quarta-feira, maio 16, 2012

Londres a meio segundo

         O cronómetro é em algumas especialidades do desporto, o maior adversário dos atletas. Superar-se, conseguindo uma melhor marca pessoal, passa de objetivo a fixação. A presença em Campeonatos Europeus, Mundiais ou nas Olimpíadas é um prémio para quem se sacrifica durante dias, meses e anos, abdicando de tempos livres, para treinar, treinar, competir, voltar a treinar, treinar, sempre para ser cronometrado em futuras competições. Até que o tempo obtido fica abaixo do exigido e a possibilidade de participar nos campeonatos desejados é alcançada. 

         Uma luta contra o tempo, contra o relógio. Contando-se os segundos. O acumular destes. Procurando ser-se mais rápido que os pequenos impulsos do tempo. Ser cronometrado com rigor digital, com resultados exibindo os décimos, os centésimos e por vezes, os milésimos. Os atletas têm que vencer os submúltiplos de segundo. Pequenos gestos, micro hesitações, uma imprecisão no decorrer de uma competição, impercetível na maioria das vezes e o resultado pode ficar aquém do desejado.

Depois é treinar, treinar até à próxima competição. Melhorar a forma, evitar lesões. Convencer-se de que se é capaz e nada temer na prova seguinte.

Isto é o que vai acontecer em Debrecen.

Os Campeonatos da Europa de Natação decorrem na próxima semana em Debrecen, precisamente na Hungria e Ana Rodrigues, nadadora da AEJ, vai estar presente, tentando reduzir, à sua melhor marca deste ano, apenas 50 centésimos de segundo, para deste modo obter os mínimos para participar nos Jogos Olímpicos de Londres.

Depois da medalha de bronze nos Jogos Olímpicos para a Juventude, realizados em Singapura, em 2010, que encheu de orgulho a comunidade local, Ana Rodrigues teve na época seguinte várias apoquentações, incluindo lesões e dificuldades a nível de local e condições de treino. Ultrapassadas estas contrariedades, a presente época está a ser encarada de forma positiva pela atleta e pelo seu treinador, Luís Ferreira.

Os Campeonatos da Europa não se apresentarão como a derradeira tentativa de conseguir o passaporte para Londres mas, como a prova na qual o meio segundo que separa Ana Rodrigues de Londres deixará de existir.

Escrevo de forma positiva por acreditar.

Antecipo os elogios, do mesmo modo que em 2007, de forma percussora, antevi nas páginas deste jornal o trajeto olímpico de Ana.

Há cinco anos, percebi que os feitos desportivos desta atleta destacavam-se, por apresentarem uma consistência bem diferente dos resultados que faziam a história da natação da AEJ.

Títulos em campeonatos e ótimos resultados nacionais conseguidos por Inês Aleixo, João Bastos, André Bastos, Daniela Azevedo na década de noventa, isto é, um percurso iniciado há mais de vinte anos. No princípio do milénio um esporádico resultado conseguido por Gustavo - cujo apelido perdi - e depois este ciclo de quase nove anos…

Foram vários os protagonistas, que me abstenho de enumerar, onde se destacou a persistência de Ana Rodrigues. O evoluir de resultados – títulos em vários escalões, títulos absolutos nacionais, recordes absolutos, internacionalização – que comprovam a sua ascensão como atleta e o excelente trabalho de Luís Ferreira, como técnico.

O fechar de um ciclo?

O tempo dirá… Contudo, está na forja uma equipa de cadetes na AEJ, o que indica o iniciar de um novo ciclo, que espera-se seja tão frutuoso quanto o anterior.

 

Nota: Acompanhei durante meses as crónicas de António Sousa Homem, editadas por um jornal de Lisboa e apadrinhadas pelo atual Secretário de Estado da Cultura. Pela prosa, do último membro de uma família absolutista, segui as peripécias do século XIX da sociedade portuguesa, as suas divisões, os seus ódios e as suas tolerâncias. A semana passada deu-me preguiça e não consultei as referidas crónicas. Acedi na internet a uma página que me induziu em erro e troquei os factos históricos. A Carta Constitucional outorgada por D. Pedro IV, em 1826, procurava sanear as divergências entre políticos liberais e absolutistas. A Carta relativamente à Constituição de 1822 acrescentava poderes ao rei. Os seus defensores ficaram conhecidos como os Cartistas. Sendo liberais e apenas tolerados pela família de António Sousa Homem, não havia qualquer motivo para a minha confusão. As minhas linhas da semana passada podem ter causado algum desconforto aos leitores, conscientes dos seus conhecimentos de história, daí a retificação.

 

(a publicar no dia 17/05/12)