seguintes à eleição, tive oportunidade de seguir uma entrevista sua ao Porto Canal e não vi alteração nenhuma relativamente ao seu desempenho enquanto candidato.

Reduzir a vitória do PS a outras questões menores, é não reconhecer talento a quem fez melhor campanha, quem beneficiou do apoio da estrutura nacional e distrital do partido, quem controlou os ímpetos excessivos dos seus apoiantes e sobretudo, quem se preparou melhor politicamente. Penso que terá sido isto que terá motivado perto de 1700 eleitores a alterar o seu sentido de voto, dando uma maioria expressiva a Jorge Sequeira.

Nota final: essencialmente, em questões políticas, sou democrata e plural. Estou bastante longe da militância partidária. Em 2013, apoiei incondicionalmente a candidatura de Ricardo Figueiredo. Passei a ver os meus argumentos em sua defesa, expressos nas páginas deste jornal, a ser partilhados por muitos dos seus apoiantes. Em 2016, fiz parte da Comissão de Honra da sua candidatura. Por estes factos, encetei uma maior proximidade aos partidos que o apoiavam. Neste contexto, apareci, este ano, como membro da Comissão de Apoio de Paulo Cavaleiro, tendo igualmente contribuído para a elaboração do programa eleitoral. Contributo que exerci de forma desinteressada, sempre com a dedicação apropriada. Feito o esclarecimento aos leitores, não nego que no meu passado político, apoiei há vinte anos o candidato do PS, Josias Gil, por simpatia partidária. Mas, entre simpatias e relações afetivas, prefiro as últimas.

 

(a publicar no dia 19/10/17)