terça-feira, maio 16, 2006

Hobbies

Em tempos tive a oportunidade de conhecer um Espanhol de Pamplona, engenheiro e director de uma unidade de produção que tinha um hobbie curioso: percorrer os caminhos de Santiago. Segundo ele, todos os anos fazia o percurso entre a sua cidade e Compostela, conhecido como o percurso Francês. Estava organizado em grupo e percorria, em várias etapas e durante vários fins de semana, os 730 quilómetros de distância.
Nessa época, eu estava dedicado a palmilhar a Serra da Freita. Ligava, caminhando, aldeias ou testemunhos arqueológicos, com o propósito de chegar via pedestre a S. Macário. Não por qualquer devoção ao eremita, apenas por considerar o morro como o fim lógico do caminho. A meta. O final dessa cadeia montanhosa encantadora, que me seduz desde pequeno. A curiosidade desse percurso foi-me despertado em tempos remotos ao cruzar-me em plena Serra da Freita com 2 peregrinas, que em finais de Julho, deslocavam-se sob um sol abrasador para a festa em honra do dito “santo”, cumprindo assim uma promessa delas.
A minha ideia era delinear o caminho ou os vários caminhos evitando ao máximo o alcatrão. Apenas pequenos trilhos, alguns sem utilização há muitos bons anos. Com as várias etapas, apercebi-me da existência de várias alternativas o que me deixou deliciado. Confidencio que nunca percorri nenhuma das variantes na totalidade, nem terminei o levantamento das sucessivas etapas, ficando por calcorrear 2 desses percursos, entre Côvelo e Regoufe e no final entre Drave e S. Macário. O resto do percurso foi anotado num pequeno bloco, com indicações de distâncias, tempo demorado, pontos de interesse, grau de dificuldade por mim encontrado e outras considerações pessoais. Duas mudanças de casa devem-no ter colocado no fundo de algum caixote, ainda por desarmar.
Ironicamente o hobbie do Espanhol lembrava-me o filme de Luís Buñuel “Via Láctea”. No entanto, era grandioso. Existe sempre aquela admiração nacional pelo que os estrangeiros fazem. Muitas vezes esquecemo-nos dos sacrifícios dos nossos compatriotas e tentamos sempre desvalorizar o que é nosso. Atiramos desculpas para a tipologia da estrada, para o alcatrão e para a sucessão de pequenas vilas e aldeias sem interesse cultural, do nosso principal roteiro de peregrinação.
As autarquias do Norte que são atravessadas pelos Caminhos de Fátima não deslumbram a quantidade de peregrinos que percorrem o mesmo. O Centro Nacional de Cultura em tempos reconstituiu os caminhos de Fátima a partir de Lisboa e mais tarde também do Porto, o caminho do Norte que em parte é o sentido oposto ao Caminho Português de Santiago. Curiosamente, essa pesquisa faz a referência a S. João da Madeira, que é para muitos, uma das paragens desta longa marcha.
Estima-se 25 mil peregrinos nas estradas portuguesas, nos primeiros dias de Maio. Durante uma sucessão de dias, terras como esta cidade são atravessadas por caminheiros, agora de colete fluorescente vestido, com um objectivo comum. Alguns dormem em tendas montadas para o efeito, outros refugiam-se em pequenas pensões ou hospedarias de clientela duvidosa porque a oferta é reduzida ou no oposto, demasiado onerosa.
Existe um potencial de promoção da cidade que poderá valer mais do que qualquer suplemento de jornal. Faltam 345 dias para a próxima grande peregrinação, algo será feito até lá?